segunda-feira, dezembro 09, 2013

Orgulho de que?

Cosplay é como se chama o ato de se vestir como um personagem de histórias em quadrinhos ou de ficção em geral. Você vê muito disso nos eventos como a San Diego Comicon e tem muitas pessoas que se divertem e se dedicam a caracterizar-se como seus personagens favoritos.

Repare, o lance é se divertir. Como no carnaval, numa festa à fantasia ou uma brincadeira. Diversão.

Então...

No FiQ, se você não está sabendo, aconteceu o seguinte episódio: o quadrinista D, um dos autores, participantes, bateu fotos de uma cosplay da Estelar. Ele bateu fotos em close da região da virilha da menina e publicou em seu Instagram com a seguinte legenda: "pata de camelo".

Aconteceu que D escreveu uma carta pedindo desculpas. Trechos da carta:
De forma alguma queria ser ofensivo com a garota que fez o cosplay ou qualquer outra mulher no evento. As personagens femininas de quadrinhos tem uma grande dose de machismo estampadas em seu visual e infelizmente, eu não usei de senso crítico e alteridade quando postei aquela foto. (...) Mas o evento serviu de lição para mim. Por isso te peço desculpas. (...) Apesar de ter sido algo desagradável, essa situação me fez abrir os olhos para esse tipo de abuso, pois com minha idiotice acabei sendo, mesmo que breve, um dos idiotas que sempre critico.
Você pode ler a carta e saber mais sobre o episódio nesse post do Hector Lima.

O lance é que muita gente comentou sobre isso: as garotas do Lady's Comics contaram ainda de outras histórias de machismo e falta de respeito à figura feminina que ocorreram no FiQ. No site oficial do evento foi publicada uma nota de repúdio ao acontecimento. Mas foi um grupo de mulheres envolvidas com histórias em quadrinhos que revelou a identidade de D. Elas escreveram:
O autor não está sendo legalmente processado, por isso recorremos ao CMI para expor sua identidade, por compreendermos o quão injusta é a exposição indevida e ilimitada das vítimas, enquanto dá-se ao abusador o direito ao sigilo e permanecemos todas amedrontadas com a possibilidade de contra-ataques legais do abusador; impotentes e preocupadas por sabermos que os abusos serão perpetuados pelo mesmo ou por outros homens enquanto não for atribuída a devida gravidade e atenção ao episódio.
Há outros posts e textos a respeito, mas muita gente da comunidade de quadrinhos está dizendo algo como "deixa quieto, o menino já pediu desculpas". Aliás, acho que li alguém escrever "ele até pediu desculpas".

Não estou aqui para ofender o D de maneira nenhuma. Como ele assumiu o erro, penso que o que temos que fazer é expor e divulgar o máximo possível para conscientizar as pessoas. Para discutir, refletir e talvez melhorarmos todos como sociedade. O que quero fazer aqui são umas considerações.

Por exemplo: por que um homem bate foto da virilha de uma mulher, da bunda de outra e posta nas redes sociais com comentários zombeteiros? Sério, pense. Por que um sujeito faz uma coisa dessas? A resposta é bem dolorosa: porque há outras pessoas que vão achar isso legal. O sujeito só posta coisas esperando aplausos, esperando provocar risadas. Ao ver um comentário dizendo que aquilo era desnecessário, ofensivo, nosso homem responde: "senso de humor: uns tem, outros não".

Senso de humor. Como fazer piadas de estupro, piadas com doadoras de leite materno. "É só uma piada, cara". Mas por trás dessa piada, o que existe é crueldade pura. A gente sabe disso. E não uma crueldade apenas do "humorista": é uma crueldade social. Porque há pessoas que riem e há pessoas que acham um absurdo que o nosso "piadista" seja moralmente apedrejado. "É só uma piada".

Nunca é só uma piada. A crueldade está ali. Mais que isso: o machismo está ali. É uma construção de relações de poder. A vítima e o algoz. A garota do cosplay e o engraçadão dos quadrinhos. "É só uma brincadeira". É isso que o sujeito tem na cabeça. Ele não sabe o nome da menina, só quer fazer "zoera" e curtir com a galera, huashaushuashua. Não vê um ser humano ali, vê um motivo de piada.

Isso não é culpa exclusiva do indivíduo. Ele age assim porque a sociedade dá apoio. Há os que riem da piada. E há os que falam "deixa disso, é só brincadeira".

Não é brincadeira, homem.

Machismo é uma coisa escrota.

Os machistas falam das "feminazis", isto é, das mulheres que ficam indignadas e furiosas com a falta de respeito que sofrem, falta de respeito legitimada por toda uma cultura de machos alfa. Daí a mulher fica zangada, reage e os machistas a chamam de "feminazi", "revoltadinha", "mal-amada", riem, dizem que o que ela precisa é de pica.

Qualquer um, qualquer uma pode ser machista. Porque estamos tão imersos em uma cultura machista que às vezes nem nos damos conta.

Por trás de cada piada, de cada argumento dizendo que era só uma brincadeira, o que existe é um discurso cruel de dominação. É colocar a mulher no lugar dela, isto é, bem comportadinha, servindo de empregadinha doméstica ou objeto sexual. Sem voz, sem respeito.

O problema não é o D, mas todo o contexto cultural que faz ele pedir desculpas ao Hector e não às mulheres que efetivamente foram ofendidas com a publicação das fotos. Esse contexto cultural do "deixa disso, era só brincadeira".

E isso não fica só no mundo dos quadrinhos, é lógico.

Veja o pessoal do Tubby, que percebeu que ia ter complicações legais e transformou seu projeto em uma "pegadinha". E dizem: "fizemos isso para denunciar o machismo".

Não precisa andar muito por aí pra encontrar outras "pérolas do orgulho de ser macho", como a "Constituição do Homem Livre". Mas provavelmente é tudo uma brincadeira....

A atitude do "é só uma brincadeira" está servindo de saída covarde pra muita bobagem por aí.

O machismo é um problema sério. O machismo já matou muita gente. Pra começar, garanto que toda a galera das torcidas organizadas são muito machos e não perdem oportunidade de demonstrar isso, como se viu lá em Joinville e em diversas outras ocasiões. Acima de tudo, há toda uma diversidade de violências contra mulheres cometidas a CADA SEGUNDO TODO SANTO DIA. E não são apenas violências físicas, são humilhações e assédios.

Então, entenda, não é uma brincadeira.

Não é uma brincadeira.

Se falou, assuma. Se não acredita no que está falando, não fale.

Os homens, os machos, deveriam calar a boca, ouvir e procurar refletir um pouco, só pra variar.

******

George Carlin tem um texto muito bom a respeito, chamado The Male Disease (ou A doença masculina). Eu chamaria de Doença do Macho. Carlin é bem preciso: o problema do macho é que o macho sempre quer estar por cima, sempre quer ser o protagonista, o alfa, o bonzão. E quando as pessoas começam a questionar esse protagonismo, ele reage com a maturidade emocional de uma criança de 7 anos.






sábado, novembro 30, 2013

Mimimi

Fico pensando nas nossas angústias, aquelas que nos dão vontade de gritar, aquelas situações inescapáveis que parecem não terminar nunca.
A dificuldade muitas vezes não está na situação em si, mas em nós mesmos, que não temos coragem de assumir nossas escolhas ou não temos condições de assumir nossas escolhas.
Assim, não temos que vencer apenas as tais situações, mas temos que vencer a nós mesmos, temos que nos dobrar, nos sufocar. Aí é que está o maior desgaste.
É uma constante luta contra si mesmo, contra aquilo que realmente queríamos ser, fazer. E daí vem a tal angústia, a vontade de gritar, de xingar, de sair batendo porta e nunca mais voltar ou de simplesmente ficar ali e chorar.
A tal angústia nunca vai fazer sentido pros outros, porque eles têm a suas próprias angústias e porque se convencionou colocar todas as angústias, lamentações, lamúrias e caprichos em um mesmo saco e chamar de "mimimi" e ridicularizar, zombar, rir e calar.
Calam-se as angústias e continuamos em frente, comprometidos. Sorrindo.
Dentes à mostra.

 Reclamar é "mimimi".

O resto é vandalismo.

quarta-feira, novembro 27, 2013

You know... for kids



Daí outro dia li no MDM: "Alan Moore xinga os leitores"!

E o que aconteceu foi que o Alan Moore fez uma declaração pro The Guardian:

Eu não leio nenhuma hq de super-heróis desde que terminei Watchmen. Odeio super-heróis. Os considero abominações. Eles não significam o que costumavam significar. Eles estavam originalmente nas mãos de escritores que ativamente expandiam a imaginação da sua audiência de 9 a 13 anos. Era totalmente aquilo para o qual eles foram feitos e faziam isso de forma excelente. Nos dias de hoje, as hqs de super-herói pensam que a audiência é certamente maior que de 9 a 13 anos, não tem nada a ver com eles. É uma audiência amplamente nos seus 30, 40, 50 anos, geralmente homens. Alguém veio com o termo Graphic Novel. Esses leitores se agarraram a isso; eles estavam simplesmente interessados numa forma de validar seu constante amor por Lanterna Verde ou Homem-Aranha sem parecer de certa forma emocionalmente subnormais. Isso é um salto significativo da audiência viciado em super-heróis, viciada em mainstream. Eu acho que super-heróis não trazem nada de bom. Acho que é um sinal bem alarmante termos audiências de adultos indo ver o filme dos Vingadores e se deleitando em conceitos e personagens feitos para entreter garotos de 12 anos dos anos 50.(trecho retirado do MDM).
O Alan Moore é um dos cinco maiores roteiristas de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Talvez, O maior. Moore elabora roteiros extremamente complexos, não apenas com tramas paralelas, mas também com personagens muito bem construídos e instigantes. É visível que ele lê um bocado pra elaborar suas histórias e seu talento é indiscutível.

