domingo, junho 29, 2008

Mulher de Papel

Katchoo e Francine, de Estranhos no Paraíso

Durante minha infância e adolescência, li várias e várias histórias em quadrinhos. Praticamente todas eram protagonizadas por super-heróis ou animais falantes. Se eu não me engano, a primeira história em quadrinhos com “gente normal” que eu li foi Estranhos no Paraíso (Strangers in Paradise), do Terry Moore. Era uma publicação da Editora Abril, datada de abril de 1998. Havia um texto de apresentação da história que dizia:

Nada de homens de roupas colantes, nem de mulheres siliconadas. Estranhos no Paraíso é a história de duas jovens bem reais, tangíveis, ao alcance dos nossos olhos. Você estuda com elas ou mesmo encontra com elas andando por aí. Você pode até não enxergá-las porque às vezes se escondem no meio da multidão. Mas elas estão lá. Choram e riem, amam e odeiam, e sonham com um amanhã que talvez nunca aconteça.

Capa de Estranhos no Paraíso, Editora Abril, 1998

Gostei muito da história. Ainda estou esperando pelo fim da longa série de aventuras e desventuras de Francine e Katchoo, que são publicadas esporadicamente aqui no Brasil.

Pensando bem, antes mesmo de Estranhos no Paraíso eu já tinha começado a tomar gosto pelos quadrinhos com “gente normal” em Sandman. Na série de histórias Um Jogo de Você, o que movia a trama era uma crescente tensão entre o mundo do sonho e a realidade das ruas. Neil Gaiman fez de Barbie, Wanda, Foxglove e Hazel personagens muito convincentes, naturais. Pouco depois, nas mini-séries da Morte (Death: The High Cost of Living e Death:The Time of Your Life), Gaiman traria de volta essa abordagem do cotidiano. Lógico que existiam os tais elementos mágicos e seres fantásticos, mas a construção dos personagens “normais”, “mundanos”, era muito bem feita.

Página de Deaht: The Time of your life

Nessas histórias, o que mais me fascinava eram a noite, os bares, os encontros inesperados, os romances, as decepções. Tudo o que já acontecia na vida real, mas ainda assim era fascinante. Parecia material riquíssimo para se trabalhar em cima.

Sempre cultivei um desejo de criar ficções, de trabalhar com quadrinhos e fazer histórias como aquelas: que mostrassem as pessoas e suas relações umas com as outras dentro das entranhas da cidade. As festas estranhas com gente esquisita.

Mais tarde fui conhecendo outros artistas com outras abordagens do cotidiano.

O pessoal dos quadrinhos Undergroun norte-americano (Harvey Pekar, Daniel Clowes, Robert Crumb) e brasileiros como Laerte, Angeli, o DW, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, o José Aguiar... Aliás, eu acho muito curioso que alguns trabalhos desses caras, (Mesa para Dois, dos gêmeos e Folheteen, do José) tenham como tema as aventuras cotidianas de moças. A mesma proposta do Gaiman e do Terry Moore. Estranho fascínio de autores homens por protagonistas femininas...

Ainda na lista de histórias de cotidiano, podemos contar os trabalhos online de Meredith Gran e Samanta Flôor. Ah, se considerarmos que Samanta faz um tipo de quadrinho autobiográfico, poderíamos incluir ainda nessa lista os trabalhos de Marjane Satrapi, Alison Bechdel e Guy Delisle.

Falo de toda essa gente porque o tipo de história que eles produzem é o meu tipo favorito. Histórias sobre o cotidiano, o ordinário cotidiano que parece ocultar um algo mais que intriga e fascina. E o modo de desnudar esse algo mais é coisa de cada autor, que tem seu olhar bem característico.

A mais recente história dessa linha que li é LOCAL. Trata-se de uma série de histórias que fogem da vertente “autobiográfica” e é provavelmente um dos melhores trabalhos que já li nesse estilo.

Ou talvez o melhor.

LOCAL foi feita por Brian Wood (roteiro) e Ryan Kelly (desenhos) e basicamente, conta a história de Megan McKeenan. (Olha aí a moça protagonista de novo!)

