segunda-feira, novembro 26, 2007

Esse lance de gostar de quem não presta

I was born to love you

With every single beat

Of my heart

I was born to take care of you

Every single day

Of my life


Ah, saudades de começo de namoro, quando a gente fica feliz por ficar feliz, quando a gente telefona e escuta aquela voz linda lá do outro lado. Quando a gente caminha nas nuvens e elas são feitas de algodão. Quando acontecem os primeiros beijos, os melhores. Faz tempo que não sinto isso.

Mas dentro dos mil tipos de amor existente, um dos que mais me fascina é o lance de gostar de quem não presta.

Quando tinha 16, 17 anos, eu era apaixonado por uma menina linda de olhinhos verdes e ela era apaixonada por um cara não tão apaixonado por ela. Com ou sem maldade, ele fez tudo e deu todas as razões do mundo pra que ela o deixasse, mas a moça continuava lá, firme, chamando-o de “meu homem” e chorando pelos cantos. Uma menina de 15 chamando um piá de 17 de “meu homem”. Parando pra pensar hoje, eu acho isso engraçado, mas na época, pra mim, foi uma merda. No fim das contas o rapaz é que acabou o namoro e ela entrou em parafuso e simplesmente sumiu. Parece que ela largou tudo e fugiu pra praia. Mais ou menos no meio de um semestre, acho que era abril ou setembro, sei lá. E nunca mais a vi.

E a adolescência acaba, mas o lance de gostar de quem não presta continua. Ataca qualquer idade, qualquer sexo. Todo mundo já embarcou nessa canoa furada. E sempre tem algum conhecido ou conhecida metida numa dessas. Abraçando com amor um grande rolo de arame farpado. Talvez seja uma necessidade de auto-flagelação, talvez seja o medo da solidão, talvez seja um profundo desamor-próprio.

Ou talvez apenas façamos aquilo que aprendemos na infância.

Eu me lembro de ser criança. A perspectiva era diferente, o mundo era maior, mais interessante, o tempo parecia passar mais devagar. Lembro dos brinquedos, da tv, de brincar nos canteiros de construção, do pôr-do-sol. Lembro das brigas de meus pais, de insultos gritados, de explosões de raiva inexplicáveis. Acho que talvez ali tenha começado essa impressão sub-reptícia que carreguei comigo tanto tempo de que a vida era algo para ser suportado, carregado, tolerado.

Bom...

E entre tudo isso também tinha gibis. Muitos gibis.




A edição número 17 da revista Super Aventuras Marvel da Editora Abril tem data de publicação de novembro de 1983. Portanto eu tinha nove anos de idade quando a li. Ainda tenho a edição original em minha coleção e a carrego no fundo da minha cabeça. Nove anos de idade e vi o Demolidor num porão escuro, enfrentando seu passado de mágoas, culpas e frustrações feito alucinações sob a forma de um demônio. Pantera Negra é deixado para morrer no deserto, amarrado a um tronco de espinhos, o calor insuportável, os animais espreitam ao redor esperando sua morte. Cerca de 12 mil anos atrás, Sonja, a guerreira ruiva de pernas maravilhosas (meu Deus, que coisa de louco!) enfrenta sozinha entre os desfiladeiros um improvável gigante de metal que procura executar sua última ordem: matá-la. Situações extremas, cheias de uma prosa exageradamente fabulosa como só um gibi pode oferecer. Que maravilha ser criança. E no meio de todos esses heróis, o monstro.

O Homem Coisa.

Escondido num laboratório secreto no meio de um pântano, pesquisando uma fórmula que pudesse transformar homens comuns em super-soldados, um cientista é atacado por espiões. Na fuga, desesperado, ele injeta a fórmula ainda não testada em si mesmo, mas algo dá errado... ele perde o controle de seu carro e mergulha nas águas escuras do pântano. “Águas que começam a reagir com a substância em seu organismo, provocando a grotesca transformação que pôs fim à sua humanidade!”

