quarta-feira, julho 18, 2012

Aquarela




Fim de semana passado fui lá pra Ilhabela, no litoral de São Paulo, pra mergulhar de cabeça num curso de aquarela.

O mestre Gonzalo Cárcamo proporcionou três dias de "intensivão". Ele nos hospedou em sua casa e passou umas lições bem bacanas.


Cárcamo foi muito atencioso. Além de explicar tudo e dar exemplos práticos, ele fazia questão de frisar que o que estávamos fazendo eram exercícios. Aqui começou a primeira lição pra mim: praticar pelo exercício em si, sem se preocupar com o resultado final.

Eu ficava querendo produzir boas imagens e isso atrapalhava os exercícios. Ao invés de me soltar e errar e aprender com os erros, eu ficava tenso, me segurando, tentando fazer tudo certinho...  Demora um bocado até relaxar e deixar a aquarela "acontecer".

Aliás, essa é uma das características da aquarela: a espontaneidade. É possível fazer aquarelas bem realistas, mas o bacana da técnica são justamente as manchas, os acidentes que mais insinuam a imagem do que a mostram claramente. Pra quem é obcecado com precisão na reprodução de um modelo, adaptar-se a essa linguagem mais solta pode ser bem complicado. Pelo menos, está sendo pra mim...

As imagens que apresento aqui foram estudos e mostram um bocado a minha dificuldade com a aquarela.

No primeiro dia, fizemos exercícios monocromáticos. A ideia era perceber os valores tonais, claro e escuro, das imagens. Um dos princípios básicos da aquarela é planejar a imagem. Devido à sua transparência característica, convém começar a pintar os tons mais claros e ir escurecendo a imagem gradativamente.

O primeiro exercício foi copiar uma aquarela pronta, usando apenas a cor sépia.




O segundo exercício já foi direto ao ar livre. Escolhemos um detalhe ao redor e o reproduzimos em monocromia.



O problema nesse segundo foi tentar definir demais as folhas da árvore. A ideia era insinuar tudo com manchas.

Aliás, uma das coisas bacanas que aprendi com o Cárcamo foi adaptar plaquinhas de acrílico a tripés de câmeras para criar um tipo mais leve e prático de cavalete. Muito legal!



No dia seguinte fomos pra praia pintar ao ar livre. Dia de sol, praia, tudo me enganou direitinho. Fui de bermuda e camiseta e o vento frio me judiou... Mas na foto ficou bacana. Cortesia da Pontoal. :-)


A fotografia mostra a gente trabalhando. Aqui está a imagem que pintei. Agora usando cores.


A gente pintava, se batia, e o Cárcamo aparecia do lado todo gentil, dava umas dicas e, no meu caso, umas pinceladas que ajudavam o resultado final a melhorar consideravelmente. Na imagem acima, ele apontou a importância do contraste e reforçou a sombra do barco contra a areia. Ele também deu um trato nas folhas do coqueiro. Assim, as manchas exploram o potencial da aquarela e sugerem a forma das folhas. E fica muito bonito, na minha opinião.

Terceiro dia choveu e a gente não pode ir muito longe. Ficamos nos arredores da casa e comecei a pintar um detalhe de arquitetura. Mas não consegui terminar.


Tirei uma foto e fui fazer hoje outra aquarela, finalizando (ou quase...).



Quem sabe um dia eu pego o jeito?

Quanto ao Cárcamo, o trabalho do sujeito é fenomenal. Dá uma olhada:



Além das pinturas em aquarela, Cárcamo também atua como ilustrador, sendo responsável por charges, caricaturas e diversos livros ilustrados. Coisa fína. Bater papo com ele foi extraordinariamente enriquecedor.

Tem que ficar de olho pra ver quando abre a próxima turma. Eu com certeza vou participar.

Pra acompanhar o Cárcamo, você pode seguir o blog ou o site dele.

segunda-feira, julho 09, 2012

Fazendo Modelo-Vivo

Modelo vivo...


Algumas coisas começam assim: a gente deitado na cama, olhando pro teto, pensando na vida.

Hoje em dia, ficar deitado na cama à toa é praticamente uma afronta moral. Mas algumas coisas começam assim. Você tá lá de bobeira, pensando, relembrando e daí de repente começa a fantasiar, imaginar conversas, imaginar pessoas.

