sexta-feira, dezembro 28, 2007

For a found harmonium




Outubro sabia, é claro, que o ato de virar uma página, de terminar um capítulo ou fechar um livro, não terminava uma história.
Tendo admitido isso, ele também declararia que finais felizes não eram difíceis de se encontrar: "É simplesmente uma questão", Outubro explicou a Abril, "de encontrar um canto ensolarado num jardim, onde a luz é dourada e a grama macia; um lugar para se descansar, parar de ler, e ficar contente".
De O Homem que Era Outubro, por G.K. Chesterton / Biblioteca dos Sonhos


Como um final de livro.

Como um final de filme.

Como um final de ano.

E esse foi sobre se consertar das coisas intangíveis que chacoalham as nossas almas e outras bobagens relevantes. Esse foi sobre aceitar a saudade, aceitar a vida e seguir em frente.

Inventamos um final, roubamos algumas palavras e uma música, sobem os créditos e nos preparamos para um novo começo.

E, pela primeira vez em muito tempo, tudo está bem.

Tudo está bem!

Rindo à toa, em algum lugar ensolarado de luz dourada e grama macia.

Feliz 2008 pra você.

Com muita música, cor e pessoas legais.


(Texto de O Homem que Era Outubro escrito por Neil Gaiman em Sandman: Estação das Brumas.
Music for a found harmonium composta por Simon Harry Jeffes e executada por Penguin Cafe Orchestra).

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Feliz Natal




Fui pra praia.
Praia, praia, praia, sol, areia e bundinhas gostosas.
Aquele calor insuportável que aprendi a gostar.
Amo muito tudo isso.
Curtindo o apartamento do primo em Florianópolis, curtindo a cidade, a comida, tudo de bom. Daí uma hora eu estava sentado lá no banheiro e comecei a fuçar na pilha de revistas que tem ao lado da privada. Acabei achando uma Superinteressante com "A Verdadeira História do Natal". Ah, é! É natal! 25 de dezembro e tal!

Natal, a época em que comemoramos o nascimento de Jesus. Não que isso fique muito evidente nas decorações natalinas. Pinheiros, simulação de neve, ursos mecânicos que cantam e dançam. Não consigo enxergar a ligação com o nascimento de Jesus, mas é lógico que há uma explicação.

Daí essa Superinteressante. Muito legal. Antes do menino Jesus, tipo assim, uns sete mil anos antes, já tinham festas nessa época que comemoravam "o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro". A partir dessa noite, o sol fica mais tempo no céu, os dias ficam mais longos e tudo começa a nascer de novo, rumo ao clímax do verão. Era por isso que um monte de gente celebrava: era o retorno do sol, da luz da vida. E pra celebrar, muita festa, comida e bebida.

Segundo a Superinteressante, cada povo celebrava à sua maneira, com seus deuses e crenças. Gregos rendiam homenagens à Dionísio, deus do vinho, com bacanais sensacionais. Os egípcios festejavam em honra à Osíris, os druídas da velha Grã-Bretanha festavam o solstício ao redor das ruínas de Stonehenge, os chineses homenageavam a harmonia da natureza representada pelo símbolo do Ying-Yang.

Daí surgiu o cristianismo.

Bom, os cristãos não gostam de concorrência. Como não conseguiram sufocar as outras comemorações, incorporaram-nas. Na Bíblia (e me corrijam se eu estiver errado), não há nenhuma citação específica sobre a data de nascimento de Jesus. Assim, arbitrariamente, marcaram a data de 25 de dezembro e se "apropriaram" das comemorações de outras culturas. A Superinteressante cita o historiador André Chevitarese, da UFRJ: "Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural".

Dessa "troca cultural" vieram símbolos e costumes que podem parecer um tanto estranhos em relação aos textos bíblicos originais. A árvore de natal, por exemplo, vem do
Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. Um pinheiro cheio de lindas luzes e estrelinhas. Muito bonito, mas o que pinheiros tem a ver com a Nazaré da época de Jesus?