Ele escreveu Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária, Promethea, Do Inferno, entre outras. Se você não viu os quadrinhos, provavelmente esbarrou nos filmes. Esqueça os filmes, o lance são os quadrinhos.  Aliás, talvez uma das coisas mais bacanas do Alan Moore é que ele adora trolar a indústria cinematográfica. Ele deixa bem claro que odiou cada filme feito em cima de um quadrinho seu e se recusa a receber por isso ou a ter seu nome nos créditos do filme. Para ele, quadrinhos tem uma linguagem própria e a adaptação para o cinema é esteticamente deplorável e resulta em produtos que só se justificam na ânsia desesperada de obtenção de algum lucro. Assistindo A Liga Extraordinária com o Sean Connery, fica difícil discordar do Moore.

Vez ou outra ele aparece com umas declarações que quebram as pernas desse "mercado" de super-heróis (seja no cinema ou nos quadrinhos). Daí muita gente, principalmente os fãs de super-heróis (os fanboys), fica puta da cara com o velho, chama ele de mau-humorado, chato, esclerosado e por aí vai.

Mas o pior é que acho que Alan Moore está certo. Em partes.

Super-heróis são um conceito infantil sim. Veja só: temos uma pessoa, geralmente um homem, que ganha um poder que o coloca acima dos outros. Ele se torna especial, muito especial. Um protagonista. O mundo gira em torno dele. E todos os conflitos, por mais complexos que sejam, são simplificados a uma briga do bem contra o mal. Esse super-herói, essa pessoa especial, é querida, é admirada, é o centro de todas as atenções e sempre está certa. Diga se isso não é infantil. Uma fantasia infantil.

Daí que quadrinhos como Watchmen chacoalharam os leitores dos anos 80. Moore e outros autores questionaram justamente as bases do super-herói: o maniqueísmo, as simplificações, a integridade. Isso fascinou os leitores na época, mas acho que esse fascínio foi mais por causa do impacto dramático das histórias do que por seu teor crítico.

Por exemplo, em Watchmen há o personagem Rorschach. Ao elaborá-lo, Moore o fez um reacionário intolerante, extremamente moralista, um fascista que não respeitava direitos humanos. Para Moore, Rorschach é um personagem extremamente condenável. Mas, para sua surpresa, o público adorou. Porque eles não viam o reacionário, mas um personagem solitário, dramático e amargurado que se dedicava com todas as forças para lutar pelo que acreditava. Novamente, o "coitadinho" que era melhor que todo mundo e ia salvar o mundo.

Assim, acho mesmo que super-heróis são uma coisa infantil. Mas discordo do Alan Moore quando ele diz que "amar" ao Lanterna Verde, Batman ou Homem-Aranha é coisa de pessoas "emocionalmente subnormais". Os super-heróis trazem também algumas coisas bem interessantes: simbolizam superação e solidariedade. Uma pessoa que é fã de um super-herói provavelmente projeta nele algo de grande significado para ela.

Assim, não vejo problema ou "um sinal alarmante" em adultos estarem gostando dos Vingadores. Trata-se de uma fantasia infantil, não há mal nenhum em se divertir com ela. Lógico que, se olharmos de perto, há muitas coisas em Os Vingadores que podemos pensar: por exemplo, o "mal" vem de fora do planeta. Não é mais uma nação comunista ou asiática, como costumava ser nos quadrinhos dos anos 1960. Para aumentar a audiência e lucro, procura-se respeitar outras nações e etnias. E hoje as pessoas reclamam e contestam mais, como foi o caso sobre o machismo envolvendo a figura da Viúva Negra. Assim, Os Vingadores não foi só diversão descerebrada, mas também foi ponto de partida para manifestações e reflexões interessantes.

Acho que o fato de algo ser rotulado como "infantil" não é demérito e não implica que não se possa realizar discussões interessantes a respeito. Por mais "inocente" que um livro ou um filme pareçam, eles sempre trazem em si vestígios da sociedade e cultura em que foram produzidos e permitem refletir melhor sobre quem somos.

No fim, penso que super-heróis funcionam bem melhor quando não os levamos a sério. Aliás, a vida é bem mais divertida quando não a levamos tão a sério. Mas isso não implica em viver alienadamente.

Penso que é perfeitamente possível viver com leveza e refletir sobre o que se vive.


terça-feira, novembro 19, 2013

The Day After


Todo carnaval tem seu fim...

Mas, antes disso, quanto riso, oh quanta alegria...

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O FIQ foi meio assim um turbilhão de coisas ainda não completamente apreendidas.

Lancei minha primeira publicação e acompanhei outras pessoas que estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Ouvi histórias, presenciei cenas... muitas coisas foram extraordinariamente felizes, algumas coisas foram tristes de um jeito dolorosamente solitário e outras tantas simplesmente incompreensíveis. Todas aquelas vozes, todas aquelas pessoas e suas histórias. Que turbilhão.

Como carnaval mesmo, como aquela longa festa de danças e canções e figurinos e todo o trabalho de um ano desfilando diante de todos. O que vão dizer? Seremos ouvidos? Ouviremos alguém? Ah, vamos festar, menina, nos perder na multidão do grande salão da serraria.

Achei que ia sentir algo como um final de ciclo, como terminar alguma coisa e finalmente deixar as meninas Cecília e Letícia correrem por aí, mas foi engraçado, porque não sinto que acabou. Sinto como se fossem voltas e voltas. Não uma jornada linear, mas um grande círculo, tão grande que quando passo novamente no mesmo ponto ele está muito diferente, mas ainda é o mesmo ponto. Ciclo sem fim, Simba. Tudo isso um dia será seu.

Nosso.

Não estamos sozinhos.

Somos silenciosos.

Não deixamos vestígios.

Somos engraçados.

A gente vai deixando o raciocínio ir em frente e ele vai virando imaginação e vamos nos perdendo olhando pro infinito, mas e não é aí que as ideias se encontram? No fim, penso que não criamos ideias novas, mais combinamos e recombinamos diversas ideias. Tudo muito diferente, mas ainda é a mesma ideia/ponto.

O tipo de conversa maluca que tivemos tantas vezes na madrugada, depois das sonzeiras, das salas cheias de fumaça e barulho, sentados no meio-fio, o ar fresco na noite em nossas caras. E de repente alguém começa a cantar.

Uma madrugada sentados no meio-fio e muito tempo depois ela se repete, mas agora sentado sozinho na prancheta, lembrando e sorrindo e tentando reproduzir aquela sensação mexendo o nanquim na brancura do papel.

E de repente estamos na grande festa no salão da serraria.

E de repente não estamos mais.

Mas estamos juntos.



sexta-feira, novembro 08, 2013

Oito páginas de coisas que Cecília fez

Oi, meu nome é Liber e eu fiz um gibi. Mas já contei isso antes. O lançamento será semana que vem, lá no FiQ e os meus níveis de ansiedade estão na estratosfera.

Você quer dar uma olhadinha no que fiz?











Que tal?

:-)

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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Quadrinhos de cabeceira

Podem existir exceções, mas penso que todo mundo que faz quadrinhos começou sendo leitor de quadrinhos. Seja na infância ou em um reencontro na adolescência ou vida adulta, é como leitor que começa o fascínio pela linguagem, pela construção de impressões de fluxo de tempo, movimento e ações através das tais "imagens justapostas".

Existem muitos aspectos instigantes na linguagem dos quadrinhos: a relação palavra-imagem; os aspectos plásticos e recursos gráficos, isto é, as técnicas e estilos de produção de imagem empregadas; as diversas possibilidades de relações das imagens entre si e de sua disposição na mídia suporte, seja ela digital ou impressa; os modos e ênfases narrativas; as representações e relações com o contexto social; etc. 

Olhando bem , histórias em quadrinhos são um brinquedo muito bacana, tanto pra quem faz, quanto pra quem lê.

As diversas regras desse brinquedo, desse jogo, podem ser aprendidas em cursos e livros, mas penso que há um tipo de aprendizado muito sutil e profundamente internalizado que provém justamente da leitura dos quadrinhos. Especialmente dos quadrinhos favoritos.

Todo mundo tem os seus quadrinhos favoritos e penso que são esses gibis que dão um tom ou uma orientação para o leitor que passa a produzir quadrinhos. São as tais influências ou as obras que instigam, impressionam e formam sutil ou explicitamente o profissional. Enfim, as "histórias em quadrinhos de cabeceira" que são lidas e relidas com prazer, deixam suas marcas nos leitores e podem moldar novos autores.

Lógico que é algo bem específico, coisa de cada um. Pode-se curtir o personagem e seu universo ficcional ou admirar o trabalho de um determinado autor ou ter uma obra específica que nos assombra pelo resto da vida. Ser fã do Homem-Aranha, adorar o trabalho do argentino Quino ou reler apaixonadamente Os Companheiros do Crepúsculo. Vai saber.

Tem uma pilha de quadrinhos e autores que me fascinam, mas, tem uma série em especial, que quando eu li pensei: "puxa, esse era o tipo de história que eu queria escrever".

Sandman, de Neil Gaiman. 

Não é por causa de Morpheus ou dos Perpétuos ou da magia e mitologia. O que me fascinava mais em Sandman era justamente como Neil Gaiman conseguia retratar o cotidiano. Na minha opinião, o extraordinário e o fantástico ganhavam toda uma dimensão justamente pelo contraste com o "mundano". As coisas simples, as falas, os gestos de gente de verdade.

Por exemplo, na série Morte: o grande momento da vida, a história não acontece por causa de uma viagem mágica para realidades sombrias. Isso está lá, mas o que move a história pra mim é construção dessas personagens verossímeis e seus conflitos comuns.

Gosto muito dessa sequência:




Gosto dos pensamentos da personagem, dos diálogos, dos painéis mostrando detalhes, pequenos gestos, olhares, o fluxo de ideias, assuntos. Coisinhas que vão construindo uma intimidade e uma confiança entre leitor e protagonista.

