segunda-feira, julho 30, 2007

Design Automotivo


Então...

Hoje comprei o Barricade. Ele é o decepticon que vira carro de polícia.

O Barricade é um dos robôs da série "Deluxe Class", que são mais bem acabadinhos. Se você reparar nas fotos, vai perceber que o carro é muito muito muito igual ao do filme, com todos aqueles detalhezinhos tipo a inscrição "to punish and slave" na traseira e o símbolo decepticon dentro do escudo da força policial. Uma coisa que eu gosto bastante são os "vidros" transparentes. Dá pra ver o interior do carro. E o mais bacana é que olhando pra ele na forma de carro, não dá pra perceber as partes do robô.







Na embalagem vem um texto indicando o produto para crianças maiores de 5 anos. Bem, eu sou uma criança maior de 5 anos. Levei 10 minutos pra transformar o carro em robô. E depois 20 pra transformar o robô em carro de novo. Isso porque dá um medo danado de quebrar a porcariazinha. A impressão que dá é que você está torcendo um biscoito creamcracker. Nas instruções vem um aviso de que umas peças foram planejadas para se desconectar quando puxadas ou apertadas com força demais... se isso acontecer é só apertar de volta no lugar... Uma boa sacada. Ainda assim, como brinquedo o Barricade é uma bela porcaria. Fico pensando um guri de 9 anos brincando com esse negócio, tentando fazer a transformação sem quebrar o robô. Se eu tivesse 9 anos, me sentiria bastante frustrado.

Mas como eu tenho 30, levei na boa.

O curioso é que quando eu entrei na loja tinha um outro cara olhando os robôs. Pensei que ele tava procurando um presente pro filho, mas quando ele perguntou pra atendente "você tem o Starscream? É aquele que se transforma num F-22..." eu vi que ele era fã. Nenhum pai normal sabe o nome dos transformers e poucas pessoas sabem que ele vira um F-22. No filme. No desenho animado ele virava um F-15. A mesma atendente comentou comigo que metade das pessoas que procuravam os robôs não eram crianças, mas sim adultos por volta da casa dos trinta anos, saudosos dos brinquedos dos anos 80. Mais uma curiosidade: Barricade e os outros decepticons não eram escolhidos pelas crianças que achavam eles do "mal". Sorte minha.

Por fim, uma das coisas que me fascina é o design desse transformer. Ele tem uns encaixes entre as peças que dificultam a transformação, mas por outro lado fazem com que as partes se travem na forma de carro. Isso evita que o carro fique se "desmanchando", como os meus primeiros transformers de uns 20 anos atrás. Já imaginou que legal ser designer de transformers? Ficar imaginando os encaixes, adequando as peças aos modos de produção, resolvendo os problemas de manuseio e tal... Acho que é isso que eu curto nesses brinquedos.

Na verdade, tudo isso é design. Imaginar o público alvo, conceber várias versões do mesmo robô, da mais simples à mais sofisticada, procurando atingir de crianças a nerds de 30 anos, imaginar soluções de encaixe e produção, embalagem, manual de instruções. Super-cool. Abaixo umas imagens do Barricade. Foram tiradas do site Seibertron. E por fim, o folheto de instruções que veio junto com o Barricade.

Legal, né?












Ah. Esqueci de comentar... O Frenzy, aquele robô hacker super-cafeínado do filme, acompanha o Barricade. Ele vem integrado como parte do robô...





Agora sim...
Legal, né?
Hein?
Hein?
Hein?

domingo, julho 29, 2007

By the way...





Laerte é um dos meus quadrinhistas favoritos. É por tiras como essa aí em cima que, às vezes, eu acho o cara simplesmente um gênio.

Apaixonar-se é uma merda. Sempre. Você não está mais sozinho no leme. Tem outra mão guiando seus passos. Não dá mais pra escolher o que levar pra jantar sem pedir uma segunda opinião. É uma merda. É assustador.

É maravilhoso.

Feiffer







A tirinha é de Jules Feiffer. Ele é um novaiorquino que escreve e desenha coisas bem interessantes. Gosto muito de seu trabalho. Suas tirinhas são outra coisa que às vezes me dão o que pensar...

Sobre blogs

Outro dia encontrei essa frase que dava uma definição de blog:

Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.

