domingo, novembro 30, 2008

A Hora do Pregador



No princípio, havia o Caos...

Preacher foi uma das séries de quadrinhos mais badaladas dos anos 1990. Não chega a ser uma obra-prima dos quadrinhos, mas é muito, muito bacana.

Aqui no Brasil, ele foi publicado em português pela primeira vez em 1997, pela extinta editora Metal Pesado. Foi uma publicação bem irregular, com atrasos e trocas de editoras. Além da Metal Pesado, ele passou pelas editoras Tudo em Quadrinhos, Fractal , Atitude e Brainstore, que muitas vezes eram a mesma editora só que com nome diferente, mas essa é outra história bem mais complicada por isso deixa pra lá...

Acho que essa complicação foi uma das razões que me impediu de acompanhar Preacher durante os anos 90. Porque, acredite em mim, eu tentei.

Mas a bem falar da verdade, não fiquei lá muito empolgado com a edição número 1. Era uma história legalzinha, mas não me fisgou. Ainda em 1997, a Editora Abril lançou uma minissérie com o Santo dos Assassinos, que é um dos personagens principais da série Preacher. Eu achei a história uma bosta. Muito forçada, muito ruim. E deixei Preacher pra lá.



Agora, quando paro pra pensar, acho que a tal bagunça da publicação nacional contribuiu muito pra minha impressão negativa de Santo dos Assassinos e Preacher. Pra começar, os dois títulos foram publicados aqui no Brasil em 1997. Mas Santo dos Assassinos (Saint of Killers) era uma série derivada de Preacher. Nos EUA, Preacher havia sido lançada em abril 1995 e Saint of Killers em agosto de 1996. Lá teve um ano e meio de série regular preparando o terreno pra minissérie do Santo. Aqui, elas foram lançadas praticamente ao mesmo tempo, por duas editoras diferentes. Ainda assim, na minha memória, a história parece muito chinfrim.

Enfim, questões de momento...

Os anos passaram e eu escutava a galera falando bem de Preacher, mas era difícil e desanimador tentar conseguir as edições nacionais e eu não tava a fim de comprar as importadas (preguiça de ler em inglês...).

Mas foi então. Que aconteceu.

Daí, no meu aniversário desse ano, o camarada Claude me deu um volume de Preacher. A série tinha sido encadernada em um único volume pela editora Devir em abril de 2006. Na dedicatória, o Claude escreveu:

“Toda história tem um começo. Que essa seja a primeira aventura de sua peregrinação ‘religiosa’”.

E assim começou.

Ler Preacher em um só volume foi muito mais encorajador do que ler “picadinho” nas séries mensais. Aliás, esse é um problema que vejo no modo como a indústria formata as histórias em quadrinhos. No caso dos comics americanos, geralmente temos uma história dividida em capítulos, de 20 a 22 páginas cada que são lidos em 10, 15 minutos. Então temos um hiato de 30 dias ou mais antes de prosseguirmos a leitura. São 15 minutos de leitura com intervalos de 30 dias. Assim não dá pra mergulhar na história, que se dilui, perde a força.

Essa foi a maior diferença que senti ao ler esse Preacher encadernado. É o tipo de história que funciona melhor no formato livro, com todos os capítulos da história reunidos em um só volume. Você lê e saboreia como um livro. Você decide quando serão os intervalos entre um momento e outro da história e quanto tempo esses intervalos vão durar.

Assim, li minha edição encadernada de Preacher.


Se for ler, comece por aqui. Esse é o primeiro volume.

Olha só, Que cara estranho que chegou

Uma das coisas legais em edições encadernadas é que elas geralmente vêm com um texto introdutório. Às vezes esse texto é escrito por um “convidado especial”. No caso de Preacher, o texto de introdução é de autoria de Joe R. Lansdale e ele escreve:

“Em primeiro lugar, com relação a Preacher, bem, não existe outro igual a ele. Vamos deixar isso um pouco mais claro. Vamos até repetir para os mais lerdos. NÃO EXISTE OUTRO IGUAL A ELE”.

Bem, se você, como eu, nunca tinha ouvido falar de Joe R. Lansdale, eis uma brevíssima biografia tirada da Wikipedia: Lansdale é um escritor texano, especialista em artes marciais e autor de histórias bizarras como Bubba Ho-Tep, onde Elvis Presley e John Kennedy ainda estão vivos, vivendo secretamente em um asilo onde, de repente, são obrigados a combater uma múmia egípcia para impedi-la de tomar as almas dos outros velhinhos. (Bubba Ho-Tep virou filme, mas você só vai assistir se conseguir baixar da web...)



Bizaaaaaarro...

Esse senhor Lansdale descreveu Preacher como único. Mas não é bem assim.

