quarta-feira, agosto 30, 2006

... e, então, eu me apaixonei perdidamente por uma menina que pensava que eu era fast food.

Fanzine é uma revistinha ou jornalzinho, que contém histórias em quadrinhos, poemas e textos sobre mil assuntos. O fanzine é feito por “fãs”, isto é, pessoas que curtem música, cinema, literatura, quadrinhos, etc e querem falar sobre isso. O fanzine é produzido artesanalmente, depois reproduzido através de xerox e distribuído gratuitamente ou via o pagamento de uma quantia simbólica. Não sei como anda a produção de fanzines no Brasil atualmente. Nos anos 80 e 90, existiam centenas de “zineiros” espalhados pelo país. O que aconteceu foi a Internet e de repente você podia fazer um “zine” mais transado, colorido, com animações, por um custo menor e supostamente acessado por uma quantia muito maior de pessoas. Imagino que isso tenha afetado a produção de fanzines de algum modo. Mas antes do msn e do blogger, os fanzines representavam um modo de expressão muito atraente. O xerox dava todo um ar de “clandestinidade”, porque enquanto os meios de comunicação impressa “oficiais” tinham cores, código de barras, jornalistas e designers profissionais, os fanzines eram a voz da contestação, a verdadeira liberdade impressa agindo nas sombras, nos corredores da universidade, nas festas da madrugada. Os fanzines eram poucos e chegavam a poucos escolhidos. Imagine isso acontecendo quando o som de Legião Urbana, Titãs, Paralamas soava como novidade, enquanto a ditadura dava lugar a uma suposta democracia. Fanzine cheirava a molecagem, sexo, juventude, poesia, reflexão, arte! Urra!

Daí, lá no mestrado a gente tem uma disciplina chamada “Dimensões Sócio Culturais da Tecnologia”. A gente lê, a gente lê um monte, sobre um monte de caras que tem umas idéias muito impressionantes sobre o mundo em que vivemos. Idéias que te fazem questionar sobre as coisas intangíveis que chacoalham nossas almas. Coisas de se entrar em parafuso. E foi pra essa disciplina que tivemos de fazer um seminário sobre a “Subjetividade do Homem Pós-Moderno”. Dividimos o tema em tópicos e cada um da equipe ficou responsável por um tema. No meu caso, “Os Relacionamentos Amorosos da Pós-Modernidade”.

Hehehe.

Então...

Foram três livros que orientaram essa parte do trabalho. “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall; “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” de Zygmunt Bauman e “Relatos da vida amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo”, tese de doutorado de Sylvia Maria da Penha Cioffi. Fiquei impressionado com a quantidade de estudiosos que tem se dedicado ao tema do amor. Não pensei que alguém fosse levar isso a sério, mas parece que levam. Entretanto, estes livros estão longe de ser manuais para o amor ou algo assim. Todos partem de abordagens sociológicas, antropológicas e culturais. A idéia é compreender o comportamento e valores da sociedade como um todo.

Bauman tem uma frase que acho muito bacana: “não se pode aprender a amar, assim como não se pode aprender a morrer”. Na opinião dele, de modo geral, a literatura de auto-ajuda sobre o assunto é completamente inútil. E eu concordo. Cada relacionamento, cada pessoa, é um mistério, uma aventura completamente nova, inédita e irrepetível. Cada relacionamento se origina do acaso, não pode ser planejado ou controlado. Ironicamente, o livro de Bauman está na sessão de auto-ajuda.

Bauman é um sociólogo polonês radicado na Inglaterra. Ele é autor de livros como “Em busca da política”, “Modernidade e holocausto” e “Globalização: as conseqüências humanas”. No livro “Amor líquido” ele faz um apanhado geral do amor enquanto construção social e cultural, sobre as angústias e crises existenciais da vida do homem e da mulher pós-modernos. Embora as reflexões de Bauman sejam precisas e contundentes e ele realmente jogue uma luz de compreensão sobre a “maldita raça humana” (como dizia Mark Twain), seu livro não deveria estar na sessão de auto-ajuda, porque não oferece saídas fáceis, nem passa a mão na nossa cabeça. Bauman tem uma visão crua e realista sobre um mundo enlouquecido, endurecido e consumido pelas regras de consumo, onde pessoas são “um prato que você prova, mas não precisa terminar”, onde você atinge a qualidade através da quantidade.

