quarta-feira, dezembro 31, 2008

AEEEEEEEEEE!!!!

Em 2008 vi o Agente 86 no cinema. Sempre gostei do Agente 86. Por isso essa última postagem do ano. Pra fechar 2008 com 86 postagens. Ha! E qual o assunto da última postagem?

Bem, estou aqui para desejar


De coração.
Um 2009 maaaaaaassa véio a todos!

Até!

o ano do rato

2008, segundo o horóscopo chinês (ou japonês, sei lá), foi o ano do rato.

Não sou astrólogo, mas escuto umas coisas aqui e ali. Um camarada meu, que faz secretamente parte de uma seita secreta que guarda os segredos milenares da sabedoria oriental, comentou comigo que 2008 foi o ano das transformações.

Nas festas e confraternizações de fim de ano, escutei muita história por aí. Esse ano, um conhecido, aos 30 anos, foi descobrir quem era a verdadeira mãe.

Um amigo meu, de infância, sofreu um acidente no começo do ano. Agora em dezembro eu conversei com ele, ele me olhou nos olhos e disse que os médicos não acreditavam que ele fosse sobreviver. Algo mudou nesse meu amigo, algo na sua voz e falar com ele dá um arrepio na alma.

Outro amigo passou três vezes pelo hospital, por três razões diversas.

Não foi fácil pra ninguém.

Esse ano teve os crimes das meninas. A menina jogada da janela, a menina encontrada na mala da rodoviária, a menina morta no matagal.

Esse ano teve Santa Catarina e suas chuvas.

Esse ano fedeu a ódio, dor e medo.

E esse ano eu reclamei demais.

2008 foi o Ano do Rato. Um rato feio, medonho. Mas também cheio de energia, de fúria, de tenacidade. Desse ano saio bem melhor do que entrei.

Agora o ano acabou. Vira a página. Nova vida. Eu acredito nisso, acredito nessa mágica da virada de ano, a mágica da meia-noite. E acredito que 2008 foi uma longa meia-noite. Foi o ano da transformação, da mudança, e a mudança é lenta, muito lenta e trabalhosa.

Eu sinto orgulho por ter passado por esse ano. Ele foi duro e desgastante, mas também rendeu ótimos frutos. Desse ano levo comigo dádivas simples e maravilhosas que manterei comigo pela vida e só me dou conta disso agora, no final, quando paro pra pensar e olho para trás. E valorizo justamente porque sei que o trabalho que deu.

Esse ano aprendi que eu esqueço as coisas que aprendo. Incorri em velhos erros, repeti velhas bobagens. Encarei os mesmos defeitos de sempre. Aprendi a aceitá-los. Fiquei melhor.

O ano acabou.

Vamos em frente.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Feliz Natal

Quantas abas você consegue abrir no seu Firefox?

Quantas janelas você mantém abertas na sua tela?

Na sua vida?

Natal pra mim sempre foi infância. Depois que a minha passou (porque, apesar de tudo, minha infância passou), depois que a minha passou... bom, o Natal meio que se perdeu.

Natal era casa da Vó e especial do Zé Colméia na TV. Era esperar ansioso pelos presentes e passear pelas histórias da tv. Era ceia gostosa e família unida. Era algo inocente. Leve. Seguro.

Daí a Vovó morreu, a casa foi desfigurada, a família se esfacelou e os especiais de tv de natal se tornaram bobos... ou talvez sempre tenham sido e só pareciam bons aos meus olhos de criança.

E eu cresci.

Ser adulto implica em um monte de coisas. A maior delas, eu diria, é a questão da administração. As abas e janelas que extrapolam o desktop.

Ser adulto é gerar opções, fazer escolhas, tomar atitudes e arcar com conseqüências. É ter a ilusão de controle e de repente ter que lidar com o inesperado, com as surpresas da vida, sejam elas boas ou ruins.

É tentar manter a fé em um sentido e um propósito maior na vida, mesmo quando acontecem coisas tão brutais que nos fazem pensar o contrário.

Uma das minhas histórias favoritas era (e ainda é) o Cântico de Natal de Charles Dickens. Essa história é um hit e teve várias versões. Desde Os Fantasmas Contra-Atacam, estreado por Bill Murray, na onda dos Caça-Fantasmas, até Mickey's Christmas Carol, adaptação do conto de Dickens com tio Patinhas no papel de Scrooge.

Conhece a história do velho avarento Scrooge? Você deve conhecer. É a história do velho pão-duro, cruel e miserável que é levado pelo Passado, Presente e Futuro por três fantasmas na noite de Natal. Depois dessa visitas e passeios extraordinários, o velho transformava-se. Transfigurava-se. Tornava-se solidário, transformava o mundo ao seu redor.

Redenção e solidariedade.

É Natal, gente.

Aliás, a história do Scrooge é a cara do Natal e das festas de fim de ano. É o lance da reflexão sobre o que passou e o que virá... e da esperança de podermos mudar. Talvez pra melhor.

Quando eu era criança curtia Sítio do Picapau Amarelo, a Turma do Zé Colméia, o seriado do Batman barrigudo. Na minha cabeça, imaginava essa galera toda convivendo no mesmo espaço fantástico. Era legal, era bacana. Eu nunca estava sozinho porque esse pessoal colorido estava lá comigo, dentro da minha cabeça.

Cresci, mas claro que fica alguma coisa da criança aqui dentro. Diferente, mas está lá. É essa criança que faz com que novos personagens ainda caminhem comigo. E, às vezes, eu ainda os imagino convivendo numa mesma realidade. Sim, é uma tolice, mas dessa tolice aparecem cenas interessantes.

Por exemplo, esse ano teve dois personagens que ficaram zanzando pela minha cabeça. Mestre Oogway e o Coringa.

Oogway é a tartaruga milenar que transpira sabedoria em Kung Fu Panda.

"Não existem acidentes", mestre Oogway diz.



Num dos momentos do filme, o mestre diz ao inseguro e ansioso panda Po: "Você está preocupado demais com o que você foi ou com o que você será. O ontem já foi e o amanhã ainda não nos interessa. Mas o dia de hoje é nosso. Estar aqui agora é uma dádiva. É por isso que se chama Presente".

