quarta-feira, dezembro 30, 2009

Resoluções











Quer mais resoluções? Escolha as suas favoritas em New Resolution.

E feliz 2010.

A última noite

Na verdade, eu diria (isso é coisa de psicanálise): só existe o presente. Existe o passado, mas o passado só é real quando tem um lugar no presente. O futuro existe? Pode existir. Não sei como vai ser, mas pela fantasia ele se torna presente.
Rubem Alves, Fomos Maus Alunos, p. 73.

A maioria dos dias de nossas vidas são irrelevantes. Acordamos, caminhamos pelo cotidiano e voltamos a dormir. Como hoje.

Acordar na madrugada do penúltimo dia do ano com um mal-estar e restos da noite. Levantar, enxaguar a boca do gosto ruim de sal e álcool, tomar algo para o fígado, tentar voltar a dormir. Abrir a janela pra ventilar um pouco, esperar o sono sentado pra evitar o refluxo.

Acordar no meio da manhã do penúltimo dia do ano, tomar a boa e velha levotiroxina e imediatamente ligar o computador pra trabalhar no novo layout do blog. Tomar um banho, lavar a louça, preparar a agenda do dia. Pagamento de conta de telefone (atrasada), retirada do novo RG para a viagem, almoço, café no Lucca e de repente uma sessão de cinema.

e a sala de cinema é como uma igreja silenciosa, as poucas pessoas que chegam conversam em sussurros que soam como preces ininteligíveis e depois perdem-se nas sombras para contemplar o altar da projeção

Voltar à luz do dia, caminhar, comprar cabo de rede, caminhar, comprar um livro, preencher e depositar o cupom pra talvez ganhar um carro, caminhar, esconder-se sob a marquise da loja de música e olhar a chuva passar, caminhar.

Chegar em casa e escrever, registrar um dia totalmente esquecível, mas presente enquanto durar.

E deitar para amanhecer em 2009 pela última vez. Imaginar como será esse dia final e já emendar e imaginar como serão os dias de 2010. E fantasiar, desejar, temer. Planejar. Resoluções para tentar ordenar o destino. Na escuridão da noite, só, ruminar sobre qual lei prevalece: a do Destino ou do Acaso? Haverá alguma diferença? Haverá alguma lei?

Remoer velhas mágoas e decepções, reviver bons momentos que agora parecem ainda melhores do que realmente foram. Olhar para o amanhã e especular, fantasiar, temer e planejar.

Adormecer.

A maioria dos dias de nossas vidas são irrelevantes. Acordamos, caminhamos pelo cotidiano e voltamos a dormir. Não abriríamos mão de nenhum sequer desses dias vividos, mas a maioria se perde na memória. E, muitas vezes, mesmo os momentos marcantes e cheios de significado são esquecidos pra de repente reemergirem cercados de maravilha e espanto. Como pude me esquecer de tal coisa? Como fui me esquecer disso?

E dentro de nossas cabeças é sempre reveillon e layers de passado e futuro se sobrepõem, mesclam-se, desaparecem e ressurgem. Novos olhares sobre o passado, planos e grandes esperanças para os possíveis futuros.

Mas em nossas mãos apenas o presente.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Natal é...

Feliz Natal. De novo.

Vi a propaganda do especial da Xuxa de Natal. Cheio de números musicais interligados por uma história em que ela é prefeita da Cidade do Natal, mas então (como sempre) alguma coisa acontece e a loira e seus amiguinhos partem em missão para salvar o dia. As crianças devem gostar. Ou não. Sei lá. Eu não gosto.

Vi a propaganda depois de correr atrás dos presentes. Shopping, fila, multidões, funcionários exaustos com os longos horários e aquela decoração. Os anjos estão pendurados pelo teto do shopping com cabos e parecem menos figuras voando do que gordas crianças, aladas, enforcadas e expostas. Pessoas batem foto na frente da decoração de natal. Pessoas aplaudem os bonequinhos mecânicos quando eles terminam de tocar seu número, que é uma gravação. O sistema de som não para de tocar aquelas músicas natalinas de sempre, que se perdem nos sons de vozes, passos, risos, gritos e broncas. Não tocaram a música da Simone esse ano...

