sexta-feira, dezembro 28, 2007

For a found harmonium




Outubro sabia, é claro, que o ato de virar uma página, de terminar um capítulo ou fechar um livro, não terminava uma história.
Tendo admitido isso, ele também declararia que finais felizes não eram difíceis de se encontrar: "É simplesmente uma questão", Outubro explicou a Abril, "de encontrar um canto ensolarado num jardim, onde a luz é dourada e a grama macia; um lugar para se descansar, parar de ler, e ficar contente".
De O Homem que Era Outubro, por G.K. Chesterton / Biblioteca dos Sonhos


Como um final de livro.

Como um final de filme.

Como um final de ano.

E esse foi sobre se consertar das coisas intangíveis que chacoalham as nossas almas e outras bobagens relevantes. Esse foi sobre aceitar a saudade, aceitar a vida e seguir em frente.

Inventamos um final, roubamos algumas palavras e uma música, sobem os créditos e nos preparamos para um novo começo.

E, pela primeira vez em muito tempo, tudo está bem.

Tudo está bem!

Rindo à toa, em algum lugar ensolarado de luz dourada e grama macia.

Feliz 2008 pra você.

Com muita música, cor e pessoas legais.


(Texto de O Homem que Era Outubro escrito por Neil Gaiman em Sandman: Estação das Brumas.
Music for a found harmonium composta por Simon Harry Jeffes e executada por Penguin Cafe Orchestra).

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Feliz Natal




Fui pra praia.
Praia, praia, praia, sol, areia e bundinhas gostosas.
Aquele calor insuportável que aprendi a gostar.
Amo muito tudo isso.
Curtindo o apartamento do primo em Florianópolis, curtindo a cidade, a comida, tudo de bom. Daí uma hora eu estava sentado lá no banheiro e comecei a fuçar na pilha de revistas que tem ao lado da privada. Acabei achando uma Superinteressante com "A Verdadeira História do Natal". Ah, é! É natal! 25 de dezembro e tal!

Natal, a época em que comemoramos o nascimento de Jesus. Não que isso fique muito evidente nas decorações natalinas. Pinheiros, simulação de neve, ursos mecânicos que cantam e dançam. Não consigo enxergar a ligação com o nascimento de Jesus, mas é lógico que há uma explicação.

Daí essa Superinteressante. Muito legal. Antes do menino Jesus, tipo assim, uns sete mil anos antes, já tinham festas nessa época que comemoravam "o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro". A partir dessa noite, o sol fica mais tempo no céu, os dias ficam mais longos e tudo começa a nascer de novo, rumo ao clímax do verão. Era por isso que um monte de gente celebrava: era o retorno do sol, da luz da vida. E pra celebrar, muita festa, comida e bebida.

Segundo a Superinteressante, cada povo celebrava à sua maneira, com seus deuses e crenças. Gregos rendiam homenagens à Dionísio, deus do vinho, com bacanais sensacionais. Os egípcios festejavam em honra à Osíris, os druídas da velha Grã-Bretanha festavam o solstício ao redor das ruínas de Stonehenge, os chineses homenageavam a harmonia da natureza representada pelo símbolo do Ying-Yang.

Daí surgiu o cristianismo.

Bom, os cristãos não gostam de concorrência. Como não conseguiram sufocar as outras comemorações, incorporaram-nas. Na Bíblia (e me corrijam se eu estiver errado), não há nenhuma citação específica sobre a data de nascimento de Jesus. Assim, arbitrariamente, marcaram a data de 25 de dezembro e se "apropriaram" das comemorações de outras culturas. A Superinteressante cita o historiador André Chevitarese, da UFRJ: "Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural".

Dessa "troca cultural" vieram símbolos e costumes que podem parecer um tanto estranhos em relação aos textos bíblicos originais. A árvore de natal, por exemplo, vem do
Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. Um pinheiro cheio de lindas luzes e estrelinhas. Muito bonito, mas o que pinheiros tem a ver com a Nazaré da época de Jesus?

Aliás, essa é a parte mais engraçada! Tem a propaganda super-ultra-hiper-mega-jacu de um shopping de Curitiba que mostra o dito shopping durante a noite, erguendo-se imponente, coberto de neve e, diante dele, seus consumidores-zumbis com cachecóis e blusas sorrindo feito imbecis e olhando o infinito. Lógico que todo mundo já percebeu como esse clima de neve e de comemoração de solstício fica deslocado aqui por esses lados do Equador. Mas, fazer o quê? As tentativas de criar comemorações locais conseguiram ser mais rídiculas ainda que as tradicionais.

A surpresa pra mim foi a respeito do Papai Noel. Eu sempre pensei que a figura do bom velhinho tinha sido inventada pela Coca-Cola. Mentira! Foi um desenhista norte-americano chamado Thomas Nast que idealizou o visual do velhinho gordinho que conhecemos hoje, com base na figura do bispo Nicolau. Entretanto, foi
uma série de anúncios da Coca-Cola em 1931 que fizeram o Papai Noel bombar como o super-star do natal.

A título de curiosidade, achei na web a suposta primeira aparição do Papai Noel. O desenho de Thomas Nast é de 1863 e retrata um casal separado pela Guerra Civil Norte-Americana no Natal de 1862. O Papai Noel está ali, no canto superior direito, se preparando pra descer a chaminé...



Legal foi essa outra imagem de Papai Noel que achei na Wikipedia:


A foto foi tirada em 1902, nas ruas de Chicago. A placa diz: "Help the Volunteers of America send Santa down 10,000 chimneys". Algo como "ajude os Voluntários da America a enviar o Papai Noel para 10.000 chaminés". É uma outra coisa característica do Natal: o espírito de solidariedade e beneficência.

Nossa, vi um monte de reportagens sobre as crianças que escreveram cartas ao Papai Noel. Os correios recebiam as cartas, voluntários as liam e se organizavam de modo a atender aos pedidos. Fizeram uma série inteira de reportagens a esse respeito no jornal do meio-dia aqui em Curitiba. Em Florianópolis também vi algumas matérias semelhantes. Mostravam as cartinhas com pedidos singelos, como um caderno ou uma blusa. Geralmente eram escritas por crianças e mães pobres. Obviamente, essas reportagens apresentavam uma forte carga emocional. Muita gente chorando e tal.

O tal "espírito de Natal" encontra uma de suas mais célebres manifestações no Cântico de Natal (A Christmas Carol) de Charles Dickens. Você com certeza já viu essa história ou alguma similar: um velho avarento e explorador é visitado por três espíritos na noite de Natal, o Passado, Presente e Futuro. Eles o levam a ver os erros que cometeu e comete em função de sua ganância e o triste fim que o aguarda. Na manhã seguinte, o velho surta e vira um bonzinho generoso. Feliz natal para todos. Fim.



Eu particularmente gosto muito dessa história. Ela foi publicada em 1843, na Inglaterra. Mais de vinte anos antes de Marx publicar o primeiro volume de O Capital. E, de certa forma, tem mais a ver com O Capital do que parece. A exploração do trabalhador em busca do lucro desmedido é exatamente o que o velho avarento faz em Cântico de Natal. A miséria está presente ainda em outras histórias de natal. Histórias de sofrimento, privação e um milagroso ou redentor final, que traz lágrimas aos olhos. O espírito de Natal é exatamente essa redenção e talvez mais. Talvez seja o desejo sincero de quebrar com a ânsia de lucro e exploração desmedidas que impregna todas as esferas de relacionamento humano. Natal é trégua, época de fingirmos que somos todos iguais e nos tratarmos mutuamente com respeito e, talvez até, legítima afeição.

Pelo menos, essa é a teoria.

O que eu vejo é que, embora seja muito bonito e emocionante realizar os pequenos pedidos de Natal das crianças pobres, ao longo do ano não parece haver esforço algum para alterar as condições de penúria em que essas crianças vivem. Não há interesse ou vontade de tornar as condições sociais mais justas. Será que não há como mudar as condições que fazem essa criança escrever uma carta pedindo coisas tão simples quanto uma bola ou um caderno de escola?

Mas esse tipo de pensamento é coisa de comunista subversivo e comunista tem que queimar no inferno. Graças ao bom Deus existe o Natal, em que nós podemos exercer nossa generosidade e solidariedade, pra depois curtirmos férias na praia e voltarmos renovados para um novo ano produtivo de trabalho e conquistas. Deus abençoe a América.

E por falar em Deus... Natal, solidariedade, enfeites bonitos, compra de presentes... ei, e onde fica Jesus nisso tudo? Ah, ele fica quietinho, deitado na manjedoura no meio do presépio. Honestamente, o aspecto cristão do Natal não me parece ser o mais celebrado, embora ainda seja forte. Não me agrada a idéia de que é uma data arbitrária, criada para estimular a divulgação do cristianismo, apropriando-se dos símbolos e valores de outras culturas. O que temos hoje é um culto ao comércio encoberto com neve de isopor. O Natal é fake.