Mas será que não foi sempre assim?

No século XIX havia repressão sexual rígida, no meio do século XX surgiu o “amor livre”. No século XXI vivemos a era do “sexo compulsório”?

As abordagens desses livros partem do pressuposto que estamos integrados em uma sociedade que estabelece valores e códigos de cultura (e o amor é um deles) com os quais construímos nossas identidades subjetivas. Entretanto, apesar da racionalização, nenhum dos autores se ilude. Existe realmente algo no amor, no amor de verdade, que o torna parecido com a morte, isto é, um mistério insondável da existência humana. Nesse sentido, um autor que eu acho muito significativo para a (in)compreensão do amor é o Gabriel Garcia Márquez. Pegue qualquer livro dele. Por exemplo, o clássico “O Amor nos Tempos do Cólera”. Ali temos, na minha opinião, o melhor retrato do amor: irracional, dilacerante, assustador, maravilhoso.

Afinal de contas, quem sabe o que se esconde no coração de homens e mulheres?

Você é livre para querer o que quiser, mas o que faz você querer algo?

E daí, retornamos ao começo. Li esses livros e para o trabalho de Dimensões decidi fazer um fanzine, no modelo clássico de colagem, xerox e erros de registro (que não foram propositais, eu confesso). E aqui eu apresento o tal fanzine, composto de colagens desses livros e outras cositas mais. Escaneei o folhetinho com todos os erros e dificuldades de leitura que ele tinha pra você ter uma idéia, mas, acredite, não é tão legal ver no monitor quanto folhear o bichinho... hahaha.

Fanzineiros, uni-vos!!!!

Hahaha!!

Valeu.

(Sugestão: Baixe as imagens e visualize como “projeção de slides”).
















sábado, agosto 26, 2006

E agora?

Hoje, só hoje, desfiz as minhas malas. Daquela viagem. Pra Paraty. Flip. Os escritores e tudo mais. Sentei no meio da bagunça e comecei a separar todo material da viagem, que estava espalhado por todo o caos do quarto, misturado com desenhos, partituras e textos. Coloquei tudo numa sacola com a estampa do Jorge Amado. Engraçado, existe um ditado muito imbecil que cansei de escutar: “A vida é feita de momentos”. Odeio esse ditado. Acho que é por causa da obviedade. Ou da pura verdade. A viagem ficou lá pra trás. Enquanto estive lá em Paraty, enxerguei possibilidades existenciais, ouvi pessoas sensacionais, conheci gente muito legal, estive em lugares maravilhosos. Eu estava feliz!!!!!

E agora estou de volta.

É.

Hm.

Pois é.

Kung Fu. O Aleverson outro dia tava conversando comigo e falou sobre Kung Fu. Não “kung fu” como arte marcial. Kung fu mais como uma filosofia, um fazer. Sabe, é como você mergulhar completamente naquela atividade, naquele momento, entregar-se completamente, de um modo que quando a tarefa termina o resultado te surpreende e você não sabe dizer se você realmente fez aquilo ou se aquilo simplesmente aconteceu. Entende? Kung fu. Para trabalhar, para amar, para escrever, desenhar, nadar, andar, conversar. Entende? Kung fu.

Naquele mesmo dia da conversa com o Aleverson, eu assisti “A Festa de Babette”. Tipo assim, peguei na locadora meio sem compromisso. Tinha passado o domingo fazendo um fanzine, era tarde da noite, eu tava bem cansado. Mas não quis entregar o filme sem assistir. Onze da noite e tava eu lá na frente da tv começando o filme. “A Festa de Babette” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1987, se não me engano. É a história de uma francesa, Babette, que pede asilo à duas irmãs que vivem numa pequena vila no litoral de um país que não lembro o nome, acho que era a Dinamarca, mas não tenho certeza. Anyway, Babette passa a trabalhar para as irmãs Phillipa e Martina, que eram muito religiosas e mantinham uma pequena comunidade protestante que seu pai iniciara. Daí Babette trabalha com elas como governanta durante anos. Uns 14 anos. E um dia ganha na loteria. 15 mil francos. Phillipa e Martina ficam tristes porque agora Babette com certeza irá embora. Antes de partir, porém, Babette pede às duas irmãs que aceitem que ela lhes prepare um jantar francês, para agradecer pelos anos de abrigo. As duas aceitam e Babette começa os preparativos. A história se passa em meados do século XIX, então uma das coisas que me chamou atenção foi o pessoal trazendo na carroça (junto com codornas vivas, carnes, frutas e temperos) um grande bloco de gelo. Fiquei imaginando de onde eles tiravam o gelo naquela época.

