sábado, outubro 25, 2008

Atualizando

Uma atualização rápida: o André tem um Blog sim. É o andrefm.blogspot.com. Lá vocês podem conferir os trabalhos do ser. E ele ganhou o primeiro lugar no Prêmio Fnac! Vai ter um álbum publicado ano que vem. Ah, loco! Parabéns, piá!

Quem vai salvar minha alma?




Todos os clichês estão aí.

Podemos inventar mil maneiras diferentes de dizer, mas a mensagem é sempre a mesma. A sensação é sempre a mesma.

A devastadora sensação de fim, de que não haverá um dia seguinte. De que ficaremos presos nesse momento desagradável e nada nunca mais fará sentido. Que o vazio dentro de nós durará para sempre. Para sempre.

O que não é verdade, de modo algum.

Todos sabemos disso.

A vida continua, as pessoas continuam se encontrando e a cena da mesa se repete de novo e de novo. Mas nem sempre estaremos sentados do mesmo lado. Às vezes seremos nós a dar/receber/devolver/negar o pequeno Senhor Cantor Vermelho Pulsante.

Às vezes seremos nós a escolher se salvamos uma alma ou não.

Mas sempre somos nós os únicos responsáveis por nossa própria ruína.


(O vídeo clipe é de Gnarls Barkley, canção Who’s Gonna Save my Soul, álbum The Odd Copple. Bonito, engraçado e triste.)

sábado, outubro 18, 2008

Olhe bem, preste atenção.

E daí, outro dia, acho que umas duas semanas atrás, o Lourenço Mutarelli veio aqui em Curitiba lançar seu novo livro: A Arte de Produzir Efeitos sem Causa.

Foi o livro mais perturbador do Lourenço que já li. E se você conhece o trabalho do Lourenço, sabe que isso não é pouca coisa. Não dá pra falar muito sobre a história pra não estragar. Mas se você decidir lê-la, saiba que ela é realmente perturbadora e você precisa prestar atenção pra perceber o quanto ela é perturbadora. É o tipo de detalhe sutil que pode passar batido.

Enfim, daí o Mutarelli veio aqui pra Curitiba e a Mitie e o Chico da Itiban montaram uma mesa bem legal onde o cara pôde conversar sobre o livro, a vida, o universo e tudo mais. Era uma quarta-feira e até que foi bastante gente, considerando que na mesma hora estava tendo, ali pertinho, uma palestra com os caras do mega-boga-foda Estúdio Lobo. Particularmente, acho que quem foi ver o Mutarelli saiu ganhando...

Enfim.

No meio da conversa com o povo, o Mutarelli tocou em diversos assuntos e tal. Daí teve uma hora que comentei com ele sobre o livro e os quadrinhos. Há passagens que eu acho que podiam ter um outro efeito completamente diferente se tivessem sido desenhadas em vez de escritas. Isso sem contar que há algumas ilustrações e diversos "recursos gráficos especiais". Eu achava que no desenho detalhista do Lourenço poderíamos viajar mais dentro da atmosfera que ele criou no livro. Foi aí que ele me disse uma coisa que me fez pensar: "nem todo mundo olha pra uma história em quadrinhos como você. Você é acadêmico, procura as coisas no desenho. As outras pessoas só viram as páginas".

Catso.

A verdade é que eu já tinha pensado nisso. Sempre se reclamou aqui no Brasil do mercado de quadrinhos. A meu ver, a opinião pública está mudando e ficando mais favorável. Quadrinhos estão se tornando objetos de consumo cool. Invadem as livrarias e as páginas dos cadernos de cultura. São temas de concursos e trabalhos acadêmicos (teses e dissertações). As coisas estão mudando para os quadrinhos, pelo menos no que se refere à sua relação com o grande público.

Entretanto, o Lourenço está certo. A maior parte das pessoas ainda não sabe como ler uma história em quadrinhos. Caracas, eu mesmo só comecei a me dar conta disso uns meses atrás. A gente passa de uma página para outra e não vê detalhes de fundo, detalhes de desenhos que acabam construindo toda uma série de significados e complementos à narrativa principal.

