segunda-feira, abril 30, 2007

O Grande Truque

(Você está prestando atenção?)

Todo truque de mágica consiste de três partes ou atos.

A primeira parte é chamada de a Promessa. O mágico mostra a você um objeto normal, ordinário... um maço de cartas, um pássaro, uma pessoa. Ele mostra esse objeto e talvez até peça que você o examine, para que possa confirmar por si mesmo que, realmente, é um objeto comum, sem alterações.

É. Parece um objeto completamente normal.

(Mas, é claro, provavelmente não é.)

O segundo ato é chamado a Virada. O mágico transforma o ordinário em algo extraordinário. Objetos se interpenetram. Pessoas desaparecem no ar. “Como ele fez isso?” E agora, diante da mágica, você procura pelo segredo, mas não vai descobri-lo porque, é claro, você não está procurando de verdade. Você realmente não quer saber.

Você quer ser enganado.

Mas ainda não há aplausos porque fazer algo desaparecer não é o suficiente. É preciso trazê-lo de volta. É por isso que todo truque de mágica tem um terceiro ato. A parte mais difícil. O seu fechamento, a sua conclusão espetacular. A Apoteose.

* * *


A viagem de São Paulo à Curitiba tem cerca de 6 horas.

Imagine um embarque no terminal Tietê à meia-noite, em um ônibus convencional. Imagine que seja uma quarta-feira. Ônibus quase vazio. Os burburinhos da viagem, o assento vazio ao seu lado, os borrões indistintos do outro lado da escuridão da janela. Você sempre dorme na viagem, mas hoje, justo hoje, você não consegue. Você não tem um sonzinho para ouvir, você não trouxe nada para ler. O tempo é diferente aqui. O tempo é um movimento contínuo na escuridão, um embalo constante. Um silêncio sem mudanças, uma solidão sem perspectivas.

Aqui você só tem a si mesmo.

Promessa, Virada, Apoteose.

Racionalização e esquematização em três momentos definidos. Receita não só para truques de mágica, mas também para filmes, para livros, para novelas. Para todas as formas de representação. Namoros, amizades.

Solidão.

É lógico que é tudo uma grande representação, um grande truque. Somos ilusionistas e platéia ao mesmo tempo. Tão acostumados a representar para os outros que não percebemos o quanto representamos para nós mesmos. Não queremos perceber, não queremos saber.

E na longa viagem pela escuridão entre as duas cidades, o que temos é um objeto comum, ordinário, uma pessoa sentada sozinha. Você. Eu. Homem. Mulher. O objeto ordinário, a base da expectativa. A Promessa.

E a Virada. De repente não somos mais uma pessoa sentada na escuridão. De repente estamos olhando alguém pela primeira vez, de repente estamos beijando, dormindo juntos pela primeira vez. Promessa, Virada, Apoteose. Mas não termina ali. Esse é o maldito problema. Na manhã seguinte acordamos ao lado de uma nova Promessa, um novo objeto ordinário e passa-se a viver da expectativa de uma Virada incerta e uma Apoteose improvável. A teoria é falha. Não se pode racionalizar a Decepção, então pegamos um ônibus e vamos pra Curitiba, deixando a Promessa ordinária para trás e nos vemos na madrugada, sentados no ônibus sem conseguir dormir, sem conseguir parar de pensar, imaginando se fizemos certo, se daria certo ou não, se a culpa não foi nossa. Mas a Dúvida também não aceita racionalizações.

E pensa o que será na cidade nova, quem irá conhecer, quem será a nova Promessa. Pensa no seu aniversário de 32 anos na semana que vem. Pensa no dinheiro que não tem. Pensa no quanto estudou, viajou e trabalhou e ainda assim não há garantias de nada. Ansiedade. Apreensão. Na escuridão da viagem, não temos Promessa alguma, quem dirá Apoteose.

Na escuridão da viagem o celular está sem baterias.

Na escuridão da viagem você só pode olhar para si mesmo.

Conhece-te a ti mesmo, mas quem ia querer uma coisa dessas? O Mundo é sólido feito uma pedra, é seco, é triste. Quem quer realmente deixar de se ver como Promessa de Virada para a grande Apoteose? Quem quer saber o que aconteceu com o casal feliz depois do fim do filme? Quem quer se aceitar de verdade?

E, aos poucos, o escuro se torna uma tênue iluminação amarela e o ônibus pára no posto em Registro. Desce, entra na lanchonete. Luzes amareladas, uma tonalidade laranja irreal em tudo, mas parece ser tão frio. Um café, um assento ocupado na mesa de quatro lugares. De repente percebe que está ouvindo música. Que sera, sera sussurrado das caixas de som escondidas. Na xícara, a gota de leite vira uma galáxia espiral na escuridão do café. Ao levantar os olhos, enxerga a oficina, do outro lado da rodovia.

Quando percebe, está caminhando para lá. As letras mal desenhadas usando vermelho para dizer “Borracharia” na parede. Um poste mal ilumina a porta da oficina. Lá dentro. Uma lâmpada pende do teto com luz fraca e oscilante. Pneus amontoados, pôsteres de mulheres nuas se desintegrando na parede imunda. E no canto, debaixo da lona, está a menina. Ela foi violentada, ferida com ódio selvagem, descontrolado. Ela foi punida e está morta, debaixo da lona seu corpo massacrado, hematomas, cortes, pequenas mutilações. Ela está morta, mas numa fração de segundo a lona é puxada e vemos o seu olhar, vemos o sangue seco em seu rosto. Ela nos vê.