Lindo. Fabuloso.

Kung Fu Panda é um desenho muito bacana, mas, pra mim, no momento particular que estava passando, foi terapêutico.

Já o Coringa...

Que dizer do Coringa? Ele é sensacional, assustador, sem limites. Tenebroso.

Enquanto Oogway representa equilíbrio, serenidade e a certeza de que as coisas são do jeito que deveriam ser, o Coringa é o agente do caos, é o louco que não tem nada a perder e arrisca colocar uma arma na própria cabeça pra provar um ponto de vista. É o louco que despenca para morte gargalhando.

“Eu não faço isso pelo dinheiro” diz o Coringa.


Comparar Oogway e o Coringa é absurdo, mas, como eu disse, lá no Teatro do Fundo da Minha Cabeça os dois coexistem. Os dois extremos. E quando Oogway diz que não existem acidentes, o Coringa ri e lembra da menina violentada, morta e abandonada dentro de uma mala na rodoviária. O Coringa ri, debocha e lembra de todas as sombras, todas as mortes e misérias que se arrastam lá fora todos os dias do ano e que continuam lá, mesmo na noite encantada de Natal.

Como pensar nessas coisas e acreditar que não existem acidentes? Como acreditar que existe um propósito em tudo se acontecem coisas tão cruéis e brutais? Qual o sentido da crueldade, da brutalidade absurda? Como a morte de uma criança pode fazer parte de um plano maior?

E, no Teatro do Fundo da Minha Cabeça, vejo Oogway. Um close daqueles de cinema, seus olhos e toda sua expressão de imagem 3D imbuída de intensidade, de uma compreensão e compaixão que transcendem minha imaginação.

“Não existe sentido” ele diz. E sorri. Um sorriso de pesar?

“Resista”, ele diz.

“Relaxe”, ele diz.

E voltamos para a vida adulta, consciente, equilibrada.

As janelas e abas estão fechadas, o computador está desligado e saí de férias. Férias do meu trabalho, do meu mundo e de mim. Longe de todos, de tudo, em um lugar secreto. O tempo parou. Céu e silêncio.

E o Teatro. Os Personagens. As Máscaras.

Jamais sozinho.

Os milagres de Natal: Redenção e Transfiguração.

Será que dessa vez vai?

domingo, novembro 30, 2008

A Hora do Pregador



No princípio, havia o Caos...

Preacher foi uma das séries de quadrinhos mais badaladas dos anos 1990. Não chega a ser uma obra-prima dos quadrinhos, mas é muito, muito bacana.

Aqui no Brasil, ele foi publicado em português pela primeira vez em 1997, pela extinta editora Metal Pesado. Foi uma publicação bem irregular, com atrasos e trocas de editoras. Além da Metal Pesado, ele passou pelas editoras Tudo em Quadrinhos, Fractal , Atitude e Brainstore, que muitas vezes eram a mesma editora só que com nome diferente, mas essa é outra história bem mais complicada por isso deixa pra lá...

Acho que essa complicação foi uma das razões que me impediu de acompanhar Preacher durante os anos 90. Porque, acredite em mim, eu tentei.

Mas a bem falar da verdade, não fiquei lá muito empolgado com a edição número 1. Era uma história legalzinha, mas não me fisgou. Ainda em 1997, a Editora Abril lançou uma minissérie com o Santo dos Assassinos, que é um dos personagens principais da série Preacher. Eu achei a história uma bosta. Muito forçada, muito ruim. E deixei Preacher pra lá.



Agora, quando paro pra pensar, acho que a tal bagunça da publicação nacional contribuiu muito pra minha impressão negativa de Santo dos Assassinos e Preacher. Pra começar, os dois títulos foram publicados aqui no Brasil em 1997. Mas Santo dos Assassinos (Saint of Killers) era uma série derivada de Preacher. Nos EUA, Preacher havia sido lançada em abril 1995 e Saint of Killers em agosto de 1996. Lá teve um ano e meio de série regular preparando o terreno pra minissérie do Santo. Aqui, elas foram lançadas praticamente ao mesmo tempo, por duas editoras diferentes. Ainda assim, na minha memória, a história parece muito chinfrim.

Enfim, questões de momento...

Os anos passaram e eu escutava a galera falando bem de Preacher, mas era difícil e desanimador tentar conseguir as edições nacionais e eu não tava a fim de comprar as importadas (preguiça de ler em inglês...).

Mas foi então. Que aconteceu.

Daí, no meu aniversário desse ano, o camarada Claude me deu um volume de Preacher. A série tinha sido encadernada em um único volume pela editora Devir em abril de 2006. Na dedicatória, o Claude escreveu:

“Toda história tem um começo. Que essa seja a primeira aventura de sua peregrinação ‘religiosa’”.

E assim começou.

Ler Preacher em um só volume foi muito mais encorajador do que ler “picadinho” nas séries mensais. Aliás, esse é um problema que vejo no modo como a indústria formata as histórias em quadrinhos. No caso dos comics americanos, geralmente temos uma história dividida em capítulos, de 20 a 22 páginas cada que são lidos em 10, 15 minutos. Então temos um hiato de 30 dias ou mais antes de prosseguirmos a leitura. São 15 minutos de leitura com intervalos de 30 dias. Assim não dá pra mergulhar na história, que se dilui, perde a força.

Essa foi a maior diferença que senti ao ler esse Preacher encadernado. É o tipo de história que funciona melhor no formato livro, com todos os capítulos da história reunidos em um só volume. Você lê e saboreia como um livro. Você decide quando serão os intervalos entre um momento e outro da história e quanto tempo esses intervalos vão durar.

Assim, li minha edição encadernada de Preacher.


Se for ler, comece por aqui. Esse é o primeiro volume.

Olha só, Que cara estranho que chegou

Uma das coisas legais em edições encadernadas é que elas geralmente vêm com um texto introdutório. Às vezes esse texto é escrito por um “convidado especial”. No caso de Preacher, o texto de introdução é de autoria de Joe R. Lansdale e ele escreve:

“Em primeiro lugar, com relação a Preacher, bem, não existe outro igual a ele. Vamos deixar isso um pouco mais claro. Vamos até repetir para os mais lerdos. NÃO EXISTE OUTRO IGUAL A ELE”.