Aliás, essa é a parte mais engraçada! Tem a propaganda super-ultra-hiper-mega-jacu de um shopping de Curitiba que mostra o dito shopping durante a noite, erguendo-se imponente, coberto de neve e, diante dele, seus consumidores-zumbis com cachecóis e blusas sorrindo feito imbecis e olhando o infinito. Lógico que todo mundo já percebeu como esse clima de neve e de comemoração de solstício fica deslocado aqui por esses lados do Equador. Mas, fazer o quê? As tentativas de criar comemorações locais conseguiram ser mais rídiculas ainda que as tradicionais.

A surpresa pra mim foi a respeito do Papai Noel. Eu sempre pensei que a figura do bom velhinho tinha sido inventada pela Coca-Cola. Mentira! Foi um desenhista norte-americano chamado Thomas Nast que idealizou o visual do velhinho gordinho que conhecemos hoje, com base na figura do bispo Nicolau. Entretanto, foi
uma série de anúncios da Coca-Cola em 1931 que fizeram o Papai Noel bombar como o super-star do natal.

A título de curiosidade, achei na web a suposta primeira aparição do Papai Noel. O desenho de Thomas Nast é de 1863 e retrata um casal separado pela Guerra Civil Norte-Americana no Natal de 1862. O Papai Noel está ali, no canto superior direito, se preparando pra descer a chaminé...



Legal foi essa outra imagem de Papai Noel que achei na Wikipedia:


A foto foi tirada em 1902, nas ruas de Chicago. A placa diz: "Help the Volunteers of America send Santa down 10,000 chimneys". Algo como "ajude os Voluntários da America a enviar o Papai Noel para 10.000 chaminés". É uma outra coisa característica do Natal: o espírito de solidariedade e beneficência.

Nossa, vi um monte de reportagens sobre as crianças que escreveram cartas ao Papai Noel. Os correios recebiam as cartas, voluntários as liam e se organizavam de modo a atender aos pedidos. Fizeram uma série inteira de reportagens a esse respeito no jornal do meio-dia aqui em Curitiba. Em Florianópolis também vi algumas matérias semelhantes. Mostravam as cartinhas com pedidos singelos, como um caderno ou uma blusa. Geralmente eram escritas por crianças e mães pobres. Obviamente, essas reportagens apresentavam uma forte carga emocional. Muita gente chorando e tal.

O tal "espírito de Natal" encontra uma de suas mais célebres manifestações no Cântico de Natal (A Christmas Carol) de Charles Dickens. Você com certeza já viu essa história ou alguma similar: um velho avarento e explorador é visitado por três espíritos na noite de Natal, o Passado, Presente e Futuro. Eles o levam a ver os erros que cometeu e comete em função de sua ganância e o triste fim que o aguarda. Na manhã seguinte, o velho surta e vira um bonzinho generoso. Feliz natal para todos. Fim.



Eu particularmente gosto muito dessa história. Ela foi publicada em 1843, na Inglaterra. Mais de vinte anos antes de Marx publicar o primeiro volume de O Capital. E, de certa forma, tem mais a ver com O Capital do que parece. A exploração do trabalhador em busca do lucro desmedido é exatamente o que o velho avarento faz em Cântico de Natal. A miséria está presente ainda em outras histórias de natal. Histórias de sofrimento, privação e um milagroso ou redentor final, que traz lágrimas aos olhos. O espírito de Natal é exatamente essa redenção e talvez mais. Talvez seja o desejo sincero de quebrar com a ânsia de lucro e exploração desmedidas que impregna todas as esferas de relacionamento humano. Natal é trégua, época de fingirmos que somos todos iguais e nos tratarmos mutuamente com respeito e, talvez até, legítima afeição.

Pelo menos, essa é a teoria.

O que eu vejo é que, embora seja muito bonito e emocionante realizar os pequenos pedidos de Natal das crianças pobres, ao longo do ano não parece haver esforço algum para alterar as condições de penúria em que essas crianças vivem. Não há interesse ou vontade de tornar as condições sociais mais justas. Será que não há como mudar as condições que fazem essa criança escrever uma carta pedindo coisas tão simples quanto uma bola ou um caderno de escola?

Mas esse tipo de pensamento é coisa de comunista subversivo e comunista tem que queimar no inferno. Graças ao bom Deus existe o Natal, em que nós podemos exercer nossa generosidade e solidariedade, pra depois curtirmos férias na praia e voltarmos renovados para um novo ano produtivo de trabalho e conquistas. Deus abençoe a América.