Uma fração de segundo.

Estamos de volta à mesa do café, a galáxia ainda rodopiando nele. Nunca nos levantamos. Nunca houve borracharia do outro lado da rua. Que sera, sera a voz canta de lugar algum. Whatever will be, will be.

The Future is not ours to see.

Hora de embarcar de novo no ônibus.

Mais 3 horas de viagem.

Na mágica, às vezes você precisa sujar as mãos. Sacrifícios pelo espetáculo, pela ilusão, pelo maravilhamento do público e o seu próprio. Esmagar canários em gaiolas para simular seu desaparecimento é coisa corriqueira. Mas fingir a vida inteira ser alguém que você não é... Fingir o tempo todo, até quando se está sozinho... Ah, isso é o supra-sumo da arte, o sublime da disciplina. Fingir ser algo com tanta dedicação que ninguém, nem você mesmo, jamais vai saber quem você era realmente, quem você poderia ter sido.

Eu sou um ilusionista. Eu vivo num mundo de máscaras e espelhos. Eu sou um mentiroso convicto, um sonhador, um alucinado. Eu invento histórias para os outros e para mim mesmo. Eu não saberia dizer o que é real ou não.

Nem você.

(Carla e Joana. As moças das viagens, das conversas sobre tudo e nada. Para vocês. Leiam ouvindo “Mad World” de Gary Jules. )

sexta-feira, abril 20, 2007

Últimas considerações...

Só pra concluir o post "Mas que coisa feia!":
Estava hoje de manhã navegando e achei essa matéria sobre mais polêmicas envolvendo personagens de quadrinhos. (Você pode ler a matéria aqui). Basicamente, alguns sites e blogs norte-americanos estão fazendo críticas a certas estátuas de super-heroínas que as apresentariam de maneira "sexy" demais. Dê uma olhadinha na Mulher-Gato e na Supergirl ali embaixo e diga o que você acha.
É curioso que os próprios sites de quadrinhos e blogs de fãs estejam tecendo essas críticas, condenando as poses sensuais e os decotes. Segundo uma das muitas críticas, esse tipo de exibição das heroínas "contribui para a idéia de que leitores de quadrinhos são sexualmente frustrados". Olha, concordo com as palavras de Greg Rucka: essas críticas acabam "revelando bem mais dos acusadores do que dos acusados".
Na verdade, fico pensando o que essas críticas realmente significam. Talvez as últimas reminiscências de uma moral rígida? Mera falta do que fazer? Polêmica como golpe publicitário? Enfim, se não houvesse procura por essas estátuas e materiais afins, com certeza elas não seriam produzidas. E, hoje em dia, se alguma coisa realmente te incomoda, dá pra desligar a tv e ir ler um livro, se é que você me entende. Temos muitas opções pra todo mundo...
Acho que ainda estamos vivendo dias de transições, transformações na maneira de ver e aceitar o mundo e os outros que vivem nele.
Espero que transformações positivas, respeitando ao outro e suas próprias visões.


quinta-feira, abril 19, 2007

Mas que coisa feia!



Recentemente saiu uma historinha do Homem-Aranha lá nos EUA que causou a maior polêmica entre os fãs. Reign é o nome dessa mini-série que mostra um Peter Parker velhinho e solitário, mais deprimido do que nunca, que há muito tempo pendurou as teias. A história é claramente inspirada no Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, apresentando similaridades na arte e no roteiro: num futuro sombrio, o super-herói aposentado e decadente volta à ativa. As controvérsias surgiram por causa de duas situações apresentadas.

Logo no primeiro número, há uma cena onde o velhinho acorda. Ele está sentado na cama, nu. Embora seja um desenho bem caricato, podemos ver que tem uma coisinha ali, no meio das pernas. É. É exatamente isso que você está pensando. Um pênis. Daí começou a primeira polêmica. Donos de lojas e leitores sentiram-se muito incomodados com o “nu frontal masculino”. Questionavam se aquilo era apropriado para o personagem ou mesmo para uma história em quadrinhos. Afinal, o Homem-Aranha é um herói para as crianças e tal. Seria apropriado deixar os pequenos lerem uma história onde aparece um velhinho nu? Mas, pare para pensar um pouco: seria apropriado deixar os pequenos lerem uma história depressiva sobre um velhinho a quem só restaram lembranças e muita solidão? Enfim, a editora Marvel providenciou uma nova edição (a “variante sem pênis”) para os mais pudicos. Abaixo, a imagem original.

Ohhhhh!!!!!

Depois do pênis, o esperma. Na terceira parte da minissérie, vemos Peter Parker delirando diante do túmulo de sua esposa, Mary Jane. Então descobrimos a causa da morte dela: como tinha sido picado por uma aranha radiotiva (o que lhe deu os poderes), todos os fluídos de Peter também se tornaram radioativos. Todos os fluidos. Sem meias palavras, transar com Peter Parker deu câncer a Mary Jane. Hehehe! Gente... o público sentiu uma indignação enorme. Ficaram ensandecidos. Todo mundo censurando, xingando, dizendo que a editora não tinha a menor consideração pelos leitores nem pelo próprio personagem. Acharam a coisa toda uma palhaçada de extremo mau-gosto, coisa de paródia pornográfica. Em muitos aspectos, as críticas estão provavelmente com toda a razão, entretanto...