Bem, se você, como eu, nunca tinha ouvido falar de Joe R. Lansdale, eis uma brevíssima biografia tirada da Wikipedia: Lansdale é um escritor texano, especialista em artes marciais e autor de histórias bizarras como Bubba Ho-Tep, onde Elvis Presley e John Kennedy ainda estão vivos, vivendo secretamente em um asilo onde, de repente, são obrigados a combater uma múmia egípcia para impedi-la de tomar as almas dos outros velhinhos. (Bubba Ho-Tep virou filme, mas você só vai assistir se conseguir baixar da web...)



Bizaaaaaarro...

Esse senhor Lansdale descreveu Preacher como único. Mas não é bem assim.

Enquanto escrevo esse texto, escuto a trilha sonora de Pulp Fiction. E é incrível como ela combina com Preacher. Existe muita coisa em comum entre Preacher e Pulp Fiction do Quentin Tarantino. Ambas são histórias desconcertantes, surpreendentes, escatológicas e transbordantes de violência. E, ainda assim, conseguem ser muito mais do que isso.

Como Tarantino, Garth Ennis, o escritor de Preacher, enche suas tramas com diálogos memoráveis e situações que extrapolam os limites do convencional. Cria personagens cativantes e outros assustadores e ao mesmo tempo patéticos. O mais bacana em Preacher é como ele consegue juntar situações chulas, palavrões, material de baixíssimo calão e elementos de mau gosto com uma história empolgante sobre aventuras, amizade, amor, fé, dignidade e traição. É essa mistura toda que torna Preacher diferente do que se vê por aí.


Nossos Bons Companheiros

Jesse Custer era pastor (em inglês: preacher) numa cidadezinha perdida no meio do Texas. Numa manhã, durante o culto, a cidade toda foi destruída por um fogo sobrenatural. Custer foi o único sobrevivente. Ele havia sido possuído por uma criatura chamada Gênesis, um híbrido entre anjo e demônio que havia escapado do Céu.

Gênesis é uma força pura e incontrolável, destituída de consciência plena. Através dele, Jesse Custer adquire algumas habilidades interessantes. Uma delas é a Palavra, que lhe dá a “Voz de Deus” para comandar qualquer ser pensante, obrigando-o a fazer qualquer coisa que lhe seja ordenada. Junto com a Palavra, Jesse adquire algumas lembranças da Entidade.

Acaba descobrindo que Deus havia abandonado o Céu e deixado toda a Criação aos cuidados dos anjos. Indignado com esse abandono por parte do Criador, Jesse decide partir em sua busca, para encontrar Deus e obrigá-lo a se explicar.

Desnecessário dizer que, com uma premissa dessas, Preacher tinha tudo pra se tornar polêmico entre os religiosos. Entretanto, pelo que pude verificar, não houve tantos escândalos ou protestos quanto era de se esperar de um país cheio de “ativistas” como os EUA.

Em sua busca, Jesse conta com a ajuda de Tulipa O’Hare, sua amante, que pra arranjar uns trocos às vezes trabalha como matadora de aluguel. Cassidy, um vampiro Irlandês junkie fecha o trio de viajantes que pegam a estrada pra encontrar Deus.

Ainda na história encontramos o Santo dos Assassinos, que é o Anjo Exterminador do Senhor, despertado pelos anjos que tinham ficado no comando especialmente para encontrar e matar Custer e Gênesis antes que eles encontrassem seu alvo. O Santo é um daqueles personagens estilo Darth Vader, que é superfodão e quando ele aparece na área você sabe que não vai ser brincadeira. O Santo é o único dos vilões (se é que podemos considerá-lo um vilão) que não apresenta um aspecto patético. Ah, sim, em Preacher temos um desfile de diversos personagens, alguns muito mal intencionados, mas todos com alguma característica desconcertante, patética.

Na galerira de personagens também encontramos o Cara de Cu, um garoto que após levar um tiro no rosto... bem, você pode imaginar como ficou o rosto dele. Há o Senhor Starr, líder de uma organização secreta e que apresenta algumas... peculiaridades. E John Wayne, o próprio John Wayne dos faroestes, que aparece para Jesse Custer como uma mistura de "amigo imaginário" e "Grilo Falante". E outros...

Na Trilha do Senhor

Além desses personagens, o que fascina é a criatividade do escritor Garth Ennis. Cada história apresenta detalhes da trama maior, mas apresenta uma situação fechada. São histórias sensacionais e aterradoras sobre assassinos seriais, famílias insanas, organizações secretas e outros lances do tipo. Tudo marcado por um ritmo e uma violência alucinantes.

As histórias fazem lembrar um pouco o espírito dos quadrinhos Underground dos anos 1960, de trabalhos de sujeitos como Robert Crumb, Spain Rodriguez, Gilbert Shelton, Victor Moscoso e mais uma galera. Juntos esses caras foram responsáveis pelo lançamento, em 1968, da revista Zap Comix, que zoava com todos os dogmas da sociedade norte-americana. Aliás, zoar com os dogmas da sociedade norte-americana era o propósito de todo o movimento Underground... Enfim, Preacher tem um bocado disso tudo, de zoar, criticar, chocar.


Capa e página interna do livro Zap Comix, lançado no Brasil pela Editora Conrad.


Não se trata só de choque pelo choque. Tem muitas coisas interessantes em Preacher. Como eu dizia, eu tinha gostado da primeira encadernada, mas ainda não tinha sido realmente fisgado. Seis meses depois de ler o primeiro volume é que fui comprar o segundo. E aí, meu irmão, fiquei de cara.

Em Até o Fim do Mundo temos reunidas duas histórias longas: Tudo em Família e Caçadores. Digamos que quando comprei o livro eu estava passando por uma situação turbulenta na minha vida. Muito stress e aquela sensação de que havia perdido meu rumo. Comecei a ler Tudo em Família e ela conseguiu o melhor que uma história pode conseguir: arrebatou-me da minha realidade. Por um momento, esqueci dos meus problemas. Mais ainda, quando tive que encarar o desfecho de minha situação, eu ainda pensava “Mas como Jesse e Tulipa vão escapar das garras da vovó?”.

