domingo, janeiro 27, 2008

Ensaiando



Antes de mais nada, não se trata de resenhas, são mais um apanhado de impressões pessoais.

Eu ia comentar que ando com sorte pra pegar filmes ultimamente. Semana passada peguei o Reine Sobre Mim, que me surpreendeu bastante. Pra começar tem o Adam Sandler. Não sou fã do cara e acho muitos dos filmes dele simplesmente dispensáveis. Estranhei ver o homem num drama e estranhei mais ainda ler um ou outro comentário positivo.

(Por outro lado, tinha visto ele no diferente Embriagado de Amor, e gostei bastante. Vai ver é só uma questão de superar preconceitos.)

Em Reine Sobre Mim o Sandler divide o filme com o Don Cheadle e a história versa sobre amizade e superação de perdas. No caso, a perda da família inteira em um acidente de avião.

Mas não é um dramalhão choroso. É bem bacana. Talvez seja uma questão de momento pessoal, mas gostei bastante. Acho que o modo como filme trata a amizade foi bacana. Uma amizade que não era só feita de "curtir os bons momentos", mas principalmente se ajudar, ajudar de verdade, quando a barra fica realmente pesada, quando o desespero se muda de mala e cuia pra nossa casa.

E ontem assisti Paris, Eu te Amo. É um filme formado por uma série de curtas dirigidos por várias figurinhas. Wes Craven, Alfonso Cuarón, Joel e Ethan Cohen, Tom Tykwer, Guns Van Sant, Walter Salles, Daniela Thomas e mais uma galera. Acho que no todo são uns 18 ou 19 contos de amor e as ruas de Paris estão lá, bem vivinhas.

O cartaz do filme é um barato. Como são histórias de amor em Paris, temos diversas fotos de vários ângulos da torre Eifel formando um coração que parece coberto de espinhos. Os vários ângulos das fotos parecem se referir aos vários pontos de vista dos curtas a respeito do mesmo tema, o tal amor.



Antes de começar a escrever esse texto dei uma olhada básica na internet e achei algumas resenhas a respeito do filme. Textos feitos por jornalistas e especialistas em cinema, pessoas supostamente com formação e conhecimento para discutir e analisar um filme. Digamos assim, "autoridades" no assunto.

Encontrei desde resenhas completamente neutras até análises do filme que incluíam depoimentos pessoais do jornalista. E achei uma resenha mais "séria" que, de maneira fria e metódica, dissecava o filme e "provava" que se tratava de uma obra menor e sem importância. Uau.

Particularmente, eu gostei do filme. Como é um amontoado de curtas feitos por diretores díspares como Wes Craven (de A Hora do Pesadelo) e Walter Salles (Diários de Motocicleta), é lógico que o filme tem um resultado bem heterogêneo e cada um vai gostar mais de uns filmes do que de outros.

Foi essa heterogeneidade, essa diversidade que me conquistou. Avaliando o final, temos ótimos resultados. Curiosamente, as resenhas que li antes de começar a escrever esse texto divergiam entre si em diversos pontos. Os curtas que um crítico considerava os melhores eram execrados por outro. As qualidades que um apontava eram vistas como defeitos por outro.

Essa semana uma moça me passou um conto que ela tinha escrito pra eu ler. Ela queria minha opinião. Uau, que responsa.

É estranho escrever algo, filmar, desenhar, e depois esperar o parecer de outra pessoa. Embora a crítica tenha uma função de diálogo e supostamente de auxiliar a pensar sobre padrões e qualidades, às vezes as resenhas parecem ganhar aquele peso de veredito. "Eu te sentencio a ser uma droga de filme".

É uma coisa meio complicada. Tem aquela história do Monteiro Lobato e da Anita Malfatti. Em seu artigo Paranóia ou Mistificação - a propósito da exposição Malfatti (publicado em 1917), Lobato faz uma crítica contundente aos artistas modernos através da primeira exposição de pinturas da Anita. Ela nunca mais pintou nada, nunca conseguiu se recuperar da paulada de Lobato.

Em parte, acho que muito da culpa era dela mesma. Ela poderia ter insistido e continuado a pintar. Sei lá.

Numa das palestras do Ilustrando em Revista da Editora Abril, uma ilustradora disse que, no começo de sua carreira, ela não se sentia segura e precisava de que alguém chegasse "com uma espada, tocasse meu ombro e dissesse eu a consagro sir ilustradora".

