segunda-feira, dezembro 31, 2012

Adeus, ano velho

Chega o fim de ano e acho saudável olhar pra trás e ver por onde se andou.

Não aquelas retrospectivas televisivas com um amontoado de fatos, mas uma revisão pessoal e silenciosa, do tipo que se faz na última manhã do ano.

Para mim, 2012 não foi um ano especialmente bom, mas ficou bem longe de ser um ano ruim.

Os dias passaram, os trabalhos cotidianos, um e outro modesto projeto pessoal realizado, vida emocional tranquila, conclusão de relacionamentos, algumas viagens. Tudo bem calmo, devagar.

Algo como uma longa pausa, para pensar para onde vou a partir daqui. 

Nada foi planejado. O meu 2012 não começou precisamente em 1 de janeiro. Pensando bem, talvez ele tenha começado mais tarde, lá por fevereiro, março. E realmente terminou lá pelo final de novembro. As coisas simplesmente aconteceram e depois de meses de tranquilidade, de estagnação, o vento começou a soprar.

Teve alguns episódios simples que desencadearam tudo: uma viagem a Buenos Aires, a apresentação de trabalhos de alunos da pós-graduação de quadrinhos, a leitura de um texto, a leitura de um livro. As coisas foram se somando e de repente eu estava em movimento de novo. Nem percebi.

Assim, é estranho, mas meu 2013 começou mesmo há pouco mais de um mês atrás. 

Nós planejamos, fazemos listas, desejamos mudanças, mas sabemos que a mágica não acontece na troca de calendário, mas no fundo da cabeça de cada um, de uma maneira mais incompressível e em um ritmo muito pessoal.

Eu desejo um feliz 2013, pleno em todos os sentidos, cheio de intensidade, cor e, principalmente, movimento, para todas e todos nós.

E... obrigado por tudo, 2012.

Bora lá, fazer as coisas acontecerem.

terça-feira, dezembro 25, 2012

Feliz Natal

"Algumas pessoas nascem Papai Noel,
algumas trabalham toda a vida para
se tornarem Papai Noel
e outras têm o Papai Noel 
lançado sobre elas".
Fracasso de Público vol 2 - Desencontro de Titãs


Essa série Fracasso de Público conta a história de um grupo de amigos e seus encontros e desencontros. É gente comum que reclama do trabalho, sente solidão, sonha com um futuro melhor, essas coisas. Particularmente, eu não gosto dos desenhos, mas os diálogos e a história escrita por Alex Robinson são excelentes. Vale a pena conhecer.

Aliás, a série apresenta uma das melhores histórias em quadrinhos sobre o Natal que já vi.

Porque o Natal dá muito pano pra manga, né? Dá pra falar mil coisas sobre ele: o consumismo, as obrigações familiares, a alegria das crianças, o caos, felicidade, decepção e uma pontada de tristeza. Vai um monte de coisas na receita do Natal.

E essa história, O Natal de Jane & Stephen, é deliciosamente bem escrita e um bocado comovente.

Stephen tem um "relacionamento sério" com Jane, e como ele mesmo narra: "Uma das coisas de um relacionamento longo é o que fazer com o Natal e o Reveillon. Visitar os seus pais? Visitar os pais dela? Convidar todos pra sua casa?"

Stephen vai contando sobre o Natal em que visita a família de sua namorada. Comenta de maneira muito bacana sobre a família, as crianças e a crença no Papai Noel. "Por que mentir para uma criança?" ele se pergunta. Acaba que o sogro lhe passa o manto de Papai Noel. Diz que está velho demais e não vai poder vestir a fantasia. E o relutante Stephen põe a roupa vermelha e distribui os presentes.

Trata-se de uma história muito simples, mas as considerações que Stephen faz, os pequenos detalhes, como a sua cunhada que está iniciando um processo de divórcio e está escondendo isso da filha pequena, fazem da trama algo único e sincero.

Lembro que li essa história uns dois anos atrás e ela me marcou muito. E estávamos longe do Natal.

Aconteceu que logo depois eu fui Papai Noel pras minhas sobrinhas. Cheguei pra ceia, minha irmã me puxou pra um canto e me comunicou que eu me vestiria de Bom Velhinho e distribuiria os presentes. Não precisou me convencer, eu sou o tipo que adora fazer esse tipo de coisa.

E foi muito bacana. A carinha das crianças. Os olhos delas.

E esse ano repeti a dose. Lá fui eu de novo, suando dentro da fantasia, fazendo "hohoho" e distribuindo presentes. É muito legal.

Mas também tem outras coisas. Tem algo mais que  Natal de Jane & Stephen apresentam e que eu comecei a sentir. Algo sobre gerações, sobre sentir o tempo passar. Olhar pras crianças, lembrar dos bons natais que passei, quando eu mesmo era criança. Perceber que vamos mudando, vamos nos transformando, e a família vai mudando.

Não tem mais ceia de Natal gostosa na casa da Vó. Não tem mais tanto contato com os primos, que viajaram pra longe e constituíram família. Namorada que estava comigo num Natal, agora não está mais.

A pessoa que eu era em outros Natais, já não sou mais.

Não é difícil de explicar. Eu simplesmente me dei conta de que faço parte de um círculo maior. Que o tempo vai passando e eu e minha família vamos mudando. As crianças brincam com a bateria que dei e amanhã estarão se formando, namorando, preparando o Natal para seus próprios filhos e filhas. Sinto uma espécie de vertigem ao pensar nisso, mas é uma sensação boa.

Acho curioso quando as pessoas reclamam do Natal, da obrigação em se reunir com família e tal. Pra mim, essa é a data em que eu melhor consigo enxergar as mudanças. O tempo passando. Os fantasmas de Dickens.

Hoje eu estou aqui e estou feliz por isso.

Feliz Natal pra você.

domingo, dezembro 16, 2012

Um guia turístico para o país dos Tipos


Lá pelo final da década de 1990, não tinha muito material sobre tipografia disponível em português. Nessa época, eu era aluno do curso de Design Gráfico da UFPR (que era chamado Desenho Industrial – Habilitação em Programação Visual).

O fato é que a gente sabia que tipografia era um lance importante. Vivíamos uma década em que as tecnologias digitais transformavam para sempre os processos de produção. David Carson barbarizava na desconstrução e promovia o que alguns chamavam de “câmara dos horrores da tipografia”. A gente não entendia direito o que estava acontecendo, acho que ninguém entendia, mas sabíamos que era algo bem significativo.

Tínhamos uma disciplina de tipografia, mas eu sentia que faltava uma base bibliográfica, um texto que me servisse de apoio para compreender melhor o lance das letrinhas. Um mapa ou um guia turístico para explicar os caminhos do país dos tipos.