E por falar em Deus... Natal, solidariedade, enfeites bonitos, compra de presentes... ei, e onde fica Jesus nisso tudo? Ah, ele fica quietinho, deitado na manjedoura no meio do presépio. Honestamente, o aspecto cristão do Natal não me parece ser o mais celebrado, embora ainda seja forte. Não me agrada a idéia de que é uma data arbitrária, criada para estimular a divulgação do cristianismo, apropriando-se dos símbolos e valores de outras culturas. O que temos hoje é um culto ao comércio encoberto com neve de isopor. O Natal é fake.

Curiosamente está para estrear justamente no Natal o filme infantil A Bússola de Ouro (The Golden Compass). Ele é baseado na série de livros de Philip Pullman, que é ateu convicto. E isso perturbou muito as autoridades eclesiásticas, como por exemplo a Liga Católica dos Estados Unidos e o próprio Vaticano, que descreve o filme como uma "saga ' fantasy' gnóstica com molho 'soixante-huitard' [alusão ao movimento de rebelião estudantil na França, em 1968], além de anti-Natal" que promove "uma ideologia atéia e inimiga de todas as religiões, tradicionais e institucionais, do cristianismo e do catolicismo em particular".

Uau, estou louco pra ver esse filme.

Talvez essa seja a idéia da polêmica. Talvez a Igreja Católica esteja de conchavo com o Philip Pullman e ganhe uma grana por divulgar o material dele através desse bafafá. O fato é que as vendas do livro aumentaram em 500%, embora o filme tenha ido muito mal nas bilheterias. Na verdade, o verdadeiro motivo da irritação da Igreja parece estar no fato de que, no mundo mágico criado por Pullman, as forças do Mal são representadas pelo "Magistério",
uma ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças. Hmm... por que será que a Igreja se ofendeu? Vou assistir o filme para melhor formar uma opinião.



Enfim, é Natal.

Complexo, intenso, paradoxal, emocionante, fajuto, onipresente Natal.

Boas festas pra você. Aproveite com quem você ama. Junte a família, dê muito abraço e beijo. Curta bastante. É o melhor a fazer.

Feliz Natal.
Ho
ho
ho.


(Para ler na íntegra a matéria citada da Superinteressante, "A verdadeira história do Natal", de autoria de Thiago Minami e Alexandre Versignassi, clique aqui).



quinta-feira, dezembro 20, 2007

A light of meaning in the darkness of mere being

Até onde podemos perceber, o único propósito da vida humana é buscar um lampejo de significado na escuridão do mero existir.
Carl G. Jung – Memórias, Sonhos, Reflexões.

Fulaninha passou em biologia, depois de tentar medicina veterinária por quatro anos. E já no primeiro semestre, encontrou Beltraninho, que seria seu parceiro para vida toda. Nas mesas de cerveja, Fulaninha e suas amigas riam e comentavam: “Era pra ser assim”.

Acaso, destino e livre-arbítrio estão entre as questões mais clichês e batidas da filosofia de boteco. Mas também são ferramentas fundamentais pra qualquer bom ficcionista. O jogo é muito divertido. Tudo começa com “E se...?”

E se Fulaninha tivesse passado em medicina veterinária na quarta tentativa? E se tivesse decidido tentar uma quinta vez? Ela encontraria Beltraninho? Quem ela poderia ter encontrado?

E quem não fica se perguntando “E se...?” sobre a própria vida?

E se eu tivesse sido mais esperto e não tivesse deixado você escapar?

Divagar sobre o que poderia ter sido não é uma coisa muito útil, mas é irresistível e inevitável, principalmente nessa época. Chegando o fim do ano, as famílias juntinhas, esse clima de Natal que mais parece lavagem cerebral via todos os canais possíveis de mídia. Não dá pra deixar de pensar. Olhando para os acentos vazios à mesa.

E se não tivéssemos perdido o bebê? Que nome ele teria?

Mas, mais bacana do que imaginar o que poderia ter sido é prestar atenção em como as coisas se tornaram o que são.