Entretanto, por trás de todas as reclamações e argumentos, pareceu-me que existia principalmente um grande desconforto com relação à questão da sexualidade em si.

Eu acredito que, em uma boa história, não interessa tanto o que acontece, mas como o que acontece é contado. Não posso dizer se a história é boa ou não sem lê-la. Tentei baixar a história para conferir pessoalmente, mas não consegui. Pelo que pude conferir, o roteiro é bem comum (bem contra o mal e tal). O que realmente me chamou a atenção foi que o principal motivo da indignação dos críticos era o pênis e o esperma. Por que a idéia de que o Homem-Aranha possa ter e exercer sua sexualidade é condenável? Isso macularia sua dignidade? Isso perturbaria e corromperia as crianças que lêem os gibis? Só crianças lêem os gibis?

Os quadrinhos como conhecemos hoje (enquanto mídia de consumo de massa), surgiram no final do século XIX, nos jornais norte-americanos. Aos poucos, a caricatura e os desenhos seqüenciais narrativos foram ganhando as características que conhecemos hoje, como os balões e as onomatopéias. No princípio, o humor predominava entre as historinhas, mas lá pela década de 1930, a aventura se consagra no mundo dos quadrinhos. Detetives, heróis das selvas, heróis do espaço. Surgem Tarzan, Fantasma, Mandrake, Dick Tracy, Flash Gordon...

As ficções refletem muito o pensamento e o modo de ver o mundo da sociedade que as concebem. Nesse começo do século XX, o que tínhamos era uma sociedade patriarcal com valores rígidos e muito bem definidos. A sexualidade era vista como algo moralmente condenável. Existem muitos aspectos complexos referentes à religião e sociedade por trás dessa mentalidade. O que me interessa aqui é como os quadrinhos refletem essas concepções de comportamento da sociedade e suas mudanças ao longo do século XX.



Pegando como exemplo Flash Gordon, encontramos o aventureiro terrestre que luta para livrar o planeta Mongo das garras de Ming, o impiedoso. Alto, branco, loiro, racional, corpo perfeito, Flash Gordon encerra todas as qualidades que o herói ideal da época deveria ter. Sua namorada é Dale Arden, bela, inocente, fútil e submissa, que aguarda passivamente o dia em que Flash decidirá casar com ela. Ela é o estereótipo clássico da mocinha indefesa esperando para ser resgatada. Por outro lado, as vilãs da série possuíam uma personalidade forte, eram líderes, princesas. Ostentavam uma sensualidade mais agressiva e por vezes tentavam seduzir o nobre herói. Podemos considerar que entre as mulheres nas aventuras de Flash Gordon, submissão e passividade eram características das mocinhas de família, do “bem”, enquanto que ousadia e sedução eram coisas das “malvadas”. Flash e Dale representam a idéia típica de casal que se tinha nessa época: o homem dono do mundo e sua mulher de estimação. Esse casal era a base da sagrada estrutura da família, em que os filhos devem submissão e reverência à figura do pai e respeito e carinho completamente assexuado à mãe. O pai é o deus protetor e a mãe é uma santa imaculada. Sexo parecia ser algo que ameaçava essa estrutura. Essas idéias e maneiras de ver a sexualidade e a relação entre casais estão presentes nas histórias de muitos outros aventureiros da época. Lois Lane, Jane e Diana Palmer são as noivas eternas de Superman, Tarzan e Fantasma. E há vários outros exemplos.

Sim, vamos casar. Mas é melhor você esperar sentada, minha filha...


Mas nem tudo era “a aventura da batalha do bem contra o mal” na década de 30. Enquanto Flash Gordon lutava bravamente contra Ming e Dale Arden retocava a maquiagem, Betty Boop cantava.

Betty Boop surgiu nos desenhos animados dos estúdios de Max Fleischer, lá por 1932. Em 1934 ela virou personagem das tirinhas de quadrinhos. Sem ter um inimigo a quem combater ou um namorado a quem servir, Betty vivia aventuras simpáticas e bem humoradas, embaladas com muita música. Boop incomodou muita gente porque foi a primeira personagem de desenho animado a representar uma mulher de verdade. E isso incluía a sexualidade. Para se ter uma idéia, um exemplo típico de personagem feminina da época era a Minnie, namorada do Mickey. Acostumados a ver coisinhas cuja feminilidade era definida por um lacinho na cabeça, o público não ficou impassível diante de Betty Boop. O rosto era inspirado na popular cantora Helen Kane e o corpo imitava as curvas de Mae West. Cinturinha fina e cinta-liga, peitinhos proeminentes e movimentos provocantes que às vezes mostravam sua calcinha, Betty se tornou um sex simbol e pagou caro por isso. Em 1934, a Liga da Decência Americana considerou a senhorita Boop uma ameaça aos valores puros e íntegros e conseguiu tirá-la de circulação. E de sex simbol ela se tornou ícone pop cult.



Repare que até aqui estivemos falando dos Estados Unidos da América do Norte da década de 1930. E no Brasil?