Nas palavras de Brian Wood:

LOCAL, pura e simplesmente falando, é uma série de histórias curtas sobre pessoas e os lugares onde elas vivem. Eu fiquei um pouco obcecado com a idéia de localidades e cidades natais por algum tempo, e até criei uma pequena empresa de camisetas dedicada a isso. A vida funciona de um jeito muito diferente quando você sai dos grandes centros populacionais, e alguns dos melhores que já assisti e livros que já li ocorrem em lugares que nunca teriam passado pela minha cabeça. No entanto, o lugar não pode ser a história. Entrar nos mínimos detalhes de qualquer lugar específico incorre no risco de alienar qualquer um que não more lá. As histórias de LOCAL são universais, quer você more em Portland, na região noroeste do Pacífico, nos EUA ou em outra parte do mundo. Mas, pros lugares, as histórias contêm marcos e referências que são instantaneamente reconhecíveis.

Cada edição apresenta uma história independente em que Megan ora é a protagonista, ora figurante. A cada episódio se passa cerca de um ano depois do episódio anterior e encontramos Megan em uma cidade diferente. Ao término das 12 edições, Megan, a moça que começou as andanças com 17 anos, será uma mulher com seus trinta anos bem vividos.

A presença constante da personagem Megan e a proposta de ambientar cada história em uma localidade diferente constituem a unidade temática que torna a série coesa. Entretanto, não se trata da “história de Megan”. As histórias de Brian Wood acabam desconstruindo a idéia de “protagonista” enquanto herói indispensável à trama. Em LOCAL, Megan não é o centro do universo. Há dois aspectos principais que acabam dando o tom das histórias: o tempo presente e o acaso.

Os capítulos são independentes entre si. Não há flashbacks ou outros recursos que forneçam qualquer informação sobre Megan, então vamos conhecendo a personalidade da moça a partir dos momentos apresentados no decorrer da série. O amadurecimento da personagem é mostrado a cada edição de modo fragmentado, porém coerente. O que interessa é o momento, o episódio vivido. Jamais fica muito claro o que aconteceu no tempo de um ano que separa uma história da outra. Ao leitor só cabe imaginar. Portanto, o único tempo que realmente importa é o presente. E esse tempo presente, o tempo vivido em cada episódio, pode variar de 15 minutos a dois meses.

O acaso é, provavelmente, um dos aspectos mais importantes de LOCAL. É o acaso do dia a dia, o surpreendente acaso que irrompe do nada e pode nos deixar marcas profundas para toda uma vida. Megan não é o centro do universo. A história de Megan não é mais importante que a de outros personagens. Os roteiros de Brian Wood enfatizam isso constantemente. Cada capítulo é uma surpresa e detalhar a trama de cada um deles pode estragar o prazer do jogo.

Mas são surpresas despretenciosas e coerentes. Portanto, não espere nada no estilo O Sexto Sentido ou Os Outros. LOCAL mantém seus dois pés bem firmes no chão. Não são “reviravoltas surpreendentes” que acontecem, mas é a passagem de tempo suprimida entre uma história e outra que nos faz pensar sobre como momentos de uma mesma vida podem ser tão diferentes.

LOCAL será publicado no Brasil pela Editora Devir em dois volumes. O primeiro, LOCAL: Ponto de Partida, contendo os seis primeiros capítulos da série, acabou de ser lançado e pode ser encontrado nas livrarias e lojas especializadas. Esse volume apresenta ainda uma seção de esboços e estudos do desenhista Ryan Kelly. Foi incluída também uma seção de comentários dos autores, que acompanhava cada edição original. Nesses comentários, eles falam sobre o tema da história apresentada, dificuldades e curiosidades na sua produção e ainda sugerem uma “trilha sonora”: uma seção de músicas que inspiraram o trabalho.

LOCAL é um conjunto de histórias sobre o cotidiano, o acaso, o amadurecimento, a solidão e mais um monte de temas que vão pulando aqui e ali. É também um trabalho extraordinário de roteiro e narrativa visual. Vê-se, nas histórias e nos comentários de fim de capítulo, que Ryan Kelly e Brian Wood envolveram-se com honestidade e paixão à elaboração dessa obra.

