sábado, dezembro 16, 2006

Um provérbio

O homem planeja e Deus ri.

Uma canção

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

(Roda Viva. Composição de Chico Buarque.)

Dois pontos de vista

Dá pra largar tudo isso, sabia? As coisas continuam funcionando sem você. É inacreditável quanta dor de cabeça dá pra arranjar se a gente procurar. E é inacreditável quanta dor de cabeça dá pra se livrar se a gente supõe que tudo vai, de um jeito ou de outro, se resolver sozinho.

***


Regras e responsabilidades. Estes são os laços que nos unem. Temos que cumprir nossas obrigações por causa do que somos. Se agirmos de outra maneira, não seremos nós mesmos. Nós fazemos escolhas. Mais ninguém pode viver nossas vidas por nós.

(Sandman, texto de Neil Gaiman)

Um comentário

"Responsabilidades". Você usa tanto essa palavra. "Responsabilidades". Já parou pra pensar no que ela significa? As coisas que nós fazemos têm ecos. Imagine só, nossa existência deforma o universo. Isso é responsabilidade.

(Sandman, texto de Neil Gaiman)

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Reflexões

Espelhos nos banheiros, espelhos nos elevadores. Na cadeira do cabeleireiro, nas academias. Rápidos olhares nos espelhos convexos das lojas. Espelhos de bolso, seus olhos olhando para você mesma da palma de sua mão. Todo mundo conversa, vez ou outra, com seu reflexo no espelho. O que distingue as pessoas é a natureza dessas conversas. Do comentário rápido e impensado sobre a aparência até os longos diálogos sem palavras nos primeiros minutos da manhã. Estou gorda demais, meu cabelo está caindo, hoje estou simplesmente sensacional, esta blusa é horrível. O seu reflexo é o seu juiz. Você olha nos olhos daquele que é e não é você e ele dá seu veredicto. Ah, e tem aqueles momentos que você foge dos espelhos, foge como quem foge de um credor, de um policial, de um pai furioso. O que se conversa com o espelho nessas horas? O que os olhos (que são uma sombra dos teus próprios olhos) te perguntam? Do que eles te acusam? O espelho é mágico e a mágica acontece dentro de nossas cabeças. Vemos um efeito ótico, um simplíssimo jogo de luzes explicado em qualquer livro de física básica. Mas na nossa cabeça, aquela imagem somos nós. Nossa própria sombra, com olhos para nos aprovar ou condenar. A mágica acontece dentro da nossa cabeça, nós fazemos acontecer.

E vemos aquilo que queremos ver.

O ANO DO CÃO

De acordo com o horóscopo chinês, este foi o ano do Cão. Segundo o que ouvi numa noite de bebedeira em meados de janeiro, o ano do Cão seria particularmente difícil, mas todas as conquistas realizadas neste ano seriam duradouras e sólidas. Era uma noite de bêbados, então esta informação é duvidosa e precisaria ser confirmada com fontes mais confiáveis. Entretanto, minha experiência pessoal confirma pelo menos a parte do “particularmente difícil”. Muito dessa dificuldade provavelmente foi culpa minha. E quanto às conquistas sólidas e duradouras, acho que ainda é meio cedo pra dizer. Hora de fazer balanço. A famosa retrospectiva de fim de ano.

Uma noite, acho que em abril, eu fui assistir a uma conversa com a escritora Fernanda Young. Eu só tenho certeza de que foi uma quarta-feira, no teatro da Caixa. Eu li um livro da Young e gostei. Não conhecia ela direito, imaginava que ela fosse uma pessoa meio esnobe ou cheia de chiliques. Eu me surpreendi. Ela me pareceu ser sincera e bem legal. Uma pessoa legal, entende? Gente finíssima. Gostei muito dela, como pessoa mesmo. Daí em determinado momento da conversa, ela comentou algo sobre literatura não poder ser autobiográfica. Talvez não tenha sido bem essa a intenção dela, mas me lembro de ela ter dito algo como “ah, eu não ia fazer autobiografia, eu queria fazer literatura pelo amor de Deus” ou algo assim. E uma das coisas que mais pensei nesse ano foi em fazer literatura. Seja lá o que isso for. Enfim, a Fernanda Young disse aquilo e pouco tempo depois caiu na minha mão o livro do Bukowski, O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio. Esse livro é um apanhado das anotações do diário de Bukowski, nos seus últimos dias de vida. Pelo menos, é o que dizia no textinho nas costas do livro. Dizia que eram notas de seu diário pessoal e que eram literatura de primeira. De repente me ocorre que tudo que eu li naquele livrinho pode ter sido realmente ficção. Tudo inventado pelo Bukowski. Ou por alguém que assina “Charles Bukowski”. E que diferença faz? Eu lia esse livro e podia ver o velho sentado na minha frente, dizendo “se você quer mesmo escrever, ninguém pode te impedir. Se você quer mesmo fazer qualquer coisa, ninguém pode te impedir”. Fiquei muito impressionado com isso, com a riqueza dos pequenos detalhes do cotidiano do velho, dos seus gatos mijando no computador, dos cochilos na piscina, nas arrastadas tardes no hipódromo. Com a honestidade dele. Literatura ou autobiografia? Não sei. Esse ano também comecei a fazer mestrado e conheci uns autores sensacionais, inclusive uma dupla chamada Bakhtin e Voloshinov, que diziam coisas muito interessantes sobre a relação da produção artística literária com a vida cotidiana, com a unicidade de cada momento da existência de cada um. Mas não vou te aborrecer com detalhes.

Esse ano pensei muito em fazer literatura.

Seja lá o que isso for.

Ontem brinquei de desenhista, num evento de embalagens, cheio de gente, em um lugar em que eu nunca tinha estado. Foi muito divertido. Enquanto ia no ônibus, relia uma história de um gibi do Sandman, sobre uma cidade mítica cuja população inteira se dedicava a ritos funerários. Em um determinado momento, um dos personagens dizia “Todos os rituais nos ajudam a dizer adeus. Nós temos que dizer adeus. Esses ritos também têm outras funções. É uma temeridade sermos assombrados pelos que já amamos. É uma temeridade assombrarmos os que amamos”. Verdade.

Existe uma razão que me fez começar a escrever esse blog. É uma razão bem óbvia, você pode encontrá-la nas entrelinhas de uma série das 63 postagens que fiz aqui. É uma razão que foi se transformando, mudando e que implicou em uma série de atitudes que tomei esse ano, algumas das quais me orgulho, outras que me arrependo. Um ano atrás existiu uma razão que me fez começar a escrever esse blog, mas agora existem muitas outras razões que me fazem continuar a escrevê-lo. Muito embora eu não saiba explicar bem quais são.

Olhando para trás, foi um ano excelente, cheio de viagens e histórias boas para se contar, cheio de oportunidades boas para viver. Esse ano eu conheci uma série de pessoas legais e fiz bons amigos e aconteceram coisas maravilhosas. Esse ano eu vivi legal. Mas também foi um ano particularmente difícil. Acho que não disse adeus do modo adequado quando precisava. E nem sei se existe um modo adequado de dizer adeus. Isso ainda me perturba.

Esse sábado eu assisti um filme sensacional chamado O Grande Truque. É a história de dois mágicos rivais na Londres do fim do século XIX. Os mágicos são Wolverine (Hugh Jackman) e Batman (Christian Bale). Tem também o Golum Smeagol (Andy Serkis) e o David Bowie (David Bowie, mas nesse filme ele faz o papel de Tesla). E o Michael Caine e a maravilhosa Scarlett Johanson. O diretor é o Christopher Nolan, que já fez Amnésia e Batman Begins. Bom, posso dizer que achei o filme sensacional. Não só pelo filme em si, mas pelo meu momento. O filme fala muitas coisas sobre o que é um show de mágica, sobre a relação do público com o espetáculo, a relação do artista com sua obra. Uma metáfora bacana que se estende pra literatura, arte e qualquer outra coisa que se queira fazer da vida. É só saber o que se quer ver. E o filme é sobre como as pessoas vêem o que querem ver. Sobre sacrifício e dedicação. Talvez sobre a construção de um sentido para a vida, que depende de cada um. Amor e família para uns, arte para outros, sacrifício para todos. Quem sabe? Você começa o jogo e tem tantos caminhos diante de si, mas quando termina e olha pra trás vê só uma trilha. Vê aquilo que quer ver.

Uma vida pode ser um livro, pode ser um show de mágicas, pode ser um longo adeus. Pode ser tanta coisa.

Balanço de fim de ano. Eu olho pra trás agora e me orgulho de muita coisa e me envergonho de outras tantas. Uma razão para começar, outras tantas que vão aparecendo e que nos fazem seguir em frente. Mas no fim o passado é só uma coisa dentro da nossa cabeça, que só faz sentido dentro da nossa cabeça. Como um sonho, um amor ou uma história.

E a única coisa a fazer é seguir em frente.

Mude a direção, se quiser, mas continue em frente.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

As coisas intangíveis que chacoalham as nossas almas


“Realidade é tudo aquilo contra o que esbarramos no caminho para a morte, portanto, é tudo aquilo que nos interessa”.
Vilém Flusser

De repente, a história do Orpheus vem na minha cabeça. Orpheus, o filho do Morpheus. Morpheus, o Sandman. Tá ligado? Sandman, cara, simplesmente o quadrinho mais bacana que lançaram em toda a década de 90! Sandman, o Senhor dos Sonhos, escrito pelo Neil Gaiman com as capas alucinantes do Dave McKean! O Sandman, cara! Então, ela está ali comigo, estamos no quarto da bagunça dela, tem partituras pelo chão, um gato branco, completamente branco, de olhos amarelos, tá sentado no batente da porta, as pupilas são duas fendas, duas adagas fixas em mim, parece um diabinho branco, um homúnculo saído de algum pesadelo, parece que ele vai me dizer alguma coisa, vai falar uma frase, uma sentença que vai me enlouquecer, transfigurar minha alma, vai me transformar em uma coisa insana e indescritível presa para sempre sob a carne humana. Com uma frase. O nome do gato é Leopoldo. Foi o que ela me disse. Descrevi o gato e ele é só um detalhe deste cenário, deste momento. O quarto dela, a chuva murmurando baixinho na janela, as partituras pelo chão, o gato sentado na porta feito um vulto branco recortado na penumbra. Uma parede é feita só de livros, ela lê, ela lê poesias, lê pra mim, rostinho perto do meu e ela é linda. Eu a desenhei outro dia num café. Ela era linda, linda, linda, sabe, o tipo de beleza que te faz suspirar “meu deus” porque não tem mais nada que se possa dizer. E ela estava lá, peguei meu bloco e comecei a desenhar, desenhar, desenhar. Nunca fiz isso, desenhar assim em local público, não faço essas coisas, sou muito chato comigo mesmo e não consigo ser espontâneo, mas naquela hora eu não conseguia ser chato, não conseguia ter medo de que o desenho não ficasse legal, não conseguia tremer, eu só desenhava, só enxergava ela e de repente o desenho tava pronto na minha frente, o desenho de uma mulher linda que eu não conhecia e quando me dei conta, eu tava na frente dela, “licença moça, desculpa te incomodar”, ela tava lendo, olhou pra mim, passei o desenho pra ela, “fiz pra você”, e ela fez aquela cara de assombro, aquele rosto lindo se abrindo numa expressão de assombro e eu fiquei com um puta orgulho de mim mesmo, porque, foda-se a modéstia, o desenho tinha ficado bom, bom pra caralho. E agora o rostinho dela está tão perto do meu, tão perto, e ela tem um violão sobre o colo que agora a gente está usando como mesinha pras taças de vinho, o chão forrado de músicas, o gato em guarda na porta, o murmurinho da chuva, a parede inteira de livros e ela lê uma poesia, lê uma poesia sobre a morte. E eu estou ali, sentado, saboreando cada segundo antes do beijo, o primeiro beijo, gravando cada detalhe da cena, bem no fundo da minha cabeça. A poesia sobre a morte. A voz dela e a chuvinha. Uma tarde de domingo. A poesia sobre a morte.