E o cientista vira um monstro do pântano, uma criatura irracional, incapaz de se comunicar, incapaz de se lembrar de que foi um dia um ser humano.

Nessa história que li, um bebê é jogado de uma ponte e, numa dessas fabulosas coincidências tão comuns nos quadrinhos, cai justamente nas mãos do monstro. Mas apesar de tudo, a criatura é do bem. E apesar de ser chamada o tempo todo de irracional pelo narrador, tem capacidade de saber onde mora um médico com quem pode deixar a criança. Mais ainda, entende o que o médico fala e percebe que a criança tinha sido jogada pra morrer. Indignado, o monstro vai atrás do autor da barbaridade.

Num casebre do meio do pântano, um casal discute. “Onde está o meu filho?” ela pergunta. O homem se defende, dizendo que levou a criança ao médico. Na cena, repare naqueles detalhes do desenho. Apesar dos estereótipos de sempre, como a menina gostosa e inocente, dá pra perceber outras coisas. A casa paupérrima, a menina que teve o filho muito jovem, o cara que usa a agressividade como principal defesa diante de um mundo sobre o qual não tem controle . Ele ameaça a mulher e apesar de não agredi-la, pela atitude dela podemos deduzir que isso talvez já tenha acontecido antes. Claro que essas coisas eu não via na época. Eu tinha nove anos. Queria mais é ver aquele safado se ferrar nas mãos do Homem Coisa.

E daí o monstrão entra em cena. O Homem Coisa tinha um dos poderes mais bacanas. Ele era feio de dar dó, assustador mesmo, e conseguia sentir as emoções das pessoas em volta. No caso, quando elas sentiam medo, o monstro se irritava. Mais ainda, o medo fazia com que o toque da criatura queimasse feito ácido. Cool!!!

Ao contrário das outras histórias do gibi, não há uma grande luta. O monstro simplesmente agarra o homem e queima o seu rosto. E daí acontece a reviravolta. A menina defende o cara. Ela o abraça e o protege da criatura. Acho que aí minha cabeça de criança deu um nó. Como ela podia? Como podia defender aquele escroto? Mas ao mesmo tempo, achei de certa forma bonito, pungente. Talvez fosse a solidariedade dela, talvez fosse a sensação de que por mais terrível que seja, qualquer ação possa ser perdoada.

Olhando hoje eu vejo um monte de coisas nessa historinha. O desespero do sujeito diante da pobreza e das crises dentro da família, a situação miserável de pessoas jovens demais e sem preparo diante das responsabilidades adultas, o afeto inocente da menina.

Jogar uma criança num rio pra ela morrer não é só coisa de gibi. Toda vez que vejo uma matéria assim no jornal eu me lembro dessa história. Toda vez que vejo uma pessoa insistir num relacionamento e defender o que parece ser indefensável eu lembro daquela menina abraçando o sujeito do rosto queimado.

Nove anos. Parando pra pensar em quantas revistas eu li como essa Super Aventuras, não é à toa que fiquei “estragado” pro resto da vida. Não que essa história tenha formado minha cabeça, mas acho que ela captou e me apresentou um pouco do que me esperava nessa vida adulta. Desse jogo complexo de relações marcadas por incoerências, incompreensões e surpreendentes atos de solidadariedade.






sábado, novembro 17, 2007

A medida de todas as coisas

Persepolis - Teaser 2



Antropologia é muito legal. Acho que eu queria ter sido antropólogo.

Eu achava que a coisa devia ser bem simples: você observa o que um grupo, povo ou tribo faz e depois descreve o que viu. Na minha cabeça, imaginava viagens exóticas cheias de aventuras excitantes e contato com outros mundos completamente diferentes. Coisas do tipo Marco Pólo, sabe?

Mas daí comecei a olhar mais de perto a tal da antropologia e vi que o negócio era bem mais complicado do que eu pensava. BEM mais complicado.

Grosseiramente falando, a Antropologia é a ciência que se volta para o ser humano e suas relações culturais e sociais. Suas raízes mais remotas encontram-se na filosofia grega, mas como ciência mesmo a Antropologia passa a existir a partir do Iluminismo, no século XVII. Pelo menos, é o que dizem...