Vi a propaganda do especial da Xuxa e ela e seus amiguinhos tem que salvar o dia na Cidade do Natal. Parece que isso inclui garantir os presentes. Os meus estão garantidos hoje. Mas até ontem eu tinha pensado: "ah, dane-se, esse ano não vou dar presente pra ninguém". Simplesmente por preguiça de fazer as compras, shopping, fila, blábláblá. Preguiça ou cansaço. As músicas natalinas se repetem sem parar, sem parar, até não se distinguirem mais do lixo sonoro da cidade.

Não ia dar os presentes por preguiça. E também por não saber o que escolher. Presentes tem que ser bem escolhidos, tem que ser sinceros. Se você não sabe o que dar pra pessoa, melhor não dar nada. Ou um abraço. Só de pensar no trabalho de escolha, já fico cansado.

Mas daí fui visitar minha família e tinha a árvore de natal montadinha na sala e pacotes ali. Alguns deles com meu nome. Porra. Vá comprar presentes pra sua família, seu monstro. Eles pensaram em você.

Shopping, filas...

Família.

Natal pra mim tem gosto de nostalgia. Quanto mais distante, mais colorido o natal da minha infância parece. Era natal em cidadezinha de interior, mais silêncioso, menos neurótico. O tempo foi passando e a família diminuindo, a festa foi perdendo a intensidade, devanescendo.

E esse ano a família voltou a crescer. Criança dá nova cara pro natal. Criança muda tudo.

A esperança é quase irresistível.

E, apesar de tudo, a gente arrisca: Feliz Natal.

domingo, dezembro 13, 2009

500 Dias


Provavelmente um dos melhores filmes do ano. Mas não daqueles filmes de que você fala com os outros no bar, como se fosse vitória de time de futebol. Esses 500 dias são só meus.

Diabos.

Diabos mesmo. Filme que me faz pensar no próprio Satanás, aquele tal de Lúcifer, queimando no inferno, pra sempre e sempre expulso do Paraíso, da Cidade Prateada, do Jardim do Éden, da luz de toda e qualquer coisa boa que existe ou pudesse existir. E queimar no inferno não significa necessariamente estar em algum lugar flamejante. O inferno pode ser algo que se carrega dentro do peito, queimando feito gelo, feito geada marvada que mata toda colheita, todo trabalho de dias e dias.

Ser um desgraçado, um condenado à danação, é uma arte. O segredo pra esse tipo de inferno é acreditar e sonhar com um Paraíso, saber que ele existe e é inacessível e jamais esquecê-lo. Essa é a receita para o inferno. Ou, em termos mais terrenos, amar alguém que não ama você.

Filme danado esse 500 Dias. Assisti acompanhado de moça bacana, cheirosa e linda, boa companheira de cama e de estórias e, ainda assim, nos créditos finais amarguei uma sensação doída de solidão, a mais absoluta e completa solidão. Dolorosa, triste e fria.

Amor. A gente pode acreditar que tudo vai terminar bem e que tudo faz sentido, que não existem coincidências e o que tiver de ser será e blábláblá. Mas também dá pra acreditar que ninguém é insubstituível, nem único, e que no fim das contas tudo é simplesmente carne e equações de custo-benefício. E se não der certo agora, tente outra vez.

Quem sabe?

500 Dias com Ela (500 Days of Summer) é um filme com uma trilha sonora do caralho (e indispensável). Tem alguns toques na narrativa que faz lembrar de Amélie Poulin, mas não dá muito espaço pra sonhadores. É estrelado pela fofa Zooey Deschanel e por Joseph Gordon-Levitt que interpreta um tal de Tom, personagem de ficção muito mais parecido comigo do que eu gostaria. Como o anunciado, "this is not a love story, this is a story about love".

O inferno é logo ali.


sexta-feira, dezembro 04, 2009

Rapidinha


Caríssimos leitores:

Meus grandes camaradas do Estúdio Openthedoor estão participando da mostra competitiva do 16º Vitória Cine Vídeo com o curta-metragem animado "Quando as cores somem". Eles estão trabalhando nessa animação já tem uns aniversários e ela finalmente ficou pronta. E bem bacana.