LOCAL é indispensável pra quem gosta de quadrinhos e, principalmente, pra quem pensa que não gosta.


sábado, junho 21, 2008

Ambição






Foi o meu camarada Piuí que me falou do trabalho do Paulo Brabo. Ilustrador de mão cheia que escreve muito bem, pensa muito bem e mantém um blog muito bacana com um título sensacional: A Bacia das Almas: onde as idéias não descansam. É do Paulo a autoria da tirinha acima.

Já a primeira vez que ouvi falar do tal livro Pai Rico, Pai Pobre, foi por um colega de trabalho, anos atrás. Me lembro que ele olhou pra mim e disse: "a vida inteira a gente olhou torto pra esses especuladores, quando na verdade a gente devia fazer a mesma coisa". Afinal, trata-se de um livro sobre “como fazer o dinheiro trabalhar por nós”. Alguns truques financeiros, especulação e coisas assim.

Mas nunca li o livro e não posso avaliá-lo.

O que fiz hoje foi assistir tv.

Durante a tarde, vi o quadro “Lar, Doce, Lar” no Caldeirão do Huck. Eles reformaram a casa de uma família. Uma reforma radical, que transformou a casa cinzenta e úmida em uma simpática vitrine da Tok&Stok. Após um show do pessoal da alvenaria (a organização dos trabalhadores realmente é impressionante), a nova casa estava pronta. E daí chegou a família.

Extremamente emocionados, eles entraram na nova casa, enquanto a edição de vídeo mostrava o “antes” e “depois”. Luciano Huck pergunta ao pai da família como ele se sente.

De voz engasgada, o homem fala alguma coisa sobre “sacrifício”.

À noitinha, no SBT, lá está o Silvio Santos, lenda viva da tv brasileira. O jogo da vez é assim: uma mulher tem que escolher entre maletas. Cada maleta contém um valor de prêmio que vai de 5 reais a um milhão. Cada maleta que ela escolhe vai sendo descartada. Ela fica com o prêmio que sobrar na última maleta, então, se tiver sorte, ela sai de lá com um milhão de reais. No palco há um telefone. A cada escolha da mulher, o telefone toca e é o “banqueiro”, que faz propostas pra mulher desistir. Quanto menos maletas e maior a chance dela tirar a maleta de um milhão, maior a oferta do banqueiro, mas sempre bem inferior ao prêmio máximo. Quem atende ao telefone, conversa com o “banqueiro” e passa seus recados para a mulher é o Silvio Santos.

Até que ficaram só três maletas. O “banqueiro”, muito “preocupado”, segundo Silvio Santos, ofereceu R$360 mil pra mulher parar. Ela não parou. Não quis parar. Ansiosa, angustiada. Escolheu a maleta errada e foi pra casa com 500 reais, chorando. Durante todo o show, Silvio Santos sempre sorridente, tranqüilo, brincando com a mulher despreocupadamente. Como um sádico.

Em algum momento, fiquei sabendo que o marido da moça estava desempregado.

E daí temos a tira do Pai Rico, Pai Pobre ali em cima.

Você quer ter dinheiro? Tipo, muito dinheiro? Muito dinheiro mesmo? Fácil. Aprenda a explorar os outros. Sem dor na consciência. Vire o dono dos meios de produção. O dono da bola. Aprenda a trapacear legalmente os sistemas tributários e financeiros. Deixe de lado melindres ou princípios morais inúteis.

Ou, como diz o autor de Pai Rico, “lembre-se da Regra de Ouro: aquele que tem o ouro faz as regras”.

Aprenda a explorar e, quando tudo tiver dado certo, você pode mostrar a sua magnanimidade dando esmolas, fazendo reformas, dando pequenas oportunidades para os menos favorecidos que você.

Você pode começar pelos seus próprios funcionários, aqueles que “vestiram a sua camisa” e “cresceram junto com a sua empresa”. Dê uma cestinha de natal pra eles.

Vá em frente, campeão.

Eu vou ficar aqui torcendo por você.

...........

Enquanto isso, ficamos com o melhor de Silvio Santos: os seus imitadores. Aqui o meu favorito, o Marcelo Adnet, que interpreta Sweet Child of Mine. Mas é muito bom, oi!

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domingo, junho 15, 2008

MUTO

Tá, todo mundo já deve ter visto isso, mas é legal, então vamos postar aqui.