Não vou entrar em detalhes da trama aqui, porque uma das maiores forças de Preacher está justamente no virar de folhas, nas surpresas que espreitam pelo caminho. Mas se você curte o bizarro e não tem neuras religiosas, se você curte o trabalho do Tarantino, então você precisa ler Preacher.


Na sua peregrinação, siga por aqui. Este é o segundo volume.


Terceiro volume.


Quarto volume.


Quinto volume. Aqui terminam as encadernadas lançadas
no Brasil. Falta lançarem ainda mais três pra fechar a série.
Se tiver pressa, compre as versões americanas...


Essa é uma edição com histórias dos personagens da série.
Não é fundamental, mas se você curtiu a série...


Até o Fim do Mundo

Depois de ler o segundo volume, fui até minha banquinha favorita (sim, a Itiban) e comprei tudo que consegui achar de Preacher. E a história não pára de me surpreender.

Não se trata só do bizarro ou do herege. O bacana é a relação dos personagens principais. Com Jesse, Tulipa e Cassidy, Garth Ennis escreve brilhantemente sobre relações humanas. Os personagens se desdobram, se reinventam, surpreendem. Para o bem e para o mal.

Garth Ennis já tinha feito um ótimo trabalho nas histórias de John Constantine. Assim como em John Constantine, Preacher é uma história feita de uma perspectiva masculina e muitas vezes machista. E Ennis sabe que está sendo machista e assume isso. As conversas entre Cassidy e Jesse são fascinantes e carregadas de sinceridade e realismo. É como se estivéssemos no bar, conversando com os camaradas.

Tulipa é uma tentativa de fazer uma personagem feminina forte. Mas pra mim, ainda parece apenas uma personagem feminina escrita por um homem. Ela soa meio falsa, não me convence muito. Ela é decidida, forte, determinada e independente, mas apesar de toda a boa intenção de Garth Ennis, ela é mais um personagem masculino do que uma personagem feminina.

E por fim, a relação religiosa. Um ponto bem polêmico. Garth Ennis é ateu e não parece se importar muito com escrúpulos ao usar Deus e seus anjos como personagens nada nobres. Entretanto, nas entrelinhas de Preacher você vê idéias e temas sinceros. Debaixo de toda a escatologia e pandemônio, há uma visão otimista, há uma boa intenção, um discurso sincero, que passa despercebido se você olhar pra coisa com preconceitos.

Os dois quadrinhos que abrem esse post foram uns dos que mais me fizeram pensar. Conheço bons amigos que se “converteram” e “viram a luz” após chegar ao extremo do desespero. Hoje, são pessoas felizes (ou pelo menos assim parece). Mas também são pessoas que foram transformadas num nível radical e que se tornaram praticamente irreconhecíveis e inacessíveis pra mim. Pessoas que sinto falta.

A conversão por meio do desespero sempre foi algo que me incomodou. Se existe realmente um Deus, não acho que ele nos inflija o Mal para que nos joguemos de joelhos no chão. A fé é uma escolha espontânea e não uma imposição por ameaça.

Eu acredito que haja um Plano. Eu acredito que o Homem planeja e Deus ri. Eu acredito que as coisas sempre dão certo no final, mesmo que seja de um jeito que a gente não entenda direito.

Eu acredito.

E isso me basta.


sábado, novembro 29, 2008

Mais coisas para se pensar

Primeira parte:



Segunda parte:


Mais uma coisa:

Semana passada, eu estava lendo a revista Www.com.br, que trazia uma entrevista com Julius Wiedemann, que tem 34 anos, é carioca e atualmente mora na Inglaterra, onde trabalha como editor-chefe da Taschen. Wiedemann é autor de 27 livros sobre design, cultura, tecnologia e comunicação. E tem formação incompleta em Design Gráfico. Segundo a Www.com.br, ele "foi para o Japão trabalhar como editor de revistas de design", "depois de abandonar os cursos superiores de Design Gráfico e Marketing".

Pense nisso.


(Agradeço ao Rodrigo por ter me mandado o link desse vídeo. Valeu, cara!)

domingo, novembro 23, 2008

Terminal



E por onde você andou, afinal?

Ah, por aí. Trabalhando, filho. Trabalhando feito um desgraçado.
Mas não trabalhando que nem os caras que puxam aqueles carrinhos enormes cheios de papel pelas ruas. Às vezes eu olhava esse pessoal...
Mulheres puxando os carrinhos e dentro deles as crianças menores. Em volta os outros filhos. Eu via essa gente da janela do ônibus. O ônibus que eu pegava no terminal do Guadalupe.
Que é um lugar que realmente merece ser chamado de terminal.



De segunda a sexta eu estava lá, pegando o ônibus das 11 da noite. Eu me maldizia, maldizia a vida e pensava “trabalho feito um desgraçado” e daí via o pessoal puxando os carrinhos. Alguns deles tão entulhados de papelão que se transformavam em esculturas impossíveis de três metros de altura sobre duas rodas. No máximo o cara ia pegar uns 10, 15 reais por tudo aquilo.



Eu ficava na fila do ônibus das 11 (que, falando a verdade, era beeeeem menor que a fila das 5 da tarde). Daqui a pouco, passava aquele pessoal vendendo bala, chocolate, salgadinho. Uma vez um menino passou chorando, chorando de raiva e cansaço. Ele tinha que vender os últimos doces senão não podia ir embora. Ele tinha o quê? 10 anos? Um menino no Guadalupe às 11 horas da noite.

Terminal.




Eu achava que trabalhava feito um desgraçado. Uma vez um colega me deu carona de carro até o Guadalupe. Eu sempre achei esse cara um babaca. E ele sempre confirmou a minha impressão. Na hora de me desovar no Guadalupe, o idiota olhou na minha cara e disse: “olha só, pelo menos você vai sentado no ônibus, não tem que se preocupar em dirigir nesse trânsito”. É. Verdade. Nunca tinha pensado nas coisas por esse ângulo. Obrigado, estimado colega.




Na fila do ônibus vejo os mesmos rostos de sempre. Isso faz uns... vinte anos mais ou menos. Comecei a freqüentar o terminal na época que comecei a fazer o segundo grau. Depois continuei passando quando entrei na universidade. Depois, quando achei o primeiro emprego. E o segundo também.