Esse tipo de coisa me fascinava na época, ainda que eu não soubesse com clareza. As viagens e sonhos de Rose Walker em A casa de Bonecas, as conversas e dramas de Barbie e Wanda em Um jogo de você, enfim, o modo como o autor conseguia dar verossimilhança às palavras e às personagens.

Era essa sequência de Morte: o grande momento da vida que eu tinha na cabeça lá em 2005, quando comecei a esboçar as coisas que Cecília fez. Era esse tipo de atmosfera, de história, que eu queria fazer.

Lógico que no meio do caminho outras coisas vão se misturando.

Alguém pode dizer que também há um bocado de Estranhos no Paraíso, e sou obrigado a concordar, embora as histórias de Katchoo e Francine não estivessem na minha cabeça durante o momento de concepção e execução da hq. Daí penso que certas histórias realmente acabam nos formando, mesmo que não percebamos.

Os trabalhos de Bruce Timm, Darwin Cooke, Chris Bachalo e Glen Keane foram influências mais conscientes, mesmo que discretas. 

Lógico, não é só de referências a quadrinhos que se constrói um gibi. Apesar de estar bem longe de ser uma biografia, as coisas que Cecília fez traz um bocado de episódios e lembranças minhas. Coisas que vivi e histórias de outras pessoas. E um bocado de imaginação. ;-)

Esses materiais que citei aqui são algumas das minhas referências mais queridas, com que mais me identifico e que me instigaram e moldaram para a produção dos meus próprios quadrinhos. Penso que referências são muito importantes. Algo como um mapa, uma orientação dos caminhos que vamos seguir. 

É engraçado pensar assim, mas, mesmo passando horas em cima da prancheta, de certa forma não estamos sozinhos. Essa gente que nem conhecemos pessoalmente e que sempre nos acompanha. 

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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Músicas para Cecília



Uma vez ouvi minhas amigas cantando em "Lovefool" pelos corredores da universidade e elas pareciam muito felizes. Dessa memória veio a cena do carro com Cecília e Pedrinho. Ao longo da produção da história em quadrinhos, fui montando uma mixtape com músicas que eu achava que serviam de trilha sonora, mesmo que não fossem "tocadas" na história. É mais como uma seleção musical que embalou a concepção do álbum. Gosto especialmente das faixas do Cocteau Twins, que para mim tem o tom e a sensação que eu espero ter transmitido com as coisas que Cecília fez.

E aqui está a "trilha sonora original da história em quadrinhos":

1 - Lovefool (The Cardigans)
2 - In Between Days (The Cure)
3 - Young Hearts Run Free (Kim Mazelle)
4 - Só o Fim (Marcelo Nova e Camisa de Vênus)
5 - There She Goes (Sixpence None the Richer)
6 - Smells Like Teen Spirit (Nirvana)
7 - Aikea-Guinea (Cocteau Twins)
8 - Lorelei (Cocteau Twins)
9 - Tonigh Tonight (Smashing Pumpkins)
10 - Open Your Eyes (Snow Patrol)
11 - Nantes (Beirut)
12 - Rabbit Heart - rise it up (Florence and the Machine)


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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

quarta-feira, outubro 30, 2013

Oi, eu fiz um gibi!


E agora que eu tenho a revista (clique aqui) em mãos, impressa, bonita e cheirosa, eu fico me perguntando: por que não fiz isso antes?

Essa é a resposta:

Eu sempre tive vontade de fazer um quadrinho meu. Acho que praticamente todo mundo que curte quadrinhos já quis produzir seu próprio material. Como diz o Scott McCloud, é tudo muito simples: você só precisa de papel, lápis e talvez uma borracha.

Lógico que esse "muito simples" vai se complicando exponencialmente à medida em que você cogita a possibilidade de realmente publicar um material seu.

No meu caso, existiam três razões que me faziam desistir da ideia de publicar um quadrinho:
  1. Eu não teria como imprimir.
  2. Eu tenho uma preguiça monstruosa.
  3. Eu achava meu material muito fraco.
A questão da impressão foi posta abaixo nos últimos anos. Vi muita gente talentosa se virando pra fazer sua própria tiragem. Eram os tais autores independentes. Vitor Cafaggi, Eduardo Damasceno, Felipe Garrocho, Pedro Franz, Danilo Beyruth, José Aguiar, André Diniz... Muita gente. Conheci esse pessoal todo em eventos como o FIQ e a Gibicon. O processo de impressão ainda é caro, mas não é mais tão inacessível e é possível pagar uma tiragem com uma gráfica decente, se você se planejar. Eu, por exemplo, deixei de fazer umas viagens e apertei um pouco o cinto, pra juntar em dois anos dinheiro o suficiente pra imprimir o meu gibi.

Assim, o primeiro limite caiu por terra. 

Esse foi fácil. O segundo foi mais complicado. 

McCloud estava certo: fazer um gibi é simples. De certo modo. Mas também dá trabalho. Muito trabalho.

Elaboração da história, roteiro e decupagem, criação de personagens, estudos de ambientes, 55 páginas desenhadas a lápis em formato A3, finalizadas com nanquim, digitalizadas, tratadas, balonadas e letreiradas, mais o projeto da edição com elaboração de capa, produção gráfica... Calculo que, se eu tivesse dedicado uma jornada de trabalho de 8 horas diárias, de segunda a sexta-feira, exclusivamente para o desenvolvimento dessa história em quadrinhos, eu teria levado uns quatro meses para finalizá-la.

O fato é que eu não tinha quatro meses pra me dedicar exclusivamente pra ela. Trabalho como professor e comecei o doutorado esse ano. Atividades que, por natureza, ocupam todo o espaço de tempo que encontram. Daí, novamente veio o contato com outros autores. Sujeitos como o Beyruth, que também não têm as melhores condições do mundo pra trabalhar e ainda assim produzem e produzem bem.

No fim, tudo é uma questão de prioridades. Ou de amor mesmo. Deixei de viajar nas férias pra juntar dinheiro pra impressão e também pra trabalhar o máximo possível durante esses dias de "folga". Trabalhei também em fins de semana, de madrugada, em quartos de hotel durante congressos, enfim, sempre que pude.

O combate com a preguiça e a procrastinação é uma coisa que não tem fim, uma briga que eu acho que sempre terei que enfrentar. Afinal, sou um preguiçoso. Tardes ensolaradas e ociosas fazem meus olhos brilharem. Mas terminar páginas de quadrinhos também. E o cheiro de um livro impresso novinho...

Finalmente, o terceiro limite: a falta de confiança e o medo de errar. O fato é que nunca estive satisfeito com o meu próprio trabalho. E provavelmente nunca vou estar. Sempre fiquei esperando o dia em que eu fosse "maduro" pra poder produzir algo, mas esse dia parece que nunca chegava. O que me ajudou muito a superar essa barreira foi meu trabalho como professor. Porque eu leciono desenho e ilustração.

Nas aulas, eu percebia que um dos maiores problemas dos alunos não era a falta de habilidade, mas, muitas vezes, um elevado e paralisante senso de autocrítica. Medo de não conseguir fazer um desenho "direito", medo do que os outros iam achar. E a pessoa não desenhava. De certa forma, acho que eu atuava mais como um "psicólogo" do que como um professor. Eu fazia e refazia os desenhos junto com eles, tentava explicar o processo e valorizar a prática constante, mas o principal era mostrar que desenhar podia ser legal e não um peso. Mostrar que encontrar o próprio traço é uma busca que vale a pena e não é fácil. E que não há motivos pra se sentir vergonha do desenho que se faz porque cada desenho é parte do processo de amadurecimento do profissional. Como dizia Miles Davis: "erros não existem".

Enfim, foram dois alunos que me mostraram que de repente é hora de simplesmente sentar e fazer. Bianca Pinheiro e Francis Ortolan foram meus alunos na pós-graduação de Histórias em Quadrinhos da Opet. Os dois já atuavam com ilustração e a Bianca tinha sido minha aluna ainda na graduação. Na conclusão da pós, o pessoal apresentava uma história em quadrinhos completa. Só tive oportunidade de assistir a apresentação desses dois, mas achei seus trabalhos tão bacanas, tão instigantes, tão lindos. Na verdade, fiquei com os trabalhos dos dois na cabeça. De repente, eu ali, dando aula, e dois dos alunos já tinham feito seus quadrinhos e feito muito bem. Afinal, o que eu estava esperando?

Nunca estarei pronto. Sempre haverá algo pra melhorar: desenho, arte-final, personagens... Mas, afinal, quem está pronto? A gente dá o melhor de si e daí vê o que acontece. Essa é a regra de ouro.

Depois das apresentações de Francis e Bianca, fugi pra Ilha do Mel. Foi em novembro do ano passado. Era um recesso da universidade, no meio de semana, fora da temporada. Levei meu sketchbook e passei quatro dias caminhando na praia, tentando finalizar o roteiro de as coisas que Cecília fez. E terminei.

E daí foi rotina de trabalho: desenhar, finalizar, digitalizar, letreirar...

Penso que, de todo o processo de bastidores, são essas histórias de medos e superação que mais são importantes. Nós não construímos nada sozinhos, sempre temos uma ajuda. Seja ajuda direta, ajuda involuntária ou ajuda imprescindível. Catiane Matiello, Lielson Zeni, Renato Faccini, Marcelo Piuí, Cássio Shimizu, Bianca Pinheiro, Francis Ortolan, Eduardo Damasceno, Mitie Taketani, Chico Utrabo, José Aguiar, Danilo Beyruth, Gustavo Duarte, a galera da Nova Gráfica... pra essas pessoas e muitas outras, eu digo muito obrigado.

Valeu, gente!