“As pessoas são como poesias” eu falo sem pensar, nem sei se sou eu falando, ela olha pra mim. Como contos, como poesias, de repente as pessoas entram em nossas vidas com uma frase solta, uma sentença sem compromisso, que é seguida de outra, de outra, de outra e quando vemos estamos imersos num poema vivo, numa história que enche nossa realidade de sentido. Frase após frase, momento após momento, e tudo criado tem um fim. O livro vai se tornando mais fino, vemos um espaço em branco no fim da página, e vem o fim, esperado ou não. O fim. E podemos ler e reler o poema, o conto, mas aquele momento, aquele primeiro momento nunca mais se repete. Pessoas são como poemas. O encanto acontece em um momento que nunca mais se repete. Ela olha pra mim, estamos embalados no vinho, mas ela não sorri, ela olha pra mim, ela olha pra mim e eu penso em Orpheus. Orpheus, que desce às profundezas do reino dos mortos para buscar a mulher que ama. A mulher que ama, que morrera na véspera de seu casamento. E o Senhor dos Mortos diz que ele pode voltar para a superfície, que sua amada estará atrás dele, seguindo-o como uma sombra, mas que em hipótese nenhuma Orpheus deve olhar para trás. “Não olhes para trás”. E ele segue o longo caminho de volta para o mundo dos vivos, horas de caminhada sem ouvir absolutamente nada atrás de si, nem passos, nem suspiro, nem coração. E quando chega à superfície, certo de que foi logrado pelo Senhor dos Mortos, ele olha para trás. No último minuto, ele olha para trás e vê a mulher que ama, a mulher que ama, desaparecer nas trevas para sempre, como um poema que termina repentinamente, um poema rasgado que se repete indefinidamente em sua alma, eternamente voltando, eternamente olhando para trás. E eu a beijo. Sabor de vinho, garoa, música, poesia, pele, agora ela sorri. Um poema que talvez esteja começando ou talvez acabe antes do anoitecer.

E me ocorre que talvez não seja tão fácil dizer exatamente quando um poema começa.
Ou quando não se deve olhar para trás.

(No topo, ilustração de Dave McKean para a revista Sandman número 1)

Um pouquinho mais sobre o Sandman



Existem os fãs. De Senhor dos Anéis, de Lost, de Arquivo X, de Star Trek. Mas os fãs mesmo. Sabe o que é um fã de verdade? Sabe quando você encontra um livro, uma história, que parece mais real do que a vida real? Sabe quando os personagens saltam das páginas, tornam-se palpáveis, caminham ao seu lado durante as horas mais claras do dia, fazem você tropeçar nas coisas e de repente o mundo de fantasia tem muito mais vida e cor do que a rotina opaca do seu cotidiano? Não se trata de escapismo, não se trata de fugir da realidade, mas imaginar a possibilidade de outras realidades. Repensar a realidade usando como ferramentas palavras, imagens e imaginação. O limiar entre o louco e o visionário, entre o sonho e o despertar. Como se nas entrelinhas da ficção se escondesse uma chave, uma resposta para uma pergunta que nem se sabe formular direito. Enfim, eu sou o que você poderia chamar de fã de Sandman. Sem dúvida.




Em novembro de 1989 a revista Sandman começou a ser publicada no Brasil. Eram histórias em quadrinhos escritas por um jovem escritor inglês chamado Neil Gaiman para a editora norte-americana DC Comics, a mesma que publica as histórias do Super-Homem e do Batman. A proposta da revista Sandman era retomar um personagem esquecido dos anos 40 e dar uma atualizada nele. Neil Gaiman reformulou completamente este personagem, mantendo apenas o nome. Sandman, no folclore europeu, é tipo um ser mágico, estilo Papai Noel ou Fada dos Dentes, que joga areia nos olhos das crianças para fazê-las dormir e lhes trazer bons sonhos. O personagem dos quadrinhos dos anos quarenta era um detetive que usava chapéu, máscara de gás e uma pistola que disparava vapores que faziam as pessoas dormir. O personagem que Gaiman propôs foi uma entidade, que não era humana ou divina, mas um ser que era a personificação do conceito de sonhar. Esse personagem fazia parte da essência de todas as criaturas vivas e tinha muitos nomes e aparências físicas, dependendo de quem ou o quê o estivesse vendo. Assim, Sandman também era chamado de Morpheus, Sonho, Príncipe das Histórias, Rei dos Sonhos e muitos outros nomes e embora geralmente fosse descrito como um homem pálido de olhos brilhantes, também podia se apresentar como um gigantesco crânio flamejante ou um enorme gato preto.




Sandman era o Sonho e existiam outras seis entidades como ele, seus irmãos, os Perpétuos, que eram descritos como “idéias envoltas em algo semelhante à carne”, mais velhos que os deuses e as estrelas. Os Perpétuos eram Destino, Morte, Sonho, Desejo, Desespero, Delírio e o pródigo, um Perpétuo que abandonara a “família” e cuja identidade permaneceu um mistério por muito e muito tempo. Nas palavras de Neil Gaiman:

Os Perpétuos foram, eu acho, uma tentativa de criar deuses (embora eles não sejam deuses), personificações antropomórficas; uma metáfora incomum que poderia ser usada como um modo de ver o mundo. Mas, principalmente, uma tentativa de criar uma família que interagisse como uma família faz.



Em torno dessa “família”, Neil Gaiman construiu uma série de histórias em quadrinhos que se tornaram um sucesso de crítica e público como há muito não se via. Na revista Sandman, o fantástico e o cotidiano se entrelaçam em uma narrativa rica, cheia de detalhes,que mistura auto-referências, terror, literatura clássica, humor, poesia, romance, rock’n’roll, filosofia, religião, mitologia, misticismo, folclore, cinema, artes plásticas, personagens e fatos históricos reais. Em linhas gerais, esses eram os ingredientes de Sandman. Em suas histórias se alternam as perspectivas de seres sobrenaturais com pessoas comuns, surgem novos personagens e novos pontos de vista a cada momento. Em um momento estamos em um castelo que existe no coração do Sonhar, participando de um banquete entre deuses e seres fantásticos (Odin, Anúbis, fadas e demônios). Em outra hora, estamos em um apartamento vendo uma moça acordar no meio da bagunça, sozinha, pensando no que fazer do seu dia, na falta de dinheiro, no namorado que a deixou. E muitas vezes o cotidiano e o fantástico se tocam, quando, por exemplo, o casal de namoradas descobre que sua vizinha careta era na verdade a última representante de um círculo de feiticeiras com séculos de idade. Gaiman é um escritor muito talentoso, com uma prosa divertida e poética, e consegue construir personagens extremamente convincentes. Mais que isso, consegue fazer o leitor se importar com esses personagens. O autor ainda brinca com o tempo cronológico, com a sucessão dos eventos, com ações de personagens tendo repercussões sobre a vida de outros que nunca encontraram ou encontrarão, numa sutil e fascinante rede de auto-referências.O próprio Sandman, o personagem título, muitas vezes mal aparece nas histórias, sendo apenas um coadjuvante na própria revista e abrindo espaço constante para novos personagens, mundanos ou fabulosos, desfilarem em suas próprias aventuras. Na verdade, o tema central de Sandman é justamente a narrativa, a arte de contar histórias. Por isso, talvez, o jogo de Neil Gaiman em alternar e misturar narrativas do cotidiano com situações fantásticas. E talvez seja justamente esse o grande charme da série inteira.

No Brasil, a revista foi muito popular durante os anos 90, embora tivesse uma publicação irregular, com espaços de meses entre um número e outro. Nas duas vezes em que Gaiman esteve no Brasil (em 1995 e 2001) o número de pessoas na fila de autógrafos passou do milhar. (Sim, eu estava lá.) A versão brasileira era enriquecida com um encarte chamado HQ Press, que trazia sempre uma matéria sobre o tema da história da revista ou sobre as novidades dos quadrinhos pelo mundo. Nesse encarte foram publicados textos muito interessantes sobre a censura nos quadrinhos, a relação cinema e quadrinhos, a presença de temas como os sonhos, a violência e o sexo nas histórias e também análises de quadrinhos que hoje são clássicos, como V de Vingança de Alan Moore. A edição nacional também tinha o charme de apresentar nas costas da revista uma ampliação de um detalhe da capa. As capas de Sandman, aliás, eram um espetáculo à parte. Produzidas pelo designer/ilustrador/artista gráfico Dave McKean, as capas surpreendiam a cada número. Utilizando desenho, pintura, fotografia, colagem, McKean criou uma série de capas diferentes de tudo que já tinha sido visto no mercado de quadrinhos. Mais tarde, essas capas foram publicadas em uma coletânea, um livro encadernado que apresentava as capas e textos de McKean e Gaiman comentando as mesmas. Essa edição também foi publicada no Brasil.

A série Sandman teve 75 edições e uma edição especial. Não foi cancelada, mas sim encerrada por decisão do próprio autor. Gaiman achava que já tinha dito tudo o que queria com o personagem, e desde o começo tinha planejado encerrar a série, que enxergava como uma única e grande história. A última edição de Sandman, a número 75, foi publicada no Brasil em outubro de 1998.