O preparativo do jantar é lindo. Close nas mãos de Babette, manipulando os alimentos meticulosamente, pacientemente, delicadamente. Mãos trabalhando, a mulher compenetrada, fazendo sua arte, preocupando-se com cada detalhe. O filme transmite uma sensação maravilhosa do ato da criação, do carinho com que ela conduzia o preparo do jantar. E “carinho” aqui é uma palavra muito importante.Havia vários convidados para o jantar, entre eles um general que fora apaixonado por Phillipa (ou Martina, sei lá). E esse general é o único da mesa que consegue reconhecer cada um dos pratos e vinhos que são servidos. Ele fica fascinado com a qualidade, com o sabor, com o espetáculo. Ali, naquela mesa de aldeia pequena, estavam sendo servidos os pratos mais saborosos e sofisticados que ele já provara em toda a vida. Por fim, o jantar termina, os convidados partem satisfeitos, e no silêncio da cozinha, as duas irmãs agradecem pelo maravilhoso jantar. Então descobrem duas coisas: a) Babette tinha sido a cozinheira chefe do melhor restaurante de Paris, antes de sua perder sua família e ser exilada por motivos políticos, b) o jantar que ela preparara era o mais caro servido no restaurante, era preparado exclusivamente para líderes de estado, militares e pessoas extremamente ricas. O jantar custou exatamente 15 mil francos. As duas irmãs ficaram espantadas, “mas você gastou todo seu dinheiro por nós?!” e Babette respondeu “eu não fiz só por vocês”. Ela fez por si mesma. Sozinha, sem ninguém que estivesse esperando por ela em seu país, ela gastou todo o prêmio para que pudesse, pela última vez, preparar um jantar como costumava fazer. Era a sua arte, era o que dava sentido à sua vida. Ela fala de um artista que tinha sido seu amigo: “Ele dizia e eu pensava ter esquecido. Um grande grito sai da alma do artista. Dê-me a chance de fazer o melhor possível”.

A chance de fazer o melhor possível.

Kung fu.

O filme tem muitos detalhes que eu não contei aqui. Vale a pena assistir a “Festa de Babette”.

Ele me fez muito bem.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Diário de bordo 6: depois de tudo...


Então.

Hoje de manhã, lá pelas seis da manhã mais ou menos, eu tava no terminal Tietê, lá em Sampa. Tinha chegado às cinco, comprado passagem pras sete. Dei umas voltinhas e fui tomar um café. Daí tinha esse café bem chique, na frente de umas janelas enormes lá no terminal. Pedi um bolinho e um pingado e sentei pra curtir. Tinha um cara tocando piano. Algumas pessoas ao redor, o fervo de segunda começando. Além das janelas, ainda estava escuro. Daí o dia começou a raiar. Clarear aos pouquinhos, pintar os prédios de amarelo ouro. E nesse momento, o camarada do piano começou a tocar “Evita”. Sabe? Evita? Don’t cry for me, Argentina... Então, o cara começou a tocar isso no piano. E daí, me veio na cabeça aquela frase que o freak boy de Beleza Americana fala enquanto filma o balé do saco plástico: “Sometimes there´s so much beauty in the world.” O que é uma verdade. Apesar de tudo, há muita, muita beleza nesse mundo. Às vezes. Eu tava lá, cafezinho, cansaço, na espera da viagem de volta pro nosso mundo real. Janelas gigantescas pro amanhecer e o cara tocando Evita. E tudo tão perfeito, tão único. E aí a música de repente parou. Estranhei, me virei pro piano. O carinha era um viajante como eu. Levantou, pegou a mala e saiu. Ninguém aplaudiu. Tinha pouca gente ali, mas ninguém aplaudiu. E eu pensei que devia ter dito alguma coisa, um parabéns, muito bem ou algo assim, mas também fiquei quieto e fiquei olhando ele indo embora, de costas, mala na mão, cada vez mais longe, cada vez menor, o pianista de Evita, que talvez eu nunca mais veja nem ouça e, com certeza, jamais saiba sequer o nome. Fiquei olhando até ele desaparecer. E percebi que ficar quieto, não aplaudir ou elogiar, era a melhor coisa que poderia ter feito. Porque aquele foi o Momento. E Momentos não precisam de aplausos, eles simplesmente estão ali, acontecem e se você consegue percebê-los, sorte sua.

