quarta-feira, maio 13, 2015

Sandman ainda é relevante?

No facebook, amigo postou:
Outro dia li um artigo que discutia se Firefly, de 2002, ainda seria relevante, visto a quantidade de ótima séries que saíram nos últimos anos. Fica a minha pergunta: Sandman, mesmo depois de quase 20 anos do seu fim, ainda é relevante, ou é apenas mais um quadrinho bom?
E daí o camarada me marcou no post e  perguntou diretamente a minha opinião.

E aqui está:

Olha, tudo depende de quais são os quesitos que você usa para definir o que é ou não é "relevante". Eu vou dar a minha opinião, tá?  
Pra mim, o primeiro ponto é a relevância histórica. Sandman fecha a década de 80, que teve obras que mudaram a maneira de pensar os super-heróis e ditaram os padrões para as histórias de super-heróis seguintes. Frank Miller e Allan Moore, nesse sentido "histórico" para o gênero super-herói, são muito mais relevantes do que Gaiman. POR OUTRO LADO, é bom lembrar que Sandman começou como uma história de super-heróis no universo DC. Aparecia a Liga da Justiça, o Asilo Arkham e tal. Ele combatia o Doutor Destino (John Dee, da DC) pra salvar o Mundo. Mas depois disso, vêm as histórias curtas "O Som de Suas Asas" e "Contos na Areia" e o grande arco "A Casa de Bonecas". Sandman continua acontecendo no universo DC de super-heróis, mas ele claramente deixa de ser uma história de "super-heróis". Então, essa é uma coisa bem legal pra se pensar: Sandman é o gibi mainstream norte-americano que decide deixar de ser gibi do gênero de super-heróis e se torna um gibi de fantasia e terror. Num mercado onde super-heróis são o gênero predominante, isso significa muita coisa.  
O lance do contexto histórico serve pra balizar as outras questões.  
Por, exemplo, "representatividade" é uma questão muito comentada hoje. Sandman apresenta personagens femininas, homossexuais e transexuais e essas personagens são representadas de forma não estereotipada. Morte, Rose Walker, Thessaly, Barbie, Hipolita Hall e outras são personagens mulheres antes de serem personagens com super-poderes. O cotidiano é fundamental. Vale destacar a minha personagem favorita, Wanda, a transexual de "Um Jogo de Você". Gaiman apresenta essa personagem com naturalidade e muita dignidade. Difícil não se emocionar com o destino dela nesse arco. E, finalmente, Desejo, que muda de gênero de acordo com quem a/o olha. Foi num texto sobre Desejo que vi pela primeira vez o uso dos artigos de gênero ("ele/ela", "a/o") evocando a pluralidade sexual da personagem. Nesse sentido, novamente, Sandman ganha pontinhos de "relevância".  
Uma coisa que me agrada muito é que, talvez por fugir das regras de conflito "herói-vilão", Sandman acaba sendo muito mais surpreendente. "É uma história sobre escrever histórias", já disseram antes. Nas páginas de Sandman vemos referências a folclore, literatura, música, eventos históricos. Além da pesquisa boa que Gaiman faz, ele tem uma prosa muito boa e consegue desenvolver personagens e situações com dramaticidade e humor. A história "Augustus" é sobre um dia que o imperador romano passa disfarçado como mendigo pra esconder seus pensamentos dos deuses. Gaiman usa essa história pra falar de abuso, de responsabilidades, de traumas e do peso dos segredos. É uma história boa pra caralho e essa é a média de Sandman: histórias boas pra caralho. Histórias que surpreendem, que dizem algo mais e que são muito bem escritas.

Fica mais interessante ainda pensar sobre essas histórias quando a gente lê sobre os bastidores, afinal, Sandman era só uma revista de linha e isso implicava em manter uma produção mensal constante. Às vezes um desenhista queria sair no meio do arco (Sam Kieth), às vezes outro desenhista tretava com a editora (Mike Dringenberg e Karen Berger), às vezes um arte-finalista cagava com a arte de toda a edição (George Pratt, quem diria, destruindo a arte de Colleen Doran em "Lua Má Nascente"...). E às vezes também Gaiman estava no meio de um arco e descobria que estava fazendo uma história igualzinha àquele livro de fantasia que tinha saído ano passado e ele ainda não tinha lido. E daí, com o começo do arco já publicado, você tinha que reinventar todo o final pra evitar comparações e ainda manter uma qualidade. Foi assim com "A Casa de Bonecas", cuja história original depois acabou se tornando "Um jogo de Você".

