sexta-feira, março 20, 2015

Envelopar e enviar

"Vou escrever uma história de fantasmas agora", ela datilografou.
"Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo", datilografou mais uma vez.
Eu também datilografei.

A menina submersa, de Caitlín R. Kiernan. Vencedor do prêmio Bram Stoker.

Fiquei brigando com esse livro... seis, sete meses?

Eu desistia, voltava, desistia, voltava. Me perdia. Lia tudo de novo. Sempre achava que tinha algo ali, nas entrelinhas, nas múltiplas narrativas, nas dúvidas sobre a realidade/delírio da India Morgan Phelps, a Imp, narradora, esquizofrênica, lutando com seus demônios e aquela coisa toda.

Eu desistia do livro e voltava e começava de novo e tentava rastrear, mapear, organizar tudinho igualzinho à Imp com as sementes de mostarda.

Mas no meio desse livro tem essa ideia deliciosa sobre o ato de escrever. Escrever enquanto auto-exorcismo, assombração criptografada, envelopada e enviada. Tipo a fita VHS da Samara Seven Days.

Essa é uma característica dos fantasmas, uma característica muito importante: você tem de tomar cuidado porque assombrações são contagiosas. Assombrações são memes, em particular, transmissões de ideias perniciosas, doenças sociais contagiosas que não precisam de hospedeiro viral nem bacteriano e são transmitidas de milhares de modos diferentes. Um livro, um poema, uma canção, uma história de ninar, o suicídio da avó, a coreografia de uma dança, alguns quadros de filme, um diagnóstico de esquizofrenia, o tombo fatal de cima de um cavalo, uma fotografia desbotada ou uma história que você conta para sua filha.
Ah, no final fiquei decepcionado. Sei lá, acho que o mistério era melhor do que sua solução. Por outro lado...

Eu gostei dessa ideia. Prender fantasmas em uma pilha de páginas.

Melhor ainda.

Fazer as pazes consigo em uma pilha de páginas.

Imagine.


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