O filósofo Alain de Botton escreveu em seu livro Desejo de Status, que a busca por sucesso e aclamação da crítica na verdade é apenas a boa e velha busca por amor. Parece que precisamos de aprovação, mas antes de tudo, parece que precisamos ser ouvidos.

Li o conto da moça. Mas minhas impressões eu passei só pra ela.

Acabei relendo A mulher mais linda da cidade, aquele conto do Bukowski. Quando li A mulher mais linda pela primeira vez, achei muito bom. Mas dessa vez achei algo... comum. A velha história do personagem trágico com final trágico. Eu me sinto meio herege falando isso de um conto do velho Bukowski, mas tenho a impressão que a figura da "moça problemática com personalidade forte e alma boa que acaba sucumbindo diante da indiferença da vida" está meio batida. Sei lá.

E agora estou com essa idéia na minha cabeça. A idéia do conto, do seu funcionamento. Paris, Eu te Amo veio bem a calhar, pra ajudar a pensar sobre a história, o episódio, a quantidade de informações a ser colocada no momento do conto e as brechas a serem deixadas para o leitor preencher.

E no fim, tudo parece ser um longo ensaio antes do mergulho. Filmes, contos, diálogos de Reine Sobre Mim, enredos e modos de contar histórias de Paris, Eu te amo, longas resenhas, conversas sobre literatura, escrita automática, pensamento errático. Tudo é um longo ensaio antes do mergulho e a água está bem lá embaixo e parece longe, longe, longe.

Devia ser simples, devia ser só deixar o corpo cair e as coisas acontecerem. Porém, apesar de saber que é seguro, que um monte de gente mergulha todo dia e sai sem nenhum osso quebrado, há um medo irracional da queda. Um pavor do inapreensível momento em que o corpo se desprende no vazio...

Ainda do Bukowski estava lendo as Notas de Um Velho Safado, uma coletânea de textos que ele escreveu sem exigências ou pressões editoriais. No prefácio, datado de 1969, o velho escreveu:

"Então, um dia depois das corridas, sentei-me e escrevi o cabeçalho, Notas de Um Velho Safado, abri uma cerveja e a escrita se fez por si só. (...) Parecia não existirem pressões. Era só sentar próximo à janela, erguer uma cerveja e deixar que viesse. (...) Pense nisso você mesmo: liberdade absoluta para escrever qualquer coisa que você quiser. Foi mesmo uma época muito boa, e séria também, às vezes; mas eu senti principalmente, à medida que as semanas iam passando, que a escrita ia ficando cada vez melhor".

Palavras da salvação.

terça-feira, janeiro 22, 2008

O Coringa Morreu.

Heath Ledger
* 4 de abril de 1979
+ 22 de janeiro de 2008



A Carla nunca me telefona. Por isso quando vi o nome dela no identificador de chamadas, quando ouvi o tom da voz dela, gelei. Tive aquela sensação horrível.

Daí ela me contou da morte do Ledger. Heath Ledger.

Confesso que fiquei aliviado. De um ponto de vista extremamente egoísta, antes ele do que alguém próximo ou querido a mim ou à Carlinha.

Por outro lado fiquei chocado, admito. Talvez fosse porque o nome do Ledger tivesse se tornado muito familiar pra mim por causa do papel dele no novo filme do Batman. O fato é que fiquei chocado. Engraçado como a mídia acaba nos tornando de certa forma conectados a pessoas que nunca conhecemos e provavelmente jamais conheceríamos...

Li nas reportagens que ele foi encontrado com pílulas próximas ao corpo. Talvez um suicídio. Deixou uma filha de dois anos. Tinha recém se divorciado. Tinha 28 anos. Talvez um suicídio.

Ele ganhou um Globo de Ouro por causa de seu papel em Brokeback Mountain. Ele também estreou Coração de Cavaleiro e Os Irmãos Grimm. E, como disseram, quando assistir Batman The Dark Night também assistirei a última interpretação de um homem morto. Um fantasma na tela. Coisa de louco. Sinistro.

Talvez um suicídio. Mas o que passou pela cabeça dele, perguntou a Carlinha? Como saber? Foi suicídio? Ele sentia falta da ex-esposa? Pensou na filha? A mídia nos aproxima de pessoas que jamais conheceremos realmente.