Embora exista uma produção de quadrinhos feita por artistas brasileiros, a influência dos gibis estrangeiros, principalmente americanos, é notória em nosso país. Na década de 1930, Adolfo Aizen foi um dos pioneiros em trazer para o Brasil os personagens norte-americanos. A princípio as historinhas vinham como encarte nos jornais, mas sua popularidade logo incentivou o lançamento de publicações exclusivas de quadrinhos. O sucesso de vendas era tão grande, o consumo de quadrinhos era tão numeroso, que os educadores do Brasil começaram a se preocupar se esse tipo de leitura não era prejudicial às crianças. (Sempre as crianças...). Essa preocupação não era original. Na França já existia esse tipo de debate, de que as histórias em quadrinhos podiam transformar crianças em marginais.

Naquela época, a Igreja Católica no Brasil tinha força e influência bem maiores sobre a sociedade e estava muito preocupada com a moral e bons costumes de seus membros. Muitos bispos e padres condenaram os quadrinhos violentamente, acusando-os de todo o tipo de vilania que se possa imaginar (desde o incentivo à marginalidade ao prejuízo do desempenho intelectual). No meio da década de 40, Adolfo Aizen fundou sua editora, a EBAL, que publicava uma série de revistas com versões traduzidas das hq’s ianques. Num clima hostil de conservadorismo e puritanismo castradores, Aizen procurava manter as melhores relações possíveis com todos os críticos, especialmente a Igreja Católica. A EBAL publicava revistas com matérias educativas, hq’s sobre grandes vultos da história brasileira, sobre santos e episódios da Bíblia. Esses títulos não vendiam muito e eram publicados só pra agradar a velharada conservadora. Aizen até conseguia uns elogios do clero, mas várias vezes sofreu duras repreensões, mesmo com toda sua política de boa vizinhança.

Na década de 50 aconteceu um episódio curioso. A revista Edição Maravilhosa costumava trazer em seu verso a reprodução de uma pintura de algum artista famoso, brasileiro ou não. Por duas vezes a editora EBAL recebeu severas críticas por publicar material pornográfico e prejudicial à pureza da juventude. Um padre escreveu cartas e fez uma série de sermões condenando a pornografia e as histórias em quadrinhos e apelando para que os pais não deixassem os filhos lerem as revistas. Essas imagens "pornográficas" foram publicadas nas edições de 1953 e 1954. Abaixo você pode vê-las.



"Verão", do pintor brasileiro Eliseu Visconti


"A Grande Odalisca", de Ingres

Uma barbaridade, não?

A história da publicação de quadrinhos no Brasil nas décadas de 1930 a 1960 pode ser encontrada no livro de Gonçalo Junior, muito apropriadamente chamado de “A Guerra dos Gibis”.

A repressão contra os quadrinhos era geral e teve seu ápice a partir de 1954, nos EUA, quando foi publicado o livro Seduction of the Innocent, do psiquiatra Frederic Wertham. Basicamente, o livro dizia que as histórias em quadrinhos eram extremamente nocivas para as crianças, podendo levá-las ao alcoolismo, homossexualismo, assassinato, roubo e baixo rendimento escolar. Esse livro foi a base para um violento processo contra os quadrinhos, que originou um código de regulamentação, o Comics Code. A principal preocupação desse código era com as questões de violência e criminalidade apresentada nas hq’s, mas encontramos alguns itens bem interessantes no que se refere à sexualidade. Por exemplo...

  1. Paixões ou interesses românticos jamais devem ser representados de modo que estimulem sentimentos inferiores e vulgares.
  2. As histórias sobre amor romântico devem enfatizar o lar como valor e o caráter sagrado do casamento.
  3. O divórcio não deve ser tratado com humor nem deve ser representado como algo sedutor.

As revistas que desrespeitassem o Comics Code não recebiam o "selinho de qualidade" e eram consideradas impróprias para os jovens leitores.




O livro de Wertham e o Comics Code tiveram um forte impacto nos quadrinhos norte-americanos. Do ponto de vista criativo, foi uma tragédia. Quando esse código surgiu estava rolando o auge da guerra fria, o medo da invasão comunista, o surgimento dos movimentos de contracultura. Daí os esforços para proteger todos os valores tradicionais. No Brasil aconteciam movimentos de censura semelhantes, porém motivados mais por conservadorismo puro e politicalhas.

Na década de 1960, o movimento de contra-cultura, o underground, explode com força no mundo todo. Não se trata apenas de uma contestar os velhos valores tradicionais. As pessoas começam a se dar conta que a moral e os bons costumes de fato serviam como um auxílio para manter uma situação de poder e controle entre grupos sociais. E lá vem os hippies, as feministas, a maconha e as drogas, sexo livre e o rock. A luta contra o Sistema. A cultura ferve, o mundo se agita, o circo pega fogo.

O sexo passa a ser uma maneira de contestar as tradições e hierarquias pré-estabelecidas. Daí surgem os célebres trabalhos de Robert Crumb, Gilbert Shelton e cia. Eles criaram uma revistinha chamada ZAP Comics. Eles mesmos desenhavam e escreviam, fazendo cópias em gráficas pequenas e vendendo de mão em mão. Era a essência do fanzine, da publicação underground, fora do controle do sistema. Eles não só não precisavam se submeter ao código, como procuravam desobedecer escancaradamente cada item do Comics Code. E se divertiam muito com isso.

