domingo, fevereiro 25, 2007

Afinal, pra que serve um blog?



Pois é, olha o Calvin aí de novo... Putz, mas esse vídeo é uma sacanagem com o coitado... Muito cruel! Ainda assim, é muito bom, você não acha?

Adoro o Calvin. Não é só por causa da genialidade do Bill Waterson. Acho que o que mais me cativa é a inocência do garoto. Afinal, como o próprio Bill gosta de lembrar, Calvin só tem seis anos. E pra ele, o Mundo é Mágico. Hehehe. Sabe, acho o Calvin meio parecido também com o Quixote. O Don Quixote de La Mancha e seus moinhos de vento. É como a carta de tarô do louco, dando um passo no vazio do abismo. Inocência e alegria rodeados da realidade dura e cruel. Sonhadores e visionários são mais bem vistos aos seis anos de idade. Estão sempre ali, no limiar da loucura. Seja lá o que isso signifique.


(Loucura ora pode ser alegria, ora pode ser desespero, mas sempre é solidão).


Uma amiga, a Rosaninha, me passou o link dessa animação. Uma outra amiga, a Karina, me passou um link de um livro sobre blogs. Você sabia que no mundo há mais de 66 milhões de blogs registrados e que a cada dia são criados outros 175 mil? O que é que o pessoal coloca nesses blogs?

Bom, muita coisa. Tem blogs que funcionam como verdadeiros sites comerciais, outros são fóruns de discussão, há os diários pessoais, os meios de expressão, a divulgação de trabalhos, há os blogs que são fenômenos culturais, etc. O blog pode ser um laboratório, talvez o começo de alguma coisa que a gente ainda não sabe bem o que é... Mas também pode ser nada. Outro dia eu achei sem querer um blog fantasma, um blog abandonado. Ele só tinha uma postagem, feita em agosto de 2005, se não me engano, e falava sobre o filme O Chamado. Tinha uma foto da Samara sentada no banquinho, os cabelos encobrindo o rosto. Tive uma sensação meio mórbida, fiquei pensando que eu era o primeiro a acessar aquela página abandonada em muito tempo. 66 milhões de blogs registrados e quantos desses estão abandonados, esquecidos pelos próprios autores? Queria ter o link pra postar aqui, mas não marquei na hora e acho muito difícil encontrar novamente. Perdido para sempre...

De que adianta você escrever ou criar algo que não pode partilhar? Acho que o que move o bloggeiro talvez seja o mesmo sentimento do fanzineiro e do escritor: aquele impulso primordial de se fazer ouvir. (“Me escutem, pessoas!!”) O blog faz a gente repensar a questão do autor. Pra começar, os direitos autorais foram pras cucuias. Não dá pra controlar o que vão fazer com as coisas que você posta. Isso é meio assustador. Mas, em compensação, você não precisa mais publicar um livro pra ter seus supostos talentos literários divulgados. Muito embora, o livro impresso goze de um tipo de dignidade e prestígio notórios em relação aos textos virtuais, o blog pode também pode atingir muita gente. E tem uma série de vantagenzinhas fabulosas proporcionadas pela maravilhosa tecnologia moderna. O lance dos links e do tal hipertexto. O tal vídeo do Calvin ali em cima por exemplo. Ou os links para páginas correlatas, que servem de referência ou complemento ao texto que você escreve. Isso abre possibilidades para uma nova forma de pensar a escrita, você não acha?

Comecei a escrever pensando no blog como um livro. Aquela maneira de pensar o texto impresso no papel, sabe? Queria que as pessoas lessem o que eu escrevo, queria saber se gostam ou não. Acho que eu queria fazer algo sério, pretensioso, com gosto de literatura. À parte minhas pretensões e limitações, eu demorei pra entender que o blog está mais próximo de uma revista semanal do que de um livro... Na verdade, o blog, a web em si, constituem uma mídia própria e é difícil traçar paralelos com a tv ou qualquer outra mídia anterior...

Na minha ótica medieval, antes eu via o blog como um livro, mas agora eu o vejo como um desses cadernos de viagem, esses cadernos grandes (sim, com brochura e capa de couro feitas à mão!) em que você anota o que viu durante o dia, desenha as pessoas que encontrou, coloca folhas de árvores e penas de pássaros entre as páginas. Mas no lugar das folhas e penas, vídeos e links que a gente encontra nas andanças pela web. Ou trechos de livros que a gente curte. Ou textos malucos, idéias soltas, esboços, fragmentos... cartas pra alguém que não existe. Sei lá.