Por fim, o máximo da relevância nos dias de hoje: o sucesso de vendas. Talvez tudo isso que eu tenha escrito acima colabore para que leitores e leitoras nascidos nesse século XXI descubram Sandman e comprem aqueles encadernados caríssimos pra ler sobre personagens que parecem uma banda cover do The Cure. Sandman vende, ainda vende pra caralho. Por tudo isso, na minha opinião, Sandman é relevante sim.

Nunca assisti Firefly.
Abraço!

Pra quem quiser conferir o post e todos os comentários, aqui o link.

:-)

11 comentários:

...iris... disse...

Doente fica enchendo o saco de todo mundo enquanto nem o psiquiatra nem o neurologista conseguiram concertar o cérebro dele ainda e a produção de qualquer coisa divertida tá em pausa porque a saúde não tá rolando bem, mas o blog do liber e a produção de quadrinho nacional em blog tá rolando bem.

...iris... disse...

O Wagner quando deu História da Arte tirou o fim de semana dele pra levar aluno em museu mostrar exposição de artista nacional e falar sobre. Os museus de curitiba tem planejamento arquitetonico complexo de muitas exposições. E as bibliotecas dos museus são espaços de dar vontade de chorar quando se entra, funcionário analfabeto em arte, com pastas de documento que ninguém usa e cheia dos fliers que ninguém levou. As pastas dos museus não tem fotos e filmagens das exposições que rolaram. O trabalho do arquiteto que construiu a cor e a posição das paredes pra colocarem os quadros é produção de lixo, o museu não tem nem filmagem do que ele fez pro pesquisador que tá escrevendo sobre o artista Fulano ir lá pesquisar a exposição que criaram pra ele. E não tem aluno do Cefet indo lá fazer fotografia do museu e fornecer uns materiais que o museu tá precisando e ainda ganhar sua nota no trabalho do professor que tá ensinando a fazer isso.

...iris... disse...

O Wagner quando deu História da Arte tirou o fim de semana dele pra levar aluno em museu mostrar exposição de artista nacional e falar sobre. Os museus de curitiba tem planejamento arquitetonico complexo de muitas exposições. E as bibliotecas dos museus são espaços de dar vontade de chorar quando se entra, funcionário analfabeto em arte, com pastas de documento que ninguém usa e cheia dos fliers que ninguém levou. As pastas dos museus não tem fotos e filmagens das exposições que rolaram. O trabalho do arquiteto que construiu a cor e a posição das paredes pra colocarem os quadros é produção de lixo, o museu não tem nem filmagem do que ele fez pro pesquisador que tá escrevendo sobre o artista Fulano ir lá pesquisar a exposição que criaram pra ele. E não tem aluno do Cefet indo lá fazer fotografia do museu e fornecer uns materiais que o museu tá precisando e ainda ganhar sua nota no trabalho do professor que tá ensinando a fazer isso.

...iris... disse...

O Museu de História Natural tem animal dentro de vidro de comida porque não tem lá a empresa que tá produzindo a coleção de vidro oficial do museu de cidade. E o curso de design da UT-UFPR nem deve estar ensinando aluno processo de produção de vidro de cozinha com cara de vidro de museu e fazendo visita técnica lá nas fábricas de produzir vidro da cidade. Se rolar produção de vidro pra museu eu vou pegar meu salário de técnica judiciária em cartório criminal de quatro mil e meio e vou lá doar metade do salário pro museu que tá precisando de vidro. Mas o museu nem tem projeto de vidro oficial. O museu fica no capão da imbuia. O acervo da UFPR (eu fiz ET-UFPR) é mais legal que o do museu, e também tá tudo em pote de cozinha. Não sei como tá hoje, conheci o museu da UFPR quando tinha quinze anos e tava gazeando aula de professor ruim pra passear no politécnico.

...iris... disse...

O sistema de avaliação do professor pelo aluno deixa lá seu campo de poucos caracteres pro aluno escrever qualquer coisa no final do semestre. Precisam criar o sistema de avaliação de aula diário, onde o aluno que não curtiu a aula reclama e xinga o professor lá todo dia que teve aula ruim e rolou tempo pra produção de texto. Ninguém vai ler o sistema de avaliação de aula diário. Quando forem ler lá o sistema de avaliação do final do semestre que tem tantos caracteres e então dá pra ler o relatório de todo mundo, vai ter lá o sistema de avaliação diária mostrando os problemas da aula do professor que os alunos apedrejaram.

...iris... disse...