Eles me diziam que o estudo ia construir meu futuro. Depois me diziam que se a empresa crescesse, eu cresceria junto. Alguns colegas de faculdade já tem esposa, filhos, carros na garagem. Alguns estão mais podres do que eu. E eu ainda estou aqui, na fila, tentando fazer o futuro acontecer. Acho que o mundo funciona diferente pra cada um.



Preciso cultivar bons pensamentos.




A gente costumava se reunir pra assistir Clube da Luta. Era meio que um culto nosso. “Tava deprimido ontem e daí asssisti Clube da Luta” dizia um cara. Tipo uma catarse. O lance era mandar tudo à merda. Foda-se o emprego, foda-se o terminal do Guadalupe. A gente passava por tudo isso pra quê? O que eu tinha na cabeça? Era como Cartas na Rua do Bukowski. A gente rala, rala, rala e toma no cu. Tem que é fazer a própria revolução. Que nem nos filmes. Manda tudo à meeeeerda.



Fazer que nem o cara do Beleza Americana. Pedir a conta e ficar em casa malhando. Um dia pego a ninfetinha da escola.
Um dia levo um tiro na cabeça.




Preciso cultivar bons pensamentos.



Preciso sair dessa.

(Imagens gentilmente usurpadas do filme Fight Club).

You have to give up


Você vai até um ponto.

Uma hora você descobre os seus limites. Sejam eles físicos, emocionais, intelectuais.

Ou morais.

Semana passada eu me demiti.

Já me demiti algumas vezes na vida. É um momento mágico.

A única hora em que você olha para o seu chefe e tem domínio total da situação. De verdade. Acho que é porque a gente não está mais a mercê da empresa. A gente diz pra ela que não precisa mais dela antes que ela diga o mesmo pra gente. A gente meio que trapaceia e estraga o jogo.

Talvez, quando tomamos a decisão de nos demitir, paramos de nos lamuriar da nossa situação e tomamos alguma atitude concreta para melhorar nossa vida. A demissão nos faz acreditar que temos algum controle sobre nossa vida.

E talvez tenhamos mesmo.

Enfim, eu me demiti.

Estamos de volta

Sumi, mas não morri.

Um singelo video clipe para retomar o blog:



(Sem nenhum significado subliminar ou oculto, esse video clipe está aí só porque achei a musiquina bacana. A banda é Headlights e o som deles é jóinha. Estamos de volta, povo. Senti saudades...)

sábado, outubro 25, 2008

Atualizando

Uma atualização rápida: o André tem um Blog sim. É o andrefm.blogspot.com. Lá vocês podem conferir os trabalhos do ser. E ele ganhou o primeiro lugar no Prêmio Fnac! Vai ter um álbum publicado ano que vem. Ah, loco! Parabéns, piá!

Quem vai salvar minha alma?




Todos os clichês estão aí.

Podemos inventar mil maneiras diferentes de dizer, mas a mensagem é sempre a mesma. A sensação é sempre a mesma.

A devastadora sensação de fim, de que não haverá um dia seguinte. De que ficaremos presos nesse momento desagradável e nada nunca mais fará sentido. Que o vazio dentro de nós durará para sempre. Para sempre.

O que não é verdade, de modo algum.

Todos sabemos disso.

A vida continua, as pessoas continuam se encontrando e a cena da mesa se repete de novo e de novo. Mas nem sempre estaremos sentados do mesmo lado. Às vezes seremos nós a dar/receber/devolver/negar o pequeno Senhor Cantor Vermelho Pulsante.

Às vezes seremos nós a escolher se salvamos uma alma ou não.

Mas sempre somos nós os únicos responsáveis por nossa própria ruína.


(O vídeo clipe é de Gnarls Barkley, canção Who’s Gonna Save my Soul, álbum The Odd Copple. Bonito, engraçado e triste.)

sábado, outubro 18, 2008

Olhe bem, preste atenção.

E daí, outro dia, acho que umas duas semanas atrás, o Lourenço Mutarelli veio aqui em Curitiba lançar seu novo livro: A Arte de Produzir Efeitos sem Causa.

Foi o livro mais perturbador do Lourenço que já li. E se você conhece o trabalho do Lourenço, sabe que isso não é pouca coisa. Não dá pra falar muito sobre a história pra não estragar. Mas se você decidir lê-la, saiba que ela é realmente perturbadora e você precisa prestar atenção pra perceber o quanto ela é perturbadora. É o tipo de detalhe sutil que pode passar batido.

Enfim, daí o Mutarelli veio aqui pra Curitiba e a Mitie e o Chico da Itiban montaram uma mesa bem legal onde o cara pôde conversar sobre o livro, a vida, o universo e tudo mais. Era uma quarta-feira e até que foi bastante gente, considerando que na mesma hora estava tendo, ali pertinho, uma palestra com os caras do mega-boga-foda Estúdio Lobo. Particularmente, acho que quem foi ver o Mutarelli saiu ganhando...

Enfim.

No meio da conversa com o povo, o Mutarelli tocou em diversos assuntos e tal. Daí teve uma hora que comentei com ele sobre o livro e os quadrinhos. Há passagens que eu acho que podiam ter um outro efeito completamente diferente se tivessem sido desenhadas em vez de escritas. Isso sem contar que há algumas ilustrações e diversos "recursos gráficos especiais". Eu achava que no desenho detalhista do Lourenço poderíamos viajar mais dentro da atmosfera que ele criou no livro. Foi aí que ele me disse uma coisa que me fez pensar: "nem todo mundo olha pra uma história em quadrinhos como você. Você é acadêmico, procura as coisas no desenho. As outras pessoas só viram as páginas".

Catso.

A verdade é que eu já tinha pensado nisso. Sempre se reclamou aqui no Brasil do mercado de quadrinhos. A meu ver, a opinião pública está mudando e ficando mais favorável. Quadrinhos estão se tornando objetos de consumo cool. Invadem as livrarias e as páginas dos cadernos de cultura. São temas de concursos e trabalhos acadêmicos (teses e dissertações). As coisas estão mudando para os quadrinhos, pelo menos no que se refere à sua relação com o grande público.

