quarta-feira, outubro 30, 2013

Oi, eu fiz um gibi!


E agora que eu tenho a revista (clique aqui) em mãos, impressa, bonita e cheirosa, eu fico me perguntando: por que não fiz isso antes?

Essa é a resposta:

Eu sempre tive vontade de fazer um quadrinho meu. Acho que praticamente todo mundo que curte quadrinhos já quis produzir seu próprio material. Como diz o Scott McCloud, é tudo muito simples: você só precisa de papel, lápis e talvez uma borracha.

Lógico que esse "muito simples" vai se complicando exponencialmente à medida em que você cogita a possibilidade de realmente publicar um material seu.

No meu caso, existiam três razões que me faziam desistir da ideia de publicar um quadrinho:
  1. Eu não teria como imprimir.
  2. Eu tenho uma preguiça monstruosa.
  3. Eu achava meu material muito fraco.
A questão da impressão foi posta abaixo nos últimos anos. Vi muita gente talentosa se virando pra fazer sua própria tiragem. Eram os tais autores independentes. Vitor Cafaggi, Eduardo Damasceno, Felipe Garrocho, Pedro Franz, Danilo Beyruth, José Aguiar, André Diniz... Muita gente. Conheci esse pessoal todo em eventos como o FIQ e a Gibicon. O processo de impressão ainda é caro, mas não é mais tão inacessível e é possível pagar uma tiragem com uma gráfica decente, se você se planejar. Eu, por exemplo, deixei de fazer umas viagens e apertei um pouco o cinto, pra juntar em dois anos dinheiro o suficiente pra imprimir o meu gibi.

Assim, o primeiro limite caiu por terra. 

Esse foi fácil. O segundo foi mais complicado. 

McCloud estava certo: fazer um gibi é simples. De certo modo. Mas também dá trabalho. Muito trabalho.

Elaboração da história, roteiro e decupagem, criação de personagens, estudos de ambientes, 55 páginas desenhadas a lápis em formato A3, finalizadas com nanquim, digitalizadas, tratadas, balonadas e letreiradas, mais o projeto da edição com elaboração de capa, produção gráfica... Calculo que, se eu tivesse dedicado uma jornada de trabalho de 8 horas diárias, de segunda a sexta-feira, exclusivamente para o desenvolvimento dessa história em quadrinhos, eu teria levado uns quatro meses para finalizá-la.

O fato é que eu não tinha quatro meses pra me dedicar exclusivamente pra ela. Trabalho como professor e comecei o doutorado esse ano. Atividades que, por natureza, ocupam todo o espaço de tempo que encontram. Daí, novamente veio o contato com outros autores. Sujeitos como o Beyruth, que também não têm as melhores condições do mundo pra trabalhar e ainda assim produzem e produzem bem.

No fim, tudo é uma questão de prioridades. Ou de amor mesmo. Deixei de viajar nas férias pra juntar dinheiro pra impressão e também pra trabalhar o máximo possível durante esses dias de "folga". Trabalhei também em fins de semana, de madrugada, em quartos de hotel durante congressos, enfim, sempre que pude.

O combate com a preguiça e a procrastinação é uma coisa que não tem fim, uma briga que eu acho que sempre terei que enfrentar. Afinal, sou um preguiçoso. Tardes ensolaradas e ociosas fazem meus olhos brilharem. Mas terminar páginas de quadrinhos também. E o cheiro de um livro impresso novinho...

Finalmente, o terceiro limite: a falta de confiança e o medo de errar. O fato é que nunca estive satisfeito com o meu próprio trabalho. E provavelmente nunca vou estar. Sempre fiquei esperando o dia em que eu fosse "maduro" pra poder produzir algo, mas esse dia parece que nunca chegava. O que me ajudou muito a superar essa barreira foi meu trabalho como professor. Porque eu leciono desenho e ilustração.

Nas aulas, eu percebia que um dos maiores problemas dos alunos não era a falta de habilidade, mas, muitas vezes, um elevado e paralisante senso de autocrítica. Medo de não conseguir fazer um desenho "direito", medo do que os outros iam achar. E a pessoa não desenhava. De certa forma, acho que eu atuava mais como um "psicólogo" do que como um professor. Eu fazia e refazia os desenhos junto com eles, tentava explicar o processo e valorizar a prática constante, mas o principal era mostrar que desenhar podia ser legal e não um peso. Mostrar que encontrar o próprio traço é uma busca que vale a pena e não é fácil. E que não há motivos pra se sentir vergonha do desenho que se faz porque cada desenho é parte do processo de amadurecimento do profissional. Como dizia Miles Davis: "erros não existem".