No fundo nossos pensamentos mais sombrios não são tão nossos, tão exclusivos assim.

assuntos inacabados, dias incertos...

Fazendo faxina juntei uma pilha de livros que emprestei de um monte de gente e nunca li. Comecei a resolver certas pendências.

Li rapidinho Cobras e Piercings, da Hitomi Kanehara, uma japonesinha que nasceu em 1983 e já tem livros premiados e traduzidos aqui no Brasil.

Tentei retomar a leitura de O Homem Duplicado de José Saramago, mas não consigo entrar no mood da coisa. Estou parado na página 213 desde fevereiro de 2006. Ainda bem que o Jabá não tem pressa em ter o livro de volta.

Talvez livros sejam como pessoas, sei lá. Começar a ler é como começar um relacionamento e existem relacionamentos inesquecíveis e outros nem tanto.

E há os relacionamentos inevitáveis.

Fatais.

De qualquer forma, relacionamentos simplesmente começam, acontecem e forçar não é um bom caminho.

Comecei a ler Amigos e Vinhos, Mulheres à Parte, de Rex Pickett. O livro que virou um dos meus filmes favoritos: Sideways, com os ótimos Paul Giamatti e Thomas Haiden Church.

Miles parte com seu amigo Jack em uma viagem de uma semana visitando os vinhedos da região. Jack vai se casar e essa é uma espécie de “despedida de solteiro”. Além do vinho, os dois acabam encontrando Maya e Terra, duas mulheres bem interessantes e... uma coisa leva à outra.

O interessante é o personagem Miles. Sua grande paixão são os vinhos, que degusta e analisa como um expert. Miles quer ser escritor, mas não tem sido bem sucedido e acumula uma pilha de cartas de rejeição de diversas editoras. Também ainda não se recuperou do divórcio. O espaço deixado por Victória, sua esposa, jamais foi preenchido. A lembrança dela o acompanha diariamente, esvaziando-o, consumindo-o. E ainda tem a sua situação financeira, tão miserável quanto sua situação moral: chega a furtar sua própria mãe para conseguir o dinheiro da viagem.

Miles se agarra à sua depressão. Carrega bem apertado junto ao peito cada lembrança dolorosa, cada não. E diante de novas possibilidades ele se fecha. Assume atitudes auto-destrutivas e parece se sabotar a cada passo. Como se estivesse se punindo. Quando Maya, um mulherão espetacular, começa a lhe dar bola, o cara simplesmente não consegue acreditar que ela realmente esteja interessada e comete uma cagada atrás da outra.

Enfim...

Assuntos inacabados. Coisas do passado que você olha hoje e fica pensando por que não resolveu, por que não levou em frente, por que...

Como uma história de fantasma. O cara que morre, mas não consegue partir, não consegue descansar, porque não consegue aceitar que acabou. Porque tem uma porta que deve ser fechada ou aberta em algum lugar lá atrás. Um nó pra ser desatado.

Uma coisa, um pensamento.

Uma sensação.

Que sempre está lá.

Incansável.

Imortal.

Você percebe que a coisa é pra valer quando se olha no espelho, quando se escuta à noite. Você pode dar um tempo, dar voltas, mas esquecer não é uma opção. Você tem que voltar e resolver. Talvez usando novos olhos, talvez sujando as mãos, talvez até com leveza... mas, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, você tem que voltar, encontrar o nó e resolvê-lo.

Não importa como.

Isso não pode ficar assim.

sábado, janeiro 19, 2008

Tudo azul

Lembram dos Smurfs?

Pois é...



Bacana, né? Esse vídeo foi produzido em 2005 a pedido do Unicef belga como parte de uma campanha para arrecadar fundos em prol da reabilitação de soldados crianças da guerra civil no Burundi, país africano que já viveu sob a tutela da Bélgica. Causou bastante polêmica por ser "chocante" demais e é uma das coisas mais bacanas dos Smurfs que eu já vi. A tradução da frase final do vídeo é: "Não deixe a guerra afetar a vida das crianças".