Curiosamente está para estrear justamente no Natal o filme infantil A Bússola de Ouro (The Golden Compass). Ele é baseado na série de livros de Philip Pullman, que é ateu convicto. E isso perturbou muito as autoridades eclesiásticas, como por exemplo a Liga Católica dos Estados Unidos e o próprio Vaticano, que descreve o filme como uma "saga ' fantasy' gnóstica com molho 'soixante-huitard' [alusão ao movimento de rebelião estudantil na França, em 1968], além de anti-Natal" que promove "uma ideologia atéia e inimiga de todas as religiões, tradicionais e institucionais, do cristianismo e do catolicismo em particular".

Uau, estou louco pra ver esse filme.

Talvez essa seja a idéia da polêmica. Talvez a Igreja Católica esteja de conchavo com o Philip Pullman e ganhe uma grana por divulgar o material dele através desse bafafá. O fato é que as vendas do livro aumentaram em 500%, embora o filme tenha ido muito mal nas bilheterias. Na verdade, o verdadeiro motivo da irritação da Igreja parece estar no fato de que, no mundo mágico criado por Pullman, as forças do Mal são representadas pelo "Magistério",
uma ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças. Hmm... por que será que a Igreja se ofendeu? Vou assistir o filme para melhor formar uma opinião.



Enfim, é Natal.

Complexo, intenso, paradoxal, emocionante, fajuto, onipresente Natal.

Boas festas pra você. Aproveite com quem você ama. Junte a família, dê muito abraço e beijo. Curta bastante. É o melhor a fazer.

Feliz Natal.
Ho
ho
ho.


(Para ler na íntegra a matéria citada da Superinteressante, "A verdadeira história do Natal", de autoria de Thiago Minami e Alexandre Versignassi, clique aqui).



quinta-feira, dezembro 20, 2007

A light of meaning in the darkness of mere being

Até onde podemos perceber, o único propósito da vida humana é buscar um lampejo de significado na escuridão do mero existir.
Carl G. Jung – Memórias, Sonhos, Reflexões.

Fulaninha passou em biologia, depois de tentar medicina veterinária por quatro anos. E já no primeiro semestre, encontrou Beltraninho, que seria seu parceiro para vida toda. Nas mesas de cerveja, Fulaninha e suas amigas riam e comentavam: “Era pra ser assim”.

Acaso, destino e livre-arbítrio estão entre as questões mais clichês e batidas da filosofia de boteco. Mas também são ferramentas fundamentais pra qualquer bom ficcionista. O jogo é muito divertido. Tudo começa com “E se...?”

E se Fulaninha tivesse passado em medicina veterinária na quarta tentativa? E se tivesse decidido tentar uma quinta vez? Ela encontraria Beltraninho? Quem ela poderia ter encontrado?

E quem não fica se perguntando “E se...?” sobre a própria vida?

E se eu tivesse sido mais esperto e não tivesse deixado você escapar?

Divagar sobre o que poderia ter sido não é uma coisa muito útil, mas é irresistível e inevitável, principalmente nessa época. Chegando o fim do ano, as famílias juntinhas, esse clima de Natal que mais parece lavagem cerebral via todos os canais possíveis de mídia. Não dá pra deixar de pensar. Olhando para os acentos vazios à mesa.

E se não tivéssemos perdido o bebê? Que nome ele teria?

Mas, mais bacana do que imaginar o que poderia ter sido é prestar atenção em como as coisas se tornaram o que são.

Saia pra rua e veja as coisas acontecerem. Um congestionamento de trânsito, você decide pegar outro caminho e encontra alguém que não via há tanto tempo. Dá uma carona pra pessoa e ela confessa que não deveria estar ali naquela hora, que foi um contratempo que a fez escolher aquele caminho. Se você ou ela tivessem passado um minuto antes ou depois, não teriam se encontrado. Mas estavam ali, naquele instante.

E assim começa alguma coisa.

Particularmente, acho uma bobagem essa conversa de Destino. Fico lembrando daquele cara ridículo que aparecia na tv dizendo com a voz anasalada “na vida nada acontece por acaso”. Fico pensando nos criacionistas que defendem o “design inteligente”. A vida é complexa demais pra ter acontecido por acaso, eles dizem. Tem que ter uma “mão” por trás de tudo.

Claro que tem. Só porque você quer.

As coisas acontecem e ficamos procurando conexões, explicações, relações de causa e efeito. Procuramos dar significado a eventos que provavelmente não tem nenhum. Mas, afinal, não é esse ato de procurar (e inventar) o sentido das coisas que nos define como humanos?

Há dias em que eu me assombro. As coisas funcionam com um sincronismo assustador. Pequenas coincidências que se desdobram ao longo do dia. Uma música que me faz lembrar de uma pessoa pela manhã e de tarde me ligam dizendo que ela morreu. Aprendemos a pensar em termos de causa e efeito, mas às vezes as coisas simplesmente acontecem. Sem razão ou propósito. E isso pode dar um parafuso na cabeça de muita gente. Principalmente na minha.

E, apesar de clichê, batida e óbvia, a questão permanece: há um padrão? Existe um sistema pré-ordenado ou as coisas simplesmente acontecem ao acaso? Ou um pouco dos dois?

Um padrão que se repete, uma rede de eventos, uma maldição, uma sina inescapável.

Estamos presos a um destino? Há como fugir dele ou mudá-lo?

E se for tudo uma invenção, podemos reinventar? Vamos parar com tudo e ir pra casa assistir tv bem cobertinhos no sofá? Você vem comigo?

“Faça as coisas acontecerem”, disseram. “A sorte não vai vir bater na sua porta procurando você”, disseram. Mentira. Ela veio sim. Ela veio bater em minha porta uma vez. Disso eu nunca vou esquecer. Dela eu nunca vou esquecer.

Uma música toca pela manhã e à tarde uma pessoa está morta.

Mas eu ainda não morri.

Ainda estou aqui pra andar pelas ruas, pra pensar nas coincidências. Pra fazer a minha sorte e a sua também. Jogar dados e marchar na lama. Beba comigo. Ria comigo. Eu ainda não morri.

E lá vamos nós de novo...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Uma estranha e indefínivel certeza...

Era um sonho.

Engraçado como tudo fica muito vago na lembrança. Eu lembro do chão de cimento, algo como uma laje e lembro de alguns vasos e folhagens, uns postes de concreto sustentando um varal e alguns lençóis brancos talvez. E o céu azul. Com nuvens brancas. É disso que eu lembro. Vagamente. Imagino que eu estava naquele lugar sozinho. Não lembro de ninguém lá. Mas eu não deveria estar sozinho, porque alguém me falou, isso eu ouvi nitidamente, claramente. Alguém falou pra mim:

Você não sabe a sorte que tem. Não sabe a sorte que tem! Todo o dia, toda a noite você sai para as ruas, você passeia por essa cidade e não sabe dela, dessa pessoa que existe morando na mesma cidade que você.

Morando na mesma cidade que você.

Você pensa que sabe das coisas, pensa que tem saúde, que tem controle da sua vida. Mas se você encontrar essa pessoa, se você olhar pra ela e tomar consciência de sua existência, você vai saber o que é dor. Você vai sentir seu estômago se esvair feito ácido. Você vai sentir o gelo mais puro dentro do seu peito.

E se ela olhar pra você...

Se ela olhar pra você, você morre. A mais definitiva de todas as mortes.

A mais

definitiva

de todas as mortes.

Você entende isso? Há uma pessoa assim, vivendo na mesma cidade que você, e você pode encontrá-la a qualquer minuto.

A qualquer minuto.


Não lembro de quem disse isso. Mal lembro da voz que ouvi. Mas as palavras ficaram aqui dentro da minha cabeça. Ressoando o dia inteiro. Enquanto eu caminhava pelas ruas, dobrava esquinas, entrava nas casas.

Uma pessoa...

domingo, dezembro 02, 2007

...e hoje foi domingo.


Ontem teve sessão de cinema lá no Paralelo.

O Paralelo, pra quem não sabe, é um lugar legal onde as pessoas se reúnem pra fazer, pensar e discutir esse lance das imagens. Daí eles estão exibindo uma série de filmes do diretor espanhol Julio Medem. Ontem foi Os Amantes do Círculo Polar.

Segundo a resenha da Nicole:

Otto e Anna conheceram-se quando eram crianças, por acaso,porque é no acaso que as pessoas se relacionam.Tudo começa em 1980, quando têm oito anos saem do colégio a correr por diferentes motivos. Desde essa tarde começa a desenhar-se um círculo que só se completa dezessete nos mais tarde, quando ambos têm vinte e cinco anos.

O filme é maravilhoso. O tempo todo fala-se de ciclos. Nos diálogos e monólogos, nas imagens. É um filme sobre amor.