Bem, esse é o meu caderno de esboços.

Enjoy it.

See you.

sábado, fevereiro 24, 2007

Trechinhos de cotidiano

Acordei com a sensação de que tinha passado a noite inteira dentro de uma escavadeira mecânica. Eram sete e meia. Com o entusiasmo de um sapateador artrítico, saí da cama me arrastando e fui tateando até o banheiro, onde abri o chuveiro e mergulhei numa nuvem de vapor. A água quente me fez bem. Quando me enxuguei e comecei a fazer a barba, já estava começando a pensar na possibilidade de me candidatar a interpretar o papel de ser humano. Se eu tivesse sorte, talvez conseguisse fazer uma ponta.

...

Para um torcedor de verdade, uma vitória ou uma derrota podem alterar a atmosfera de todo um dia. Seu time ganha, e cada tufo de capim brotando no meio do asfalto é uma linda planta silvestre, testemunho da perseverança da natureza. Seu time perde, e você se vê cercado de ervas daninhas, asfalto rachado e feiúra. Luis estava sofrendo. Não me dei ao trabalho de lhe dizer que era apenas um jogo.

...

Um dos fatos da vida moderna é nossa crença na santidade do telefone. As pessoas interrompem as carícias mais passionais ou a discussão mais violenta para atender a seu chamado. Ignorar o telefone é visto como uma atitude anárquica, uma violação da estrutura da sociedade. Peguei o fone quando o aparelho soava pela décima primeira vez. Pavlov ficaria satisfeito de ver.

...

(Trechos do conto A Estratégia do Sacrifício. Do livro Da Mão Para a Boca, de Paul Auster. Companhia das Letras, 1997).

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Hehehe!

Desculpem! Eu precisava partilhar isso com alguém! HAHAHAHAHA!














Quer mais? Vem aqui! Hohoho!
Justamente quando vc está perdendo a esperança na humanidade, aparece um bando de desocupados com uma dessas! HAHAHAHAHA!

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Talking Heads é ducarai...!!!!


Eu descobri Pink Floyd muito tarde. Eu tinha uns vinte anos. Foi o álbum Dark Side of the Moon. Eu ouvi “Time” lendo a letra, aquela letrinha porreta do Roger Waters, e daí eu disse pra mim mesmo: “Meu Deeeeus, isso é muito bom!!! É maravilhoso!!! Por que eu nunca ouvi isso antes?”. E depois, à medida que eu ia entendo a letra, eu me perguntei: “Meu Deeeeeus...! O QUE É QUE EU ESTOU FAZENDO COM A MINHA VIDA?”. Essa é uma boa pergunta para se fazer quando se tem vinte anos. Depois dos trinta anos, é melhor não tocar no assunto. Ou será que é? Anyway...

Eu fazia desenho, eu desenhava umas histórias em quadrinhos. Tipo, quando eu era criança. Daí eu cheguei na porta da adolescência, tinha uns 12 anos. Eu lia um monte de gibi e daí começou aquele período estranho e turbulento, meio sonho e pesadelo e tal. Mas eu ainda desenhava. Daí passou a adolescência, eu entrei e saí da faculdade, arranjei trabalho, virei cidadão trabalhador. Parei de desenhar em algum momento da faculdade, pra me dedicar ao mundo adulto. É. Cresci e fiquei responsável. Daí um dia, mexendo nas coisas no velho quarto que hoje é depósito na casa dos meus pais eu acho um monte... mas um monte de papel com desenhos e histórias que eu fazia. Ler aquilo era como ler o material de outra pessoa, tanto tempo já faz que parei. Mas, apesar de tudo, dos erros de anatomia, dos problemas de roteiro, a única coisa que eu conseguia pensar era: por que eu parei? Por que não continuei?

Olhar pro velho material foi como escutar aquelas músicas, sabe, aquelas músicas que você ouvia em determinada época e quando você escuta hoje é como se voltasse no tempo, voltasse àqueles dias. Isso acontece com você ou é só comigo?