Pelo menos é assim comigo.

Tem os casos em que as palavras começam a vir e daí é bom ter um caderninho à mão pra anotar. Nunca se deixa pra anotar depois. Anota na hora, na medida que as palavras vem vindo à cabeça.



Também não se pára pra pensar no que está fazendo. Só vai anotando. Correções, supressões, acréscimos, tudo é feito mais tarde. Ali, na hora, o importante é anotar.

Porque a coisa vai fluindo como um filme e é bom não contar com a memória pra anotar depois. Vai escrevendo ali, imediatamente, tipo repórter acompanhando ao vivo as ideias que passam.

E eu começo assim, com as palavras.

Não sei bem quando as imagens chegam. A ideia da modelo, da nudez, não sei dizer quando apareceu.

Depois passa um tempo. Nesse caso foram uns dias. Talvez umas duas ou três semanas.

Daí eu topei com a Batwoman do J.H. Williams III e pirei. Achei sensacional, tão sensacional que acordei no dia seguinte e simplesmente decidi que queria desenhar uma história em quadrinhos. Peguei o caderninho e comecei a imaginar. 


Imaginei fazer algo no formato horizontal, pensando em trabalhos como Celluloid do Dave McKean. Desde o começo imaginei em dispor a história como uma tira horizontal para visualização na web. 


Sentei com o sketchbook e comecei a esboçar a distribuição dos quadrinhos, mas imaginando como dispor a história em um formato horizontal de proporção 2:3 (bem próxima do formato comic book americano tradicional).

Um dia, quem sabe, eu faço uma versão impressa. :-)

Então, fiz os esboços dos quadrinhos, com a composição dos elementos, escolha de ângulos e enquadramentos e pré-distribuição dos textos.



Pré-distribuição de textos é uma coisa importante. É preciso ter certeza que o texto e o desenho não vão se sufocar, que as imagens não vão desaparecer atrás dos balões. Pra fazer a distribuição, eu vou seguindo o texto que tinha escrito no caderninho.

Aliás, também quando estou desenhando os esboços dos quadrinhos, eu sigo o texto escrito. Imagino os diálogos acontecendo e vou desenhando as expressões, os closes, as pausas, os planos detalhes, etc.

Uma vez feito os esboços de como vão ficar os quadrinhos, começo a pesquisa visual.

O principal era a modelo. Pra mim era importante que ela lembrasse uma moça de uma Playboy que comprei tem uns 15 anos atrás. Também me baseei na atriz Kate Winslet. Repare que não era questão de representar fielmente o rosto da atriz ou da moça da Playboy, mas só usar como base. A escolha dessas duas como modelo foi por razões totalmente afetivas.

Apesar do título, não usei nenhum "modelo vivo" na produção da história. Os desenhos do "artista" foram feitos com base em fotos de nus. O que me orientou na produção desses desenhos foi a experiência que tive nas aulas de desenho de observação com modelo vivo e um punhado de desenhos de referências que coletei da internet e dos meus livros.

A minha ideia era desenvolver algo que fosse bem solto e tivesse uma linha bem espontânea, gestual.

Já o "artista" é um piá pançudo qualquer. Os objetos (cavalete, chaleira, caneca) são objetos do meu cotidiano mesmo.

Feito um apanhado de referências visuais, comecei o desenho das páginas.



Os desenhos foram feitos em folha A4, sulfite comum, com grafite azul, tendo como referências os objetos reais e as fotografias. Não decalco as fotografias, mas uso como base para entender certas posições, caimentos de tecido, tipo de cabelo. Muitas vezes combino diversas fotos para fazer um único desenho (a mão de uma modelo, o rosto de outra, o tronco de outra...). Um Frankenstein.

Mas muitas vezes também eu desenho de cabeça. O piá pançudo da história foi desenhado praticamente sem referência alguma. Você pode reparar que a moça foi trabalhada com muito mais esmero que o garoto...

Feito o desenho a grafite azul no sulfite, reforço algumas coisas com grafite escuro tradicional (2B, numa lapiseira de 0,7 mm).

Depois, com uma mesa de luz, decalquei os desenhos do sulfite para folhas de canson A4, de 300 gramas, próprio para aquarela. Essas folhas vêm reunidas em 12 em um bloco vendido nas papelarias. Coisa simples, nada sofisticada e relativamente barata. Ah, essas folhas tem uma face mais texturada e outra mais lisa. Para essa história, usei o lado mais liso.