Você pode conferir e votar no trabalho dos Openthedoor clicando nesse link. Aproveite e dê as cinco estrelinhas no flash player.

Valeu, povo!

;-)


domingo, novembro 29, 2009

Quase

"Não faço ideia do que está acontecendo. Induzam um coma e coloquem o blog no by-pass até que eu pense em alguma coisa".

Estive fora.
Viagem de negócios pelo ciberespaço. Novos mundos, novas ideias. Por que escrever se tanta gente mais está escrevendo também? Há leitor pra tanto escritor? Bem-verdade que os medíocres proliferam algoritmicamente, mas a quantidade de boas ideias é expressiva o bastante pra fazer pensar: o que estou fazendo aqui faz alguma diferença? Afinal, o que eu estou fazendo aqui? Crise, vazio, branco da tela, o que dizer, como existir como voz nesse coral de proporções astronômicas? Vou-me embora pra Passárgada até pensar em algo que preste, um rumo, uma solução. E, até lá, silêncio.

Mentira. Estive fora por causa da quimioterapia. Coisa foda e íntima que não diz mais respeito a mais ninguém , mas eu não conseguia pensar em mais nada pra dizer, mais nada pra escrever e só existia aquele gigantesco mal-estar me consumindo, me apavorando, a morte cutucando minha nuca, a minha morte dentro de mim. Não dá pra escrever assim, não há por que escrever assim, mas eu não queria virar um freak-show, não queria que as pessoas soubessem do meu dia a dia, não queria ser como aquelas propagandas de aidéticos da Benetton. Então eu parei.

Mentira. A verdade é que o antigo dono era meu namorado e ele morreu. Talvez continuar escrevendo seja uma maneira de mantê-lo vivo, de mantê-lo por perto. Mesmo que seja só pra mim.

Ha! Essa foi foda.

E agora?

Acabou?

sexta-feira, novembro 06, 2009

Feliz dia do Design

Ontem (hoje, agora a pouco) foi dia do design.

A data é comemorada aqui no Brasil junto com o aniversário do Aluisio Magalhães, peso pesado da história do design do país.

Passei o dia dando aula pra uma turma de futuros designers, assisti a palestras comemorativas organizadas pelo departamento do curso de design, almocei conversando com professores de design.

A gente pensa um bocado sobre o tal design.

Eu acho que o design é legal, é divertido, vale a pena ser feito.

Não gosto de pensar no design como um "diferencial" no mercado. Não gosto de pensar no design como um agente impulsionador de vendas.

Eu acredito em um design desinteressado, feito por gente que curte muito o que faz, que quer ganhar a vida honestamente e que realmente tem interesse em ajudar ou tornar a vida dos outros mais fácil, um pouquinho melhor ou mais divertida. Eu acredito em um design que não tem todas as respostas e nem está interessado em ter. Um design leve, simples e feliz.

Sim, eu sou um idiota idealista e às vezes quebro a cara e isso dói um bocado.

Mas na maior parte do tempo fico feliz pelas minhas escolhas.

domingo, novembro 01, 2009

Happy Halloween



LUIS from diluvio on Vimeo.




Estas animações são trabalhos dos chilenos Niles Atallah, Cristobal Leon e Joaquin Cociña.


Happy halloween pra você.


Ou, se preferir, Feliz Dia do Saci.

sábado, outubro 24, 2009

Um estado de espírito, uma ideologia, uma religião...

Ou simplesmente uma condição genética.

Haha!