Entretanto, o Lourenço está certo. A maior parte das pessoas ainda não sabe como ler uma história em quadrinhos. Caracas, eu mesmo só comecei a me dar conta disso uns meses atrás. A gente passa de uma página para outra e não vê detalhes de fundo, detalhes de desenhos que acabam construindo toda uma série de significados e complementos à narrativa principal.

Talvez esse lance de olhar os detalhes seja trabalho de uma crítica especializada. Talvez seja legal simplesmente ler e curtir nossos quadrinhos na paz e sossego de nosso lar, cama, ônibus ou acento de privada.

Discutir sobre como se deve ler quadrinhos é meio como discutir como se deve ler uma obra literária. Acho que envolve muita coisa pra se pensar.

E no fim das contas, quem liga pra isso?

Bem, eu ligo.

E provavelmente você também, senão não teria lido o texto até aqui.

Vamos nos falando...

Dia do Professor


Ser professor é uma via de mão-dupla.

Supostamente, o professor ensina, passa conhecimento e tal. Às vezes, pode até fazer alguma diferença na vida das pessoas. Mas o mais bacana dessa profissão é o tanto de gente que você conhece. E você sempre está mais aprendendo do que ensinando. Em todos os sentidos.

Então, eu tenho esse lance com o desenho e os quadrinhos. Acho fantástico pegar um lápis ou pincel ou um caco de tijolo e transformar uma superfície em branco em algo mais. E tem desenhistas em especial que fazem a minha cabeça. No momento, os meus cinco desenhistas mais mais são Mike Mignola, Frank Quitely, John Cassaday, Brian Hitch e Chris Bachalo.

Mas tem outros malucos, por exemplo, o Frank Cho. Olhar pro traço do Frank Cho me dá vontade de sair desenhando. É empolgante. Um dia eu falo desses malucos com mais calma.

Hoje é dia do professor e vou falar de um aluno meu.

O André é um magrão que apareceu com uma pasta de desenhos embaixo do braço e quando vi o trabalho do cara, tive a mesma sensação que tenho quando olho pros desenhos do Cho. Vontade de sair desenhando. O André ainda é novo, tá no começo, ainda é piazão e tem um traço super-bacana. O mais legal é que dá pra ver o gosto que o guri tem pelo desenho. É empolgante.

Agora ele participou do Prêmio Fnac Novos Talentos e ficou entre os três melhores entre 600 participantes do país todo.

Vai lá, guri!

É como eu disse: ser professor é uma via de mão-dupla.

O que o trabalho do André me passa, além da competência técnica, é justamente esse gosto, esse prazer de desenhar, de brincar com o próprio traço, de deixar o desenho acontecer. Como um músico que deixa o som fluir. Acontecer. E fica lá no papel pra quem souber curtir.

Ver esse tipo de coisa faz essa profissão valer mais do que tudo.

(Agora é só esse preguiçoso montar um site...)

(Sim, era pra esse post ter sido publicado no dia 15 de outubro, dia do professor e também o dia em que o André descobriu que tinha ficado entre os três finalistas... mas minha agenda está insuportavelmente lotada e só consegui postar hoje... o que vale é a intenção, não?)

( 25 de outubro de 2008 - Atualizando: O André tem um Blog sim. É o andrefm.blogspot.com. Lá vocês podem conferir os trabalhos do ser. E ele ganhou o primeiro lugar no Prêmio Fnac! Vai ter um álbum publicado ano que vem. Ah, loco! Parabéns, piá!)

Mesmo? Mesmo.


O caso do Grampá é um dos mais singulares que já vi.

Desenhista brasileiro, da turma do Fábio Moon e Gabriel Bá. Esses caras foram os primeiros brasileiros a ganhar o Eisner. O Eisner Awards, se você não sabe, é uma das maiores premiações de quadrinhos do planeta. O equivalente ao Oscar. Daí os caras ganharam como melhor antologia independente, com a revista "5". Capinha aí embaixo.



Depois do prêmio, a "5" ficou bem difícil de achar. Tive ela em mãos e quase a comprei. Não comprei porque, sinceramente, não fiquei impressionado. Sim, eram desenhos bacanas, trabalho bem jóinha. Eram histórias sem palavras, em que os autores envolvidos faziam histórias sobre os outros autores. Tipo, eu te desenho numa história maneira e você me desenha em outra história maneira, sem palavras, daí a gente publica e concorre ao Eisner. Maneiro.

Então me desculpem, mas não fiquei empolgado o suficiente pra gastar os cinco reais que essa antologia custava.

Minto.

Teve uma coisa que quase me fez comprar a revista. Os desenhos do Grampá. Ele não fez nenhuma história, mas fez a capa e as ilustrações de abertura de cada história. Gente, dava gosto de olhar praquele desenho...

Daí começaram a falar desse Grampá na internet. Um zumzumzum. O Lourenço Mutarelli disse que o Grampá era o "filho" dele. Uau. Depois o Grampá apareceu envolvido numa adaptação para o cinema dos álbuns do Detetive Diomedes (obras do Lourenço). Vi o material que o cara tinha produzido e era tudo show.

Visitei o blog do ser e as ilustrações e trabalhos eram muito bacanas.

Daí começaram a falar que o Grampá ia lançar um álbum chamado Mesmo Delivery. Que ia ser sensacional e tal. Bom, desenhar bem o cara desenha. Ele é uma máquina de desenhar. Mas eu nunca tinha visto uma história do cara. Será que ele ia segurar as pontas? Até falava com meu chapa, o Zé: "E se depois de todo esse bafafá o álbum do cara for só desenho?"

Bom. Saiu o álbum.

E não era só desenho.

Mesmo Delivery é do caralho. Não só por causa do desenho, mas porque o Grampá consegue contar uma história bacana. Simples, despretenciosa e bacana.

Não dá pra falar nada do roteiro sem estragar a brincadeira. Basta dizer que é tudo muito rápido. E é incrível que ele consiga criar empatia pelos personagens com toda a velocidade em que as coisas acontecem. Acho que muito disso se deve ao talento do desenho e a despretensão de Grampá. Ele simplesmente conta sua história da melhor maneira possível, sem inventar firulas poéticas ou tramas intrincadas. Seu roteiro é extremamente honesto e é, sim, calcado principalmente no visual sensacional de suas páginas.