Eu me formei no final de 2001 e quando aqueles aviões acertaram as Torres Gêmeas estava lutando pra terminar as ilustrações pro meu TCC. Naquela correria, nem percebi que o professor Fontoura tinha lançado um livro sobre tipografia.

Uns dois anos depois eu comecei a lecionar aulas para o curso de Design Gráfico do Cefet-PR, que mais tarde viraria UTFPR. Tipografia fazia parte do conteúdo e nas pesquisas para elaborar as aulas acabei ouvindo falar do Vade-mécum de Tipografia. Infelizmente, o livro tinha esgotado e eu não consegui cópias nem com o próprio Fontoura.

Esse livro acabou ganhando status de lenda urbana para mim. Sempre ouvia falar dele, sempre tinha um amigo que conhecia alguém que tinha o tal livro, mas nunca consegui por os olhos em um exemplar. 

Os anos foram passando e acabaram sendo publicados no Brasil diversos livros sobre tipografia. Trabalhos muito bons feitos por autores nacionais e traduções de obras imprescindíveis, como o Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst. Além da própria internet, que proporcionava acesso à informação através de sites especializados e listas de discussão.

Enfim, eu nem mais lecionava tipografia, mas mantinha um interesse saudável pelo assunto, quando soube que esse ano o Vade-mécum de Tipografia estava de volta em uma nova edição. Finalmente poderia conferir o tal livro.



A primeira e triste constatação é que se ele tivesse caído em minhas mãos anos atrás, teria sido muito útil.

Escrita por um professor (e atualizado por outro, o Naotake Fukushima, nessa segunda edição), o forte da obra está justamente na sua estrutura didática. Ela se divide em 15 capítulos, cada um tratando de um tema da tipografia de maneira concisa.

Era o tipo de “guia turístico” que eu queria ter quando aluno e um ótimo apoio para elaborar as aulas quando professor.

O texto leve e objetivo consegue concentrar uma imensa quantidade de informações nas 92 páginas do livro. Vale destacar que por seu formato e papel, a edição parece até ter menos páginas. É realmente o tal “vade-mécum”: o livro “vai comigo”, leve e prático para ser levado a qualquer parte.

Ao lê-lo, tive diversos momentos de nostalgia. Dos dias de aluno, dos dias de professor e também daqueles anos entre 1990 e 2000. A música do Nirvana deu o tom à década que mostrou a consolidação da internet, a velocidade e as transformações que as ferramentas digitais proporcionaram à prática, ensino e pensar do design gráfico.

David Carson, Neville Brody, Scott Makela, Barry Deck e tantas outras pessoas. Tipógrafos e suas fontes (Dead History, Template Gothic e outras), que ajudaram a construir a face de um década. Citações, trabalhos, amostras das fontes e um pouquinho de suas histórias espalham-se pelas páginas do Vade-mécum. Isso constrói o aspecto vivo, orgânico e empolgante do livro.

Mas há também o lado racional, métrico, preciso, apresentado nos capítulos que falam sobre as famosas unidades de medidas paicas e Cíceros com seus pontos e toda a complexa nomenclatura que define as fontes em suas hastes, olhos, ascendentes, ganchos e travas.

Complexa é a diversidade das práticas e entendimentos da tipografia, que compreendem desde o desenho das fontes à composição de uma página, à escolha e aplicação do tipo mais adequado ou mais expressivo ao trabalho que se propõe a fazer.

De fato, a tipografia há tempos é assunto que não interessa mais apenas aos designers. Difundida por toda a parte, ela é de interesse para qualquer um que trabalhe com comunicação e queira compreender melhor os detalhes desta disciplina.

Atualmente há diversos livros sobre o assunto, mas o Vade-mécum de Tipografia é um ótimo primeiro passo, uma leitura rápida que será ainda revisitada para consultas pontuais. Um bom guia para começar a caminhar por esse fascinante país de caracteres e símbolos. 

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Deixa pra lá


Existe sabedoria nas palavras do doutor Jones Sênior.
A gente precisa saber quando "deixar pra lá".

quarta-feira, novembro 14, 2012

Pequenas heranças

Fico pensando sobre as pequenas heranças que as pessoas nos deixam.

Um jeito de fazer o pão na chapa pro café da manhã, uma marca de comida congelada, uma expressão engraçada de falar, uma história.

Essas pessoas vêm e, um dia, vão embora.

Mas sempre deixam um presente que carregamos conosco, que torna-se tão parte de nós quanto elas foram um dia.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Sobre Halloweens, Sacis, escrotização e desenhos

Essa história foi bem estranha pra mim.

Eu sinceramente não me importo muito com essa questão do Dia do Saci versus Halloween, acho uma brincadeira legal e uma boa provocação em cima de quem consome tudo que aparece na mídia sem se questionar se tem a ver com sua cultura ou não.

O pessoal do Dia do Saci tem certa razão ao falar sobre a falta de sentido de um feriado como o Halloween dentro da cultura brasileira. Porém, se seguirmos esse raciocínio, o personagem-símbolo da maior festa de consumo de todas, o Papai Noel, também não tem nada a ver com nosso povo, nossa cultura e, principalmente, nosso clima (já me vesti de Papai Noel e é quente DEMAIS aquela fantasia,  sô!).

A questão é que nós assimilamos. Vamos incorporando, vamos nos apropriando, adaptando à nossa realidade esses produtos que vem lá dos EUA: zumbis, Vingadores, Batmans, Harrys Potters e coisas afins. A gente vê, a gente gosta, a gente se apropria.

Por apropriação entenda gostar sinceramente de uma história, personagem ou festa e passar a usá-la. Não há nada de mau nisso, certo? Agora veja: tudo que a gente gosta e incorpora no nosso dia-a-dia, muda um pouco nossa pessoa.  Mas nós também mudamos as coisas que gostamos e usamos.  Personalizamos com adesivos, damos novos significados, escrevemos novas histórias, coisas assim. Isso é praticamente inevitável.

Enfim, uns anos atrás eu fiz um desenho. Eu me considero um ilustrador, sabe? Não sou um profissional,  mas sou um ilustrador. Gosto muito de desenhar e fiz o tal Saci só por diversão. E isso já faz uns cinco ou seis anos.  Ele não foi feito pensando em divulgar o Dia do Saci. Foi feito porque eu tive vontade de desenhar um personagem imaginário sentado,  sozinho,  fumando tranquilo, debaixo de lua. A vontade de fazer esse desenho já existia e quando a Amanda me procurou pedindo pra ajudá-la com ilustras num TCC, eu fiz o que queria fazer e ajudei também uma amiga.

Daí a imagem foi pro meu blog, meu deviantart...

É quando eu perco a trilha do Saci. Foi aí, em algum momento, que alguém gostou e guardou a imagem pra si. E daí fez a aplicação do texto, divulgando dia do saci, e passou adiante. Eu gostei de ver o desenho divulgado. Mas tiveram algumas coisas que me deixaram chateado.