Uma coisa para se pensar...

quinta-feira, julho 19, 2007

Minha menina

Em sonho.

Os sonhos se fazem de cacos de frases e imagens do mundo desperto que se juntam em novas formas e depois se desfazem para sempre no esquecimento. Ao acordar, não é a luz do amanhecer a primeira coisa que ele percebe. São as últimas notas de uma música que só existiu uma vez em sua cabeça. Só uma vez, só em sua cabeça.


E ela também estava lá. Um fantasma, um fragmento. Ao amanhecer só resta essa certeza, ela estava lá. Essa moça, já tão distante no tempo, que na luz dessa manhã mal é uma impressão de lembrança, um sonho que desvanece, uma quase e doce saudade.



terça-feira, julho 17, 2007

Deus

Deus é desespero.

Uma palavra pronunciada da boca desdentada no cheiro da cachaça no lamento grogue patético perdido chorado em muletas e pernas quebradas roupas imundas e lágrimas e palavras mal ditas no discurso sem amanhã.

Deus é histeria.

Uma palavra martelada num andar nervoso numa marcha histriônica que vai e vem vai e vem vai e vem com raiva berrando martelando a palavra agitando o livro como um punho cerrado contra o céu terno vagabundo olhar alucinado voz esfiapada que irrita que cansa e não diz nada.

Deus é canção.

Uma palavra sorrida embalada lá em cima bem acima do peti pave bem acima do movimento mastodôntico dos ônibus dos paralelepídos dos vômitos das imundícies do ranho do choro das crianças dos olhares perdidos dos olhares cansados bem acima das expectativas.

Deus é silêncio.

Da madrugada.

Do corpo inerte.

domingo, julho 15, 2007

TRANSFORMERS



Sabe, é legal ter paixões. A questão não é pelo que você está apaixonado, mas estar apaixonado.
Sabe como? Por exemplo, curtir enlouquecidamente uma banda ou time de futebol. Estar lá no show do U-2 ou estar na torcida da Grande Final... sabe do que eu estou falando? É o tipo de coisa que não dá pra racionalizar... paixão sabe?

Tem aqueles caras que se apaixonam por uma ficção. Tipo os fãs do Senhor dos Anéis, os fãs do Harry Potter. Imagino como foi pra eles assistir as adaptações para o cinema. O grande barato é a sensação de ver ali, na grande tela, feito realidade, os personagens que antes só existiam no papel e em nossas imaginações. É um grande barato, cara. Então, quando eu era guri, eu era fanático pelos Transformers. Líder Optimus, Megatron e cia. Eu devia ter uns onze, doze anos e aqueles robôs do desenho animado faziam parte da minha realidade, invadiam meu imaginário. Eu sonhava aventuras pra eles. Porque quando se trata de ficção, a paixão é assim: você se apodera dos personagens. Eles são SEUS personagens e de mais ninguém...

Com os anos vieram outras séries de Transformers, variações que não fizeram a minha cabeça. Pra mim, aqueles eram os únicos e verdadeiros Transformers. As novas séries podiam ter todos os seus méritos, mas não chegavam perto da aura dos originais. Pelo menos pra mim.

E daí veio esse tal filme. Eu estava na pilha de assistir. Era como se eu tivesse voltado vinte anos no passado e toda a tietagem estava de volta. Evitava de entrar na internet pra não saber dos tais "spoilers", os comentários de quem já assistiu e que entregavam surpresas do filme. Esperava pelo dia 20 num tipo de contagem regressiva. Ansiedade total...

Sábado tinham marcado um jantar. Uns amigos que eu não via há muito tempo, a velha turminha do Cefet. Eu ia no jantar. Estava tudo certo.

Hehehehe...
...e mais uma vez, o inesperado. Adoro quando isso acontece...

Pouco antes do jantar, um colega me liga e me convida pra ir pra pré-estréia do filme. Hein?!! Como assim? Não era só no dia 20? Não. Pré-estréia. Sábado. 21:30. Ah, e agora? Pensei na turma, pensei no tempo eu não os via, lembrei que eu tinha garantido minha presença... Eu tinha que ir, pôxa! Eu tinha que ir à pré-estréia do filme! Paixão, lembra? Paixão. E liguei pro pessoal e avisei que por motivo de força maior eu não iria ao jantar. Lógico que não expliquei o motivo. Pessoas normais não entendem essas coisas.