Sinceramente falando, é o álbum de estréia mais empolgante que já vi. Tem muito do mesmo que a gente vê por aí, mas o modo como Grampá trabalha esses clichês parece com o do Quentin Tarantino: é clichê e ainda assim é um espetáculo.

Ler Mesmo Delivery me fez lembrar de quando eu lia a antiga série Graphic Novel, que a Editora Abril publicava nos anos 90.

Leitura rápida, mas a gente guarda na estante com carinho.





(Não. O álbum não é preto e branco. É colorido, mas essas imagens aqui eu
achei na web e postei pra vocês terem uma idéia do desenho desse animal.)

Esse não viu o gatinho

Essa eu tirei do Blog dos Quadrinhos, onde o Paulo Ramos escreveu:

As ilustrações fazem parte de uma mostra que será aberta nesta sexta-feira em Londres.

A proposta da exposição inglesa é mostrar como seriam os "reais" desfechos dos desenhos animados baseados no par caçador/caçado.

Nas animações clássicas, quem é caçado sempre vence.

Segundo reportagem do portal BOL, "Splatter", nome da mostra, foi feita pelo artista plástico James Cauty. A idéia foi do filho dele, Harry, de 15 anos.



Céus. Não tenho mais tempo nem de escrever meus próprios posts...


domingo, outubro 05, 2008

Senhor Prefeito



Coincidentemente, hoje é dia de eleições.

Li nessa sexta e sábado dois volumes da série Ex Machina, escrita por Brian Vaughan e desenhada por Tony Harris. Conta a história de Mitchell Hundred, um engenheiro que trabalhava para a prefeitura de Nova York e após um misterioso acidente (sempre há um misterioso acidente), adquire a singular capacidade de "conversar" com máquinas. Desde um boing 747 até um palmtop ou uma .45 automática. Uma espécie de doutor Dolittle de engenhocas.

Junto com a capacidade de conversar com máquinas, Mitchell também passa a ter uma facilidade extraordinária em inventar equipamentos singulares, como um jato-mochila que dá ao cidadão a capacidade de voar. O mais interessante é que esse dom de "Professor Pardal" manifesta-se esporadicamente, quando Hundred está dormindo ou semi-consciente.Então, Hundred e seus dois amigos, Kremlin e Bradbury, decidem elaborar um uniforme e dar início a uma carreira como "super-herói".

Poderia ser mais um título do gênero nas bancas, se não fosse pela proposta dos autores. Mitchell Hundred supostamente vive no nosso mundo "real". Ele é o único ser do planeta a ter um "super-poder". Batman, Super-Homem e Homem-Aranha são mencionados exatamente pelo que são: personagens de quadrinhos.

Nessa perspectiva, a carreira de super-herói de Hundred não vai muito longe. A cada problema que ele soluciona, surgem outros. Por exemplo, ao desativar um trem do metrô para salvar uma vida, ele causa uma paralisia de onze horas no transporte coletivo de Nova York. Assim, diante da cidade, ele fica com uma imagem mais próxima do "Superpateta" do que do "Super-Homem".

Embora não se desse muito bem no negócio de super-herói, Mitchell realmente nutria um sentimento de ajudar as pessoas, de melhorar as coisas. Então decide tentar outra abordagem. Desiste da carreira de super e se candidata à prefeitura da cidade de Nova York. E ganha.

E é aqui que a história realmente começa. É sobre isso que ela fala. A origem e episódios da breve carreira de Hundred como super-herói são mostrados em flashbacks. Muito parecido com a estrutura narrativa de Lost. A narrativa principal é seu trabalho como prefeito.

Hundred precisa resolver toda uma diversidade de problemas, alguns sérios outros nem tanto, e conciliar essas soluções com as exigências e expectativas de republicanos, liberais, democratas e todo o tipo de gente e ideologias. Daí Brian Vaughan, o roteirista, dá um show. Escreve diálogos ótimos e cria situações muito bacanas. Acompanhar os quadrinhos de Ex Machina é um prazer. A cada página tem uma situação nova, uma surpresa mesclando humor e suspense.

E o bacana é que os "dons" de Mitchell não são deixados de lado. Pelo contrário, são integrados à trama e são a base de muitas situações intrigantes que acontecem aqui e ali. O "acidente" que lhe deu os poderes parece esconder bem mais coisas e esse mistério vai permeando o dia a dia do prefeito e de sua cidade.

Outra característica legal do trabalho de Vaughan é a construção dos personagens de apoio. Todos bem resolvidos e importantes para as histórias. No final do primeiro volume, vemos que Tony Harris se baseou em amigos e familiares para elaborar o elenco de Ex Machina. Há uma série de fotos e making ofs das páginas.

Como eu disse, Ex Machina procura se ambientar em nossa "realidade". Mas uma diferença fundamental entre o mundo de Hundred e o nosso está no que aconteceu no dia 11 de setembro. Em Ex Machina, Hundred consegue impedir que um dos aviões atinja seu alvo. Assim, uma das torres permanece em pé. Já tinha lido muita coisa sobre o 11 de setembro, mas é de Ex Machina uma das seqüências que mais me tocou: Hundred voa tentando salvar as pessoas que se atiram da torre condenada. E é lógico que ele não conseguirá salvar todas. Essa seqüência é inserida na história como um rapidíssimo flashback, que mostra todo o desespero e trauma de Hundred.

De polêmicas sobre obras de arte com teor racista expostas no museu até assassinatos sangrentos nos túneis do metrô, Hundred e seus assesores vão lidando com a "grande maçã". Ex Machina é uma mistura de política e super-poderes muito bem escrita, o tipo de quadrinho que surpreende a cada edição e que parece ter muito a dizer. O tipo de quadrinho que estava fazendo falta.

"Deus ex machina: Literalmente, "deus da máquina". Uma pessoa ou força que vem providenciar uma solução improvável para uma situação impossível, batizada assim devido aos dispositivos mecânicos usados pelos dramaturgos gregos a fim de fazer descer no palco atores que interpretavam divindades".