Por exemplo, as escrotizações. Tipo essa:



(Tem muita coisa que eu poderia dizer a esse idiota. Vou ficar só na questão da rede social. Sim, a rede social é gringa, tem predomínio da língua inglesa - por enquanto. Assim como era o Orkut, antes da "invasão dos brasileiros". Não tem a ver com "patriotismo". Tem a ver com o fato do nosso idioma e de nossa cultura serem diferentes. Brasileiros são mais agressivos, xingam, são mais intolerantes. Não se trata de generalizar, a maioria dos brasileiros que usam essas redes são bem sossegados. Mas, por exemplo, no caso do Lanterna Verde Alan Scott ser redefinido como um homossexual, foram brasileiros que reagiram de maneira mais agressiva, segundo o autor James Robinson. Brasileiros podem ser bem truculentos e virulentos, como bem mostra o texto refinado da "escrotização" da minha imagem).

Daí vem as outras coisas que me deixaram chateado.

Veja bem, a apropriação é algo inevitável. Mas não é legal ver que pegaram seu trabalho e colocaram junto de um texto qualquer e nem te perguntaram se podiam ou não ou o que você pensava do texto. Pegar um desenho sem pedir para o desenhista é muito deselegante. Sim, é inevitável hoje, com o "compartilhamento", mas é uma grosseria com o autor.

No caso da imagem que apresento nesse post, tenho a impressão de que usaram minha arte pra limpar a bunda. E, acredite em mim, não é legal ver uma produção sua sendo usada desse jeito.

Por fim, ter seu desenho utilizado em produtos que são vendidos, como um jornal por exemplo, e não receber um centavo pelo trabalho, não só é muito chato como também é ilegal. A palavra certa é roubo. Podem existir mil desculpas, mas nada justifica a apropriação de uma ilustração para ser empregada profissionalmente e com intenções de comercialização. Se você achou o desenho na internet e não sabe a procedência da ilustração,  não use. Usar sem a autorização do ilustrador é roubo. Como eu disse, eu não tenho pretensões profissionais como ilustrador, mas não pretendo ser explorado. Certo?

Enfim, a falha que eu cometi foi não ter colocado uma etiquetinha de identificação na imagem do Saci. Hoje eu faço isso, mas na época não fiz. Ainda assim, a primeira pessoa que pegou essa imagem, provavelmente pegou do meu blog ou do meu deviantart. O erro maior é dessa pessoa. Ela me roubou. Pegou um trabalho que eu produzi e usou. Ela não precisava me pagar, mas podia ter pelo menos pedido.

E esse texto todo aqui no blog é o que eu posso fazer pra externar minha insatisfação. Gostaria de que as pessoas tivessem consciência de que, mesmo nessa época de "compartilhar cultura", um pouco de gentileza e respeito pelos autores seria de bom tom.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Exposição na Gibicon

Aconteceram diversas exposições maneiríssimas durante essa Gibicon e uma delas foi Tesouros da Gibiteca, que reúne trabalhos de diversos ilustradores, artistas e quadrinhistas que passaram pelos cursos da Gibiteca ao longo de seus trinta anos de existência. 

E entre essas pessoas legais, este que vos escreve. :-)

Fiquei muito feliz pelo convite e cheio de vontade de fazer ilustras bacanas. O problema, pra variar, foi a falta de tempo. No fim, fiz um "remix" de algumas ilustrações favoritas. 

E aqui estão elas:

 


Uma curiosidade: não foram todas selecionadas pela curadoria da exposição, que excluiu duas das propostas acima e acrescentou outra que eu não esperava. 

Se quiser descobrir qual é a ilustra "inesperada", você pode visitar a exposição Tesouros da Gibiteca. Ela ficará no Museu da Fotografia, lá no Solar do Barão, até o dia 11 de novembro. ;-)

Valeu!

Você viu esse Saci?



Fiz esse desenho já tem uns anos. Lembro que eu tava esboçando a ideia e acabei cedendo a ilustração e fazendo mais algumas pra Amanda usar no trabalho de conclusão de curso.

E daí  agora, olha quem aparece solto e pirilampo pelo facebook:


Eu só fui ver essa mensagem do Dia do Saci após os 14 mil compartilhamentos. Que surpresa!

É muito legal ver a imagem sendo utilizada pra divulgar uma ideia bacana, recebendo compartilhamentos e curtidas.

No começo fiquei um pouco chateado porque não tinham creditado minha autoria, mas entrei em contato com algumas das pessoas que divulgaram a imagem e elas prontamente corrigiram isso. Conversando a gente se entende.

Também acho que os textos podiam ter sido melhor aplicados, uma tipografia mais adequada... chatices de designer. Mas fiquei feliz. Bom ver um trabalho meu circulando por aí.

Enfim, Feliz dia do Saci.

:-)

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Atualização: olha só, agora vi que o Saci ilustrou também matéria de jornal lá em Chapecó:


Até que ele anda bastante, pra quem só tem uma perna. Heheh!

domingo, outubro 28, 2012

in dreams I walk...

Com certa frequência, ao longo de toda minha vida adulta, tive esse sonho.

Caminho pela cidade à noite, procurando pela minha casa.

Não há mais ônibus, não há táxis, não há pessoa alguma nas ruas.

Caminho procurando pela minha casa e todas as ruas, prédios, postes e suas luzes amareladas são diferentes mas ao mesmo tempo desconhecidos e, por isso, iguais.

Sinto familiaridade ao redor, sinto que estou na direção certa, mas sempre termino em becos sem saída, portões fechados, muros intransponíveis e tenho que voltar e tentar outro caminho.

A calçada sob meus pés, as fachadas com janelas sem luz e a solidão da caminhada interminável.

E, com tudo isso, a certeza de que, não importa quanto tempo leve, um dia voltarei pra casa.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Dia do Professor


"Srta. Wormwood: Como alguns leitores adivinharam, a srta. Wormwood foi batizada com o nome do demônio aprendiz em The Srewtape Letters, de C. S. Lewis. Eu tenho muita simpatia pela srta. Wormwood. Nós vemos sugestões de que ela está esperando para se aposentar, que ela fuma demais, e que ela toma muitos remédios. Eu acho que ela acredita seriamente no valor da educação, portanto nem é preciso dizer, ela é uma pessoa infeliz"
Bill Waterson em Os Dez Anos de Calvin e Haroldo - Volume 1.


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Eu sou professor e adoro o que eu faço. Dou aula para o curso de graduação em Design.

Sou muito feliz porque leciono e estudo sobre desenhos, narrativas, ilustração, cores. Coisas que realmente me alegram.