Atualmente no Brasil, Sandman está sendo republicado em grandes edições encadernadas pela editora Conrad. Serão dez volumes, cada um trazendo uma série fechada de histórias. O preço é bem salgado, mas a qualidade da publicação é impecável. Claro que é bem diferente acompanhar a série encadernada e a sua forma de revista original. Muitas pequenas histórias foram lançadas em determinada ordem e depois coletadas num único volume (Fábulas e Reflexões), mas não é nada que comprometa o entendimento. Para quem tiver interesse, segue abaixo uma brevíssima sinopse de cada volume:

  1. Prelúdios e Noturnos: conta a história de um homem que queria aprisionar a Morte, mas por engano acaba capturando o irmão mais novo dela, Sonho. Após ficar encarcerado por 72 anos, Sonho escapa e parte na busca de suas ferramentas (um elmo, uma algibeira e um rubi) que haviam sido dispersas pelo mundo desperto.
  2. A Casa de Bonecas: A vida de Rose Walker muda quando ela encontra uma senhora que diz ser sua avó. Mais do que descobrir a verdadeira história de sua família, Rose também precisa lidar com a herança de sua avó, que além de muito dinheiro e uma casa de bonecas, inclui uma misteriosa condição.
  3. Terra dos Sonhos: Uma coletânea de quatro histórias curtas. Calliope é sobre um escritor e sua contrariada musa. Um sonho de mil gatos conta a história de uma inusitada revolução felina. Em Fachada, a Morte dá uma força para uma mulher triste e desesperada que não consegue morrer. Sonho de Uma Noite de Verão é a única história em quadrinhos que ganhou até hoje o World Fantasy Award, prêmio para o melhor da literatura fantástica. Aqui vemos uma apresentação do grupo de teatro de William Shakespeare para uma platéia incomum e descobrimos sobre um acordo entre o Rei dos Sonhos e o famoso escritor.
  4. Estação das Brumas: Provavelmente a mais inusitada, surpreendente e divertida história da série inteira. Sonho é obrigado a descer ao Inferno para libertar uma mulher que tinha sido vítima de um erro seu. Entretanto, há pouco tempo atrás, Lúcifer, o primeiro entre os caídos, tinha jurado destruir o rei dos sonhos. Ao chegar ao Inferno, Sandman se defronta com uma completamente inesperada forma de vingança. Além da participação de diversos deuses e criaturas mitológicas, encontramos pela primeira vez os seis Perpétuos reunidos.
  5. Um Jogo de Você: Barbie é uma garota confusa, passando por um período de crise emocional e financeira. Ela mora num prédio com uma série de vizinhos estranhos e sua melhor amiga é um travesti chamado Wanda. Embora não saiba disso, Barbie também é a Princesa e a última esperança de uma terra inteira à beira da aniquilação total. E de repente, os sonhos saem à luz do dia e ela não sabe mais o que é real.
  6. Fábulas e Reflexões: outra coletânea com diversas histórias curtas, entre elas a história de Orpheus, filho de Sandman com a musa Calliope. Há contos que se misturam a eventos e personagens históricos reais, como a Roma antiga ou a Revolução Francesa e ficções sobre o folclore cigano e a história fantástica da cidade de Bagdad. O volume mais heterogêneo de estilos e conteúdo da série toda.
  7. Vidas Breves: Sonho e Delírio saem pelo mundo desperto procurando pelo Perpétuo desaparecido. E o encontram. A essa altura da série, já sabemos que a dupla Sonho & Delírio por si só é impagável. Só isso já valeria a pena. Mas tem mais. Muito mais.
  8. Fim do Mundo: Em uma estalagem chamada Fim do Mundo, viajantes apanhados de surpresa por uma tempestade, se reúnem para passar a noite e esperar a borrasca passar. Para se entreter contam histórias. Convém dizer que dois desses viajantes vêm de Nova York. Os outros vêm dos mundos dos mortos, das lendas e dos sonhos. Ao fim da noite, descobrimos a verdadeira natureza da “tempestade”.
  9. Entes Queridos: O Reino dos Sonhos está sendo destruído. Sonho se vê diante de uma situação irrevogável. Deve pagar, e caro, pelo ato que cometeu em “Vidas breves”.
  10. Despertar: Um epílogo para os eventos de “Entes Queridos”. As coisas nunca mais serão as mesmas. E é o fim da série.

Além de Sandman, Gaiman escreveu duas mini-séries com a irmã mais velha de Sonho, a Morte, que se tornou uma das personagens femininas mais carismáticas de todos os tempos. Em 2003 foi lançado um livro contendo sete histórias inéditas dos Perpétuos, desenhadas por alguns dos artistas mais badalados dos quadrinhos da atualidade. O volume de luxo tem o título de Noites Sem Fim. É um pouco decepcionante, na minha opinião. Um dos fatos mais interessantes na história editorial de Sandman foi o controle que Gaiman conseguiu manter sobre sua criação, mesmo sem ter os direitos legais sobre ela (a posse dos direitos era da DC Comics). A popularidade do autor e sua ligação com o personagem eram tão fortes que mesmo com o sucesso de vendas, a grande editora consentiu que ele encerrasse a série sem ser substituído por outro escritor (fato comum no mercado de quadrinhos). Mais ainda, a DC foi extremamente tolerante com atrasos de meses entre uma edição e outra.

Enfim, isso era o que eu queria dizer sobre Sandman. Na verdade, tem muito mais coisas, mas eu vivo dizendo que o que estraga séries como Arquivo X, Star Trek, Lost e Senhor dos Anéis são os fã-náticos. Não sei se posso ser classificado como fanático por Sandman, nunca me fantasiei de Morpheus, nem tatuei o Talismã contra maus sonhos, mas tenho um apreço pela obra que é um pouco fora do normal. Enfim, se você leu até aqui, obrigado pela atenção e espero não ter saturado a sua paciência.

Bons sonhos.


Para saber mais:
  • www.sonhar.net

  • www.omelete.com.br/sandman
  • sexta-feira, novembro 17, 2006

    Quem é você?


    A Lagarta e Alice olharam-se por algum tempo em silêncio. Finalmente, a Lagarta tirou o narguilé da boca e perguntou, em voz lânguida e sonolenta:

    – Quem é você?

    Não era um começo de conversa muito animador. Um pouco tímida, Alice respondeu – Eu.. eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento... eu... enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.

    – Que é que você quer dizer com isso? – perguntou a Lagarta rispidamente. – Explique-se!

    – Acho que eu mesma não posso explicar – disse Alice – porque eu não sou eu, está vendo?

    – Não, não estou.

    – Acho que não posso explicar melhor – replicou Alice com polidez – porque eu mesma não consigo entender, pra começar. E depois, ter tantos tamanhos diferentes num dia só é muito confuso.

    – Não, não é.

    – Bom, não sei. Talvez a senhora ainda não tenha passado por isso – continuou Alice – mas quando tiver de se transformar numa crisálida... pois isso lhe acontecerá algum dia, não é?... e, depois disso, numa borboleta, tenho a impressão de que achará meio esquisito, não?

    – Nem um pouco.

    – Bom, quem sabe a sua maneira de sentir talvez seja diferente – disse Alice – mas o que sei é que tudo isso pareceria muito esquisito para mim.

    – Você! – exclamou desdenhosamente a Lagarta. – E quem é você?

    Lewis Carrol, Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Tradução de Sebastião Uchoa Leite.

    quinta-feira, novembro 16, 2006

    Try to believe



    “A fotografia...
    ...insinua o que se perdeu...
    ...constrói o labirinto entre o que foi e o que é...
    ...torna o vazio visível...
    ...se torna mais forte do que a memória...”
    Maria do Carmo Séren, Metáforas do Sentir Fotográfico.

    Uma bela manhã de sol.

    Um casamento em um restaurante. Olhos cheios de água, noivo nervoso, sorridente, trêmulo, em pé ao fim do longo tapete verde. Não vermelho, verde. Música. Daminhas de honra, convidados e convidadas. A noiva entra. Tão linda, tão feliz, tão nervosa, que, por incrível que pareça, quase erra o caminho, ignora o tapete verde e por um instante caminha para ele diretamente, através das mesas, através dos convidados. Por um instante. Eu devia ter fotografado. Estava com a câmara na mão, devia ter fotografado. Eu congelaria a imagem, mas precisaria explicar mais tarde o nervosismo da noiva, a energia que estava no ar, a história toda antes daquele segundo.

    Coisas que a máquina não pega.

    Ainda assim, tentamos capturar o momento, guardá-lo conosco. Mantê-lo em uma gaveta, sempre fresquinho, para olharmos pra ele e voltarmos àquele instante. Mas o instante não volta nunca mais e ficamos só com uma pegada na areia, um vestígio. All those moments are lost in the time like tears in the rain e aquela história toda. No meio das mesas, por entre os convidados, era engraçado ver os fotógrafos caminhando de um lado pra outro, capturando momentos como quem pega borboletas e as coloca em quadros. Era engraçado ver o pastor e os noivos agindo tão naturalmente enquanto o fotógrafo, segurando uma máquina que mais parecia uma arma, posicionava-se entre eles, mirava a objetiva em seus rostos e explodia o clarão dos flashes à queima roupa.

    A vida é muito engraçada. Esse tipo de coisa a máquina não pega.

    Eu conheci o noivo no comecinho da década de 90. Éramos garotos. Durante a semana tinha as aulas de Eletrônica naquela usina de loucos chamada Cefet. Protoboards, resistores, cálculos fudidos que ninguém entendia direito. Entre as aulas arranjar tempo pro primeiro emprego. Aliás, o primeiro subemprego, chamado estágio, em que éramos formatados, massacrados e preparados para o mercado de trabalho. Pressão, pressão, pressão. “Não se pode fazer omelete sem quebrar ovos” dizia o professor enquanto passava listas de exercícios impossíveis de resolver e que nos tomavam todo o fim de semana. “Lembrem-se, vocês fazem Eletrônica. Vocês são a nata da elite” dizia outro professor. Aos 16 anos tínhamos de ser maduros e responsáveis. Ali, naquele momento, você fazia a sua escolha. Ou fazia parte dos responsáveis, das pessoas sérias e maduras... ou você estava do nosso lado.

    Éramos a nata da escória.

    A noite era nosso turno. De noite estávamos vivos de verdade. Shows punks, garrafas quebradas no asfalto, acidentes espetaculares de moto, gargalhadas. Fazer vaquinha pra comprar garrafão de vinho no AM PM. Acordar às 10 horas da manhã no gramado da praça Eufrásio Correa sem tênis, sem saber como tinha se chegado lá. Filmes pornográficos, filmes do Pasolini, filmes da Catherine Deneuve. Poesias malditas, Nick Cave, David Bowie, Garotos Podres. Longas conversas madrugada adentro, sentados no meio-fio, bebendo cachaça, fumando maconha, olhando as janelas apagadas dos prédios, imaginando os sonhos das vidas empilhadas. Esperneando o quanto podíamos, tentando acreditar que estávamos fora do Grande Sistema.

    Mas ninguém escapa.