Enfim, foram dois alunos que me mostraram que de repente é hora de simplesmente sentar e fazer. Bianca Pinheiro e Francis Ortolan foram meus alunos na pós-graduação de Histórias em Quadrinhos da Opet. Os dois já atuavam com ilustração e a Bianca tinha sido minha aluna ainda na graduação. Na conclusão da pós, o pessoal apresentava uma história em quadrinhos completa. Só tive oportunidade de assistir a apresentação desses dois, mas achei seus trabalhos tão bacanas, tão instigantes, tão lindos. Na verdade, fiquei com os trabalhos dos dois na cabeça. De repente, eu ali, dando aula, e dois dos alunos já tinham feito seus quadrinhos e feito muito bem. Afinal, o que eu estava esperando?

Nunca estarei pronto. Sempre haverá algo pra melhorar: desenho, arte-final, personagens... Mas, afinal, quem está pronto? A gente dá o melhor de si e daí vê o que acontece. Essa é a regra de ouro.

Depois das apresentações de Francis e Bianca, fugi pra Ilha do Mel. Foi em novembro do ano passado. Era um recesso da universidade, no meio de semana, fora da temporada. Levei meu sketchbook e passei quatro dias caminhando na praia, tentando finalizar o roteiro de as coisas que Cecília fez. E terminei.

E daí foi rotina de trabalho: desenhar, finalizar, digitalizar, letreirar...

Penso que, de todo o processo de bastidores, são essas histórias de medos e superação que mais são importantes. Nós não construímos nada sozinhos, sempre temos uma ajuda. Seja ajuda direta, ajuda involuntária ou ajuda imprescindível. Catiane Matiello, Lielson Zeni, Renato Faccini, Marcelo Piuí, Cássio Shimizu, Bianca Pinheiro, Francis Ortolan, Eduardo Damasceno, Mitie Taketani, Chico Utrabo, José Aguiar, Danilo Beyruth, Gustavo Duarte, a galera da Nova Gráfica... pra essas pessoas e muitas outras, eu digo muito obrigado.

Valeu, gente!

:-)






********

"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

terça-feira, outubro 29, 2013

As coisas que Cecília fez


Cecília é mãe do Pedrinho, é casada com o Leonardo, faz ioga e está um pouquinho acima do peso. Um dia, ela reencontra uma pessoa que não via há anos. Isso desperta uma torrente de lembranças e emoções que a abalam profundamente. Essa é uma história sobre amor e memória, com doses de humor, decepção, vergonha alheia, drogas e sexo.

As coisas que Cecília fez é minha primeira história em quadrinhos longa. Vou lançá-la agora em novembro no FIQ.

Mas, se você quiser, pode adquiri-la na Itiban Comic Shop ou diretamente comigo, através do e-mail: ascoisasquececiliafez@gmail.com.

As coisas que Cecília fez é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. R$20,00 mais as despesas postais.
Não é aconselhável para menores de 18 anos.
;-)

quarta-feira, outubro 02, 2013

Noturno

(Texto originalmente publicado como review no site Universo HQ  em abril de 2011).



Essa é a história:

Lúcio e Lúcia conheceram-se em um show de mágica, quando se ofereceram como voluntários para participar de um dos atos. Foi um número de magia surpreendente e depois dele a vida de cada um foi tomada lentamente por uma série de eventos extraordinários. Lúcia e Lúcio não tem mais certeza sobre onde passam suas noites. Sonham com voos, grandes aves carniceiras e mundos com árvores que se erguem pelo infinito. A lembrança desses sonhos mescla-se cada vez mais com a realidade do dia a dia. Acontecimentos aparentemente desconexos convergem para um único e assombroso evento, onde o rapaz e a moça se reencontrarão e a fronteira entre os delírios e a realidade será definitivamente rompida.

Talvez a ficção seja um retrato da forma de uma cultura perceber a realidade. Se for assim, os argentinos devem ter uma percepção bem peculiar do mundo. Com o sabor dos sonhos que se perdem aos poucos no esquecimento da manhã. É o chamado realismo fantástico. Histórias de Borges e Cortázar tem esse sabor. O clássico quadrinho argentino O Eternauta também. O sabor do extraordinário que se dissipa aos poucos na luz do dia, torna-se inalcançável e ao mesmo tempo ainda permanece conosco, lá no fundo de nossa cabeça. O aspecto de sonho, que maravilha e assombra. E agora temos Noturno, de Salvador Sanz. Podemos defini-lo como uma história de fantasia com muitos toques de horror e suspense. Dentro disso, o álbum apresenta uma série de pontos positivos.