E também sou muito feliz porque foi na sala de aula que conheci muitas das pessoas mais bacanas da minha vida. Talvez esse seja o aspecto da vida de professor que eu mais gosto: conhecer pessoas. Ver a galerinha chegar e partir, mas ainda manter contato com alguns e vê-los constituir família, viajar pra terras distantes, fazerem coisas significantes. Acho que essa é a parte que mais me gratifica. Participar um pouquinho dessas vidas extraordinárias.

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Por outro lado, tem as coisas que me irritam.

A lógica de que a escola ou universidade é um somente um preparatório para o "mercado de trabalho", por exemplo. Aprender uma profissão é importante, mas essa lógica reduz tudo ao mero adestramento de pessoas. "Queremos estagiários que saibam 3DMax, InDesign, Photoshop, Linguagem Java e sapateado". E só. Mais nada. Não precisa pensar, questionar, alíás, é melhor que não faça isso.

Mas a escola é mais do que um centro de adestramento para o mundo corporativo. É o lugar onde você conhece outras pessoas, faz amigos, vai em festas e tem contato com conhecimentos e ideias  que, se não são úteis para o mercado de trabalho, podem te fazer pensar a realidade de modo diferente e te permitem levar sua vida e a da sociedade para um caminho mais justo e menos mesquinho. Um mundo mais cooperativo, talvez.

Também me irritam as reportagens que mostram professores em condições de penúria, em salas de aula que nem teto tem. E essas reportagens sempre dão a entender que educação não precisa de recursos financeiros, só do amor do professor pela sua profissão. Sim, gostar de ser professor é fundamental, mas  criar a ideia de que você não precisa nem de um teto pra dar aula é fortalecer a crença de que educação não precisa de investimento, só de "amor". Isso me irrita.

Educação é um direito de todo cidadão do País e obrigação do Governo.

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E os professores, quem são? Não essa figura estereotipada que se idealiza na data comemorativa, de jaleco branco, óculos e régua na mão. Professores são pessoas. E como pessoas, não são sujeitos a generalizações.

Os perfis de professores são diversos. A grande maioria dos que conheço, meus colegas, tem paixão pelo que faz, cumpre suas funções com gosto e vão bem além do que se espera. Chegam a bancar do próprio bolso quando precisam de um material pra aula que o orçamento não cobre. Dá gosto conversar com eles, a gente cresce bastante.

Mas há alguns, poucos é verdade, mas há, que são levianos, enroladores, medíocres e me irritam mais do que as coisas que listei acima.

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Acho que ser professor, assim como qualquer outra profissão, tem seus momentos de deleite e de irritação. Mas eu não trocaria essa profissão por nada na vida.

Faça aquilo que te faz se sentir realizado e seja feliz.

Minhas saudações a todos os meus colegas. Obrigado por tudo.

E vamos em frente.

segunda-feira, outubro 08, 2012

Uma capa não aproveitada

Vou transformar a Modelo Vivo em um gibizinho pra lançar na Gibicon.

Daí esse fim de semana fiquei montando os arquivos e tentando pensar em uma capa. Foi bem divertido.

A ideia era brincar com fotografia, pra criar esse vínculo com realidade e pra evocar uma sensação de veracidade à conversa mostrada. Fiz uma série de experiências com fotos e desenhos pra gerar algumas opções, até que cheguei a dois resultados finais. Um deles foi escolhido para a capa.

O outro, meu vice-finalista, é esse aqui:


A Gibicon acontece entre 25 e 28 de outubro aqui em Curitiba.

Modelo Vivo terá uma tiragem bem modesta. Se você curtiu o trabalho e me encontrar lá na Gibicon, eu te descolo um exemplar.

;-)

Desenho



Numa manhã de domingo.

terça-feira, outubro 02, 2012

O Chamado do Monstro

Ando meio cansado da literatura adulta, sabe.

Meio cansado dos discursos brilhantes de autores brilhantes que parecem só repetir incessantemente que a vida adulta é uma sucessão de decepções. Sim, ela é. Eles tem razão. Mas preciso dar um tempo com eles.

Daí peguei esse livro infanto-juvenil.



O Chamado do Monstro era uma ideia da escritora irlandesa Siobhan Dowd, mas ela faleceu antes de completar o trabalho, deixando apenas uma série de anotações.

Daí entra o escritor Patrick Ness. Convidado a dar continuidade ao trabalho de Siobhan,  no começo o cara hesitou. Mas a ideia foi conquistando sua cabeça: Quando me dei conta, as criações de Siobhan já estavam me inspirando. Comecei então a sentir aquela comichão que todo escritor busca: a de colocar as palavras no papel, a de contar uma história.

O livro contta a história do menino Conor. Ele tem uns 12 anos de idade e está passando por um momento pedreira da vida: sua mãe tem câncer e as coisas não vão bem. Soma-se a isso o fato de que o pai, há uns cinco anos, apaixonou-se por outra mulher e saiu de casa para constituir outra família. E ainda há o terrível, inenarrável pesadelo que atormenta seguidamente suas noites.

Mas as coisas vão melhorar porque um Monstro surge na sua vida. De repente, a gigantesca árvore lá de cima do morro contorce-se, ganha vida e passa a perseguir Conor.

Podemos pensar que é tudo imaginação do menino. Um amigo imaginário para ajudá-lo no momento difícil.

As palavras do Monstro, porém, não são palavras de um garoto. Ele parece muito mais sábio, muito mais velho do que Conor. Parece saber muito mais coisas do que um garoto de 12 anos. Parece ter uma paciência secular.

E assim vai se desenvolvendo o livro, uma coisa digna dos bons e velhos filmes da Disney, como Mary Poppins. Aliás, como Mary Poppins seria se tivesse morte, um desespero crônico e punhos ensanguentados.

As ilustrações de Jim Kay que acompanham a trama também são dignas de nota: sombrias, sujas e vigorosas como a criatura que apresentam.



Eu precisava ler alguma coisa assim como esse O Chamado do Monstro, pra refrescar a cabeça.

Agora posso voltar para a literatura adulta.

Ou não, né?

:-)

terça-feira, setembro 11, 2012

Desencantando...

Foi assim, tava desenhando no sketchbook e me veio a imagem na cabeça.

Desenhei e tal e fiquei satisfeito.


Mas daí comecei a pensar: "puxa, eu podia colorir e colocar no blog, né?"

É. Podia.

E lá fui eu. Duas semanas me enrolando, começando e não terminando.

Sem saber que cores por, sem saber se precisava de cores.

Tentei aquarela, mas não ficou bom. Daí tentei aquarela de novo e ainda não curti.

Daí fui pro computador. Fui fazer uma arte toda detalhada e bem definida. Cheguei na metade. Não curti.

Voltei pra aquarela.

Não deu certo de novo.