Trata-se de uma animação em stopmotion, isto é, os caras fazem um desenho, fotografam, vão lá, mudam um pouquinho, fotografam de novo e daí vão fazendo uma animação. Muto foi produzido pelo estúdio Blu (ou NotBlu ou Blublu, sei lá...) nas ruas de Buenos Aires.

Pra quem não viu, curta aí e entenda que os caras levaram DIAS pra fazer isso. SEMANAS. Não foi fácil. Trabalheira do cão. Mas ficou bacana.

Impressiona.




Fico cansado só de olhar.

...

Dia Internacional do Comentarista de Blogs

Hoje, domingo, dia 15 de junho, Dia Internacional do Comentarista de Blogs!!!

Sério, meu?

Sim! Os comentaristas de blog já se organizaram, tem sindicato e dezenas de milhares de pessoas participam hoje de passeatas celebrando essa data festiva. Trata-se de um novo profissional responsável por acompanhar e participar ativamente da grande discussão que constrói a incomensurável imensidão cultural constituída pelos blogs!

Sério mesmo, meu?

Segundo a jornalista Adriana Küchler:
  • O dia "internacional" surgiu na Argentina, claro, para marcar uma data não muito comemorativa. Nessa data, em 2004, um internauta matou outro, na Província de Chaco, depois de uma discussão virtual no blog La Culpa del Tomate (que não localizei, deve ter se extinguido).
Cê tá brincando, né meu?

É a celebração do direito de se manifestar, sempre respeitando democraticamente as opiniões do outro!

Então tá, meu.


...


E aí?

E aí o quê, meu?

Você não vai comentar?

Comentar o quê, meu?


sábado, junho 14, 2008

Tons de Cinza

As lembranças são distantes, pouco confiáveis. As primeiras lembranças, sabe. Quando começamos a nos dar conta que existimos como gente. A perspectiva era diferente, o mundo era maior.

Meu mundo do dia a dia se limitava a nossa velha casa, ao quintal pequeno de chão acimentado, cinzento. E à tv. Uma tv preto e branco, desenhos animados da Hanna Barbera, episódios dos Três Patetas e outras coisas que hoje são um borrão na memória.

Começou com uma série de TV, em que o Bill Bixby interpretava o cientista Banner que virava o monstro Hulk, encarnado pelo fisiculturista Lou Ferrigno. Uma série jóinha feita no final dos anos 70.


Eu devia ter uns cinco anos quando assisti pela primeira vez. O seriado passava de noite e na hora que o doutor Banner ia virar o monstro eu fiquei com medo. Coisa de criança, claro... mas de fato, havia algo assustador nos olhos esbugalhados que ficavam quase brancos. Havia um terror nos olhos dele, um misto de raiva e medo. E daí ele ia inchando, a roupa rasgava, a humanidade aos poucos sumia. A transformação me impressionou muito quando era uma criança.

Olhando hoje, é engraçado lembrar que o que disparava as transformações do doutor Banner em Hulk eram frustrações das mais variadas. Desde ser humilhado ou agredido até um pneu furado ou a demora do atendimento de uma telefonista. Imagine só: o computador trava, você não consegue salvar seu trabalho, fica fulo, vira Hulk e destrói o escritório inteiro. Engraçado. (E tentador...)

Eu lembro também que eu tinha um álbum de figurinhas com fotos dos personagens da série de tv e desenhos dos quadrinhos do Hulk.

A primeira revista, de 1962

O Hulk surgiu nas histórias em quadrinhos da Marvel em 1962. Originalmente era cinza, mas por motivos técnicos de impressão, os caras acabaram usando a cor verde que era mais fácil de aplicar. Quando o vi pela primeira vez na vida, na minha tv preto e branco, o Hulk também era cinza.

Pela minha infância, curti os desenhos animados e os quadrinhos do Hulk. Tinha um boneco do Hulk de plástico, que deve estar lá no sótão em algum lugar. Era um dos meus brinquedos favoritos.

O Hulk era (e ainda é) um personagem relativamente simples: não leva desaforo pra casa e quebra tudo pelo caminho. Resolve as coisas no braço. Simples assim.

À primeira vista.