Talvez esse lance de olhar os detalhes seja trabalho de uma crítica especializada. Talvez seja legal simplesmente ler e curtir nossos quadrinhos na paz e sossego de nosso lar, cama, ônibus ou acento de privada.

Discutir sobre como se deve ler quadrinhos é meio como discutir como se deve ler uma obra literária. Acho que envolve muita coisa pra se pensar.

E no fim das contas, quem liga pra isso?

Bem, eu ligo.

E provavelmente você também, senão não teria lido o texto até aqui.

Vamos nos falando...

Dia do Professor


Ser professor é uma via de mão-dupla.

Supostamente, o professor ensina, passa conhecimento e tal. Às vezes, pode até fazer alguma diferença na vida das pessoas. Mas o mais bacana dessa profissão é o tanto de gente que você conhece. E você sempre está mais aprendendo do que ensinando. Em todos os sentidos.

Então, eu tenho esse lance com o desenho e os quadrinhos. Acho fantástico pegar um lápis ou pincel ou um caco de tijolo e transformar uma superfície em branco em algo mais. E tem desenhistas em especial que fazem a minha cabeça. No momento, os meus cinco desenhistas mais mais são Mike Mignola, Frank Quitely, John Cassaday, Brian Hitch e Chris Bachalo.

Mas tem outros malucos, por exemplo, o Frank Cho. Olhar pro traço do Frank Cho me dá vontade de sair desenhando. É empolgante. Um dia eu falo desses malucos com mais calma.

Hoje é dia do professor e vou falar de um aluno meu.

O André é um magrão que apareceu com uma pasta de desenhos embaixo do braço e quando vi o trabalho do cara, tive a mesma sensação que tenho quando olho pros desenhos do Cho. Vontade de sair desenhando. O André ainda é novo, tá no começo, ainda é piazão e tem um traço super-bacana. O mais legal é que dá pra ver o gosto que o guri tem pelo desenho. É empolgante.

Agora ele participou do Prêmio Fnac Novos Talentos e ficou entre os três melhores entre 600 participantes do país todo.

Vai lá, guri!

É como eu disse: ser professor é uma via de mão-dupla.

O que o trabalho do André me passa, além da competência técnica, é justamente esse gosto, esse prazer de desenhar, de brincar com o próprio traço, de deixar o desenho acontecer. Como um músico que deixa o som fluir. Acontecer. E fica lá no papel pra quem souber curtir.

Ver esse tipo de coisa faz essa profissão valer mais do que tudo.

(Agora é só esse preguiçoso montar um site...)

(Sim, era pra esse post ter sido publicado no dia 15 de outubro, dia do professor e também o dia em que o André descobriu que tinha ficado entre os três finalistas... mas minha agenda está insuportavelmente lotada e só consegui postar hoje... o que vale é a intenção, não?)

( 25 de outubro de 2008 - Atualizando: O André tem um Blog sim. É o andrefm.blogspot.com. Lá vocês podem conferir os trabalhos do ser. E ele ganhou o primeiro lugar no Prêmio Fnac! Vai ter um álbum publicado ano que vem. Ah, loco! Parabéns, piá!)

Mesmo? Mesmo.


O caso do Grampá é um dos mais singulares que já vi.

Desenhista brasileiro, da turma do Fábio Moon e Gabriel Bá. Esses caras foram os primeiros brasileiros a ganhar o Eisner. O Eisner Awards, se você não sabe, é uma das maiores premiações de quadrinhos do planeta. O equivalente ao Oscar. Daí os caras ganharam como melhor antologia independente, com a revista "5". Capinha aí embaixo.



Depois do prêmio, a "5" ficou bem difícil de achar. Tive ela em mãos e quase a comprei. Não comprei porque, sinceramente, não fiquei impressionado. Sim, eram desenhos bacanas, trabalho bem jóinha. Eram histórias sem palavras, em que os autores envolvidos faziam histórias sobre os outros autores. Tipo, eu te desenho numa história maneira e você me desenha em outra história maneira, sem palavras, daí a gente publica e concorre ao Eisner. Maneiro.