Eu era muito chato comigo mesmo. Ainda sou. Quando eu tinha 17 anos, achava que só ia conseguir fazer coisas relevantes aos 25. Aos 25, estava ocupado demais tentando sobreviver e não tinha tempo pra tentar fazer alguma coisa legal, como escrever um livro ou uma história em quadrinhos. Na verdade, estava me enganando, me iludindo, arranjando desculpas (trabalho, faculdade) pra evitar tentar fazer qualquer coisa do tipo arte. Eu não sou apenas chato. Também sou um covarde. Tenho medo de tentar.

No fim, as coisas não deixam de acontecer só por caprichos do destino. Elas deixam de acontecer porque somos covardes. Eu pelo menos sou, não sei quanto a você.

Bom, ano passado eu assisti a uma peça chamada Graphic. Excelente. Eu vi duas vezes. Cara, era boa mesmo! Deviam fazer um filme com ela pra eu poder comprar o DVD!

“Artie faz manuais instruções. Becca faz gráficos financeiros. Raf faz stencil nos muros da cidade. Todos eles desenham para viver, mas mesmo assim todos têm um pequeno problema de perspectiva”.

Não tinha como eu não gostar da peça. Ela tem tudo a ver com o que escrevi até aqui, tem tudo a ver comigo. E é du caralho. O texto é bom, os personagens são bons, a história é boa. A peça tem desenhos de um monte de conhecidos meus, o Olho, o Zé Aguiar, o DW... Mas eu confesso que o que mais me cativou foi a identificação com os três personagens. Esse lance do desenho. Das aspirações da nossa juventude, do medo e conformismo da vida adulta. Ainda bem que você não é assim.

Na minha parte favorita da peça, eles dançam uma música do Talking Heads. É a “Road to Nowhere”. Eu curti um monte essa cena, sei lá por quê... acho que a música era legal, acho que a cumplicidade dos personagens naquele momento me cativou. Não sei.

Enfim, veio esse carnaval. Estou sem um centavo no bolso e não estou com a menor vontade de partilhar da “alegria contagiante do carnaval”. Na verdade, eu não me dei sequer ao trabalho de ignorar o carnaval. Passei os dias num retiro voluntário, longe de Deus e de todo mundo, lendo, escrevendo... e desenhando.

Desenhando.

Começou meio assim, eu e uma folha de papel e daí eu estava... desenhando. Foi estranho... indolor... espontâneo... e... acho... que foi muito... agradável.

E eu me lembrei da peça. A Graphic. Daí cheguei no meu possante computador e baixei o the Best of Talking Heads. Uau.

Eu descobri Talking Heads muito tarde. Descobri ontem. Ouvi Road to Nowhere acompanhando a letra. Descobri que David Byrne compôs essa letra. David Byrne... É. Aquele David Byrne... Talking Heads é uma banda que se formou no mesmo ano em que eu nasci. E o som deles é muito bom. As letras são muito boas. Sabe, daí eu me fiz aquela clássica pergunta: “Por que não ouvi isso antes?”. Na verdade, eu ouvi sim. Eu ouvi isso antes. Mas não fez sentido na época. Ah, bem, talvez eu não tenha valorizado porque não era o momento certo. Porque eu não era a pessoa que sou agora. Talvez realmente as coisas cheguem e aconteçam nos momentos certos. Talvez o mundo faça sentido. Ou talvez não. Enfim, foda-se.

E daí eu estava sentado, desenhando, fazendo a primeira página em não sei quanto tempo, sem saber se vou ou não terminar a história. E tocava Road to Nowhere e eu me lembrava da dança do pessoal de Graphic e desenhava e sorria e de repente estava sozinho no quarto cantando a plenos pulmões, gritando, rindo. Road to Nowhere! Wild Wild Life! Psycho Killer! HÁ!

Talvez o mundo faça sentido.

Ou talvez não.

Enfim, foda-se.