No século XIX a antropologia incorporou o conceito de evolucionismo proposto por Darwin. Essa antropologia entendia que os povos ao redor do mundo estavam encaixados dentro de uma linha de evolução e portanto existiam povos mais “adiantados” e superiores que outros. No topo da evolução, estava exatamente a civilização européia, que por sinal tinha inventado toda a teoria. Assim, a antropologia era principalmente um estudo dos “povos inferiores” e a justificativa “científica” do domínio exercido pelos europeus.

Mais tarde, ao longo do século XX, começaram a surgir outras perspectivas para a antropologia. Surgiam novos pesquisadores e novas idéias, muitas delas radicalmente discordantes entre si. Só o conceito de “cultura” recebe algumas definições bem diferentes, dependendo da corrente antropológica que se segue.

Uma das questões interessantes é o observador. O tal antropólogo. Ao observar os costumes da “tribo” estudada, freqüentemente acontece o conflito entre a formação e perspectivas culturais do observador e do observado. Assim temos relatos que são carregados de juízo a respeito dos observados, imputando-lhes características como “atrasados”, “ignorantes”, “selvagens” e outros termos do tipo. A referência sempre é a formação do observador, que é considerada como a mais correta e justa.

(Engraçado como às vezes acontece o contrário. Há vários relatos de antropólogos que vão estudar uma determinada comunidade e acabam “absorvidos”. Simplesmente não voltam mais para a civilização. Essas histórias são divertidas, gosto muito delas...)

Enfim, a Antropologia é bem mais do que estudar o outro, o desconhecido, aquele cara estranho que vive naquele país lá longe, mas ainda é esse aspecto que mais fascina. Os relatos das viagens exóticas, as tais diferenças culturais.

Acho que é esse fascínio que explica o sucesso de vendas de dois livros: O Livreiro de Cabul (de Asne Seierstad, editora Record) e O Caçador de Pipas (de Khaled Hosseini, editora Nova Fronteira). Ambos têm como cenário o Afeganistão. O Livreiro de Cabul é uma espécie de diário de viagem da jornalista norueguesa que conviveu três meses com uma família afegã. O Caçador de Pipas é uma ficção escrita por um afegão, com toques autobiográficos. Não li nenhum desses livros...

Mas li os álbuns Persépolis (de Marjane Satrapi, editora Cia das Letras) e Pyongyang (de Guy Delisle, editora Zarabatana Books), quadrinhos que abordam essa temática do “olhar sobre o outro”...




Se eu for dizer que isso é Antropologia, alguém pode querer me bater. Por outro lado, se eu disser que isso não tem nada a ver com Antropologia, também não vou estar correto. O que quero aqui não é defender essas obras como um relato antropológico, mas sim fazer umas observaçõezinhas interessantes a respeito delas.

Pyongyang é, semelhante ao Livreiro de Cabul: um livro de relato de viagens (e mais uma pessoa que fala mal de quem a hospedou... hahaha). Só que em quadrinhos. Com desenhos. O autor é Guy Delisle, um animador canadense que viaja para Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coréia do Norte (um dos três países que compõem o tal eixo do mal do George Bush). Lá, por dois meses, ele supervisiona a produção de uma série animada produzida por um estúdio francês e executada pelos coreanos.

Acontece que a Coréia do Norte é um país comunista sob um regime totalitário, liderado por uma figura bem bizarra, o tal Kim Jong-Il, que herdou o título de “Querido Líder” de seu pai, Kim Il-Sung. Muitos consideram a Coréia do Norte a única dinastia stalinista do planeta.

Delisle descreve um país extremamente opressivo. Há um contraste assustador entre os grandes monumentos feitos em honra aos dois Kim e a pobreza do país. São diversos episódios que mostram situações completamente absurdas. Durante a noite, não há energia para iluminar toda a capital e apenas os monumentos recebem luz, destacando-se entre todos os prédios mergulhados na mais completa escuridão. A idolatria aos dois líderes está presente em todos os cantos. Além dos monumentos, há placas, outdoors, músicas nos rádios, idolatrando aos Kim. Todas as salas apresentam fotos dos dois. Todos os habitantes usam um brochezinho com a foto dos dois.