Lá pelo final dos anos 80, eu ia na biblioteca da minha cidade trocar gibis por outros. Foi lá que comecei a acompanhar uma nova fase nos gibis do Hulk. A versão verde que dizia "Hulk esmaga" tinha sido substituída por uma versão cinza. Explico: após uma complicada trama em que tentou pela milésima vez se "curar" do Hulk, o doutor Banner acabou tendo um efeito colateral e passou a se transformar em uma versão cinza do monstro, um pouco menor e mais fraca, parecida com a primeira versão de 1962.

Só que esse Hulk Cinza era bem mais esperto que o verde. E muito mais interessante enquanto personagem. Eu acompanhei todas as histórias desse novo Hulk durante anos. Durante esse período "cinza", o autor foi o Peter David, que fazia histórias bem sacadas, que misturavam humor, aventura e um certo suspense e brincavam com o jogo entre as personalidades de Banner e Hulk.


Acho que era esse lance da dupla personalidade que me atraía no personagem. Ao contrário dos outros super-heróis, Banner não podia dizer que "era" o Hulk. Na verdade, o Hulk estava mais pra alguma coisa que tinha surgido de dentro dele e ameaçava consumir sua existência. Mais ou menos como um câncer.

Outra coisa que me atraía é que, apesar de lutar com super-vilões, o Hulk não era bem um herói. Muitas vezes foi combatido como ameaça por heróis como o Homem-Aranha e o Homem-de-Ferro. O Hulk era um monstro e na sua fase cinza, foi um anti-herói. Posteriormente, o personagem teve outras fases, com modificações expressivas na sua personalidade e na sua relação com a identidade de Bruce Banner.

Em 2003 veio o filme do Hulk do cineasta Ang Lee. Minhas expectativas eram altíssimas e confesso que fiquei muito satisfeito na primeira vez que vi o filme.


Ang Lee tinha feito uma abordagem toda diferente do personagem. Discutia ali a relação entre Bruce Banner e seu pai (que Peter David havia apresentado em sua fase no gibi).

Banner, ao contrário de outros heróis como Batman e Homem-Aranha, tinha tido grandes traumas na infância causados por seu próprio pai. Muito violento, o homem batia no filho e na mulher. Numa das brigas, acabou matando a mãe diante do pequeno Bruce. Se o assassinato dos pais por um bandido criou toda a motivação de Batman, o que a morte de sua mãe pelas mãos de seu próprio pai causou em Banner? Com o trauma, um bloqueio dessas memórias.

Mais tarde, ele cresce para se tornar um personagem introspectivo, cheio de marcas emocionais graves, com grandes dificuldades de se relacionar. Banner se abriga no racionalismo e na dedicação completa ao trabalho. Daí vem o acidente e a transformação no monstro, que é também a extraordinária personificação de toda a frustração de uma vida.

Ao introduzir o pai de Bruce no filme, Ang Lee fez uma história sobre esses episódios de infância que nos acompanham e nos definem pela vida. Fez uma história sobre um homem que assombrado por lembranças inalcançáveis que volta a encontrar seu pai anos depois. Trata-se de uma história com ares de tragédia grega, sobre um homem que tem que enfrentar os demônios encarcerados nas profundezas de sua alma.

Ao final, o diálogo entre Nick Nolte (o pai, simplesmente genial) e Eric Bana (o filho) tem todo um ar de teatro. E o confronto final, com uma luta indefinível que atravessa os céus, entre nuvens e relâmpagos, rochedos e água, escancara toda a verve mitológica do filme. É um confronto entre forças divinas, primitivas e intensas.


O filme de Ang Lee me fascinou muito, por todas essas razões. O personagem de Bruce Banner dedica-se a seu trabalho, procurando inconscientemente por algo maior e indefinível e é seu pai que lhe revela o caminho para a descoberta. "Tudo que sua mente extraordinária procurou durante todos esses anos está dentro de você". Ao mesmo tempo, é somente pela destruição desse mesmo pai que Banner conseguirá cumprir com seu destino.

Muito legal.

Daí agora tem o novo Hulk, esse que estreou com o Edward Norton.

O fato é que, apesar de tudo, o filme do Ang Lee não agradou quase ninguém. E por razões bem válidas: não é o que as pessoas esperavam de um filme do Hulk. Afinal, ele é o Hulk. Tem que quebrar tudo, rosnar, apavorar a cidade. No filme de Ang Lee, ele parece uma bola de borracha verde. Parece não ter peso e o verde de sua pele é claro, quase fantasmagórico. Aliás, Ang Lee faz uma série de considerações sobre os significados da cor verde nos comentários do DVD. Havia toda uma associação até com a "Destino Verde", espada de seu outro filme, O Tigre e O Dragão.