Road to Nowhere
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WELL WE KNOW WHERE WE'RE GOIN'
BUT WE DON'T KNOW WHERE WE'VE BEEN
AND WE KNOW WHAT WE'RE KNOWIN'
BUT WE CAN'T SAY WHAT WE'VE SEEN
AND WE'RE NOT LITTLE CHILDREN
AND WE KNOW WHAT WE WANT
AND THE FUTURE IS CERTAIN
GIVE US TIME TO WORK IT OUT

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

I'm feelin' okay this mornin'
And you know,
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

CHORUS

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there...take you there

We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere

There's a city in my mind
Come along and take that ride
and it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right

We're on a road to nowhere



(A peça Graphic vai estar no Festival de Teatro de Curitiba dias 24 e 25 de março. Eu vou! Te encontro lá.)

(A imagem utilizada na abertura desse post é de um stencil de Juan Parada, Claudio Celestino e Olho. A foto da peça é da Lúcia Biscaia. Mais detalhes sobre Graphic e outros trabalhos da Vigor Mortis você encontra aqui.)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Deixa eu brincar de ser feliz

Então...

Estou passando por uma daquelas fases em que se é uma pessoa melhor quando se está bêbado. Se você é uma daquelas pessoas que não suportam bêbados, você não vai entender nada do que estou escrevendo aqui. Mas não se preocupe. Não suportar bêbados também é uma fase e se você tiver sorte ela passa logo. Então, eu estou assim: bebo e fico uma pessoa melhor. Não porque eu fico alegre ou mais ousado ou coisa parecida, mas é que eu simplesmente me torno eu mesmo. A voz de Deus dentro da minha cabeça se cala, a culpa some e todas as malditas lembranças tornam-se apenas lembranças. Eu consigo estar aqui, eu consigo ser eu mesmo, eu consigo...
Claro que cada um tem sua própria relação com o álcool. Existem os bêbados chatos, agressivos, homicidas. Mas não dá pra desconsiderar os bêbados engraçados e as bêbadas carinhosas e simpáticas. Socialmente falando, eu desapareço quando bebo. Fico num estado zen maravilhoso que eu chamo de "tá, e daí?". Sem riso, sem comentários espirituosos. O mundo fica mais claro pra mim: as coisas continuam não fazendo sentido, mas eu não me importo com isso.
Não faz muito sentido se você parar pra pensar e, no fim, o bom de estar bêbado é isso: eu não penso. Eu flutuo dentro de mim mesmo, eu me contento em ser e estar aqui agora sem me culpar pelas coisas que poderiam ter sido, sem me preocupar com as pessoas que eu gostava e que simplesmente foram embora e toda aquela merda.
O álcool me faz bem, porque eu deixo de me preocupar, deixo de pensar, deixo de sentir. Fico flutuando num vazio, num cinza morno, fico deslizando por entre materialidades, risos, fumaças, casais felizes. A voz de Deus se cala e consigo ficar sozinho comigo mesmo. Consigo simplesmente existir.
Há esperança porque ainda consigo ficar bêbado.


E, de quebra, consigo digitar e redigir textos com mais velocidade e menos erros. Eu amo o álcool.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Folheteen


Existem truquezinhos para se contar uma história. Por exemplo, quando se fala sobre adolescentes, uma fase intensa e confusa da vida humana (como se as outras não fossem...), o estereótipo do solitário incompreendido costuma ganhar a simpatia do espectador. Em quantos filmes já vimos o adolescente tímido, solitário, que é gente boa, mas não consegue se relacionar com seus pares?

No começo do filme Homem-Aranha, o jovem Peter Parker é humilhado e hostilizado ao pegar o ônibus para ir à escola. Na maneira como as cenas são construídas, criamos um laço de identificação com Peter. Não imaginamos que as pessoas devem ter algum motivo para tratá-lo daquele jeito. Nem sequer cogitamos a hipótese de que ele deve ter feito alguma coisa inaceitável ou de que ele deve ter atitudes inadequadas e por isso é repudiado pelos seus colegas. Com uma série de recursos narrativos, Peter Parker, caído e humilhado, é nosso herói injustiçado, nosso looser, nosso Charlie Brown. Ele conquista a simpatia e identificação dos espectadores. E quando Parker der a volta por cima, nós estaremos dando a volta por cima com ele.

No álbum de quadrinhos Folheteen, José Aguiar não faz esse tipo de concessão à sua personagem Malu.

Uma história em quadrinhos é feita de texto e desenho. O texto de Aguiar guarda paralelos com seu desenho. No desenho, um traço limpo e leve oculta uma complexidade de ângulos e formas que se sobrepõem em diversos planos. No texto, o humor e descontração encobrem a tristeza e incertezas da personagem Malu.