Pelo menos, segundo Delisle.

O fato de ele levar na viagem o livro 1984 de George Orwell e citar diversos trechos não é gratuito. A perspectiva de Delisle é a nossa perspectiva ocidental. Ele não consegue compreender como as pessoas parecem realmente acreditar nos slogans do governo e na “santidade” de Kim Jong-Il. Na descrição de Delisle, há o medo e a opressão constantes, além de toda uma espécie de fanatismo que cerca a figura do líder. Kim Jong-Il é o próprio Grande Irmão do livro de Orwell.

Constantemente acompanhado de “tradutores” e “guias”, Delisle é levado a visitar diversos monumentos e construções. Não encontra mendigos nem deficientes nas ruas. Segundo ele, “todos parecem estar ocupados o tempo todo”. A maneira como uma mulher coreana, técnica de animação, canta as músicas em homenagem a Kim Jong-Il (que não são poucas) lembra o fervor com que certos evangélicos cantam seus hinos.

Pela ótica de Deslile, a Coréia do Norte é um grande delírio, a materialização da distopia idealizada por Orwell.

Entretanto, Deslile em nenhum momento se despe de seu ponto de vista de rapaz ocidental. Tudo é medido pelos valores importantes à ele. Assim, o fato das pessoas não conhecerem Bob Marley na Coréia do Norte torna-se mais um absurdo desconfortável. Ele não se permite tentar entender o que realmente passa pela cabeça dos poucos coreanos com que entra em contato. Mas vamos ser justos com Guy: o idioma e a própria atitude desses coreanos não ajuda muito.

(Curiosamente, é justamente o fato do estúdio estatal coreano apresentar mão de obra barata para a produção das seqüências de animação que torna a Coréia uma opção atraente para os estúdios ocidentais. Isto é, Delisle critica o regime, mas não vê nenhum problema em se aproveitar da mão de obra fornecida por esse regime...)

Enfim, Guy Delisle é só uma pessoa (como eu) criada numa cultura onde liberdade e democracia são palavras ligadas a valores fundamentais (ou assim acreditamos). Asne Seierstad, a autora de O Livreiro de Cabul, também tem esse perfil. Mais do que relatar suas viagens e o contato com outras culturas, Delisle e Seierstad julgam essas culturas de acordo com seu próprio referencial. E assim o fazem também seus leitores, entre os quais eu me incluo.

Daí parece se formar uma espécie de “gênero”, onde o relato de viagens parece se tornar uma espécie de “circo de aberrações”, onde culturas e visões de mundo diferentes das nossas são apresentadas como uma espécie de curiosidade, uma atração de espetáculo. Mais ou menos como o Globo Repórter vem fazendo nos últimos 30 anos...

O que eu questiono é o fato de comprarmos esses relatos como expressões fiéis da realidade. Não nego as questões de opressão e brutalidade com que vivem as pessoas nesses países distantes, mas o que me incomoda é o modo como esses relatos e histórias constroem dentro de nossa cabeça uma visão onde nós mesmos somos os certos e justos e os outros são coitados vítimas de homens maus. Quero dizer que as coisas são bem mais complicadas do que isso.

Guy Delisle e Asne Seierstad eram estrangeiros que passaram um tempo em um país e contaram suas experiências. Por outro lado, Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas) e Marjane Satrapi (Persépolis), nasceram e cresceram dentro do universo de relações que descrevem, e portanto apresentam uma outra perspectiva. Ou não?

Não li O Caçador de Pipas, então vou falar de Persépolis.


Marjane Satrapi nasceu em 1969 na cidade de Rasht e cresceu em Teerã, capital do Irã (ei, esse é outro país do eixo do mal de George Bush).

