quinta-feira, maio 31, 2007

Um vento frio na alma

Tristeza é um tipo de cansaço.

Cansaço de que não se sabe como descansar, porque a impressão é que se deitar, não se levanta nunca mais. A tristeza é fria, é racional, é solitária. É ausência silenciosa. É inevitável. Se não souber lidar com ela, ela cresce, vira monstro, uma ilusão que te devora de dentro pra fora. Morte em vida.

A felicidade está por aí. Eu a vi num outdoor outro dia. A felicidade está na fila do banco, na mesa do café da manhã, no sorriso da criança. A felicidade está na respiração sem aparelhos, no ato de ir ao banheiro sem precisar de ajuda. A felicidade está aí o tempo todo, mas a gente quase nunca percebe. Ainda assim, a tristeza é inevitável. Como a morte e os impostos.

A coisa mais fácil dessa vida é ser pessimista. Não precisa ser muito inteligente pra ser pessimista. É só uma questão de reparar nas coisas. Outro dia acharam o corpo de uma menina sem a cabeça e as mãos, nua, dentro de um latão de lixo. É só reparar nas coisas. Assistir jornais, prestar atenção no que as pessoas falam e acreditam, andar pelas ruas. Ser pessimista é fácil demais. É dizer o óbvio e se achar genial por isso.

Pessimistas me enojam.

As pessoas felizes também me enojam.

Pessimismo é para os covardes.

Felicidade é para os idiotas.

Acho que ando meio cansado.


Texto: meu.
Estado: crítico.


sexta-feira, maio 18, 2007

More than meets the eye




Eles fazem o barulhinho! Eles fazem o barulhinho! Meu Deeeeeeuuuuuss!!!!!!!!!


Não. Espere. Isso começa antes. Bem antes.

Lá por 1986 o desenho animado dos Transformers foi ao ar, domingo de manhã, na telinha da Globo. Transformers apresentava a estrutura básica da série padrão de aventuras da época: um elenco fixo de caras bons que enfrentavam os caras maus.


Nalgum ponto longínquo do universo, o planeta Cybertron estava morrendo. Todas reservas de energia haviam sido consumidas pela guerra milenar de uma civilização inteira de máquinas conscientes. Os Autobots se opunham aos Decepticons, beligerantes e expansionistas, que pretendiam conquistar e explorar novos mundos. Uma nave de Autobots, a Arca, partiu em missão de busca de novas fontes de energia. A nave foi interceptada pelos Decepticons, que a invadiram. Desgovernada, a Arca caiu num impacto violentíssimo sobre um pequeno planeta (adivinhe qual...).

Por quatro milhões de anos, a nave e seus ocupantes permaneceram numa espécie de animação suspensa. Até que atividades de vida “mecânica” ao redor da nave foram detectadas, ela se reativou e começou a consertar os tripulantes, que haviam sofrido severos danos com o impacto. Investigando as “formas de vida” nativas, a nave reconstruiu os robôs com a capacidade de rearranjar os componentes de seus corpos, possuindo pelo menos duas formas diferentes: uma original e a outra similar aos “habitantes” do planeta. Isso lhes permitiria se adaptar e espreitar o planeta discretamente. As “formas de vida” reconhecidas pela nave durante seu rastreio pelo mundo eram aviões, carros, tanques, helicópteros, armas, aparelhos eletrododomésticos...

Infelizmente, a nave não soube distinguir entre Autobots e Decepticons, por isso reparou a todos. E a partir desse ponto, começa a série animada da TV. Os malvados Decepticons queriam conquistar nosso planeta, roubar nossas fontes de energia e voltar para as estrelas. Os Autobots também queriam voltar para casa, mas era completamente contra os seus princípios destruir ou subjugar outras formas de vida para atingir esse objetivo. E a questão de respeitar ou destruir outras civilizações era a razão da guerra de Autobots e Decepticons.

E daí, no desenho animado, os Autobots eram os bonzinhos que viravam carros e os Decepticons os malvados que viravam aviões. O bem contra o mal. Como Thundercats, He-man, Comandos em Ação, Silver Hawks, Caverna do Dragão, Galaxy Rangers e uma série de similares. Era um mundo simples e empolgante. Eu tinha 12 anos e fui fisgado. Depois surgiram os Dinobots (meus favoritos), os Insecticons, os Constructicons (seis que se combinavam num só robô gigante, o Devastador) e muitos outros. Soundwave era um Decepticon que se transformava em um gravador de fitas cassete. De dentro dele saiam fitas cassete que se transformavam em robozinhos humanóides, uma pantera negra e falcões (“Laserbeak, informe.”). Personagens que proliferavam feito praga com o objetivo óbvio de vender brinquedinhos. Mas e daí? Eu adorava.

