quarta-feira, setembro 27, 2006

Eu fui embora

No momento em que você lê isto, eu não estou mais aqui.

No momento em que você lê isto, eu fui embora, não sei pra onde, pra nunca mais voltar. Queria ter feito melhor, queria ter passado mais tempo com você. Queria ter sido mais digno de você. Mas não consegui. Desculpe.

Não sei bem o que fica no meu lugar. Fica alguma coisa, disso tenho certeza. Sempre fica alguma coisa. Por isso quando você o encontrar por aí, quando sorrir pra ele e ele te olhar nos olhos, não importa o que ele te diga, não importa o que ele faça, lembre-se: aquele não sou eu.

Eu fui embora.

terça-feira, setembro 26, 2006

As malditas noites insones


Meia-noite e meia. Hora de estar na balada, hora de estar bebendo e brindando minha vida perfeita, com meus amigos sensacionais, agarrando todas as gostosas de todos lugares que mal podem esperar pra dar a bunda pra um cara sensacional como eu ou pra qualquer outro imbecil que as faça esquecer por algumas horas de quem elas são e do quão pouco isso significa. Meia-noite e meia e eu estou aqui deitado esperando os efeitos do tranqüilizante. Onde eles estão? Será que perderam o ônibus? Não escutaram meu chamado? Não é assim que funciona? Eu tomo as bolinhas e os efeitos maravilhosos de uma noite de sono vem me embalar. Não é assim que funciona? O sono dos justos em cápsulas, à venda nas melhores farmácias. Eu tomei três, TRÊS cápsulas, então, por que caralho ainda estou acordado? Porque essa merda de cama está tão desconfortável?

Uma e treze. Eu devia sair. Beber um monte, agarrar qualquer uma, meter até fazer ela ganir. E depois sair de novo, beber de novo, agarrar qualquer uma de novo, meter até fazer ela ganir também. Que nem eu fiz ontem. E anteontem. Não é assim que funciona? Damos duro o dia inteiro pra isso, não é mesmo? Pra sair de noite, beber, meter e esquecer que damos duro o dia inteiro.

Uma e quarenta. O único som é o murmurinho da garoa lá fora. Não passa nem carro na rua. A luz dos postes desenha o vazado das persianas no teto do meu quarto. A madrugada se consome imóvel no teto do meu quarto. Se eu ficar imóvel e deixar de pensar o sono vem. É só não pensar. Shhhh. Quietinho.

Uma e quarenta e um. Tem que escrever o artigo, a data final é sexta. Não tenho idéia do que falar. Amanhã é quinta. 7 horas tem que estar dentro da piscina. 9 horas tem que estar na redação. O cheque da agência ainda não compensou. Amanhã é quinta. Tem almoço com a Beatriz. Preparar as fotos pra exposição. Passar no MAC. Fim de semana tem raft. Não vai dar pra ir. Tem que fechar o projeto pra segunda. O pessoal tá cobrando.A maconha acabou. Beatriz. A cama parece tão grande. Qual é o problema de sair com uma mulher casada?

Uma e quarenta e dois. PARE DE PENSAR SEU CRETINO!!!! FIQUE QUIETO!!!! FIQUE QUIETO!!!!

Duas e oito. Faz tempo que não visito meu pai. Não devia deixá-lo no asilo. Não devia. Mas trazê-lo pra casa? Eu devia. Arranjar um quarto, trazer ele pra cá. Conversar com ele todo dia. Mas será que ele não ia se sentir mais sozinho ainda aqui? Qualquer dia desses ele morre. O que eu estou fazendo a respeito? O que eu posso fazer?

Duas e cinqüenta e três. Beatriz. Merda. Isso vai dar merda. Beatriz. Ela cheira tão bem, Tem um sorriso tão lindo. Se ela não fosse tão inteligente. Se ela não fosse tão... amável, gentil. Alegre. Como posso gostar de alguém que eu nem beijei? Isso vai dar merda. Eu vou me foder.