Atualmente ela vive em Paris e sua trajetória para chegar à cidade luz está descrita nos quatro volumes de Persépolis. Os dois primeiros álbuns mostram a infância de Marjane.

Ela tinha nove anos quando aconteceu a revolução que depôs o rei e instaurou o governo islâmico. Para começar, a menina Marjie se viu obrigada a usar o véu, como todas as outras mulheres islâmicas. Em seguida, o Liceu Francês onde estudava foi fechado, para evitar o contato com os idiomas do “capitalismo decadente”. Em seguida, veio a longa guerra com o Iraque (por sinal, o terceiro país do eixo do mal).

Satrapi era filha única de uma família bem posicionada economicamente e teve uma educação que favorecia as idéias liberais. Aos dez anos ela lia “Materialismo Dialético em Quadrinhos”, tendo contato com as figuras de Descartes e Marx (“Materialismo Dialético em Quadrinhos”??? Uau!)

O dinheiro e a postura liberal e rebelde da família propiciaram uma perspectiva diferente para Marj. Em Persépolis, é com essa perspectiva que ela conta suas memórias, narrando muitas situações interessantes. Ao mesmo tempo em que o regime islâmico oprime e impõe severas regras de comportamento, as pessoas reagem em passeatas e, em um segundo momento, adaptam-se. Adotam uma postura pública, comedida e de acordo com as exigências do governo, mas dentro de suas casas fazem festas (que eram proibidas), enfeitam-se, bebem, escutam músicas estrangeiras.

Ainda criança, Marjane tem contato com a morte. Sua amiga morre em um bombardeio, seu tio é executado pelo novo regime. Aos 14 anos, desesperançados com a situação do Irã, consumido pela guerra e pelo governo opressivo, os pais de Marjane a convencem a ir estudar na Europa.

Esse é o tema do volume 3 e é um dos mais interessantes da coleção. Na Áustria, Marjane tem contato com a cultura ocidental e é completamente atordoada pelo choque com os costumes e referências de seus novos amigos. Agora é a perspectiva do “outro” olhando para “nós”. Por um período Marjane fica abrigada em uma pensão dirigida por freiras. A experiência é péssima e a menina descobre que extremismos religiosos são sufocantes em qualquer parte do mundo. Por 6 anos ela estuda num colégio de língua francesa e tem contato com punks, roqueiros, maconheiros, homossexuais e diversos tipos que seriam impensáveis (e inviáveis) em sua terra natal. As atitudes de seus amigos, principalmente com respeito à sexualidade, a chocam tremendamente. Afinal, apesar de tudo, Marjane tinha construído seus referenciais em uma sociedade muito mais conservadora. Ela tem crises de identidade, sente-se perdida, não consegue acompanhar os jornais de tv que mostram os bombardeios em sua cidade natal.

Por fim, é uma desilusão amorosa que leva a moça a uma crise violenta. Por três meses ela dorme nas ruas, durante os dias mais frios do ano. Acaba sendo internada com início de pneumonia. Tendo alta, volta para casa. Tem 20 anos.

A readaptação à vida em sua terra natal é o tema do quarto volume. E não é uma readaptação bem sucedida. Marjane se casa e entra na faculdade de artes, mas a repressão constante, principalmente sobre a figura da mulher, a faz abandonar definitivamente o Irã. Ah, claro, ela também se divorcia.

Os álbuns de Persépolis tem um tom fortemente autobiográfico, mostrando sempre o ponto de vista da moça a respeito do mundo e das relações ao seu redor. Mescla subjetividade com comentários políticos bem definidos. A série concedeu à Marjie alguns prêmios, entre os quais o de melhor HQ na Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento literário do planeta.

Há pouco tempo atrás, em Paris, terminou a produção do desenho animado longa-metragem baseado em Persépolis. O desenho já estreou criando polêmica, mas foi bem recebido em Cannes. Lá no começo dessa postagem está o trailer desse desenho, que é um barato. Gosto do modo como eles usam a musiquinha The Eye of Tiger. Hehehe.