Os Smurfs são mais conhecidos no Brasil pelos desenhos animados, que estrearam por aqui em meados da década de 1980. Acho que muita gente que assistiu se lembra e provavelmente cantarolou em algum momento a musiquinha dos Smurfs: aquele "Lá-LÁ-lalala-LÁ, Tra-lalala-LÁ" (ou algo assim, o marcante era a melodia). E também tenho certeza de que, quem assistiu o desenho, alguma vez fez a clássica pergunta: "Falta muito, Papai Smurf?".

(Pelo menos, comigo foi assim. Quando estudei lá no Cefet, o guarda-pó do curso de eletrônica era azul, por isso éramos chamados de Smurfs. Inclusive tínhamos um inspetor que era o nosso próprio Gargamel: o sujeito era a cara do bruxo careca que vivia perseguindo os azulzinhos).

Apesar de serem mais lembrados pelo seriado de TV, os Smurfs começaram mesmo nos quadrinhos, em 1958. Foram criados pelo desenhista belga Pierre Culliford, que assinava seus trabalhos com o pseudônimo Peyo.

As histórias seguiam o clássico modelo belga, cujo mais famoso representante é o Tintim, de Hergé. Tratava-se de um desenho de traço limpo, com uma média de 11 quadrinhos por página.

O nome francês original dos azulzinhos era Les Schtroumpfs. No Brasil, esses quadrinhos foram publicados pela primeira vez em 1975, pela editora Vecchi. Nessas edições eles o nome traduzido como Os Strunfs.



A série da editora Vecchi durou algumas edições mensais e três álbuns especiais. Mais tarde, em 1983, com o sucesso do desenho animado, a Editora Abril publicou 6 edições mensais, agora com os personagens sendo chamados de Smurfs. Dizem que foram nomeados assim nos EUA, quando os estúdios Hanna Barbera começaram a produzir os desenhos animados. De fato, Smurfs soa mais suave aos ouvidos do que Schtroumpfs.



Agora em 2008 os azulzinhos completam 50 anos. Era um dos meus desenhos favoritos e as HQs também eram bem bacanas. Saudades...

Esse foi o post nostalgia da semana...


(As informações desse post foram retiradas do site Universo HQ. Para saber mais visite aqui, aqui, aqui e aqui).

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Traços característicos...


Estou participando de algumas atividades do evento “Ilustrando em Revista”, promovido pela Editora Abril aqui na cidade por esses dias.

Ontem teve um bate-papo bem bacana lá no Memorial de Curitiba com os ilustradores Orlando Pedroso e Rogério Borges. Os dois são feras, começaram a carreira lá pelos anos 70 e tem muito, muito talento. Deram uns toques bem legais.

Por exemplo, mostrar a cara. Hoje com internets, blogs, orkuts e tudo mais é bem mais fácil mostrar a cara, apresentar os trabalhos e tals. Mas o problema é que antes disso você precisa ter realmente o que mostrar. É aí que a coisa pega. Pega mesmo.

Fiquei pensando nisso.


Arte de Rogério Borges

O desenhista (ou ilustrador) precisa achar seu traço tanto quanto o escritor precisa achar sua voz. Pra isso tem que ter comprometimento, tem que ter um tipo de relação que envolve dedicação e disciplina. Mas também é preciso muito cuidado pra não sufocar com o próprio perfeccionismo.

E é uma coisa engraçada isso. Porque o desenhar tem esse lance de ser uma dança com os espaços em branco, de ser uma brincadeira de movimento do braço, de suspensão da autocrítica e dos medos. O desenhar deve (ou deveria ser) como uma boa conversa, deveria fluir e a entrega deveria ser tão completa que quando nos damos conta... “nossa, como o tempo passou!”. O desenhar deveria ser prazer, como o cantar ou o musicar. Ou o amar.

Claro que tem dedicação, disciplina e comprometimento, mas não naquele sentido espartano. Não se pode sentar pra desenhar como quem vai pra academia pensando em perder peso. No desenho o mais importante não é o final, mas o processo. O caminho. Aliás, como praticamente tudo nessa vida.

Tenho saudades das aulas de desenho na faculdade, com o professor Sérgio. Ele enxergava esse lado mais zen do desenho. Ou pelo menos assim me parecia.

Lá na palestra com o Orlando e o Rogério falaram sobre aquela história de que todo mundo sabe desenhar. E é verdade. Quando crianças todo mundo desenha. Mas é aquele que continua desenhando quando adulto que vira o Desenhista.