Eu fui um fã de Transformers como nunca fui fã de nada na vida (a não ser, talvez, do Sandman). Cheguei a construir uns na marcenaria do meu pai. Quase completei o álbum de figurinhas (só faltou uma e tentei meeeesmo encontrá-la). Fiz uma história em quadrinhos de 80 páginas com eles (que ficou inacabada). Curti tanto os robôs que foi por causa deles que decidi fazer o curso técnico de eletrônica. Queria um dia construir robôs de verdade, criar as “inteligências artificiais”. Levei três anos de curso pra descobrir que eu não gostava das máquinas em si, mas sim das idéias que elas me davam. Ainda hoje consigo sentir aquela estranha empolgação sem sentido que só quem é fã de alguma coisa consegue entender.

Meu álbum quase completo


À primeira vista, poderia dizer que os Transformers fascinavam porque eram a mistura de tudo que enchia os olhos de um pré-adolescente: aventura, carros, combates mortais. Uau. Mas tinham outras coisas que me faziam pirar muito com eles.

Uma máquina poderia estar viva? Os Transformers eram robôs, mas estavam vivos, tinham personalidade demasiadamente humana, gritavam, se enfureciam, faziam piadas. Eu imaginava: se pudesse se construir um cérebro artificial, um computador que simulasse da melhor maneira possível o funcionamento de uma mente humana, essa máquina estaria viva? Um ser que tem autoconsciência, um ser que tem lembranças... Depois li um monte de textos em que se dizia que isso era impossível, que a máquina não conseguiria desenvolver instintos, autoconsciência, afetos e tal. Mas e se projetássemos algo que simulasse isso? Um sistema complexo, randômico que simulasse o funcionamento de uma mente. Imagine. Essa idéia da máquina viva é assombrosa, porque mexe com um dos nossos temas mais profundos, a tal alma humana. A ficção adora isso. Desde Frankenstein de Mary Shelley (escrito em 1817!), passando pela obra de Isac Asimov e seus robôs até os filmes (Blade Runner, 2001 e cia), todo mundo imaginou a máquina que poderia amar, odiar, estar viva. Sentir ou simular emoções, qual a diferença? E nas noites eu ficava imaginando como seria a mente da máquina... Do Androids Dream of Electric Sheep?

Outra coisa que eu achava bacana com os transformers era a sua dupla natureza. Eles eram carros que viravam robôs ou robôs que viravam carros? Era como se as máquinas, os objetos procurassem se tornar humanos, torcendo e esticando suas formas. Ou como se os humanos quisessem se tornar um só com suas máquinas...

A dualidade estava também na guerra. Não me era possível imaginar os Autobots sem os Decepticons ou vice-versa. Nunca ficou claro quem criou o primeiro transformer ou quando a guerra entre eles começou. A impressão que a série deixa é que os robôs estão em guerra desde que surgiram. Então eu ficava imaginando o que aconteceria se um dos lados ganhasse a guerra. Se você constrói toda a sua existência voltada a um objetivo (no caso destruir os seus inimigos), o que você faz quando consegue? O que acontece quando se cumpre o propósito de uma existência?

Então...

Decidiram que iam fazer um filme dos Transformers. Depois do desenho animado de 1986 apareceram diversos derivados (Beast Wars, Armada, entre outros). Tivemos animes, gibis, animação 3-D. E agora decidiram fazer o filme, com atores reais.

No começo eu acompanhava as notícias da produção com um interesse descompromissado. O filme traz alguns personagens da primeira série animada. A primeira visão do Megatron (o líder dos Decepticons) me fez pensar que o filme não ia me empolgar muito. Ele é totalmente diferente do desenho. O Bumblebee (um Autobot que sempre achei um pé no saco) no filme se transforma num ford Camaro e não no fusquinha amarelo. Até o Líder Optimus, (líder dos Autobots), se transforma num modelo de caminhão diferente. Isso sem contar que existe a grande possibilidade de uma pataquada ufanista norte-americana estilo Indendence Day.

Mas depois começaram a aparecer umas coisinhas interessantes aqui e ali e...


Pois é, hoje de manhã assisti o último trailer do filme Transformers.

Eu não vou conseguir reproduzir aqui o grau de empolgação que eu senti. O ponto máximo pra mim, foi ouvir o som, o barulhinho clássico da transformação do desenho animado quando o Optimus Prime se transforma. Geeeeente... vocês não tem noção!