Três e catorze. Homens são estúpidos, ela me disse. Homens pensam com seus paus. Sim, claro. Não temos cérebro, não temos emoções. Somos bestiais, incapazes de qualquer coisa além de beber e foder. Drummond, Dostoyevski e Picasso são um exemplo disso. Vaca.

Três e trinta e seis. AHHHHHH, PUTA QUE PARIU!!!! O DESPERTADOR TOCA ÀS SEIS!!!!!!!

Quatro e dois. Como é mesmo o nome da filha do Roger? Dani? Deisi? Nossa, depois que ela nasceu o cara mudou completamente. Ele e a Vanessa me assustam. Parecem felizes. Ele me fala da filha quase todo dia. Mostra as fotos. O bebê no banho. O bebê sorrindo. O bebê babando. Tudo isso não pode ser real. Um casal não pode ser tão feliz assim. A Vanessa deve chifrar o coitado e ele nem sabe. Ou ele deve trair ela... Será?

Quatro e vinte e sete. Será que a Beatriz trairia o marido?

Quatro e vinte e oito. Eu me casaria com a Beatriz. Eu teria uma filha com ela. Minha vida seria melhor? Será que a Beatriz me trairia?

Quatro e vinte e nove. Fez efeito. As bolinhas... o sonos dos justos...

Quatro e cinqüenta e oito. Um tiro. Na rua. Um traveco gritando. Merda. Merda. Eu desisto. Na tv, o Corujão. Um filme do Clint Eastwood. “Meu nome é Coogan”. Que bela porcaria. De repente, lá fora, o céu começa a mudar de cor. Vou pra varanda. A cidade começa a acordar, começa a se mexer. Este é o meu mundo. Clint Eastwood, Johnny Walker, Jontex lubrificado, mulheres gostosas. Muito barulho pra encher minha cabeça. Barulho é bom, muito bom. Essa é a minha vida. Só se vive uma vez, e da maneira que eu vivo, uma vez basta. Sim, senhor. A minha vida.

Amanhece.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Mantenha seus pés longe do chão. Ele é muito sujo.


23 anos. 23 andares. Ela deve ter batido no chão de costas, porque o caixão estava aberto e o rosto dela estava muito bonito. Sereno.

Depois do funeral, os dias passam.

A casa, os espaços vazios no sofá da sala, na mesa no café da manhã.

O quarto dela.

Ele se sentava na cama e olhava em volta. Pensava em vender tudo, dar para caridade, vender o apartamento, sair dali pra sempre. E tinha medo, tinha medo de que ela desaparecesse mesmo, se desvanecesse aos poucos de sua memória como um retrato que vai desbotando, desbotando. Daí ela estaria morta para sempre, quando todos tivessem se esquecido dela. O que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Acontece com todo mundo. Então ele não vendia nada, não dava nada pra caridade nem pra ninguém. Pra segurá-la junto de si mais um pouco, só mais um pouco.

Naqueles primeiros meses sentava na cama dela, sentia ainda o cheiro dela no travesseiro, via os porta-retratos e fotografias na parede. A viagem pela Europa, as festas com os amigos, acampamentos. A foto que ele mais gostava era essa: ela aos seis anos, sentada no seu colo, vestida de chapeuzinho vermelho pra festa da escola. Sorrindo. Ela sorria sim, sorria quando recebia um elogio, abaixava os olhos e dizia “obrigada”, baixinho. Linda.

Na mesinha do lado da cama, abajur, porta-retrato, gaveta. Na gaveta, as cartelinhas inacabadas de Rivotril e Lexapro. E o caderno.

Ela mesma tinha feito o caderno, em uma oficina de encadernação. Ele tinha uma capa preta, com estranhas cores impressas, como quando você fecha os olhos à noite e olha para dentro de si mesmo. Capa preta e lombada quadrada. Um caderno com cara de livro. Dentro anotações, desenhos, fotografias. Ele virava as páginas com cuidado, queria deixar as coisas do jeito que ela deixara, mas uma vez fora descuidado e um papel caíra. Um recorte de xerox de uma fotografia, um homem segurando um gato. Ele nunca descobriu quem era o homem da foto. Mas imaginava que fosse um louco, um doente. Imaginava isso pelo camisolão que o homem vestia, pelo seu olhar demente, algo infantil, abestalhado. Aquele homem e seu gato eram mais uma parte do retrato inacabado de sua filha.