Na Folha de São Paulo de hoje (que eu roubei do salão de espera da Cometa) tinha uma pequena matéria fazendo um balanço do Flip. Logo na capa da Ilustrada, abaixo do título “Literatura em tempos sombrios”, estava a foto com a mesa dos Sete Perpétuos. (Piada interna. Rárárá.) O engraçado foi ler no jornal o comentário sobre a Adélia Prado. “Uma apresentação emocional, com direito a choro”. Nossa, foi só isso? Pra mim, ali na hora, na platéia foi possivelmente o melhor momento do Flip. Pra mim. Não quero ser injusto com os outros, mas pra mim, ouvir aquela mulher falar foi muito importante. Tomei nota no meu bloco supersecreto de anotações que ninguém além de mim pode ver. A mágica toda da coisa não está só no que ela falou, mas no Momento. O Momento. Sacou? Se você conseguiu percebê-lo, sorte sua.

Sorte minha.

Daí hoje voltando pra casa, vendo as montanhas, diversos planos, cores, texturas, casas de pessoas (que será que um dia saberei como viveram?). Fotos. Tentativas de tentar reter o Momento.

Fiquei imaginando mil textos, mil possibilidades. Mil idéias. Não pra escrever um livro, mas pra escrever minha vida. Retomar as coisas sob um novo olhar, uma nova leitura. Mudar o mundo, começando pelo mundo dentro da minha cabeça. Coisas assim.

E não há controle do que pode acontecer.

Deixo pra trás as ruas de pedras, os escritores, os poetas, as santas, os amigos. Queria poder levá-los comigo sempre, mas eles já se confundem com o mundo dentro da minha cabeça, já se confundem com um sonho que tive, uma fantasia que inventei. E o que é mais importante: o mundo fora ou dentro da sua cabeça? Onde as coisas duram para sempre?

Porque se escreve, afinal? Por certo, não pela celebridade. Esse é o pior, o mais vil, o mais baixo dos motivos pra se escrever. A gente escreve. A gente lê. E no fim, o livro, a poesia, a mágica da coisa toda está ali, no Momento. O livro certo, na hora certa, e você estava lá. Sorte sua.

Eu estava lá.

Sorte minha.

Valeu galera.

Até a próxima.

Libs

domingo, agosto 13, 2006

Diario de Bordo 5: clímax & desfecho

Ontem eu bebi.
Ontem eu bebi muito.
Ontem eu bebi muito MESMO.

Saí pelas ruas, amigo de todo mundo. Escutei violeiros bacanas, conversei sobre literatura com um monte de gente. Curti. Conheci uma poeta de rua, a Renata. Conversamos. Fomos à praia. Bebemos. Lua cheia. Passeamos pela cidade.

Acordei com uma ressaca do cão. Banho, arrumar as coisas, por tudo na mala, foto da janela que dá pro mar.

A primeira palestra do dia foi de Adélia Prado, entitulada "Bagagem". Então. Não tenho palavras. Não tenho palavras. Um daqueles momentos únicos. Ela quase me fez chorar. Não tenho palavras. Se fosse pra vir e ver uma única palestra, a dela valeria toda a viajem. Não sei descrever o que aconteceu. As coisas que ela falou, sobre o amor, o cotidiano. Aquela velhinha mineira, lendo poemas, admitindo que estava nervosa, falando rápido, falando coisas que faziam um sentido extraordinário sobre símbolos, miséria humana, solidão, amor. Ela leu um poema chamado "Mortes Sucessivas". Sensacional. Eu estava lá. Sabe, um daqueles momentos que ficam na tua cabeça, que podem te acompanhar até o fim da sua vida, que podem te transformar? Como uma revelação, um milagre, uma epifania. Não foi só o poema, não foi só a mulher, foi algo mais algo que foge às palavras. E só quem estava lá sabe o que foi.
Saí da sessão e fui comprar o livro dela. Esperei mais de duas horas pra receber o autógrafo dela, pra falar com ela. E valeu a pena. Valeu cada minuto.