Pyongyang e Persépolis tem como ponto comum um relato sobre pessoas e lugares que são muito diferentes do nosso. A principal diferença entre essas obras está na condição de seus autores. Embora o álbum de Guy Delisle seja muito bem escrito, cheio de referências e piadas bacanas, Marjane parece ter uma vantagem sobre ele pela sua condição de “nativa”. Mesmo sendo filha de uma família privilegiada, Marjane ainda faz parte do povo de que fala e consegue considerar os outros como pessoas próximas, com suas próprias idéias e incoerências. Talvez por fazer parte da “tribo” e por ter um contato com a cultura ocidental, Satrapi consiga construir uma ponte de mão dupla entre as duas visões de mundo.

Enfim, são álbuns bem legais.

Vale a pena conferir.


A verdade, e principalmente a própria razão humana,
é criada pelos indivíduos no decorrer de sua interação.
Daí a frase do filósofo sofista Protágoras:
"O homem é a medida de todas as coisas".

quarta-feira, novembro 14, 2007

Tosqueira

Juro, eu queria fazer um blog legal.

Como eu não consigo, posso me permitir colocar uma ou outra tosqueira aqui, de vez em quando.

E gente, esse vídeo é tosco demais.

Agora estou meio bêbado. Talvez amanhã eu me arrependa e tire essa coisa do ar. Mas enquanto isso não acontece, divirta-se (ou tente) com o... ITALIAN SPIDERMAN!!!!

Italian Spiderman Trailer

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Per tutti la familia...

Sensacional, né?

quinta-feira, novembro 08, 2007

Solidão

Ontem eu tirei uma hora pra vadiar.

Vadiar, andar a esmo, sem nenhum lugar especial pra ir, sem pressa, sem nenhuma pretensão.

Estava cansado, muito cansado, de ficar sentado, de ficar debaixo de um teto. Esperando um camarada pra beber, achei melhor esperar andando, com ar na cara e vendo pessoas. Era fim do dia e eu zanzava pelo pátio do Cefetão. Um grupo de teatro fazia uns exercícios de dança no meio do pátio. Ao redor, o pessoal que tinha vindo pro Simpósio se reunia em grupinhos, com suas malas "verde e roxa". Eu tinha participado da organização do simpósio, tinha apresentado artigo e assistido conferências e essas coisas. A cabeça estava cheia e pesada. Daí tirei uma hora de vadiagem, pra olhar tudo aquilo como se eu não fizesse parte, pra olhar sem interesse e sem compromisso. Pra ficar de boa.

E é engraçado como a gente acaba percebendo ou achando coisas ao nosso redor quando abaixamos as defesas e diminuímos o ritmo. Foi vadiando que eu parei na frente do edital. Meu, fala sério, quem para em frente de edital hoje em dia? A idéia de edital me parece meio anacrônica nos dias de hoje, com e-mail e internet e o escambau. Quando você quer saber alguma coisa, você procura no Google. Informações importantes te chegam via e-mail ou você descobre nos sites de notícia. Um quadro de feltro coberto de papéis pendurado pelos corredores parece coisa muito distante no tempo.

Coisa surreal, porque esse edital não era um desses editais "úteis", daqueles com oferta de emprego ou a página do jornal com a programação de cinema ou resultado de vestibular. Era um editalzinho pequeno e em cima do feltro verde tinha poucos papéis. Um no topo que estava escrito "Humor e Pensamentos" (acho que era o "título" daquele espaço). Daí abaixo uma tira xerocada do Calvin e Haroldo e um texto, supostamente de autoria do Arnaldo Jabor.

Sabe, às vezes eu procuro por palavras, por uma seqüência de idéias que consigam explicar para os outros e, principalmente, pra mim mesmo, o que se passa pela minha cabeça. Verbalizar essa estranha sensação, pôr um nome nessa coisa estranha que está dormindo nas minhas entranhas e que de vez em quando acorda e se levanta pra beber água e posso sentir seus movimentos, seu peso, todo o seu peso, dentro de mim.

