sexta-feira, maio 08, 2015

Animais empalhados

Tipo, agora tou estudando o tal do underground, os quadrinhos underground lá da década de 1960.

Em 1968, Bob Crumb e sua esposa barriguda de nove meses estavam em uma esquina de São Francisco. Tinham um carrinho de bebê e dentro dele os exemplares da Zap Comix, uma revista em quadrinhos totalmente criada por Crumb.

Na introdução da antologia Zap Comix, lançada aqui no Brasil pela Editora Conrad, Rogério Campos escreve: "Carros em chamas. Voam as pedras do calçamento. A polícia descobre, surpresa, que não pode mais avançar sobre as multidões desarmadas com tanta certeza de sair ilesa. Tempo de insurreição".

Nossa, imagina aqueles anos. A década de 1960. A música, as drogas, a revolução sexual, a literatura, o enfrentamento. Os quadrinhos.

O tal "Sistema", o tal "establisment", comprou ou esmagou a contracultura emergente. Ou você virava produto e estava ok ou você era ignorado, sufocado, pisado. De um jeito ou de outro, dava no mesmo: a neutralização da potencialidade para mudança ou para abrir pelo menos uma possibilidade de existência fora do sistema. Não é possível sair. Temos liberdade, mas é uma liberdade cheia de condições impostas.

Nossa, que loucura aqueles anos.

Daí difícil não pensar nos dias de hoje. Não sei se as coisas mudaram muito. No fim, ainda é um monte de gente com pontos de vistas diferentes tentando convencer os outros de que estão certos.

Mas o meu problema mesmo, o meu mimimi da vez, é a sensação de que falar academicamente sobre a contracultura é insuficiente. É como se a sobriedade e objetividade e racionalidade não dessem conta de falar sobre um movimento que era exatamente contra sobriedade, objetividade e racionalidade. Fica faltando algo.

É como olhar animais empalhados.

Preciso achar o que está faltando.


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