Consegui ingressos e assisti a Nicole Krauss na tenda dos autores, chamada carinhosamente de "Tendinha". A tendinha tem muitas vantagens. Ar condicionado e a presença ao vivo dos autores, pra começar. Nicole Krauss é a autora de A História do Amor, um livro belíssimo sobre solidão, amor e resignação. Ela era a autora que eu mais queria conhecer. Tinha receio que ela fosse meio misantropa, meio anti-social. E no entanto.

Sensível, linda, tímida, graciosa. Na hora dos autógrafos, eu arrisquei meu inglês com ela. E ela me perguntou, depois do autógrafo: O que achou do livro? Ela perguntou assim, me olhando nos olhos, como quem realmente quer saber sua opinião. Isso me desarmou completamente. Falei que curti muito, que era um livro belissimo e tal. E ela ficava ali olhando pra mim, prestando atenção. "Do you like the tradution?" Disse que não tinha lido o original e não podia comparar e de repente comecei a falar sobre Leo Gurski, o pobre, velho e solitário Leo Gurski, em toda sua miséria emocional, sua tristeza, sua simplicidade e força. E falei. E se você me conhece, sabe o que acontece quando baixa o santo e eu começo a falar. Foi incrível poder dizer aquelas coisas pra pessoa que escreveu algo que significou tanto pra mim.
Maravilhoso.

Peguei as coisas no hotel e vim pra última palestra. "Os livros de cabeceira". Com todos eles falando sobre seus livros. Muito legal. Fiz amizade com uma galera bem divertida. Um rapaz lá de Porto Alegre, fã da Nicole e do Foer, que escreveu e publicou um livro aos 19 anos. Ele me deu um exemplar. Espero poder lê-lo logo.
Agora estou com a Márcia, vou tomar uma sopa (tá um friozinho bem gostoso aqui) e esperar o ônibus das 23:30. Estou um bagaço.

Eu tive um dia legal.
Com certeza.
Vários dias legais.

Amanhã, a conclusão.

See you.

sábado, agosto 12, 2006

Diário de bordo 3: hou, you are incredible, Mr. Incredible!!!

ALOOOOOOOOOOOOOOOOOUUUUUUUU vocês!!!!!
Por que se escreve?
Para comunicar.
Para amar.
Para se realizar plenamente como ser humano.
Para preencher vazios.
Para responder perguntas que não tem respostas.
Por desespero.
Por completa incapacidade de fazer outra coisa.
Por tesão.

Em uma mesa chamada "Sobre o Amor e Outros Demônios" que versava sobre escatologia e desajustes, o que poderia se esperar? Título de um livro do gabriel garcia marquez, sobre uma santa bruxa louca que viveu e amou desesperadamente em uma cidade que provavelmente era muito parecida com paraty.
Já tentou empurrar um carrinho de bebê pelas ruas de uma cidade histórica? tipo as ruas de paraty?
Então, Lourenço Mutarelli roubou a cena de novo, sensacional. Por que escrever se o que vc escreve não perturba? Conheci o André Santana e ele também manda ver bem pra caraio.
Nossa.
Mais importante que escrever? LER!!!! Ler e reler e reconstruir e resignficar e reinar. Uma palestra chamada "O último Leitor" com o argentino chamado Ricardo Piglia, que tombou dodói e foi substituído de última hora por José Wisnick que fez uma senhora leitura sobre UM conto de Machado de Assis e tirou de lá tantos significados e tantas relações que não pude acreditar. Crédito do autor ou do leitor?
E Mr. Foer? Mr. JOOOOOOOOOOONTHAN SAFRAN FOOOOOOOOOOOOOOER? Ele é casado com a Nicole Krauss!!! Vc sabia? Eu tambem não. Cool, hein? Descobri isso quando encontrei os dois tentando empurrar o carrinho do filhinho pelas pedreiras que eles chamam de rua nessa cidade.
Ali Smith: escocesa, escritora bacana, apaixonante, conheci ela aqui. Conheci mesmo, bati foto deitado em cima da mesa com ela. Mas essa história eu só conto bêbado. FERA! FERA! RÁ! RÁ! RÁ!!!!!
Até onde dá pra ir? Até onde dá pra ir? Prédios em chamas, crianças mortas, podreira, miséria afetiva, emocional, espiritual. Mundo doente, perdido, assustado, covarde, cruel, apaixonante. Não sou leve, as pedras racham sob meus pés. Viver é um esforço. Desprezo as pessoas que são felizes. Cuspo nas pessoas que acham a vida bela. Fodam-se os risos fáceis, a leitura fácil, foda-se toda maldita mediocridade do mundo. Quando rio, rio com gosto, rio com raiva, rio pouco, mas quando rio quero que escutem nas profundezas do Inferno, porque nessa selva alucinada de desespero e angústia um riso sincero vale ouro. Um riso sincero é tudo...
E eu estou aqui agora.
Não estou a trabalho, estou a passeio.
Estou de passagem.
Até onde dá pra ir?
De onde vem as palavras?