:-)






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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

terça-feira, outubro 29, 2013

As coisas que Cecília fez


Cecília é mãe do Pedrinho, é casada com o Leonardo, faz ioga e está um pouquinho acima do peso. Um dia, ela reencontra uma pessoa que não via há anos. Isso desperta uma torrente de lembranças e emoções que a abalam profundamente. Essa é uma história sobre amor e memória, com doses de humor, decepção, vergonha alheia, drogas e sexo.

As coisas que Cecília fez é minha primeira história em quadrinhos longa. Vou lançá-la agora em novembro no FIQ.

Mas, se você quiser, pode adquiri-la na Itiban Comic Shop ou diretamente comigo, através do e-mail: ascoisasquececiliafez@gmail.com.

As coisas que Cecília fez é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. R$20,00 mais as despesas postais.
Não é aconselhável para menores de 18 anos.
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quarta-feira, outubro 02, 2013

Noturno

(Texto originalmente publicado como review no site Universo HQ  em abril de 2011).



Essa é a história:

Lúcio e Lúcia conheceram-se em um show de mágica, quando se ofereceram como voluntários para participar de um dos atos. Foi um número de magia surpreendente e depois dele a vida de cada um foi tomada lentamente por uma série de eventos extraordinários. Lúcia e Lúcio não tem mais certeza sobre onde passam suas noites. Sonham com voos, grandes aves carniceiras e mundos com árvores que se erguem pelo infinito. A lembrança desses sonhos mescla-se cada vez mais com a realidade do dia a dia. Acontecimentos aparentemente desconexos convergem para um único e assombroso evento, onde o rapaz e a moça se reencontrarão e a fronteira entre os delírios e a realidade será definitivamente rompida.

Talvez a ficção seja um retrato da forma de uma cultura perceber a realidade. Se for assim, os argentinos devem ter uma percepção bem peculiar do mundo. Com o sabor dos sonhos que se perdem aos poucos no esquecimento da manhã. É o chamado realismo fantástico. Histórias de Borges e Cortázar tem esse sabor. O clássico quadrinho argentino O Eternauta também. O sabor do extraordinário que se dissipa aos poucos na luz do dia, torna-se inalcançável e ao mesmo tempo ainda permanece conosco, lá no fundo de nossa cabeça. O aspecto de sonho, que maravilha e assombra. E agora temos Noturno, de Salvador Sanz. Podemos defini-lo como uma história de fantasia com muitos toques de horror e suspense. Dentro disso, o álbum apresenta uma série de pontos positivos.

O layout das páginas é tradicional, comportado, sem apelo a nenhuma diagramação mais ousada que possa disputar a atenção do leitor com as imagens apresentadas. Ao folhear a edição a primeira coisa que chama a atenção é a arte. Definidos como “hiper-realistas” no texto de apresentação, os desenhos são em traço preto e branco, utilizando tons de cinza que parecem estar lá para garantir que mesmo as cenas diurnas tenham um aspecto de iluminação pálida, indireta.Sanz domina a técnica e a estrutura do desenho, mas seu “hiper-realismo” é relativo: no rosto de seus personagens percebemos que muitas vezes os olhos são um pouco maiores do que a boca. Uma opção estética que lembra o mangá. Sanz domina a técnica e a estrutura do desenho, mas seu “hiper-realismo” é relativo: no rosto de seus personagens percebemos que muitas vezes os olhos são um pouco maiores do que a boca. Uma opção estética que lembra o mangá.

Os pássaros de Noturno, em toda sua variedade de formas grotescas, são um espetáculo visual. Grandes pássaros carniceiros, aves com seis patas e penas que parecem asas de insetos, bicos que exibem dentes cadavéricos. A arte de Sanz também dialoga com o trabalho de M. C. Escher. As pessoas transformam-se em pássaros em sequencias que surpreendem, assemelhando-se muito às metamorfoses criadas pelo artista holandês. E são essas metamorfoses que nos convidam a ler e entrar no segundo nível do trabalho de Sanz: seu universo ficcional.

Os personagens vivem em uma Buenos Aires desenhada com detalhes. Possuem emprego, família e uma rotina que é retratada de modo objetivo. Vivem no mundo “real”. Entretanto, tudo isso é apenas um detalhe no pano de fundo. O que realmente conta é a força dos sonhos, lembranças e imaginação. Os personagens aos poucos percebem que seus sonhos são reais, que os pássaros estão vindo de algum outro lugar inacessível e ganhando substância em nossa realidade. Sanz conduz o roteiro de maneira competente, inserindo flashbacks e distribuindo pistas sobre eventos que irão convergir para o clímax da história. A narrativa também valoriza mais o subjetivo dos personagens do que o mundo concreto que os cerca. Assim como o traço preto e branco, é o contraste entre o real e o imaginário que cativa o leitor.

Além do casal protagonista, temos o personagem Cirilo. Conhecido de Lúcia, ele não é um dos escolhidos para se tornar um Noturno e lamenta-se por isso. Cirilo faz parte do mundo real e testemunha os acontecimentos na vida de sua amiga sem poder fazer parte deles. Ele gostaria de voar, mas não pode. Há também uma série de referências a obras, livros, filmes, que são distribuídas de maneira direta ou sutil. A citação ao Aprendiz de Feiticeiro de Disney é usada para ilustrar que magia é dar vida ao inanimado, inserir o fantástico no cotidiano e transformá-lo em algo extraordinário. Muito mais sutil é a relação que pode se construir entre com o filme A Marca da Pantera,, de 1982, que misturava horror e erotismo. Assim como a personagem de Nastassia Kinski, o sexo feito por Lúcia e Lúcio tem consequências surpreendentes.

Encontramos pontas soltas na história de Noturno. Não se sabe com certeza quais as intenções dos pássaros. Eles querem invadir nosso mundo para quê? Eles são uma ameaça? Entretanto, talvez a ausência de respostas para essas perguntas reforce ainda mais o aspecto de sonho de toda a trama. Não há necessidade de deixar tudo claro. As dúvidas fazem parte da proposta. O único porém de todo o trabalho talvez seja a última cena da história. Nas palavras de um dos personagens: “Que final mais sessão da tarde, por favor!”. De fato, é um final que não corresponde plenamente ao clima construído ao longo da história, embora não chegue a comprometer a obra.

Noturno é uma história sobre fantasia, sobre como a imaginação pode transformar a mesmice do cotidiano. Com certeza, há outras leituras do álbum que podem ser feitas. À parte as interpretações, a obra de Salvador Sanz funciona muito bem como entretenimento, oferecendo ao leitor uma ótima arte e uma história cheia de surpresas, suspense, horror e muita criatividade.

domingo, junho 30, 2013

Chicken Little e o céu está caindo...


Tem mil leituras que se pode fazer em cima desse desenho.

Pra mim, ele mostra um galinheiro (uma sociedade) controlada pelo Doutor Galo. Ele é burguês e patrão, nas palavras do narrador.

A sociedade do galinheiro é composta por galinhas fofoqueiras e fúteis, perus intelectuais com pretensão de mudar o mundo, galera da dança, patos de botequim: enfim, uma turma bem alimentada e completamente feliz.

E o pintinho ingênuo, o Chicken Little, meio miolo-mole, mas um "rapaz direito".

A sociedade do galinheiro é uma sociedade completamente feliz, sem desigualdades, sem questões de classe.

Daí aparece a Raposa. Maldosa, inteligente, calculista. E vermelha. Ela quer todas as aves da sociedade do galinheiro para se alimentar.

A Raposa implanta o caos, vale-se da "psicologia" para desestabilizar a comunidade e transformar o pintinho em um líder manipulado.

O desenho foi feito pela Disney em 1943, durante a II Grande Guerra Mundial. O contexto era de manter a nação norte-americana unida em torno do mesmo discurso político diante de técnicas de guerra "psicológica": propaganda, difusão de informações contrárias, etc.

Hoje, diante de manifestações e discussões políticas, pode-se usar esse desenho para ilustrar diversas questões e pontos de vista.

Mas eu só quero destacar uma coisa: a sociedade do galinheiro é perfeita e igualitária. Não há um equivalente dentro dela para os miseráveis, os excluídos, a classe operária. A sociedade do galinheiro  é um retrato utópico de uma sociedade capitalista, com todos os seus membros muito bem sucedidos. É um grande aglomerado de coxinhas (literalmente).

Esse é o problema dessa fábula: a parte de baixo da pirâmide social não encontra representação nenhuma.

A moral da história é que não se deve acreditar em tudo o que se escuta por aí, não se deve seguir cegamente nenhum "salvador da pátria". É preciso duvidar sempre.

A moral da história também diz que não se deve alterar o status quo, que não se deve questionar as autoridades tradicionais, que não se deve desobedecer, sob o risco de sofrer a mais terrível punição.

Enfim, na minha opinião, a grande moral da história é que dificilmente entendemos o que está acontecendo de verdade. Na realidade, não há uma Raposa vermelha orquestrando o caos, mas todo um conjunto de interesses diversos, um complexo embate de anseios e ideologias completamente diversas.

Nada é tão simples quanto uma fábula pretende nos mostrar.

Mas é preciso duvidar sempre. Principalmente das vozes tradicionais.

terça-feira, junho 25, 2013

Praticamente inofensivo

No que você acredita? Como você pensa?

Você acha que todos nós devemos ter acesso a bens básicos ou que só quem trabalha duro merece ser recompensado?

As respostas podem ser "sim", "não" e um honesto "mais ou menos...".

É preciso pensar bem antes de responder.

Toda nossa sociedade é construída firmemente em torno da ideia da meritocracia. 

Se você trabalhar muito, se você se esforçar, você terá resultados. Assim, se você trabalhar, você vai merecer ter seu carro, sua casa, uma casa na praia, viagem pra Europa. Tudo isso fruto do seu trabalho. Seu mérito.

Mas meritocracia não é só isso. Ela parte dessa ideia, mas não é só isso.