Na verdade, eu diria que é aquele que não consegue parar de desenhar.


Arte de Orlando Pedroso

Eu tenho essa relação mal resolvida com o desenho. Uma mistura de autocrítica lazarenta com preguiça sem-vergonha. Quando piá, desenhava histórias em quadrinhos de longas páginas. Voltava da missa no sábado à noite e ficava desenhando até três, quatro horas da manhã. Eu tinha uns dez anos na época.

Daí fui deixando de lado. Sei lá. Às vezes voltava pro desenho, mas nunca por muito tempo. Tipo um escritor bissexto, sei lá. Acho que era uma autocrítica feroz, uma vontade de produzir algo indefectível, um perfeccionismo nocivo. Ou pura bobeira.

Eram meses, anos longe do papel, entremeados por períodos produtivos. Tive surtos de produção entre os 16 e 19 anos, depois veio a faculdade e entre os 26 e 27 anos fiz as ilustrações pro livro da Alice no País das Maravilhas como projeto de conclusão de curso na faculdade. Foi um parto, foi uma guerra. Quando os aviões se chocaram contra as torres gêmeas eu estava desenhando.

Minha Alice

Juntei-me com dois amigos e montamos um negócio de ilustração e animação. O problema é que não agüentei o tranco. À parte minhas nóias particulares com o desenho, tinha o pequeno detalhe do “mercado de trabalho” e o “mercado de trabalho” pra desenho é tão difícil quanto qualquer outro. Era dureza, às vezes de domingo a domingo, sem horário pra sair do estúdio. Acabei deixando a empresa. Enfim...

Ontem mostrei minhas ilustras pro Orlando e ele fez uns comentários bem pertinentes. Daí fiquei pensando num monte de coisas. Acho que esse ano vou tentar resolver de vez essa minha relação com o desenho. Essa coisa tão íntima e tão essencial.

Encontrar o traço perdido.

Mais ou menos como encontrar a si mesmo.

Ou aprender a voar.

(Pra ver mais coisas do Orlando, veja o site dele aqui. Já o Rogério Borges, eu procurei mas não encontrei muita coisa. Se alguém puder passar um link bacana, agradeço.)

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Viagem igual a essa...

Acredite em mim: uma viagem legal faz a vida realmente valer a pena. Vivemos para viajar.

Daí tem esses meus dois amigos, esses dois malditos, que estão curtindo o clima ameno na Europa. Xique nos úrtimo!

A Rosaninha foi ter curso de animação lá em Bristol, na Inglaterra. Além do curso ser legal pra caramba e ela estar curtindo um passeio extra por lugares chatos tipo Amsterdam e Milão, ela ainda teve aula e bateu foto com o Peter Lord, que é só o co-fundador dos estúdios Aardman e produtor de filmes como Fuga das Galinhas e da série Wallace e Gromit.

Rosaninha em Milão. Que chato...

Já o José Aguiar já tá virando celebridade. Está lá na Alemanha, em Berlim e está mantendo um blog bem bacana. Com atualizações diárias, o José tá dando enfoque praqueles pequenos detalhes da cidade, aquelas coisinhas que não aparecem em cartão postal e foto de turista "normal". Entre as curiosidades, o chapéu de Napoleão Bonaparte, as barras de chocolate, as plaquinhas em memória aos judeus e as pichações de banheiro. Ele também está coletando material para um livro ilustrado que pretende fazer e vai usar o blog pra mostrar a produção desse material.

José Aguiar foi a Berlim para encontrar legítimos capacetes gregos...

Vale a pena conferir o blog dos dois:

Rosaninha: Bristoll Calling (e vê se atualiza, Rô!)

José Aguiar: REISETAGEBUCH- Uma viagem ilustrada pela Alemanha (eita nominho...)

Sim, estou com inveja de vocês, malditos.

E saudades também.

Tudo de bom!

E chega desse post! Isso aqui tá parecendo coluna social! Credo!

Expectativas



Uma imagem pode gerar muitas expectativas. Palavras também. É como se fosse feita uma promessa. A imagem nos atrai, desperta nossa imaginação. Ficamos fantasiando possibilidades, preenchendo as lacunas, os detalhes...

Mais ou menos em maio de 2003 eu andava meio ansioso. Entrava no site da livraria, ia na loja especializada. Estava pra sair uma graphic novel chamada 30 Dias de Noite.

