segunda-feira, janeiro 30, 2006

Cartografia Noturna

Loucura.
Loucura escrita em letras bem vermelhinhas no asfalto molhado da madrugada
A Rua Vazia, vazia de doer, tão longa que parece que não vai terminar nunca
Sob os pés o vidro estilhaçado
os rostos que se tornaram pálidos reflexos nas poças d´água mais escura
A garoa descendo linda pela luz amarela dos postes
O silêncio zunindo, denso, gelado
Frio
Feito animal, caminhando lentamente

como se flutuasse

Qual é a minha voz?
O que faz de mim o que eu sou?
O que eu penso me define?
O que eu sinto me define?
Buscar a si mesmo como quem busca um lugar, como quem procura mapear uma terra imensa. Colocar no papel tudo aquilo que não pode ser visto em sua totalidade. Tentar compreender limites que podem jamais ser alcançados.
Mapear possibilidades.
Ser um produto, dentro de uma belissimamente desenhada embalagem, entre as outras da prateleira, sem identidade, sem unicidade. Pré-definido. Pré-determinado.
Ser uma surpresa na embalagem, o vale-brinde premiado, o produto vencido, o erro de fabricação cancerígeno.
Ser um milagre.
único
Irreproduzível.
Qual é a minha voz?
A incerteza?
A raiva?
O medo?

Não há um final à vista
sussurro na escuridão
Siga em frente, jovem
Rumo ao futuro
E o que quer que venha depois
Sem hesitar
Sem medo
Sem remorso

sem escolha

Porque agora é madrugada e os sonhos e arquétipos e demônios e espíritos e legiões inteiras caminham pela mesma Rua Vazia, cada um só, caminhando terrivelmente só, ouvindo seu próprio silêncio, fitando os infinitos reflexos da própria Vida no asfalto molhado de uma rua que parece que não vai terminar nunca.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

sexta-feira 2




Chegou em casa às 4 da manhã, transpirando álcool, tabaco e raticida. Fervendo. Não queria dormir. Achou na sacola o gibi dos bichinhos. Uma historinha sobre um cachorro, um gato e um coelho. Agulhas espetadas em seus corpos, olhar perdido, sem entender de quem era o sangue em seu pêlo. Iam ser sacrificados, mas a mulher os deixou fugir e eles correm, correm, correm, fogo e estilhaços, estrondos e gritos, mais sangue em seu pêlo. Correm, correm, correm pra casa. Alguns não vão chegar lá. 96 páginas depois a madrugada continua, silenciosa, mas as palavras ficam em sua cabeça.

Casa.
Casa é não correr mais.


Eles só precisam de amor e atenção. Mas um pouco de comida não machuca.
Cão bom.
Cão danado de esperto...


(We3- Instinto de sobrevivência foi lançado recentemente em português. É o gibi mais bacana e emocionante que li nos últimos meses. Os desenhos acima são das capas originais).

sexta-feira 1

Ele tem andado particularmente emotivo nos últimos dias.
Talvez um pouco contrariado por um lado... Não. Ele está muito contrariado. Ele está fervendo, chiando. Ele ainda não aprendeu a descer o rio de bóia, ainda não aprendeu a respeitar a correnteza. Então é arrastado, um animal se debatendo entre as pedras, rosnando, espumando, consumido pela raiva e medo, incapaz de perceber a beleza do momento.
(Muito provavelmente porque não há beleza alguma, um rio com correnteza é um rio com correnteza e simplesmente está ali, independente da sua opinião).
As coisas aconteceram e agora ele precisa aceitá-las. Simples assim.
Aceitá-las.
Dentes trincando, músculos do pescoço estirados, sangue demais em sua cabeça.
Aceitá-las.
Tensão.

sábado, janeiro 21, 2006

Uroborus

Eu morro de vontade de ligar pra menina, fico fissurado mesmo. E eu não sei se quero falar com ela ou se simplesmente só não quero ficar sozinho. Vem essa fissura, essa ansiedade louca, e eu tenho que falar com ela.
Ah, me liga, vai. Só pra que ouvir a tua voz, ouvir tua risada. Ouvir o teu silêncio. Porque quando tenho a tua atenção as coisas ficam mais claras. Porque eu não sei nada, só sinto e não sei o que sinto. Algo que me chacoalha, que me move e faz tudo parecer ter um sentido. Por sua causa.
E é assim que começa. Mãozinhas dadas, um silêncio gostoso, olhos nos olhos.
Ele pensa “finalmente encontrei alguém que me entende”.
Ela pensa “eu vou conseguir mudá-lo”.