Num dado momento, o pai fala para o menino: “Às vezes o amor acaba. É como um carro que fica sem gasolina. Então ele pára”.

Ciclos. Tudo começa, acaba, recomeça. Primavera, verão, outono, inverno. Todo relacionamento acaba, mais cedo ou mais tarde. Mas há duas possibilidades. Na primeira o amor acaba que nem a gasolina do carro. Alguém precisa aceitar que não é mais amado. A relação esfria. A relação morre.

A segunda possibilidade é a morte. Como Romeu e Julieta, como Meg Ryan em Cidade dos Anjos, como as saudades que o velhinho de Os Amantes do Círculo Polar sente da falecida esposa. O maravilhoso com a morte é que a relação vive para sempre. Torna-se “um amor pra vida toda” e além dela. Impedido de se consumar, o amor sacraliza-se. O pessoal do cinema adora essa idéia e parece que o público também.

Os Amantes do Círculo Polar é bem melhor e apresenta bem mais coisas interessantes do que expus aqui. Mas essa idéia dos relacionamentos me fascina. Como começam e como terminam no mais completo acaso. Como parecem enriquecer de significado a vida dos amantes.

E hoje foi domingo.

Não fiquei pensando tanto no filme, mas sim no cheiro do Paralelo. O Paralelo fica numa sala nova, cheirando a tinta ou cola ou sei lá o quê. Estive no Paralelo umas três vezes, mas é esse cheiro que sempre me chama a atenção. Cheiro de material de construção, de habitação recém-construída. Mas também é cheiro de lugar novo, de expectativas, de novos começos, de esperanças. É o mesmo cheiro que tinha meu apartamento, nos primeiros dias que morei lá.

Ciclos.

Chegando fim de ano e pra mim é hora de recomeçar. Mais uma vez. Tudo. Abrir as portas para o acaso, para o novo. A Marilda perguntou outro dia como eu estava e, sei lá por que, respondi:

“Sabe quando um trapezista salta, aquele momento que ele fica suspenso no ar, acreditando que vai ter uma barra onde se agarrar no instante seguinte, mas sem ter certeza nenhuma disso? É assim que estou.”

Ciclos.

Cheiro de começos novos, expectativa de um acaso favorável para criar um significado maior na minha vida, planos não muito detalhados com muito espaço para o improviso.

We're on a road to nowhere e aquela história toda.



Passei a tarde de hoje jogado no sofá, lendo, ruminando a vida. Pensei em sair, ir assistir no Cine Luz A Vida Secreta das Palavras, mas, pôxa, um domingo lindo desses e sair pra ficar sentado em uma sala escura?

Fiquei no sofá mesmo, lendo, espreguiçando, dormindo. Até parece coisa de velho em asilo. Mas foi um bom domingo.

É... um bom domingo...

E desejo a todos uma boa segunda.

Especialmente aos corintianos.

:-)

segunda-feira, novembro 26, 2007

Esse lance de gostar de quem não presta

I was born to love you

With every single beat

Of my heart

I was born to take care of you

Every single day

Of my life


Ah, saudades de começo de namoro, quando a gente fica feliz por ficar feliz, quando a gente telefona e escuta aquela voz linda lá do outro lado. Quando a gente caminha nas nuvens e elas são feitas de algodão. Quando acontecem os primeiros beijos, os melhores. Faz tempo que não sinto isso.

Mas dentro dos mil tipos de amor existente, um dos que mais me fascina é o lance de gostar de quem não presta.

Quando tinha 16, 17 anos, eu era apaixonado por uma menina linda de olhinhos verdes e ela era apaixonada por um cara não tão apaixonado por ela. Com ou sem maldade, ele fez tudo e deu todas as razões do mundo pra que ela o deixasse, mas a moça continuava lá, firme, chamando-o de “meu homem” e chorando pelos cantos. Uma menina de 15 chamando um piá de 17 de “meu homem”. Parando pra pensar hoje, eu acho isso engraçado, mas na época, pra mim, foi uma merda. No fim das contas o rapaz é que acabou o namoro e ela entrou em parafuso e simplesmente sumiu. Parece que ela largou tudo e fugiu pra praia. Mais ou menos no meio de um semestre, acho que era abril ou setembro, sei lá. E nunca mais a vi.

E a adolescência acaba, mas o lance de gostar de quem não presta continua. Ataca qualquer idade, qualquer sexo. Todo mundo já embarcou nessa canoa furada. E sempre tem algum conhecido ou conhecida metida numa dessas. Abraçando com amor um grande rolo de arame farpado. Talvez seja uma necessidade de auto-flagelação, talvez seja o medo da solidão, talvez seja um profundo desamor-próprio.

Ou talvez apenas façamos aquilo que aprendemos na infância.

Eu me lembro de ser criança. A perspectiva era diferente, o mundo era maior, mais interessante, o tempo parecia passar mais devagar. Lembro dos brinquedos, da tv, de brincar nos canteiros de construção, do pôr-do-sol. Lembro das brigas de meus pais, de insultos gritados, de explosões de raiva inexplicáveis. Acho que talvez ali tenha começado essa impressão sub-reptícia que carreguei comigo tanto tempo de que a vida era algo para ser suportado, carregado, tolerado.

Bom...

E entre tudo isso também tinha gibis. Muitos gibis.




A edição número 17 da revista Super Aventuras Marvel da Editora Abril tem data de publicação de novembro de 1983. Portanto eu tinha nove anos de idade quando a li. Ainda tenho a edição original em minha coleção e a carrego no fundo da minha cabeça. Nove anos de idade e vi o Demolidor num porão escuro, enfrentando seu passado de mágoas, culpas e frustrações feito alucinações sob a forma de um demônio. Pantera Negra é deixado para morrer no deserto, amarrado a um tronco de espinhos, o calor insuportável, os animais espreitam ao redor esperando sua morte. Cerca de 12 mil anos atrás, Sonja, a guerreira ruiva de pernas maravilhosas (meu Deus, que coisa de louco!) enfrenta sozinha entre os desfiladeiros um improvável gigante de metal que procura executar sua última ordem: matá-la. Situações extremas, cheias de uma prosa exageradamente fabulosa como só um gibi pode oferecer. Que maravilha ser criança. E no meio de todos esses heróis, o monstro.

O Homem Coisa.

Escondido num laboratório secreto no meio de um pântano, pesquisando uma fórmula que pudesse transformar homens comuns em super-soldados, um cientista é atacado por espiões. Na fuga, desesperado, ele injeta a fórmula ainda não testada em si mesmo, mas algo dá errado... ele perde o controle de seu carro e mergulha nas águas escuras do pântano. “Águas que começam a reagir com a substância em seu organismo, provocando a grotesca transformação que pôs fim à sua humanidade!”

E o cientista vira um monstro do pântano, uma criatura irracional, incapaz de se comunicar, incapaz de se lembrar de que foi um dia um ser humano.

Nessa história que li, um bebê é jogado de uma ponte e, numa dessas fabulosas coincidências tão comuns nos quadrinhos, cai justamente nas mãos do monstro. Mas apesar de tudo, a criatura é do bem. E apesar de ser chamada o tempo todo de irracional pelo narrador, tem capacidade de saber onde mora um médico com quem pode deixar a criança. Mais ainda, entende o que o médico fala e percebe que a criança tinha sido jogada pra morrer. Indignado, o monstro vai atrás do autor da barbaridade.

Num casebre do meio do pântano, um casal discute. “Onde está o meu filho?” ela pergunta. O homem se defende, dizendo que levou a criança ao médico. Na cena, repare naqueles detalhes do desenho. Apesar dos estereótipos de sempre, como a menina gostosa e inocente, dá pra perceber outras coisas. A casa paupérrima, a menina que teve o filho muito jovem, o cara que usa a agressividade como principal defesa diante de um mundo sobre o qual não tem controle . Ele ameaça a mulher e apesar de não agredi-la, pela atitude dela podemos deduzir que isso talvez já tenha acontecido antes. Claro que essas coisas eu não via na época. Eu tinha nove anos. Queria mais é ver aquele safado se ferrar nas mãos do Homem Coisa.

E daí o monstrão entra em cena. O Homem Coisa tinha um dos poderes mais bacanas. Ele era feio de dar dó, assustador mesmo, e conseguia sentir as emoções das pessoas em volta. No caso, quando elas sentiam medo, o monstro se irritava. Mais ainda, o medo fazia com que o toque da criatura queimasse feito ácido. Cool!!!

Ao contrário das outras histórias do gibi, não há uma grande luta. O monstro simplesmente agarra o homem e queima o seu rosto. E daí acontece a reviravolta. A menina defende o cara. Ela o abraça e o protege da criatura. Acho que aí minha cabeça de criança deu um nó. Como ela podia? Como podia defender aquele escroto? Mas ao mesmo tempo, achei de certa forma bonito, pungente. Talvez fosse a solidariedade dela, talvez fosse a sensação de que por mais terrível que seja, qualquer ação possa ser perdoada.