    Ainda assim nos divertíamos. Muito. Os Garotos Perdidos que Não Queriam Crescer.
    E o grande clichê: os anos passaram. A vida aconteceu e não nos vimos por muito, muito tempo.
    Uns seguiram com a Eletrônica, Engenharia e tal. A maioria partiu pra tentar Direito, Administração ou outra coisa qualquer. Eu fiz o tal do Design, porque eu podia desenhar e tinha umas gurias muito interessantes. Novas galeras, novos papos, decepções, alegrias e tal. Virei empresário, abri escritório. Era sócio, dono de parte do negócio. Isso significava trabalhar 12 horas por dia de segunda à sexta, mais quantas horas fossem necessárias no fim de semana. Negociava com empresários burros feito porta que não sabiam diferenciar um ilustrador de um vendedor de detergentes. Uma vez, um deles me disse sorrindo: “Não se pode fazer limonada sem espremer alguns limões”. Espremer até sobrar só bagaço. Não sei se a vida é dura ou se eu sou mole demais. Talvez os dois. Talvez eu ainda fosse o garoto que não queria crescer, que queria ainda estar na noite, vivendo, aprontando, barbarizando. Mas eu tinha responsabilidades. Enfim...

    Era 2003 e de repente nos encontramos num terminal de ônibus. Eu e o meu velho camarada da época de eletrônica. Eu tinha tido uma semana longa e desgastante. Mas naqueles dias de escritório todas as semanas eram longas e desgastantes. Estava no terminal, tinha descido do ônibus – sim, eu era empresário, mas depois de dois anos de empresa não tinha carro, e acho que pode se dizer que eu era um limão mal-sucedido – então, eu tinha descido do ônibus, não sabia o que fazer, não sabia pra onde ir, ia voltar pra minha quitinete, me enfiar embaixo da cama e tentar dormir até morrer, quando (a vida é cheia de surpresas!) ele tocou no meu ombro. Velhão! Há quanto tempo, como é que tá, que tá aprontando, e tal. Coincidência: descobri que meu velho camarada morava no prédio na frente do meu. A gente tinha se mudado mais ou menos na mesma época e só depois de mais de um ano que por acaso nos encontramos.

    Reencontrar os velhos amigos foi muito bom.

    Eles tinham passado por maus bocados. Falecimento dos pais, falência nos negócios, desemprego. O maravilhoso mundo adulto. A vida marvada. Por um tempo, voltamos a fazer as velhas coisas. Nos agarramos às velhas coisas. Shows, filmes, peças de teatro, bebedeiras. Saíamos pra fotografar, escrevíamos poesias. Claro, isso tudo quando dava tempo. Mas é engraçado, não era mais como antes. Lógico que nunca seria mais como antes. Era hora de arrumar emprego, casar e sossegar. Isso era maturidade, não?

    Naqueles dias costumávamos sair pra caminhar. Caminhávamos quilômetros, literalmente. Sentíamos angústias, falta de perspectiva, toda aquela conversa existencialista. E não víamos muitas possibilidades de sair daquela. Aqueles foram nossos dias no limbo. Acho que era hora de crescer, só não sabíamos ainda como. A última aventura que aprontamos foi uma longa viagem pelo Rio Grande do Sul, passeando pelos cânions, degustando vinho, explorando cavernas, almoçando na beira da estrada, curtindo praias. Foram duas semanas de algo muito parecido com um road movie, só que fizemos isso bem antes de pensarem em filmar Sideways.

    E depois disso, novamente, o tempo.

    Um a um foi sossegando, colocando a cabeça no lugar, entrando na linha. Uns encontraram sossego na Igreja. Outros no trabalho mesmo. Todos arranjaram uma namorada que seria a última namorada, a companheira para todos os finais de semana e todas as noites do resto da vida. Ou algo assim. E já não nos víamos mais de novo. Longo período de silêncio até que um dia meu amigo me convidou para o seu casamento. Que está acontecendo agora, diante de mim. E tudo isso me vem à cabeça, enquanto eu também fotografo, engarrafo momentos, com uma camerazinha de plástico.

    Uma sensação engraçada pra caramba.

    Um sorriso estranho, mas sincero.

    Faz muito tempo que eu deixei o escritório pra trás.

    A tal da maturidade. Talvez maturidade seja reconhecer que não há álibi para existência. Talvez maturidade seja assumir que a vida, mais do que uma sucessão de momentos, é uma sucessão de escolhas. E nós temos a responsabilidade por essas escolhas. Nós e mais ninguém.

    Uma sensação engraçada pra caramba.

    Ele beija a noiva, todos aplaudem. Na minha mesa, todos têm seu par. E eu tenho um oceano de possibilidades diante de mim.

    Lá fora faz um lindo dia.




    It's so hard to find an answer
    It's so hard to stand alone
    It's so hard to find a feeling
    That was buried long ago
    It's so hard to trust another
    When it's easier to hide
    It's so hard to believe
    Unless we try baby try

    (…)

    If we listen to the voices that were silent for so long

    If you thought they went away, well you couldn't be more wrong
    If I tell you there is something that we've lost but can retrieve
    If I tell you there is hope, if we try to believe
    You remember there's a dream that we long since put aside
    With the toys that we discarded
    And the tears we never cried
    We could have had it once again, if we try baby try

    Danny Elfman, Try To Believe, executada por Mosley & the B-Men

    quarta-feira, novembro 01, 2006

    escute...

    Quando você ouvir a Voz, quando você sentir que deve escrever, escreva.
    Simplesmente escreva.
    Naquela hora, naquele momento.
    Faça ou será assombrado para sempre por todas as idéias que não ganharam espaço neste mundo.
    Como lembranças que não são lembranças, como sonhos que nos assombram e não nos pertencem.
    Escreva.

    E arque com as conseqüências.

    quarta-feira, outubro 25, 2006

    A heartbeat that never comes to rest

    Eu tinha oito anos de idade quando matei meu irmão. Ele tinha sete. A gente tava brincando em cima de um muro, na frente de casa. Era um muro de tijolo, calfinado. Devia ter um metro de altura, um metro e vinte mais ou menos. A gente tava em cima desse muro, brincando de se equilibrar e daí a brincadeira passou a ser quem derrubava o outro. Ele me derrubou. Ele ria de mim. Agarrei os calcanhares dele e puxei com raiva. Ele bateu a cabeça no chão de concreto e morreu. Chorei, me apavorei, abracei meu irmão e ele era feito um brinquedo quebrado pra sempre. Chorei, gani feito um cachorro, com medo, com dor, por ele ter morrido, pelo que seria de mim. Daí veio minha mãe, correndo pra acudir o que não tinha mais solução.

    Foi por causa do meu irmão que eu comi a Letícia. Ah, eu tinha 16, ela 18. Ela tinha uns peitões, não me lembro de mais nada dela a não ser os peitões. Aquele cabelo preto lindo caindo por cima daquelas tetas maravilhosas. Então, estávamos acampando lá no Marumbi. Tínhamos saído com uma galerinha, um bando de moleques que fumava e bebia e se achava foda pracarai. Naquela noite ainda, o Limão ia quebrar as pernas e perder quatro dentes por descer correndo o morro bêbado. Mas ele teve mais sorte que outros. Antes do Limão fazer a cagada, a gente tava em volta da barraca, bebendo Velho Barreiro com Coca, fumando, contando história, rindo. Acho que era uns seis piás e umas quatro gurias. A Letícia era uma delas. Eu tava de olho nos peitões dela, não tinha como não estar. Gostosa. Eu ainda era cabação e tava de olho naquelas tetas. Daí a galera começou a fazer aquele joguinho de perguntas, sei lá como se chama.
    “Já beijou?”
    “Já.”
    “Já deu?”
    “Já.”
    “Já deu beijo grego?”
    “Que que é beijo grego?”
    “Quá quá quá” e a galera se matava de rir. E no meio dessas besteiradas todas começaram os papos cabeça e de repente alguém perguntou “Já matou alguém?” E eu já tinha matado. Eu tava bêbado e chapado. Disse que sim. Já tinha matado. E foi meio estranho porque o pessoal ficou meio quieto, sei lá. E daí eu percebi que tava meio que chorando. Tipo, as lágrimas escorriam do meu olho, mas eu não parecia tá chorando. Eu não sentia que tava chorando. Uma coisa meio estranha, não sei explicar direito. Mas daí eu levantei e saí de perto do pessoal. Fui pro mato, sentindo coisas dentro de mim que não entendia direito. Olhava pra lua lá em cima, pra escuridão do mato. Pensava nas músicas do Legião, na galera correndo pra atravessar a ponte antes do trem passar, no sol brilhando verde nas folhagens da serra. E de repente comecei a soluçar. Ele nunca ia ver isso. O meu irmão.

    A Letícia de repente pôs a mão no meu ombro e quando vi eu tava chorando naqueles peitos mais lindos do mundo. Num lembro direito mais do que aconteceu. Acho que começou com ela me fazendo carinho, eu beijando, sei lá. Mas foi bom. Fizemos ali mesmo, em cima das pedras. Chupei aqueles peitos, ela me chupou, fiz tudo a que tinha direito. Acordamos pelados, um no outro, o sol queimando a gente, os gritos do pessoal dizendo que o Limão tinha se fudido. Ressaca, vômito.

    Depois disso, eu e a Letícia sempre sorríamos um pro outro, mas nunca mais rolou nada, nem papo, nem amizade. Foi esfriando, a gente foi esquecendo.

    Hoje tenho 24 anos. Levei minha mulher pra fazer ultra-sonografia. Tô vendo uma mancha na tela e o doutor diz que é meu filho. Ou filha. Num sei ainda se vai ser piá ou guria, mas se for homem já sei o nome que vai ter.

    Se for menina, minha mulher escolhe o nome.

    segunda-feira, outubro 16, 2006

    All that is solid melts into air but the song remains the same


    Ai, minha Nossa Senhora do Rock'n'Roll, olhai por mim!!!
    Procuro por não sei o quê And I Still have'n't found what I'm looking for. Procuro, procuro, procuro, atrás do sofá, nas sinopses das caixinhas de DVD, no fundo das garrafas, nas entrelinhas do computador, e não acho, não acho, não acho.
    "Tudo que é sólido desmancha no ar" é uma frase do Manifesto Comunista do Karl Marx.
    "The song remains the same" é coisa do Led Zeppelin.
    Nossa Senhora é como a Rosa, há muitas, diversas, mas são todas uma só.
    Ah, a ilustração é minha tá? Eu fiz nesse domingo de encerramento de feriado, de caminhadas, leituras, visitas, conversas, saudades, amores, museus, arte e pesadelos.
    Vale a pena estar vivo, mas e se eu não achar o que procuro?
    E se eu não achar?
    E daí?
    E daí?

    quarta-feira, setembro 27, 2006

    Eu fui embora

    No momento em que você lê isto, eu não estou mais aqui.

    No momento em que você lê isto, eu fui embora, não sei pra onde, pra nunca mais voltar. Queria ter feito melhor, queria ter passado mais tempo com você. Queria ter sido mais digno de você. Mas não consegui. Desculpe.

    Não sei bem o que fica no meu lugar. Fica alguma coisa, disso tenho certeza. Sempre fica alguma coisa. Por isso quando você o encontrar por aí, quando sorrir pra ele e ele te olhar nos olhos, não importa o que ele te diga, não importa o que ele faça, lembre-se: aquele não sou eu.

