sábado, fevereiro 18, 2006

aleluia


“A verdade dele vos englobará
com um escudo: não tereis medo
do terror da noite.
Da seta que voa durante o dia,
das coisas que caminham pelo escuro;
de invasão,
ou do demônio do meio dia”
O Livro dos Salmos



Quando estão bem, alguns amam a si mesmos, outros amam os amigos, as namoradas, a família e todo mundo mais. Há os que amam o trabalho, outros que amam os shows e bares e horas tardias e o cheiro de sexo. Amam poesia e filmes e música e Arte. E alguns amam Deus. Qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito, o Amor pela vida, que é o oposto da depressão. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. A mola propulsora da ilusão de que as pessoas e os relacionamentos e os momentos vividos são únicos e insubstituíveis.
Embora não ofereça nenhuma garantia de segurança, é o Amor que acolchoa a mente e a protege de si mesma. Mas o Amor nos abandona de tempos em tempos, e nós abandonamos o Amor, e o que resta é a tristeza da realidade. A depressão é a solidão manifesta, o vazio do tamanho de Deus que existe dentro de cada um de nós, o Demônio do Meio Dia. Quando ele chega, destrói não apenas a capacidade de dar ou receber carinho, mas também qualquer possibilidade de estar em paz consigo mesmo.
“O terror da noite”, “as coisas que caminham pelo escuro”, a maioria dos demônios, a maioria das formas de angústia, apóia-se na cobertura da noite. Vê-los claramente é derrotá-los. Mas “o demônio do meio dia”, pode ser visto claramente no momento mais iluminado do dia, e, ainda assim, vem arrancar sua alma de Deus. Vê-lo, conhecer suas razões e suas causas é torná-lo mais forte. Diante do Demônio do Meio Dia, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida se torna evidente.

O único sentimento que resta é a insignificância.


And all I ever
learned from love
Is how to shoot at someone
Who outdrew you
And it's not a cry
you can hear at night
It's not somebody
who's seen the light
It's a cold and
it's a broken hallelujah


(Livre adapatção de trechos do livro O Demônio do Meio Dia, de Andrew Solomon. Hallelujah composta por Leonard Cohen e cantada por John Cale.)

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Imagine...

... que sua vida fosse um editor de texto e que você pudesse apagar os trechos que não te agradaram ou que você não quer que existam mais.
Não seria simplesmente sensacional?
Hein, hein, hein?

sábado, fevereiro 11, 2006

Errata

Segundo minha estimadíssima colega de sonhos, não era um esquilo, mas sim um serelepe.
Obrigado, Olhinhos Verdes.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O Esquilo


Hoje eu vi um esquilo.
Pela primeira vez na minha vida.
Quase tropecei nele.
Estava voltando da tv a pé, passando ali por aquela região bacana entre a Igreja dos Capuchinhos e o Canal da Música. De repente olhei e ele estava ali, parado na minha frente, igualzinho nos filmes, a cauda peluda, segurando uma semente ou sei lá o que, o nariz tremendo, os olhos fixos em mim. Fiquei ali surpreso, como... como... sei lá! Eu nunca tinha visto um esquilo na vida. 30 anos e nunca vi um! E de repente, tava ali, parado. Eu podia ter pisado nele. O bichinho olhou pra mim, virou as costas, e subiu numa árvore. Um motoboy parou do meu lado. “Cara, isso é um esquilo!” É sim. “Nossa, parece que ele não tem medo da gente.” É. E daí o Teco ( ou o Tico, sei lá) desapareceu no topo das árvores. O motoboy: “Cara, que louco!” e eu me senti menos sozinho naquele momento surreal. O motoboy seguiu o caminho dele e eu segui o meu.
Extraordinário.

Mas tem mais (embora a participação do esquilo tenha terminado aqui).

Estou começando meu mestrado, pensando em relações entre tecnologia e a produção de histórias em quadrinhos. É o trabalho mais bacana e inspirador que já fiz. Estou ansioso pra começar os estudos e espero conseguir agüentar o tranco, porque dizem que mestrado é pedreira. Acontece que sábado, um dos maiores quadrinistas do Brasil estará aqui em Curita. Pra não perder a oportunidade, pensei em marcar uma entrevista com o homem. Mandei um e-mail e como resposta recebi um número de telefone.
Era simples: telefonar e conversar. Daí que acontece, a gente chega nos trinta, pensa que está mais velho e maduro e, portanto, livre das jacuzices que se comete quando se é um fã adolescente. Eu sei que do outro lado da linha tem um homem, um artista, um trabalhador do nanquim. Um sujeito comum como eu. Eu devia conversar, agendar a entrevista, simples assim. Mas quando ouço a voz do outro lado da linha eu não consigo acreditar que estou falando com o Homem. O Homem que escreveu e desenhou alguns dos álbuns de quadrinhos mais bacanas que li nos últimos quinze anos. O Homem que eu conhecia só através de algumas entrevistas e umas fotos nos versos dos álbuns. Eu sei que é apenas um homem comum, e que eu estou sendo extremamente jacu, mas quando ouvi a voz do outro lado tive a impressão de um circuito que se fecha, um torvilhão de imagens passam pela minha cabeça, a cena exata da compra do primeiro álbum, o momento da leitura da história que mais me marcou, as conversas com os camaradas madrugada adentro sobre a obra do homem. Consigo marcar a entrevista, gaguejando e dizendo algumas pequenas pérolas da tietagem, mas pra minha sorte o homem é gente fina e tem paciência comigo. E no sábado nos veremos. Quando ponho o telefone no gancho tenho vontade de gritar.
Hahahaha. Eu falei com o Homem, eu falei com o Homem. Eeeeeeee.
Pode ser uma atitude jacu da minha parte, mas tem essa magia do mito, do ser abstrato que existia apenas como idéia por trás dos textos e desenhos, e de repente fala com você ao telefone. Perdoem minha jacuzice.
Amanhã estarei sóbrio.
Por hora, me deixem curtir o momento...