Cheguei ao cinema e peguei os ingressos. Tinha uma hora e meia pra estréia e fui com meus camaradas tomar um chopp. Pra minha surpresa, os manos também tinham curtido o desenho animado. Um deles até me lembrou uma frase que o Optimus tinha dito uma vez: Megatron, by the end of this day, one shall stand, one shall fall! "Cara, isso é que era frase legal!" o camarada me dizia. Ah, curtição. Bebida e de repente a gente estava lembrando das músicas da trilha sonora dos Thundercats. Hohohoh! Momento nerd total!

Megatron, by the end of this day, one shall stand, one shall fall!
(Uau! Maneiro!)


E chegou a hora do filme... Cara, que coisa estranha. Que sensação bacana... sei lá... O filme começou e eu curti um monte...

Era muito grande a minha expectativa. Honestamente falando, não fiquei completamente satisfeito com o filme. Acho que fiquei com um gostinho de "quero mais"...

Sim, o filme realmente tem pontos positivos muito bons. Os robôs ficaram ótimos. Eles não guardam muitas semelhanças com os robôs do desenho animado, mas as personalidades humanizadas estão lá. Muito bacana ver os robozões agindo como humanos, falando e se comportando como se estivessem vivos de verdade. Uma das melhores qualidades do filme é o humor. Não esperava tantas piadas e não esperava que elas fossem funcionar tão bem. O filme não se leva a sério, é leve e muito agitado. Parece muito com aqueles filmes dos anos 80, tipo De Volta para o Futuro e Indiana Jones. Lógico que a temática é completamente diferente, mas sabe o espírito agitado, descompromissado? Muito bacana. Acho que essa parte se deve ao Steven Spielberg, que produziu os Transformers. E as cenas de ação com os robozões são simplesmente bestiais! Sensacionais! Coisa de louco. Tem muita referência aos desenhos animados e quadrinhos... cenários, falas, situações... Detalhezinhos bacanas pra ficar comentando com os colegas na mesa do bar...

Mas há alguns poréns. As partes negativas ficam com problemas de edição. Há personagens que desaparecem sem maiores explicações. E os personagens humanos (alguns completamente desnecessários) ocupam muito espaço na trama. Mesmo nas seqüências de batalha, tem participação demais do elenco humano. O Optimus fala aquela frase bacana (Megatron, by the end of this day, one shall stand, one shall fall! ) e nessa hora eles ficam mostrando um guri correndo pelos escombros da cidade... sei lá, deviam dar mais ênfase aos robôs. As cenas de luta parecem curtas demais também (mas aqui eu falo como fã, hehehe). E, é claro, tem o senhor Michael Bay, diretor do filme, que abusa dos clichês cinematográficos, mas nada que comprometa muito o resultado final.

Como todos os outros filmes pipocas desse ano, com Piratas, Bruxos, Ogros e Super-Heróis, o filme dos Robôs Gigantes é pura diversão descompromissada, mas com algo de novo. Há um novo elemento fantástico, que brinca com o mundano, que faz do carro parado na esquina um possível soldado de uma guerra espacial. Super-divertido.

20 anos de espera e posso dizer que estou feliz.
;-)


sexta-feira, julho 13, 2007

Vastas Desilusões & Casamentos Imperfeitos

Antes de mais nada, o casamento é um erro. Ou não. Tem gente que parece feliz. Mas o dele tinha sido um erro. Ou não? Afinal de contas, o que tinha acontecido?

O sol nascia lá do outro lado do oceano. Ele assistia sentado na pedra. Fazia um frio do cacete. Quando tinha sido a última vez que tinha visto o sol nascer na praia? 15, 20 anos atrás? Quando bebia um monte, entrava no carro com seus amigos inconseqüentes e descia pra praia. Jesus, aquilo era como brincar de roleta russa. Como ele tinha sobrevivido à adolescência?

Como ia sobreviver à vida adulta?

15, 20 anos desde aquela época e dia a dia ele via no espelho sua testa avançar ao encontro na nuca. O cabelo ia rareando e ele pensava nas árvores sem folhas daqueles filmes europeus malucos... as árvores sem folhas, como um tipo esquisito de esqueleto, como um tipo de nudez mórbida.