Saia pra rua e veja as coisas acontecerem. Um congestionamento de trânsito, você decide pegar outro caminho e encontra alguém que não via há tanto tempo. Dá uma carona pra pessoa e ela confessa que não deveria estar ali naquela hora, que foi um contratempo que a fez escolher aquele caminho. Se você ou ela tivessem passado um minuto antes ou depois, não teriam se encontrado. Mas estavam ali, naquele instante.

E assim começa alguma coisa.

Particularmente, acho uma bobagem essa conversa de Destino. Fico lembrando daquele cara ridículo que aparecia na tv dizendo com a voz anasalada “na vida nada acontece por acaso”. Fico pensando nos criacionistas que defendem o “design inteligente”. A vida é complexa demais pra ter acontecido por acaso, eles dizem. Tem que ter uma “mão” por trás de tudo.

Claro que tem. Só porque você quer.

As coisas acontecem e ficamos procurando conexões, explicações, relações de causa e efeito. Procuramos dar significado a eventos que provavelmente não tem nenhum. Mas, afinal, não é esse ato de procurar (e inventar) o sentido das coisas que nos define como humanos?

Há dias em que eu me assombro. As coisas funcionam com um sincronismo assustador. Pequenas coincidências que se desdobram ao longo do dia. Uma música que me faz lembrar de uma pessoa pela manhã e de tarde me ligam dizendo que ela morreu. Aprendemos a pensar em termos de causa e efeito, mas às vezes as coisas simplesmente acontecem. Sem razão ou propósito. E isso pode dar um parafuso na cabeça de muita gente. Principalmente na minha.

E, apesar de clichê, batida e óbvia, a questão permanece: há um padrão? Existe um sistema pré-ordenado ou as coisas simplesmente acontecem ao acaso? Ou um pouco dos dois?

Um padrão que se repete, uma rede de eventos, uma maldição, uma sina inescapável.

Estamos presos a um destino? Há como fugir dele ou mudá-lo?

E se for tudo uma invenção, podemos reinventar? Vamos parar com tudo e ir pra casa assistir tv bem cobertinhos no sofá? Você vem comigo?

“Faça as coisas acontecerem”, disseram. “A sorte não vai vir bater na sua porta procurando você”, disseram. Mentira. Ela veio sim. Ela veio bater em minha porta uma vez. Disso eu nunca vou esquecer. Dela eu nunca vou esquecer.

Uma música toca pela manhã e à tarde uma pessoa está morta.

Mas eu ainda não morri.

Ainda estou aqui pra andar pelas ruas, pra pensar nas coincidências. Pra fazer a minha sorte e a sua também. Jogar dados e marchar na lama. Beba comigo. Ria comigo. Eu ainda não morri.

E lá vamos nós de novo...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Uma estranha e indefínivel certeza...

Era um sonho.

Engraçado como tudo fica muito vago na lembrança. Eu lembro do chão de cimento, algo como uma laje e lembro de alguns vasos e folhagens, uns postes de concreto sustentando um varal e alguns lençóis brancos talvez. E o céu azul. Com nuvens brancas. É disso que eu lembro. Vagamente. Imagino que eu estava naquele lugar sozinho. Não lembro de ninguém lá. Mas eu não deveria estar sozinho, porque alguém me falou, isso eu ouvi nitidamente, claramente. Alguém falou pra mim:

Você não sabe a sorte que tem. Não sabe a sorte que tem! Todo o dia, toda a noite você sai para as ruas, você passeia por essa cidade e não sabe dela, dessa pessoa que existe morando na mesma cidade que você.

Morando na mesma cidade que você.

Você pensa que sabe das coisas, pensa que tem saúde, que tem controle da sua vida. Mas se você encontrar essa pessoa, se você olhar pra ela e tomar consciência de sua existência, você vai saber o que é dor. Você vai sentir seu estômago se esvair feito ácido. Você vai sentir o gelo mais puro dentro do seu peito.

E se ela olhar pra você...

Se ela olhar pra você, você morre. A mais definitiva de todas as mortes.

A mais

definitiva

de todas as mortes.

Você entende isso? Há uma pessoa assim, vivendo na mesma cidade que você, e você pode encontrá-la a qualquer minuto.