Olhando hoje eu vejo um monte de coisas nessa historinha. O desespero do sujeito diante da pobreza e das crises dentro da família, a situação miserável de pessoas jovens demais e sem preparo diante das responsabilidades adultas, o afeto inocente da menina.

Jogar uma criança num rio pra ela morrer não é só coisa de gibi. Toda vez que vejo uma matéria assim no jornal eu me lembro dessa história. Toda vez que vejo uma pessoa insistir num relacionamento e defender o que parece ser indefensável eu lembro daquela menina abraçando o sujeito do rosto queimado.

Nove anos. Parando pra pensar em quantas revistas eu li como essa Super Aventuras, não é à toa que fiquei “estragado” pro resto da vida. Não que essa história tenha formado minha cabeça, mas acho que ela captou e me apresentou um pouco do que me esperava nessa vida adulta. Desse jogo complexo de relações marcadas por incoerências, incompreensões e surpreendentes atos de solidadariedade.






sábado, novembro 17, 2007

A medida de todas as coisas

Persepolis - Teaser 2



Antropologia é muito legal. Acho que eu queria ter sido antropólogo.

Eu achava que a coisa devia ser bem simples: você observa o que um grupo, povo ou tribo faz e depois descreve o que viu. Na minha cabeça, imaginava viagens exóticas cheias de aventuras excitantes e contato com outros mundos completamente diferentes. Coisas do tipo Marco Pólo, sabe?

Mas daí comecei a olhar mais de perto a tal da antropologia e vi que o negócio era bem mais complicado do que eu pensava. BEM mais complicado.

Grosseiramente falando, a Antropologia é a ciência que se volta para o ser humano e suas relações culturais e sociais. Suas raízes mais remotas encontram-se na filosofia grega, mas como ciência mesmo a Antropologia passa a existir a partir do Iluminismo, no século XVII. Pelo menos, é o que dizem...

No século XIX a antropologia incorporou o conceito de evolucionismo proposto por Darwin. Essa antropologia entendia que os povos ao redor do mundo estavam encaixados dentro de uma linha de evolução e portanto existiam povos mais “adiantados” e superiores que outros. No topo da evolução, estava exatamente a civilização européia, que por sinal tinha inventado toda a teoria. Assim, a antropologia era principalmente um estudo dos “povos inferiores” e a justificativa “científica” do domínio exercido pelos europeus.

Mais tarde, ao longo do século XX, começaram a surgir outras perspectivas para a antropologia. Surgiam novos pesquisadores e novas idéias, muitas delas radicalmente discordantes entre si. Só o conceito de “cultura” recebe algumas definições bem diferentes, dependendo da corrente antropológica que se segue.

Uma das questões interessantes é o observador. O tal antropólogo. Ao observar os costumes da “tribo” estudada, freqüentemente acontece o conflito entre a formação e perspectivas culturais do observador e do observado. Assim temos relatos que são carregados de juízo a respeito dos observados, imputando-lhes características como “atrasados”, “ignorantes”, “selvagens” e outros termos do tipo. A referência sempre é a formação do observador, que é considerada como a mais correta e justa.

(Engraçado como às vezes acontece o contrário. Há vários relatos de antropólogos que vão estudar uma determinada comunidade e acabam “absorvidos”. Simplesmente não voltam mais para a civilização. Essas histórias são divertidas, gosto muito delas...)

Enfim, a Antropologia é bem mais do que estudar o outro, o desconhecido, aquele cara estranho que vive naquele país lá longe, mas ainda é esse aspecto que mais fascina. Os relatos das viagens exóticas, as tais diferenças culturais.

Acho que é esse fascínio que explica o sucesso de vendas de dois livros: O Livreiro de Cabul (de Asne Seierstad, editora Record) e O Caçador de Pipas (de Khaled Hosseini, editora Nova Fronteira). Ambos têm como cenário o Afeganistão. O Livreiro de Cabul é uma espécie de diário de viagem da jornalista norueguesa que conviveu três meses com uma família afegã. O Caçador de Pipas é uma ficção escrita por um afegão, com toques autobiográficos. Não li nenhum desses livros...

Mas li os álbuns Persépolis (de Marjane Satrapi, editora Cia das Letras) e Pyongyang (de Guy Delisle, editora Zarabatana Books), quadrinhos que abordam essa temática do “olhar sobre o outro”...




Se eu for dizer que isso é Antropologia, alguém pode querer me bater. Por outro lado, se eu disser que isso não tem nada a ver com Antropologia, também não vou estar correto. O que quero aqui não é defender essas obras como um relato antropológico, mas sim fazer umas observaçõezinhas interessantes a respeito delas.

Pyongyang é, semelhante ao Livreiro de Cabul: um livro de relato de viagens (e mais uma pessoa que fala mal de quem a hospedou... hahaha). Só que em quadrinhos. Com desenhos. O autor é Guy Delisle, um animador canadense que viaja para Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coréia do Norte (um dos três países que compõem o tal eixo do mal do George Bush). Lá, por dois meses, ele supervisiona a produção de uma série animada produzida por um estúdio francês e executada pelos coreanos.

Acontece que a Coréia do Norte é um país comunista sob um regime totalitário, liderado por uma figura bem bizarra, o tal Kim Jong-Il, que herdou o título de “Querido Líder” de seu pai, Kim Il-Sung. Muitos consideram a Coréia do Norte a única dinastia stalinista do planeta.

Delisle descreve um país extremamente opressivo. Há um contraste assustador entre os grandes monumentos feitos em honra aos dois Kim e a pobreza do país. São diversos episódios que mostram situações completamente absurdas. Durante a noite, não há energia para iluminar toda a capital e apenas os monumentos recebem luz, destacando-se entre todos os prédios mergulhados na mais completa escuridão. A idolatria aos dois líderes está presente em todos os cantos. Além dos monumentos, há placas, outdoors, músicas nos rádios, idolatrando aos Kim. Todas as salas apresentam fotos dos dois. Todos os habitantes usam um brochezinho com a foto dos dois.

Pelo menos, segundo Delisle.

O fato de ele levar na viagem o livro 1984 de George Orwell e citar diversos trechos não é gratuito. A perspectiva de Delisle é a nossa perspectiva ocidental. Ele não consegue compreender como as pessoas parecem realmente acreditar nos slogans do governo e na “santidade” de Kim Jong-Il. Na descrição de Delisle, há o medo e a opressão constantes, além de toda uma espécie de fanatismo que cerca a figura do líder. Kim Jong-Il é o próprio Grande Irmão do livro de Orwell.

Constantemente acompanhado de “tradutores” e “guias”, Delisle é levado a visitar diversos monumentos e construções. Não encontra mendigos nem deficientes nas ruas. Segundo ele, “todos parecem estar ocupados o tempo todo”. A maneira como uma mulher coreana, técnica de animação, canta as músicas em homenagem a Kim Jong-Il (que não são poucas) lembra o fervor com que certos evangélicos cantam seus hinos.

Pela ótica de Deslile, a Coréia do Norte é um grande delírio, a materialização da distopia idealizada por Orwell.

Entretanto, Deslile em nenhum momento se despe de seu ponto de vista de rapaz ocidental. Tudo é medido pelos valores importantes à ele. Assim, o fato das pessoas não conhecerem Bob Marley na Coréia do Norte torna-se mais um absurdo desconfortável. Ele não se permite tentar entender o que realmente passa pela cabeça dos poucos coreanos com que entra em contato. Mas vamos ser justos com Guy: o idioma e a própria atitude desses coreanos não ajuda muito.

(Curiosamente, é justamente o fato do estúdio estatal coreano apresentar mão de obra barata para a produção das seqüências de animação que torna a Coréia uma opção atraente para os estúdios ocidentais. Isto é, Delisle critica o regime, mas não vê nenhum problema em se aproveitar da mão de obra fornecida por esse regime...)

Enfim, Guy Delisle é só uma pessoa (como eu) criada numa cultura onde liberdade e democracia são palavras ligadas a valores fundamentais (ou assim acreditamos). Asne Seierstad, a autora de O Livreiro de Cabul, também tem esse perfil. Mais do que relatar suas viagens e o contato com outras culturas, Delisle e Seierstad julgam essas culturas de acordo com seu próprio referencial. E assim o fazem também seus leitores, entre os quais eu me incluo.

Daí parece se formar uma espécie de “gênero”, onde o relato de viagens parece se tornar uma espécie de “circo de aberrações”, onde culturas e visões de mundo diferentes das nossas são apresentadas como uma espécie de curiosidade, uma atração de espetáculo. Mais ou menos como o Globo Repórter vem fazendo nos últimos 30 anos...