Descobri o blog Classe Média Way of Life. Sempre me achei classe média, mas depois que conheci esse blog reparei que não preencho todos os quesitos. (Mas, infelizmente, preencho alguns.) Até me veio uma ideia de fazer um questionário-teste do tipo "descubra se você é gay" a partir dos posts do blog. Podia ser algo assim:
  1. Você mora ou sonha morar em apartamento?
  2. Você acha que o Lula é culpado da maioria (senão de todas) das situações, constatações e eventos negativos relacionados ao Brasil?
  3. Você admira os Estados Unidos e acredita que são o modelo de país que o Brasil deveria almejar de ser?
  4. Você se acha sempre com a razão no trânsito?
  5. Você acredita que não existe racismo no Brasil?
  6. Pela falta de tempo do dia a dia, você lê somente os livros "best-sellers"?
  7. Você se acha uma pessoa privelegiada ("graças a Deus, mesmo com todas as dificuldades")?
  8. Mesmo tendo tv a cabo, você assiste o domingão do Faustão?
  9. Você lê as colunas sociais?
  10. Você sonega impostos?
Se você respondeu sim a mais de duas perguntas, cuidado...

Mas, ei, leve na brincadeira. Eu estou levando, porque lendo os posts me identifiquei com alguns e não curti muito.

Eu gosto de morar em apartamento, corro e adoro amostra grátis... Ainda assim, os textos do blog, bem humorados e provocantes, apontam mais para os "sintomas" de casos "crônicos" de classe média.

O blog usa "classe média" não como um termo relacionado a uma classificação econômica da população mas sim como um rótulo que envolve ideias e comportamento egoísta, tacanho e limitado. Um sujeito "classe média" acha que todos os problemas do mundo estão ao redor e ele não tem culpa de nada, pelo contrário, é vítima. Antes de se sentir ofendido, vale a pena ler e pensar um pouco (mas pensar um pouco não é uma atitude "classe média"...)

O que acontece é que deveria existir uma palavra que represente certas pessoas que se acham melhores que as outras, donas da razão e prejudicadas ou ameaçadas pela incompetência ou inveja dos outros. Uma palavra que defina uma atitude de egoísmo, de unilateralidada nos diálogos, de truculência e animosidade contra opiniões contrárias.

Existe essa palavra?

quarta-feira, outubro 21, 2009

Låt den Rätte Komma

Pedi pro Papai do Céu uma vida perfeita e ele me atendeu. Passado os primeiros meses de euforia e gratidão, comecei a achar pequenas rachaduras na vida perfeita. Infiltrações, sinais de mofo, mal cheiro, moscas. Ainda é uma vida perfeita muito bonita e bacana e não penso em abrir mão dela, mas...

Mas às vezes você precisa escapar um pouco. Às vezes é preciso fugir do paraíso. E talvez o paraíso nem seja assim tão legal pra ser escrito com letra maiúscula. No fim você descobre que nada é perfeito.

Hoje eu fugi. Dei um tempo, sumi, desliguei celular, saí pra caminhar feito indigente.

Fui parar num cinema e lá estava passando "Deixe Ela Entrar".

Filme sueco sobre vampiros. Na verdade, uma mistura de "Meu Primeiro Amor" com... sei lá. Pelo trailer você acha que é mais um filme de terror, mas não é bem assim. Só o fato de assistir uma produção não americana já vale a pena.

Nada contra os gringos, mas eles tem quase sempre o mesmo jeito de contar uma história. Aliás, na maioria das vezes nem se preocupam em contar uma história. Se algo vende, vamos fazer mais. É o caso dos vampiros. "Crepúsculo" é uma história de vampiros super descerebrada. O tal livro "Noturno" de Guillermo Del Toro se mostrou uma grande decepção (livro de terror que descamba pra episódio piloto de série televisiva tipo "os caça-vampiros" ou alguma merda do gênero...) É a tal filosofia do "maaaaassa, véio".

Me escondi da vida perfeita naquele cinema e fui ver um filme sueco.

De vampiros.

Acho que foi a despretensão, o fato de serem autores desconhecidos, um lugar do mundo que parece ser outro planeta eternamente coberto de gelo... enfim, foi uma dessas coisas que me fez esquecer da vida e mergulhar em outra esfera. "Deixe Ela Entrar" não é genial. Mas, pensando bem, talvez seja. Uma história que retoma o mais que desgastado tema do vampiro e consegue ser interessante, envolvente e até mesmo assustadora talvez mereça ser chamada de genial.

Ou talvez eu esteja tão mergulhado na mediocridade da vida perfeita que estou me fascinando com qualquer coisa.