Ele tinha acordado no sofá umas horas atrás, a luz da tv dançando no teto escuro da sala. Eram quatro da manhã. Suas costas doíam, mas não podia se deitar na cama. A porta do quarto estava trancada. Ela estava zangada. Sem saber bem por que, de repente estava no carro descendo pra praia. Fazia muito tempo que ele não fazia algo por impulso, sem pensar. A sensação era boa. Quase como se a vida valesse a pena. Achou a praia, achou a pedra, sentou e esperou. Sentiu falta de uma garrafa, senão de cachaça, pelo menos de café quente. Frio da porra!

O que tinha dado errado? O mundo estava errado? Aos 17 anos ele teve que decidir qual seria sua profissão e optou pela mecânica que o levou para a engenharia. 17 anos! Ninguém tem cabeça pra escolher o que quer fazer da vida aos 17 anos! Ainda mais escolher com quem passar a vida.

E daí ele conheceu a moça. Na verdade, conheceu várias, mas ela era especial. Como assim especial? Sei lá, o cheiro, o sorriso, a voz e tal. Uma paixão maravilhosa que durou anos. Um fascínio que foi se apagando, apagando, apagando... Ele nem se deu conta. No começo ele achava a “personalidade forte” dela mais um encanto, uma força que a fazia diferente das demais. Hoje a “personalidade forte” ganhou definições mais precisas com adjetivos como “cruel”, “tirana”, “mesquinha”, “insensível”, “egoísta”, “irascível”...

E o cheiro? Ele não sente mais aquele cheiro maravilhoso, aquele calorzinho que ela tinha. Simplesmente sumiu. Antes dormiam abraçadinhos, o seio dela em sua mão e hoje... hoje ela tranca a porta do quarto porque ele esqueceu de por o lixo pra fora!

Ah, ele tinha uma amante. Era mais um passatempo: uma transadinha aqui e ali. Tinha a brincadeira de dissimular os encontros, um joguinho de esconde-esconde bem sapeca. Isso que dava toda a graça, porque a trepada em si era bem burocrática. Era mais um alívio de tensão, tipo bater punheta usando uma mulher como acessório. Ainda assim, por um tempo ele se sentiu culpado. Até que um dia, uns meses atrás, numa espiada “sem querer” no celular da querida esposa, descobriu que ela possivelmente também tinha alguém pra brincar. Sentiu um monte de coisas que não sabia definir, mas ficou quieto. Assim como, provavelmente, ela também tinha ficado quieta. E deixa passar.

Deixa passar.

O que era isso de amor afinal? Com certeza, não era o perfume de sonho que desaparecia com os anos. Era esse sacrifício, essa imolação em vida? Por quê? Ele a conhecia bem e não conseguia entender por que ela não o largava. Por que ela não dava o primeiro passo? Ela sempre tinha feito isso. Como ele poderia tomar a iniciativa? Por que ela não o largava?

As nuvens são violeta, cor-de-rosa, rubi, a noite se apaga em luz, o sol joga um milhão de moedas de ouro nas ondas, como naquelas descrições dos livros de fantasia que ele lia antes. Quando era uma criança, o mundo era uma maravilha... Oras, o mundo é uma maravilha! Olhe pra tudo isso diante de você! O que você fez da sua vida, malandro? O que você está fazendo?

Há mais de 10 anos vai para a mesma empresa, senta na mesma sala e repete as mesmas ações, confere os mesmos dados. Um emprego seguro e um bom salário, pra pagar a escola dos filhos. No fim, as crianças são a parte que realmente vale a pena. Um guri de nove e uma meninha de seis anos que é simplesmente adorável. Eles fazem tudo valer a pena. Eles têm a chance que o pai deles não tem mais. De fazer as coisas direito. Seja lá o que isso signifique. Eles são a esperança de algo melhor. A presença de algo melhor.

Mas eles crescem. Eles mudam. No fim todas as crianças desaparecem. Talvez esse seja o problema. Todos nós mudamos. Começar uma nova vida ia significar o quê? Chegar em casa agora e conversar com ela e dizer que acabou. Acertar todos os detalhes, a visita das crianças, a pensão e tal. Por que não? Se sua digníssima esposa decidisse pelo divórcio, ela provavelmente já o teria feito. Se ele propor, ela provavelmente vai deixar as coisas bem difíceis. Mas ainda assim, depois da separação o que fazer? Começar de novo o quê? Ir pra onde?