O que eu questiono é o fato de comprarmos esses relatos como expressões fiéis da realidade. Não nego as questões de opressão e brutalidade com que vivem as pessoas nesses países distantes, mas o que me incomoda é o modo como esses relatos e histórias constroem dentro de nossa cabeça uma visão onde nós mesmos somos os certos e justos e os outros são coitados vítimas de homens maus. Quero dizer que as coisas são bem mais complicadas do que isso.

Guy Delisle e Asne Seierstad eram estrangeiros que passaram um tempo em um país e contaram suas experiências. Por outro lado, Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas) e Marjane Satrapi (Persépolis), nasceram e cresceram dentro do universo de relações que descrevem, e portanto apresentam uma outra perspectiva. Ou não?

Não li O Caçador de Pipas, então vou falar de Persépolis.


Marjane Satrapi nasceu em 1969 na cidade de Rasht e cresceu em Teerã, capital do Irã (ei, esse é outro país do eixo do mal de George Bush).

Atualmente ela vive em Paris e sua trajetória para chegar à cidade luz está descrita nos quatro volumes de Persépolis. Os dois primeiros álbuns mostram a infância de Marjane.

Ela tinha nove anos quando aconteceu a revolução que depôs o rei e instaurou o governo islâmico. Para começar, a menina Marjie se viu obrigada a usar o véu, como todas as outras mulheres islâmicas. Em seguida, o Liceu Francês onde estudava foi fechado, para evitar o contato com os idiomas do “capitalismo decadente”. Em seguida, veio a longa guerra com o Iraque (por sinal, o terceiro país do eixo do mal).

Satrapi era filha única de uma família bem posicionada economicamente e teve uma educação que favorecia as idéias liberais. Aos dez anos ela lia “Materialismo Dialético em Quadrinhos”, tendo contato com as figuras de Descartes e Marx (“Materialismo Dialético em Quadrinhos”??? Uau!)

O dinheiro e a postura liberal e rebelde da família propiciaram uma perspectiva diferente para Marj. Em Persépolis, é com essa perspectiva que ela conta suas memórias, narrando muitas situações interessantes. Ao mesmo tempo em que o regime islâmico oprime e impõe severas regras de comportamento, as pessoas reagem em passeatas e, em um segundo momento, adaptam-se. Adotam uma postura pública, comedida e de acordo com as exigências do governo, mas dentro de suas casas fazem festas (que eram proibidas), enfeitam-se, bebem, escutam músicas estrangeiras.

Ainda criança, Marjane tem contato com a morte. Sua amiga morre em um bombardeio, seu tio é executado pelo novo regime. Aos 14 anos, desesperançados com a situação do Irã, consumido pela guerra e pelo governo opressivo, os pais de Marjane a convencem a ir estudar na Europa.

Esse é o tema do volume 3 e é um dos mais interessantes da coleção. Na Áustria, Marjane tem contato com a cultura ocidental e é completamente atordoada pelo choque com os costumes e referências de seus novos amigos. Agora é a perspectiva do “outro” olhando para “nós”. Por um período Marjane fica abrigada em uma pensão dirigida por freiras. A experiência é péssima e a menina descobre que extremismos religiosos são sufocantes em qualquer parte do mundo. Por 6 anos ela estuda num colégio de língua francesa e tem contato com punks, roqueiros, maconheiros, homossexuais e diversos tipos que seriam impensáveis (e inviáveis) em sua terra natal. As atitudes de seus amigos, principalmente com respeito à sexualidade, a chocam tremendamente. Afinal, apesar de tudo, Marjane tinha construído seus referenciais em uma sociedade muito mais conservadora. Ela tem crises de identidade, sente-se perdida, não consegue acompanhar os jornais de tv que mostram os bombardeios em sua cidade natal.

Por fim, é uma desilusão amorosa que leva a moça a uma crise violenta. Por três meses ela dorme nas ruas, durante os dias mais frios do ano. Acaba sendo internada com início de pneumonia. Tendo alta, volta para casa. Tem 20 anos.

A readaptação à vida em sua terra natal é o tema do quarto volume. E não é uma readaptação bem sucedida. Marjane se casa e entra na faculdade de artes, mas a repressão constante, principalmente sobre a figura da mulher, a faz abandonar definitivamente o Irã. Ah, claro, ela também se divorcia.

Os álbuns de Persépolis tem um tom fortemente autobiográfico, mostrando sempre o ponto de vista da moça a respeito do mundo e das relações ao seu redor. Mescla subjetividade com comentários políticos bem definidos. A série concedeu à Marjie alguns prêmios, entre os quais o de melhor HQ na Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento literário do planeta.

Há pouco tempo atrás, em Paris, terminou a produção do desenho animado longa-metragem baseado em Persépolis. O desenho já estreou criando polêmica, mas foi bem recebido em Cannes. Lá no começo dessa postagem está o trailer desse desenho, que é um barato. Gosto do modo como eles usam a musiquinha The Eye of Tiger. Hehehe.

Pyongyang e Persépolis tem como ponto comum um relato sobre pessoas e lugares que são muito diferentes do nosso. A principal diferença entre essas obras está na condição de seus autores. Embora o álbum de Guy Delisle seja muito bem escrito, cheio de referências e piadas bacanas, Marjane parece ter uma vantagem sobre ele pela sua condição de “nativa”. Mesmo sendo filha de uma família privilegiada, Marjane ainda faz parte do povo de que fala e consegue considerar os outros como pessoas próximas, com suas próprias idéias e incoerências. Talvez por fazer parte da “tribo” e por ter um contato com a cultura ocidental, Satrapi consiga construir uma ponte de mão dupla entre as duas visões de mundo.

Enfim, são álbuns bem legais.

Vale a pena conferir.


A verdade, e principalmente a própria razão humana,
é criada pelos indivíduos no decorrer de sua interação.
Daí a frase do filósofo sofista Protágoras:
"O homem é a medida de todas as coisas".

quarta-feira, novembro 14, 2007

Tosqueira

Juro, eu queria fazer um blog legal.

Como eu não consigo, posso me permitir colocar uma ou outra tosqueira aqui, de vez em quando.

E gente, esse vídeo é tosco demais.

Agora estou meio bêbado. Talvez amanhã eu me arrependa e tire essa coisa do ar. Mas enquanto isso não acontece, divirta-se (ou tente) com o... ITALIAN SPIDERMAN!!!!

Italian Spiderman Trailer

Add to My Profile | More Videos

Per tutti la familia...

Sensacional, né?

quinta-feira, novembro 08, 2007

Solidão

Ontem eu tirei uma hora pra vadiar.

Vadiar, andar a esmo, sem nenhum lugar especial pra ir, sem pressa, sem nenhuma pretensão.

Estava cansado, muito cansado, de ficar sentado, de ficar debaixo de um teto. Esperando um camarada pra beber, achei melhor esperar andando, com ar na cara e vendo pessoas. Era fim do dia e eu zanzava pelo pátio do Cefetão. Um grupo de teatro fazia uns exercícios de dança no meio do pátio. Ao redor, o pessoal que tinha vindo pro Simpósio se reunia em grupinhos, com suas malas "verde e roxa". Eu tinha participado da organização do simpósio, tinha apresentado artigo e assistido conferências e essas coisas. A cabeça estava cheia e pesada. Daí tirei uma hora de vadiagem, pra olhar tudo aquilo como se eu não fizesse parte, pra olhar sem interesse e sem compromisso. Pra ficar de boa.

E é engraçado como a gente acaba percebendo ou achando coisas ao nosso redor quando abaixamos as defesas e diminuímos o ritmo. Foi vadiando que eu parei na frente do edital. Meu, fala sério, quem para em frente de edital hoje em dia? A idéia de edital me parece meio anacrônica nos dias de hoje, com e-mail e internet e o escambau. Quando você quer saber alguma coisa, você procura no Google. Informações importantes te chegam via e-mail ou você descobre nos sites de notícia. Um quadro de feltro coberto de papéis pendurado pelos corredores parece coisa muito distante no tempo.

Coisa surreal, porque esse edital não era um desses editais "úteis", daqueles com oferta de emprego ou a página do jornal com a programação de cinema ou resultado de vestibular. Era um editalzinho pequeno e em cima do feltro verde tinha poucos papéis. Um no topo que estava escrito "Humor e Pensamentos" (acho que era o "título" daquele espaço). Daí abaixo uma tira xerocada do Calvin e Haroldo e um texto, supostamente de autoria do Arnaldo Jabor.

Sabe, às vezes eu procuro por palavras, por uma seqüência de idéias que consigam explicar para os outros e, principalmente, pra mim mesmo, o que se passa pela minha cabeça. Verbalizar essa estranha sensação, pôr um nome nessa coisa estranha que está dormindo nas minhas entranhas e que de vez em quando acorda e se levanta pra beber água e posso sentir seus movimentos, seu peso, todo o seu peso, dentro de mim.

