sexta-feira, abril 10, 2015

Geração de Valor

EMPRESA é um conceito que gira em torno da individualidade. A única figura central e motriz da empresa é o empreendedor, o empresário, o dono, o patrão. Ele é a razão de ser da empresa. É a ambição dele, o empreendedorismo dele, a visão, a autoridade dele, que constrói a empresa. O protagonismo é do patrão.
O funcionário entra aí apenas como mais uma peça na linha de produção. Por questões pragmáticas óbvias, é melhor para o empresário que essa peça seja eficiente, barata e facilmente substituível.
Tipo, empresário não "gera empregos" para o bem da sociedade. A sociedade é que deve dispor peças para auxiliar no crescimento do empresário. Os produtos gerados pela empresa também não visam o bem da sociedade. Eles visam preencher uma demanda em troca de dinheiro. Assim, a sociedade, além de dispor peças, também consome os produtos e proporciona lucro para o empresário.
Isto é, a sociedade existe para servir a essas pessoas empreendedoras.
Esse raciocínio individualista se alastra também para a política e cultura.
Daí aparece gente que acredita que o Estado é uma empresa como qualquer outra. Só que não é. Porque enquanto o conceito motor da empresa é o indivíduo, o conceito motor do Estado é o coletivo. O Estado deve atender demandas de toda a população, e não só de uma classe específica. Muito menos deve legitimar as práticas de exploração de uma classe sobre as outras.
O Brasil é um país singular, tem características próprias e muitas tensões sociais. "Tensão social" aqui é um eufemismo gigantesco.
Ao meu ver, o problema é justamente o cerne conceitual dos argumentos: o "indivíduo" e a "coletividade".
Se a base de concepção de visão de mundo privilegia o indivíduo, como é o nosso caso, fica fácil justificar a miséria do mundo como "falta de empreendedorismo e vadiagem" dos pobres e o sucesso dos ricos como "uma conquista merecida por muito esforço e trabalho". A real é que na nossa cultura, na nossa mídia, o pobre é visto como uma criatura singular, o empreendedor de classe média como outra criatura singular. Constrói-se a ideia, ainda que ninguém admita, que há "gente de valor", e por consequência, também há "gente sem valor". E quem define o que é valor? Quem dita as regras?
E, melhor pergunta ainda, que tipo de sociedade que essa visão de mundo produz?

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