Na verdade, o Hulk de Ang Lee é como um espírito ou a visualização de um turbilhão de emoções. Ao fim das contas, o público tinha razão de ficar decepcionado. Não era o Hulk que esperavam ver.

Já no novo filme do Hulk, as coisas mudam de figura.


Esse novo filme segue à risca a fórmula do recente filme do Homem-de-Ferro: histórinha bem simples, que evolui linearmente e não exige raciocínio quase nenhum. Mas apesar de simples, não é um enredo tolo ou ofensivo à inteligência do espectador, como foi Homem-Aranha 3.

Entretanto, é bom deixar claro que o filme do Homem-de-Ferro é melhor do que o novo Hulk por dois aspectos principais. Primeiro, a trilha sonora. Iron Man do Black Sabbath e todas as outras sonzeiras fazem do filme uma experiência extremamente empolgante. (No sentido de trilha sonora, o filme do Ang Lee contava com a ótima música de Danny Elfman, bem mais expressiva que a trilha sonora do novo filme). Em segundo lugar, de toda a leva de super-heróis, o Tony Stark de Robert Downey Jr é o mais carismático de todos. O ator construiu um personagem estiloso, ambíguo e interessante, coisa que ninguém até agora tinha conseguido.

Mais fiel à série de tv dos anos 70, o novo filme do Hulk mostra Banner como um fugitivo perseguido pelo governo. Em busca da cura, ele acaba se reecontrando com Betty Ross, grande amor de sua vida e filha de seu implacável perseguidor, o general Ross. Soma-se a isso a presença de Emil Blonsky, soldado que vai se submeter a uma série de experiências que o transformarão em uma outra criatura de força extraordinária, o Abominável. Daí os dois monstros se enfrentam.

Apesar de ter uma orientação mais para a ação e a pancadaria, o novo filme tem umas partes bem interessantes. Transformar-se no Hulk é uma maldição e esse tem uma passagem que representa isso melhor do que qualquer outra que já vi: após levar semanas para se instalar e começar nova vida, o Banner se transforma em Hulk. Quando volta ao normal, desperta em outro país a centenas de quilometros de distância de onde morava. Tendo apenas os trapos do corpo, ele caminha para uma praça de uma cidadezinha e começa a mendigar.

Quando vi a cena, o Edward Norton com seu corpo franzino, sentado de cabeça baixa e as mãos estendidas à espera de uma esmola que me dei conta do completo sentido da palavra "maldição". Transformar-se no Hulk era perder tudo e ter que começar praticamente do zero. Sempre.

Pra mim, apesar de tosco e bruto, o Hulk podia ser usado pra abordar assuntos bem mais interessantes sobre instintos reprimidos, mágoas, sexo, violência, culpa, tentação do poder, auto-conhecimento, solidão e outras coisinhas que todos nós carregamos lá no fundo de nossas cabeças...

Enfim, ao fim das contas, o clima de perseguição e a briga entre os monstros fazem o ingresso valer a pena.

Se assistirem o filme, reparem na semelhança entre a abertura do filme e a do seriado dos anos 70...

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sexta-feira, junho 13, 2008

E lá vamos nós de novo...



E aí, galera?
'Bora pra Paraty curtir as literatura?

O único autor que eu realmente conheço e que me interessaria ver é o Neil Gaiman. Mas ainda assim, já não sou mais tão fã dele quanto era nas épocas de Sandman. Acho que, embora ele tenha escrito coisas legais, faz tempo que ele não inventa coisa diferente. Parece sempre repetir aquela fórmula da rotina mundana que de repente é permeada pelo fantástico. É bom, mas acho que eu cansei. Talvez, nesse caso, o problema não seja o autor, mas o leitor que mudou. Além do que, já tive minha oportunidade de tietar o Gaiman anos atrás, lá em São Paulo...

