sexta-feira, março 27, 2015

Making sense

Pelas manhãs trabalho na biblioteca.

Agora, nesse momento, atrás de mim, dois estudantes. Falam em limites, valor de x, funções. Matemática.

Eu estou pensando como resumir a história da New Left pra incluí-la na minha tese.

A New Left foi um movimento de esquerda (dããr) que surgiu na Grã-Bretanha depois de 1956. Até 1956 muitos intelectuais britânicos de esquerda se reuniam em torno do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). Em 1956, eles, junto a cerca de um terço dos membros, abandonam o partido comunista, em protesto e discordância com as atrocidades cometidas pelo governo stalinista e reveladas pelo primeiro-ministro Nikita Kruchev durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Indignados, o pessoal de esquerda decidiu iniciar um novo movimento, a tal New Left.

Sobre a União Soviética, stalinismo e comunismo, o Terry Eagleton escreveu em seu livro Depois da Teoria:

"(...)uma coisa é fazer uma revolução, outra coisa é sustentá-la. Na verdade, para o mais iminente líder revolucionário do século XX, o que deu vida a algumas revoluções foi também o que, em última instância, as levou ao fracasso. Vladimir Lenin acreditava que o próprio atraso da Rússia czarista era o que havia ajudado a tornar possível a revolução bolchevista. A Rússia era uma nação pobre de instituições cívicas que garantissem a lealdade dos cidadãos para com o Estado e, assim, ajudassem a evitar a insurreição política. Seu poder era centralizado, ao invés de difuso; coercitivo, ao invés de consensual. Estava concentrado na máquina do Estado, de modo que derrubá-lo era o mesmo que se apossar, de um só golpe, da soberania. Mas foram essa pobreza e esse atraso que contribuíram para por em perigo a revolução, uma vez feita. Não se podia construir o socialismo num ermo econômico, cercado por poderes mais fortes e politicamente hostis, em meio a uma massa de trabalhadores e camponeses sem capacitação e analfabetos, carentes de tradições de organização social e autogoverno democrático. A tentativa de fazer isso requereu as medidas de força do stalinismo, que acabaram por subverter precisamente o socialismo que se estava tentando construir."
Então.

Em 1956 intelectuais se desligam do Partido Comunista da Grã-Bretanha por causa da grande decepção com a União Soviética. Muitos desses intelectuais, como Raymond Williams, são oriundos da classe trabalhadora e observam a questão das diferenças de classe e exploração da classe operária pela classe burguesa (a velha história que a gente já ouviu e conhece bem...). Mas, mais do que isso, esses intelectuais percebem que o mundo está se reconfigurando e que as disputas de poder podem se revelar em diversas outras instâncias. Talvez além da luta de classes ou talvez exatamente a mesma lógica da luta de classes levada a outras dimensões: questões raciais, questões de gênero, etc.

Mais ainda. Além de todas essas questões, um sistema econômico que dita as regras de praticamente todas as relações humanas do globo. Do macro para o micro. Das relações de soberania entre países que detém diferentes papéis de poder fundados diretamente em torno do capital até as mais inócuas relações amorosas que são pensadas em termos de "custos e benefícios" ("ah, ele/ela às vezes é desagradável, mas trabalha bastante e ganha o suficiente, então compensa e a gente continua junto").

E eu leio essas coisas e penso nas pessoas mortas por decisões políticas na URSS e nos EUA, porque no fim das contas sempre tem alguém com autoridade que vai fazer um cálculo e decidir que certos benefícios justificam sacrifícios humanos.

E atrás de mim os dois ainda estão falando sobre o valor de X.

Não acredito em uma hierarquia de conhecimentos, sabe. Não acho que tenha um conhecimento com mais valor ou mais relevância do que outro. De certa forma, acredito que está tudo conectado.

Mas confesso que, intimamente, fico meio perdido, sem ânimo, sem vontade de fazer nada, porque, quando escuto as pessoas dedicando tanto esforço pra entender as matrizes, limites e funções e quando lembro do tempo que gastei na minha vida estudando exatamente as mesmas coisas, tentando entender lógica e equações e percebo o quanto esse esforço de entender a complexa matemática parece afastar e isolar mentes de entender pessoas e outras lógicas e disputas de poder... quando penso em tudo isso eu desanimo.

Podemos construir prédios extraordinários e fazer máquinas com toneladas de peso ganharem os céus em voo, cruzando distâncias absurdas em horas. Podemos redimensionar o mundo em tempo e espaço. Mas, como humanidade, como totalidade, a maior parte de nós ainda nem tem água encanada.

No meio disso tudo, ainda encontro pessoas que tiveram contato com a miséria e violência, com a diferença brutal de concentração de renda e suas consequências, e que divulgam e endossam com convicção um texto que diz, literalmente, que o capitalismo trouxe luxo aos pobres.

Engenheiros extremamente inteligentes que contam piadas de estupro e acham isso completamente normal. Pessoas que divulgam informações mentirosas para combater a corrupção. Pessoas que não conseguem perceber as contradições entre o que acreditam e o que praticam.

O que eu tenho é essa sensação desgraçada de que tem algo muito errado, de que estou irrevogavelmente comprometido com um projeto de humanidade falido. Terry Eagleton, no mesmo livro, escreve que a esquerda tem uma coleção de derrotas em sua trajetória. Muitos outros intelectuais de esquerda concordam com ele.

Ao meu ver, o pensamento de esquerda é coletivo, inclusivo, preocupado com a humanidade como um todo. Se a maioria de nós vive na miséria, não é por falta de esforço ou por uma superioridade "natural" dos bem-sucedidos. Se a maioria de nós vive na miséria, nosso projeto enquanto humanidade não deu certo. O mundo deveria ser colaborativo e não competitivo. Essa é a utopia, a direção pra onde eu gostaria que caminhássemos.

Obviamente, não tem dado muito certo. Há esquerdistas machistas, racistas, hierarquistas e tão obtusos quanto o pessoal de direita que costumam criticar.

Nas simplificações de nosso tempo, a gente carinhosamente chama reclamações e lamentos de "mimimi". É pra diminuir, pra tornar essas reclamações e suas causas uma coisa menor, inócua, uma bobagem. "Tem miséria demais no mundo". Mimimi. Transforma-se angústias e miséria em mimimi. Bobagem. O mundo é assim.

É só trabalhar duro que tudo vai dar certo. É só ter fé em Deus.

Talvez tudo seja mesmo uma grande bobagem. Uma gigantesca, complexa, terrível e cruel bobagem.

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