Malu é uma adolescente. Ela não é marginalizada pelos seus colegas. Pelo contrário, eles a convidam para sair, para se divertir. E ela simplesmente recusa. A solidão dói em Malu e ela própria é responsável por isso. “Ok, sou chata sim” ela mesma admite. Ela não quer se misturar, não quer se relacionar com as “toupeiras”. Mas o que ela não consegue verbalizar é o que ela espera de uma pessoa que não seja uma “toupeira”. Ela tem seus medos, tem seus desejos, mas não consegue assumi-los, não consegue reconhecê-los.

Folheteen é uma crônica do cotidiano. Não o cotidiano de São Paulo, Nova York ou Londres, mas o cotidiano de Curitiba. José captura despretensiosamente o espírito de uma série de personagens curitibanos que centenas de pessoas interpretam diariamente sem provavelmente se dar conta. O conquistador fuleiro, o bocó que não quer que ninguém mexa com a irmã, o casalzinho grude. Não personagens, mas modelos reais que encontramos ao redor da cidade, nos bairros comuns, aqueles com casa de madeira. Meu Deus, casa de madeira! Nunca vi isso em história em quadrinhos. Aquelas casas que você encontra no Cabral, no São Lourenço, no Boqueirão. Você olha para as paredes e vê as tábuas! Numa das melhores seqüências do álbum, você vê o interior de uma dessas casas, com seus sofás baratos e estante Disapel. E nessa seqüência você vê que quando se trata de contar uma história com imagens, uma pessoa precisa saber o que faz, e isso não significa só desenhar. E esse José sabe. Os pais discutem, divididos pela canaleta entre os quadrinhos. O pai à esquerda, a mãe à direita, duas colunas de quadrinhos, duas trajetórias de vida que seguem paralelas e que jamais vão se encontrar.






Além da casa de madeira, nosso ônibus. As pessoas entulhadas, os olhares. Num dos ônibus você vai encontrar o Paulo Leminski, lendo uma revista, tranqüilo. Coisas de quadrinhos. E tem aquele passeio de ônibus vazio. O último ônibus da noite, todos os assentos vagos, você sentado lá no fundo, tentando entender o que aconteceu aquele dia, tentando entender como as pessoas entram e saem da sua vida... tentando entender o que está errado na sua vida, porque, mesmo não conseguindo verbalizar, você sabe que tem algo errado.






No trabalho do supermercado, na escola, no ônibus, Malu está viva como vi poucos personagens de papel estarem.

Ela é chata, mas está viva.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Verdade

A Verdade?!!! A Verdade...! Você não quer a Verdade! A Verdade é uma coisa pobre, tosca, crua... é muito sem graça!

A Verdade é um animal faminto, que não degusta, devora. A Verdade é um animal sujo, que não ama, só fode. A Verdade é um animal que morre na imundície da lama e do próprio sangue, pra nunca mais ser lembrado. Você não quer a Verdade. Você nem pode ter a Verdade. Você é humano, olhe pra você mesmo! Sonhos, esperanças, ilusões e mentiras. É disso que você é feito. Astrologia, arte, Jesus e reencarnação.

Você é pensamento.

Você é lembrança.

Você é alegria, é amor, é ira.

Você é incerteza.

Você é medo.

É isso que te define.
É isso que te mantém.
Não acredite que a Verdade vale mais do que uma ilusão, porque ela não vale.

A Verdade...
Pffff...

domingo, fevereiro 04, 2007

Ensaio sobre Histórias em Quadrinhos



Vamos pensar uma história em quadrinhos. Antes de visualizar qualquer detalhe, partimos de palavras. Texto distribuído por recordatórios ao longo de uma página contendo nove quadrinhos, todos completamente preenchidos de preto. Uma voz, um pensamento da personagem.


“Eu subo uma montanha bem alta, eu entro em uma caverna bem profunda, eu me isolo, reduzo meu ambiente à pedra, pó e escuridão, eu me enterro em vida para descobrir. Para descobrir o quê? Eu olho para dentro de mim e não tem muita coisa para ver. Minto, tem sim. Um caos de imagens, lembranças, sensações, deveres, discursos, lacunas, angústias, anseios, desejos, medo, consciência. Mas todas essas coisas são o quê? Sou eu?”


