quarta-feira, março 28, 2007

Festival de teatro



Era um monólogo, dividido em duas partes. A primeira era um cara, a segunda uma guria. O texto era bem legal, bem interessante e o cara fez uma atuação legal. Mas daí veio a guria. E aqui começa a parte realmente interessante dessa peça.

Um teatro grande, lotado, todo mundo olhando pra moça, sozinha no meio do palco, parada num círculo de luz. Ela fala seu texto, mas não acontece a empatia. O público não entra na dela. Ela prossegue com o texto. Algumas pessoas saem, outras dormem. E eu começo a sentir uma sensação desconfortável. Poderia dizer que a atriz era ruim, que o diretor era ruim, mas tinha alguma coisa a mais naquela situação que me constrangia. Era a solidão da garota no palco, era ela falar para pessoas que dormiam, para pessoas que viravam as costas e iam embora. Por certo não era culpa apenas dessas pessoas, a atriz e o diretor também tinham sua responsabilidade. Eu pensava nisso olhando aquela moça de vestido azul, imóvel, recitando seu texto no palco. Eu ouvia suas palavras e tentava penetrar nos significados que ela queria construir, mas não conseguia. Existia uma barreira entre ela e nós.

Quando comprei o ingresso para a peça, o que me atraiu foi o texto. Falavam que tinha sido indicado pra um Pulitzer, falavam que misturava tragédia e comédia. A Tragicomédia. Gosto de tragicomédias. Comprei meu ingresso, fiz meu investimento, e estava ali, sentindo um desconforto inexplicável enquanto as pessoas saíam e ela recitava seu texto, sozinha no palco. Acho que pensei em pessoas e peças de teatro.

Conhecemos alguém, investimos na pessoa, estamos lá diante dela e percebemos que ela não nos alcança.

O que quer que ela faça não nos desperta atenção alguma e estamos ali olhando pra ela, sem saber o que fazer, imaginando se seria indelicado demais simplesmente levantar e ir embora. Mas não tenho coragem de fazer isso. Olho pra essa pessoa, falando comigo, tentando me cativar, tentando me mostrar alguma coisa única e especial e percebendo que não está conseguindo, percebendo que já me perdeu para sempre. E eu não tenho coragem de levantar e ir embora por causa de uma piedade nauseante que me constrange ainda mais. Silêncios na conversa, palavras quaisquer sem importância alguma imediatamente esquecidas, sorrisos vazios e lábios estalando leve numa bochecha que não vai me fazer falta alguma em toda a minha vida.

Os olhos dela... os olhos.

Ela vai embora.

O resto, eu esqueci.

terça-feira, março 27, 2007

O Festival de Inverno de Antonina

Todo ano tem Festival de Inverno em Antonina. Se você quer arranjar namorada ou namorado, vá lá. No mínimo, consegue-se uns bons amassos.

Além das “oficinas e espetáculos”, o Festival transforma a cidade e faz parecer que estamos em outro planeta, em outra época. Um planeta mais lúdico, uma época mais desencanada, mais alegre.

Todo ano tem Festival de Inverno e todo ano tem concurso para o cartaz do Festival de Inverno. Há um prêmio em dinheiro e o cartaz vencedor é aplicado em toda a identidade visual do evento. É uma interessante oportunidade para estudantes, profissionais, amadores, mercenários e aventureiros do design.

Esse ano eu decidi participar.

Esse será o 17º Festival de Inverno da UFPR. Dos 16 cartazes anteriores, o meu favorito foi o do 15º. Simples, vibrante, bem composto, sensacional. Olhando para todos os outros eu desenvolvi o seguinte raciocínio: o cartaz ideal deveria ostentar uma imagem-símbolo que conseguisse sintetizar a maioria dos significados relacionados ao festival (o inverno, as festas, a cultura, a arte, a alegria, a cidade de Antonina, etc, etc). Comecei assim, estabelecendo uma meta, uma idéia da onde gostaria de chegar e a que se prestaria minha criação. Tinha que comunicar, ser bacana, chamar atenção e ter uma boa integração da imagem com a tipografia (o texto).

O cartaz do 15º festival...

Um símbolo impactante, uma imagem bem executada, um layout dinâmico, uma tipografia bem integrada.

Muito bem. Muito bonito.

Essa foi a parte fácil. O discurso.