O decalque é feito com lápis bem leve (HB ou B) e depois da mesa de luz, com pincel, vou fazendo os contornos a nanquim. Pra detalhes pequenos, como os olhos, narizes e bocas, eu uso canetas nanquim 0,5 e 0,8 mm.

Feito os traços a nanquim, apliquei uma aguada cinza. Usei um tubinho de tinta aquarela cor preta, de um estojo da Pentel. Novamente, coisa bem simples.



Por certa insegurança, a cada passo digitalizei as páginas, desde os rascunhos até a finalização com aguada. A digitalização foi feita com resolução de 600 ppi.  Depois eu fiz alguns ajustes nos tons de cinza, deixando mais escuros.

Já os desenhos "artísticos" da moça foram feitos num esquema diferente. Pensei em desenhar em A4, mas não tava ficando legal. Não parecia bom. Então, peguei uma folha A3 mesmo e desenhei rápido, buscando velocidade e espontaneidade. Fiz um punhado de desenhos até achar o estilo que queria. E daí digitalizei.

(Eu trabalho em A4 porque facilita o processo de digitalização. Meu scanner é A4. Quando faço A3, tenho que ficar juntando pedaços e corrigindo no photoshop. Acho um processo mais trabalhoso e chato.)

O letreiramento foi feito digitalmente, no photoshop. A fonte originalmente escolhida era no estilo "pincelada". Queria algo que parecesse bem manual, com jeitão de pincel mesmo. Mas achei que a leitura foi prejudicada.



Depois, recebi opiniões de amigos a respeito da fonte competir com o desenho e acabei optando por substituir por outra fonte mais legível. Um problema com letreiramento é encontrar uma fonte legível e esteticamente interessante e que ainda contenha todos os acentos ortográficos do nosso idioma...



Cheguei a considerar de fazer o letreiramento manual mesmo, escrevendo as letras em uma folha de papel vegetal e depois inserindo digitalmente, mas achei trabalhoso demais e ia prolongar ainda mais a produção.

Enfim...

Eu estou muito longe de ser um exemplo de disciplina, então, o que eu escrevo aqui é o relatório de um processo completamente amador: livre, feito sem pressão, por puro prazer.

Algumas ideias vão longe e demoram um bocado a serem realizadas, enquanto muitas nem chegam a sair da minha cabeça. No caso específico dessa história, eu me obriguei a terminá-la o mais rápido possível, mas ainda assim, alguns dias a preguiça falava mais alto.

Do começo ao fim, foram cerca de cinco semanas, incluindo viagens e dias ociosos. De desenho mesmo, foram duas semanas.

O processo foi lento e livre e por isso mesmo muito prazeroso. Estou com outra HQ engatilhada e logo deve vir à luz. Essa é bem mais simples.

Com a prática, espero acelerar mais o processo. É muito gratificante expor o trabalho e receber um retorno das pessoas.

No fim, como disse um conhecido meu, os quadrinhos tem essa coisa de "curtição". É legal fazer, é legal ler. Disciplina é muito importante, mas o prazer deve ser nosso maior propulsor. Pelo menos, no meu caso.

E é isso.

Até a próxima.


(Caso não tenha visto, você pode conferir o resultado final aqui).

domingo, julho 08, 2012

Um cara bem-resolvido


Interessante como certos personagens "de mentira" podem fazer mais sentido do que algumas pessoas de verdade.

(O trecho é da história em quadrinhos Ghost / Hellboy, publicada esse mês no livro Hellboy - edição histórica volume 5: Máscaras e Monstros).

sábado, julho 07, 2012

Sempre presente

Uma cicatriz.
Como um talho que desce pelo meu rosto, como uma orelha rasgada ou um olho vazado.
Uma marca.
Não me incapacita, nem me faz menos humano.
Não me impede de escrever, não me impede de compor, de trabalhar, nem de rir ou chorar.
Não me impede de viver.
Mas está lá.
No espelho.
Nos rostos que me olham.
Em mim.
A lembrança talhada em carne.
O estigma, a falta de um pedaço.
Agora e para sempre, parte de mim.

******

Foi isso o que você me deixou.
Foi isso o que você se tornou para mim.
Uma cicatriz.