Então me desculpem, mas não fiquei empolgado o suficiente pra gastar os cinco reais que essa antologia custava.

Minto.

Teve uma coisa que quase me fez comprar a revista. Os desenhos do Grampá. Ele não fez nenhuma história, mas fez a capa e as ilustrações de abertura de cada história. Gente, dava gosto de olhar praquele desenho...

Daí começaram a falar desse Grampá na internet. Um zumzumzum. O Lourenço Mutarelli disse que o Grampá era o "filho" dele. Uau. Depois o Grampá apareceu envolvido numa adaptação para o cinema dos álbuns do Detetive Diomedes (obras do Lourenço). Vi o material que o cara tinha produzido e era tudo show.

Visitei o blog do ser e as ilustrações e trabalhos eram muito bacanas.

Daí começaram a falar que o Grampá ia lançar um álbum chamado Mesmo Delivery. Que ia ser sensacional e tal. Bom, desenhar bem o cara desenha. Ele é uma máquina de desenhar. Mas eu nunca tinha visto uma história do cara. Será que ele ia segurar as pontas? Até falava com meu chapa, o Zé: "E se depois de todo esse bafafá o álbum do cara for só desenho?"

Bom. Saiu o álbum.

E não era só desenho.

Mesmo Delivery é do caralho. Não só por causa do desenho, mas porque o Grampá consegue contar uma história bacana. Simples, despretenciosa e bacana.

Não dá pra falar nada do roteiro sem estragar a brincadeira. Basta dizer que é tudo muito rápido. E é incrível que ele consiga criar empatia pelos personagens com toda a velocidade em que as coisas acontecem. Acho que muito disso se deve ao talento do desenho e a despretensão de Grampá. Ele simplesmente conta sua história da melhor maneira possível, sem inventar firulas poéticas ou tramas intrincadas. Seu roteiro é extremamente honesto e é, sim, calcado principalmente no visual sensacional de suas páginas.

Sinceramente falando, é o álbum de estréia mais empolgante que já vi. Tem muito do mesmo que a gente vê por aí, mas o modo como Grampá trabalha esses clichês parece com o do Quentin Tarantino: é clichê e ainda assim é um espetáculo.

Ler Mesmo Delivery me fez lembrar de quando eu lia a antiga série Graphic Novel, que a Editora Abril publicava nos anos 90.

Leitura rápida, mas a gente guarda na estante com carinho.





(Não. O álbum não é preto e branco. É colorido, mas essas imagens aqui eu
achei na web e postei pra vocês terem uma idéia do desenho desse animal.)

Esse não viu o gatinho

Essa eu tirei do Blog dos Quadrinhos, onde o Paulo Ramos escreveu:

As ilustrações fazem parte de uma mostra que será aberta nesta sexta-feira em Londres.

A proposta da exposição inglesa é mostrar como seriam os "reais" desfechos dos desenhos animados baseados no par caçador/caçado.

Nas animações clássicas, quem é caçado sempre vence.

Segundo reportagem do portal BOL, "Splatter", nome da mostra, foi feita pelo artista plástico James Cauty. A idéia foi do filho dele, Harry, de 15 anos.



Céus. Não tenho mais tempo nem de escrever meus próprios posts...


domingo, outubro 05, 2008

Senhor Prefeito



Coincidentemente, hoje é dia de eleições.

Li nessa sexta e sábado dois volumes da série Ex Machina, escrita por Brian Vaughan e desenhada por Tony Harris. Conta a história de Mitchell Hundred, um engenheiro que trabalhava para a prefeitura de Nova York e após um misterioso acidente (sempre há um misterioso acidente), adquire a singular capacidade de "conversar" com máquinas. Desde um boing 747 até um palmtop ou uma .45 automática. Uma espécie de doutor Dolittle de engenhocas.