    Eu fui embora.

    terça-feira, setembro 26, 2006

    As malditas noites insones


    Meia-noite e meia. Hora de estar na balada, hora de estar bebendo e brindando minha vida perfeita, com meus amigos sensacionais, agarrando todas as gostosas de todos lugares que mal podem esperar pra dar a bunda pra um cara sensacional como eu ou pra qualquer outro imbecil que as faça esquecer por algumas horas de quem elas são e do quão pouco isso significa. Meia-noite e meia e eu estou aqui deitado esperando os efeitos do tranqüilizante. Onde eles estão? Será que perderam o ônibus? Não escutaram meu chamado? Não é assim que funciona? Eu tomo as bolinhas e os efeitos maravilhosos de uma noite de sono vem me embalar. Não é assim que funciona? O sono dos justos em cápsulas, à venda nas melhores farmácias. Eu tomei três, TRÊS cápsulas, então, por que caralho ainda estou acordado? Porque essa merda de cama está tão desconfortável?

    Uma e treze. Eu devia sair. Beber um monte, agarrar qualquer uma, meter até fazer ela ganir. E depois sair de novo, beber de novo, agarrar qualquer uma de novo, meter até fazer ela ganir também. Que nem eu fiz ontem. E anteontem. Não é assim que funciona? Damos duro o dia inteiro pra isso, não é mesmo? Pra sair de noite, beber, meter e esquecer que damos duro o dia inteiro.

    Uma e quarenta. O único som é o murmurinho da garoa lá fora. Não passa nem carro na rua. A luz dos postes desenha o vazado das persianas no teto do meu quarto. A madrugada se consome imóvel no teto do meu quarto. Se eu ficar imóvel e deixar de pensar o sono vem. É só não pensar. Shhhh. Quietinho.

    Uma e quarenta e um. Tem que escrever o artigo, a data final é sexta. Não tenho idéia do que falar. Amanhã é quinta. 7 horas tem que estar dentro da piscina. 9 horas tem que estar na redação. O cheque da agência ainda não compensou. Amanhã é quinta. Tem almoço com a Beatriz. Preparar as fotos pra exposição. Passar no MAC. Fim de semana tem raft. Não vai dar pra ir. Tem que fechar o projeto pra segunda. O pessoal tá cobrando.A maconha acabou. Beatriz. A cama parece tão grande. Qual é o problema de sair com uma mulher casada?

    Uma e quarenta e dois. PARE DE PENSAR SEU CRETINO!!!! FIQUE QUIETO!!!! FIQUE QUIETO!!!!

    Duas e oito. Faz tempo que não visito meu pai. Não devia deixá-lo no asilo. Não devia. Mas trazê-lo pra casa? Eu devia. Arranjar um quarto, trazer ele pra cá. Conversar com ele todo dia. Mas será que ele não ia se sentir mais sozinho ainda aqui? Qualquer dia desses ele morre. O que eu estou fazendo a respeito? O que eu posso fazer?

    Duas e cinqüenta e três. Beatriz. Merda. Isso vai dar merda. Beatriz. Ela cheira tão bem, Tem um sorriso tão lindo. Se ela não fosse tão inteligente. Se ela não fosse tão... amável, gentil. Alegre. Como posso gostar de alguém que eu nem beijei? Isso vai dar merda. Eu vou me foder.

    Três e catorze. Homens são estúpidos, ela me disse. Homens pensam com seus paus. Sim, claro. Não temos cérebro, não temos emoções. Somos bestiais, incapazes de qualquer coisa além de beber e foder. Drummond, Dostoyevski e Picasso são um exemplo disso. Vaca.

    Três e trinta e seis. AHHHHHH, PUTA QUE PARIU!!!! O DESPERTADOR TOCA ÀS SEIS!!!!!!!

    Quatro e dois. Como é mesmo o nome da filha do Roger? Dani? Deisi? Nossa, depois que ela nasceu o cara mudou completamente. Ele e a Vanessa me assustam. Parecem felizes. Ele me fala da filha quase todo dia. Mostra as fotos. O bebê no banho. O bebê sorrindo. O bebê babando. Tudo isso não pode ser real. Um casal não pode ser tão feliz assim. A Vanessa deve chifrar o coitado e ele nem sabe. Ou ele deve trair ela... Será?

    Quatro e vinte e sete. Será que a Beatriz trairia o marido?

    Quatro e vinte e oito. Eu me casaria com a Beatriz. Eu teria uma filha com ela. Minha vida seria melhor? Será que a Beatriz me trairia?

    Quatro e vinte e nove. Fez efeito. As bolinhas... o sonos dos justos...

    Quatro e cinqüenta e oito. Um tiro. Na rua. Um traveco gritando. Merda. Merda. Eu desisto. Na tv, o Corujão. Um filme do Clint Eastwood. “Meu nome é Coogan”. Que bela porcaria. De repente, lá fora, o céu começa a mudar de cor. Vou pra varanda. A cidade começa a acordar, começa a se mexer. Este é o meu mundo. Clint Eastwood, Johnny Walker, Jontex lubrificado, mulheres gostosas. Muito barulho pra encher minha cabeça. Barulho é bom, muito bom. Essa é a minha vida. Só se vive uma vez, e da maneira que eu vivo, uma vez basta. Sim, senhor. A minha vida.

    Amanhece.

    sexta-feira, setembro 15, 2006

    Mantenha seus pés longe do chão. Ele é muito sujo.


    23 anos. 23 andares. Ela deve ter batido no chão de costas, porque o caixão estava aberto e o rosto dela estava muito bonito. Sereno.

    Depois do funeral, os dias passam.

    A casa, os espaços vazios no sofá da sala, na mesa no café da manhã.

    O quarto dela.

    Ele se sentava na cama e olhava em volta. Pensava em vender tudo, dar para caridade, vender o apartamento, sair dali pra sempre. E tinha medo, tinha medo de que ela desaparecesse mesmo, se desvanecesse aos poucos de sua memória como um retrato que vai desbotando, desbotando. Daí ela estaria morta para sempre, quando todos tivessem se esquecido dela. O que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Acontece com todo mundo. Então ele não vendia nada, não dava nada pra caridade nem pra ninguém. Pra segurá-la junto de si mais um pouco, só mais um pouco.

    Naqueles primeiros meses sentava na cama dela, sentia ainda o cheiro dela no travesseiro, via os porta-retratos e fotografias na parede. A viagem pela Europa, as festas com os amigos, acampamentos. A foto que ele mais gostava era essa: ela aos seis anos, sentada no seu colo, vestida de chapeuzinho vermelho pra festa da escola. Sorrindo. Ela sorria sim, sorria quando recebia um elogio, abaixava os olhos e dizia “obrigada”, baixinho. Linda.

    Na mesinha do lado da cama, abajur, porta-retrato, gaveta. Na gaveta, as cartelinhas inacabadas de Rivotril e Lexapro. E o caderno.

    Ela mesma tinha feito o caderno, em uma oficina de encadernação. Ele tinha uma capa preta, com estranhas cores impressas, como quando você fecha os olhos à noite e olha para dentro de si mesmo. Capa preta e lombada quadrada. Um caderno com cara de livro. Dentro anotações, desenhos, fotografias. Ele virava as páginas com cuidado, queria deixar as coisas do jeito que ela deixara, mas uma vez fora descuidado e um papel caíra. Um recorte de xerox de uma fotografia, um homem segurando um gato. Ele nunca descobriu quem era o homem da foto. Mas imaginava que fosse um louco, um doente. Imaginava isso pelo camisolão que o homem vestia, pelo seu olhar demente, algo infantil, abestalhado. Aquele homem e seu gato eram mais uma parte do retrato inacabado de sua filha.

    Quem era a moça que se jogou do vigésimo terceiro andar?

    Ele virava as páginas com cuidado, com carinho, com pesar. Ele se perguntava onde tinha errado, como ele tinha deixado aquilo acontecer. Às vezes achava que a culpa tinha sido toda sua. Às vezes imaginava que se tivesse dado o tratamento adequado... Para protegê-la de si mesma, ele a teria internado, teria feito ela levar choques elétricos, teria entupido a menina de todos os ansiolíticos disponíveis no mercado. Para protegê-la de si mesma, ele a teria mutilado. Para mantê-la viva.

    E, quando lia o caderno, ele ficava perplexo. Quem era a moça que se jogou do vigésimo terceiro andar? Como ela podia enxergar o mundo daquele jeito? Era mais do que um desequilíbrio químico no cérebro. Era uma série de fragmentos, de anotações, poesias, citações, desenhos e fotografias que formavam um discurso insano e deformado sobre o que era a vida. E, ao mesmo tempo, belo, apaixonado, intenso. Assustador. Fantasias, utopias e delírios, sonhos sem sentido, canções sem sentido sobre possibilidades impossíveis. Uma torrente de pensamentos que se estendia pelas páginas, que, de repente, exatamente no meio do caderno, convertia-se num silêncio branco. Como ela podia enxergar o mundo daquele jeito? O que mais ela teria escrito se tivesse conseguido chegar ao final do caderno? Se tivesse se permitido chegar ao final do caderno...

    Se estivesse viva ela poderia se casar, poderia ter um emprego, filhos. Mas ela disse não. Não quis aceitar as dádivas, não quis aceitar as regras. O que ela queria da vida afinal? O que ela esperava? Por que não lutou, por que não procurou outra saída, procurou construir outro mundo, nem que fosse só pra si mesma?

    Uma vida. E ela disse não.

    Era uma coisa grande demais pra cabeça dele. Ele jamais entenderia. Nem precisava.

    Sua menininha tinha ido embora pra sempre.

    No fim, esse era o único fato.

    O único e pesado fato.

    O resto era discurso.

    quinta-feira, setembro 07, 2006

    Deus tá vendo



    E tem nova IdeaFixa no ar. Trata-se de uma revista digital com trabalhos de ilustradores e fotógrafos. Nesse segundo número o tema era “Metrópolis” e eu participei com a arte acima. Meio que no embalo do Blacksad e WE3, resolvi fazer um “desenho sem preguiça”. Fiz o desenho a lápis e daí comecei a pintar no Photoshop. Levei uns dois dias trabalhando. Foi bem divertido.

  • www.ideafixa.com
  • Passe lá. É bem legal...



    Um Lugar Entre as Sombras


    Estamos em setembro e teve dois lançamentos em quadrinhos em particular que me fizeram curtir um monte. O primeiro foi WE3, em fevereiro. O segundo foi Blacksad, agora em agosto. Simplesmente sensacional.