E esse texto serve perfeitamente para o momento que vivo. Sei lá, parece que o cara me viu no pátio, me chamou, pôs a mão no meu ombro e disse "ME ESCUTE!!!"

E falou:

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: “Digam o que disserem, o mal do século é a solidão”. Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias. Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos. Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos “personal dance”, incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvída?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.

Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”, só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como: “Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra ser sozinho!” unindo milhares ou melhor milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.

Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, “pague mico”, saia gritando e falando bobagens. Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à dois. Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que "se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?". Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: “vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”.

Antes idiota que infeliz!

Muito fofo.

Eu parei pra ler isso. Parei no pátio, diante do edital.

Mais tarde, em casa, coloquei umas palavras-chave do texto no Santo Google e achei uma série de referências a ele em outros blogs. É provavelmente o tipo de texto que se envia por e-mail, naqueles spans irritantes. Dificilmente eu leria esse texto, porque geralmente nem abro esses e-mails cheios de boas intenções e títulos como "UMA LINDA LIÇÃO DE VIDA" precedidos por um "(Fw):" no espaço de "assunto" do e-mail.

Independente da questão da autoria ou da qualidade, esse texto acabou traduzindo muita coisa que passava pela minha cabeça. Discordo quanto à "Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega". A solidão não é uma questão de escolha, submetida à moda. Estar ao lado de alguém não é necessariamente estar acompanhado.

Mas, se for parar pra pensar, talvez a solidão seja uma apenas uma ficção. Uma invenção tão grande quanto o amor. Uma história que a gente finge viver. Uma camisa que a gente veste. Talvez tudo seja uma questão de fé. Talvez tudo seja muito simples, e realmente só seja preciso não pensar. Muito.

Meu problema com a solidão é essa dificuldade em entender o que ela significa (ou a teimosia em tentar entender). É a dificuldade não só em assumi-la, mas aceitá-la. Simplesmente aceitá-la.

Esse tabu da solidão.

Esse medo de deixar alguém entrar.

Esse medo de assumir que não há ninguém pra deixar entrar.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Oba! Fotos!

Arrá!
Algumas das fotos do museum.
Com vocês, minha seleção "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças":
(Lembrei muito desse filme olhando algumas dessas fotos...)











As fotos são cortesia da menina Taís.
Bjs, moça.

domingo, novembro 04, 2007

Felicidade

Quando eu era bem pequeno vi na TV o desenho animado de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. O desenho era inspirado na série de livros As Crônicas de Nárnia, a mesma que virou filme não muito tempo atrás.

O que me marcou bastante nesse desenho, a cena com que eu sonho até hoje, é a entrada para o Reino de Nárnia: um guarda-roupa. As crianças entravam nele e iam passando através das roupas e de repente saíam em uma caverna, diante de um bosque coberto de neve. Visualmente era muito bonito. E acho que poético também. Eu tinha uns cinco anos quando assisti e fiquei fascinado, fiquei pensando, puxa, imagina, uma coisa tão comum e corriqueira encerrar a entrada pra um mundo mágico, para uma terra distante, tão distante e tão próxima, logo atrás daquelas roupas todas, no fundo daquele armário.

Coisa comum e corriqueira o guarda-roupa. É o que eu penso hoje, mas acho que para os meus olhos de criança da época as roupas penduradas e aquela coisa do guarda-roupa ser uma “casa dentro de uma casa” (quando você é criança, esse tipo de idéia faz bastante sentido)... bom, as portas do guarda-roupa eram a entrada para um labirinto com paredes de pano e labirintos pra mim sempre tiveram algo de mágico.

A entrada para uma outra e fantástica realidade, o fabuloso que surge do cotidiano ordinário... mágica. Essa foi a sensação que tive ao ter contato com o trabalho de Amélia Toledo.

Sexta-feira chuvosa, Dia de Los Muertos, fui com um pessoal no museu do olho. O Museu Oscar Niemeyer, aqui em Curitiba. E tinha a exposição dessa senhora. Uma das obras era chamada Caminho das Cores e era feita de uma série de telas colorias e translúcidas penduradas do teto, que formavam um labirinto. Ao passar pelas telas, não pude deixar de pensar naquele desenho antigo. Foi legal. Foi MUITO legal.

A exposição da Amélia era feita de coisas assim, mágicas e legais. No folder da exposição a gente vê uma série de crianças “brincando” com as obras. São bolas transparentes cheias de água e detergente pra você agitar e ver a espuma se formar. São “coisinhas de plástico cheias de cor” pra você apertar. Conchas, cristais, espelhos, pedras que cantam. Tudo você pega, aperta, curte.

Depois de atravessar o Caminho das Cores, topei com o Labirinto Azul. Uma série de chapas de metal sinuosas, algumas totalmente pintadas de azul, outras espelhos puros. Espelhos côncavos. Nossa, é muito estranho. Me lembrei das aulas de física do cursinho, aqueles diagramas malucos pra entender como a imagem refletida se formava no espelho côncavo. Era muito doido, porque a imagem se fazia “fora” do espelho e isso dependia de sua posição em relação ao centro de curvatura e ao foco do espelho. Na prática, dentro do Labirinto Azul, a gente entrava dentro do espelho, que nem a Alice.

Muito louco.

Mais a frente tinha uma “coisa” que o nome eu não sei. Era um grande colchão no chão, com um espelho no teto. Projetores de slide iluminavam quem se deitava com texturas e imagens de cristais. Deitado, olhando para o teto, a impressão era de que se estava flutuando no fundo do oceano ou talvez bem alto, lá no céu, junto com as galáxias muito muito distantes.

Muito louco.

Muito bom.

Engraçado como a fotografia não dá conta de mostrar tudo. A experiência, o estar lá.

Por exemplo, no museu ainda tinha outras exposições, uma do Manoel Araújo, que eu conhecia só como o autor do livro A Construção do Livro, que é simplesmente excelente. Lá fui ter contato com o Manoel como escultor, gravador e designer. E as fotos não fazem jus a seu trabalho. Olhando de frente, são relevos em madeira, “máscaras” simétricas, mas essa simetria se perde quando você olha de outros lados. Mais ou menos como o rosto humano. Isso tudo se perde na foto. Você precisa estar lá pra curtir.

“Máscaras” é como ele chama aquelas coisas enormes, com pregos, madeira, metal e cristais. Fico imaginando quem usa essas máscaras, de quem são os rostos que elas representam. Elas têm nomes de orixás, de elementos da natureza. Cosmogonia dos Símbolos é o nome da série.

E entre o “Olho” e o museu, no espaço entre as escadas, uma exposição de fotografias chamada Instantâneos da Felicidade. São fotos de gente como Sebastião Salgado, Cartier Bresson, Édouard Boubat, Jean-Philippe Charbonier e mais uma patota. A Tropa de Elite da fotografia. Rá.

Claro que o texto de apresentação dessa exposição só podia começar com: “A felicidade... Afinal, o que é a felicidade?”.

RÁ!

Afinal o que é a felicidade? O que é o amor? O que é a solidão? Se não sabemos o que são essas coisas, como podemos saber se já não as encontramos antes ou se não estamos imersos nelas agora? E pra que você quer saber disso? Que diferença ia fazer?

Rá.

Das fotos, foi a de Martine Franck mostrando Tulku Khentrol Lodro Rabsel com seu tutor Lhaguel, no mosteiro Shechen de Bodnath, Nepal, 1996, a que mais me chamou a atenção. Não sei que são o tal Tulku nem o Lhaguel, mas curti a leveza, a alegria do momento. A simplicidade. A parceria entre tutor e aluno. A amizade entre passado e futuro. E qualquer outra idéia melosa do tipo.

Mas será que as fotos apresentam mesmo a felicidade daquele momento? No fim, será que não são apenas fotos, mostrando pessoas que não conhecemos e que supomos estarem felizes? A felicidade pode ser contida numa foto? As cores, o cheiro, o riso? A memória.

Felicidade.

Estamos morrendo, jovem.

Desligue essa droga de computador e vá viver um pouco.

terça-feira, outubro 23, 2007

Como um romance

Acordei ofegante também, no meu próprio quarto sufocante, na noite opressiva de agosto. Lá fora, murmúrios de folhas, o baque surdo de fruta caindo do pé. Na minha mente, o lamento estático da eternidade.
(Raymond Joubert em Gemma Bovery)


Gemma Bovery é uma história que mistura duas linguagens: quadrinhos e literatura. Conta a história de um padeiro chamado Raymond Jubert, que vive numa cidadezinha na Normandia. Ou melhor, a história é contada por Jubert, que serve como nosso “narrador”. Na verdade, Gemma Bovery é a história de Hervé, Charlie, Patrick, o casal Rankin e, é claro, é principalmente a história de Gemma Bovery.