Elementos que se repetem. Padrões. Grandes Esperanças, Encontros e Desencontros, Corações Partidos. Naipes de um baralho. Uma mente que devora a si mesma, incapaz de perceber o círculo.

A vida não pode ser só isso.

Quando eu tinha quinze anos me apaixonava toda semana por uma guria do tipo alternativa, uma “indie”, mocinha linda, inteligente, alegre, cheia de sacadas geniais e problemas existenciais. Uma psycho chicken. Invariavelmente os romances terminavam em nada e eu me sentia o looser, o Charlie Brown e todos os ícones maravilhosos de fracasso que os enlatados americanos incutiram em minha cultura pessoal. Era cool ser um derrotado. E no meio da dor do meu pobre coraçãozinho partido, entre fantasias com a garota e o puro e verdadeiro amor que um dia surgiria, bem lá no fundo, eu me perguntava se realmente um dia eu atingiria a maturidade, o equilíbrio, a paz e blábláblá.

Dezessete anos depois.
A tal maturidade.
Domingo-família, ao redor da mesa, conversando coisas sobre o trabalho, a semana, piadas, comentando a política, a tv. As crianças correndo ao redor, brincando, gritando, brigando. O refrigerante, a comida, cachorro no quintal, risos e algazarra, a luz e o caos sereno da tarde de domingo. Acho que esse era o paraíso que eu sonhava aos quinze anos, mesmo sem saber.
Família.
Não aconteceu.
Um dia, se as coisas seguirem seu curso natural, eu vou sepultar meus pais. Antes disso, não creio que de minha parte eles verão algum neto. Continuo me apaixonando uma vez por semana, mas elas não são mais as garotinhas fantásticas e inviáveis. São apenas garotas. Vem e vão. Continuo sem saber se quero encontrá-la ou se apenas não quero ficar sozinho. Continuo sem saber o que me faz abrir os olhos toda manhã.

Mas pra que eu preciso saber disso?

No fim, maturidade não é simplesmente aceitar? Aceitar que existem perguntas que jamais serão respondidas, aceitar que existem pessoas que partiram pra nunca mais voltar, aceitar que você precisa de um emprego pra pagar a cerveja, os livros, cinema, roupas, saúde, apartamento. Entender que, apesar de tudo, ainda é muito melhor estar acima do que abaixo da terra. Que o homem ainda é um bicho, o único bicho nessa bola de lama ao redor do sol que se pergunta “por quê?”. O único que industrializa e consome antidepressivos. O único que produz e consome poesia.
O único que sabe que vai morrer.

sábado, janeiro 14, 2006


Conhece a ti mesmo e aquela besteirada toda. Você não adora testes de personalidade? Eu amo. São incríveis! Uma dúzia de perguntas que te definem como ser humano em todos os aspectos e facetas possíveis. Fantástico!!!!! Na verdade, acho muito divertido esses joguinhos. E encontrei um agora há pouco que achei bem legalzinho. Daqueles que vc acaba descobrindo qual super herói, vilão, x-man ou sei lá o quê vc seria. Eu poderia ser Vincent Van Gogh. Legal, né? Ou não?