Deixa passar.

Deixa a vida passar.



(O título é uma brincadeira, talvez infeliz, com o Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos do Rubem Fonseca. Livro bacana, mas nada a ver com o que foi escrito aqui...)

quarta-feira, julho 11, 2007

Ratatoullie!!!


O homem planeja e Deus ri.

Mas às vezes acontecem surpresas tão bacanas! Cara, esse é o maior barato da vida.

Marcamos pra ir ao cinema, chegamos em cima da hora na bilheteria e descobrimos que, excepcionalmente, naquele dia o filme não seria exibido.

Ei! E agora? A moça tinha pressa, um milhão de coisas pra fazer, a escapadinha pra ir ao cinema comigo foi cheia de culpas e tal. E agora? Sem pensar muito, que outro filme tá passando? Ratatoullie, desenho animado da Pixar. A seção começou faz dez minutos. Vamos? Vamos. Sem pensar muito.

Na boa, eu não estava esperando nada. Sem expectativa nenhuma. Puxa, era o desenho de um ratinho que queria ser cozinheiro. Que você espera de algo assim? Mas tinha dois nomes de peso por trás desse ratinho. Pixar e Brad Bird. A Pixar tem uma qualidade de animação que é notória. Na pior das hipóteses, você vai assistir a um desbunde de recursos técnicos e visuais simplesmente alucinante. E Brad Bird tem no currículo Os Incríveis e O Gigante de Ferro, duas animações que chamam a atenção não só pela estética mas também pelos personagens e roteiro cheio de nuances e referências culturais deliciosas.

O Gigante de Ferro não foi uma animação bem-sucedida comercialmente, mas chama a atenção pela sensibilidade e originalidade com que é contada a amizade entre o garoto e o robozão alienígena. O mais bacana são as referências aos filmes de ficção dos anos 50 e à paranóia da guerra fria, que dão o tom dessa pequena obra-prima.

Os Incríveis brincam com os super-heróis, os filmes família, os clássicos de agente secreto, com a atmosfera pop dos anos 60. Se você olhar bem, vai ver muito de James Bond e até um pouco de Beleza Americana na receita de Os Incríveis.

Certo, mas com tudo isso, eu ainda pensava: “pôxa, é só um rato que quer ser cozinheiro. Que dá pra fazer com isso?”

E o filho da mãe do Bird me mostrou...

Ratatoullie é o tipo de desenho animado que acho que pode agradar muito mais os adultos do que a criançada. Claro, férias de julho, a sessão em que fomos estava lotada e a gurizada se divertia muito com as piadinhas e aventuras do ratinho Remy. Mas entre as correrias e peripécias, Bird falava de outra coisa.

Remy, o rato, era dotado de um olfato prodigioso e um requinte único na degustação dos alimentos. Ele escolhe muito bem o que come e os seus colegas ratos o acham um fresco por isso. Em determinado ponto ele oferece um pedaço de queijo ao seu irmão...

“NÃO!!! Não engula desse jeito! Saboreie! Mantenha o alimento na boca, feche os olhos, sinta o gosto! Isso... agora experimente esse... Que tal? Agora imagine esses dois juntos. Imagine as possibilidades de combinar cada sabor do mundo... Imagine as delícias que ainda podemos criar...”

Remy acaba indo parar no restaurante do seu ídolo, o grande cozinheiro Auguste Gusteau, que tinha sido arrasado pela crítica do jornalista Anton Ego. O filme segue muito do padrão da narrativa de animação, mas podemos ver claramente que há algo mais ali. Por exemplo, o beijo entre do par romântico é feito com uma empolgação e uma sensualidade que eu ainda não tinha visto nos desenhos família. Os dois trocam um amasso gostoso e passam isso para o espectador perfeitamente. E os personagens surpreendem. O sombrio e cruel Ego é uma caricatura bacana dos críticos e faz um monólogo extraordinário ao final do filme, que muda toda a perspectiva que tínhamos do personagem.