    É uma trama noir, historinha de detetive nos anos 40 ou 50. Faz lembrar muito Sin City, principalmente a história do Marv. Também em Blacksad encontramos o sujeito durão que procura o assassino de sua amada, mas a atmosfera é muito mais leve. O mais bacana em Blacksad é a arte. O desenhista Juanjo Garnido, ex-animador da Disney, cria personagens antropomórficos extremamente expressivos. Garnido domina legal as cores da aquarela e cria ambientes de uma luminosidade sensacional, mas além disso o desgraçado não tem a menor preguiça de desenhar e constrói cenários maravilhosos, com detalhes, perspectivas e vida próprias.

    Fazia tempo que eu não pegava algo que desse vontade de sair desenhando. As amostras abaixo estão em espanhol, mas Blacksad: Um Lugar entre as Sombras já está disponível em português pela editora Panini. O segundo volume deve sair agora em setembro.

    Eba!






    Visceral

    Ontem eu me disfarcei de Joey Barrish.

    Ontem eu fui Joey Barrish. O casaco comprido que faz parecer mais alto e mais magro. O cachecol que tenta fazer da cabeça e do corpo uma coisa só, como se não existisse pescoço. O gorro que protege e esconde. Um frio, um frio danado hoje. E o meu mundo se disfarçou no mundo de Joey. Tarde da noite, caminhando sozinho pela rua XV, a luz amarela dos postes, as pessoas encolhidas e embrulhadas em trapos, deitadas na frente das lojas. O vento que entrava pelas fibras do casaco, gelado. Comediante sem graça, artista sem talento, voltando pra casa tarde da noite, Joey Barrish. E, porque eu era Joey, eu descobri que por dentro ele é feito de vidro. Vidro fino, do tipo que pode quebrar por qualquer coisinha, quebrar pra sempre, sem conserto, sem remédio. Porque eu era Joey, eu de repente me vi pensando que às vezes o amor é como câncer.

    Amor.

    Câncer.

    Acontece, simplesmente acontece, lá dentro da gente. Às vezes demoramos pra perceber e quando nos damos conta está lá, nas nossas entranhas. E não é culpa de ninguém, nem nossa, nem do outro, nem de Deus. Simplesmente acontece. Talvez fosse uma predisposição, talvez fosse um mau hábito, talvez fosse algo no ambiente ao redor. Mas acontece e aquela coisa está lá, bem dentro da gente, enraizada, crescendo, se espalhando. Daí vem o medo de que essa coisa que cresce dentro de nós nos mate. Medo que nos assombra todas as horas do dia. E lutamos pra nos livrar dessa coisa dentro da gente e pra isso temos que fazer tratamento. O que pode significar retirar pedaços inteiros de nós mesmos. Nós nos mutilamos na esperança de continuarmos vivos e, com sorte, continuamos vivos (ou quase), embora, por dentro,estejamos cheios de buracos que jamais serão fechados. Para continuarmos vivos, nos afastamos de tudo que possa trazer o tumor de volta, mesmo sabendo que isso não oferece garantia nenhuma de que a coisa não ressurja, impregnada nos nossos pedaços que sobraram.

    Às vezes, o amor é exatamente como câncer.

    Altas horas da noite, frio do cão, eu era Joey Barrish, vivo, voltando pra casa, sentindo um grande vazio em algum lugar das minhas entranhas de vidro, e pensando quem teria sido a pessoa que eu tive que extirpar da minha vida.

    Quem será que eu deixei pra trás pra poder continuar vivendo?

    Hoje, eu não era mais Joey Barrish, mas o frio e a pergunta ainda mantêm meus pés gelados.

    (Joey Barrish é o personagem de Jim Carrey no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Assista, vale a pena. É um filme bem legal. Às vezes, o amor é exatamente como câncer, mas na maioria esmagadora das vezes é algo extremamente saudável e vital, embora de maneira nenhuma seja indolor.)

    domingo, setembro 03, 2006

    Uma ilustração...

    Essa ilustração eu fiz como proposta de capa de livro. História de uma mulher que tinha sido abandonada com as crianças. O marido dizia que ia voltar, mas quem podia dar certeza? Então a mulher se viu sozinha, com as crianças, sem ter pra onde ir. Conseguiu abrigo com uma conhecida que era dona de bordel e a deixou ficar lá. A ilustra mostra sua primeira noite na casa nova, ouvindo os sons através das paredes, os gemidos, os suspiros, risos. Dentro dela, alguma coisa desperta.

    Esse era o meu briefing. Fiz uma adaptação de formato pra colocar aqui no blog. Materiais de sempre: lápis, aquarela, fotoshop.

    Maneira legal de passar uma tarde chuvosa.

    quarta-feira, agosto 30, 2006

    ... e, então, eu me apaixonei perdidamente por uma menina que pensava que eu era fast food.

    Fanzine é uma revistinha ou jornalzinho, que contém histórias em quadrinhos, poemas e textos sobre mil assuntos. O fanzine é feito por “fãs”, isto é, pessoas que curtem música, cinema, literatura, quadrinhos, etc e querem falar sobre isso. O fanzine é produzido artesanalmente, depois reproduzido através de xerox e distribuído gratuitamente ou via o pagamento de uma quantia simbólica. Não sei como anda a produção de fanzines no Brasil atualmente. Nos anos 80 e 90, existiam centenas de “zineiros” espalhados pelo país. O que aconteceu foi a Internet e de repente você podia fazer um “zine” mais transado, colorido, com animações, por um custo menor e supostamente acessado por uma quantia muito maior de pessoas. Imagino que isso tenha afetado a produção de fanzines de algum modo. Mas antes do msn e do blogger, os fanzines representavam um modo de expressão muito atraente. O xerox dava todo um ar de “clandestinidade”, porque enquanto os meios de comunicação impressa “oficiais” tinham cores, código de barras, jornalistas e designers profissionais, os fanzines eram a voz da contestação, a verdadeira liberdade impressa agindo nas sombras, nos corredores da universidade, nas festas da madrugada. Os fanzines eram poucos e chegavam a poucos escolhidos. Imagine isso acontecendo quando o som de Legião Urbana, Titãs, Paralamas soava como novidade, enquanto a ditadura dava lugar a uma suposta democracia. Fanzine cheirava a molecagem, sexo, juventude, poesia, reflexão, arte! Urra!

    Daí, lá no mestrado a gente tem uma disciplina chamada “Dimensões Sócio Culturais da Tecnologia”. A gente lê, a gente lê um monte, sobre um monte de caras que tem umas idéias muito impressionantes sobre o mundo em que vivemos. Idéias que te fazem questionar sobre as coisas intangíveis que chacoalham nossas almas. Coisas de se entrar em parafuso. E foi pra essa disciplina que tivemos de fazer um seminário sobre a “Subjetividade do Homem Pós-Moderno”. Dividimos o tema em tópicos e cada um da equipe ficou responsável por um tema. No meu caso, “Os Relacionamentos Amorosos da Pós-Modernidade”.

    Hehehe.

    Então...

    Foram três livros que orientaram essa parte do trabalho. “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall; “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” de Zygmunt Bauman e “Relatos da vida amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo”, tese de doutorado de Sylvia Maria da Penha Cioffi. Fiquei impressionado com a quantidade de estudiosos que tem se dedicado ao tema do amor. Não pensei que alguém fosse levar isso a sério, mas parece que levam. Entretanto, estes livros estão longe de ser manuais para o amor ou algo assim. Todos partem de abordagens sociológicas, antropológicas e culturais. A idéia é compreender o comportamento e valores da sociedade como um todo.

    Bauman tem uma frase que acho muito bacana: “não se pode aprender a amar, assim como não se pode aprender a morrer”. Na opinião dele, de modo geral, a literatura de auto-ajuda sobre o assunto é completamente inútil. E eu concordo. Cada relacionamento, cada pessoa, é um mistério, uma aventura completamente nova, inédita e irrepetível. Cada relacionamento se origina do acaso, não pode ser planejado ou controlado. Ironicamente, o livro de Bauman está na sessão de auto-ajuda.

    Bauman é um sociólogo polonês radicado na Inglaterra. Ele é autor de livros como “Em busca da política”, “Modernidade e holocausto” e “Globalização: as conseqüências humanas”. No livro “Amor líquido” ele faz um apanhado geral do amor enquanto construção social e cultural, sobre as angústias e crises existenciais da vida do homem e da mulher pós-modernos. Embora as reflexões de Bauman sejam precisas e contundentes e ele realmente jogue uma luz de compreensão sobre a “maldita raça humana” (como dizia Mark Twain), seu livro não deveria estar na sessão de auto-ajuda, porque não oferece saídas fáceis, nem passa a mão na nossa cabeça. Bauman tem uma visão crua e realista sobre um mundo enlouquecido, endurecido e consumido pelas regras de consumo, onde pessoas são “um prato que você prova, mas não precisa terminar”, onde você atinge a qualidade através da quantidade.

    Mas será que não foi sempre assim?

    No século XIX havia repressão sexual rígida, no meio do século XX surgiu o “amor livre”. No século XXI vivemos a era do “sexo compulsório”?

    As abordagens desses livros partem do pressuposto que estamos integrados em uma sociedade que estabelece valores e códigos de cultura (e o amor é um deles) com os quais construímos nossas identidades subjetivas. Entretanto, apesar da racionalização, nenhum dos autores se ilude. Existe realmente algo no amor, no amor de verdade, que o torna parecido com a morte, isto é, um mistério insondável da existência humana. Nesse sentido, um autor que eu acho muito significativo para a (in)compreensão do amor é o Gabriel Garcia Márquez. Pegue qualquer livro dele. Por exemplo, o clássico “O Amor nos Tempos do Cólera”. Ali temos, na minha opinião, o melhor retrato do amor: irracional, dilacerante, assustador, maravilhoso.

    Afinal de contas, quem sabe o que se esconde no coração de homens e mulheres?

    Você é livre para querer o que quiser, mas o que faz você querer algo?

    E daí, retornamos ao começo. Li esses livros e para o trabalho de Dimensões decidi fazer um fanzine, no modelo clássico de colagem, xerox e erros de registro (que não foram propositais, eu confesso). E aqui eu apresento o tal fanzine, composto de colagens desses livros e outras cositas mais. Escaneei o folhetinho com todos os erros e dificuldades de leitura que ele tinha pra você ter uma idéia, mas, acredite, não é tão legal ver no monitor quanto folhear o bichinho... hahaha.

    Fanzineiros, uni-vos!!!!

    Hahaha!!

    Valeu.

    (Sugestão: Baixe as imagens e visualize como “projeção de slides”).
















    sábado, agosto 26, 2006

    E agora?

    Hoje, só hoje, desfiz as minhas malas. Daquela viagem. Pra Paraty. Flip. Os escritores e tudo mais. Sentei no meio da bagunça e comecei a separar todo material da viagem, que estava espalhado por todo o caos do quarto, misturado com desenhos, partituras e textos. Coloquei tudo numa sacola com a estampa do Jorge Amado. Engraçado, existe um ditado muito imbecil que cansei de escutar: “A vida é feita de momentos”. Odeio esse ditado. Acho que é por causa da obviedade. Ou da pura verdade. A viagem ficou lá pra trás. Enquanto estive lá em Paraty, enxerguei possibilidades existenciais, ouvi pessoas sensacionais, conheci gente muito legal, estive em lugares maravilhosos. Eu estava feliz!!!!!

