segunda-feira, junho 29, 2015

Mais empatia

Eu sou branco, hetero e homem. O meu primeiro contato com feministas se deu em um grupo de estudos dentro da universidade anos atrás. Elas me espinafraram. E eu mereci.
Foi assim: a conversa era sobre tarefas domésticas, que sempre eram feitas pelas mulheres dentro da estrutura tradicional da família. As mulheres faziam a comida, as mulheres lavavam a louça. Daí, o Liberzinho aqui levantou a mão pra "contribuir" e falou: "eu moro sozinho e lavo minha própria louça" e a resposta delas "ah, mas se você morasse com uma mulher, ela é que ia lavar?" (a escrita não corresponde à entonação de bronca da voz). E seguiram outros comentários e a única coisa que eu conseguia pensar era "mas não foi isso que eu disse, tou sendo acusado de ser machista e eu não sou" e lógico que fiquei boladinho porque eu tava levando bronca por uma coisa que eu não tinha dito.
Só que daí eu comecei a pensar melhor no que tinha acontecido. Ao invés de tentar me justificar, comecei a pensar "peraí, porque elas tavam tão brabas com o que eu disse?". E comecei a entender que o que eu falei corroborava sim uma cultura machista. Porque quando eu morava em casa, quem lavava a louça era minha mãe. Minha irmã, desde criança, sempre questionou isso. Por que só mulher lava a louça? Ah, e eu, homem, vou e falo: eu moro sozinho e lavo a louça e dentro daquele contexto, sim, eu podia perfeitamente ser entendido como "se eu tivesse uma mulher, ela lavaria minha louça". Essa era a percepção das feministas. E elas estavam certas. Não que eu ia por a "minha" mulher pra lavar louça, mas eu nunca mais, depois daquela bronca, me senti em paz pra deixar uma amiga ou mãe ou irmã sozinha pra lavar a louça.
Aquela bronca doeu e mudou a minha percepção.
E aquela bronca não foi a única que eu levei. Já levei VÁRIAS broncas que me mostraram que eu era machista, que eu era homofóbico. E cada uma delas me fez repensar minha atitude. Porque EU, o homem machista e homofóbico, aceitei ser questionado, aceitei escutar. E ainda vou levar muitas broncas, porque eu sou fruto de uma cultura que desumaniza mulheres, negros e gays e coloca o homem branco hetero como centro do universo. E é assim, véi. Eu ainda falo muita merda e não percebo. E tem as minas que me dão os toques.
E dói, velho. Dói perceber que a gente tá errado. Mas depois a gente aprende a abrir mão do ego, da vaidade e entender que tamos todos no mesmo barco. A gente aprende a ouvir a pessoa que tá nos criticando e entender porque ela tá criticando. A gente aprende a pensar sobre o que estamos dizendo e o que estamos defendendo.
Daí esses tempos circulou um vídeo de um cara que me parece ser gente boa e bem razoável, falando sobre o efeito mola, dizendo que era compreensível a expansão das minorias que sempre tinham sido "comprimidas", que o opressor muitas vezes não sabia que era opressor, que o garoto branco não tem desenvolvida uma carapaça pra aguentar agressões como o garoto negro, que por isso o garoto branco sofre bastante e que é preciso ter empatia para com esses garotos brancos racistas e tratá-los com mais gentileza. No vídeo, o sujeito apresenta bons argumentos, é articulado e me pareceu bem convincente.
MAS, daí, fiquei pensando...
É um vídeo em que um homem branco e hetero pede para as pessoas terem empatia pelos homens brancos e heteros quando eles cometem atos racistas, machistas e homofóbicos. Caralho, velho, porque esse homem, ao invés de se dirigir às pessoas e pedir empatia para os homens brancos que falam merda, não fez um vídeo pedindo para os homens entenderem que quando levam bronca, é porque estão falando merda?
Por que esse homem branco hetero não se dirigiu aos seus vários seguidores e sugeriu "tenham vocês, brancos heteros, empatia pela pessoa que está te espinafrando, porque ela está fazendo isso porque você provavelmente está sendo escroto"?
Gente escrota, tipo os caras do MRG. Pra que eu vou querer exercer empatia com um imbecil que fala publicamente em tom debochado que mulher amamentando "não sai do meu sonar"?
E o mais engraçado é que aparecem pessoas pra defender esse filho de um cancro sifilítico. "Veja bem, é só a opinião dele, nem é pra tanto". Velho, esse cretino tá errado. E eu não tou dando uma surra nele e deixando ele pelado amarrado num poste. Eu tou chamando ele de cretino porque ele é um cretino. Porque ele sabe que fala merda, tem orgulho de falar merda, se acha um floquinho de neve especial por falar merda. Não importa o quão didático você seja, ele não vai te ouvir porque ele é homem e tem toda uma cultura que diz que ele sempre está certo.
Pra que tentar criar empatia com as mulheres, né?
Daí eu fiz aquele post dizendo que feminazi não existia e que os homens deviam ouvir as mulheres.
VÉI... apareceu um monte de gente empenhada em PROVAR que existe feminazi. Em provar que tem "gente podre" no feminismo. E diziam "não tou querendo deslegitimar as feministas, mas tem muita feminista que é podre". Véi... de boas véi, vai toma no cu.
Porque os putos vem pedir empatia e são incapazes, INCAPAZES, de exercer essa mesma empatia. De levar uma bronca e pensar "pou, será que eu tou errado"? É lógico que não. Homem branco hetero nunca tá errado. Homem branco hetero é gente boa, não é machista, não é homofóbico, os outros é que não entendem ele.
Então, mano, entenda, quando tu vem falar de "discurso de ódio" contra os homens, entenda que ninguém tá fazendo discurso de ódio. Essas mulheres, negros e gays estão manifestando uma indignação legítima. Ninguém está fazendo com esses homens nem metade do que eles fazem (e são coniventes com os que fazem).
Irmão, por favor, não leva a mal, mas quando tu chega pra essas pessoas, essas mulheres que ouvem piadinhas de estupro nas rodas dos amigos do namorado, essas mulheres que não pode****m andar uma quadra sem ter um homem completamente estranho tentando assediar ela porque a enxerga como um objeto sexual, essas mulheres que não podem amamentar em público pra não constranger os jovens do MRG... quanto tu chega pra essas mulheres e vem falar pra elas terem "empatia", tu não tá ainda em sintonia com o rolê, irmão.
Ser homem, hetero, branco não é errado. Errado é distorcer o conceito de empatia. Errado é querer equiparar a violência exercida contra os oprimidos às ofensas e críticas severas feitas contra os opressores. Mandar o bostinha machista à merda e ferir os "sentimentos" dele não é a mesma coisa que apedrejar uma menina que sai do culto do candomblé.
Então, por favor, não peça empatia por esses caras. Véi, de boas, você não tem noção de como isso soa mal.

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(Originalmente, todo esse texto foi escrito em um comentário de facebook em resposta a um amigo. Considerando que escrever esse palavrório me tomou um tempo considerável, pensei em copiar, colar e editar como um post público. A resposta das pessoas me surpreendeu um bocado. Diversos compartilhamentos e curtidas e tals. Mas o mais interessante é que pelo teor dos comentários a atitude de ouvir uma mulher (ou negro ou gay ou qualquer outra minoria) e realmente refletir sobre o que ela nos diz e sobre o que nós fazemos e pensamos... essa atitude parece ser realmente revolucionária.)

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