Enquanto escrevo esse texto, escuto a trilha sonora de Pulp Fiction. E é incrível como ela combina com Preacher. Existe muita coisa em comum entre Preacher e Pulp Fiction do Quentin Tarantino. Ambas são histórias desconcertantes, surpreendentes, escatológicas e transbordantes de violência. E, ainda assim, conseguem ser muito mais do que isso.

Como Tarantino, Garth Ennis, o escritor de Preacher, enche suas tramas com diálogos memoráveis e situações que extrapolam os limites do convencional. Cria personagens cativantes e outros assustadores e ao mesmo tempo patéticos. O mais bacana em Preacher é como ele consegue juntar situações chulas, palavrões, material de baixíssimo calão e elementos de mau gosto com uma história empolgante sobre aventuras, amizade, amor, fé, dignidade e traição. É essa mistura toda que torna Preacher diferente do que se vê por aí.


Nossos Bons Companheiros

Jesse Custer era pastor (em inglês: preacher) numa cidadezinha perdida no meio do Texas. Numa manhã, durante o culto, a cidade toda foi destruída por um fogo sobrenatural. Custer foi o único sobrevivente. Ele havia sido possuído por uma criatura chamada Gênesis, um híbrido entre anjo e demônio que havia escapado do Céu.

Gênesis é uma força pura e incontrolável, destituída de consciência plena. Através dele, Jesse Custer adquire algumas habilidades interessantes. Uma delas é a Palavra, que lhe dá a “Voz de Deus” para comandar qualquer ser pensante, obrigando-o a fazer qualquer coisa que lhe seja ordenada. Junto com a Palavra, Jesse adquire algumas lembranças da Entidade.

Acaba descobrindo que Deus havia abandonado o Céu e deixado toda a Criação aos cuidados dos anjos. Indignado com esse abandono por parte do Criador, Jesse decide partir em sua busca, para encontrar Deus e obrigá-lo a se explicar.

Desnecessário dizer que, com uma premissa dessas, Preacher tinha tudo pra se tornar polêmico entre os religiosos. Entretanto, pelo que pude verificar, não houve tantos escândalos ou protestos quanto era de se esperar de um país cheio de “ativistas” como os EUA.

Em sua busca, Jesse conta com a ajuda de Tulipa O’Hare, sua amante, que pra arranjar uns trocos às vezes trabalha como matadora de aluguel. Cassidy, um vampiro Irlandês junkie fecha o trio de viajantes que pegam a estrada pra encontrar Deus.

Ainda na história encontramos o Santo dos Assassinos, que é o Anjo Exterminador do Senhor, despertado pelos anjos que tinham ficado no comando especialmente para encontrar e matar Custer e Gênesis antes que eles encontrassem seu alvo. O Santo é um daqueles personagens estilo Darth Vader, que é superfodão e quando ele aparece na área você sabe que não vai ser brincadeira. O Santo é o único dos vilões (se é que podemos considerá-lo um vilão) que não apresenta um aspecto patético. Ah, sim, em Preacher temos um desfile de diversos personagens, alguns muito mal intencionados, mas todos com alguma característica desconcertante, patética.

Na galerira de personagens também encontramos o Cara de Cu, um garoto que após levar um tiro no rosto... bem, você pode imaginar como ficou o rosto dele. Há o Senhor Starr, líder de uma organização secreta e que apresenta algumas... peculiaridades. E John Wayne, o próprio John Wayne dos faroestes, que aparece para Jesse Custer como uma mistura de "amigo imaginário" e "Grilo Falante". E outros...

Na Trilha do Senhor

Além desses personagens, o que fascina é a criatividade do escritor Garth Ennis. Cada história apresenta detalhes da trama maior, mas apresenta uma situação fechada. São histórias sensacionais e aterradoras sobre assassinos seriais, famílias insanas, organizações secretas e outros lances do tipo. Tudo marcado por um ritmo e uma violência alucinantes.

As histórias fazem lembrar um pouco o espírito dos quadrinhos Underground dos anos 1960, de trabalhos de sujeitos como Robert Crumb, Spain Rodriguez, Gilbert Shelton, Victor Moscoso e mais uma galera. Juntos esses caras foram responsáveis pelo lançamento, em 1968, da revista Zap Comix, que zoava com todos os dogmas da sociedade norte-americana. Aliás, zoar com os dogmas da sociedade norte-americana era o propósito de todo o movimento Underground... Enfim, Preacher tem um bocado disso tudo, de zoar, criticar, chocar.


Capa e página interna do livro Zap Comix, lançado no Brasil pela Editora Conrad.


Não se trata só de choque pelo choque. Tem muitas coisas interessantes em Preacher. Como eu dizia, eu tinha gostado da primeira encadernada, mas ainda não tinha sido realmente fisgado. Seis meses depois de ler o primeiro volume é que fui comprar o segundo. E aí, meu irmão, fiquei de cara.