Jubert fica fascinado por essa inglesa que se muda com seu marido, Charlie, para a casa do lado. A princípio, o que chama sua atenção é a semelhança do nome de Gemma com o de Emma Bovary, a protagonista do célebre romance Madame Bovary. Atraído pelos encantos de sua nova vizinha, Jubert torna-se um vouyer e passa a acompanhar todos os passos dela, secretamente. Aos poucos, surgem várias outras semelhanças entre Gemma e Emma. Após uma série de coincidências, Jubert começa a acreditar que o destino de Gemma é guiado pelo romance escrito por Flaubert. Será que Gemma terminará como a trágica Madame Bovary? Será que Jubert pode fazer alguma coisa para impedir?

Tcha-nam....

Gemma Bovery foi escrita e desenhada pela artista inglesa Posy Simmonds. Originalmente foi publicada em série no jornal The Guardian e depois foi lançada como álbum, por isso ela tem esse formato “compridão”. É muito bacana a maneira como Simmonds conta a história utilizando quadrinhos e prosa literária. Enquanto que nas partes escritas temos um romance onde o narrador é o padeiro Jubert contando as desventuras de Gemma, nos quadrinhos temos acesso a diálogos, pensamentos e informações que vão mudando toda a nossa percepção da história.

Simmonds entende e escreve sobre a natureza das mulheres que é uma beleza. Faz lembrar a argentina Maitena ao retratar o perfil feminino, só que o formato da história longa permite construir uma intrincada rede de sutilezas e detalhes que acabam conferindo uma profundidade maravilhosa à Gemma.

Num momento Gemma curte uma fossa pelo pé na bunda que levou do namorado para, logo em seguida, arranjar um novo namorado, Charlie. Esse novo namorado é um pouco mais velho e divorciado, com filhos. Judi, a ex-esposa de Charlie usa as crianças para controlar a vida dele. Quando Gemma entra na jogada, passa a usar as crianças para atrapalhar a vida amorosa do novo casal. Enquanto Gemma reage às crianças, considerando-as um fardo, Judi arranja mil desculpas para que Charlie tenha que cuidar delas. Mas, quando em determinado momento da história, Gemma acaba conquistando a confiança das crianças e levando-as a parques e passeios, Judi reage acusando-a de mimar as crianças e tentar “comprá-las”.

A própria Gemma é extremamente volúvel e nunca parece estar satisfeita. (Mas existe alguma mulher que não seja assim?) Recém-casada com Charlie, sonha em deixar Londres e a ex-família de seu marido pra trás. Idealiza uma vida na França, vivendo em uma bucólica casa de campo. Quando consegue o que queria, leva um mês exato para sua felicidade transformar-se em tédio e frustração. Daí vem os amantes.

Amor, paixão, decepção, mágoa, sedução, auto-estima... Simmonds desfia tudo isso com uma naturalidade sensacional. Os seus desenhos caricatos criam uma intimidade e uma identificação bacana com o leitor.

Achei incrível como Simmonds consegue representar tantas fases e variedades de relacionamentos. Há a empolgação inicial, o sexo entusiasmado, o sonho de amor verdadeiro, as brigas, as decepções, as reconciliações improváveis. O mais fascinante são as atitudes imbecis que a gente toma quando está com a cabeça embotada de amor. Sabe, aquelas besteiras, aquelas idiotices que atentam contra qualquer amor-próprio, contra qualquer bom-senso?

Por exemplo, quando se está tão alegre e tão apaixonado que não se percebe que se está fazendo dívidas demais e que os negócios não vão bem. E, de repente, você acorda e descobre que está em maus lençóis. Já passou por isso? Ou quando você gosta da pessoa e deixa ela entrar em sua vida, e você está embalado na emoção, no sentimento e aos poucos as cores começam a desbotar, a graça se perde e você acorda ao lado de uma pessoa chata e sem graça. Ou quando, após uma série de incidentes e decepções você descobre que justamente aquela pessoa chata e sem graça era o apoio mais sincero e seguro que você tinha... e você acabou de mandá-la embora.

Outra coisa bacana de Gemma Bovery é a construção de todos os detalhes ao redor da personagem principal. Sua família, seus conflitos, seu trabalho, suas perspectivas, suas imperfeições. O corte de cabelo radical após o fim de uma relação. O trabalho e as contas do cartão de crédito. As tentativas de tentar construir um roteiro que dê sentido à própria vida. Essa Gemma parece real demais.

O engraçado é ler sobre todas essas coisas, ver os absurdos e tolices que essas pessoas cometem e, no meu caso, lembrar dos meus próprios absurdos e tolices. Das minhas próprias perdas e falhas. Identificar as mesmas situações não faz apenas pensar que talvez todo mundo tenha os mesmos problemas, mas também assusta porque tudo pode acontecer de novo.

E de novo.

Será que é isso que significa ser humano? Tentar encontrar sentido onde não existe nenhum, tentar construir um sentido onde não existe nenhum, tentar encontrar a resposta de uma pergunta que não conhecemos em algo mais, numa religião, num trabalho, em uma mulher?

Relacionar-me com outras pessoas de verdade invariavelmente me leva a olhar para os defeitos dela e inevitavelmente a encarar os meus próprios.

Defeitos, mesquinharias, tolices.

E no fim tudo se resolve numa piada banal, pra ser contada numa noite de bebedeira e depois esquecida para sempre.

Essa é a vida adulta.

Legal, né?


sexta-feira, outubro 19, 2007

Fui ver a Faca na Caveira!

(Relendo esse texto, acabei encontrando trechos que hoje, quase uma semana depois, não concordo. Ha! Discordo do que eu mesmo escrevi! Tiro no pé! Escrevi na empolgação de assistir um bom filme, um filme de ação sensacional, um dos melhores do ano.
Trata-se da questão de
Tropa de Elite representar ou não a tal "realidade". Escrevi coisas que relendo, eu mesmo não concordo. O filme na verdade representa um bom material para se pensar nossa sociedade sim, em diversos aspectos. Propõe uma série de questionamentos interessantes e dá muitas idéias.
Ainda assim, é um filme de ação, uma ficção. Como fazemos então? Curtimos, oras! E discutimos depois em cima. Pensamos e repensamos idéias e posições, tentando evitar simplificações e soluções definitivas...
É o que dá pra fazer...)



Vai lá, Nascimentoooooo!!!!

Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral e também vai pegar você!

Uhu!

Um dos filmes mais divertidos do ano! Coloco ele ao lado dos 300 de Esparta. Se bem que, comparado com o Capitão Nascimento, o rei Leônidas é um fanfarrão!

E essa é a parte engraçada. Já conhecia as frases e o estilo fodástico do Capitão Nascimento antes de ver o filme. Cheguei na bilheteria e não pedi pra ver “Tropa de Elite”, pedi pra ver “O Filme do Capitão Nascimento”. E como dá coisas pra pensar desse filme.

Primeiro é diversão pura. Realmente, perto de Tropa de Elite, os 300 são um bando de moças. A comparação com 300 pode parecer, digamos assim, meio leviana e ingênua. Mas não é. Porque Tropa, antes de tudo, é um filme de ação da melhor qualidade. A gente pode tentar levantar o lado “consciência social” do filme, mas acho uma cagada.

Primeiro porque esse lance de dizer que o filme mostra as coisas do jeito que são é palhaçada. A polícia corrupta, os burgueses maconheiros hipócritas, o traficante ruinzento, tudo isso existe, mas dizer que o filme representa a realidade fielmente é simplificar demais. Posso estar errado, mas eu nunca subi na favela, nunca participei de ONGs, nunca trabalhei na polícia pra ter uma noção da “realidade”. E aposto que a maioria das pessoas que diz que o filme representa a “realidade” também não.

Posso falar daquela seqüência que mostra os universitários na sala de aula falando sob Foucault e descendo a lenha na polícia. O filme mostra uma sala de aula como uma massa homogênea de pensamentos, como se todos tivessem a mesma formação, as mesmas idéias, como se todo mundo fumasse maconha e reclamasse da polícia porque ela faz blitz pra pegar maconheiro. Isso não é um retrato da realidade. Numa sala de aula você acha de tudo. Desde a Paris Hilton Brasil até o carinha que trabalha no xérox do tabelionato o dia inteiro pra ir estudar à noite. Desde o petista mais sarna até o mais ardoroso defensor da juventude psdbista. Você acha de tudo numa sala de aula. Pra mim, aquela seqüência de sala de aula é tendenciosa, pra dizer o mínimo. Então esse lance de que o filme mostra a realidade como ela é... não é bem por aí não, bicho.

Talvez, o mais bacana com Tropa de Elite, seja toda a discussão que surgiu em volta.