Sempre gostei de histórias de terror. Quando tinha 12 anos me deliciava com os livros de Stephen King. O conto Jerusalem’s Lot, que está no livro Sombras da Noite, é uma história de vampiros. Se lembro bem, porque já vão umas duas décadas desde que li, era uma história boa pra caralho sobre vampiros e livros malditos. Do tipo que me fez ficar acordado à noite olhando pras sombras dos cantos do quarto esperando algum tipo de movimento... História de terror das boas!

Daí começaram as notícias sobre este 30 Dias de Noite. No site da editora Devir eles publicaram o texto de apresentação da história feito pelo Clive Barker (ninguém menos que o criador da série Hellraiser) e mais alguns textos do que a crítica especializada norte-americana tinha dito sobre o álbum, na época de seu lançamento em 2002.

“A história em quadrinhos em suas mãos tem muito da energia crua, até mesmo brutal, de um filme de terror dos bons e velhos tempos. Curto, afiado e impiedoso”.
Clive Barker

“O escritor Steve Niles brinca com medos comuns de isolamento, escuridão e monstros numa história que dá mais calafrios que o seu cenário. Um bom escritor poderia extrapolar qualquer um desses temores numa história excitante, mas Niles foi bem-sucedido ao apertar todos esses botões com a freqüência certa para produzir uma história que não é apenas de dar calafrios, mas realmente assustadora”.
The A-List, Jim Johnson, Comic Buyer’s Guide


“Acima de tudo, 30 Dias de Noite funciona como um filme de terror – um grande filme de terror. Se você tem sede de algo com a garantia de assustá-lo até arrancar suas calças, você precisa escolher este livro. Mas vá por mim: leia com as luzes acesas”.
Casey Seijas, Wizard Magazine


Baaaaaa, tchê! Tri-legal!


A sinopse era promissora: no norte do Alaska está a mais setentrional das cidades norte-americanas – Barrow. Ela se encontra dentro do Círculo Polar Ártico. Portanto, além do frio animal, lá o “sol não se põe entre 10 de maio e 2 de agosto e não nasce entre 18 de novembro e 17 de dezembro”. E são esses “trinta dias de noite” que atraem para a cidade um grupo de vampiros sedentos de sangue. Sem a luz do sol, a única coisa capaz de deter os sanguessugas, só resta aos habitantes tentar sobreviver ao fim da mais longa das noites...

Eu mal podia esperar pelo lançamento.

Então a revista saiu.

Que bosta.

Que... bosta.

Tem um monte de coisas nessa história que me incomodaram. Pra começar, a história em si.

Atenção: a partir daqui... SPOILERS!!! Isto é, vou entregar a história. Mas como ela é muito ruim, vai por mim, leia aqui e se poupe.

Pra começar o desenho. Na introdução o Clive Barker escreve: “Ben Templesmith forneceu a 30 dias de noite um estilo gráfico reduzido ao essencial. Todas as redundâncias foram removidas”. Isso é uma maneira bem educada de admitir que o Ben é um preguiçoso da porra que não quis desenhar cenário nenhum. Toda a arte é um monte de efeitos e cores de photoshop, filtros e desfoques. Os personagens são alguns narizes e olhos fotografados e aplicados de qualquer jeito em cima de um desenho muito jaguara. Não há detalhes. Talvez até o Templesmith seja um pusta ilustrador (curti muito as capas) mas a escolha de rumo pra arte da história foi muito infeliz.

(Ah, as três primeiras capas lá em cima não são do Ben, são do Ashley Wood. Acabei de ver no site...)

Bom, e tem o Niles, o escritor...

Ele não faz uma história de terror. Ele faz, na melhor das hipóteses, uma premissa pra RPG. Os diálogos soam falsos, forçados, não convencem, não tem emoção. Os vampiros são organizados como um grupo de gangsteres. Eles têm um chefe, organização política e tudo. Podia ser legal, mas do jeito que se mostra fica parecendo mais um decalque dos vampiros da Anne Rice em Entrevista com o Vampiro. Aliás, tem até a menininha vampira.

O casal protagonista é de doer. Dois policiais, casados e felizes (muito felizes, felizes mesmo) que assistem ao por do sol juntinhos. Fofo. Um amor lindo e verdadeiro. Que nem fruta de plástico.