A meritocracia também considera que todos nós temos as mesmas chances de trabalhar e adquirir bens. As mesmas chances. Somos todos iguais. E que se você trabalhar, trabalhar, trabalhar e não conseguir comprar seu carro ou sua casa, a culpa é sua, porque você não está trabalhando direito. Ou da carga tributária, que onera o pequeno investidor.

Está me acompanhando?

A ideia de meritocracia parte do princípio de que todos temos as mesmas chances de "nos dar bem na vida e prosperar" e incentiva o empreendedorismo e competição.

Entretanto, as chances não são iguais.

Se pegarmos, por exemplo, o Joãozinho que está começando uma empresa de confecção com dois funcionários e comparamos com um empresário tipo o Eike Batista, que abre uma empresa de confecção, a gente vai perceber que as chances não são as mesmas. É a diferença que o capital, a quantidade de bens, faz na competição.

E daí, passa um tempo, o Eike vai muito bem e o Joãozinho quebra.

Porque isso aconteceu? Se as condições de trabalho para os dois são as mesmas? A resposta é óbvia: as chances não são as mesmas. Mas ninguém questiona isso.

A explicação de Joãozinho não ir pra frente é porque ele é incompetente ou por que os impostos são terríveis. Ou as duas coisas. Se Joãozinho for negro ou índio ou sem terra ou mulher (Mariazinha?), a coisa fica bem mais complicada pro lado dele (dela), acredite.

Mas, enfim, ninguém questiona as regras do jogo. Todos tomam elas como "naturais". É assim mesmo. É a "livre concorrência" e o mais forte devora o mais fraco. Outra máxima da meritocracia. Quem tiver competência (e for homem, branco, classe média), estabelece-se (ou não).

Fomenta-se a ideia da competição e de que os melhores prevalecerão. Dizem que é o sistema mais justo do mundo.

E os outros? O que acontece com eles?

Nunca entendi essa lógica de competição, sabe. Pra começar, as chances não são as mesmas pra todo mundo. Não é uma competição "justa". Mas não para por aí.

Pra mim, a melhor parte da meritocracia é essa: as pessoas não valorizam apenas os "bem-sucedidos", mas valorizam principalmente o "cidadão trabalhador", isto é, aquele que cumpre seu papel e aceita a ordem vigente sem questioná-la. É o bom moço, o rapaz trabalhador, que luta contra as dificuldades movido pela esperança que um dia vai crescer na vida.

Daí vem uma frase que eu acho ótima, dita pelo chefe ao seu novo colaborador: "a gente crescendo, você cresce junto". E é verdade. Mas só até certo ponto. A empresa sempre vai lucrar muito mais do que você em cima do SEU trabalho. Essa é outra coisa aceita como "natural", "é assim mesmo", "dê graças que você tem um emprego".

A verdade é que o trabalho é fundamental e através dele as pessoas se realizam socialmente. Mas, dentro da meritocracia, ele pode ser alienado do trabalhador e da trabalhadora. De repente, não somos mais donos dos frutos de nosso trabalho. Não somos trabalhadores, mas peças dentro de um sistema. Podemos ser substituídos a qualquer momento, por razões de capricho de mercado ou dos patrões.

Mas é assim mesmo.

Pessoas socadas dentro de ônibus, mergulhadas em trabalhos que não gostam, com poucas perspectivas de sair, de mudar. Pessoas oprimidas por um cotidiano e por um sistema que lhes diz que a culpa de toda essa infelicidade é delas mesmas, mas que "se você trabalhar bastante (pra mim) você vai prosperar". Se não prosperar, a culpa é sua, só sua.

Se você não tem casa própria, a culpa é sua. Se você não tem uma terra própria, a culpa é sua. Se você não pode pagar por atendimento médico, a culpa é sua. Se você não tem o que comer, a culpa é sua. Porque você provavelmente é um vagabundo. Ou vagabunda.

Meritocracia.

Mas é assim mesmo, né?

Enfim.

Seja um bom moço.

Seja uma boa moça.

Proteste contra a corrupção. Sem violência. Sem baderna. Volte pra casa.

E amanhã esteja de volta que o batente começa às oito e alguém tem que trabalhar nesse país.

sexta-feira, junho 21, 2013

Direita e esquerda

Estou ouvindo muita gente dizer que não é de direita nem de esquerda.

Daí, tem ess o vídeo extremamente didático do PC Siqueira. Repare na definição de esquerda e direita logo no começo.



O vídeo tem uma perspectiva de esquerda sim, isso é óbvio. Mas as definições de esquerda e direita são muito apuradas.

Não vá pras ruas dizendo que você não se liga nessas coisas de direita e esquerda. Você não precisa ser radical, mas pense nas questões do vídeo acima: no que você acredita?

Você acha que todos nós deveríamos ter serviços públicos de qualidade?

Todas as faixas da população merecem os mesmos direitos e privilégios?

Pense.

Vá pras ruas consciente.

V de "Você sabe o que essa máscara significa"?



Lógico que você sabe.

É a máscara do V. O personagem misterioso e carismático daquele filme com a Natalie Portman, com a voz maneira do Hugo Weaving. Você assistiu né?

Lógico que assistiu. Daí você sabe que o V é um sujeito que começa o filme salvando a Natalie Portman dos policiais malvados de um governo totalitário, em um futuro não muito distante. Lembra disso? E daí a Natalie fica fascinada com essa figura, o V, que jamais tira sua máscara, jamais revela o seu nome, e faz discursos para a população e ataca diretamente o regime opressor e defende a LIBERDADE.

E, no final do filme, a população toma as ruas, de máscara, e todos somos V e o regime é derrubado e V morre num confronto final com os caras do mal. Massa véio!

Mas você sabia que V de Vingança é, antes de tudo, uma história em quadrinhos escrita por Alan Moore na década de 1980? Ah, claro que sabia!

E você leu os quadrinhos? E já parou pra pensar nas diferenças entre os quadrinhos e o filme? E nos pontos em comum?

O V dos quadrinhos não é bonzinho que nem o do filme. Ele não faz panquequinhas vestindo avental nem chora apaixonado.

Nos quadrinhos o V é um monstro.

Irrefreável, inescrupuloso, assustador.

No cinema e nos quadrinhos, V surge em um campo de concentração, onde o governo totalitarista prende todas as minorias, todos os esquerdistas, gays, negros, todos os "desviantes". Nesse campo de concentração médicos realizam diversas experiências com essas pessoas. Todas morrem, menos uma. O ou a sobrevivente é paciente da cela cinco. Cinco em algarismos romanos é V.

(Sim, nos quadrinhos é possível que V seja uma mulher).

Mais explicitamente que no filme, o que motiva o V dos quadrinhos é seu plano de vingança. Ele tem uma lista de pessoas que quer matar. E mata. Mas, mais do que isso, ele quer matar o regime político que possibilitou toda essa violência. Ele quer por abaixo toda a estrutura totalitária. Ele quer acabar com todos os frutos e vestígios dessa estrutura, incluindo a si mesmo.

Essa é uma leitura que frequentemente fica de lado. O que cativa as pessoas em V de Vingança, seja no filme ou nos quadrinhos, é a ideia romântica de lutar pela liberdade. No filme, ele é um tolinho que chora apaixonado pela personagem da Natalie Portman. No quadrinho, ele a tortura deliberadamente para forjá-la no tipo de soldado que precisa.

V não quer libertar o povo. Ele quer se vingar do governo que violentou a ele e a seu mundo. O governo que sufocou e destruiu todo um mundo de sensibilidade e diversidade. Ele quer aniquilar completamente esse governo e não vai medir esforços pra isso. É o que fica escancarado nos quadrinhos e apenas insinuado no filme.

No final dos quadrinhos, não há uma marcha bonita e harmoniosa de pessoas unidas como no filme. O final dos quadrinhos é o caos, é uma sociedade posta abaixo. Saques, gritos, violência. Não interessa como essa sociedade vai se reerguer. A história termina ali, porque V conseguiu sua vingança. O povo não era importante. A vingança era a causa principal.

A máscara de V foi criada pelo desenhista da série, David Lloyd, procurando representar o rosto de Guy Fawkes, que participou da "Conspiração da Pólvora" em 1605 e tentou explodir o parlamento inglês, buscando assassinar todos os membros e o rei.

A violência e a necessidade de destruir o estado marcam os perfis de V e de Guy Fawkes.

Daí você põe sua máscara de V de Vingança e vai pros protestos gritar "sem violência". Daí você reclama da violência da polícia opressora, mas espanca as pessoas sem máscara, que erguem bandeiras vermelhas, "porque todos os partidos são iguais e não queremos eles". Você não acha isso incoerente?

V sabia exatamente onde queria chegar.

E você, sabe?

Ah, você quer mudanças?

Quer mudar exatamente o quê? Quer mudar pra onde?

Quer por tudo abaixo e começar de novo? Tem noção do que isso significa? Mesmo?

Por uma máscara e manter uma "identidade secreta" não é a melhor solução pra todos os casos. Você precisa saber o que está fazendo. Você precisa entender bem o quadro da política e da sociedade na qual está inserido. Se for fazer alguma coisa, entenda exatamente o que está fazendo ou pelo menos tente.

Saiba que você não está sozinho. Saiba que há pessoas que compartilham de sua opinião e outras que não. E que espancar as pessoas que não compartilham de sua opinião pode ser legal em gibis e filmes, mas não é aceitável na vida real.

Entenda o que te incomoda. Estude, compreenda. Dialogue. Pense. Articule-se.

quinta-feira, junho 20, 2013

Pense

O que eu acho que vai acontecer?

Que as pessoas vão começar a perceber que não basta só ir pra rua. Tem que ter uma reivindicação, uma ideia na cabeça. Tem que deixar claro a causa que move as pessoas.

Tem que se informar, tem que saber.