Quem era a moça que se jogou do vigésimo terceiro andar?

Ele virava as páginas com cuidado, com carinho, com pesar. Ele se perguntava onde tinha errado, como ele tinha deixado aquilo acontecer. Às vezes achava que a culpa tinha sido toda sua. Às vezes imaginava que se tivesse dado o tratamento adequado... Para protegê-la de si mesma, ele a teria internado, teria feito ela levar choques elétricos, teria entupido a menina de todos os ansiolíticos disponíveis no mercado. Para protegê-la de si mesma, ele a teria mutilado. Para mantê-la viva.

E, quando lia o caderno, ele ficava perplexo. Quem era a moça que se jogou do vigésimo terceiro andar? Como ela podia enxergar o mundo daquele jeito? Era mais do que um desequilíbrio químico no cérebro. Era uma série de fragmentos, de anotações, poesias, citações, desenhos e fotografias que formavam um discurso insano e deformado sobre o que era a vida. E, ao mesmo tempo, belo, apaixonado, intenso. Assustador. Fantasias, utopias e delírios, sonhos sem sentido, canções sem sentido sobre possibilidades impossíveis. Uma torrente de pensamentos que se estendia pelas páginas, que, de repente, exatamente no meio do caderno, convertia-se num silêncio branco. Como ela podia enxergar o mundo daquele jeito? O que mais ela teria escrito se tivesse conseguido chegar ao final do caderno? Se tivesse se permitido chegar ao final do caderno...

Se estivesse viva ela poderia se casar, poderia ter um emprego, filhos. Mas ela disse não. Não quis aceitar as dádivas, não quis aceitar as regras. O que ela queria da vida afinal? O que ela esperava? Por que não lutou, por que não procurou outra saída, procurou construir outro mundo, nem que fosse só pra si mesma?

Uma vida. E ela disse não.

Era uma coisa grande demais pra cabeça dele. Ele jamais entenderia. Nem precisava.

Sua menininha tinha ido embora pra sempre.

No fim, esse era o único fato.

O único e pesado fato.

O resto era discurso.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Deus tá vendo



E tem nova IdeaFixa no ar. Trata-se de uma revista digital com trabalhos de ilustradores e fotógrafos. Nesse segundo número o tema era “Metrópolis” e eu participei com a arte acima. Meio que no embalo do Blacksad e WE3, resolvi fazer um “desenho sem preguiça”. Fiz o desenho a lápis e daí comecei a pintar no Photoshop. Levei uns dois dias trabalhando. Foi bem divertido.

  • www.ideafixa.com
  • Passe lá. É bem legal...



    Um Lugar Entre as Sombras


    Estamos em setembro e teve dois lançamentos em quadrinhos em particular que me fizeram curtir um monte. O primeiro foi WE3, em fevereiro. O segundo foi Blacksad, agora em agosto. Simplesmente sensacional.

    É uma trama noir, historinha de detetive nos anos 40 ou 50. Faz lembrar muito Sin City, principalmente a história do Marv. Também em Blacksad encontramos o sujeito durão que procura o assassino de sua amada, mas a atmosfera é muito mais leve. O mais bacana em Blacksad é a arte. O desenhista Juanjo Garnido, ex-animador da Disney, cria personagens antropomórficos extremamente expressivos. Garnido domina legal as cores da aquarela e cria ambientes de uma luminosidade sensacional, mas além disso o desgraçado não tem a menor preguiça de desenhar e constrói cenários maravilhosos, com detalhes, perspectivas e vida próprias.