Uma máscara.
E por trás da máscara, uma pergunta.

O que é mais importante: o mundo lá fora ou o mundo dentro da sua cabeça?
Uma pergunta melhor ainda: qual a importância de saber disso?

Bêbado, louco e feliz. E furioso.

Ah, bem. Conheci umas garotas. É divertido. Fútil, vazio e descartável. Mas divertido. Macio. Quentinho. Gostoso.

Por trás da máscara
lhe tenho amor
lhe faço horror
eu sou um ator...

uh.
espero não me arrepender disso amanhã.

Na linguagem humana, "gente, isso aqui está demais!".

Manhana com miss Nicole Krauss.
E otras cositas mas...

"Dentro de cada homem há um vazio do tamanho de Deus".
Dostoyevski.

Quem se considera escritor num mundo onde há Dostoyevski, Machado, Kafka, Bukowski?
Cachaça. Um brinde...
Desculpem o mal jeito.
Estou bem.
Alguém na minha família pode não estar.
Nos vemos amanhã.
Beijos a todos.
Amo vcs.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Diário de bordo 3: tô de buenas...

Cara, tá frio aqui. Tipo assim, são umas nove horas e tá friozinho. Eita.
Saí agora há pouco da palestra da Toni Morrisson, sobre "A Arte de Narrar". Toni é mulher, negra, escritora prêmio nobel. Talvez pelo fato de eu estar um bagaço eu não consegui curtir totalmente as idéias dela. A mulher é toda engajada e tem uns temas muito muito interessantes. Algo sobre uma escrava que assassina os próprios filhos e depois é julgada por "roubo", isto é, por ter expropriado seu "dono" de seus pequenos escravos. O nome do livro que conta essa história é "Beloved" (Amado). Cool, hein?
Como eu disse, tô muito muito cansado. Hoje o dia foi sensacional. Logo de manhã cedo, no café da manhã encontrei um pessoal da Folha de São Paulo que tinha vindo pra curtir o Flip e trocamos umas idéias.
A palestra da manhã era pra ter sido com o Carlos Heitor Cony, mas parece que ele estava doente e em seu lugar veio Wilson Bueno, curitibano. Um cara engraçado. Com ele estavam Inácio de Loyola Brandão e Miguel Saches Neto, discutindo sobre "As matérias do Romance". Nossa, valeu a pena. Mas como eu disse, tô muito cansado pra tentar resumir aqui o que rolou lá.
Como eu tinha a tarde livre, tirei pra zanzar pelo centro histórico. Fui nas tais igrejas, as que eu tava reclamando que tinha que pagar pra entrar. A igreja de São Benedito é bem simplesinha, era para os escravos. Uma construção de 1725. Lá conheci a Renata, uma mocinha bem legal, guia da cidade. Hehe