E agora?

Cara, que símbolo? Que imagem? O que eu faço?

Aqui eu preciso explicar que sou muito mais contador de histórias do que designer. Eu geralmente penso em imagens daquelas bem figurativas. Sou um cara barroco. Gosto de dramaticidade, ação, força, exagero. Drácula do Coppola, Romeu & Julieta do Baz Luhrmann. Caravaggio e Rembrandt. Eu sou fã desses caras. É o que eu curto, é o que eu faço. Daí preciso aprender a administrar essa minha natureza barroca com a funcionalidade e objetividade do projeto em questão. No fim, design é administrar as variáveis. (Eu acho...)

Enfim, eu queria fazer um cartaz legal. Algo que fosse a minha cara, mas que também pudesse representar o Festival.

O livrinho da Rita

Ao contrário do que o começo do texto possa ter demonstrado, eu nunca estive num Festival de Inverno. O mais perto que cheguei foi olhar os cartazes no mural. Pra ter uma idéia melhor do que significava o Festival, fui pesquisar. Além da internet, usei um livro que minha caríssima mentora da UFPR, a Rita, me deu de presente uns tempos atrás. Tinha até pensado em viajar pra Antonina, passar um fim de semana lá com bloco de desenho e câmera fotográfica, mas não consegui arranjar espaço na minha agenda. Acabei construindo uma Antonina dentro da minha cabeça, com fotos de sites e imagens do livro. E tinha uma série de fotos que eu tinha tirado lá uns 6 anos atrás que também foram muito úteis.

Ah, é... o símbolo.

O que me ocorreu foi a janela.

(Também pensei em uma Kombi, um monte de coqueiros e em um pingüim gigante).

Mas achei a janela mais... hmm... “simbólica”. Oras, a janela representa uma visão de um ambiente para outro, de dentro para fora ou vice-versa. Como uma porta, a janela simboliza um ponto de passagem entre ambientes, entre realidades... O Festival, como eu já disse, é um evento que transforma a cidade e pode transformar as pessoas também, se elas deixarem. Ele é uma janela. E é óbvio que, na arquitetura de Antonina, aquelas janelas são bem características. Enfim, a janela. Com certeza.

Certo. A janela. E como eu represento a janela? Fotografia? Pintura? Gravura? Colagem?

O pessoal do Circo de Luz nas ruas de Antonina

Daí... folheando o livrinho da Rita eu achei uma pusta foto legal. Aquela dança com tochas. Muito bacana. E de repente todo meu planejamento foi por água a baixo. Porque eu também vi imagens de crianças, provavelmente da própria cidade, com suas roupinhas surradas e aquele ar curioso e daí percebi que eu ia desenhar uma coisa com criança. Tinha que ter uma criança sorrindo. E também decidi que iria pintar na mão primeiro pra depois meter no computador... Decidi pela aquarela, simplesmente porque gostava. E, como sempre, a vontade de fazer uma imagem sufocou o bom senso do planejamento. Pelo menos, consegui mais ou menos manter na minha cabeça a idéia de que tinha que ter um espaço pras letras.

Um pedaço do caderno de idéias...

Daí a idéia era uma criança desenhando com fogo uma janela no ar. UAU! Adorei. Vamos ver se funciona.

Faz os esboços, desenha, pinta, escaneia.

Lápis


Aquarela


Essa vai ser a janela de fogo. Começa com
nanquim no papel e depois passa pelo photoshop.


Janelas (meio óbvio, não?)

Fundo de aquarela. As bordas bacanas são de tinta que vazou
por baixo da fita adesiva que fixava o papel na prancha.



Pintei umas texturas de aquarela pra utilizar como base e acabei aproveitando a borda delas, que tinha ficado com um aspecto legal de “não acabado”. Também usei uma foto que eu mesmo tinha batido de umas janelas lá de Antonina. Trabalhei essa foto pra reforçar a idéia de “janela”.

Dentro do computador, a brincadeira continua. A “janela” pintada com um pincel normal e tinta nanquim vira uma janela de fogo com o Photoshop. Experimento combinações, possibilidades que não tinha imaginado com relação ao fundo. Apesar de tudo, eu queria deixar o cartaz o mais simples possível, com a menor quantidade de elementos.


"Em chamas!"

Mexendo e mexendo, chegando lá...