    Fazia tempo que eu não pegava algo que desse vontade de sair desenhando. As amostras abaixo estão em espanhol, mas Blacksad: Um Lugar entre as Sombras já está disponível em português pela editora Panini. O segundo volume deve sair agora em setembro.

    Eba!






    Visceral

    Ontem eu me disfarcei de Joey Barrish.

    Ontem eu fui Joey Barrish. O casaco comprido que faz parecer mais alto e mais magro. O cachecol que tenta fazer da cabeça e do corpo uma coisa só, como se não existisse pescoço. O gorro que protege e esconde. Um frio, um frio danado hoje. E o meu mundo se disfarçou no mundo de Joey. Tarde da noite, caminhando sozinho pela rua XV, a luz amarela dos postes, as pessoas encolhidas e embrulhadas em trapos, deitadas na frente das lojas. O vento que entrava pelas fibras do casaco, gelado. Comediante sem graça, artista sem talento, voltando pra casa tarde da noite, Joey Barrish. E, porque eu era Joey, eu descobri que por dentro ele é feito de vidro. Vidro fino, do tipo que pode quebrar por qualquer coisinha, quebrar pra sempre, sem conserto, sem remédio. Porque eu era Joey, eu de repente me vi pensando que às vezes o amor é como câncer.

    Amor.

    Câncer.

    Acontece, simplesmente acontece, lá dentro da gente. Às vezes demoramos pra perceber e quando nos damos conta está lá, nas nossas entranhas. E não é culpa de ninguém, nem nossa, nem do outro, nem de Deus. Simplesmente acontece. Talvez fosse uma predisposição, talvez fosse um mau hábito, talvez fosse algo no ambiente ao redor. Mas acontece e aquela coisa está lá, bem dentro da gente, enraizada, crescendo, se espalhando. Daí vem o medo de que essa coisa que cresce dentro de nós nos mate. Medo que nos assombra todas as horas do dia. E lutamos pra nos livrar dessa coisa dentro da gente e pra isso temos que fazer tratamento. O que pode significar retirar pedaços inteiros de nós mesmos. Nós nos mutilamos na esperança de continuarmos vivos e, com sorte, continuamos vivos (ou quase), embora, por dentro,estejamos cheios de buracos que jamais serão fechados. Para continuarmos vivos, nos afastamos de tudo que possa trazer o tumor de volta, mesmo sabendo que isso não oferece garantia nenhuma de que a coisa não ressurja, impregnada nos nossos pedaços que sobraram.

    Às vezes, o amor é exatamente como câncer.

    Altas horas da noite, frio do cão, eu era Joey Barrish, vivo, voltando pra casa, sentindo um grande vazio em algum lugar das minhas entranhas de vidro, e pensando quem teria sido a pessoa que eu tive que extirpar da minha vida.

    Quem será que eu deixei pra trás pra poder continuar vivendo?

    Hoje, eu não era mais Joey Barrish, mas o frio e a pergunta ainda mantêm meus pés gelados.

    (Joey Barrish é o personagem de Jim Carrey no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Assista, vale a pena. É um filme bem legal. Às vezes, o amor é exatamente como câncer, mas na maioria esmagadora das vezes é algo extremamente saudável e vital, embora de maneira nenhuma seja indolor.)

    domingo, setembro 03, 2006

    Uma ilustração...

    Essa ilustração eu fiz como proposta de capa de livro. História de uma mulher que tinha sido abandonada com as crianças. O marido dizia que ia voltar, mas quem podia dar certeza? Então a mulher se viu sozinha, com as crianças, sem ter pra onde ir. Conseguiu abrigo com uma conhecida que era dona de bordel e a deixou ficar lá. A ilustra mostra sua primeira noite na casa nova, ouvindo os sons através das paredes, os gemidos, os suspiros, risos. Dentro dela, alguma coisa desperta.

    Esse era o meu briefing. Fiz uma adaptação de formato pra colocar aqui no blog. Materiais de sempre: lápis, aquarela, fotoshop.

    Maneira legal de passar uma tarde chuvosa.