Arte de Robert Crumb dando uma idéia do espírito da época

No começo da década de 1960 surge a pílula anticoncepcional. A liberação sexual explode. A emancipação da mulher dos anos 60 encontra reflexo no surgimento de diversas personagens femininas como Paulette, Modesty Blaise e Valentina. A primeira e provavelmente mais popular dessas personagens foi Barbarella, criada em 1962. A aventureira espacial usava sua sensualidade como vantagem sobre seus oponentes. Mas também adorava dar umazinha só de farra.

Barbarella barbarizando. (Sem discriminar ninguém...)

Na maioria, essas personagens foram criações européias e refletem todo um espírito da época. No começo, a questão não era apenas transar por transar. O sexo também era visto como uma atitude de rebeldia contra a repressão estabelecida. Rapidamente, porém, as histórias em quadrinhos deixaram de lado os ideais libertários e mergulharam nas fantasias pelo puro prazer.

E acontece uma pequena reviravolta. A liberação sexual acaba sendo absorvida pelo “sistema”. Ao longo das décadas seguintes, começa a se delinear um tipo de cultura onde o sexo não é somente um prazer e uma opção, mas passa a ser também uma mercadoria. De certa forma, as velhas estruturas de controle se mantiveram, trocando quando conveniente as tradições morais por uma filosofia hedonista caracterizada pelo consumo desenfreado e satisfação imediata dos prazeres. Afinal, como dizem, “doma-se um povo como se domam os leões: com masturbação”. Em outras palavras, não estamos melhor do que no começo do século XX. A aparente liberdade que temos apenas encoberta uma forma mais sutil de controle. O prazer passa a ser um produto comercializável. O erotismo vira recurso publicitário.

É óbvio que toda essa liberdade sexual de hoje possui muitos “poréns”, principalmente quando se refere aos quadrinhos. Além do caso do “Pipi do Homem-Aranha” lá do começo do texto, há uma outra historinha recente, embora não tão polêmica. Gotham Central é uma série de quadrinhos baseada no universo do Batman. Conta o dia a dia dos policiais de Gotham City e apresenta personagens sem poderes. Pessoas normais e seu cotidiano na delegacia de uma megalópole violenta. Muito parecido com Nova York Contra o Crime ou outra série de tv similar, só que às vezes aparece um super-vilão ou o próprio Batman. Uma das histórias dessa série ganhou uma série de prêmios em 2004. E gerou polêmica também. Nela, uma das policiais do departamento é chantageada e atormentada por um inimigo desconhecido. Aos poucos, a vida da mulher vai desabando. Um dos duros golpes é ter sua sexualidade revelada: ela era homossexual. A partir daí, ela começa a lidar com o preconceito dos colegas e o repúdio da própria família. A história é muito bem escrita, desenhada e, na minha opinião, é super-comportada. Isso não impediu seus autores de, mesmo com os prêmios, serem severamente criticados. O autor, Greg Rucka, declarou em uma entrevista:


“As pessoas ficaram bravas com essa história. Elas acusaram a mim e ao Michael Lark (desenhista) de uma série de coisas, todas elas sem base nos fatos, e quase todas revelando bem mais dos acusadores do que dos acusados.

Quadrinhos são arte, e eles são literatura, e, sim, eles são entretenimento. Nenhuma dessas coisas deve excluir as outras. Para qualquer história ter sucesso, deve refletir as verdades do nosso próprio mundo, as coisas que todos nós dividimos – amor e perda, dor e medo e, até as pequenas coisas, como a frustração de perder as chaves do carro, a alegria de achar dinheiro no bolso de um casaco. Assim como no nosso próprio mundo, os quadrinhos não podem ser apenas histórias de homens brancos, cristãos e heterossexuais.”





É...

Chega por hoje.

Falou, people.


(Para saber mais:
Psicologia e História em Quadrinhos de Francisco B. Assumpção Jr. Editora Casa do Psicólogo.
A Guerra dos Gibis de Gonçalo Junior. Editora Companhia das Letras.
Zap Comix de Robert Crumb e um monte de caras. Editora Conrad.)

domingo, abril 15, 2007

Ideologias


“Obrigado por fumar” é a história de um lobista que procura defender os interesses das indústrias do cigarro nos Estados Unidos. O filme me conquistou por dois aspectos: primeiro apresenta um protagonista que é um “outsider”, que procura defender aquilo que é indefensável. Um subversivo. Segundo, porque o filme aborda a questão do discurso, do pseudodiálogo que leva à manipulação. Como dizem no filme, todos queremos a verdade, mas chegamos a ela através de filtros.

O lobista Nick Nailor (interpretado por Aaron Eckhart) é odiado por milhares ao defender o direito de uma pessoa fumar (ou defender o direito da indústria vender seus cigarros, depende do ponto de vista). Ele se reúne à noite com dois amigos, lobistas da indústria de armas e de bebidas alcoólicas. Juntos eles formam o clube autodenominado MDM (Mercadores da Morte) e trocam idéias sobre as dificuldades de seu trabalho. Um lobista, pelo que o filme apresenta, é basicamente um enrolador, um sujeito que argumenta e procura defender uma interpretação de realidade, um daqueles caras que usa com freqüência a frase “veja bem...” Muito divertido e com ótimos diálogos, o filme dava a impressão de ser um esperto discurso subversivo sobre manipulação e liberdade de escolha.