Também tinha que brincar com a integração do texto, principalmente do título. Eu já sabia que ia utilizar uma fonte chamada “Tension”, que parecia aludir aos movimentos da dança com fogo. Uma das coisas que consegui foi manter a posição vertical, que eu achava importante pra equilibrar o cartaz e incorporar os elementos textuais. Ficaram a estrutura do cartaz e o quadro de aquarela acentuando uma verticalidade que contrasta com a horizontalidade do sentido de leitura dos blocos de texto.

E aqui está o bichinho...

Ta-daaaaa!

Ficou legal, né? Pois é, minha idéia aqui era dar mais ênfase para o processo de criação, sobre como as idéias vão aparecendo na cabeça. Acho bem bacana como essas coisas vão acontecendo. Foi bem divertido fazer esse cartaz. A propósito, ele não foi minha primeira tentativa no Festival de Inverno. Eu tinha tentado antes, três anos atrás, com o cartaz abaixo...

sábado, março 24, 2007

O ano em que meus pais saíram de férias


Felicidade de acordar de manhã e ter 12 anos. O mundo é diferente e ele nunca mais vai ser assim de novo. Mas algumas coisas sempre vão se repetir.

Acho que sempre teremos ruas vazias em véspera de jogo da seleção. Copa do mundo, as ruas, as ruas... Deus, todos os brasileiros somem das ruas! O cotidiano sai de férias e eu caminho, imagino as mãos dadas diante dos aparelhos de tv, os sorrisos, a ansiedade, a alegria incontida. Isso sempre será assim.

Outra coisa que sempre teremos é a ausência. A expectativa de uma visita que nunca vem, de um chamado que nunca acontece.

Dizer adeus pra quem a gente ama.

Dizer adeus pra quem a gente poderia ter amado.

A solidão mesmo a gente inventa. Não faz diferença estar nas avenidas desertas ou no meio de um abraço pra comemorar o gol. A solidão está dentro da nossa cabeça. Afinal, todos estamos sozinhos, mas talvez a solidão seja uma escolha.

Crítica de filme a gente também inventa.

É do caralho, simplesmente do caralho, mas infelizmente você nunca vai ver o mesmo filme que eu vi.

Que mais eu posso dizer?

Assista.

Simplesmente assista.

segunda-feira, março 19, 2007

Os Mutantes

Da espetacular e mui profunda série "O Mundo em Que Vivemos":
(Sim, Marcelo, fui eu que fiz a tirinha).






E, de repente, é domingo de novo.
Ontem teve show dos Mutantes.
Show dos Mutantes, velho...

Eu lembro da gente, naquela sala dos bolsistas do laboratório de computação gráfica. Eram os fins de tarde, quase ninguém aparecendo naqueles dias. Na tranqüilidade, a gente escutava de tudo, ali naquela sala das paredes de vidro. Eu e a Natacha. Ela tinha um cabelão lindo, muito parecido com o da Rita Lee na época dos Mutantes. Parando pra pensar, ela tinha muito mais em comum com a Rita. Eu me lembro de um finzinho de tarde em especial, antes do chope, o sol caindo por trás dos prédios, aquela luz maravilhosa e ela colocou a Balada do Louco. A gente achava que aquela música devia virar hino nacional. O Hino Nacional do Nosso País, Nosso País sem fronteiras, sem governo e sem população definida. O Nosso País. Natacha, a Caminhante Noturna...

Ontem.
O Show dos Mutantes.
Imperdível. Impagável.
Ou quase. Arnaldo Batista e Sérgio Dias. Cadê a Rita Lee?

Daí, anos depois, a Adriane me emprestou a biografia dos Mutantes. Livro concorrido, raro, parece que publicaram uma nova edição dele recentemente. Os Mutantes, pra mim, são três. Sim, existem outros e eu não estou sendo justo nem falando exatamente a verdade, mas pra mim, eles são três: Arnaldo, Sérgio e Rita.