    E agora estou de volta.

    É.

    Hm.

    Pois é.

    Kung Fu. O Aleverson outro dia tava conversando comigo e falou sobre Kung Fu. Não “kung fu” como arte marcial. Kung fu mais como uma filosofia, um fazer. Sabe, é como você mergulhar completamente naquela atividade, naquele momento, entregar-se completamente, de um modo que quando a tarefa termina o resultado te surpreende e você não sabe dizer se você realmente fez aquilo ou se aquilo simplesmente aconteceu. Entende? Kung fu. Para trabalhar, para amar, para escrever, desenhar, nadar, andar, conversar. Entende? Kung fu.

    Naquele mesmo dia da conversa com o Aleverson, eu assisti “A Festa de Babette”. Tipo assim, peguei na locadora meio sem compromisso. Tinha passado o domingo fazendo um fanzine, era tarde da noite, eu tava bem cansado. Mas não quis entregar o filme sem assistir. Onze da noite e tava eu lá na frente da tv começando o filme. “A Festa de Babette” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1987, se não me engano. É a história de uma francesa, Babette, que pede asilo à duas irmãs que vivem numa pequena vila no litoral de um país que não lembro o nome, acho que era a Dinamarca, mas não tenho certeza. Anyway, Babette passa a trabalhar para as irmãs Phillipa e Martina, que eram muito religiosas e mantinham uma pequena comunidade protestante que seu pai iniciara. Daí Babette trabalha com elas como governanta durante anos. Uns 14 anos. E um dia ganha na loteria. 15 mil francos. Phillipa e Martina ficam tristes porque agora Babette com certeza irá embora. Antes de partir, porém, Babette pede às duas irmãs que aceitem que ela lhes prepare um jantar francês, para agradecer pelos anos de abrigo. As duas aceitam e Babette começa os preparativos. A história se passa em meados do século XIX, então uma das coisas que me chamou atenção foi o pessoal trazendo na carroça (junto com codornas vivas, carnes, frutas e temperos) um grande bloco de gelo. Fiquei imaginando de onde eles tiravam o gelo naquela época.

    O preparativo do jantar é lindo. Close nas mãos de Babette, manipulando os alimentos meticulosamente, pacientemente, delicadamente. Mãos trabalhando, a mulher compenetrada, fazendo sua arte, preocupando-se com cada detalhe. O filme transmite uma sensação maravilhosa do ato da criação, do carinho com que ela conduzia o preparo do jantar. E “carinho” aqui é uma palavra muito importante.Havia vários convidados para o jantar, entre eles um general que fora apaixonado por Phillipa (ou Martina, sei lá). E esse general é o único da mesa que consegue reconhecer cada um dos pratos e vinhos que são servidos. Ele fica fascinado com a qualidade, com o sabor, com o espetáculo. Ali, naquela mesa de aldeia pequena, estavam sendo servidos os pratos mais saborosos e sofisticados que ele já provara em toda a vida. Por fim, o jantar termina, os convidados partem satisfeitos, e no silêncio da cozinha, as duas irmãs agradecem pelo maravilhoso jantar. Então descobrem duas coisas: a) Babette tinha sido a cozinheira chefe do melhor restaurante de Paris, antes de sua perder sua família e ser exilada por motivos políticos, b) o jantar que ela preparara era o mais caro servido no restaurante, era preparado exclusivamente para líderes de estado, militares e pessoas extremamente ricas. O jantar custou exatamente 15 mil francos. As duas irmãs ficaram espantadas, “mas você gastou todo seu dinheiro por nós?!” e Babette respondeu “eu não fiz só por vocês”. Ela fez por si mesma. Sozinha, sem ninguém que estivesse esperando por ela em seu país, ela gastou todo o prêmio para que pudesse, pela última vez, preparar um jantar como costumava fazer. Era a sua arte, era o que dava sentido à sua vida. Ela fala de um artista que tinha sido seu amigo: “Ele dizia e eu pensava ter esquecido. Um grande grito sai da alma do artista. Dê-me a chance de fazer o melhor possível”.

    A chance de fazer o melhor possível.

    Kung fu.

    O filme tem muitos detalhes que eu não contei aqui. Vale a pena assistir a “Festa de Babette”.

    Ele me fez muito bem.

    segunda-feira, agosto 14, 2006

    Diário de bordo 6: depois de tudo...


    Então.

    Hoje de manhã, lá pelas seis da manhã mais ou menos, eu tava no terminal Tietê, lá em Sampa. Tinha chegado às cinco, comprado passagem pras sete. Dei umas voltinhas e fui tomar um café. Daí tinha esse café bem chique, na frente de umas janelas enormes lá no terminal. Pedi um bolinho e um pingado e sentei pra curtir. Tinha um cara tocando piano. Algumas pessoas ao redor, o fervo de segunda começando. Além das janelas, ainda estava escuro. Daí o dia começou a raiar. Clarear aos pouquinhos, pintar os prédios de amarelo ouro. E nesse momento, o camarada do piano começou a tocar “Evita”. Sabe? Evita? Don’t cry for me, Argentina... Então, o cara começou a tocar isso no piano. E daí, me veio na cabeça aquela frase que o freak boy de Beleza Americana fala enquanto filma o balé do saco plástico: “Sometimes there´s so much beauty in the world.” O que é uma verdade. Apesar de tudo, há muita, muita beleza nesse mundo. Às vezes. Eu tava lá, cafezinho, cansaço, na espera da viagem de volta pro nosso mundo real. Janelas gigantescas pro amanhecer e o cara tocando Evita. E tudo tão perfeito, tão único. E aí a música de repente parou. Estranhei, me virei pro piano. O carinha era um viajante como eu. Levantou, pegou a mala e saiu. Ninguém aplaudiu. Tinha pouca gente ali, mas ninguém aplaudiu. E eu pensei que devia ter dito alguma coisa, um parabéns, muito bem ou algo assim, mas também fiquei quieto e fiquei olhando ele indo embora, de costas, mala na mão, cada vez mais longe, cada vez menor, o pianista de Evita, que talvez eu nunca mais veja nem ouça e, com certeza, jamais saiba sequer o nome. Fiquei olhando até ele desaparecer. E percebi que ficar quieto, não aplaudir ou elogiar, era a melhor coisa que poderia ter feito. Porque aquele foi o Momento. E Momentos não precisam de aplausos, eles simplesmente estão ali, acontecem e se você consegue percebê-los, sorte sua.

    Na Folha de São Paulo de hoje (que eu roubei do salão de espera da Cometa) tinha uma pequena matéria fazendo um balanço do Flip. Logo na capa da Ilustrada, abaixo do título “Literatura em tempos sombrios”, estava a foto com a mesa dos Sete Perpétuos. (Piada interna. Rárárá.) O engraçado foi ler no jornal o comentário sobre a Adélia Prado. “Uma apresentação emocional, com direito a choro”. Nossa, foi só isso? Pra mim, ali na hora, na platéia foi possivelmente o melhor momento do Flip. Pra mim. Não quero ser injusto com os outros, mas pra mim, ouvir aquela mulher falar foi muito importante. Tomei nota no meu bloco supersecreto de anotações que ninguém além de mim pode ver. A mágica toda da coisa não está só no que ela falou, mas no Momento. O Momento. Sacou? Se você conseguiu percebê-lo, sorte sua.

    Sorte minha.

    Daí hoje voltando pra casa, vendo as montanhas, diversos planos, cores, texturas, casas de pessoas (que será que um dia saberei como viveram?). Fotos. Tentativas de tentar reter o Momento.

    Fiquei imaginando mil textos, mil possibilidades. Mil idéias. Não pra escrever um livro, mas pra escrever minha vida. Retomar as coisas sob um novo olhar, uma nova leitura. Mudar o mundo, começando pelo mundo dentro da minha cabeça. Coisas assim.

    E não há controle do que pode acontecer.

    Deixo pra trás as ruas de pedras, os escritores, os poetas, as santas, os amigos. Queria poder levá-los comigo sempre, mas eles já se confundem com o mundo dentro da minha cabeça, já se confundem com um sonho que tive, uma fantasia que inventei. E o que é mais importante: o mundo fora ou dentro da sua cabeça? Onde as coisas duram para sempre?

    Porque se escreve, afinal? Por certo, não pela celebridade. Esse é o pior, o mais vil, o mais baixo dos motivos pra se escrever. A gente escreve. A gente lê. E no fim, o livro, a poesia, a mágica da coisa toda está ali, no Momento. O livro certo, na hora certa, e você estava lá. Sorte sua.

    Eu estava lá.

    Sorte minha.

    Valeu galera.

    Até a próxima.

    Libs

    domingo, agosto 13, 2006

    Diario de Bordo 5: clímax & desfecho

    Ontem eu bebi.
    Ontem eu bebi muito.
    Ontem eu bebi muito MESMO.

    Saí pelas ruas, amigo de todo mundo. Escutei violeiros bacanas, conversei sobre literatura com um monte de gente. Curti. Conheci uma poeta de rua, a Renata. Conversamos. Fomos à praia. Bebemos. Lua cheia. Passeamos pela cidade.

    Acordei com uma ressaca do cão. Banho, arrumar as coisas, por tudo na mala, foto da janela que dá pro mar.

    A primeira palestra do dia foi de Adélia Prado, entitulada "Bagagem". Então. Não tenho palavras. Não tenho palavras. Um daqueles momentos únicos. Ela quase me fez chorar. Não tenho palavras. Se fosse pra vir e ver uma única palestra, a dela valeria toda a viajem. Não sei descrever o que aconteceu. As coisas que ela falou, sobre o amor, o cotidiano. Aquela velhinha mineira, lendo poemas, admitindo que estava nervosa, falando rápido, falando coisas que faziam um sentido extraordinário sobre símbolos, miséria humana, solidão, amor. Ela leu um poema chamado "Mortes Sucessivas". Sensacional. Eu estava lá. Sabe, um daqueles momentos que ficam na tua cabeça, que podem te acompanhar até o fim da sua vida, que podem te transformar? Como uma revelação, um milagre, uma epifania. Não foi só o poema, não foi só a mulher, foi algo mais algo que foge às palavras. E só quem estava lá sabe o que foi.
    Saí da sessão e fui comprar o livro dela. Esperei mais de duas horas pra receber o autógrafo dela, pra falar com ela. E valeu a pena. Valeu cada minuto.

    Consegui ingressos e assisti a Nicole Krauss na tenda dos autores, chamada carinhosamente de "Tendinha". A tendinha tem muitas vantagens. Ar condicionado e a presença ao vivo dos autores, pra começar. Nicole Krauss é a autora de A História do Amor, um livro belíssimo sobre solidão, amor e resignação. Ela era a autora que eu mais queria conhecer. Tinha receio que ela fosse meio misantropa, meio anti-social. E no entanto.