Essas idéias só começam a aparecer depois que você passa uns três anos quicando de setor do judiciário, o judiciário funciona pior que a UT-UFPR, tem funcionário publico mais preguiçoso e desestimulado e afim "da sua grana pra pagar conta no fim do mês" e "só isso" que uns funcionários que a UT arranja ou não consegue tirar rápido. No judiciário o problema não é só "quero meu salário e nada além disso", é "não recebi treinamento decente, to vendo se consigo fazer o que posso", o que o sujeito consegue fazer é muito ruim porque ele não faz "dedicação exclusiva". A chefe do meu primeiro cartório tava administrando "a auto escola da família que não sabe excel básico", "a direção do fórum que é da mesma ossada do juiz do cartório que deram pra ela", "o cartório que é o trabalho que está pagando a conta dela no final do mês", "a vaidade do ir trabalhar todo dia com o salto agulha quinze e ter salário pra começar a comprar no mueller", "o namorado que tava sustentando o emocional dela e não aturou e pediu demissão do relacionamento", "o estudar pro concurso de juíza", "o produzir e apresentar seu trabalhinho lá de pós graduação mestrado ou qualquer coisa assim". Teve um funcionário que entendia a situação, olhou pra ela falando sobre o trabalho do cursinho dela em horário de expediente e sugeriu "paga lá, contrata alguém pra fazer sua tese e apresenta ela se o teu problema é esse". Eu peguei vários setores de cartório estatizado ou em estatização com problema pior que esse. Chefe que não treina funcionário, foge do trabalho e preenche relatório que o juiz ou o setor lá do conselho nacional de justiça pediu sem arranjar tempo pra treinar funcionário e verificar se os funcionários com algum conhecimento da área já estão funcionando muito muito muito bem e já tem "didática" pra treinar outro.

...iris... disse...

É o IBGE que vai responder isso. A maioria do país é religiosa e fala dos semideusdes gregos como personagens de filmes, sem pensar religião. Os deuses gregos funcionam como o super man da sessão da tarde. Sandman são personagens semideuses. E os livros de figurinha não chegaram em cidade do interior. Qual foi a tiragem de exemplares de Sandman no Brasil? O livro de religião comparada do Jostein Gardner foi muito menos lido/vendido que O Mundo de Sofia. A ética do país são os dez mandamentos ainda.

...iris... disse...

Sinto lhe informar, mas não conheço o número de pessoas que mora em Curitiba. Sei que na cidade inteira existe um exemplar completo de Sandman, a casinha dele é na Gibiteca. Você não disponibilizou sua biblioteca particular gigante de gibi pros alunos do cefet usaram quando tão afim. Quando meu salário era o meio salário mínimo do estagiário de ensino médio eu lia o sandman da gibiteca quando rolava dinheiro pra pegar o ônibus e tempo pra passar o dia da gibiteca. Ou usava o site "a arca" em paralelo com o fórum "farra", que depois virou "arraf", que depois virou o site do Eudes, o rapaduraaçucarada pra ler gibi, até começar a ler gibi em espanhol baixado por torrent. A sala de gibi da biblioteca pública não tem nada interessante. Nenhuma biblioteca tem coleção complete de MAD pra fazer pesquisa, quando rolou o massacre do Charlie Hebdo eu fiquei afim de estudar o que publicaram na MAD e no Pasquin e não tem MAD na cidade. Ninguém conhece Sandman no Brasil, ninguém conhece produção de gibi além do "existe lá o Maurício de Souza pras crianças e qualquer coisa assim e conheço algum jovem que tá lendo mangá." O mundo do gibi é restrito às bibliotecas particulares. O sistema de bibliotecas que criaram porque por mais farol do saber não ia rolar (casa da leitura, acho que se chama, tem uma em frente ao solar do rosário, outra no parque são lorenço, mais umas dez espalhadas pela cidade que nem conheço) não tem sistema de consulta online (há dois anos não tinha, faz uns dois anos que não vou lá perguntar se o sistema já saiu), sabe deus se tem gibi nelas, na que fica em frente ao solar do rosário tem livro bom novo, vi lá a história completa da áfrica em dez volumes tamanho bíblia. O sistema de bibliotecas do SESC também não tem acervo online, o Paço tem gibi, deve ter gibi no SESC da esquina. Meu exemplar de "a vida de jimmy corrigan" tá no paço porque nenhuma biblioteca da cidade aceita que eu empreste meus livros pra ela por uns cinco anos e depois ela me devolva meus livros já que custaram muito e são meu patrimônio. Sei lá porque regra jurídica fazem isso de não aceitar empréstimo, se roubarem lá meia dúzia de exemplares meu não vou reclamar. Espaço físico não falta, enfia lá no barracão os que não tão em uso há tempo demais e informa pro cliente da biblioteca que o livro que ele pediu vai chegar daqui há quinze dias porque tem de ser desencaixotado do arquivo que fica no outro bairro, não no centro.