A Rita não estava lá no show, não quis aceitar participar da turnê. Por um lado, ela deixou de aproveitar uma ótima oportunidade. Ela faz falta. Por outro, eu entendo perfeitamente por que ela recusou o convite.
Arnaldo Batista estava lá... mais ou menos. Olha só, o Arnaldo é um músico extraordinário, um puta talento. Mas olhar pra história dele é algo meio assustador. As drogas, a depressão, a clínica, a tentativa de suicídio e a traqueostomia deixaram suas marcas. Mas o homem ainda é o Arnaldo e o que importava era a presença dele. Ele até conseguiu cantar algumas canções.
O Sérgio levou o show nas costas. Sensacional, poderoso, supremo. O som, a presença no palco, a energia. Ele deve ter o quê? Uns sessenta anos? O cara é sensacional!
O show valeu cada segundo, foi muito bacana. Chamaram a Zélia Duncan no lugar da Rita Lee. (Mas, digam o que quiserem, com tudo de bom que tenha, a Zélia ainda não é a Rita.) Tinha mais uma banda de apoio e uma Simone maravilhosa na batera (ah, sempre tem uma Simone). Eles tocaram as óbvias (Ando Meio Desligado, Balada do Louco, Panis et Circensis) e também tocaram uma seleção para iniciados (Ave Lúcifer, Ave Gengis Khan, Tecnicolor). Foi legal ouvir “Ela é minha menina” sem ser um cover pelo Reles Pública... (hahaha).

Mas legal mesmo era ver o Sérgio tocando ali, ver o Arnaldo, sentir a ausência da Rita e só poder imaginar o que era estar no show dos caras no finalzinho da década de 60. Porque no fim, o show foi isso: uma idéia do que era ver os Mutantes no auge. Cara, eles fizeram a Tropicália ao lado do Caetano e do Gil! Eu ficava olhando aqueles dois no palco, ficava ouvindo as canções, viajando pelos rostos da platéia, gente nova, gente velha. Eu ficava pensando na história, sabe. Na nossa história, na história de cada um, as marcas que cada um carrega, o que fazemos com a vida e o que a vida faz com a gente. Como as coisas mudam. Ou não.

No fim, o que mais me fascina são essas pessoas sensacionais que cruzam a vida uma das outras, e se amam e constroem juntas todo um mundo diferente. Um país. O Nosso País. E é engraçado como essas pessoas podem não permanecer juntas. É assustador ver como o amor pode não ser correspondido ou como ele pode se corromper ou como ele simplesmente se desvanece lentamente como as cores de um impresso vagabundo. E o Nosso País se desfaz, sem deixar ruínas, sem deixar traços, sem deixar nada que nos dê a certeza de que um dia ele realmente existiu.

Esse tal amor ainda é a mais poderosa experiência dessa vida, excetuando talvez a morte. Mundo louco esse.

Enfim, um dia eu espero fazer uma história sobre esses três. Não uma história real, fiel, mas uma história sobre o que eles me fazem pensar. Sobre querer cantar canções iluminadas de sol e sobre as pessoas na sala de jantar. Sobre como a vida transforma crianças em adultos.

Faz uns seis anos que não vejo a Natacha. E mais de 10 desde aquelas tardes no laboratório. Ela era... ela é uma pessoa maravilhosa, sabe.

É engraçado não sentir saudades.


Mandei fazer
De puro aço luminoso
U
m punhal
Para matar o meu amor

E matei

Panis Et Circenses (1968)
De Caetano e Gilberto Gil
Performed by Os Mutantes

sexta-feira, março 16, 2007

Um dia de cada vez





Eu toco flauta transversal.

Estou aprendendo.

Sempre que posso eu tiro uma hora do meu dia pra brincar com a flauta. Hoje já eu não consegui, as coisas são corridas, o horário apertado. Mas ontem e anteontem eu consegui e isso me deixa bem animado. Eu acho legal como vou conseguindo tirar um som melhor da flauta, acho bacana como aquele exercício da nota longa vai fazendo efeito bem devagar.

(Ah, o exercício da nota longa.
Por uns quarenta minutos, alterna-se o som vibrato com o som contínuo, nota por nota, da flauta. Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si e essas são as notas de uma oitava. Dó sustenido, ré sustenido, fá sustenido, sol sustenido e lá sustenido são os acidentes. Total de sons em uma oitava: doze. A flauta transversal tem três oitavas. Cada som ou nota requer uma combinação de teclas fechadas e sutis variações de posição da boca para a passagem de ar. O vibrato e a potência do som são obtidos através do diafragma e a intenção do exercício da nota longa é aprender a tirar tudo o que puder do diafragma. O diafragma é um músculo que fica entre o tórax e o abdômen, dentro da gente. Em outras palavras, o exercício da nota longa é ginástica pra um músculo que você não consegue enxergar. Também serve pra você aprender a deixar o ar escapar da maneira correta e a usar a boca, garganta e cabeça como caixa de ressonância. Com isso, você vai melhorando o som.)