Em Até o Fim do Mundo temos reunidas duas histórias longas: Tudo em Família e Caçadores. Digamos que quando comprei o livro eu estava passando por uma situação turbulenta na minha vida. Muito stress e aquela sensação de que havia perdido meu rumo. Comecei a ler Tudo em Família e ela conseguiu o melhor que uma história pode conseguir: arrebatou-me da minha realidade. Por um momento, esqueci dos meus problemas. Mais ainda, quando tive que encarar o desfecho de minha situação, eu ainda pensava “Mas como Jesse e Tulipa vão escapar das garras da vovó?”.

Não vou entrar em detalhes da trama aqui, porque uma das maiores forças de Preacher está justamente no virar de folhas, nas surpresas que espreitam pelo caminho. Mas se você curte o bizarro e não tem neuras religiosas, se você curte o trabalho do Tarantino, então você precisa ler Preacher.


Na sua peregrinação, siga por aqui. Este é o segundo volume.


Terceiro volume.


Quarto volume.


Quinto volume. Aqui terminam as encadernadas lançadas
no Brasil. Falta lançarem ainda mais três pra fechar a série.
Se tiver pressa, compre as versões americanas...


Essa é uma edição com histórias dos personagens da série.
Não é fundamental, mas se você curtiu a série...


Até o Fim do Mundo

Depois de ler o segundo volume, fui até minha banquinha favorita (sim, a Itiban) e comprei tudo que consegui achar de Preacher. E a história não pára de me surpreender.

Não se trata só do bizarro ou do herege. O bacana é a relação dos personagens principais. Com Jesse, Tulipa e Cassidy, Garth Ennis escreve brilhantemente sobre relações humanas. Os personagens se desdobram, se reinventam, surpreendem. Para o bem e para o mal.

Garth Ennis já tinha feito um ótimo trabalho nas histórias de John Constantine. Assim como em John Constantine, Preacher é uma história feita de uma perspectiva masculina e muitas vezes machista. E Ennis sabe que está sendo machista e assume isso. As conversas entre Cassidy e Jesse são fascinantes e carregadas de sinceridade e realismo. É como se estivéssemos no bar, conversando com os camaradas.

Tulipa é uma tentativa de fazer uma personagem feminina forte. Mas pra mim, ainda parece apenas uma personagem feminina escrita por um homem. Ela soa meio falsa, não me convence muito. Ela é decidida, forte, determinada e independente, mas apesar de toda a boa intenção de Garth Ennis, ela é mais um personagem masculino do que uma personagem feminina.

E por fim, a relação religiosa. Um ponto bem polêmico. Garth Ennis é ateu e não parece se importar muito com escrúpulos ao usar Deus e seus anjos como personagens nada nobres. Entretanto, nas entrelinhas de Preacher você vê idéias e temas sinceros. Debaixo de toda a escatologia e pandemônio, há uma visão otimista, há uma boa intenção, um discurso sincero, que passa despercebido se você olhar pra coisa com preconceitos.

Os dois quadrinhos que abrem esse post foram uns dos que mais me fizeram pensar. Conheço bons amigos que se “converteram” e “viram a luz” após chegar ao extremo do desespero. Hoje, são pessoas felizes (ou pelo menos assim parece). Mas também são pessoas que foram transformadas num nível radical e que se tornaram praticamente irreconhecíveis e inacessíveis pra mim. Pessoas que sinto falta.

A conversão por meio do desespero sempre foi algo que me incomodou. Se existe realmente um Deus, não acho que ele nos inflija o Mal para que nos joguemos de joelhos no chão. A fé é uma escolha espontânea e não uma imposição por ameaça.

Eu acredito que haja um Plano. Eu acredito que o Homem planeja e Deus ri. Eu acredito que as coisas sempre dão certo no final, mesmo que seja de um jeito que a gente não entenda direito.

Eu acredito.

E isso me basta.


sábado, novembro 29, 2008

Mais coisas para se pensar

Primeira parte:



Segunda parte:


Mais uma coisa:

Semana passada, eu estava lendo a revista Www.com.br, que trazia uma entrevista com Julius Wiedemann, que tem 34 anos, é carioca e atualmente mora na Inglaterra, onde trabalha como editor-chefe da Taschen. Wiedemann é autor de 27 livros sobre design, cultura, tecnologia e comunicação. E tem formação incompleta em Design Gráfico. Segundo a Www.com.br, ele "foi para o Japão trabalhar como editor de revistas de design", "depois de abandonar os cursos superiores de Design Gráfico e Marketing".

Pense nisso.