Mas vou te dizer que esse filme me fez voltar à luz do dia mais animado, mais satisfeito. Pronto pra outra.

Confira.

Antes que saia de cartaz.

terça-feira, outubro 06, 2009

Esta é uma história verdadeira


Aconteceu lá pelos idos de oitenta, comecinho de noventa.

Adriane Lebowski era uma garota como qualquer outra: única, apaixonante e inexplicável. Ela buscava aproveitar ao máximo cada pequeno prazer da vida. No seu caso específico isso significava bebida, sexo, artes e música.

Especialmente música.

Já tinha ouvido de tudo, mas tinha predileção acentuada pelo rock progressivo. Naqueles dias, Yes, Gênesis, Pink Floyd e congêneres representavam para ela o supra-sumo musical do século 20.

Então, numa madrugada dessas, Adriane estava em um fim de festa. Muita fumaça, garrafas, álcool e suor. Boa parte do pessoal já tinha ido embora, e os que ficaram estavam desmaiados pelo apartamento. Ela ronronava quentinha sobre um rapaz qualquer, quando ouviu a música.

Algo estranho e indefinível, totalmente inédito. Meio progressivo. Melódico, porém simples. Aparentemente muito antigo e, paradoxalmente, contemporâneo. E, de certo modo, familiar. O vocal era etéreo e profundo, o instrumental era característico dos anos 70, mas com algo diferente.

Curiosa, ela perguntou ao amigo dono da fita qual era a banda. Ele não soube responder. A banda não tinha nome e não tinha origem. A fita, sem identificação alguma, tinha sido encontrada no bagageiro de um trem, na Patagônia, um ano atrás.

Adriane emprestou a fita de seu amigo e esqueceu de devolver. Ela ouviu a gravação durante dias, inúmeras vezes, cada vez mais fascinada. Mostrou a amigos que eram verdadeiros experts em músicas alternativas e obscuras (o tipo de gente estranha que você não acreditaria que existe). Nenhum deles jamais ouvira algo parecido e não faziam a menor idéia de quem poderia ter gravado as nove canções. Alguns afirmaram que o idioma cantado era familiar, mas não era inglês ou alemão ou qualquer outra língua que conhecessem.

Ela se tornou obcecada. Nomes, produtores, datas. Adriane precisava dessas informações e a única coisa que tinha era a fita. Foi até uma rádio especializada em rock e mostrou a gravação. Ninguém soube identificar, mas convidaram a moça para participar de um programa muito popular. Ela foi ao ar naquela noite e tocou algumas faixas da fita ao vivo. Depois perguntou se algum dos ouvintes saberia identificar a banda. Os poucos telefonemas deram respostas erradas e diversas. Tudo totalmente inútil.

Dias depois, após as aulas, ela esperava o ônibus de sempre no ponto de sempre. Em frente ao ponto, um sobrado de paredes cinzentas encobertas por hera. Vinda de uma janela, a música a surpreendeu e a fez estremecer. Uma das músicas da fita. Ela tocou a campainha uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Então ela arrombou e entrou.

Ignorou a mobília, os livros, a desordem, enquanto subia os degraus ruidosos de madeira. Uma atmosfera antiga, de sonho. Logo encontrou o quarto. Posters, livros, revistas e um cadáver ainda quente sobre a cama. O corpo quase tirou a atenção de Adriane do toca-discos e a capa de papelão ao seu lado. Uma capa sem nenhuma impressão sequer, além dos desgastes de anos de manuseio.

Mas ali, girando e girando, estava o disco com as músicas da fita. No centro do disco havia um rótulo amarelado e muito puído. E no rótulo, algo escrito. Nervosa, ela ergueu a agulha e a música silenciou de repente. Um silêncio sólido que pulsava em suas têmporas. Tomou o disco, trêmula, e leu:

“Não nos procure. Quando estiver pronta, nós encontraremos você.”


(Para minha querida e inesquecível amiga Adriane. Aos bons tempos de faculdade).

domingo, outubro 04, 2009

Espaços não preenchidos

Me ligaram dizendo que o Capitão tinha morrido.

Capitão era mestre. Meu mestre e de qualquer um ou uma que tivesse tido aula com ele.