E eu tinha vontade de desenhar outras coisas, mas ficava essa vozinha na minha cabeça: "puxa, mas você nunca termina nada, hein?". Daí lembrei do "Manifesto Tá Feito!". Boa hora pra colocar em prática, né?

E fiz. Escaneei parte das aquarelas, pintei outra parte no computador e terminei de uma vez. O grande problema é esse "perfeccionismo", essa ânsia por um impossível resultado perfeito.

Pra mim, o que deve ser a principal motivação é o prazer do ato do desenho em si. O resultado final não deveria ser mais importante para o desenhista do que o processo. Aquele velho papo zen, "não é o destino que importa, mas a viagem".

E aí está. É o novo cabeçalho do blog. Por enquanto.

Agora, partir pra desenhar outras coisas...


quinta-feira, setembro 06, 2012

Tolerância



Exerça sua liberdade. Escancare suas crenças. Transforme em voz, cor e ação tudo aquilo que te faz humano. E veja o que acontece.

O que acontece é que as pessoas vão reagir. Algumas vão te apoiar, outras vão te condenar, muitas vão simplesmente te ignorar.

Mas ninguém pode te impedir de ser quem você quiser ser. Ninguém vai conseguir mudar quem você é nem no que você acredita. E você nunca vai conseguir mudar ninguém...

Parte-se da premissa aparentemente unânime que somos todos iguais e temos os mesmos direitos. 

Se essa for uma verdade universal, então todos podemos constituir família, ter um emprego, passear pelas ruas, frequentar igrejas e restaurantes.

E se alguém se incomodar com quem você é, com as escolhas que você fez para sua vida, essa pessoa fará sussurros, comentários maldosos, elaborará mil argumentos para desacreditar você, para tirar seu direito de estar ali. 

Vão te provocar, ridicularizar e atacar. Vão te ofender e depois dizer que você não entendeu direito. Vão usar perfis falsos e um ar maduro e superior.

Porque estão incomodados. Porque estão sem saída.

Porque jamais poderão te encarar nos olhos e dizer diretamente que você não tem os mesmos direitos. 

Porque no fundo sabem que somos todos iguais. Nós temos os mesmos direitos. Todos e todas nós. 

Essa é nossa condição. Somos iguais. Somos vizinhos. Frequentamos as mesmas ruas, mercados e restaurantes.

Gostem ou não.

sábado, setembro 01, 2012

Você viu esse dinossauro?


Veja o que é a internet.

Eu vi essa imagem do dinossauro no facebook e ela mexeu um bocado comigo. E, pelo que vi, não foi só comigo.

Não lembro quando eu vi, mas era muito criança. Talvez tenha sido em uma sala de espera de dentista ou algo assim. Não lembro do lugar.

Lembro de ter ficado olhando pro quadro muito tempo. Os carros, o dinossauro, as cores, a luz.

Daí os anos passaram e eu nunca mais pensei nisso.

Até que vi ela de novo no face e fiquei intrigado. Fui pesquisar e descobri o nome do ilustrador, Giuseppe Reichmuth, um pintor suíço. O quadro chama-se Dinosaurier auf der Autobahn e foi pintado em 1980. Não tem imagens dele de boa qualidade disponíveis na rede.

Olhar pra imagem é estranho, porque parece que ela serve como porta pra uma realidade que nem consigo acreditar que foi a minha um dia. O mundo era maior, as coisas pareciam impressionantes, misteriosas. Tenho a impressão que, em algum momento da minha vida, fiquei horas olhando pra essa ilustração. Não lembro dos detalhes do mundo ao redor, do momento, lembro só de olhar pra imagem.

Repare como há os carros, a avenida, as torres da usina nuclear ao fundo. Um dos carros acabou de capotar. Os outros parecem parados. Não há nenhum ser humano à vista. E o dinossauro gigantesco pisa na avenida.

Sem a presença humana, sem um adulto por perto, o impossível acontecia.

O santo Google me ajudou a descobrir quem era o autor e o nome da imagem.

Mas muito do mistério ainda ficou. Fico feliz com isso. :-)

******


(Depois fui achar uma imagem um pouco melhor e percebi a vaca no morro e o rosto do motorista do caminhão verde. Ainda assim, é legal pensar que há algo extraordinário que acontece quando as pessoas não estão por perto, como objetos que ganham vida em salas vazias...)

quarta-feira, agosto 22, 2012

Na estrada

Não consigo dormir em ônibus.

E era uma daquelas viagens longas, de oito horas de duração. Durante o dia, levo livros e vou lendo.

Mas à noite, meus companheiros ultimamente tem sido os podcasts. 

Era madrugada, o ônibus seguia o embalo silencioso, as pessoas dormindo na escuridão à minha volta, e eu ouvindo a galera do Jovem Nerd falando sobre a sonda Curiosity em Marte. Sobre a vastidão do Universo, a escuridão entre as estrelas...

Daí o Guilherme Briggs fez uma leitura do texto "Pálido Ponto Azul" do Carl Sagan. E o texto é esse aqui:


E eu no embalo do ônibus, nas sombras, no silêncio, vendo essas estrelas pela janela, ouvindo essas ideias, pensando na vida. Na minha preciosa vidinha.

As garotas que gostei e que nunca mais vi, as garotas que gostei e vi novamente pra descobrir que já não gostava mais, o medo de ficar sem dinheiro, o medo de não ter emprego, a vontade de fazer alguma coisa em vida que fosse digna de atenção, a vaidade, as lembranças de infância, os meus pais, as crianças que correm lá em casa hoje, as risadas, as tristezas.

Tudo é uma questão de escala e todas essas coisinhas tão pequenas, completamente perdidas no Pálido Ponto Azul, fazem um universo, meu universo, um universinho de nada, que um dia vai se perder para sempre como todos os outros universinhos por aí.

Sei lá o que passa pela cabeça da gente nessas horas de escuridão e silêncio. Uma sensação de estar vivo e saber que não se estará aqui para sempre. Um misto de tristeza, medo e alegria e uma vontade danada de aproveitar cada segundo antes que tudo se acabe.

E, sob as estrelas, o ônibus continuou pela madrugada.

domingo, agosto 12, 2012

Um pouco sobre amor







Revi ontem Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (Big Fish) de Tim Burton.

Fiquei surpreso porque o filme é bem melhor do que eu lembrava (e melhor do que as coisas que vi o Tim Burton fazendo ultimamente).

E eu me dei conta também de que é Dia dos Pais. Peixe Grande é um filme bem bacana pra assistir no Dia dos Pais. Porque, se prestar atenção, você vai perceber que existem amores grandes demais pra serem verbalizados, para serem contidos numa data festiva ou pra serem mensurados.