E foi como se eu tivesse 12 anos de novo. Não porque o filme é fiel (ele não é) e os personagens são caracterizados exatamente como eram (eles não são), mas porque eu senti toda aquela empolgação de novo. Robôs gigantes, pesando toneladas, se digladiando no meio de uma grande cidade. UAAAAUUUU!!! (Sim, a felicidade está nas coisas simples!) O aço, as transformações, as cenas de confronto. Esqueça toda aquela minha conversa existencialista. Os Transformers do filme provavelmente vão trazer toda a simplicidade dos desenhos animados de volta: robôs bons contra robôs maus. Não guardo a menor esperança de uma história profunda, nem acho que isso seria adequado. Mas o lado positivo é que, pelo que pude ver até agora, dessa safra de filmes de seres fantásticos e proezas extraordinárias, Transformers é o primeiro que vai levar as potencialidades de seus personagens título às últimas conseqüências e isso significa destruição desmedida e ação desenfreada. Eeeeeba!

Pode ser que eu me arrependa de toda essa expectativa quando assistir o filme. Pode ser que eu me decepcione como aconteceu com o Homem-Aranha 3. Pode ser...





...mas eu duvido...

Heehehe!

domingo, maio 13, 2007

Das coisas que tive, as que mais me fazem falta...


Por alguma razão estranha nos afeiçoamos às coisas. Uma caixinha de música, um cobertor, um carro. É um afeto. Como se essas coisas, esses pedaços de matéria guardassem um valor secreto. Quase como se fossem vivos. Um brinquedo velho, uma correntinha, uma garrafa vazia. O que separa essas coisas do lixo é a nossa imaginação.

Na tv passa Toy Story e os brinquedos conversam e riem e são amigos e são fiéis. Os brinquedos estão vivos e amam seus donos. Os brinquedos estão vivos e aproveitam o momento, antes do esquecimento da vida adulta, do pó e da escuridão do fundo de uma caixa de papelão. Mas o filme termina antes disso com uma alegre cançãozinha.

Só nós conseguimos enxergar nas nossas velhas coisinhas os fantasmas daqueles famosos momentos especiais. E assim alguns acumulam móveis e tranqueiras procurando evitar que os momentos se percam, como se tentassem segurar e reter a própria vida. Outros jogam tudo fora periodicamente. Renovam o guarda-roupa inteiro. Trocam de carro. Porque alguns objetos podem ser assombrados.Uma blusa é uma blusa, mas aquela blusa... ah, você quase sento o cheiro, a pele... a saudade... Você entende o que eu estou dizendo?

Claro que é tudo nossa imaginação. O que assombra e maravilha uns, é entulho para outros. O mundo em si é muito seco, muito sem graça. A gente precisa fantasiar um pouco. A gente precisa acreditar. Então nos tornamos sombras imóveis na escuridão das salas e assistimos os beijos esterilizados dos casais bidimensionais que superam todas as dificuldades para viver um grande amor. “Juntos e felizes para sempre” e sobem os créditos.

E acreditamos que amamos e que somos amados.

Mas a vida é dura, e se você não tomar cuidado os convites acabam indo pra gráfica.

E você vira uma coisa deitada na cama ao lado de outra coisa, assistindo na escuridão o beijo dos fantasmas bidimensionais.

Mas parando pra pensar bem, qual é a opção?

Você está sozinho em casa, diante do vídeo pornô.

Você está sozinho no quartinho mal-iluminado, em cima da puta gostosa.

Você está sozinho na rua, na lanchonete, no meio de todas as suas amadas coisinhas.

As amadas coisinhas nos fitando das vitrines, gavetas, prateleiras, porta-retratos. No fim tudo vira uma coisinha que você queria tanto e agora não quer largar porque tem medo de deixar a vida escapar.

Tudo se vende, tudo se compra, tudo tem um preço e uma medida.


-----x-----


“Das coisas que tive, as que mais me fazem falta, das que mais tenho saudades, são aquelas que eu não podia tocar”.

Existe um livro chamado “O Cheiro do Ralo”. Ele conta a história de um sujeito que compra e vende objetos usados. Esse sujeito sem nome tem problemas, desejos e tesouros. Seu problema é o cheiro insuportável que vem do ralo de seu banheiro. Seu desejo é uma bunda, uma imensa bunda de uma atendente de lanchonete. Seu tesouro é um olho de vidro.

Um livro pesado e denso sobre aquele tipo de pessoa que se arrasta pela vida com a profunda convicção de que falta alguma coisa fundamental, mas que não consegue descobrir o que é antes de ser tarde demais.

O livro virou filme. “O Cheiro do Ralo” com Selton Melo no papel principal. Aqui o comerciante do livro ganha nome: Lourenço. No filme vemos uma vida sem propósito, uma solidão pesada, uma existência miserável. Mas o personagem não se lamenta, não se arrepende de nada. Assume suas decisões e escolhas da melhor maneira possível. E rimos disso. Isso é o mais incrível desse filme. Tudo é muito triste, mas por alguma razão, nós rimos.

