quinta-feira, maio 28, 2015

Politicamente (in)correto

O "politicamente INcorreto" já começa errado.
As mulheres reclamam dos estupros de Game of Thrones e lá vem os protetores do "politicamente INcorreto" defender. Mas o mais engraçado é ver gente "politicamente correta" argumentando a favor da presença dos estupros. "Se for importante para a trama, tem que ficar". Curioso que quem defende isso são homens. E não se considera o público feminino, suas percepções e nem o peso do uso corriqueiro do estupro nas ficções na formação de nossa cultura.
O lance é que usar estupro em uma ficção hoje já não é mais uma decisão "estética" do autor. Colocar estupro em um produto cultural hoje é assumir uma posição política e responsabilidades sociais. Requer muito mais estudo e conhecimento de mundo do que "vou colocar uma cena de estupro pra mostrar que esse cara é mau. Hohoho".
"Pou, mas esse mundo tá cada vez mais chato!"
Tá sim. Você ainda não percebeu quanto.
Agora foram "censurar" uma sátira da série Armandinho.
Pra quem não conhece, Armandinho é um personagem de tiras em quadrinhos que circula muito pelas redes sociais. É um personagem "fofo" e que assume uma posição "politicamente correta". Em suas historinhas, ele apresenta ideias sobre solidariedade, desconstrução de preconceitos, comportamentos. Independente da avaliação da qualidade efetiva da série, Armandinho assume posições muito claras.
A sátira que começou a circular apresentava as tiras de Armandinho na íntegra, mas com o acréscimo de painéis que mostravam sua morte violenta. Assim, após dizer que achava uma menina linda porque simplesmente ela era feliz, Armandinho é esmagado por um bloco de concreto que cai dos céus. Depois de dar uma resposta "politicamente correta" pra professora em sala de aula, o chão da sala se abre e ele é tragado para as entranhas flamejantes da terra.
E a gente ri, assim como ri de Happy Tree Friends. A gente ri e depois começa a se perguntar: "pou, o que há de engraçado em bichos fofos explodindo?". Eu não sei, mas a gente ri. Eu rio.
Só que, ao contrário de Happy Tree Friends, na sátira de Armandinho a gente não está só explodindo um personagem fofo. A gente está explodindo um personagem fofo após ele defender que temos direitos iguais, que preconceito é uma coisa que não faz sentido, que precisamos repensar algumas de nossas atitudes enquanto sociedade. O menino faz esses questionamentos e logo em seguida sofre uma morte horrível promovida por uma força invisível, desconhecida e onipotente. A própria Fúria de Deus. Essa é uma leitura possível e completamente legítima da "sátira" de Armandinho.
E foi provavelmente com essa leitura que o autor da série Armandinho e possuidor dos direitos de uso da imagem do personagem acionou judicialmente a retirada da página da "sátira" do ar.
A reação de alguns leitores foi: "ABSURDO! DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO! CADÊ A LIBERDADE DE EXPRESSÃO?"
Acho muito justo definir esses leitores como defensores do "politicamente INcorreto". Eles não estão preocupados com a liberdade de expressão ou com a democracia. Na real, eles apenas odeiam o Armandinho e gostariam de continuar vendo ele morrer toda vez que fala alguma coisa politicamente correta.
Na verdade, trata-se de uma disputa entre "correto" e "incorreto". Cada um defendendo sua posição. E é preciso entender a posição do politicamente incorreto, que é mais ou menos algo assim:
"Porra, esse mundo tá cada vez mais chato! Tinha estupro na idade média, tem que ter estupro na série sim! Essas feministas são umas merdas! Não dá mais pra desenhar mulher de quatro bebendo leite num pires no chão que elas vem encher o saco dizendo que isso é machismo! E querem transformar meu super-herói favorito em um negro! Como ficam minhas lembranças de infância? Pior, querem transformar aquele super-herói num GAY! Porra, qual é? Ele sempre foi espada e comeu muitas minas, como um macho de verdade tem que fazer! Porra, e agora não dá mais pra zoar nem com o Armandinho? Mas EU TENHO O DIREITO DE ODIAR O ARMANDINHO!"
Essa é a pauta.
Olha, a conversa pode até ficar mais sofisticada que isso, podem aparecer outras ideias e argumentos que tornem tudo mais complexo, mas vou falar uma coisa pra vocês: esse lance de politicamente (in)correto é um lance de disputas. São disputas por espaço, por representações, por mudanças que vão implicar em deslocamento de privilégios. Quando você entra nessa discussão, você está assumindo uma posição. Não existe neutralidade, existe negociações entre partes com interesses bem definidos.
Eu ri da sátira do Armandinho, mas eu sei que ela tem muito mais significados, implicações e intenções do que apenas fazer rir.
Então, eu só queria dizer que você tem todo o direito de ter uma opinião, mas gostaria muito que você pensasse exatamente no que você está defendendo com essa opinião.
Só pense.


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