A qualquer minuto.


Não lembro de quem disse isso. Mal lembro da voz que ouvi. Mas as palavras ficaram aqui dentro da minha cabeça. Ressoando o dia inteiro. Enquanto eu caminhava pelas ruas, dobrava esquinas, entrava nas casas.

Uma pessoa...

domingo, dezembro 02, 2007

...e hoje foi domingo.


Ontem teve sessão de cinema lá no Paralelo.

O Paralelo, pra quem não sabe, é um lugar legal onde as pessoas se reúnem pra fazer, pensar e discutir esse lance das imagens. Daí eles estão exibindo uma série de filmes do diretor espanhol Julio Medem. Ontem foi Os Amantes do Círculo Polar.

Segundo a resenha da Nicole:

Otto e Anna conheceram-se quando eram crianças, por acaso,porque é no acaso que as pessoas se relacionam.Tudo começa em 1980, quando têm oito anos saem do colégio a correr por diferentes motivos. Desde essa tarde começa a desenhar-se um círculo que só se completa dezessete nos mais tarde, quando ambos têm vinte e cinco anos.

O filme é maravilhoso. O tempo todo fala-se de ciclos. Nos diálogos e monólogos, nas imagens. É um filme sobre amor.

Num dado momento, o pai fala para o menino: “Às vezes o amor acaba. É como um carro que fica sem gasolina. Então ele pára”.

Ciclos. Tudo começa, acaba, recomeça. Primavera, verão, outono, inverno. Todo relacionamento acaba, mais cedo ou mais tarde. Mas há duas possibilidades. Na primeira o amor acaba que nem a gasolina do carro. Alguém precisa aceitar que não é mais amado. A relação esfria. A relação morre.

A segunda possibilidade é a morte. Como Romeu e Julieta, como Meg Ryan em Cidade dos Anjos, como as saudades que o velhinho de Os Amantes do Círculo Polar sente da falecida esposa. O maravilhoso com a morte é que a relação vive para sempre. Torna-se “um amor pra vida toda” e além dela. Impedido de se consumar, o amor sacraliza-se. O pessoal do cinema adora essa idéia e parece que o público também.

Os Amantes do Círculo Polar é bem melhor e apresenta bem mais coisas interessantes do que expus aqui. Mas essa idéia dos relacionamentos me fascina. Como começam e como terminam no mais completo acaso. Como parecem enriquecer de significado a vida dos amantes.

E hoje foi domingo.

Não fiquei pensando tanto no filme, mas sim no cheiro do Paralelo. O Paralelo fica numa sala nova, cheirando a tinta ou cola ou sei lá o quê. Estive no Paralelo umas três vezes, mas é esse cheiro que sempre me chama a atenção. Cheiro de material de construção, de habitação recém-construída. Mas também é cheiro de lugar novo, de expectativas, de novos começos, de esperanças. É o mesmo cheiro que tinha meu apartamento, nos primeiros dias que morei lá.

Ciclos.

Chegando fim de ano e pra mim é hora de recomeçar. Mais uma vez. Tudo. Abrir as portas para o acaso, para o novo. A Marilda perguntou outro dia como eu estava e, sei lá por que, respondi:

“Sabe quando um trapezista salta, aquele momento que ele fica suspenso no ar, acreditando que vai ter uma barra onde se agarrar no instante seguinte, mas sem ter certeza nenhuma disso? É assim que estou.”

Ciclos.

Cheiro de começos novos, expectativa de um acaso favorável para criar um significado maior na minha vida, planos não muito detalhados com muito espaço para o improviso.

We're on a road to nowhere e aquela história toda.



Passei a tarde de hoje jogado no sofá, lendo, ruminando a vida. Pensei em sair, ir assistir no Cine Luz A Vida Secreta das Palavras, mas, pôxa, um domingo lindo desses e sair pra ficar sentado em uma sala escura?

Fiquei no sofá mesmo, lendo, espreguiçando, dormindo. Até parece coisa de velho em asilo. Mas foi um bom domingo.

É... um bom domingo...

E desejo a todos uma boa segunda.

Especialmente aos corintianos.

:-)