Não adianta ir pra rua gritar contra o Feliciano ao lado de gente que pede intervenção militar pra acabar com a corrupção. São coisas diferentes.

Não adianta ir pra rua pedir direito de expressão e massacrar quem carrega uma bandeira ou uma camisa vermelha. Isso é estupidez.

Não adianta ir pra rua e continuar acreditando que se está acima da política e dos partidos políticos, que se está acima de ideologias, que se é uma pessoa "diferenciada" e que vai causar mudanças com cartazes escritos "chega de corrupção!". Isso é ingenuidade.

Saiba que com o direito de expressão, vem também responsabilidade social. O que você reivindica, se for efetivado, pode afetar a vida de muitas outras pessoas além de você. Tenha ciência disso. Pense nas outras pessoas e não só em você.

É preciso entender que não é culpa só do Governo. Existem interesses do capital privado, existem empresas que controlam o transporte "público", existem empresários que são corruptores, que ganham dinheiro com as superfaturas da Copa. Os grandes "empreendedores" também fazem parte do problema.

Não saia por aí dizendo que não existe mais esquerda e direita no Brasil. Você pode até acreditar nisso, você tem o direito de dizer isso, mas considere seriamente a possibilidade de estar errado. Informe-se.

Existe e sempre existirá tensão entre trabalhador e empresário, entre explorado e explorador.

E sempre vai existir o coxinha. Se liga. Não seja um coxinha. Pelo amor de Deus, não seja um coxinha.

Esse texto não discute com profundidade nenhuma ideia. Mas é só pra dar um toque. Só pra eu desabafar.

Entenda que as coisas são complexas e não se resolvem no grito. Respeite os outros como você quer que te respeitem.

Se vai sair na rua pra protestar contra a PEC 37, leia e entenda o que é a PEC 37.

Sou a favor de ir pra rua sim, mas se for pra ir sem saber por quê, será que adianta?

segunda-feira, junho 17, 2013

A traição das imagens


Essa foto tem história. Ou histórias.

A imagem foi capturada pelo fotógrafo Clayton de Souza em março de 2010, durante uma manifestação de professores que terminou em conflito com a polícia. A manifestação foi em São Paulo, durante o governo de José Serra.

A primeira versão dizia que o sujeito da fotografia carregando a policial ferida era um professor:
A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor. Este professor que carrega o PM ferido é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. (Leandro Fortes, em texto publicado dia 26 de março de 2010)
Logo em seguida, a Polícia Militar desmentiu a história, dizendo que o sujeito da fotografia era um policial à paisana:
A Soldado Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi contou que foi ferida com um golpe de madeira no rosto, quando compunha a tropa da Polícia Militar na manifestação da greve dos Professores. Machucada, Érika foi imediatamente socorrida por um policial militar à paisana. (Blog da Polícia Militar do Estado de São Paulo, em 27 de março de 2010).
Então, qual é a versão verdadeira?

O sujeito era um professor ou um policial disfarçado?

1- SE O SUJEITO ERA UM PROFESSOR: Se essa for a verdade, aconteceu que um manifestante mostrou solidariedade com a PM em dificuldade. Isso faz muito mais do que humanizar de forma indiscutível o manifestante e cobri-lo de dignidade. Muito mais que isso, transforma-o num símbolo de solidariedade fortíssimo. E, portanto, torna a legitimidade da manifestação praticamente inatacável. Considerando o que a polícia fez naquele dia 26 de março de 2010 contra os professores, essa hipótese praticamente santifica o professor.

2- SE O SUJEITO ERA UM POLICIAL INFILTRADO: Se você ler a postagem na íntegra no blog da polícia, vai ver que a PM ferida tem nome: Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi . O policial infiltrado não tem nome. No texto da polícia militar, os professores são marginalizados e a violência dos policiais é justificada. Diante dessa hipótese eu pergunto: os professores são considerados um grupo criminoso perigoso que justifique a presença de um agente infiltrado, cujo nome não é revelado?

Se eu pudesse escolher, eu gostaria que a primeira hipótese fosse verdadeira. Ela seria um símbolo de solidariedade, uma lembrança inegável de que todos somos humanos, todos somos iguais. Que nós podemos ser bem melhores do que imaginamos, que podemos perdoar e superar as diferenças. Muito lindo isso.

Mas, infelizmente, a segunda hipótese é a verdadeira. O homem é um policial infiltrado na manifestação dos professores.

A partir da fotografia, presumindo que se tratava de um professor, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) tentou identificá-lo e localizá-lo, mas não conseguiu.
...o suposto professor é um policial militar do serviço reservado (ou secreto) da Polícia Militar paulista. É um P2, como são chamados. (...)
Aos poucos a verdade sobre a foto famosa da manifestação dos professores vai se revelando. Mas ainda há muitas perguntas sem respostas. Por exemplo, qual era a missão dele na assembleia dos professores? Levantar informações sobre o andamento do movimento? Fazer provocação? Ou o quê? A mando de quem? Qual a intenção? Criminalizar a Apeoesp?
(Conceição Lemes em Viomundo, 27 de março de 2010)
Boas perguntas. Pra que a presença de P2 no meio das manifestações?

Esse post se originou de uma conversa de facebook, com a Talita Rodrigues. Ela escreveu:
Bom, em toda manifestação tem P2 (infiltrados). Pra descobrir quem sao os lideres, estratégias e poder tirar fotos para identificar quem Tá envolvido. Meu namorado participava da bicicletada e tem varias historias de P2. A PM não divulga o nome pra proteger a identidade do cara, né? Se ele trabalha na inteligência como infiltrado não pode ser exposto. Embora depois dessa foto ele seja mega reconhecivel. Você acha que a policia vai admitir que infiltra policiais em movimentos como trabalho de inteligência?
Sei que é triste, mas é verdade... Vimos dois caras na quinta que desconfiamos que eles eram P2, um deles estava pondo pilha pra galera quebrar tudo...
E aqui eu termino me sentindo bobo e triste. Porque eu realmente queria acreditar que o cara da foto era um professor. Porque ia ser lindo, ia ser um símbolo de solidariedade e tal.

Mas não. A foto é um retrato de como a nossa polícia trabalha.

Se os P2 estão na multidão para incitar quebra-quebra e justificar a violência da polícia, então qual é o sentido disso tudo? A polícia serve pra que? Protege a quem?

Proteste em paz. Leve flores. Faça barulho. Faça amor.

Não deixe os mentirosos e brutos ditarem como devemos viver nossas vidas.

Cuidado com a polícia, mas não tenha medo dela.

Um dia esses soldados vão perceber que somos todos iguais e estamos do mesmo lado.



domingo, junho 16, 2013

Croquis urbanos

"Vocês tão se manifestando contra o que, moço?"

"Contra nada. A gente tá só desenhando."

Tipo assim, todo domingo de manhã essa galera se reúne pra desenhar em algum canto de Curitiba. Já faz um bom tempinho, mas hoje foi a primeira vez que fui. Umas 50 pessoas se reunindo debaixo de garoa e frio pra desenhar o prédio na esquina da Comendador Araújo com a Presidente de Taunay.




Fiquei sentado numa escada, a bunda congelando, trabalhando nesse desenho com lápis e canetinha nanquim por quase duas horas. 

E, depois de 2 meses sem rabiscar nada, olha aí...


Quero participar mais. Gostei.

Se você quiser saber dos Croquis Urbanos, olha o manifesto:

MANIFESTO URBAN SKETCHERS:
 1- Nós fazemos desenhos de locação, através da observação direta, seja em ambientes externos ou internos.
2- Nossos desenhos contam histórias do dia a dia, dos lugares em que vivemos, e para onde viajamos.
3- Nossos desenhos são um registro do tempo e do lugar.
4- Nós somos fiéis às cenas que estamos retratando.
5- Nós utilizamos qualquer tipo de midia e respeitamos nosso estilo individual.
6- Nós nos apoiamos e desenhamos juntos.
7- Nós compartilhamos nossos desenhos online.
8- Nós mostramos o mundo, um desenho de cada vez.

Pra saber mais dos Croquis em Curitiba e ver o trabalho dos amigos, visite a página do pessoal no Facebook.

Valeu, galera!

:-)

sexta-feira, junho 14, 2013

O nosso problema é...

Acompanhando tudo isso que está acontecendo em São Paulo, percebi os coxinhas.
“Coxinha”, sociologicamente falando, é um grupo social específico, que compartilha determinados valores. Dentre eles está o individualismo exacerbado, e dezenas de coisas que derivam disso: a necessidade de diferenciação em relação ao restante da sociedade, a forte priorização da segurança em sua vida cotidiana, como elemento de “não-mistura” com o restante da sociedade, aliadas com uma forte necessidade parecer engraçado ou bom moço. (Trecho de O Coxinha: uma análise sociológica. Para ler o texto na íntegra, clique aqui).

No caso, são essas pessoas que falam que as manifestações atrapalharam o trânsito, o direito de ir e vir do "cidadão de bem", que os manifestantes são todos uns "marginais" e "vagabundos" que vandalizam e picham as lojas e riscam os carros, que a polícia tá certa em descer a lenha.

"Porra, os vândalos filhos da puta passaram em volta do meu carro, me assustaram, chacoalharam o carro, arranharam a lataria! Porrada nesses vagabundos!"  (Citação literal de comentário no Facebook).

Individualismo exacerbado, forte necessidade de diferenciação...

Estou vendo tudo isso acontecendo aí em São Paulo e penso o seguinte: chacoalharam o carro, riscaram a lataria, picharam a porta da empresa: tudo isso é mau.

Levar um tiro no olho, bala de borracha nas costas, bomba de gás, daí pode.

Pichar uma parede justifica ser escorraçado feito bicho. Riscar um carro justifica tiro na cara.

Se for reclamar, reclama baixinho pra todo mundo te ignorar mais fácil, porra. E não atrapalha o andar da máquina.