E esse texto serve perfeitamente para o momento que vivo. Sei lá, parece que o cara me viu no pátio, me chamou, pôs a mão no meu ombro e disse "ME ESCUTE!!!"

E falou:

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: “Digam o que disserem, o mal do século é a solidão”. Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias. Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos. Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos “personal dance”, incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvída?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.

Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”, só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como: “Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra ser sozinho!” unindo milhares ou melhor milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.

Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, “pague mico”, saia gritando e falando bobagens. Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à dois. Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que "se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?". Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: “vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”.

Antes idiota que infeliz!

Muito fofo.

Eu parei pra ler isso. Parei no pátio, diante do edital.

Mais tarde, em casa, coloquei umas palavras-chave do texto no Santo Google e achei uma série de referências a ele em outros blogs. É provavelmente o tipo de texto que se envia por e-mail, naqueles spans irritantes. Dificilmente eu leria esse texto, porque geralmente nem abro esses e-mails cheios de boas intenções e títulos como "UMA LINDA LIÇÃO DE VIDA" precedidos por um "(Fw):" no espaço de "assunto" do e-mail.

Independente da questão da autoria ou da qualidade, esse texto acabou traduzindo muita coisa que passava pela minha cabeça. Discordo quanto à "Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega". A solidão não é uma questão de escolha, submetida à moda. Estar ao lado de alguém não é necessariamente estar acompanhado.

Mas, se for parar pra pensar, talvez a solidão seja uma apenas uma ficção. Uma invenção tão grande quanto o amor. Uma história que a gente finge viver. Uma camisa que a gente veste. Talvez tudo seja uma questão de fé. Talvez tudo seja muito simples, e realmente só seja preciso não pensar. Muito.

Meu problema com a solidão é essa dificuldade em entender o que ela significa (ou a teimosia em tentar entender). É a dificuldade não só em assumi-la, mas aceitá-la. Simplesmente aceitá-la.

Esse tabu da solidão.

Esse medo de deixar alguém entrar.

Esse medo de assumir que não há ninguém pra deixar entrar.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Oba! Fotos!

Arrá!
Algumas das fotos do museum.
Com vocês, minha seleção "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças":
(Lembrei muito desse filme olhando algumas dessas fotos...)











As fotos são cortesia da menina Taís.
Bjs, moça.

domingo, novembro 04, 2007

Felicidade

Quando eu era bem pequeno vi na TV o desenho animado de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. O desenho era inspirado na série de livros As Crônicas de Nárnia, a mesma que virou filme não muito tempo atrás.

O que me marcou bastante nesse desenho, a cena com que eu sonho até hoje, é a entrada para o Reino de Nárnia: um guarda-roupa. As crianças entravam nele e iam passando através das roupas e de repente saíam em uma caverna, diante de um bosque coberto de neve. Visualmente era muito bonito. E acho que poético também. Eu tinha uns cinco anos quando assisti e fiquei fascinado, fiquei pensando, puxa, imagina, uma coisa tão comum e corriqueira encerrar a entrada pra um mundo mágico, para uma terra distante, tão distante e tão próxima, logo atrás daquelas roupas todas, no fundo daquele armário.

Coisa comum e corriqueira o guarda-roupa. É o que eu penso hoje, mas acho que para os meus olhos de criança da época as roupas penduradas e aquela coisa do guarda-roupa ser uma “casa dentro de uma casa” (quando você é criança, esse tipo de idéia faz bastante sentido)... bom, as portas do guarda-roupa eram a entrada para um labirinto com paredes de pano e labirintos pra mim sempre tiveram algo de mágico.

A entrada para uma outra e fantástica realidade, o fabuloso que surge do cotidiano ordinário... mágica. Essa foi a sensação que tive ao ter contato com o trabalho de Amélia Toledo.

Sexta-feira chuvosa, Dia de Los Muertos, fui com um pessoal no museu do olho. O Museu Oscar Niemeyer, aqui em Curitiba. E tinha a exposição dessa senhora. Uma das obras era chamada Caminho das Cores e era feita de uma série de telas colorias e translúcidas penduradas do teto, que formavam um labirinto. Ao passar pelas telas, não pude deixar de pensar naquele desenho antigo. Foi legal. Foi MUITO legal.