Quanto aos outros autores, vamos descobri-los pelas ruas de Paraty, mais ou menos como foi na outra vez. Essa parte é legal. Você nunca ouviu falar do sujeito, então escuta a pessoa falar, mostrar suas idéias e acaba conhecendo toda uma obra diferente, nova, cheia de vida. Pra mim, foi assim com a Adélia Prado, que me arrebatou. E outros autores bacanas que conheci. Se você tiver curiosidade, pode conferir o "Diário de Bordo" 1, 2, 3, 4, 5 e 6 e as fotos, entre os posts de agosto de 2006.

Se bem que dessa vez será diferente. Não irei sozinho. Estou indo pra curtir a viagem, beber, caminhar pela cidade e desencanar das rotinas. Vai ser um passeio de verdade e não guardo grandes expectativas. Só quero curtir. Cantar "deixa a vida me levar", beber uma cachacinha, gargalhar e curtir.

Meu clima está bem diferente daqueles dias de 2006. Olhando pra trás, pras fotos e tudo mais, foram dias mágicos, mas os vivi de maneira entorpecida, triste. Tinha minhas razões. Agora está tudo diferente.

Acho que sarei.

sábado, junho 07, 2008

As Paredes de Nossa Prisão


UOL Últimas Notícias: Leões escapam de jaula em zoológico de Bagdá
16h42 - 21/04/2003

Por Rosalind Russell

BAGDÁ (Reuters) - Enlouquecidos pela fome, quatro leões do zoológico de Bagdá escaparam de suas jaulas durante o fim de semana e foram mortos por soldados norte-americanos. Os leões, que não eram alimentados há quatro dias, saíram de suas jaulas após abrir caminho por um muro destruído. Dois deles teriam ameaçado os soldados norte-americanos, disse o sargento Matthew Oliver. "Dois deles ameaçaram nossos rapazes," disse Oliver da 3a. Divisão da Infantaria. "Tivemos que matá-los."

Em um almoço com uma colega, comentei sobre um cartaz que fizemos divulgando um evento. No cartaz, tomamos como base a imagem clássica do Tio Sam apontando o dedo e dizendo “Queremos você”. Minha amiga olhou perplexa para mim e disse: “Como vocês puderam fazer uma coisa dessas?”. Demorei pra entender do que ela estava falando.

Era sobre usar uma imagem norte-americana para divulgar um evento de estudantes brasileiros. Isso era absurdo, algo que jamais aconteceria na velha Federal. Daí me lembrei que ela fazia Filosofia na Federal. E mais do que de repente, me lembrei dos meus tempos de universidade. Dos meus colegas esclarecidos, cultos e engajados socialmente. E extremamente aborrecedores.

Eu pensava em fazer alguma coisa, qualquer coisa, e sempre tinha alguém pra me lembrar do compromisso social, da ideologia, da valorização da cultura brasileira. Fosse fazer uma história em quadrinhos despretenciosa até um cartaz ou um livro ilustrado, tudo tinha que ter um compromisso social. Tudo.

O que mais me enervava era a questão ideológica. Os norte-americanos queriam nos impor sua cultura, eles diziam. Tínhamos que questionar tudo que eles produziam através de filmes e livros e tal. Lógico que meus colegas tinham razão. Mas daí entrava outro problema.

Eu tinha me criado a base de desenhos animados e gibis. Todos feitos pelos ianques. Graças aos desenhos do coelho Pernalonga e seriados como A Feiticeira, aos cinco anos de idade eu era mais familiarizado com as figuras de George Washington e Benjamin Franklin do que com D.Pedro I e Santos Dumont. A cultura da alienação. Enfim... será que isso fez de mim alguém sem consciência crítica nenhuma? Eu me tornei alguém dominado, sem opinião própria, subserviente?

Será, véio?

Tipo um bicho no zoológico, que come só o que os tratadores servem e enxerga só até onde as paredes e grades permitem?


Quando li o álbum Os Leões de Bagdá (Pride of Baghdad) eu pensei muito nesse lance de domínio e subserviência. Porque, enquanto eu pensava em algo pra escrever sobre essa fantástica história em quadrinhos, não conseguia evitar tecer comparações com o Rei Leão da Disney ou Madagascar da DreamWorks. E isso me perturbava. Uma história bacana que nem Leões de Bagdá e a minha principal referência cultural de comparação eram apenas dois desenhos animados hollywoodianos? Esse era meu horizonte?