Daí, no final, acontece a coisa que estraga, caga, destrói a história completamente. O Policial decide injetar sangue de vampiro em si mesmo pra virar vampiro e poder enfrentar os malvados.

É. É isso que ele faz.

Daí ele vira vampiro, sai pra rua e enfrenta o vampiro maioral, o líder, o mais poderoso e mais velho de todos, que tinha acabado de trucidar com facilidade um vampiro rebelde. E sabe o que acontece? O ÓBVIO. O Policial, vampiro há cinco minutos, vence o vampirão de mil anos de idade! Sabe por quê? Por que o bem sempre vence no final. Por isso. Legal, né?

Mas não é só isso. Os vampiros que assistiram tudo e que estavam em vantagem de 18 pra um, simplesmente vão embora. Eles não se juntam pra matar o Policial, eles vão embora, intimidados pela “moral” do homem.

Que... bosta.

E não acaba aí. O nosso policial apaixonado despede-se da amada com aquele discurso bem meloso: “Eu poderia viver para sempre, mas não quero respirar nem mais um segundo se não puder me lembrar de como é amar você”. E daí ele vira purpurina ao nascer do sol.

Ah, vatifudê!

Espere. Ainda tem os caçadores de vampiros. Uma dama vodu lá de Nova Orleans (outra referência à Entrevista com o Vampiro?) que manda seu filho (?) pra filmar o encontro da vampirada em Barrow e provar que os sanguessugas existem. Mas se esses dois personagens fossem cortados, não ia fazer diferença nenhuma pra história. NENHUMA.

Tanto é que na adaptação pro cinema, eles foram cortados.

Ah, é, deixa eu falar da adaptação pro cinema.


O filme foi adaptado e estreou nos cinemas norte-americanos em outubro do ano passado. Recebeu uma resenha muito boa do meu site favorito de assuntos aleatórios, o Omelete.

(Nessa mesma resenha, a história em quadrinhos é elogiada e considerada "ótima". Se você quer saber quem tem razão, eu ou o Omelete, compre 30 dias de noite na comic shop ou livraria mais próxima e tire a dúvida. Por própria conta e risco.)

Segundo o Omelete, o filme apresenta duas modificações sensíveis em relação à história em quadrinhos original:

a) Os caçadores de Nova Orleans não são nem mencionados.

b) O casal apaixonado dos quadrinhos está em crise, prestes a se separar.

E são essas pequenas mudanças que me fazem ter fé no filme (mesmo tendo o Niles como um dos roteiristas). Só o fato de que não vai ter o “estilo gráfico reduzido ao essencial”, livre de “redundâncias” já me deixa mais empolgado. Talvez no cinema a história seja aquilo que os quadrinhos tinham prometido e não cumpriram. Um filme que acaba sendo melhor do que a obra que o inspirou (o que, nesse caso específico, não é lá muito difícil). Seria bom que o final do filme apresentasse algo mais sensato que o “vampiro herói”, mas enfim...

Bom, e afinal quais as minhas expectativas?

Desde o começo, eu queria uma história que não mostrasse vampiros humanizados. Não acho bacana. Eles podem até ser racionais e tal, mas não deveriam mostrar eles conversando entre si e fazendo piadas. Isso corta totalmente o clima de horror. E o final teria que ser diferente. Não interessa se ia ter o "bem vencendo o mal", ou se ia terminar estilo tragédia (que seria mais apropriado para uma suposta "história de terror realmente assustadora"). A solução apresentada na HQ não é aceitável.

Na verdade, eu queria que ela fosse a "história de terror" prometida pelo Clive Barker. Acho que foi isso que mais me decepcionou. Propaganda enganosa.

Vou esperar pelo filme...

Tomara que vingue...



(30 dias de noite está em cartaz aqui no Brasil desde 07 de dezembro. Menos aqui em Curitiba. Aqui nem deu sinal de estréia. Em compensação Xuxa em Sonho de Menina está em cartaz em nove salas. Legal, né?)

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Why so serious?


A imagem acima é um dos cartazes do novo filme do Batman, The Dark Knight, que deve estrear por aqui dia 18 de julho.

Achei a imagem muito legal e queria ter ela aqui no blog.