Vira a página. Eis a personagem.

Ele/ela acorda de manhã, em uma cama que não foi ela/ele quem fez, veste roupas que escolhe dentro de um repertório que lhe ofereceram, sai para a rua, vai à padaria, sorri para o moço do outro lado do balcão, uma média e um pão com manteiga, por favor. Paga por isso. 75 centavos o pão, um real e cinqüenta centavos a média. Paga com dinheiro que recebeu do seu trabalho. Sua profissão é desenhista industrial, habilitação em programação visual. (Passou cinco anos estudando e supostamente aprendendo a profissão em uma universidade pública, conhecendo e ouvindo pessoas, vivas ou mortas, nas salas de aula, nos corredores, nos elevadores, nas folhas de xerox, nos livros.) Faz diagramação para uma editora. Fica sentado(a) na frente de um computador seis horas por dia, mas não são seis horas ininterruptas. Há outras pessoas na sala e elas conversam com ela/ele, conversam entre si. Falam sobre suas crianças pequenas em casa, falam sobre a viagem de férias, falam sobre a novela de ontem à noite, sobre o filme que assistiram, o jogo de futebol. Contam piadas. Comentam notícias. Dentro do computador – através do computador – outras pessoas fazem-se presentes. Mensagens curtas, imagens, músicas, vídeos. Criam-se amigos. Descriam-se amigos. Dentro e fora do computador.

Depois do trabalho, a personagem, às vezes, encontra outras pessoas, outras conversas, dança, teatro, cinema, sexo. Mas na maioria das vezes vai para casa. Na cozinha, um suprimento diversificado de refeições industrializadas, porção única, preparo rápido e prático. E, depois, senta-se diante de uma prancheta, liga um som, e distribui uma série de livros e revistas em quadrinhos ao redor de uma folha em branco. E folheia essas revistas, passa os olhos pelos desenhos, lê e relê os textos dos recordatórios. E fica pensando, imaginando se tem alguma coisa que valha a pena dizer, alguma coisa que valha a pena ser desenhada, alguma idéia que mereça ganhar materialidade.


Sobre a prancheta, encontraremos os seguintes títulos:

Mundo Pet, de Lourenço Mutarelli.

Mesa para dois, de Fábio Moon e Gabriel Ba.

Folheteen, de José Aguiar.

Cidade de Vidro, de David Mazuchelli e Paul Karaski, baseado no livro de Paul Auster.

Comic Book: o novo quadrinho norte-americano, coletânea de diversos artistas de quadrinhos.

A Caixa de Areia, de Lourenço Mutarelli.

Essas obras – esses livros – apresentam dois pontos principais em comum. Primeiro ponto: tratam-se de histórias em quadrinhos consideradas “autorais”, isto é, histórias onde, antes do gênero narrativo ou do personagem apresentado, se destaca principalmente a figura do autor (ou autores). Segundo ponto: sob um verniz de humor, autobiografia, drama ou romance, essas obras abordam principalmente temas sobre conflitos existenciais e relacionamentos humanos apresentados através de personagens que vivem em um cotidiano urbano.

As histórias em quadrinhos fazem parte da constelação cultural que caracteriza certas sociedades de consumo modernas. Assim como a televisão, o cinema e a internet, as histórias em quadrinhos constituem um meio de propagação de narrativas que dialogam com (e podem ser muito interessantes para pensar) as características, valores, paradigmas e transformações dessa sociedade.

A noção de autor é uma das diversas similaridades que a história em quadrinhos possui com a literatura escrita. (Na verdade, sob muitos aspectos, histórias em quadrinhos são literatura). Escrever um romance e conceber uma história em quadrinhos são atividades que demandam horas de trabalho, esforço e estudo. Esse modo de enxergar o autor como um indivíduo isolado e centrado, único responsável pela concepção da obra, está profundamente ligado ao conceito de “indivíduo” moderno, um conceito fundamental para pensar a subjetividade dentro da nossa sociedade.