Depois fui pra igreja de Santa Rita, a mais conhecida, o cartão postal da cidade e museu de arte sacra. Essa foi sensacional. O Hilton, o carinha que cuidava me contou algumas coisas sobre a igreja, as imagens e as santas. Bom, a igreja de Santa Rita era dedicada aos escravos livres, mulatos e etc. Lá encontrei uma série de imagens barrocas de santas, esculpidas em madeira, datando do século XVII e XVIII. Impressionante era a imagem de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira da cidade. Era esculpida em um só bloco de madeira, a riqueza do panejamento era sensacional, os detalhes muito ricos. Lá nesse museu, eu meio que comecei a ter uma idéia pra um trabalho que ainda não sei bem o que será, algo envolvendo as muitas faces de Nossa Senhora, mas estendendo isso pra uma mulher, uma única mulher que tem várias faces, vários aspectos, como arcanos do tarô, variações extraordinárias sobre o mesmo tema. É. Eu queria ter conhecido a moça que serviu de modelo praquela imagem de nossa senhora dos remédios. Muito linda, muito gata. Uma gatinha do século XVII.
Ao lado da igreja encontrei um columbário ou uma columbina, sei lá, que era um pátio, muito bonito, dentro da igreja, com túmulos na parede. Gente morta, sem identificação nenhuma, sem nenhuma idéia de quem foram, quando viveram. Uau. Viajei longe nessa.
Então, ainda visitei a cadeia, que fica logo ao lado dessa igreja de Santa Rita. Essa cadeia hoje virou biblioteca. Curiosamente, não removeram as grades, então há prateleiras de livros dentro das celas. Muito cool. Na parede encontrei um facsímile da "Tribuna de Paraty", de 29 de novembro de 1883, um domingo. Matérias de primeira página:
- Um editorial falando sobre a consciência e importância do voto, já que teriam eleições para representantes no dia seguinte.
- Uma aberração que fora abortada numa fazenda da região, um porco de oito patas, na verdade um siamês natimorto. Bizarreiras do século XIX.
Além disso, uma série de matériazinhas e notinhas curiosas. Muito divertido.
Essa tarde me senti muito bem, me senti em paz como há muito tempo não me sentia. De repente, tudo parecia estar no lugar.
Sobre literatura, se eu fosse escolher um tema sobre o qual eu gostaria de falar, um tema que tem feito minha cabeça ultimamente, eu escolheria "identidade". Por uma coincidência extraordinária (imagine o Zé Wilker lá no Mochileiro das Galáxias...) o tema do Flip desse ano é identidade. E tá valendo a pena mesmo.
Vitória, valeu por deixar uma mensagem. Brigadu, me sinto menos sozinho nesse frio mundo cibernético. Hahaha! Beijos!
Piuí, meu velho, ano que vem tem mais. Estaremos aqui. Com muito livro e cachaça, se Deus quiser. Hahaha!!!
No mais é isso gente. Hoje pra mim não tem noitada. Preciso dormir por que AMANHÃ é o GRANDE DIA!!!!
MUTARELLI!!!!
JOHNATHAAAAAN SAFRAAAAAAN FOOOOOOOOOER!!!!
UHUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!
Amanhã é dia de tietagem, minha gente!!!!!
Ducaralho, ducaralho!

Abraço proceis.

Liber

quinta-feira, agosto 10, 2006

Diário de Bordo 2: IRRAAAAAAAAA!!!!