    Sensível, linda, tímida, graciosa. Na hora dos autógrafos, eu arrisquei meu inglês com ela. E ela me perguntou, depois do autógrafo: O que achou do livro? Ela perguntou assim, me olhando nos olhos, como quem realmente quer saber sua opinião. Isso me desarmou completamente. Falei que curti muito, que era um livro belissimo e tal. E ela ficava ali olhando pra mim, prestando atenção. "Do you like the tradution?" Disse que não tinha lido o original e não podia comparar e de repente comecei a falar sobre Leo Gurski, o pobre, velho e solitário Leo Gurski, em toda sua miséria emocional, sua tristeza, sua simplicidade e força. E falei. E se você me conhece, sabe o que acontece quando baixa o santo e eu começo a falar. Foi incrível poder dizer aquelas coisas pra pessoa que escreveu algo que significou tanto pra mim.
    Maravilhoso.

    Peguei as coisas no hotel e vim pra última palestra. "Os livros de cabeceira". Com todos eles falando sobre seus livros. Muito legal. Fiz amizade com uma galera bem divertida. Um rapaz lá de Porto Alegre, fã da Nicole e do Foer, que escreveu e publicou um livro aos 19 anos. Ele me deu um exemplar. Espero poder lê-lo logo.
    Agora estou com a Márcia, vou tomar uma sopa (tá um friozinho bem gostoso aqui) e esperar o ônibus das 23:30. Estou um bagaço.

    Eu tive um dia legal.
    Com certeza.
    Vários dias legais.

    Amanhã, a conclusão.

    See you.

    sábado, agosto 12, 2006

    Diário de bordo 3: hou, you are incredible, Mr. Incredible!!!

    ALOOOOOOOOOOOOOOOOOUUUUUUUU vocês!!!!!
    Por que se escreve?
    Para comunicar.
    Para amar.
    Para se realizar plenamente como ser humano.
    Para preencher vazios.
    Para responder perguntas que não tem respostas.
    Por desespero.
    Por completa incapacidade de fazer outra coisa.
    Por tesão.

    Em uma mesa chamada "Sobre o Amor e Outros Demônios" que versava sobre escatologia e desajustes, o que poderia se esperar? Título de um livro do gabriel garcia marquez, sobre uma santa bruxa louca que viveu e amou desesperadamente em uma cidade que provavelmente era muito parecida com paraty.
    Já tentou empurrar um carrinho de bebê pelas ruas de uma cidade histórica? tipo as ruas de paraty?
    Então, Lourenço Mutarelli roubou a cena de novo, sensacional. Por que escrever se o que vc escreve não perturba? Conheci o André Santana e ele também manda ver bem pra caraio.
    Nossa.
    Mais importante que escrever? LER!!!! Ler e reler e reconstruir e resignficar e reinar. Uma palestra chamada "O último Leitor" com o argentino chamado Ricardo Piglia, que tombou dodói e foi substituído de última hora por José Wisnick que fez uma senhora leitura sobre UM conto de Machado de Assis e tirou de lá tantos significados e tantas relações que não pude acreditar. Crédito do autor ou do leitor?
    E Mr. Foer? Mr. JOOOOOOOOOOONTHAN SAFRAN FOOOOOOOOOOOOOOER? Ele é casado com a Nicole Krauss!!! Vc sabia? Eu tambem não. Cool, hein? Descobri isso quando encontrei os dois tentando empurrar o carrinho do filhinho pelas pedreiras que eles chamam de rua nessa cidade.
    Ali Smith: escocesa, escritora bacana, apaixonante, conheci ela aqui. Conheci mesmo, bati foto deitado em cima da mesa com ela. Mas essa história eu só conto bêbado. FERA! FERA! RÁ! RÁ! RÁ!!!!!
    Até onde dá pra ir? Até onde dá pra ir? Prédios em chamas, crianças mortas, podreira, miséria afetiva, emocional, espiritual. Mundo doente, perdido, assustado, covarde, cruel, apaixonante. Não sou leve, as pedras racham sob meus pés. Viver é um esforço. Desprezo as pessoas que são felizes. Cuspo nas pessoas que acham a vida bela. Fodam-se os risos fáceis, a leitura fácil, foda-se toda maldita mediocridade do mundo. Quando rio, rio com gosto, rio com raiva, rio pouco, mas quando rio quero que escutem nas profundezas do Inferno, porque nessa selva alucinada de desespero e angústia um riso sincero vale ouro. Um riso sincero é tudo...
    E eu estou aqui agora.
    Não estou a trabalho, estou a passeio.
    Estou de passagem.
    Até onde dá pra ir?
    De onde vem as palavras?

    Uma máscara.
    E por trás da máscara, uma pergunta.

    O que é mais importante: o mundo lá fora ou o mundo dentro da sua cabeça?
    Uma pergunta melhor ainda: qual a importância de saber disso?

    Bêbado, louco e feliz. E furioso.

    Ah, bem. Conheci umas garotas. É divertido. Fútil, vazio e descartável. Mas divertido. Macio. Quentinho. Gostoso.

    Por trás da máscara
    lhe tenho amor
    lhe faço horror
    eu sou um ator...

    uh.
    espero não me arrepender disso amanhã.

    Na linguagem humana, "gente, isso aqui está demais!".

    Manhana com miss Nicole Krauss.
    E otras cositas mas...

    "Dentro de cada homem há um vazio do tamanho de Deus".
    Dostoyevski.

    Quem se considera escritor num mundo onde há Dostoyevski, Machado, Kafka, Bukowski?
    Cachaça. Um brinde...
    Desculpem o mal jeito.
    Estou bem.
    Alguém na minha família pode não estar.
    Nos vemos amanhã.
    Beijos a todos.
    Amo vcs.

    sexta-feira, agosto 11, 2006

    Diário de bordo 3: tô de buenas...

    Cara, tá frio aqui. Tipo assim, são umas nove horas e tá friozinho. Eita.
    Saí agora há pouco da palestra da Toni Morrisson, sobre "A Arte de Narrar". Toni é mulher, negra, escritora prêmio nobel. Talvez pelo fato de eu estar um bagaço eu não consegui curtir totalmente as idéias dela. A mulher é toda engajada e tem uns temas muito muito interessantes. Algo sobre uma escrava que assassina os próprios filhos e depois é julgada por "roubo", isto é, por ter expropriado seu "dono" de seus pequenos escravos. O nome do livro que conta essa história é "Beloved" (Amado). Cool, hein?
    Como eu disse, tô muito muito cansado. Hoje o dia foi sensacional. Logo de manhã cedo, no café da manhã encontrei um pessoal da Folha de São Paulo que tinha vindo pra curtir o Flip e trocamos umas idéias.
    A palestra da manhã era pra ter sido com o Carlos Heitor Cony, mas parece que ele estava doente e em seu lugar veio Wilson Bueno, curitibano. Um cara engraçado. Com ele estavam Inácio de Loyola Brandão e Miguel Saches Neto, discutindo sobre "As matérias do Romance". Nossa, valeu a pena. Mas como eu disse, tô muito cansado pra tentar resumir aqui o que rolou lá.
    Como eu tinha a tarde livre, tirei pra zanzar pelo centro histórico. Fui nas tais igrejas, as que eu tava reclamando que tinha que pagar pra entrar. A igreja de São Benedito é bem simplesinha, era para os escravos. Uma construção de 1725. Lá conheci a Renata, uma mocinha bem legal, guia da cidade. Hehe
    Depois fui pra igreja de Santa Rita, a mais conhecida, o cartão postal da cidade e museu de arte sacra. Essa foi sensacional. O Hilton, o carinha que cuidava me contou algumas coisas sobre a igreja, as imagens e as santas. Bom, a igreja de Santa Rita era dedicada aos escravos livres, mulatos e etc. Lá encontrei uma série de imagens barrocas de santas, esculpidas em madeira, datando do século XVII e XVIII. Impressionante era a imagem de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira da cidade. Era esculpida em um só bloco de madeira, a riqueza do panejamento era sensacional, os detalhes muito ricos. Lá nesse museu, eu meio que comecei a ter uma idéia pra um trabalho que ainda não sei bem o que será, algo envolvendo as muitas faces de Nossa Senhora, mas estendendo isso pra uma mulher, uma única mulher que tem várias faces, vários aspectos, como arcanos do tarô, variações extraordinárias sobre o mesmo tema. É. Eu queria ter conhecido a moça que serviu de modelo praquela imagem de nossa senhora dos remédios. Muito linda, muito gata. Uma gatinha do século XVII.
    Ao lado da igreja encontrei um columbário ou uma columbina, sei lá, que era um pátio, muito bonito, dentro da igreja, com túmulos na parede. Gente morta, sem identificação nenhuma, sem nenhuma idéia de quem foram, quando viveram. Uau. Viajei longe nessa.
    Então, ainda visitei a cadeia, que fica logo ao lado dessa igreja de Santa Rita. Essa cadeia hoje virou biblioteca. Curiosamente, não removeram as grades, então há prateleiras de livros dentro das celas. Muito cool. Na parede encontrei um facsímile da "Tribuna de Paraty", de 29 de novembro de 1883, um domingo. Matérias de primeira página:
    - Um editorial falando sobre a consciência e importância do voto, já que teriam eleições para representantes no dia seguinte.
    - Uma aberração que fora abortada numa fazenda da região, um porco de oito patas, na verdade um siamês natimorto. Bizarreiras do século XIX.
    Além disso, uma série de matériazinhas e notinhas curiosas. Muito divertido.
    Essa tarde me senti muito bem, me senti em paz como há muito tempo não me sentia. De repente, tudo parecia estar no lugar.
    Sobre literatura, se eu fosse escolher um tema sobre o qual eu gostaria de falar, um tema que tem feito minha cabeça ultimamente, eu escolheria "identidade". Por uma coincidência extraordinária (imagine o Zé Wilker lá no Mochileiro das Galáxias...) o tema do Flip desse ano é identidade. E tá valendo a pena mesmo.
    Vitória, valeu por deixar uma mensagem. Brigadu, me sinto menos sozinho nesse frio mundo cibernético. Hahaha! Beijos!
    Piuí, meu velho, ano que vem tem mais. Estaremos aqui. Com muito livro e cachaça, se Deus quiser. Hahaha!!!
    No mais é isso gente. Hoje pra mim não tem noitada. Preciso dormir por que AMANHÃ é o GRANDE DIA!!!!
    MUTARELLI!!!!
    JOHNATHAAAAAN SAFRAAAAAAN FOOOOOOOOOER!!!!
    UHUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!
    Amanhã é dia de tietagem, minha gente!!!!!
    Ducaralho, ducaralho!

    Abraço proceis.

    Liber