sexta-feira, dezembro 16, 2005

Senhoras e senhores

A corrida acabou.

Pedimos que dirijam-se aos guiches
e façam suas apostas

porque o novo páreo

vai começar.

domingo, dezembro 11, 2005

Guerra civil


É contra mim que luto
Não tenho outro inimigo
O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança em meu braço
Absurda aliança
De criança
E de adulto
O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou
Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino
Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino

(poema de Miguel Torga)


Aprendendo com as corridas

Encontrei um buque de flores jogado na rua hoje. Muito parecido com o que eu dei para ela ontem. Só que tinha uma flor a menos.
O que me vem à cabeça é um conto do Bukowski, sobre corrida de cavalos. A idéia era levar os alunos, durante as aulas do curso de literatura, para apostarem. Com o tempo, eles teriam uma idéia bem clara do que significa vencer e, acima de tudo, perder.
Acho que o amor tem muita coisa tem a ver com corrida de cavalos. Uma aposta. E você só descobre que apostou no cavalo errado quando a corrida acaba. Eu perdi muitas vezes. Tempo, alegria, disposição, carinho.

Ele me perguntou: “Qual é o lance entre vocês dois?”
Bem...
“Você tá saindo com ela?”
Eu tento... mas ela é meio ocupada...
“Quando foi a última vez que vocês se viram?”
Ela foi almoçar lá em casa... um mês atrás, mais ou menos.
“E rolou?”
Bom...
“Vocês treparam?”
(...) Não.
“Vocês ficaram?”
Ah, ficamos deitados na cama trocando carinho...
“Hm.”

Mas o fato é que não ficamos. Eu tentei, mas ela não quis. Não comentei com o meu amigo porque aquela conversa já tinha me deixado muito pra baixo. Ela não sai comigo. Eu telefono e ficamos horas conversando, mas ela não me liga. A única coisa que posso dizer é que gosto dela. Muito.

A questão é saber quando a corrida acaba.

Um brinde à verdade.

Esta é uma história verdadeira.

Adriane Lebowski era uma garota como qualquer outra: jovem, única, apaixonante e inexplicável. Ela sabia aproveitar ao máximo os prazeres da vida. No seu caso específico isso significava a bebida, o sexo, as artes e a música.

Especialmente a música.

Já tinha ouvido de tudo, mas tinha predileção acentuada pelo chamado rock progressivo. Yes, Gênesis, Pink Floyd e congêneres representavam para ela o supra-sumo musical do século 20.
Então, numa madrugada dessas, Adriane estava em um fim de festa. Muita fumaça, garrafas, álcool e suor. Boa parte do pessoal já tinha ido embora, e os que ficaram estavam desmaiados pelo apartamento. Ela ronronava quentinha sobre seu adormecido namorado da vez, quando ouviu a música. Algo estranho e indefinível, totalmente inédito, meio progressivo. Melódico, porém simples. Aparentemente muito antigo e, paradoxalmente, contemporâneo. E, de certo modo, familiar. O vocal era etéreo e profundo, o instrumental era característico dos anos 70, mas com algo diferente. Curiosa, ela perguntou ao amigo dono da fita qual era a banda. Ele não soube responder. A banda não tinha nome e não tinha origem. A fita, sem identificação alguma, tinha sido encontrada no bagageiro de um trem, na Patagônia, um ano atrás.

Adriane emprestou a fita de seu amigo e esqueceu de devolver. Ela ouviu a gravação durante dias, inúmeras vezes, cada vez mais fascinada. Mostrou a amigos que eram verdadeiros experts em músicas alternativas e obscuras (o tipo de gente estranha que você não acreditaria que existe). Nenhum deles jamais ouvira algo parecido e não faziam a menor idéia de quem poderia ter gravado as nove canções. Alguns afirmaram que o idioma cantado era familiar, mas não era inglês ou alemão ou qualquer outra língua que conhecessem.

Ela se tornou obcecada. Nomes, produtores, datas. Adriane precisava dessas informações e a única coisa que tinha era a fita. Foi até uma rádio especializada em rock e mostrou a gravação. Ninguém soube identificar, mas convidaram a moça para participar de um programa muito popular. Ela foi ao ar naquela noite e tocou algumas faixas da fita ao vivo. Depois perguntou se algum dos ouvintes saberia identificar a banda. Os poucos telefonemas deram respostas erradas e diversas. Tudo totalmente inútil.

Três dias depois, após as aulas, ela esperava o ônibus de sempre no ponto de sempre. Vinda de uma janela, em um sobrado logo em frente ao ponto, a música a surpreendeu e a fez estremecer. Uma das músicas da fita. Ela tocou a campainha uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Então ela arrombou e entrou. Ignorou a mobília, os livros, a desordem, enquanto subia os degraus ruidosos de madeira. Uma atmosfera antiga, de sonho. Logo encontrou o quarto. Posters, livros, revistas e um cadáver ainda quente sobre a cama. O corpo quase tirou a atenção de Adriane do toca-discos e a capa de papelão ao seu lado. Uma capa sem nenhuma impressão sequer, além dos desgastes de anos de manuseio.

Mas ali, girando e girando, estava o disco com as músicas da fita. No centro do disco havia um rótulo amarelado e muito desgastado. E no rótulo, havia algo escrito. Nervosa, ela ergueu a agulha e a música silenciou de repente. Um silêncio sólido que pulsava em suas têmporas. Tomou o disco, trêmula, e leu em um adesivo amarelado:

“Não nos procure. Quando estiver pronta, nós encontraremos você.”

Un fantasma

¿Que es un fantasma?
Un evento terrible
Condenado a repetirse
Una y otra vez
Un instante de dolor
Quizá
Algo muerto
Por momentos vivo aún
Un sentimiento
Suspendido en el tiempo
Una fotografía borrosa
Un insecto atrapado en ámbar
Un fantasma
Eso soy yo

(do Filme El Espinazo del Diablo, de Guillermo del Toro)