domingo, maio 31, 2015

Esse sujeito doido

Meu nome é Max.

Meu mundo é sangue e fúria.

Mentira.

Eu não me chamo Max. E, embora exista sangue e fúria sobrando por aí, reduzir meu mundo a isso é, no mínimo, uma imprecisão. Meu mundo é caos, um mundo fracionado em mundinhos justapostos, cada um em seu quadrinho. Às vezes os mundinhos se interpenetram.

Todo mundo fala da Furiosa e de como ela colocou o Max pra coadjuvante em seu próprio filme. Mais ou menos como o Coringa costuma fazer com o Batman. Não que a Furiosa seja a mesma coisa que o o Coringa. Nada disso. Na real, não é da Furiosa que eu quero falar. É do Max.

Esse sujeito doido.

Max e seu carro andando dias e dias pelo deserto, pelo nada, topando com outros farrapos humanos. Precisa pensar em conseguir água, combustível, comida. Essas são as preocupações. Fora isso, só existe a imensidão do deserto preenchida pelas lembranças moídas e remoídas. Memórias imprecisas, mas os sentimentos persistem.

E nós? Por que nós persistimos, Max?

Não temos filhos, não temos raízes. Não somos importantes pra ninguém, a não ser pra nós mesmos, talvez. Podemos ter dado uma mãozinha aqui e ali, podemos ter recebido um pouquinho de atenção, mas, na real, nós somos pouco importantes, meu querido. Só dois loucos perambulando por aí. Você no seu carro, eu na minha caixa.

Ainda dois garotos, esperando a aprovação da mamãe. Só que não somos mais garotos, não existe mais mamãe. Dois sujeitos largados por aí, no meio de tantos outros. Não há floquinhos de neve no meio do deserto, que tolice. Mas você percebeu isso bem antes do que eu, Max.

Por que nós persistimos, Max? Deitar na estrada e dormir, deixar de existir, isso parece tão lógico, tão sensato. Deixar o mundo de sangue e fúria seguir em frente sozinho. Isso vai acontecer, é inevitável. Sabemos disso. E, no entanto, persistimos. Rodando. Dirigindo. Tentando conduzir alguma coisa.

Talvez o segredo seja olhar de fora da página. Ver os quadrinhos justapostos. Os mundinhos. As ideias.

Talvez o segredo seja só continuar rodando.

Talvez, e o mais provável, é que não exista segredo nenhum. Só uma necessidade patológica por historinhas que justifiquem a porra toda, que deem um sentido pra isso, pra esse mundo interminável de areias, cores, surpresas e decepções. O mundo não é só sangue e fúria, Max. Tem muitas cidades e coisas estranhas e maravilhosas e assustadoras perdidas debaixo de nossas areias, esperando o vento descobri-las e depois recobri-las.

Lembro de um velho, um velho que era um rosto numa folha de papel colada em parede/poste de alguma cidade/lugar. "Não se preocupe", dizia o velho. Ou pelo menos era o que estava escrito debaixo do rosto impresso no papel. A gente lê um texto, sinaizinhos gráficos justapostos em um suporte, e uma voz se faz dentro de nossa cabeça.  Um pensamento.

É, há muito mais do que sangue e fúria nesse mundo, Max. Nós não somos importantes, não somos protagonistas e hoje

Hoje nós vamos continuar rodando.

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