Depois, procurando na Internet, achei uma comparação com A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que eu não li, mas que talvez seja um parâmetro mais adequado do que O Rei Leão. A história do leãozinho Simba era legal, tinha toda aquela relação com Hamlet e estava permeada dos episódios de amadurecimento e redenção que o cinema de Hollywood preza tanto. Já Os Leões de Bagdá é bem diferente.

É baseado em um episódio verídico, que aconteceu na época da invasão americana ao Iraque. Quatro leões fogem do zoológico após um bombardeio. Os leões Zill, Noor, Safa e Ali falam entre si exatamente como os leões e bichinhos dos desenhos da Disney. Mas o teor de suas conversas, suas lembranças e ações jamais teriam sido aprovados para aparecer em um filme “para toda a família”.

De certa forma, é pela tragédia que Os Leões de Bagdá acaba tornando-se muito mais próximo de Hamlet do que O Rei Leão. E há também toda uma questão ideológica e política que é colocada de maneira muito bacana pelos autores do álbum. Não há respostas, apenas situações que parecem evocar perguntas que não conseguimos formular. Há um questionamento político implícito, que aproxima o álbum de A Revolução dos Bichos. Ao mesmo tempo, há personagens que são tragados por uma situação assustadora e incompreensível, gerada por uma autoridade invisível. Nesse sentido, Os Leões de Bagdá tem muito a ver com os textos de Franz Kafka.

Os leões são como as pessoas comuns. Vivem suas vidas. Uns são acomodados, alienados, satisfeitos com a rotina. Outros sonham com a conquista de sua liberdade e planejam ativamente contra o sistema que os mantém cativos. Quando a guerra chega, os animais ficam perplexos. De repente estão livres e vagam por Bagdá. Passam por uma série de episódios que suscitam as mais diversas reflexões sobre a nossa natureza humana e o que fazemos com nosso mundo. A maioria delas é bem sombria.

(Os leões, ao caminhar pelas ruas da cidade, imaginam estar dentro de outro zoológico. Lendo essa historinha, fiquei pensando nesse grande zoológico em que nós vivemos.)

O problema de Os Leões de Bagdá, se é que isso constitui um problema, é algo na narrativa. Ela é muito parecida com a narrativa de um filme de Indiana Jones: há uma sucessão ininterrupta de episódios de aventura. Os bombardeios, a fuga, o embate com os macacos, o confronto com os tanques e assim vai. Se a história tivesse um pouco mais de páginas e talvez um ritmo um pouco menos alucinante, talvez fosse ainda mais favorável para incitar a reflexão. Ou talvez tudo isso seja só implicação minha.

De qualquer modo, esse fato só realça outro: ao fim das contas, Os Leões de Bagdá também é uma produção ianque. Por um lado, o álbum inspira questionamentos contra a guerra e a dominação, por outro, é produto do sistema que mantém essa mesma guerra e dominação. Inclusive, é um produto premiado dentro desse sistema. Mais ou menos como os bottons, camisetas e o filme de Che Guevara.

Alienação o cacete.

O texto de Brian Vaughan é ótimo e a arte de Niko Henrichon é maravilhosa. São dele os esboços e páginas de quadrinhos que ilustram esse post.

Os Leões de Bagdá é uma história, acima de tudo, sobre o Grande Absurdo. As situações inexplicáveis causadas por autoridades distantes que brutalizam a existência de seres comuns. É uma história sobre os crimes que cometemos contra os animais, a natureza e nós mesmos em nome da democracia, civilização e liberdade.

Uma história básica sobre a estupidez humana.

Mas essa são as minhas impressões. Vá lá ler você e tirar as suas próprias...

Os Leões de Bagdá foram publicados recentemente no Brasil pela editora Panini, que produziu um site promocional bem bacana, com bastante material sobre o álbum, incluindo uma entrevista com o autor Brian Vaughan.

Acima você vê uma foto do tigre Mandor, propriedade pessoal do filho mais velho de Saddam Russeim, com a pele colada aos ossos pela fome. Isso é o que mais me assombra. Os animais não entendem o que acontece. São sacrificados, morrem em sofrimento por algo que não compreendem.

E muitas, muitas pessoas também...