Estou com boas expectativas pra esse filme. O Christopher Nolan volta pra direção. O cara tem umas idéias bem bacanas. Ele já fez o Batman Begins, que foi muito legal, e tem também no currículo os filmes Amnésia e O Grande Truque.

Quando saiu aquele filme do Batman dirigido pelo Tim Burton, lá em 1989, eu lembro que todas as atenções foram para o personagem do Coringa. Claro que muito disso se deve ao fato de ter Jack Nicholson fazendo o Coringa enquanto o Batman era de um Michael Keaton meio sem graça. Nesse filme o Coringa era um sujeito que tinha caído num tonel de produtos químicos e, ao invés de morrer intoxicado, teve o pigmento da pele e cabelos alterados pra toda a vida, ficando com aquele look de carta de baralho. Esse fato coincidia com algumas idéias sobre a origem do Coringa nos quadrinhos.

Nos quadrinhos ainda o Coringa ficou célebre como um assassino em massa, um genial psicopata cujo principal modus operandi era aplicar um gás do riso que matava suas vítimas, deixando cadáveres marcados por um sorriso medonho.

Já nesse filme do Nolan parece que não tem nada disso. O verde do cabelo, o branco do rosto, é tudo maquiagem. Só que é uma maquiagem mal-feita, aplicada de qualquer jeito. Achei o visual bem bacana, com um ar de junkie, de punk.




Outra coisa bacana é que ele não fica rindo o tempo todo. O rosto desse Coringa tem cicatrizes que parecem um sorriso. E, pelo que vi nos materiais de divulgação até agora, ele parece que não usa gás do riso. Eles dão ênfase nas facas que ele traz nos bolsos. Daí eu só fico especulando... e se ele usasse as facas pra "talhar" os sorrisos nos rostos das vítimas ao invés do tal gás.

Ah... esse ia ser o Coringa pro filme do Batman que eu queria ver.

É lógico que isso é mais uma especulação (e um desejo sincero) da minha parte. O filme tem que pensar nos brinquedos e no público infantil e acho que dentro disso o Nolan fez até um filme sério demais lá com o Batman Begins.

Mas esse lance de "psicopata com facas" ia se encaixar feito uma luva na proposta mais "realista" do diretor.

E ia ser legal pra caramba.

Ia sim!

Haha!

domingo, janeiro 06, 2008

Feliz Ano Novo

Eu vinha pela estrada quando o acidente aconteceu lá longe, lá na frente. Não vi direito o que aconteceu, só sei que um carro estava onde não deveria e, de repente, aqueles carros, lá longe, parecendo tão leves, se desfazendo em tiras feito papel. Lá longe, lá na minha frente. Tão rápido. Primeiro vi a colisão, só depois de um tempo chegou o som. A freada, a batida. Como um quebrar de ovos. E talvez um grito. Súbito demais, curto demais. Foi um grito? E daí eu sabia que gente tinha morrido.

O trânsito estrangulou, quase parou. Ganhou aquele ritmo de cortejo fúnebre. O acidente ia chegando perto. Algumas pessoas tinham parado. Sinalizavam, caminhavam em volta. Um carro em chamas fora da estrada.

Chegando mais perto dava pra sentir o cheiro. Foi o que mais me marcou. Não o motoqueiro caído e torcido de um jeito impossível, o rosto virado pra trás invisível. Não o chinelo, as mudas de roupa espalhadas pelo asfalto. Foi o cheiro. Mais forte que a fumaça, que a borracha queimada na freada. Era o cheiro do ferro que corre nas nossas veias. Cheiro quase visível, rubro. Sol se pondo.

Passa o acidente o carro ganha velocidade de novo. Mãos geladas. Uma maré ácida dentro de mim. O cheiro. No banco de passageiro ao meu lado o bloco de viagem aberto nas resoluções de ano novo.

Voltar a correr, tocar com a banda, aprender a dançar tango. Uma lista boba de pretensões. As palavras me vêm à cabeça junto com a imagem do motoqueiro. Ainda sinto o cheiro.

Paro o carro no posto. Vou ao banheiro. Mijo tremendo. Compro uma água mineral. Sento no carro e pego o bloco. Risco uma a uma das resoluções. Ao final escrevo “NÃO PENSE, FAÇA”.

Retomo a estrada.

2008 começa com o cheiro da vida e o gosto da morte.