A minha vontade é de um dia tocar em público, sabe, num lugar tipo o Wonka. Tocar algo como um jazz ou um Jethro. Mas não pra ganhar dinheiro. Eu só queria ser capaz de tocar em público e tocar bem. Ali, junto dos meus amigos, bebendo, curtindo. Tocando de verdade, fazendo a música fluir. Ainda estou bem longe disso (beeeeem longe meeeeeeesmo). Mas eu vou indo aos poucos, bem devagarinho. Às vezes dá a impressão de que nunca vou chegar lá, sabe... Daí eu procuro não pensar em aonde eu quero chegar. Penso só naquela hora de treino, naquele minuto de ensaio. E, de repente, acertar aquela única nota, naquele instante e nada mais, é a única coisa que importa e eu às vezes me perco no momento, esqueço de mim mesmo e tudo parece fazer sentido. E daí acaba.

Isso me faz pensar nos alcoólatras anônimos. Sabe o lema deles, algo como “um dia de cada vez”? Pois é... No fim, todos nós temos nossos sonhos, nossas vontades, mas a verdade é que não temos garantia nenhuma de que vamos conseguir. Eu não tenho garantia nenhuma de que vou chegar lá, nem sei se “lá” existe. No fim, a única coisa que realmente possuo é o momento presente. Deve ser o suficiente.

E eu treino.

E leio, escrevo, pinto, pesquiso, estudo, nado, corro, bebo, converso, escuto, falo, rio. Aos pouquinhos. Um dia de cada vez.

Nem sei aonde vou chegar.

A vida é muito curta, a gente precisa achar tempo pra fazer o que realmente interessa.
E saber o que realmente interessa é coisa de cada um.


Parando pra pensar bem, acho que a minha vontade era ser feliz.

Enfim...


(Simone, obrigado por perguntar...)

domingo, março 11, 2007

Match Point


Não posso dizer que sou um grande fã do Woody Allen. Assisti alguns filmes dele e achei legais, mas nunca consegui me identificar com o mundo do burguês judeu novaiorquino. Faltava liga, sei lá. Daí assisti esse Match Point.

Pois é...

Tem um amigo meu com quem às vezes discuto sobre coisinhas corriqueiras da vida, tipo destino e livre-arbítrio. A grande pergunta é: você realmente controla sua vida? Meu colega gostava de pirar em cima da história de um cara, que era o fodão, casado com uma gostosa, bonitão, rico, pauzudo e tal; e daí, um dia, esse cara é assaltado e leva um tiro. O cara sobrevive, mas acaba virando um vegetal. Perde a fala, os movimentos, fica preso a uma cadeira de rodas tendo que receber comida na boca. Foda pra caralho. Daí esse meu amigo fica pensando sobre a vida: a gente conquista as coisas, se exercita, fica gostosão, descola uma mulher legal... e tudo é tão frágil, tudo pode se perder de um segundo para outro. E esse é o ponto: a fragilidade da nossa existência. Claro que não adianta muito pensar nisso, mesmo porque, se você pensar muito nisso, você pira.

Esse filme, Match Point, começa com uma consideração interessante: você prefere ser bom ou ter sorte? Tipo, você acha que pode se dar bem na vida com talento, persistência e trabalho ou acha que o sucesso pode ser muito mais uma questão de sorte? Claro que no fim, o que interessa é pelo menos ter tentado chegar lá. O que vale é competir, certo? É melhor ser um fracassado que tentou do que um covarde do que nunca tentou.

Hm... talvez seja melhor, mas não é lá muito melhor...

Bom, o Chris é um professor de tênis. Ex-profissional, ele jogou com alguns dos melhores tenistas do mundo, mas desistiu cedo, porque não gostava das viagens e da tensão. Durante as aulas de tênis, ele fica amigo de Tom, filho de um milionário e noivo de Nola (a maravilhosa e superpoderosa Scarlett Johansson). Durante o filme, Chris se casa com a irmã de Tom, Chloe, e isso lhe garante um cargo na empresa do sogrão milionário. De repente, Chris, que era filho de irlandeses operários, se vê com um padrão de vida excelente. Dinheiro, muito dinheiro, velho! Nosso amigo Chris tem tudo pra chegar ao fim da grande partida da vida dizendo-se vencedor.