O layout das páginas é tradicional, comportado, sem apelo a nenhuma diagramação mais ousada que possa disputar a atenção do leitor com as imagens apresentadas. Ao folhear a edição a primeira coisa que chama a atenção é a arte. Definidos como “hiper-realistas” no texto de apresentação, os desenhos são em traço preto e branco, utilizando tons de cinza que parecem estar lá para garantir que mesmo as cenas diurnas tenham um aspecto de iluminação pálida, indireta.Sanz domina a técnica e a estrutura do desenho, mas seu “hiper-realismo” é relativo: no rosto de seus personagens percebemos que muitas vezes os olhos são um pouco maiores do que a boca. Uma opção estética que lembra o mangá. Sanz domina a técnica e a estrutura do desenho, mas seu “hiper-realismo” é relativo: no rosto de seus personagens percebemos que muitas vezes os olhos são um pouco maiores do que a boca. Uma opção estética que lembra o mangá.

Os pássaros de Noturno, em toda sua variedade de formas grotescas, são um espetáculo visual. Grandes pássaros carniceiros, aves com seis patas e penas que parecem asas de insetos, bicos que exibem dentes cadavéricos. A arte de Sanz também dialoga com o trabalho de M. C. Escher. As pessoas transformam-se em pássaros em sequencias que surpreendem, assemelhando-se muito às metamorfoses criadas pelo artista holandês. E são essas metamorfoses que nos convidam a ler e entrar no segundo nível do trabalho de Sanz: seu universo ficcional.

Os personagens vivem em uma Buenos Aires desenhada com detalhes. Possuem emprego, família e uma rotina que é retratada de modo objetivo. Vivem no mundo “real”. Entretanto, tudo isso é apenas um detalhe no pano de fundo. O que realmente conta é a força dos sonhos, lembranças e imaginação. Os personagens aos poucos percebem que seus sonhos são reais, que os pássaros estão vindo de algum outro lugar inacessível e ganhando substância em nossa realidade. Sanz conduz o roteiro de maneira competente, inserindo flashbacks e distribuindo pistas sobre eventos que irão convergir para o clímax da história. A narrativa também valoriza mais o subjetivo dos personagens do que o mundo concreto que os cerca. Assim como o traço preto e branco, é o contraste entre o real e o imaginário que cativa o leitor.

Além do casal protagonista, temos o personagem Cirilo. Conhecido de Lúcia, ele não é um dos escolhidos para se tornar um Noturno e lamenta-se por isso. Cirilo faz parte do mundo real e testemunha os acontecimentos na vida de sua amiga sem poder fazer parte deles. Ele gostaria de voar, mas não pode. Há também uma série de referências a obras, livros, filmes, que são distribuídas de maneira direta ou sutil. A citação ao Aprendiz de Feiticeiro de Disney é usada para ilustrar que magia é dar vida ao inanimado, inserir o fantástico no cotidiano e transformá-lo em algo extraordinário. Muito mais sutil é a relação que pode se construir entre com o filme A Marca da Pantera,, de 1982, que misturava horror e erotismo. Assim como a personagem de Nastassia Kinski, o sexo feito por Lúcia e Lúcio tem consequências surpreendentes.

Encontramos pontas soltas na história de Noturno. Não se sabe com certeza quais as intenções dos pássaros. Eles querem invadir nosso mundo para quê? Eles são uma ameaça? Entretanto, talvez a ausência de respostas para essas perguntas reforce ainda mais o aspecto de sonho de toda a trama. Não há necessidade de deixar tudo claro. As dúvidas fazem parte da proposta. O único porém de todo o trabalho talvez seja a última cena da história. Nas palavras de um dos personagens: “Que final mais sessão da tarde, por favor!”. De fato, é um final que não corresponde plenamente ao clima construído ao longo da história, embora não chegue a comprometer a obra.

Noturno é uma história sobre fantasia, sobre como a imaginação pode transformar a mesmice do cotidiano. Com certeza, há outras leituras do álbum que podem ser feitas. À parte as interpretações, a obra de Salvador Sanz funciona muito bem como entretenimento, oferecendo ao leitor uma ótima arte e uma história cheia de surpresas, suspense, horror e muita criatividade.