O show da Bethania foi massa. Tipo assim, eu não curto, mas ver ao vivo sempre é impressionante. Ontem foi noite de lua cheia. Vc não faz idéia do que é caminhar pelas ruas de Paraty em noite de lua cheia. Mais loucura ainda é caminhar pra praia do Jabaquara, onde eu estou hospedado. Loucura não é bem a palavra. Praia com lua cheia, montanhas ao redor.
Desisto.
É um esforço inútil tentar apreender o que pensei, senti, vivi. Inútil.
A água do hotel era gelada, mas o silêncio era total e a escuridão também. Noite muito bem dormida (eu estava um bagaço). Dia seguinte café da manhã vendo a baía. Cara, a pousada é muito massa. Tinha uma família de franceses que trocou umas idéias legais comigo. Pelo menos dentro dos limites da linguagem. O café da manhã é num tipo de varandão, pássaros entram, chegam bem perto da gente. Pode não ser muito higiênico mas é bacana. Very cute.
Daí fui pro Forte do Morro. Que ficava num morro. Passei a manhã toda lá. Não que tivesse muita coisa pra ver, mas o clima estava muito legal. As rochas e o mar e umas árvores muito bacanas entre muralhas de pedras e canhões de 250 anos. Me lembrei do finado Jack Sparrow. Ha!
Comprei ingressos pra mais duas mesas e procurei um lugar bom e barato pra comer. Na verdade, estou começando a ficar meio irritado. Não dá pra dar dois passos nessa cidade sem que apareça um daqueles caras segurando um monte de folhetinhos e perguntando: "Vc gosta de poesia? São 7 reais." Pfff. Cara, é muito muito muito comércio. Demais. Satura. É que nem maratona, overdose, sei lá. Pra todo lugar tem 2 reais de entrada. Até na igreja. Caraio. E se eu quiser entrar só pra rezar? 2 reais. É a casa do Senhor, pô! Deus tá vendo...
De qualquer modo, trotei pela cidade batendo fotos e tudo mais. Bem bacana. Muito legal. E consegui achar um lugar legal pra almoçar.
A Flip propriamente dita começou às 17 h com a palestra "De Onde vem as Palavras" de David Toscana (México) e Mário de Carvalho (Portugal). Ah, que beleza. Que beleza. Os caras falaram um monte sobre a relação da escrita, da relação com o leitor, essa coisa tão fascinante, sensacional. Os dois mandam muito bem e conhecer o autor sempre muda o olhar sobre a obra. David era muito engraçado pessoalmente e sua obra parece ser bem forte, barroca, absurda. Mário era mais contido, mas era o que tinha as mais fortes idéias sobre o que significa escrever. De onde vem as palavras? De um lugar além das palavras. Hohoho.
E, por fim, Benjamin Zephaniah, negro, escritor, britânico, poeta, performer, mestre de kung fu. Impressionante. Ele falou sobre a vida, o racismo, a violência, a globalização, o rap. E não é disso que a boa literatura é feita? De vida?
De reflexão. De uma tensão constante entre espontaneidade e reflexão. Quanto mais vc pensa, mais perde a espontaneidade. E um texto sem espontaneidade é um texto morto. Por outro lado, um texto sem reflexão serve pra que? Pra deleitar quem? Onde está a literatura afinal? Essas palavras me vêm agora e são do Mário de Carvalho.
Zephaniah é louco, intenso e sensacional. Fez uma leitura impressionante de poemas. O engraçado era ver a moça da tradução simultanea tentar acompanhar seu ritmo alucinante. Eu fiquei com o fone no som original. O homem realmente impressionava. Conhecer o autor sempre faz diferença.
Bom, vou terminar por aqui. Queria desenvolver mais as idéias, mas não tenho tempo de continuar, meu horário no ciber café ta acabando. Por isso desculpem a falta de conexão entre as idéias e os erros de digitação. Isso aqui é escrita hard boiled. Hahahaha.
Agora vou sair com umas moças que conheci no café. Por que nem só de literatura vive o homem...
Boa noite e boa sorte...

Libs

quarta-feira, agosto 09, 2006

Diário de bordo 1

Escolher namorada pela internet é fria. Nunca me dei bem com isso. Vc vê as fotos, lê o texto do perfil, é tudo muito lindo, maravilhoso. E quando vc se confronta com a realidade...
O que penso sobre namoro na internet pode ser extendido para a escolha de hotéis via web. Simplesmente não funfa. Quando vi o hotel que escolhemos... pelo amor de Deus... saí zanzando pela cidade e achei outra posada, mais cara, mas muito mais bacana. Amanhã eu vou tomar café olhando o mar de Paraty.
Viajar sozinho se mostrou algo bem diferente do que eu imaginava. Pra começar, nunca estou sozinho. Parece que minha capacidade de puxar papo ficou mais aguçada. Faço amizade com todo mundo que encontro. Muito divertido. Agora digito esse texto rapidinho, antes que minha meia hora acabe. Meio engraçado, escrever assim no automático.
Agora, depois que sair daqui vou lá pro centro histórico. Não sei se rola de ir no show da Maria Betania, não sou muito a fim. Mas acho que vou dar uma geral nos barzinhos e botecos. Parece que a vida aqui em Paraty fica mais intensa à noite. Interessante, considerando que a cidade é só um pouco maior que Morretes. De onde vem toda essa gente?
Amanhã começa o Flip mesmo, com palestras e tudo mais. Espero ter coisas bem interessantes pra contar. Mas eu estou aqui. Só isso já é bem legal.
Saudades doceis.
Abraços.
Libs