A vida passa inteirinha e pode ser que você nunca consiga verbalizar pra certas pessoas o quanto elas são fundamentais, sejam nossos pais, filhos ou nossos companheiros e companheiras mais queridos. Mas, muito provavelmente você não precisa verbalizar. As pessoas sabem. Elas sempre sabem.

O amor talvez seja muito parecido com o que o Peixe Grande faz: um olhar que deixa o mundo mais bonito com um toque de fantasia que poucos podem (ou se permitem) enxergar.

O amor pode estar só dentro das nossas cabeças, só dentro dos nossos corações, só em nossos olhos, mas é o suficiente pra tornar a vida extraordinária.

O amor pode ser menos percebido sob a severidade de uma "racional" e obstinada falta de fé, mas continua lá.

O amor é coisa que nos acompanha por uma vida.

Quando eu era pequeno meu pai me acordava cedo pra ir pra escola. Ele me acordava com um carinho, passava sua mão por minha cabeça, sussurrava "vamos acordar" com suavidade. O tipo de detalhe que fica pra trás, mas a gente nunca esquece.

Feliz dia dos pais.


quarta-feira, agosto 01, 2012

Sobre máscaras e Batman



As pessoas não são passivas. Não leem apenas. Não assistem apenas. Elas se apropriam. Elas veem uma história e de repente se enxergam nela e a tomam para si. Vestem a história como se fosse uma máscara. Ou a descartam e jogam fora...

Máscaras são um tema recorrente no mundo dos super-heróis, mas não consigo pensar em algum filme que tenha abordado a questão da máscara de forma tão bacana quanto essa trilogia do Batman.

Desde o primeiro filme, quando se fala em "se tornar uma lenda", em "criar uma persona", fica muito claro que colocar uma máscara significa tornar-se algo que você não é. Algo possivelmente maior do que você, porque, por causa da máscara, cria-se a ideia de que qualquer um poderia estar ali, qualquer um poderia fazer a proeza.

Isso pode instilar o terror, mas também pode servir para inspirar as pessoas. Essa é a ideia por trás do Batman de Christopher Nolan: inspirar pessoas, tirá-las da apatia.

Assim, o primeiro filme é criação da máscara. No segundo, a máscara acaba realmente inspirando outras pessoas. Mas cada um apropria-se da máscara como quer e os ideais originais se perdem. São os "batmen" de calças de hóquei, é o Coringa e sua maquiagem. Batman inspira e acaba servindo de gatilho pra uma série de usos equivocados da máscara. E a boa intenção acaba causando mais mal do que bem.

A verdade é que a máscara, o símbolo, tem poder, mas não é a melhor solução para os problemas do Mundo. Ou para os próprios problemas de cada um.

A máscara, para Bruce Wayne, é também um modo de lidar com sua tragédia pessoal, com a perda de seus pais. Não é só a intenção de inspirar e ajudar que motivam Bruce a colocar a fantasia, mas é também um desejo desesperado de tentar corrigir o passado, a sensação equivocada de que as coisas ruins que aconteceram foram culpa sua e com as atitudes de hoje tentar expiar os sofrimentos de ontem.

O que, obviamente, não funciona.

Batman é uma máscara mas também é uma fantasia infantil triste,  a tentativa de tentar mudar algo que não tem volta. Os pais morreram. A namorada querida morreu. E, se ela não tivesse morrido, não teria ficado com Bruce, mas com o promotor queridinho da cidade.

E o terceiro filme é sobre isso. Sobre crescer, sobre seguir em frente. E pra crescer não é necessário apenas deixar a fantasia de lado, mas aceitar que certos infortúnios, por piores que sejam, não tem solução. Mas esses infortúnios não precisam determinar as nossas ações presentes e futuras, eles não precisam determinar quem somos.

Não estamos sozinhos e temos responsabilidades para com nossos próximos. Sejam eles nossos vizinhos de cidade ou as pessoas que realmente nos amam. E somos responsáveis principalmente por nossas próprias vidas. Que possamos conceder a nós mesmos a mesma importância que damos aos que estão ao nosso redor. Que as máscaras fiquem para trás.

Cada um toma as histórias para si como quer e as veste como bem entende.

Esse terceiro e último filme da série tem diversas leituras possíveis, mas foi assim que eu decidi vesti-lo: que as coisas ruins fiquem pra trás, que a responsabilidade e a culpa não me esmaguem e que eu possa conceder a mim mesmo um pouco da compreensão, confiança e carinho que dou às pessoas mais importantes da minha vida.

Batman rises.

:-)

quarta-feira, julho 18, 2012

Aquarela




Fim de semana passado fui lá pra Ilhabela, no litoral de São Paulo, pra mergulhar de cabeça num curso de aquarela.

O mestre Gonzalo Cárcamo proporcionou três dias de "intensivão". Ele nos hospedou em sua casa e passou umas lições bem bacanas.


Cárcamo foi muito atencioso. Além de explicar tudo e dar exemplos práticos, ele fazia questão de frisar que o que estávamos fazendo eram exercícios. Aqui começou a primeira lição pra mim: praticar pelo exercício em si, sem se preocupar com o resultado final.

Eu ficava querendo produzir boas imagens e isso atrapalhava os exercícios. Ao invés de me soltar e errar e aprender com os erros, eu ficava tenso, me segurando, tentando fazer tudo certinho...  Demora um bocado até relaxar e deixar a aquarela "acontecer".

Aliás, essa é uma das características da aquarela: a espontaneidade. É possível fazer aquarelas bem realistas, mas o bacana da técnica são justamente as manchas, os acidentes que mais insinuam a imagem do que a mostram claramente. Pra quem é obcecado com precisão na reprodução de um modelo, adaptar-se a essa linguagem mais solta pode ser bem complicado. Pelo menos, está sendo pra mim...

As imagens que apresento aqui foram estudos e mostram um bocado a minha dificuldade com a aquarela.

No primeiro dia, fizemos exercícios monocromáticos. A ideia era perceber os valores tonais, claro e escuro, das imagens. Um dos princípios básicos da aquarela é planejar a imagem. Devido à sua transparência característica, convém começar a pintar os tons mais claros e ir escurecendo a imagem gradativamente.

O primeiro exercício foi copiar uma aquarela pronta, usando apenas a cor sépia.




O segundo exercício já foi direto ao ar livre. Escolhemos um detalhe ao redor e o reproduzimos em monocromia.



O problema nesse segundo foi tentar definir demais as folhas da árvore. A ideia era insinuar tudo com manchas.

Aliás, uma das coisas bacanas que aprendi com o Cárcamo foi adaptar plaquinhas de acrílico a tripés de câmeras para criar um tipo mais leve e prático de cavalete. Muito legal!



No dia seguinte fomos pra praia pintar ao ar livre. Dia de sol, praia, tudo me enganou direitinho. Fui de bermuda e camiseta e o vento frio me judiou... Mas na foto ficou bacana. Cortesia da Pontoal. :-)


A fotografia mostra a gente trabalhando. Aqui está a imagem que pintei. Agora usando cores.