Eu curti a idéia de alguém defender o cigarro. Apesar de ser produto nocivo e tal, eu gostei da idéia de que um filme levasse em consideração que o ser humano tem responsabilidade sobre suas escolhas e pode sim escolher fumar. Esse foi o olhar preliminar que me agradou sobre o filme. Era um filme sobre escolhas, sobre o bom-senso, sobre poder pensar e não aceitar mastigadinho o que te dizem. Mas era um filme de Hollywood. E embora venha vestidinho de “politicamente correto”, ainda é um filme hipócrita.

Pra começar, não se vê em nenhum momento alguém fumando no filme. Nada. Nem uma fumacinha. Nick Nailor, o lobista, é um fumante inveterado, mas sabemos disso porque as pessoas falam no filme e em uma cena ele percebe que sua carteira de cigarros está vazia. Mas ele não aparece fumando nenhuma vez. Considerando tudo, isso é no mínimo estranho.

Segundo, temos a velha estrutura que os americanos adoram: o bem contra o mal. Nailor é nosso herói e o senador que quer estabelecer medidas duras contra o comércio de cigarro é o vilão. Nos extras do DVD, o diretor Jason Reitman explica que foi difícil construir antipatia por um senador que defende nosso direito à saúde. É o mundo na ótica ianque: existem pessoas más e nós somos os bons. TEM que ser assim. TEM que ter um adversário, pra estimular uma competição. Senão que graça teria? E você está assistindo ao filme e tem alguém te pegando pela mão e dizendo com qual personagem você deve se identificar e qual você deve condenar. Sempre foi desse jeito, mas em um filme que fala sobre manipulação, essa característica parece se ressaltar.

E por falar em estrutura, temos a obrigatória apologia à família, presente em qualquer filme americano. Nailor é divorciado, mas é um pai presente na vida do filho, que o ajuda na tarefa de casa, diverte-se com ele no parque e conversa sobre os assuntos mais relevantes sem tratar o garoto como um imbecil. Em um dos momentos mais cruciais do filme, é o filho que inspira o pai a dar a volta por cima (aliás, o guri faz uma das famosas cenas de discurso. Já viu como os gringos gostam de discurso?) Enfim, a instituição sagrada da família está bem representada nessa relação pai e filho. Uma relação idealizada ao extremo, diga-se de passagem. Ah, a ex-esposa é tratada como elemento cenográfico.

Sim, é só um filme e ainda assim eu gosto dele, mas não dá pra parar de pensar em como esses filmes, essa novelas e ficções ajudam a construir nossas visões/ilusões de realidade. Que somos livres, que a felicidade está logo ali, que vamos encontrar uma pessoa perfeitinha e ter uma família estilo propaganda de margarina. Que a única fonte de felicidade é o amor romântico, que se trabalharmos muito, seremos vencedores. Que se tivermos um bom caráter, seremos recompensados no final. Que o mundo está dividido em bons e maus, em vencedores e perdedores, em nós e os outros.

Um pouco de ilusão é necessária, mas às vezes tenho a impressão de que estão nos chamando de idiotas...


“Ideologia: um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação”.
Marilena Chauí.

domingo, abril 08, 2007

Fly!


Não sei por que eu ainda insisto.
Ah, o contato com a natureza, o exercício, a satisfação de poder tomar Chocomilk dentro de uma nuvem e tal. Vejo as fotos, as paisagens maravilhosas, escuto meus amigos falando, empolgados, felizes e daí eles me convidam: "Vamos fazer uma trilhazinha? É uma bem fácil, um morrinho bem tranqüilo..." e lá vou eu.
Lá, quando estou caminhando no meio do mato, achando lugar pra apoiar o pé entre raízes e pedras, vendo toda aquela profusão de árvores ao meu redor, eu penso comigo mesmo: "não sei por que eu ainda insisto". Trilha fácil pra mim é a do Parque Barigüi.
Não é que eu não goste da caminhada em si. Meu problema é que eu sou um preguiçoso de nascença. Meu negócio é assistir filme e comer lazanha. Só não engordo por causa da minha ansiedade...
E daí, lá estou eu, no meio de uma subida lazarenta de difícil, suando e ofegando, pernas bambas, numa situação que não dá pra dizer simplesmente "não brinco mais" e ir embora. Vai ter que ir até o fim, rapá! E vamos nós, passo a passo, devagarinho devagarinho pra chegar lá em cima... Afinal, diz o bom montanhista: "Só o cume interessa!".
E acabamos chegando. É engraçado ficar subindo, subindo, subiiiiindo e daí "PÁRA!" que não tem mais pra onde subir. É alucinante perceber que se está muito mais perto do céu do que ontem e que se chegou ali com as próprias pernas. Olhar pra esquerda e ver Curitiba pequeninha lá longe e pra direita a baía de Paranaguá, com os barquinhos. Meu Deus, o mundo é uma grande maquete!
E o silêncio...
Quero aprender a voar! Nuvens encobrem a paisagem e é dentro de uma nuvem que eu bebo um chocomilk. Parece mais gostoso do que seria lá embaixo...
Ah, eu quero aprender a voar...

quinta-feira, abril 05, 2007

ESPARTA, BOAS MANEIRAS, QUADRINHOS, REINVENÇÃO DE SI MESMO E OUTRAS BESTEIRAS RELEVANTES...