Mais do que as aventuras e piadas, o que me fascinou foi a procura de Remy por sua própria identidade através de sua paixão pela culinária. O filme me lembrou muito o delicioso A Festa de Babette. Para Remy e Ego, não se trata de apenas juntar tudo na panela e cozinhar. Preparar um bom prato vira uma metáfora maravilhosa da criação artística. Não das conceituações acadêmicas e das discussões complexas sobre a arte contemporânea, mas o sabor real da expressão espontânea, da busca pela própria linguagem, que é uma das maiores aventuras que um ser humano pode vivenciar.

Puxa, era o desenho de um ratinho que queria ser cozinheiro. Que você espera de algo assim? Bom, parafraseando uma das falas do filme, não é tudo que se faz que se pode chamar de arte, mas as pequenas obras-primas podem sair de qualquer lugar. O verdadeiro artista pode sair de qualquer lugar.

E assim Ratatoullie me surpreendeu, uma daquelas surpresas maravilhosas que te deixam sorrindo e pensando muito tempo depois de voltar à luz do dia. Vou assistir de novo ainda essa semana, porque perdi o começo do filme. E o lugar do dvd já está reservado na minha prateleira, ao lado do Gigante de Ferro e dos Incríveis.

Brad Bird rules!


segunda-feira, julho 09, 2007


Um desenho que fiz...
Domingo, 8 de julho.

Os olhos de quem vê

Engraçado como perspectivas diferentes geram visões completamente diferentes de um mesmo objeto. Ou de uma mesma pessoa. Ou de uma mesma cidade. Você fotografa uma pessoa e tem um retrato. A mesma pessoa aparece diferente em uma foto preto e branco. Às vezes você fotografa só uma parte dessa pessoa, um detalhe. Mão, nariz. Fotografa uma sombra, um reflexo distorcido na lataria de um carro. Mil visões de uma mesma pessoa. De um mesmo objeto. De uma mesma cidade.

Qual a relação de um retrato com seu objeto? Por mais inusitado que seja, por mais distorcido, será que um retrato sempre vai manter relação com aquela pessoa, aquele objeto que ele representa? Diferentes visões representam aspectos diferentes e secretos de um mesmo objeto?

Um retrato pode ter vida própria?

Somos bem mais complicados do que imaginamos. O mundo ao nosso redor é bem mais complicado. Por isso as coisas são divertidas. A gente pensa que se conhece bem, e um dia se vê numa filmagem, feita anos atrás. Lá estamos nós na festinha de aniversário de um amigo e parecemos um estranho completo aos nossos olhos de hoje. Ou mesmo uma fotografia recente, em que olhamos e olhamos o nosso próprio rosto ali supostamente representado e alguma coisa nos faz sentir desconfortáveis. Ou surpresos...

Essa é a era das representações. A era das ficções. Dos avatares, dos second lifes e perfis de orkut. Nós escrevemos sobre nós mesmos, nós inventamos a nós mesmos. Sempre fizemos isso, mas os computadores escancaram o processo.

Qual a roupa que mais combina com você? Ou melhor, qual a roupa que mais te traduz como a pessoa que você quer que os outros percebam? Essas são as velhas idéias sobre consumo, mas a questão não é a historinha que você inventa sobre você mesmo. Pense nas múltiplas visões que diversos observadores têm sobre as várias coisas ao seu redor. As pessoas vêem um mesmo objeto de maneiras muito diferentes. E será que todas essas visões não constituem um todo?

Vejamos por exemplo a cidade de Los Angeles.

3 filmes com propostas diferentes. Dois de cinema e o episódio piloto de uma série de TV.



Constantine mostra uma Los Angeles estranha, quente, estorricada, com prédios baixos e criaturas fantásticas correndo pelas penumbras e às vezes sob o sol do meio dia. O diabo existe e há uma guerra entre o bem e o mal. As cores e composição das imagens, a direção de fotografia, a escolha dos ambientes a serem filmados apresentam uma Los Angeles exótica, marcada pela presença latina e ícones cristãos. Há os prédios, as grandes torres cintilantes, mas há o amontoado de predinhos baixos, abrigando lojas diversas. Há sujeira e apartamentos superlotados. Há uma pobreza, uma miséria iluminada por um sol ardente. E no meio disso tudo há magia. O inferno está a um passo. Você só precisa de um gato e uma bacia de água.