Junto com a capacidade de conversar com máquinas, Mitchell também passa a ter uma facilidade extraordinária em inventar equipamentos singulares, como um jato-mochila que dá ao cidadão a capacidade de voar. O mais interessante é que esse dom de "Professor Pardal" manifesta-se esporadicamente, quando Hundred está dormindo ou semi-consciente.Então, Hundred e seus dois amigos, Kremlin e Bradbury, decidem elaborar um uniforme e dar início a uma carreira como "super-herói".

Poderia ser mais um título do gênero nas bancas, se não fosse pela proposta dos autores. Mitchell Hundred supostamente vive no nosso mundo "real". Ele é o único ser do planeta a ter um "super-poder". Batman, Super-Homem e Homem-Aranha são mencionados exatamente pelo que são: personagens de quadrinhos.

Nessa perspectiva, a carreira de super-herói de Hundred não vai muito longe. A cada problema que ele soluciona, surgem outros. Por exemplo, ao desativar um trem do metrô para salvar uma vida, ele causa uma paralisia de onze horas no transporte coletivo de Nova York. Assim, diante da cidade, ele fica com uma imagem mais próxima do "Superpateta" do que do "Super-Homem".

Embora não se desse muito bem no negócio de super-herói, Mitchell realmente nutria um sentimento de ajudar as pessoas, de melhorar as coisas. Então decide tentar outra abordagem. Desiste da carreira de super e se candidata à prefeitura da cidade de Nova York. E ganha.

E é aqui que a história realmente começa. É sobre isso que ela fala. A origem e episódios da breve carreira de Hundred como super-herói são mostrados em flashbacks. Muito parecido com a estrutura narrativa de Lost. A narrativa principal é seu trabalho como prefeito.

Hundred precisa resolver toda uma diversidade de problemas, alguns sérios outros nem tanto, e conciliar essas soluções com as exigências e expectativas de republicanos, liberais, democratas e todo o tipo de gente e ideologias. Daí Brian Vaughan, o roteirista, dá um show. Escreve diálogos ótimos e cria situações muito bacanas. Acompanhar os quadrinhos de Ex Machina é um prazer. A cada página tem uma situação nova, uma surpresa mesclando humor e suspense.

E o bacana é que os "dons" de Mitchell não são deixados de lado. Pelo contrário, são integrados à trama e são a base de muitas situações intrigantes que acontecem aqui e ali. O "acidente" que lhe deu os poderes parece esconder bem mais coisas e esse mistério vai permeando o dia a dia do prefeito e de sua cidade.

Outra característica legal do trabalho de Vaughan é a construção dos personagens de apoio. Todos bem resolvidos e importantes para as histórias. No final do primeiro volume, vemos que Tony Harris se baseou em amigos e familiares para elaborar o elenco de Ex Machina. Há uma série de fotos e making ofs das páginas.

Como eu disse, Ex Machina procura se ambientar em nossa "realidade". Mas uma diferença fundamental entre o mundo de Hundred e o nosso está no que aconteceu no dia 11 de setembro. Em Ex Machina, Hundred consegue impedir que um dos aviões atinja seu alvo. Assim, uma das torres permanece em pé. Já tinha lido muita coisa sobre o 11 de setembro, mas é de Ex Machina uma das seqüências que mais me tocou: Hundred voa tentando salvar as pessoas que se atiram da torre condenada. E é lógico que ele não conseguirá salvar todas. Essa seqüência é inserida na história como um rapidíssimo flashback, que mostra todo o desespero e trauma de Hundred.

De polêmicas sobre obras de arte com teor racista expostas no museu até assassinatos sangrentos nos túneis do metrô, Hundred e seus assesores vão lidando com a "grande maçã". Ex Machina é uma mistura de política e super-poderes muito bem escrita, o tipo de quadrinho que surpreende a cada edição e que parece ter muito a dizer. O tipo de quadrinho que estava fazendo falta.

"Deus ex machina: Literalmente, "deus da máquina". Uma pessoa ou força que vem providenciar uma solução improvável para uma situação impossível, batizada assim devido aos dispositivos mecânicos usados pelos dramaturgos gregos a fim de fazer descer no palco atores que interpretavam divindades".

Dance dance dance




Essa eu peguei no Cornflake, o blog da Sammy.