O Arnaldo Jabor escreveu:

“As milhares de cópias piratas buscadas com fome, as platéias sideradas quase sexualmente pelo sangue mostram que nós somos os personagens de um país sem enredo, que estamos famintos de que algo aconteça, de que alguma forma de justiça se faça, de que alguma organização apareça, de que não haja só aquela polícia podre que rouba peças de carros da PM para vender, de oficiais pegando jabá do bicho, de que haja heróis incorruptíveis e machos vingadores de nossa insegurança. E senti no ar até uma certa decepção na platéia com a "crise", o breakdown do Wagner Moura. E me angustiei ao ver que o filme é tão perplexo como nós. Não sabe o que dizer, pois não há nada mais a dizer.”

Acho que o Jabor levou o filme a sério demais. De fato, se formos realmente considerar o filme Tropa de Elite e compará-lo com o 300 , a gente vê que eles são muito parecidos. Um grupo de guerreiros com uma disciplina rigorosa combatendo inimigos numa guerra sangrenta. As diferenças que existem entre Tropa de Elite e 300 são as mesmas que existem entre Brasil e EUA. No 300 os caras lutam com os persas pra defender a “liberdade”. Eles tem um propósito e professam toda aquela bobagem que os americanos acreditam. Já a Tropa... o que faz o grupo do capitão Nascimento subir o morro? Você acha que eles são íntegros, honrados, que eles defendem algum princípio ético ou algo assim? Ha!

Numa das seqüências do filme tem o enterro de um soldado do Bope. O caixão dele tem a bandeira do Brasil por cima. Quando vi a cena me lembrei dos 10 mil filmes americanos que tinham uma cena igual. Manja? O enterro do herói, a musiquinha triste, a bandeira sobre o caixão... só faltou a salva de 21 tiros. Mas tem uma diferença que eu acho fundamental: surge o capitão Nascimento. Ele passa pelas pessoas e cobre o caixão com uma bandeira com a Caveira do Bope. Ele cobre a bandeira brasileira com a bandeira do Bope. Então o lance do patriotismo, do amor ao Brasil e tal não tem nada a ver com as motivações do capitão e sua tropa. A bandeira do Bope é maior que a do Brasil, a bandeira do Bope cobre a do Brasil.

Essa bandeira tem uns ares de bandeira facista, não acha? Coisa medonha!

Na verdade, há um desprezo do capitão e seus subordinados pela sociedade que supostamente eles deveriam defender. Eles sabem que quem financia o tráfico é justamente a “gente boa da melhor qualidade” que curte o baseadinho, tem consciência social e faz serviço voluntário em ONG. Noutra cena, um dos soldados do Bope entra no meio de uma passeata pela paz e começa a bater e chutar num dos “gente fina”. Grita “maconheiro filho da puta!!!” e chuta o piá caído no chão. E quando tentam afastar o soldado ele grita “Seus filhos da puta! Vocês são iguais a ele! Seus filhos da puta!”. O próprio capitão Nascimento comenta: “quando vejo uma passeata pela paz tenho vontade de sair dando porrada”. Hohohoho!!!!

No começo do “curso” para os novos recrutas, Nascimento comenta que algumas pessoas podiam achar que o Bope é tipo uma seita. E é mesmo. A motivação dos caras, olhando pelo filme, está em fazer o que tem que ser feito. Missão dada é missão cumprida. Não tem esse lance de pensar por que, as causas da criminalidade e tal. Bandido é bandido e maconheiro é cúmplice. Porrada neles. Simples assim. A motivação do Capitão Nascimento é fazer seu trabalho simplesmente porque o trabalho precisa ser feito e continuar vivo. E só.

Com o Bope, corrupto não se cria. Os fracos não se criam. Maconheiro não se cria. E bandido vira “chiclete de caveira”. This is Sparta.

Um show de bola como entretenimento. Mas não me foda vindo falar que “isso é a realidade”. Por favor. Sim, a polícia é corrupta, o morro é dominado por traficantes, nossa sociedade é hipócrita. Mas, ainda assim, o filme é ficção.

Numa cena você vê um cara de sunga correndo em câmera lenta e decepando a perna de outro num jorro de sangue e estética de comercial de tv. Na outra você vê um policial fardado torturando uma pessoa usando um saco plástico pra sufocá-la. Porque uma choca mais você que a outra? Uma parece mais real porque representa coisas do seu cotidiano. Mas isso faz dela mais real do que a outra? As duas cenas mostram um ser humano machucando outro. Dá pra realmente dizer que são diferentes?

O pior é que se você for pensar bem, pela ótica do filme todo mundo tem culpa no cartório. Traficante é criminoso, maconheiro é cúmplice, universitário é alienado, polícia "comum" é corrupta... Como disse um amigo meu, do filme, a única coisa "boa" é o capitão e sua Tropa e isso é péssimo.

O legal com internet é que você começa a ter uma noção de quantas idéias diferentes rolam por aí. De repente você acha até algumas parecidas com as suas. Pra mim, Tropa de Elite é um puta filme de ação e achei uns caras que pensam a mesma coisa. Levam na troça, na brincadeira. Transformam as frases do Nascimento em piadas. Falam uns pros outros “É um fanfarrão!”, “Tapa na cara” e “põe de volta no saco”. E acham graça. Eu acho graça. Mas tem muita gente que não. Tem muita gente que não sabe discernir ficção de realidade (e será que eu sei?). E daí aparecem os caras dizendo “ah, você aprova a tortura”, “ah, você não tem consciência”, “ah, você é um monstro, tá rindo das cenas de tortura”, “ah, qual é a graça do cara colocar a bandeira do bope em cima do caixão”. Ora, faça-me o favor... são uns fanfarrões!

É óbvio que um sistema como a Tropa é inviável. Quem pode ter tanto poder assim? Entrar em qualquer casa quando quiser e colocar as pessoas sob tortura pra obter informações... isso é absurdo. É óbvio que é absurdo! Coisa da época do AI5. A Tropa sobe o morro e atira e só acerta traficante... qual é! Que é isso? Eu te digo que é isso: seriado de polícia norte-americano. A Dama de Ouro (lembra dessa?) ia trocar boas idéias com o capita Nascimento. E é com esse espírito que eu vi o filme.

O que mais me chama a atenção disso tudo é como as coisas são complicadas e como não há igualdade entre nós. Sério, somos completamente diferentes em todos os sentidos. E não estamos divididos só em burgês e pobre. Somos divididos em sei lá quantas tribos.

Nobody deserves...

Olha só o caso lá do Luciano Huck. O playboy foi assaltado e levaram o Rolex dele (relógio muito caro, bicho). Daí o moço foi e escreveu uma carta de desabafo que foi publicada na Folha de São Paulo. Uma cartinha bem sem-vergonha, se quer a minha opinião. Mas o engraçado foram as reações. Nossa, o pessoal tava indignado com o Huck por ele ter reclamado! Parecia uma ofensa o rico super-bem-sucedido reclamando de algo que se tivesse acontecido com qualquer outra pessoa ia passar despercebido. E, pensando bem, é mesmo. Se eu ou você tivéssemos sido assaltados e mandássemos uma carta pra Folha, você acha que iam publicar? E se publicassem, você acha que alguém ia se importar? Pelo amor de Deus, só leia a carta do Huck!

Se ele não fosse “O” Huck, você acha que alguém ia dar atenção a ele? Não é só aquele lance de que, como comentam alguns, “o sucesso é visto como crime nesse país”. Na verdade, é foda, porque esse caso do Huck mostra que somos diferentes, que tem gente que vale mais do que os outros. Se o Huck tivesse sido morto no assalto, ia virar um caso de parar o país. Ia ter passeata de mil quilômetros no enterro do playboy, ia ter um monte de declarações indignadas por parte dos globais, o Jornal Nacional ia fazer um especial e terminar com as letrinhas subindo em silêncio. Ia ter debates e o escambau. Agora, imagina se fosse você. Tua família ia chorar e só. Porque você não interessa, é só mais uma estatística.

Esse é o foda dessa história toda. O pessoal fala em democracia e no direito democrático de expressar a sua opinião. Palhaçada. Você tem o direito democrático de ser ignorado. E democracia é mais uma daquelas crenças que eu fico pensando se tem fundamento. Por exemplo, numa eleição pra presidente, o vencedor fica com, digamos, 52% dos votos. Os eleitores do outro candidato, que são quase metade da população do país, tem que engolir um presidente que eles não queriam ter. Isso é democracia. Uma imposição legitimada. Daí você me pergunta se eu tenho uma idéia melhor. Ah, cara, não tenho não. Mas isso não me impede de pensar a respeito, dar a minha opinião e ser democraticamente ignorado.

Muitas gentes, muitas idéias, escalas de valores completamente diferentes. A comunicação é impossível. O que podemos almejar é uma convivência pacífica, quiçá harmoniosa. Mas, fala sério, você acha que dá? Será?

Eu devia largar tudo e ir pra praia, viver de pesca. Mas daí ia deixar de curtir coisas tipo Tropa de Elite e todas as bobagens que esse pessoal fala e escreve por aí...