Em Crash, Los Angeles é uma panela de pressão. As pessoas não se conhecem. Não conhecem umas as outras nem a si mesmas. Há uma disparidade notável entre as culturas e posições sociais que constituem a população da cidade. Negros, latinos, muçulmanos, brancos, políticos, policiais. O atrito é inevitável. Mas a pessoa não confronta só o seu vizinho, o outro que passa pela rua. A pessoa confronta a si mesma. Atitudes horríveis e covardes que de repente se manifestam. Ou solidariedade e compreensão vindos quando menos se espera. Humanos mesmo. (Eita, filminho danado de bão, sô!) A Los Angeles de Crash não é só uma localização geográfica com um punhado de edificações, mas antes de tudo uma rede viva de intrincadas relações de pessoas e idéias. Uma tensão emocional que paira no ar junto ao calor sufocante. Um conjunto complexo de sensações.

The L Word mostra uma Los Angeles de casinhas com piscina e cerca baixa, uma do lado da outra. Um bairro agradável, habitado por pessoas bem sucedidas. E, em sua maioria, homossexuais. (The L word is “lesbian”, sacou?). As diversas mulheres que protagonizam a série não têm dúvidas sobre com quem vão para a cama. Essa Los Angeles é um cenário agradável de fundo. Não há miséria, não há crime. O principal conflito aqui é “ei, como vamos ter filhos?”. Outra personagem fica em dúvidas sobre sua sexualidade. Tudo bem escrito e filmado, com direito a cenas de sexo bem ousadas pra uma série de tv. Entretanto é uma série feita para um público específico: pessoas com dinheiro. A Los Angeles apresentada é idílica, um paraíso onde se pode sair de uma festa às quatro da manhã e caminhar tranqüilamente para casa. Um paraíso onde todas as lésbicas tem corpinho de violão e menos de 40 anos.

Três Los Angeles, nenhuma delas com certeza um retrato da Los Angeles “real”, mas talvez guardando facetas, fragmentos da identidade dessa cidade.

A Los Angeles Real só será conhecida por você o dia em que você for até lá. E com certeza será a sua Los Angeles Real exclusiva, sua própria, única e indivisível visão da cidade.

O mesmo vale para Curitiba, São Paulo, Florianópolis e outras cidades.

E outras pessoas...

(Ainda sobre The L Word: é uma série bem bacana que dá muito o que pensar, não só pela questão da sexualidade em si, mas a respeito das soluções que as duas mulheres procuram para terem o filho. Adoção não é mencionada. Elas querem engravidar. Então começam selecionando doadores de esperma. A seleção é feita como quem compra um carro ou um apartamento. São relacionadas numa lista as qualidades do possível doador, dando-se preferência ao físico e a atividades artísticas. Surgem uma série de dificuldades e elas não conseguem o doador. Têm uma crise de relacionamento e vão a um terapeuta. Mas o engraçado é como tudo na vida dessas mulheres de ficção é condicionado pela mentalidade de consumo. Tudo parece ser medido por uma questão de lista de compras, de competições bem sucedidas. Há outros aspectos a considerar, mas esse foi o que mais me chamou a atenção, porque, possivelmente, retrata a perspectiva real de muitas pessoas para medir e guiar a própria vida.)

terça-feira, julho 03, 2007

Jornalismo 1

Não sou jornalista. Sou espectador.

Domingo de noite, finalzinho do final de semana.

No Fantástico, eles faziam uma reportagem sobre a empregada espancada pelos "estudantes de classe média". Música melodramática, super-closes nos hematomas da mulher e a Glória Maria perguntando a cada 30 segunddos: "Mas como você se sentiu quando eles vieram pra cima de você? Como você se sentiu quando eles chutaram você? Como você se sentiu quando viu eles na cadeia?"

Bom, como você se sentiria na hora que cinco sujeitos que você nunca viu na vida começassem a te espancar? Eu sentiria medo, terror, pânico. Entraria em choque. E você? Afinal, qual o sentido de perguntar pra moça o que ela sentiu quando os moços a espancaram? Fazer ela chorar na frente das câmeras? Escancarar a impotência da moça e por tabela a impotência de todos nós que ficamos sabendo dessa barbaridade e não pudemos fazer nada? É isso? O propósito dessa montagem toda é gerar revolta no espectador, isto é, na gente?