Dance dance dance




Essa eu peguei no Cornflake, o blog da Sammy.



quarta-feira, setembro 24, 2008

And there we go... again.


Deu no Universo HQ: Sandman volta a ser publicado no Brasil pela editora Pixel.

Na verdade, uma republicação. Mais uma.

Em 1989, Sandman foi publicado por aqui pela primeira vez, sob a batuta de Leandro Luigi Del Manto. Também no Universo HQ o Sidney Gusman escreveu um ótimo texto sobre o trabalho do Del Manto, que vale a pena conferir.

Bom, se você já visitou esse blog antes, sabe que não é a primeira vez que falo de Sandman aqui (Escrevi um monte de posts citando esse gibi). Trata-se de uma das melhores séries em quadrinhos que já li. Marcou minha formação profundamente, principalmente o modo como Neil Gaiman (o escritor), mesclava fantasia, realidade e referências incontáveis a obras literárias, músicais, folclore, etc. Peguei a revista pela primeira vez em 1990 e até hoje ela rende conversas bacanas nas mesas de boteco.

Sandman é bom pra caralho, malandro. E agora vai ser lançado de novo. Será a terceira vez que a série é publicada na íntegra aqui no Brasil. Se você não leu nada ainda, aproveite. Não perca tempo com resenhas. Leia!

(A ilustração que abre o post foi tirada da coluna do Sidney Gusman no Universo HQ e é de autoria de JJ Marreiro. Eu achei ótima!)

domingo, setembro 21, 2008

Velho insano

.



Sempre pensei que I don't wanna grow up fosse música dos Ramones.

Outro dia, esparramado no sofá curtindo os segundos de minha vida inútil, vi um clipe com o Tom Waits na tv e gostei do que vi. Muito. Ainda estou cantarolando a música. Acabei conferindo o álbum Bone Machine de onde ela saiu. A letra era sensacional e eu achava que ela tinha saído da cabeça do Jota Ramone. E que surpresa: I don't wanna grow up é letra e música do Tom Waits.

Uma curiosidade: o clipe acima apresenta duas músicas do álbum Bone Machine. Antes dele começar a cantar I don't wanna grow up no palco, enquanto ele roda de bicicleta com o capuz de capeta, a música é Let me get up on it.

Velho louco.

Quero ser assim quando eu crescer.

E por falar em letra...

When Im lyin in my bed at night
I dont wanna grow up
Nothin ever seems to turn out right
I dont wanna grow up
How do you move in a world of fog
Thats always changing things
Makes me wish that I could be a dog
When I see the price that you pay
I dont wanna grow up
I dont ever wanna be that way
I dont wanna grow up

Seems like folks turn into things
That theyd never want
The only thing to live for
Is today...
Im gonna put a hole in my tv set
I dont wanna grow up
Open up the medicine chest
And I dont wanna grow up
I dont wanna have to shout it out
I dont want my hair to fall out
I dont wanna be filled with doubt
I dont wanna be a good boy scout
I dont wanna have to learn to count
I dont wanna have the biggest amount
I dont wanna grow up

Well when I see my parents fight
I dont wanna grow up
They all go out and drinking all night
And I dont wanna grow up
Id rather stay here in my room
Nothin out there but sad and gloom
I dont wanna live in a big old tomb
On grand street

When I see the 5 oclock news
I dont wanna grow up
Comb their hair and shine their shoes
I dont wanna grow up
Stay around in my old hometown
I dont wanna put no money down
I dont wanna get me a big old loan
Work them fingers to the bone
I dont wanna float a broom
Fall in love and get married then boom
How the hell did I get here so soon
I dont wanna grow up

...

Ah, só por curiosidade, existe uma versão de I don't wanna grow up cantada pela Scarlett Johansson. Parece baladinha água com açúcar dos anos 80. Você pode procurar no Youtube.
Por própria conta e risco.


Nooooossa, imagino ela cantandinho no meu ouvido: I don't wanna grow up...

quarta-feira, setembro 17, 2008

Namorando


Eu sabia que ia ser bom.

É como um daqueles namoros que só parecem possíveis quando se é jovem, maravilhosamente jovem e incólume.

Namoro de verdade, além dos beijinhos e das mãos dadas.

Namoro com a alma, daqueles em que podemos ouvir a Canção que há em todas as coisas... em que podemos dar voz à Canção que há em todas as coisas.

Namoro com a Vida.

Pegar carona, beber, quebrar vidraças, viajar, correr, dançar, beijar, cantar, cantar e cantar.

Namorar e enxergar a beleza dela mesmo nos dias mais tristes.

Mesmo nos dias mais negros.

Amá-la, mesmo nos dias mais negros.

Amá-la

E surpreender-se com ela.

Ora simples
Ora intensa
Gentil
Amorosa
Cruel
Única


Como algo tão triste pode ser tão belo?






Across the Universe é um filme maravilhosamente simples. Uma idéia em que, surpreendentemente, ninguém ainda tinha pensado: um musical com canções dos Beatles. Na década de 1960, entre hippies, guerra do Vietnã, passeatas, drogas, músicos e prédios nova-iorquinos, Lucy e Jude namoram. E aqui e ali ainda topamos com um Joe Cocker ou um Bono.

Música sensacional, personagens apaixonantes, imagens belas, perdas dolorosas.

Simplesmente maravilhoso.

Nas profundezas

...

Era domingo, um dia de sol lindo, lindo, lindo.
O azul do céu doía nos olhos.
Era um crime ficar em casa.

...


Então decidimos sair pra explorar uma caverna.
Fiquei sozinho por um tempo, desliguei a lanterna e senti toda a escuridão que só é possível embaixo da terra.
A escuridão dos nossos mortos enterrados.
Eu vi com esses olhos que a terra há de comer.

...

Entranhas de pedra.
Um outro mundo.
Um assombro.

...

O mais assustador não é a escuridão ou as pedras que se fecham ao nosso redor, mas aquilo, seja lá o que for, que está lá embaixo conosco quando as lâmpadas se apagam.

...

Quando saímos já era noite.

...






Mais um quadrinho


Do Laerte. Divertido, não?

Uma capa


Capa de CD, LP, ou sei lá. Achei a imagem na internet e ela é muito bacana.