A gente pintava, se batia, e o Cárcamo aparecia do lado todo gentil, dava umas dicas e, no meu caso, umas pinceladas que ajudavam o resultado final a melhorar consideravelmente. Na imagem acima, ele apontou a importância do contraste e reforçou a sombra do barco contra a areia. Ele também deu um trato nas folhas do coqueiro. Assim, as manchas exploram o potencial da aquarela e sugerem a forma das folhas. E fica muito bonito, na minha opinião.

Terceiro dia choveu e a gente não pode ir muito longe. Ficamos nos arredores da casa e comecei a pintar um detalhe de arquitetura. Mas não consegui terminar.


Tirei uma foto e fui fazer hoje outra aquarela, finalizando (ou quase...).



Quem sabe um dia eu pego o jeito?

Quanto ao Cárcamo, o trabalho do sujeito é fenomenal. Dá uma olhada:



Além das pinturas em aquarela, Cárcamo também atua como ilustrador, sendo responsável por charges, caricaturas e diversos livros ilustrados. Coisa fína. Bater papo com ele foi extraordinariamente enriquecedor.

Tem que ficar de olho pra ver quando abre a próxima turma. Eu com certeza vou participar.

Pra acompanhar o Cárcamo, você pode seguir o blog ou o site dele.

segunda-feira, julho 09, 2012

Fazendo Modelo-Vivo

Modelo vivo...


Algumas coisas começam assim: a gente deitado na cama, olhando pro teto, pensando na vida.

Hoje em dia, ficar deitado na cama à toa é praticamente uma afronta moral. Mas algumas coisas começam assim. Você tá lá de bobeira, pensando, relembrando e daí de repente começa a fantasiar, imaginar conversas, imaginar pessoas.

Pelo menos é assim comigo.

Tem os casos em que as palavras começam a vir e daí é bom ter um caderninho à mão pra anotar. Nunca se deixa pra anotar depois. Anota na hora, na medida que as palavras vem vindo à cabeça.



Também não se pára pra pensar no que está fazendo. Só vai anotando. Correções, supressões, acréscimos, tudo é feito mais tarde. Ali, na hora, o importante é anotar.

Porque a coisa vai fluindo como um filme e é bom não contar com a memória pra anotar depois. Vai escrevendo ali, imediatamente, tipo repórter acompanhando ao vivo as ideias que passam.

E eu começo assim, com as palavras.

Não sei bem quando as imagens chegam. A ideia da modelo, da nudez, não sei dizer quando apareceu.

Depois passa um tempo. Nesse caso foram uns dias. Talvez umas duas ou três semanas.

Daí eu topei com a Batwoman do J.H. Williams III e pirei. Achei sensacional, tão sensacional que acordei no dia seguinte e simplesmente decidi que queria desenhar uma história em quadrinhos. Peguei o caderninho e comecei a imaginar. 


Imaginei fazer algo no formato horizontal, pensando em trabalhos como Celluloid do Dave McKean. Desde o começo imaginei em dispor a história como uma tira horizontal para visualização na web. 


Sentei com o sketchbook e comecei a esboçar a distribuição dos quadrinhos, mas imaginando como dispor a história em um formato horizontal de proporção 2:3 (bem próxima do formato comic book americano tradicional).

Um dia, quem sabe, eu faço uma versão impressa. :-)

Então, fiz os esboços dos quadrinhos, com a composição dos elementos, escolha de ângulos e enquadramentos e pré-distribuição dos textos.



Pré-distribuição de textos é uma coisa importante. É preciso ter certeza que o texto e o desenho não vão se sufocar, que as imagens não vão desaparecer atrás dos balões. Pra fazer a distribuição, eu vou seguindo o texto que tinha escrito no caderninho.

Aliás, também quando estou desenhando os esboços dos quadrinhos, eu sigo o texto escrito. Imagino os diálogos acontecendo e vou desenhando as expressões, os closes, as pausas, os planos detalhes, etc.

Uma vez feito os esboços de como vão ficar os quadrinhos, começo a pesquisa visual.

O principal era a modelo. Pra mim era importante que ela lembrasse uma moça de uma Playboy que comprei tem uns 15 anos atrás. Também me baseei na atriz Kate Winslet. Repare que não era questão de representar fielmente o rosto da atriz ou da moça da Playboy, mas só usar como base. A escolha dessas duas como modelo foi por razões totalmente afetivas.

Apesar do título, não usei nenhum "modelo vivo" na produção da história. Os desenhos do "artista" foram feitos com base em fotos de nus. O que me orientou na produção desses desenhos foi a experiência que tive nas aulas de desenho de observação com modelo vivo e um punhado de desenhos de referências que coletei da internet e dos meus livros.

A minha ideia era desenvolver algo que fosse bem solto e tivesse uma linha bem espontânea, gestual.

Já o "artista" é um piá pançudo qualquer. Os objetos (cavalete, chaleira, caneca) são objetos do meu cotidiano mesmo.

Feito um apanhado de referências visuais, comecei o desenho das páginas.



Os desenhos foram feitos em folha A4, sulfite comum, com grafite azul, tendo como referências os objetos reais e as fotografias. Não decalco as fotografias, mas uso como base para entender certas posições, caimentos de tecido, tipo de cabelo. Muitas vezes combino diversas fotos para fazer um único desenho (a mão de uma modelo, o rosto de outra, o tronco de outra...). Um Frankenstein.

Mas muitas vezes também eu desenho de cabeça. O piá pançudo da história foi desenhado praticamente sem referência alguma. Você pode reparar que a moça foi trabalhada com muito mais esmero que o garoto...

Feito o desenho a grafite azul no sulfite, reforço algumas coisas com grafite escuro tradicional (2B, numa lapiseira de 0,7 mm).

Depois, com uma mesa de luz, decalquei os desenhos do sulfite para folhas de canson A4, de 300 gramas, próprio para aquarela. Essas folhas vêm reunidas em 12 em um bloco vendido nas papelarias. Coisa simples, nada sofisticada e relativamente barata. Ah, essas folhas tem uma face mais texturada e outra mais lisa. Para essa história, usei o lado mais liso.



O decalque é feito com lápis bem leve (HB ou B) e depois da mesa de luz, com pincel, vou fazendo os contornos a nanquim. Pra detalhes pequenos, como os olhos, narizes e bocas, eu uso canetas nanquim 0,5 e 0,8 mm.

Feito os traços a nanquim, apliquei uma aguada cinza. Usei um tubinho de tinta aquarela cor preta, de um estojo da Pentel. Novamente, coisa bem simples.