A matéria ficou mostrando a moça chorar, lamentar pelos seus agressores mas exigir que a lei fosse cumprida. Mostrou a casa humilde dela, mostrou o pai dela, pedreiro, trabalhando. Ele estava pintando uma sala num apartamento. Fico pensando como essa cena foi gravada. Chegaram com ele e falaram "Seu Renato, finja que está trabalhando pra gente construir uma imagem de cidadão exemplar e trabalhador honesto e humilde, pra aumentar a empatia do espectador". Como se isso fosse necessário. Uma moça é atacada por cinco filhos da puta e você precisa de recursos narrativos baratos pra incitar ainda mais a indignação de quem ouve essa barbaridade.

O pior dessa matéria, o que me deixou mais chocado, foi que ela não concluiu aquilo que começou. Mostrou a vida da moça, mostrou o choro dela e procurou fazer ela chorar ainda mais com perguntas especfícas, mostrou a indignação da população. Através de uma edição cuidadosa, relembraram os casos anteriores, como o do índio Gaudino.

Gaudino foi morto no dia 20 de abril de 1997, queimado vivo por cinco (repare, eles andam em cinco) estudantes de "boa família". Eles encontraram o índio dormindo em um ponto de ônibus, pensaram que ele era um mendigo e atearam fogo nele por brincadeira. Convém notar que os estudantes que espancaram a empregada doméstica pensaram que ela era uma prostituta. Daí se conclui que na cabeça dessas pessoas não há problema em espancar e queimar mendigos e prostitutas. Afinal, mendigo e puta num é gente, né?

A reportagem do Fantástico reconstituiu todos esses eventos, utilizando uma montagem que exibia declarações de pessoas indignadas, emocionadas e, acima de tudo, impotentes. Porque o que essa reportagem celebrou realmente foi a impotência. Perto de sua conclusão, a reportagem mostrou que os cinco sociopatas que queimaram o índio estão por aí, de boa. Mas a matéria não foi atrás desses cinco, a matéria não foi verificar quais são as implicações legais e o que pode ser feito para mudar possíveis falhas. Os conceitos de responsabilidade e punição foram esquecidos completamente. O que a matéria fez foi entrevistar uns psicólogos e educadores sobre qual o papel dos pais nisso. Você acredita? Uma matéria que virou "dicas de comportamento pra sociedade classe média alta". Virou coisinha de revista Veja. Virou "oh, como educar nossos filhos?". MEEEEU DEUUUUUUUUSSSS!!!!!

O que eu vi foi uma reportagem com intuito de despertar "muita emoção", uma reportagem com cara de novela vagabunda, que só tem a função de despertar indignação e confirmar a impotência de todos nós. É assim que funciona essa droga de sistema. Não se fala em RESPONSABILIDADE, não se fala NO QUE VAI SER FEITO A ESSE RESPEITO, fala-se apenas em "como você se sente?" e "oh, como educar nossos filhos?" Uma matéria que não faria a menor diferença se tivesse ou não ido pro ar. Uma exploração desavergonhada da dor da menina pros desgraçados que assistem esse programa. E uma afirmação que, enquanto cidadãos, temos o direito de nos indignar diante de espancamentos, queima de indígenas e corrupção, mas efetivamente falando NADA vai mudar.

E depois de tudo isso, entrou uma matéria sobre a eleição do "Cachorro mais feio do mundo". Ele está ali embaixo na foto. Não, peraí, deixa eu te explicar, eles falaram da moça espancada, fizeram toda uma montagem pra indignar qualquer um, colocaram musiquinha triste de fundo, não foram atrás de esclarecer se vai ou não haver punição e quando a matéria conclui, eles aparecem sorrindo, andando naquele cenário kitsch-high-tech-do-caralho e dizendo: "agora vamos ver o cão mais feio do mundo"!
Você está entendo o que eu estou dizendo????




Há uma razão para a maioria dos suicídios acontecerem no domingo de noite.

E os óculos do Bial são de uma sofisticação tenebrosa, ridícula e de gosto duvidoso.
É. São a cara dele.


(Não, não estou acostumado a assistir o Fantástico. Eu sei que é "o show da vida", uma "revista" semanal com objetivo de ser mais espetáculo do que jornalismo, mas ainda assim... ainda assim... pôxa!)