Eu tinha oito anos de idade quando matei meu irmão. Ele tinha sete. A gente tava brincando em cima de um muro, na frente de casa. Era um muro de tijolo, calfinado. Devia ter um metro de altura, um metro e vinte mais ou menos. A gente tava em cima desse muro, brincando de se equilibrar e daí a brincadeira passou a ser quem derrubava o outro. Ele me derrubou. Ele ria de mim. Agarrei os calcanhares dele e puxei com raiva. Ele bateu a cabeça no chão de concreto e morreu. Chorei, me apavorei, abracei meu irmão e ele era feito um brinquedo quebrado pra sempre. Chorei, gani feito um cachorro, com medo, com dor, por ele ter morrido, pelo que seria de mim. Daí veio minha mãe, correndo pra acudir o que não tinha mais solução.
Foi por causa do meu irmão que eu comi a Letícia. Ah, eu tinha 16, ela 18. Ela tinha uns peitões, não me lembro de mais nada dela a não ser os peitões. Aquele cabelo preto lindo caindo por cima daquelas tetas maravilhosas. Então, estávamos acampando lá no Marumbi. Tínhamos saído com uma galerinha, um bando de moleques que fumava e bebia e se achava foda pracarai. Naquela noite ainda, o Limão ia quebrar as pernas e perder quatro dentes por descer correndo o morro bêbado. Mas ele teve mais sorte que outros. Antes do Limão fazer a cagada, a gente tava em volta da barraca, bebendo Velho Barreiro com Coca, fumando, contando história, rindo. Acho que era uns seis piás e umas quatro gurias. A Letícia era uma delas. Eu tava de olho nos peitões dela, não tinha como não estar. Gostosa. Eu ainda era cabação e tava de olho naquelas tetas. Daí a galera começou a fazer aquele joguinho de perguntas, sei lá como se chama.
“Já beijou?”
“Já.”
“Já deu?”
“Já.”
“Já deu beijo grego?”
“Que que é beijo grego?”
“Quá quá quá” e a galera se matava de rir. E no meio dessas besteiradas todas começaram os papos cabeça e de repente alguém perguntou “Já matou alguém?” E eu já tinha matado. Eu tava bêbado e chapado. Disse que sim. Já tinha matado. E foi meio estranho porque o pessoal ficou meio quieto, sei lá. E daí eu percebi que tava meio que chorando. Tipo, as lágrimas escorriam do meu olho, mas eu não parecia tá chorando. Eu não sentia que tava chorando. Uma coisa meio estranha, não sei explicar direito. Mas daí eu levantei e saí de perto do pessoal. Fui pro mato, sentindo coisas dentro de mim que não entendia direito. Olhava pra lua lá em cima, pra escuridão do mato. Pensava nas músicas do Legião, na galera correndo pra atravessar a ponte antes do trem passar, no sol brilhando verde nas folhagens da serra. E de repente comecei a soluçar. Ele nunca ia ver isso. O meu irmão.
A Letícia de repente pôs a mão no meu ombro e quando vi eu tava chorando naqueles peitos mais lindos do mundo. Num lembro direito mais do que aconteceu. Acho que começou com ela me fazendo carinho, eu beijando, sei lá. Mas foi bom. Fizemos ali mesmo, em cima das pedras. Chupei aqueles peitos, ela me chupou, fiz tudo a que tinha direito. Acordamos pelados, um no outro, o sol queimando a gente, os gritos do pessoal dizendo que o Limão tinha se fudido. Ressaca, vômito.
Depois disso, eu e a Letícia sempre sorríamos um pro outro, mas nunca mais rolou nada, nem papo, nem amizade. Foi esfriando, a gente foi esquecendo.
Hoje tenho 24 anos. Levei minha mulher pra fazer ultra-sonografia. Tô vendo uma mancha na tela e o doutor diz que é meu filho. Ou filha. Num sei ainda se vai ser piá ou guria, mas se for homem já sei o nome que vai ter.
Se for menina, minha mulher escolhe o nome.