...iris... disse...

No juizado especial rola muito o choque cultural, é necessário fazer o analfabeto funcional contar sua história de caligrafia torna no formulário do "vou processar sem advogado, sem advogado causa até vinte e dois mil pode", mas a criatura precisa conseguir contar o que quer e porque quer lá no formulário pra dar entrada no processo. Existe lá no juizado a salinha dos estagiários em direito que auxiliam analfabeto a contar sua história e escrevem a história pra ele. A maioria são analfabetos funcionais de letra meio torta, só isso, se expressam muito bem mas não tão acostumados a fazer redação. Rola a vergonha do "preciso usar excelentíssimo juiz? como é que se usa isso, eu não sei escrever assim". E o chilique do "eu não quero pegar mais um ônibus e mais uma fila pra ir pro setor de estagiários de direito que vão escrever minha história pra mim" (não há estagiário de direito do juizado disponível pra auxiliar analfabeto em todos os setores em que o juizado dá entrada em processo, há os seis prédios do juizado espalhados pela cidade pra população toda ir pro prédio mais próximo de sua casa). Alfabetizado não conhece Sandman, analfabeto funcional é inteligente o suficiente pra não precisar de figurinha. A qualidade da produção nacional de quadrinho é extremamente tosca porque pensam roteiro separado de desenho, o desenho se torna inútil, não informa coisa alguma, ler o texto basta. Tem de rolar o intercâmbio "se não prestar atenção na figurinha", o texto vai fazer muito muito muito muito muito pouco sentido. A merda do Sandman publicado recentemente tem um exemplar que mostra lá o roteiro pelo Neil Gaiman e as figurinhas pelo desenhista que ele pagou, então Sandman é bem ruim, é muita ilustração pra pouco significado da ilustração. Faltou lá pro Neil Gaiman aula de Semiótica. Sabe deus onde existe a tradução da obra do Peirce, ou quais são os livros do mundo da semiótica hoje. Sei que o ensino disso no cefet é pobre, o Wagner deu umas dicas lá de onde se aprende isso. No curso de belas artes porque a arte contemporânea precisa de significado, não quer figurinha. Minhas aulas de arte do cefet foram muito ruins, não tinha lá os 60 quadros que o professor ia mostrar e falar sobre o contexto histórico de produção e simbolismo dos objetos do quadro pra época. Aí tem que ir pra biblioteca pública procurar livro que explica quadro por quadro de forma meio tosca e com pouco texto porque na biblioteca do cefet não tem isso.

...iris... disse...

Nesse contexto a aluna que quer aula teórica descente começa a ficar doida. Só pedem produção produção produção, tem lá o prazo pra entregar produção e a aula teórica é de chorar. Quando arranja o emprego do salário legal onde vai faltar tempo pra aprender essas coisas que o curso deveria dar e sozinha na biblioteca não rola mais ir porque não tem espaço em agenda pra isso, nem curte mais pegar o canudo do curso imbecil, tá lendo coisa mais útil no tempo livre e não quer voltar. O ianino deu a estrutura de produção com as fotos da minifábrica de produzir papel, em câmera lenta. Não deu o mapa das fábricas de papel no brasil, o mapa das plantações de árvore pra papel no brasil, o impacto ambiental da produção de papel no brasil. A estrutura básica de como são as plataformas de petróleo, onde estão, qual quantidade estão produzindo, quais são os derivados do petróleo usados pra fazer as embalagens da pasta que a Tania montou indo pra drupa (o designer vai fazer lá o rótulo serigrafado do iogurte e as coisas impressas em plástico e papel com plástico). Nem falou lá sobre a alternativa do plástico oxibiodegradável de sacolinha de mercado pra imperssão. A aula do ianino foi a miniempresa de produzir papel com o material que ela comprou de algum lugar. Plástico e designer gráfico não existe pro ianino. Tecido e design gráfico não existe pro Ianino. E a aula se chama "introdução aos materiais". Não tem a lista de materiais completa nem o estado da economia do brasil na produção desses materiais, nem o impacto ambiental desses materiais. E a Tamiris Cequinel Belli parece ser a única da turma que leu O Capital no Ensino Médio e tem colhão pra fazer pergunta sobre economia e design, os adolescentes do curso querem fazer desenho, só isso. E não são informados sobre economia e impacto ambiental do sair por aí fazendo desenho pra qualquer um.

...iris... disse...

E a biblioteca que tem O Capital completo é a da UFPR, cuja tamiris aluna da ET-UFPR no ensino médio pode emprestar livro, sabe deus se escola pública da esquina de casa tem coisa do gênero. Não tem gibi pra população ler.