Isso é truculência do Estado. É totalitarismo.

Mas não é só o Estado que é truculento. Muitos veículos da mídia (tipo a revista Veja) dão voz pra uma parcela da população que acredita nisso: a lataria do carro vale mais que a pele humana, o dever de ser subserviente aos interesses do mercado se sobrepõe aos direitos coletivos.

O direito de ir e vir não pode ser podado por uma manifestação pelo passe livre, mas pode ser LEGITIMAMENTE podado por uma concessionária de pedágio, afinal o "empreendedorismo" e o capital estão muito acima de qualquer direito humano.

E quem pensar diferente que tome porrada na cara.

E isso numa cidade com prefeitura do PT, num estado sob o governo do PSDB.

Em quem você vai votar nas próximas eleições?

Se você é coxinha e só olha pro próprio rabo, comemore. O mundo está do jeito que você gosta.

Mas se você tá muito indignado com tudo isso: bora pra Sampa levar balaço de borracha nas costas? Vamo lá?

Dá vontade. E dá medo. Porque pra participar de manifestação assim, com polícia querendo teu couro, é só pra quem tem culhão de verdade.

Isso é coisa que coxinha nunca vai entender. Porque coxinha é covarde, estúpido e só enxerga o próprio rabo.

O nosso problema não é o Estado ou a Polícia. Nosso problema são os coxinhas.

terça-feira, junho 11, 2013

O feminismo segundo Pondé

Minha parceirinha me passou, indignada, o link pra essa coluna do Pondé.

"Leia preparado para vomitar", ela disse.

Não li na hora, deixei pra ler depois.

Tipo assim, o que eu sei do Pondé: vi um depoimento dele pra série O Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais. Ele estava sendo entrevistado, sentado numa cadeira, usava boina, óculos escuros, fumava cachimbo. Pelo menos, é o que está na minha memória. E daí ele ia falar sobre uma questão filosófica, uma abordagem sobre as naturezas da realidade, da verdade e da ficção, que era to tema do programa. Não lembro bem o que ele falou, acho que citou o mito das sombras na parede da caverna e fez algumas considerações e coisas assim.

O que mais eu sei sobre o Pondé: um colega professor que se considera reacionário ´

(sério, ele chegou pra mim e falou "podem me chamar de reacionário"; lógico que tem todo um contexto em torno, mas garanto pra você que ele não defende ideias socialistas)

um colega professor que se considera reacionário falou "tinha que trazer o Pondé pra dar uma palestra, o teatro ia lotar". Ah sim, tem também mais uns dois amigos meus, gente cabeça, leitores de filosofia, acadêmicos, que também falam "ô, o Pondé é legal!". Tipo, esses eu não sei se se consideram reacionários, mas imagino que não.

Ah, tava esquecendo das minhas amigas cult, que me falam que o Pondé as faz passar mal.

(nota: os caras que gostam do Pondé (e são "caras", "homens") falam dele sorrindo, as meninas, mulheres, falam dele com um olhar de quem acabou de ver um cachorro ser atropelado na rua)

Enfim, eu nunca tinha lido nada do Pondé. Não conheço o Pondé. Não sei qual é a dele. Daí a parceirinha me mandou o tal link.

E li.

Pra começar o título: Bonecas de quatro. Promissor, hein?

E começa dizendo que vai falar de "coisa séria:" mulher. Aliás, se corrige. Não vai falar de mulher. Vai falar de feministas e muitas dessas não são "exatamente" mulheres. Atenção para o "exatamente", por favor. Aí  Pondé pode se referir ao fato de que existem sim muitos homens, heterossexuais, que participam do movimento feminista. Mas a verdade é que não há "um" movimento feminista, mas diversos movimentos feministas. Há uma diversidade de especificidades de causas legítimas de diversas ordens sociais, sexuais e étnicas.

De fato, falar de "um" feminismo é não mostrar muito conhecimento de causa. NÃO. Peraí... Pensando em questões de discurso, falar de "um" feminismo pode ter a intenção de simplificar e abafar uma série de discursos e reivindicações legítimas.

Pondé prossegue com a bronca dizendo que é um absurdo os "fascistas do gênero" se meterem a dizer como devem ser os brinquedos das crianças. "Quando vamos deixar claro que essa coisa de dar boneca para meninos quererem ser meninas é, isso sim, abuso sexual?" ele escreve.

Bom. Então o brinquedo define o que você vai ser quando crescer? Ele te treina, te molda para o que você vai ser quando crescer. E dar bonecas pra meninas quererem ser donas-de-casa é o quê? A ideia é dar uma Barbie pra menina aprender o que é ser "mulher" antes dos cinco anos?

Tipo, sério. Você acha que as crianças ligam pra isso? Elas querem brincar. Com bonecas sim, com bonecos, bolas, ursos de pelúcia, caixas de papelão, revistas em quadrinhos. Querem brincar.

Por que não dar uma Barbie pra um menino? Porque a Barbie é um brinquedo estúpido, que não devia ser dado pra nenhum ser humano. Mas essa é a minha concepção, minha opinião. Se você quer dar uma Barbie pro seu filho, vá em frente. Se o menino quer uma Barbie, dê pra ele. Criança não vê ideologia, não vê regras sociais. Nós vemos. A paranoia é nossa.

Questionar que tipo de brinquedo vamos dar aos nossos filhos é questionar uma ordem estabelecida: homens devem ser ativos, ter atitude, dominar. Mulheres devem ser delicadas, passivas, servir.

Falando em servir, Pondé fala a seguir sobre um filme que assistiu onde um homem transava com um travesti, "o travesti de quatro, o homem por trás". Primeiro ele reclama brevemente dessa mania do cinema nacional tentar construir "consciência social (essa nova categoria da astrologia)". Diz que esse tipo de cinema "é sempre chato e ruim".

No jargão acadêmico, a gente chama isso de "cagar regra". Professor Pondé decretou que cinema com proposta de consciência social é sempre chato e ruim e que consciência social é uma nova categoria da astrologia.

Se tomarmos por base o texto do Pondé, podemos entender "consciência social" como tornar evidente as misérias e desigualdades gritantes dentro de nossa sociedade. Por exemplo, presídios, que são máquinas de fazer monstros, depósitos pra deixar marginais fermentando e satisfazer a sede de justiça do "cidadão de bem". Ter consciência dessas disparidades e realidades sujas é algo que me parece que o Pondé não leva a sério. E falar, mostrar essas disparidades é "sempre chato e ruim". Tipo Cidade de Deus  e Tropa de Elite.

Mas o ápice do texto do Pondé é a transa de quatro. Porque, segundo ele, "especialistas" em gênero fizeram um debate sobre o tal filme dos presidiários e condenaram a posição de sexo por reiterar a questão de dominação homem/mulher.

Daí o senhor Pondé começa a cagar regras sobre como o sexo deve ser. Para ele, transar de quatro é " uma das posições mais preferidas pelas meninas saudáveis". AH, GARANHÃO! Tá sabendo de tudo!

Daí ele afirma que, segundo nossas fascistas de gênero, as heterossexuais devem ficar sempre por cima para olhar nos olhos do opressor e jamais (preste atenção: eu disse jamais!), ao fazer sexo oral (melhor não fazer), "jamais engolir sêmen, que é excremento como xixi e coco".

Lembro daquele filme com o Jude Law, Alfie, o sedutor. O garanhão machista preferia ficar por baixo, porque podia "confortavelmente assistir todo o espetáculo de peitos, gestos, caras e movimentos enquanto a menina fazia todo o trabalho".

Ficar por cima, por baixo, dar tapa, levar tapa, meter o dedo no cu, levar o dedo no cu, chupar, ser chupado... sexo é uma coisa tão íntima, gostosa e diversa. Casais diferentes, sexualidades diferentes. Transar com uma pessoa é diferente de transar com outra. Cheiros, afinidades. É tão gostoso descobrir uma nova pessoa na cama. Na hora de fudê, eu prefiro deixar os teóricos e teóricas fumando cachimbo na varanda.

Finalmente, o senhor Pondé faz uma DENÚNCIA: "Quando vamos perceber o fato óbvio de que o feminismo é a nova forma de repressão social do sexo? Principalmente do sexo heterossexual feminino? Ao se meter embaixo do lençóis, essas azedas atrapalham a já difícil vida sexual cotidiana."

Bom, a minha parceirinha se pronunciou:

diga lá que eu não sabia que os critérios pra poder me considerar mulher eram tão rígidos e que a partir do texto dele eu vou ter que assumir q sou homem. Que como uma educação que contempla a diversidade - a diversidade!!!! - pode ser fascista???? Que ele não sabe nada sobre mulheres feministas... Nunca trepou com uma. Saberia que elas são donas do próprio gozo. E talvez a suspeita disso o amedronte... Ah... o que esperar de um cara que disse q o viagra fez mais pela sociedade que o Marxismo...

Eu vou copiar e colar isso no texto, tá?

Ah... N cola não... Tá feio. É só resultado da minha raiva.

Tá ótimo! Tá espontâneo!

A verdade é assim: um homem não pode falar por uma mulher. Não pode chegar e dizer do que ela gosta, o que ela pensa, como ela tem que agir. Não pode dizer que as coisas são assim mesmo, que isso é tudo natural, "agora fica de quatro que eu quero lhe usar".

É isso que esse texto do Pondé faz. Ele diz que a mulher tem que ficar de quatro. Começa já no título. Ele diz que consciência social é novo ramo da astrologia. Ele, homem, quer proteger a mulher do feminismo.

É merda demais pra quem tem um currículo Lattes tão grande.

E eu dediquei espaço demais pra um cara que não merece.

Enfim... se você quer conferir na íntegra as palavras do filósofo, ensaísta e escritor Luiz Felipe Pondé em sua coluna na célebre Folha de São Paulo, clique aqui.

