sexta-feira, abril 21, 2006

Snoooopy... Volte pra casa...



Acho que foi mais ou menos em 1984 que o desenho animado do Snoopy estreou no SBT. O primeiro episódio foi sobre o cachorrinho servindo de treinador para a Patty Pimentinha participar de uma competição de patinação artística. Eu tinha dez anos e assisti. Uh, legal! Apesar do Snoopy dar o título da série, o astro do desenho era mesmo o Charlie Brown. Não tinha como não se identificar com o Charlie e suas fraquezas, dúvidas e fracassos. Seu cachorrinho Snoopy era justamente o oposto dele: talentoso, criativo, alegre, ousado, cheio de imaginação. Snoopy estava sempre fazendo um papel diferente: era o aviador da Segunda Guerra, o escritor procurando conceber o grande romance americano (“Era uma noite fria e chuvosa...”), o músico, o canastrão. O Snoopy era a leveza, a brincadeira, era curtir a vida, enfeitá-la com o que se tinha e deixá-la melhor. Mesmo quando se atrapalhava com algo ou brigava com a Lucy, não perdia o brilho, a leveza...

Charlie Brown protagonizava a maioria dos desenhos, alternando com os outros personagens, como a Patty Pimentinha, o pianista Schroeder, Lucy, Linus. E Snoopy protagonizou dois episódios (na época do SBT) que me marcaram muito, muito, muito. Em um ele ia pro Alaska, puxar trenó com os caçadores de ouro. Um show. O outro era sobre uma poodle de circo. Esse foi provavelmente o mais fodido desenho que já vi e é sobre ele que eu quero falar.

Chega o circo na cidade e o pessoal vai assistir. Snoopy, na platéia, vê um número com cachorros amestrados, e se encanta com a estrela do show, uma poodle cor-de-rosa. Ele fica fascinado por ela, pelo mundo do circo. E ela dá uma piscadinha pra ele. É o suficiente pro cachorrinho deixar tudo pra trás e seguir em viagem com o circo. Habilidoso e carismático, Snoopy consegue um lugar no grupo de cães amestrados e passa a conhecer melhor a vida no circo. A treinadora dos cachorros é uma garota extremamente exigente, metódica, militar. A vida no circo se revela dura, cruel, mas Snoopy é obstinado e está apaixonado. A poodlezinha cor-de-rosa é linda, maravilhosa, um sonho. Em casa, seus amigos sentem sua falta, até Lucy, sua “inimiga”, sente saudades do pentelho. “Volte pra casa, Snoooopy...” Charlie Brown falava, segurando a tigela de comida, diante da casinha vazia.

No circo, após ter aprendido malabarismos diversos, Snoopy é pintado de cor-de-rosa e passa a contracenar com sua lindinha. Você já ficou apaixonado? Já carregou um caminhão de merda por uma pessoa? Já suportou o insuportável porque gostava de alguém? Pois é...

O fato é que, depois de um tempo, ele odiava a vida no circo. Muita disciplina, muita dureza, mas o pior era a hierarquia, o domínio da treinadora sobre sua vida. Isso era uma coisa que ele não podia suportar. Numa noite, Snoopy finalmente explodiu, puxou briga com a treinadora, barbarizou o circo, espalhou o caos e a anarquia e no meio do conflito, agarrou a poodle e fugiu com ela. Eles correram, ele a puxava pela mão, olhava para frente, sorria confiante. De repente ela parou de correr, no alto de um morrinho.

Ela olhou para trás, para o circo. Ela estava em primeiro plano. Atrás dela víamos o rosto de Snoopy. Na sua expressão, percebíamos que ele já sabia o que ia acontecer. E aconteceu: ela voltou-se para ele, sorriu, beijou-o no focinho e voltou correndo para o circo. Ele olhou ela se afastar e, então, começou a caminhada de volta para casa. O desenho mostrava sua caminhada, com uma canção que eu não me lembro ao fundo. E a cena que mais me lembro, aquela cena que se cravou na minha memória, é a do chuveiro. Porque ele ainda tinha aquela tinta cor-de-rosa no corpo e quando finalmente chega em casa, no fim da madrugada, ele toma um banho. E no banheiro ele se esfrega e a tinta cor-de-rosa escorre de seu corpo, escorre pelo ralo. Sua vida cor-de-rosa, suas ilusões, suas esperanças. E no dia seguinte a vida continua.

Quando assisti, eu fiquei impressionado. Mas só hoje, quando me lembro do desenho,quando vejo o que aconteceu comigo e com meus amigos e amigas, é que percebo (sinto) o que aquele desenho realmente significava. Porque não acredito que haja alguma pessoa da face da terra que não tenha tomado um dia aquele banho, no meio da madrugada, olhando a tinta cor-de-rosa descer pelo ralo.

E no dia seguinte, a vida continua.

Ela nunca pára.