Daí entra a Nola.

Olha só, esse filme do Woddy Allen é muuuuuuuito legal. É o mais longo filme da carreira do Woody e o primeiro a ser rodado na Inglaterra. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original. E a história dele...

Começa com o nosso amigo Chris fazendo a tal pergunta: o que vale mais, ter sorte ou ser bom? Chris acredita na total falta de sentido do mundo. Ele não acha que as coisas tem uma razão de ser. Ele não acredita em destino. Pra ele, você se esforça e trabalha, mas no fim está à total mercê do acaso. Dar ou não dar certo depende muito mais de forças que você não controla. É nisso que nosso amigo Chris acredita. “Desespero é uma saída fácil”, lhe dizem seus amigos. “Fé é uma saída fácil”, ele responde. E Chris vai ter a oportunidade de descobrir se ele está certo ou não.

Nola é uma gostosa. O Chris fica a fim dela desde o começo e eu entendo perfeitamente porquê. Eu acho engraçado isso. Não sei se é assim com as mulheres também, mas acho muito engraçado como a gente pode perder totalmente a cabeça por causa de uma boceta. Nola era noiva do seu melhor amigo, que era irmão da sua noiva, e ainda assim Chris deu em cima dela. E rolou. E é engraçado ver o cara arriscar o trabalho, a amizade, a esposa e tudo mais só por causa de Nola. Eu ficava pensando “cara, não faz isso, é cagada!”. E me assustava ao imaginar que eu talvez não agisse diferente dele. O ser humano é só estômago e sexo, ouvi uma vez. E ser um ser humano significa que mais cedo ou mais tarde você vai agir como um cachorro no cio.

E daí Chris acaba casando com Chloe, mesmo se consumindo de tesão por Nola. Esse casamento de certa forma é mais culpa de Nola, que não deu corda pro nosso Chris. Ela queria casar e o tal Tom era bom partido. Bom papo, rico e de convivência fácil. Que mais uma garota pode querer? Daí o Chris casa, vira empresário bem sucedido dentro da empresa do sogrão, tudo uma beleza.

Súbito, um dia Tom termina com Nola e ela some da cidade.

E, um dia, um ano ou dois depois, ela volta. Chris a encontra por acaso numa galeria de arte. Adivinha...

Enquanto Chloe está empenhada em tentar engravidar (sem conseguir), Chris rebola pra conseguir escapar de uma agenda congestionada e trepar com Nola. Ah, Nola... Ela começa a gostar de Chris ou algo assim, e começa a sentir ciúmes. E, um dia (surpresa!!!) Nola engravida. E, de repente, os sentimentos de Chris por Nola começam lentamente a mudar. De repente, ele parece se dar conta do que pode vir a perder se assumir seu relacionamento com Nola, que frustrada, desesperada, recusa-se a abortar e começa a pressionar cada vez mais nosso amigo Chris.

E é aqui que o filme fica superparecido com o romance Crime & Castigo de Dostoiewski (que por sinal é lido por Chris em um momento do filme). É muito bacana a maneira lenta como Woody Allen constrói o cenário para entendermos porque Chris vai fazer aquilo. Não concordamos moralmente, não podemos aceitar, mas entendemos perfeitamente. Um sensacional misto de fascínio e repulsa...

Como eu disse, não sou um grande fã do Woody Allen. Não conheço muita coisa dele. Dos filmes mais recentes eu assisti Dirigindo no Escuro (que é bem engraçado) e Melinda & Melinda (que não me conquistou). Match Point me surpreendeu e pareceu bem mais interessante enquanto filme. Muito mais perturbador, coeso e poderoso.

E você, o que acha?

Ter sorte ou ser bom?

domingo, março 04, 2007

Eclipse 1

Da fabulosa e belissimamente ilustrada série "O Mundo em que Vivemos"...
(Ah, o desenho é meu...)

Eclipse 2

Mais uma da série "O Mundo em que Vivemos"...
(Uma tirinha que fui eu mesmo que fiz com as minhas mãos... legal, né?)