De fato, há muita similaridade entre a produção de uma história em quadrinhos e a de um livro. Ambas são extremamente complexas e rica de possibilidades e podem até ser um trabalho solitário, mas jamais um trabalho isolado. O autor não é um ser independente. Ele está inserido numa esfera de relações sociais que envolvem família, amigos, outros artistas e seus trabalhos, ideologias, filosofias, classes sociais, questões de gênero e outros diversos aspectos. Portanto, as histórias em quadrinhos (assim como os outros aspectos da constelação cultural) apresentam elementos para pensarmos a subjetividade humana contemporânea e suas relações com as outras esferas que compõem a sociedade moderna (ou pós-moderna, depende do gosto do cliente).

Nas entrelinhas dos roteiros e diálogos, na construção dos personagens e cenários, no modo como são desenhados, encontramos críticas ou afirmações a uma série de mitos e paradigmas que constituem a imagem do indivíduo moderno. O sonho romântico do parceiro amoroso, inocente e puro que se apresenta no trabalho dos irmão Fábio Moon e Gabriel Ba. O mal-estar profundo e angustiante nas histórias de Lourenço Mutarelli e Daniel Clowes. A resignação cínica diante de uma rotina patética e sufocante apresentada nos relatos autobiográficos de Harvey Pekar.

Na civilização da imagem, a felicidade está nos outdoors. A noção de indivíduo, o “self-made man”, o homem que é senhor de seu próprio destino, é uma imagem muito cara para a cultura de consumo e se faz presente em uma quantidade enorme de histórias e narrativas. Do herói do gibi à mocinha da novela das seis. O pobre coitado que supera as dificuldades e torna-se um vencedor encerra a promessa de que todos chegaremos lá, todos encontraremos o sorriso belíssimo dos outdoors. Obviamente, essa é uma promessa muito importante para o sujeito moderno: a conquista da felicidade, seja lá o que isso signifique.

Quando lemos o trabalho de alguns dos autores citados, com seu cinismo e discreto desespero, ficamos imaginando se eles criaram uma estética da fraqueza ou uma estética da franqueza. Seriam eles um bando de loosers que não se esforçaram o bastante e, portanto, não se tornaram self-made men ou pessoas que perceberam que a grande promessa sorridente não vai (e nem poderia) vingar?

E, agora, há uma nova e radiante promessa de realização pessoal e felicidade. A tecnologia contemporânea, mais notadamente a tecnologia digital, possibilitou transformações nas idéias de indivíduo, autor, obra e relacionamentos. A qualidade e o alcance de comunicação proporcionado pela internet propiciou novas formas de relacionamento interpessoal; de criação, distribuição e recepção de obras; novos elementos para a construção da própria identidade, das esferas afetiva e subjetiva.

Embora a esfera digital ofereça toda uma gama de novas possibilidades expressivas, os artistas citados acima permanecem fiéis ao tradicional formato impresso. Poucos deles se dedicaram realmente a conceber material específico para a mídia digital, explorando realmente suas possibilidades. No que se refere ao processo de produção, a maioria continua desenhando suas histórias à mão, quando muito colorindo no computador.

Será que essa atitude de resistência às novas possibilidades digitais encobrem um certo receio de que a nova ordem virtual dilua ainda mais a pouca coesão que restou ao indivíduo? Porque... o que significa ser autor em um mundo onde todos são autores? O que significa ser uma pessoa num mundo de avatares e páginas de perfil com foto e “bula”? Onde está a sua identidade? Quem é você? Não gostei de você. Vou te deletar. A nova promessa digital parece interessar estes artistas justamente por isso: por escancarar as fragilidades e inseguranças do mito do indivíduo moderno. Por escancarar o medo, a incerteza e a solidão. E, por trás de todos esses lamentos e angústias aparentemente auto-indulgentes, flutua uma simples pergunta: afinal, o que importa? O que realmente importa pra cada um de nós?

De volta para a prancheta.

Nossa personagem escreve, desenha uma moça com violão. Cria uma breve história de uma cantora, rostos estranhos na noite, momentos que se desfazem pela manhã. Ela/ele escreve e prepara para colocar em seu blog, um blog entre milhares, um blog entre milhões.

Ela é autora.

Ele é leitor.

Eles são personagens.


Este ensaio foi escrito para uma disciplina do mestrado sobre mídia, cultura e linguagem. Achei que serialegal (e relevante) colocá-lo aqui.