Pra quem não tiver mais o que fazer, entre no link indicado e descubra... que gênio-insano é você? tchanaaannn...

http://mundoinsano.no.sapo.pt/index.html

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O Gatinho

Então.
Eu estava no carro com o Tex, eram umas onze da noite, a gente ia pro Winchester, tinha uma garoa fria e paramos no sinal vermelho, ali na esquina do Castelinho do Batel. Daí veio aquele menino, devia ter uns sete, oito anos, umas tintas vagabundas no rosto que pretendiam ser uma maquiagem de palhaço. E esse menino saiu de algum lugar, parou diante dos carros, debaixo da chuva, e começou a fazer malabarismo, um número rápido, que deu tempo pra ele ir de janela em janela pedindo um trocado. Um menino, uma criança, pintada feito um palhaço, fazendo macaquices diante de um bando de burgueses filhos da puta às onze da noite de uma sexta chuvosa nesta cidade nojenta. Nunca vi um atentado, uma afronta tão grande à dignidade da raça humana como um todo. Ignoramos e fomos beber.
Você está comovido?
Sente-se perturbado?

Ok. Vamos mudar o cenário.

Era um domingo de tarde, eu voltei da casa de meus pais. Estava sozinho no meu apartamento, assistindo um filme legal, quando ouvi os miados. Miado de gato, gatinho pequeno, filhote abandonado. Aquele miado agudo, desamparado. Começava e parava. E eu não consegui assistir o filme. Fiquei pensando no bichano. Olhei pra varanda e pensei que podia forrá-la com jornal, arranjar uma caixa de papelão, um pires de leite. Não. Isso vai me dar dor de cabeça. Começa o filme de novo. O gato começa a miar de novo. Incomoda, me incomoda de um jeito que você não pode imaginar. Desço pra procurar o bichano. Ele para de miar. Não consigo encontrá-lo. Procuro no terreno baldio, no parque ao lado dos taxistas. Nada. Volto pro apartamento, dou play no filme. Filme termina, entro na internet, vejo umas porcarias, blogs, foto de mulher pelada. O gato começa a miar de novo.

Dolorosamente.

Faço a janta. 10 da noite. Não poderia ter um animal aqui. A quitinete é muito pequena. Tenho livros, revistas, gibis, cds, dvds e outras tranqueiras que eu não quero ver detonadas por um animal. E não seria justo com o bichano. Viver enclausurado aqui. Não seria justo comigo ter de limpar a sua merda, levá-lo ao veterinário, pagar sua esterilização, remédios, anti-pulgas. Esqueça. Janto, assisto a entrevista do Lula, o gato mia. Vou dormir.

E

ele

continua

miando.

É óbvio que, quando acordo, não demora muito pra ouvir os miados de novo. Tomo café, pego meu material, desço, vou para o terminal. Ouço os miados e o procuro. E daí eu percebo que ele está em algum lugar bem lá no alto da copa das árvores. Não consigo vê-lo, não dá pra alcançá-lo. Subiu lá de algum jeito e vai morrer lá em cima. Não vou subir pra pegá-lo, ia ser trabalho demais por um bicho idiota. Ele vai morrer lá em cima. Pele purulenta e osso, olhos de vidro, barriga cheia de vermes.
Tiro o dia pra fazer minhas coisas, ver um emprego novo, devolver o dvd, pegar o resultado do exame de sangue. No meio da tarde uma tempestade de verão com granizo. De noite, saída com os amigos pra falar do futuro, do ano do Cachorro, das minhas Grandes Esperanças pra 2006. Volto bêbado e feliz e decido escrever pro blog que ninguém lê. O gato está miando. Vai morrer lá em cima. Molhado, faminto e assustado, sem jamais entender o que aconteceu, sem entender que ninguém vai se dar ao trabalho de subir lá pra pegá-lo, que ele não vale o esforço, que isso não aconteceria se ele não tivesse sido estúpido de subir lá, se ele não tivesse nascido. Vai morrer e não vai fazer diferença nenhuma pra mim nem pra você. Mas enquanto ele não morre, eu tenho que ouvi-lo e suportar o impulso de fazer algo que depois só vai me dar dor de cabeça.

Sabe o garoto do começo do texto?
Pois é...

Chove.
Eu estou na minha cama.
Lá fora, ele mia.