Por certa insegurança, a cada passo digitalizei as páginas, desde os rascunhos até a finalização com aguada. A digitalização foi feita com resolução de 600 ppi.  Depois eu fiz alguns ajustes nos tons de cinza, deixando mais escuros.

Já os desenhos "artísticos" da moça foram feitos num esquema diferente. Pensei em desenhar em A4, mas não tava ficando legal. Não parecia bom. Então, peguei uma folha A3 mesmo e desenhei rápido, buscando velocidade e espontaneidade. Fiz um punhado de desenhos até achar o estilo que queria. E daí digitalizei.

(Eu trabalho em A4 porque facilita o processo de digitalização. Meu scanner é A4. Quando faço A3, tenho que ficar juntando pedaços e corrigindo no photoshop. Acho um processo mais trabalhoso e chato.)

O letreiramento foi feito digitalmente, no photoshop. A fonte originalmente escolhida era no estilo "pincelada". Queria algo que parecesse bem manual, com jeitão de pincel mesmo. Mas achei que a leitura foi prejudicada.



Depois, recebi opiniões de amigos a respeito da fonte competir com o desenho e acabei optando por substituir por outra fonte mais legível. Um problema com letreiramento é encontrar uma fonte legível e esteticamente interessante e que ainda contenha todos os acentos ortográficos do nosso idioma...



Cheguei a considerar de fazer o letreiramento manual mesmo, escrevendo as letras em uma folha de papel vegetal e depois inserindo digitalmente, mas achei trabalhoso demais e ia prolongar ainda mais a produção.

Enfim...

Eu estou muito longe de ser um exemplo de disciplina, então, o que eu escrevo aqui é o relatório de um processo completamente amador: livre, feito sem pressão, por puro prazer.

Algumas ideias vão longe e demoram um bocado a serem realizadas, enquanto muitas nem chegam a sair da minha cabeça. No caso específico dessa história, eu me obriguei a terminá-la o mais rápido possível, mas ainda assim, alguns dias a preguiça falava mais alto.

Do começo ao fim, foram cerca de cinco semanas, incluindo viagens e dias ociosos. De desenho mesmo, foram duas semanas.

O processo foi lento e livre e por isso mesmo muito prazeroso. Estou com outra HQ engatilhada e logo deve vir à luz. Essa é bem mais simples.

Com a prática, espero acelerar mais o processo. É muito gratificante expor o trabalho e receber um retorno das pessoas.

No fim, como disse um conhecido meu, os quadrinhos tem essa coisa de "curtição". É legal fazer, é legal ler. Disciplina é muito importante, mas o prazer deve ser nosso maior propulsor. Pelo menos, no meu caso.

E é isso.

Até a próxima.


(Caso não tenha visto, você pode conferir o resultado final aqui).

domingo, julho 08, 2012

Um cara bem-resolvido


Interessante como certos personagens "de mentira" podem fazer mais sentido do que algumas pessoas de verdade.

(O trecho é da história em quadrinhos Ghost / Hellboy, publicada esse mês no livro Hellboy - edição histórica volume 5: Máscaras e Monstros).

sábado, julho 07, 2012

Sempre presente

Uma cicatriz.
Como um talho que desce pelo meu rosto, como uma orelha rasgada ou um olho vazado.
Uma marca.
Não me incapacita, nem me faz menos humano.
Não me impede de escrever, não me impede de compor, de trabalhar, nem de rir ou chorar.
Não me impede de viver.
Mas está lá.
No espelho.
Nos rostos que me olham.
Em mim.
A lembrança talhada em carne.
O estigma, a falta de um pedaço.
Agora e para sempre, parte de mim.

******

Foi isso o que você me deixou.
Foi isso o que você se tornou para mim.
Uma cicatriz.

quinta-feira, junho 28, 2012

Modelo Vivo


Modelo vivo é uma história em quadrinhos que escrevi e desenhei.

Para ler, clique na imagem acima. Depois clique no canto superior esquerdo da imagem e use a barra de rolagem horizontal.

Confira aqui o making of.

;-)

segunda-feira, junho 25, 2012

2 minutos



Uma história em quadrinhos curtinha que desenhei com roteiro da fofíssima Lídia Basoli. Foi publicada na edição nº 10 da Café Espacial.

Com esse lance de HQMix e tal, acho que essa sexta vou dar um pulo lá em Sampa pra ver os amigos. Mas antes termino e publico aqui aquela outra história em quadrinhos que tinha comentado... :-)


sexta-feira, junho 22, 2012

V de Verdade


Quando penso em V de Vingança...

... (esqueça o filme, por favor)...

... essa é a frase que me vem à cabeça. A felicidade é a mais insidiosa das prisões.

Uma prisão confortável, aconchegante e sorridente. Uma prisão onde queremos estar. Uma prisão que nos tolhe pelo comodismo, pela supressão das necessidades, pela estagnação. Bem traiçoeira.

Tenho pensado na felicidade da publicidade, do Fakebook, das galerias de fotos sorridentes. A felicidade de competição: quem é o mais feliz?

É como a máscara sorridente de V.

Debaixo das fotografias, o que existe? Que tipo de cicatrizes?

Ansiedades, incertezas, solidão, fraquezas...

Não me falta felicidade.

O que preciso é de convicção.

terça-feira, junho 19, 2012

No escape

Remexendo minhas coisas, acabei encontrando um xerox de uma hq bem bacana.



Ela é diferente porque explora as possibilidades de narrativa dos sentidos de leitura da página. Ao invés de ler a página normalmente, você precisa considerar que são quatro ou mais narrativas dispostas em linhas de quadrinhos que se estendem pelas páginas.

Olha um esquema pras primeiras páginas (clique pra ampliar):


Bacana, né?

Daí a diversão está em "explorar" a história mais do que em lê-la. É um trabalho bem bacana porque acontecem umas "voltas" no tempo de dar nó na cabeça.

O que me agrada muito é a demonstração de como utilizar as propriedades únicas dos quadrinhos para criar novas possibilidades de narrativa.

Só uma dúvida ficou: não sei o nome do autor da história.

Alguém pode me ajudar?

ATUALIZANDO: nos comentários, um amigo anônimo deu o nome do autor. É o Patrick McEown. Você pode saber mais sobre o trabalho e a carreira dele aqui. Obrigado, anônimo!!!

segunda-feira, junho 18, 2012

Moleskine

Daí acabei comprando um moleskine.

Levei bronca da patroa ("80 REAIS NUM CADERNO EM BRANCO??? TÁ MALUCO???"), mas fiquei feliz com a compra. No fim, é só um caderno de grife, uma grande bobagem, mas fiquei feliz com a compra.

Estreei meu moleskine fazendo uns estudos pra história em quadrinhos que estou trabalhando. Nenhum desses desenhos será usado, mas foram úteis pra ajudar a pensar a hq.

:-)