E tenha um bom dia.

quarta-feira, junho 05, 2013

Bom dia. Voltei.

Hoje de manhã eu acordei.

Pra valer.

Acordei sozinho no meio da minha bagunça, da minha sujeira. Com a sensação de estar acordado mesmo, sabe? Estar desperto. Fazia tempo que eu não tinha essa sensação.

Minha vida está assim: tem muita coisa bacana. Mas também tem muita coisa de que eu não gosto.

Tem muita coisa que eu queria fazer e não posso.

E tem muita coisa que eu não queria fazer e preciso.

Daí hoje de manhã eu acordei. Acho que estar desperto tem algo a ver com um certo espírito de "foda-se". Não é um "foda-se" frustrado, cheio de raiva, agressivo. É mais do tipo "ah, foda-se". Nhé.

Assim, tipo "puxa vida, preciso escrever esse texto que eu não quero escrever". Não quero escrever, mas preciso. E tem aquele peso nos ombros: "ah, mas precisa ser um texto bem bacana, precisa ser bem legal, tem que ser nota 10". E aí entra o "foda-se". Quem disse que precisa ser nota 10? Quem disse que precisa ser perfeito?

Quem falou que tem um jeito certo de viver a vida?

Tem que fazer a porra do texto. Então vou fazê-lo. Escreverei um texto, não "Os Irmãos Karamazov". Escreverei um texto, não uma revolução conceitual que será meu legado pra humanidade. É só a bosta de um texto. Caguei pra nota 10. Qual é a nota mínima que precisa? Sete? Tá bom pra mim.

Porque o que fode com a gente não é a exigência dos outros, as obrigações externas, os compromissos que assumimos. O que sempre fode com a gente é a nossa própria necessidade de tirar 10. De sermos amados. De sermos únicos e especiais. E daí vem todo o medo de não conseguirmos isso.

O que fode tudo é a nossa própria cobrança. A nossa própria busca de um 10 idealizado e inalcançável.

Acordei essa manhã e me liguei que faz tempo que não sinto medo. Faz tempo que não me importo se uma coisa vai dar certo ou não. Porque se pra dar certo precisa ser nota 10 o tempo todo... bom, isso não me interessa.

Não me interessa ter certezas, não me interessa se você ainda vai estar comigo amanhã, não me interessa se eu vou conseguir terminar o artigo ou se eu vou conseguir terminar o meu gibi, meu tão querido gibi, a tempo pro FIQ em novembro.

Só me interessa que eu estou acordado. É um dia lindo e eu estou acordado. Tenho trabalho para fazer. E vou fazendo. E vou folgando também.

Ainda estou aqui pra você. Aproveite.

Faz tempo que me encheu o saco sentir medo das imperfeições, das sujeiras. Faz tempo que o medo sumiu.

E só me dei conta disso essa manhã.

Quando acordei.

segunda-feira, abril 08, 2013

Reflexões sombrias sobre a arte de viajar longe sem chegar a lugar algum

Por quê?

Pra quê?

Vai chegar uma hora em que você vai se perguntar isso. Não importa quem você seja. Não importa onde você esteja.

Subindo a montanha, as costas doendo, nem sentindo mais os pés, nem chegou na metade do caminho, começa a chover. Por que eu vim? O que eu estou fazendo aqui?

"Viagem" é uma ótima metáfora. Serve pra vida, serve pra processos de trabalho, serve pra quatro anos vividos (ou passados) dentro de uma faculdade (ou um doutorado). Serve pra casamentos.

Dizem os sábios que o que importa é a "viagem". Melhor viajar do que chegar lá.

Se encaramos viagem como uma metáfora da vida, eles tem razão. A gente sabe onde vai chegar. Se tiver sorte, se não topar com um enfarto, um câncer ou um acidente de trânsito, a gente morre velhinho, com uns setenta, oitenta anos. Olhando pra fotos antigas e olhando pro espelho e pensando "foi uma viagem muito massa!"... se tiver sorte.

Muitas vezes a viagem é um processo. O longo trabalho de escrever um livro, de produzir um filme, de fazer uma história em quadrinhos longa... Não importa muito se o negócio vai ser um "sucesso" ou não. O que importa é a viagem. Colocar no papel, FAZER ACONTECER é uma coisa bem pessoal. Trazer pra existência aquilo que antes tava só na nossa cabeça.

Só o viajante pode dizer que a viagem vale a pena.

Eu acredito que na maioria das viagens você, viajante, só terá certeza que valeu a pena depois que ela terminar. E talvez nem mesmo aí.

Dizer que a viagem vale a pena é saber que a memória de todos os bons momentos (a vista, a paisagem, as pessoas que você conheceu) supera de longe a lembrança de todos os momentos ruins (desconforto, sacrifícios e as pessoas que você conheceu).

Sempre tem o lado bom, sempre tem o lado ruim.

E sempre tem aquele momento que você pára e pensa "por quê?".

"Por que eu vim?"

"Será que dá pra eu voltar?"

"Parecia uma boa ideia na hora..."

Talvez ajude pensar que algumas viagem se justificam pelo destino em si. São viagens desagradáveis, desgastantes que vão se justificar só quando terminarem.

Talvez ajude pensar que se parar a viagem, você terá que fazer todo o caminho de volta e no fim terá perdido seu tempo (ou algo mais) de qualquer jeito.

Ou talvez chegue uma hora em que você já não saiba mais qual é o prejuízo maior: voltar ou seguir até o fim.

Não tem como saber. Só indo até o fim.

Afinal, viajar longe sem chegar a lugar algum é exatamente como esse texto: não dá pra saber se vale a pena se a gente não for até o fim.

Cada viajante terá sua própria e única resposta.

E vamos em frente.

terça-feira, março 05, 2013

Parece mágica

Uma coisa bacana que aconteceu pra mim esse ano foi que me passaram uma turma de desenho pra eu dar aula.

O tema das aulas é desenho da figura humana e pra mim foi um presente. Sempre gostei de desenhar e tenho uma biblioteca bem bacana sobre o assunto, mas nunca me dediquei assim com empenho, sabe.

Uma das melhores maneiras que tem pra você aprender bem uma coisa é quando você precisa ensiná-la pra alguém.

Acho que a turma vai indo muito bem, fico feliz com os resultados e o interesse do pessoal.

Outra coisa bacana é a pesquisa pra achar materiais e exemplos pra levar pra eles e foi aí que encontrei esse vídeo. Olha que maneiro:



Que show, hein?

O legal é essa mágica. Afinal, são só manchas, traços, rabiscos no papel. Só isso. E o que monta a imagem, o que torna tudo isso algo reconhecível, somos nós os observadores.

Bom lembrar disso na hora de aprender a desenhar. São manchinhas no papel. É só saber trabalhá-las pra mágica acontecer. E pra fazer isso, é só praticar, estudar, treinar.

Pra quem tiver interesse, tem o blog da disciplina de desenho que leciono aqui.

segunda-feira, março 04, 2013

Beyruth


Sábado passado tive o prazer de mediar um bate-papo e sessão de autógrafos com o Danilo Beyruth lá na Itiban.

Se você não conhece, Danilo é o cara que escreveu e desenhou a graphic novel do Astronauta, o primeiro de uma série de álbuns em quadrinhos que oferecem novas e ousadas releituras dos personagens do Maurício de Sousa. Vale muito ler esse álbum pra ver como Beyruth redesenhou o fofo Astronauta da roupa de kinder-ovo e pegou as características básicas do personagem (solidão, impulso por desbravar o desconhecido, saudades da família e da namorada) pra montar uma história super-bacana.

Antes disso, Danilo tinha feito o Bando de Dois, uma história em quadrinhos sobre os dois sobreviventes de uma quadrilha de cangaceiros. Esse álbum fez um sucesso danado e agradou em cheio a crítica, porque Danilo usou muitos elementos dos filmes clássicos de western pra contar sua história cheia de ação.

E eu já curtia o trabalho do Danilo desde o Necronauta, que eu acho um dos personagens mais bacanas já criados aqui no Brasil. Adoro.



Durante o bate-papo, o homem me deu uma boa aula sobre quadrinhos.

Falou sobre mercado de quadrinhos, sobre Jack Kirby e sua arte, sobre as similaridades entre Jim Steranko e Guido Krepax...

Mas a coisa que mais me marcou foi quando ele contou sobre sua rotina profissional.

Danilo Beyruth não vive de fazer quadrinhos. Adora fazer quadrinhos e procura lançar um álbum por ano, mas não é isso que sustenta a ele e sua família. Ele trabalha em uma agência de publicidade.

E quem conhece a rotina de uma agência de publicidade, sabe como é: uma corrida insana marcada por muito trabalho. "Mas e aí", perguntei, "como você faz pra produzir?".

"Desenho os quadrinhos na hora do almoço", ele respondeu.

"Tenho duas horas de almoço. Saio pontualmente ao meio-dia e como o mais rápido possível. Volto com cerca de uma hora e meia pra desenhar as minhas hqs. Fora isso, toda vez que pinta um espaço entre um trabalho e outro, estou desenhando. E, às vezes, à noite, em casa. Eu gosto muito de fazer quadrinhos e, parando pra pensar, não sei o que eu fazia com o meu tempo antes. Se gastava assistindo tv ou coisa assim. Quando o trabalho na agência está muito pesado, eu gosto ainda mais, porque quando paro pra fazer os quadrinhos sinto como aquilo é legal e me faz bem".

Sinceramente, curto muito o trabalho do cara e escutar ele contar  essas coisas, sobre como ele consegue produzir no meio da loucura do dia a dia, me inspirou um bocado.

Porque, no fim, acho que cada um de nós tem alguma coisa que nos faz feliz e muitas vezes deixamos ela pra trás, abandonamos porque não "temos tempo".

Aprendi muito nessa tarde.

Valeu!