Não há uma “grande virada”, não há uma grande paixão, não há um vilão, não há um desafio. Há conversas piradas sobre coisas banais, sobre lixo e encanamento, sobre próteses, sobre a “história de cada objeto”. Há uma trilha sonora muito bacana e diversas pessoas que entram e saem daquele prédio triste. Há uma ausência, uma lacuna que não pode ser preenchida com cimento, areia ou mesmo aquela bunda maravilhosa. E há a bunda. A bunda...

No fim, “O Cheiro do Ralo” não faz sentido.

Igualzinho à sua vida.


“Essa que é a tua fantasia, seu vagabundo?”

“Não. Essa é a minha realidade.”

quinta-feira, maio 10, 2007

Constantine


Meu nome é Constantine.

John Constatine.

Eu caminho entre mundos.

Tudo aquilo que poderia ter sido.

Tudo aquilo que você deveria ter dito.

Tudo aquilo que você deveria ter feito.

Tudo aquilo.

Eu estou lá.

Nas possibilidades, nos sonhos, nas expectativas e esperanças.

Meu nome é Constantine.

Eu entreguei meus amigos.

Eu abri mão de tudo que possuía e tudo que poderia me possuir.

Eu rio.

Eu cago pro Destino.

Eu sou livre de uma maneira que você jamais poderia entender.

Eu sou livre de uma maneira que você jamais poderia suportar.

Eu sou livre.

Livre demais para estar num lugar só.

Livre demais para estar num só momento.

Eu caminho entre mundos.

Sangue de demônio corre em minhas veias.

Um milhão de vozes ao meu redor.

Um milhão de vidas.

Eu não pertenço a ninguém.

Eu não pertenço a nenhum momento.

Meu nome é Constantine.

E se posso lhe dizer alguma coisa

É que a magia existe

Somente se você quiser que ela exista

Somente se você deixar que ela exista

Escute o que estou lhe dizendo

Ainda há tempo...

domingo, maio 06, 2007

Ah...


Tédio, tédio, tédio...

Daí me chamaram pra ver Homem -Aranha 3. Tarde chuvosa, lá fomos nós. Ia ver com os camaradas, era um filme que fazia tempos que eu estava esperando. Mas o engraçado é que eu não estava empolgado.

Fiquei sentado no cinema, parado diante da grande tela, pessoalzinho chegando, as luzes ainda acesas. Eu ia assistir Homem-Aranha 3, e não estava empolgado.

A questão é que o Homem-Aranha era um dos meus personagens favoritos na infância. Apesar de eu não acompanhar as histórias dele (na verdade, acho a maioria bem sofrível...), eu curto o herói pra caramba. Eu tinha lá meus cinco anos e assistia aquele desenho animado, aquele primeiro, meio sombrio, com os prédios se repetiam no cenário à medida que o Aranha avançava. Eu adorava. Curtia a musiquinha "Spiderman, Spiderman..." (saca, aquela que os Ramones regravaram um tempo atrás...).

Quando o primeiro Spiderman estreou eu curti muito. Muito mesmo. Vibrei na platéia. Há testemunhas. Já o segundo filme me surpreendeu. Porque, enquanto o primeiro é um filme legal de super-herói, o segundo é um filme BOM de verdade. Impressionante! Spiderman 2 reunia todos os elementos dos quadrinhos clássicos, todos os bons elementos, e jogava ainda uma dramaticidade inesperada. Sem exageros, sem extremos. Simples e direto. Fabuloso.

(Repare que, eu realmente gostei de Homem-Aranha 2).

Daí, quando as luzes apagaram e começou a abertura do filme, a teia, a música do Danny Elfman... daí o velho espírito me conquistou. Um estado de empolgação que é difícil de descrever. Cara, era a conclusão da trilogia! EEEEEBA!

A empolgação durou até metade do filme. Daí aconteceu alguma coisa...

É tudo uma questão de ritmo, eu acho. As coisas aconteceram com pressa, como uma pessoa que tem um monte de coisas pra dizer e muito pouco tempo. E o exagero? Precisa de toda aquela terapia de grupo? O Spiderman 2 era muito mais simples e talvez por isso muito mais bacana... Triste. Não que o 3 seja ruim, ele só é afobado e desajeitado. Faz a gente perceber que está assistindo um filme. Daí quando a gente se lembra fica aquele gostinho de "puxa, podia ter sido melhor..." Enfim...

Ritmo. Ficamos falando sobre ritmo. Sobre construção de personagens. Sobre motivação e até que ponto pode-se usar a "coincidência" numa ficção antes que comece a parecer muito forçado. A gente saiu falando de ritmo e narrativa de Homem-Aranha 3.

Cara, eu acho que estou ficando velho e chato...