A exposição da Amélia era feita de coisas assim, mágicas e legais. No folder da exposição a gente vê uma série de crianças “brincando” com as obras. São bolas transparentes cheias de água e detergente pra você agitar e ver a espuma se formar. São “coisinhas de plástico cheias de cor” pra você apertar. Conchas, cristais, espelhos, pedras que cantam. Tudo você pega, aperta, curte.

Depois de atravessar o Caminho das Cores, topei com o Labirinto Azul. Uma série de chapas de metal sinuosas, algumas totalmente pintadas de azul, outras espelhos puros. Espelhos côncavos. Nossa, é muito estranho. Me lembrei das aulas de física do cursinho, aqueles diagramas malucos pra entender como a imagem refletida se formava no espelho côncavo. Era muito doido, porque a imagem se fazia “fora” do espelho e isso dependia de sua posição em relação ao centro de curvatura e ao foco do espelho. Na prática, dentro do Labirinto Azul, a gente entrava dentro do espelho, que nem a Alice.

Muito louco.

Mais a frente tinha uma “coisa” que o nome eu não sei. Era um grande colchão no chão, com um espelho no teto. Projetores de slide iluminavam quem se deitava com texturas e imagens de cristais. Deitado, olhando para o teto, a impressão era de que se estava flutuando no fundo do oceano ou talvez bem alto, lá no céu, junto com as galáxias muito muito distantes.

Muito louco.

Muito bom.

Engraçado como a fotografia não dá conta de mostrar tudo. A experiência, o estar lá.

Por exemplo, no museu ainda tinha outras exposições, uma do Manoel Araújo, que eu conhecia só como o autor do livro A Construção do Livro, que é simplesmente excelente. Lá fui ter contato com o Manoel como escultor, gravador e designer. E as fotos não fazem jus a seu trabalho. Olhando de frente, são relevos em madeira, “máscaras” simétricas, mas essa simetria se perde quando você olha de outros lados. Mais ou menos como o rosto humano. Isso tudo se perde na foto. Você precisa estar lá pra curtir.

“Máscaras” é como ele chama aquelas coisas enormes, com pregos, madeira, metal e cristais. Fico imaginando quem usa essas máscaras, de quem são os rostos que elas representam. Elas têm nomes de orixás, de elementos da natureza. Cosmogonia dos Símbolos é o nome da série.

E entre o “Olho” e o museu, no espaço entre as escadas, uma exposição de fotografias chamada Instantâneos da Felicidade. São fotos de gente como Sebastião Salgado, Cartier Bresson, Édouard Boubat, Jean-Philippe Charbonier e mais uma patota. A Tropa de Elite da fotografia. Rá.

Claro que o texto de apresentação dessa exposição só podia começar com: “A felicidade... Afinal, o que é a felicidade?”.

RÁ!

Afinal o que é a felicidade? O que é o amor? O que é a solidão? Se não sabemos o que são essas coisas, como podemos saber se já não as encontramos antes ou se não estamos imersos nelas agora? E pra que você quer saber disso? Que diferença ia fazer?

Rá.

Das fotos, foi a de Martine Franck mostrando Tulku Khentrol Lodro Rabsel com seu tutor Lhaguel, no mosteiro Shechen de Bodnath, Nepal, 1996, a que mais me chamou a atenção. Não sei que são o tal Tulku nem o Lhaguel, mas curti a leveza, a alegria do momento. A simplicidade. A parceria entre tutor e aluno. A amizade entre passado e futuro. E qualquer outra idéia melosa do tipo.

Mas será que as fotos apresentam mesmo a felicidade daquele momento? No fim, será que não são apenas fotos, mostrando pessoas que não conhecemos e que supomos estarem felizes? A felicidade pode ser contida numa foto? As cores, o cheiro, o riso? A memória.

Felicidade.

Estamos morrendo, jovem.

Desligue essa droga de computador e vá viver um pouco.