Tanta coisa, tanta coisa acontecendo, gente...

Tem dias que eu levanto e as palavras simplesmente vêm, as idéias vêm, dá vontade de falar de tudo, de olhar e descrever tudo. Falar, falar, falar por falar, porque já desisti de esperar por uma resposta. Estou começando a acreditar que as pessoas realmente não vêem as coisas que eu vejo, mas se eu manter isso em segredo, minha posição como membro participativo e equilibrado de nossa maravilhosa sociedade burguesa-cristã estará assegurada.

Mas... mas... mas será?

E sobre boas maneiras? Vamos falar sobre boas maneiras? Educação. Bom convívio social. Sorria, agradeça, peça licença e, principalmente, NÃO incomode! Cinema. Você vai ao cinema. Daí tem aqueles chatos. Sabe os chatos? O pessoal que sussurra no celular: “Agora não posso falar, tô no cinema!”. A moçoila que TEM que levantar pra ir no banheiro no meio (NO MEIO) da melhor parte do filme, passar na TUA frente e ainda pisar no teu pé. O pai mala que leva a filha de quatro anos e fica lendo as legendas pra ela. Essas pessoas insuportáveis! Mas o pior mesmo são os engraçadinhos, os malditos engraçadinhos. Aqueles caras que comentam o filme, aqueles caras que riem do filme, aqueles malditos que pensam que ir ao cinema é como ir a um jogo de futebol e fazem questão de torcer pelos personagens como se aquela palhaçada toda fosse real. Em resumo, os chatos dos cinemas, aquelas figuras sem consideração nenhuma, sem educação nenhuma, que fazem questão de nos lembrar que existem! E que (pior!) estão ali, sentados do nosso lado, estorvando nosso sossego, nossa solidão na multidão! Eu não pago 14 reais pra sentar numa sala de ilusão e ser brutalmente incomodado!Lembrado que existe uma pessoa de verdade do meu lado? Isso é absurdo! Sou inteligente, tímido, educado, recatado, comportado, civilizado! Sou melhor do que os outros! Sou curitibano, porra!

Esses MALDITOS CHATOS DE CINEMA!!! MORTE A ELES!!!!

Eu sou um deles.

Eu sou um dos caras que fala “puta que pariu” quando o chicote arranca um pedaço das costas de Jesus Cristo. Eu sou um dos caras que ri, ri MUITO, do Jack Sparrow nos Piratas do Caribe. Eu falei “AEEEEEE!!” quando o King Kong matou aquele dinossauro e cheguei a bater no peito junto com o gorilão. Ainda hoje eu vibro quando lembro da seqüência final do primeiro filme do Homem-Aranha. Eu vibro. Você consegue entender isso?

Eu!

Vibro!

No filme do Demolidor, tinha um biruta no fundo da sala que ficava gritando “VAI, DEMOLIDOR!” e ele conseguiu tornar o filme quase legal. Esses filmes pra mim são eventos, são mais como jogos de futebol, você vai lá, você torce, você entra no filme, você curte. Você vive. São os blockbusters, os enlatadões norte-americanos, são as grandes besteiras que você assiste se divertindo. E você raramente está sozinho na sala de cinema. Cinema é interação social, quer você goste ou não. Claro que existem limites, que existem padrões de bom comportamento e tal, mas, se o meu irmão tem uma crise de riso quando vê o Tom Hanks tentando arrancar um dente usando um patins como formão (no filme Náufrago), que eu posso fazer além de rir com ele? Sim, é uma cena trágica, mas você sabe o quão fácil é o trágico descambar para o cômico? Eu não ri durante a Lista de Schindler (só um pouquinho, mas disfarcei bem).

Então.

300 de Esparta. O filme 300. Fui assistir com um amigo meu, e nessas horas você percebe porque tem amigos e o que isso realmente significa. Amigo é aquele que tá do teu lado no front da batalha! Não tem como você assistir 300 impassivelmente. Impossível. O filme é um grito, um exagero, um espetáculo barroco! Falamos um monte “puta que pariu”, “ah, loooooco!”, “meu Deeeeus, cara!” e “caraaaaaalho!”. Falamos “tomou no cu” pra um personagem (que realmente tomou no cu). Rimos, rimos MUITO durante as batalhas. O olhar alucinado dos Espartanos, a coreografia estupenda, as cores das imagens, a beleza artificial das cenas! O fake, o exagero. Rimos de curtição, rimos como a gente riu naquele 6 a 4 do Atlético em cima do Santos ano passado, uma das melhores partidas de todos os tempos. Rimos de alegria diante do espetáculo, cara. Foi por isso que rimos. Mas o pessoal em volta não entendeu não... “Do que que esses caras tão rindo? Por que não param? Por que não se comportam, ficam quietos e fingem que não existem como todo mundo mais?”

O seu direito termina onde começa o direito do outro. Sinto muito se meus risos incomodaram seu silêncio, mas sua repressão também incomodou minha espontaneidade, então estamos quites.