(Agradeço ao Rodrigo por ter me mandado o link desse vídeo. Valeu, cara!)

domingo, novembro 23, 2008

Terminal



E por onde você andou, afinal?

Ah, por aí. Trabalhando, filho. Trabalhando feito um desgraçado.
Mas não trabalhando que nem os caras que puxam aqueles carrinhos enormes cheios de papel pelas ruas. Às vezes eu olhava esse pessoal...
Mulheres puxando os carrinhos e dentro deles as crianças menores. Em volta os outros filhos. Eu via essa gente da janela do ônibus. O ônibus que eu pegava no terminal do Guadalupe.
Que é um lugar que realmente merece ser chamado de terminal.



De segunda a sexta eu estava lá, pegando o ônibus das 11 da noite. Eu me maldizia, maldizia a vida e pensava “trabalho feito um desgraçado” e daí via o pessoal puxando os carrinhos. Alguns deles tão entulhados de papelão que se transformavam em esculturas impossíveis de três metros de altura sobre duas rodas. No máximo o cara ia pegar uns 10, 15 reais por tudo aquilo.



Eu ficava na fila do ônibus das 11 (que, falando a verdade, era beeeeem menor que a fila das 5 da tarde). Daqui a pouco, passava aquele pessoal vendendo bala, chocolate, salgadinho. Uma vez um menino passou chorando, chorando de raiva e cansaço. Ele tinha que vender os últimos doces senão não podia ir embora. Ele tinha o quê? 10 anos? Um menino no Guadalupe às 11 horas da noite.

Terminal.




Eu achava que trabalhava feito um desgraçado. Uma vez um colega me deu carona de carro até o Guadalupe. Eu sempre achei esse cara um babaca. E ele sempre confirmou a minha impressão. Na hora de me desovar no Guadalupe, o idiota olhou na minha cara e disse: “olha só, pelo menos você vai sentado no ônibus, não tem que se preocupar em dirigir nesse trânsito”. É. Verdade. Nunca tinha pensado nas coisas por esse ângulo. Obrigado, estimado colega.




Na fila do ônibus vejo os mesmos rostos de sempre. Isso faz uns... vinte anos mais ou menos. Comecei a freqüentar o terminal na época que comecei a fazer o segundo grau. Depois continuei passando quando entrei na universidade. Depois, quando achei o primeiro emprego. E o segundo também.




Eles me diziam que o estudo ia construir meu futuro. Depois me diziam que se a empresa crescesse, eu cresceria junto. Alguns colegas de faculdade já tem esposa, filhos, carros na garagem. Alguns estão mais podres do que eu. E eu ainda estou aqui, na fila, tentando fazer o futuro acontecer. Acho que o mundo funciona diferente pra cada um.



Preciso cultivar bons pensamentos.




A gente costumava se reunir pra assistir Clube da Luta. Era meio que um culto nosso. “Tava deprimido ontem e daí asssisti Clube da Luta” dizia um cara. Tipo uma catarse. O lance era mandar tudo à merda. Foda-se o emprego, foda-se o terminal do Guadalupe. A gente passava por tudo isso pra quê? O que eu tinha na cabeça? Era como Cartas na Rua do Bukowski. A gente rala, rala, rala e toma no cu. Tem que é fazer a própria revolução. Que nem nos filmes. Manda tudo à meeeeerda.



Fazer que nem o cara do Beleza Americana. Pedir a conta e ficar em casa malhando. Um dia pego a ninfetinha da escola.
Um dia levo um tiro na cabeça.




Preciso cultivar bons pensamentos.



Preciso sair dessa.

(Imagens gentilmente usurpadas do filme Fight Club).

You have to give up


Você vai até um ponto.

Uma hora você descobre os seus limites. Sejam eles físicos, emocionais, intelectuais.

Ou morais.

Semana passada eu me demiti.

Já me demiti algumas vezes na vida. É um momento mágico.

A única hora em que você olha para o seu chefe e tem domínio total da situação. De verdade. Acho que é porque a gente não está mais a mercê da empresa. A gente diz pra ela que não precisa mais dela antes que ela diga o mesmo pra gente. A gente meio que trapaceia e estraga o jogo.

Talvez, quando tomamos a decisão de nos demitir, paramos de nos lamuriar da nossa situação e tomamos alguma atitude concreta para melhorar nossa vida. A demissão nos faz acreditar que temos algum controle sobre nossa vida.

E talvez tenhamos mesmo.

Enfim, eu me demiti.

Estamos de volta

Sumi, mas não morri.

Um singelo video clipe para retomar o blog:



(Sem nenhum significado subliminar ou oculto, esse video clipe está aí só porque achei a musiquina bacana. A banda é Headlights e o som deles é jóinha. Estamos de volta, povo. Senti saudades...)