Ah, os 300. Filme do caralho. Como você já deve saber, é baseado nos quadrinhos do Frank Miller. Segue a mesma linha do filme do Sin City, com cenas que são praticamente transposições exatas de imagens dos quadrinhos para a tela. Mas o filme 300 consegue ser bem melhor do que os quadrinhos. Há um background maior para os personagens, eles estão mais convincentes, menos rasos. É um filme maniqueísta e bem ingênuo, mas ainda assim está 300 vezes melhor que o roteiro dos quadrinhos. A HQ dos 300 é linda e irritante. Frank Miller devia ter dado uma de Mel Gibson e deixado o texto em grego antigo pra ninguém entender, porque o maior problema de 300 é aquele textinho vagabundo. Preconceituoso, agressivo, arrogante, o texto da HQ deixa claro que Esparta é uma alegoria dos Estados Unidos, “a única nação livre do mundo, a última esperança de razão e justiça para o mundo”. Embora muito dessa pataquada esteja no filme, acaba diluída entre os diálogos e cenas que o diretor Zack Snyder acrescentou.

Frank Miller já foi bem melhor do que é hoje. Sin City e 300, na minha opinião, estão bem longe, beeeeem longe de serem seus melhores trabalhos. Quando se fala de Frank Miller é inevitável falar do Cavaleiro das Trevas (The Dark Night Returns).





Vejamos, a edição encadernada que eu tenho é de 1987, então eu tinha uns 13 anos quando li o Cavaleiro das Trevas. Se eu fosse falar do meu livro favorito, da obra que marcou a minha adolescência e provavelmente ajudou a moldar alguma coisa em mim, essa obra seria o Cavaleiro. Uma história em quadrinhos do Batman. O pessoal fala muito do Cavaleiro, diz que, ao lado de Watchmen, revolucionou a indústria de quadrinhos, a maneira de pensar os quadrinhos de super-herói. O Cavaleiro chegou a ser capa da revista Rolling Stone nos EUA, na época em que foi lançado.

No começo do Cavaleiro das Trevas, a televisão, um dos personagens principais, nos apresenta uma cidade de Gotham consumida por uma onda de calor e violência sem precedentes. Nesse cenário, comemora-se os 10 anos de aniversário da última vez em que Batman foi avistado. A partir daí, Miller apresenta Bruce Wayne, um velho amargurado, contrariado, que abriu mão de ser aquilo que dava sentido à sua própria existência. Porque uma pessoa muito próxima morreu por sua culpa, Wayne abandona o manto do morcego. Por 10 anos. 10 anos é o tempo que ele demora pra perceber que Batman era o verdadeiro rosto sob a máscara de Bruce Wayne.

A maneira como Miller conta essa história é empolgante, envolve diversas narrativas, apresenta vários pontos de vista, faz referências políticas, tudo em um ritmo espetacular e intenso. O Batman de Frank Miller, que se tornaria um modelo para o personagem pelas décadas seguintes, é um homem extraordinário, um personagem riquíssimo e inspirador, algo como um animal selvagem, cheio de vida, capaz de superar qualquer desafio. “O mundo só faz sentido quando você o obriga a fazer”, ele diz. A cada minuto da história o personagem é lembrado da sua idade, sente a falta da juventude perdida, tropeça, comete erros, cai... e levanta-se e ultrapassa os próprios limites.

Reli essa história agora, vinte anos depois. Ela é bem marcada, datada dos anos 80, mas ainda empolga, ainda tem o vigor, a energia.





O tema do sujeito que supera a si mesmo se repete em outra história sensacional, A Queda de Murdock (Born Again), uma história do Demolidor (Daredevil) que o Miller escreveu logo depois do Cavaleiro. Nessa história, o Rei, o maior chefão mafioso, descobre a identidade secreta do Demolidor, super-herói que o estorvava há tempos. Mas ao invés de preparar um ataque direto contra Matt Murdock, o Rei usa toda sua influência e leva o herói a falência completa. Sem dinheiro e amigos, enlouquecido e paranóico, Murdock mergulha num inferno pessoal de miséria e solidão. E se reinventa enquanto ser humano. Cara, simplesmente sensacional.

Demolidor e Batman eram os sujeitos de vontade inquebrável, que enfrentavam qualquer parada, que empolgavam e inspiravam o leitor. Mas de uns anos pra cá, o tal Frank Miller parece que se perdeu na sua própria receita... em Sin City e nos 300 encontramos caras durões. E só. O filme 300 ainda passa um pouco dessa inspiração, sabe. Não dessa baboseira anabolisada de sair batendo em todo mundo por aí, mas de você ser livre pra ser você mesmo. De você enfrentar suas próprias batalhas e vencê-las. Como rir e se divertir dentro de um cinema lotado de caretas, por exemplo. No fim, aprender a se divertir e não levar a vida tão a sério pode realmente ser uma grande batalha.


(ah, sim, o Rodrigo Santoro está impagável. Repare nos cílios daquele olharzinho meigo de desenho do Bob Esponja. “Não é do meu chicote que eles tem medo”. HÁ! Pelo amor de Deus...)

domingo, abril 01, 2007

...

Terminamos.

Sentados na cama, um do lado do outro, ela me sorriu e disse: “você é meio louco, né?”

Hehehe.

É.

Pode-se dizer que sim.