O Capitão.

Eu estava a trabalho, lá no norte, fazendo foto e montando o livro. Naqueles dias chovia, eu não estava saindo pra fotografar. Ao invés ficava no quarto do hotel, brincando com notebook novo e tentando organizar o layout das páginas e fazer o livro funcionar. E aconteceu que Capitão ia ser enterrado em sua cidade natal, ali pertinho, cem quilometros de estrada da onde eu estava.

Arrumei uma moto e fui.

Dá-lhe chuva, águas de março e melancolia.

Junto com o asfalto e a chuva rolava lembrança de época de universidade, amigos que nunca mais vi, namoradinhas e, é lógico, a Dona Moça. Aquela malvada. De repente fiquei com medo de encontrá-la lá no funeral. Pior ainda. De repente eu tive certeza que, de todas as pessoas, se alguém poderia estar naquela cidadezinha do cu do mundo pra se despedir do homem, essa pessoa era a Dona Moça.

Verdade era que Capitão tinha viajado muito, muito mesmo, e amigo ele tinha em tudo que era lugar, mas minha terra é lá no sul e foi lá que o Capitão virou professor. Das gentes que tiveram aula com ele, das gentes que eu conhecia, eu achava difícil que alguém viesse. Porque entre o sul e o norte tem estrada demais nesse país.

Mas a Dona Moça... essa era capaz de vir. Ou nem vir. Simplesmente estar ali. A Dona Moça era assim.

Uma estrada interminável, chuva e frio.

A cidadezinha do Capitão era dessas com cadeia, igreja, puteiro, vendinha, punhado de casas e acabou. Montaram do lado da igrejinha uma tenda e o lugar estava cheio de gente. Muito mais gente do que poderia caber nas casas em torno. Parecia festa de Santo, o pessoal se empurrava pra caber na tenda, chegar perto do defunto, fugir da chuva. Pessoal velho, de marcas no rosto, calos nas mãos. Tudo de preto, chorando, rezando, cantando, rindo dos causos, lembrando das histórias do finado. Cheiro de vela.

Muita gente, muita gente e fui abrindo caminho até chegar no caixão. O filho da puta parecia estar sorrindo. Vai com Deus, Capitão e obrigado por tudo. Viro e vou me espremendo entre as gentes, tentando sair, olhando em volta, olhando em volta, procurando por ela.

Procurando por ela.

Eu imaginava.

Eu imaginava que a encontraria, que ela estaria lá com o namorado/noivo/amante da vez. Ela fica feliz, como sempre e puxa conversa. Como se nada tivesse acontecido. Como ela sempre faz. E ela pergunta da minha vida, das coisas que importam pra mim. E me ouve. E pergunto o que ela faz ali, como tem passado. E daí acaba a conversa, terminam os assuntos, ficamos eu e ela, espremidos entre homens e mulheres de preto, tão próximos, tão próximos e eu a beijo. Um selinho, uma bitoca, um beijinho de despedida. No tempo do estalo que durou o beijo, pensei isso é cagada, todo esse tempo e eu faço uma coisa dessas , todos esses anos e ela ainda me provoca me agita me move me consome. É loucura, ela vai ficar furiosa, constrangida, vai fugir, vai me bater. Mas ela não recua, toca minha mão, abre aquele sorriso lindo, aquele sorriso que só ela tem e

Eu imaginava.

Mas não a encontrei.

Sai da aglomeração e esperei, vaguei ao redor. A tarde foi se acabando, a chuva parou aos pouquinhos, a gentes foram caminhando para o cemitério. Ficou só o lugar, o grande pedaço de terra encharcada, nuvens se abrindo pra um por-do-sol. Um mundo de cores intensas, lama e poças d'água.

A tarde acabou, as pessoas se foram. O Capitão se foi.

E ela não estava lá. Nunca esteve, acho.

Vontade de pegar a estrada.

Dirigir de noite.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Ainda aqui

Que vida é essa que vem e nos atropela engole consome?

Não foi assim que eu planejei. E é tudo muito bom, tudo está no seu lugar. Menos a minha cabeça.

Preciso ir mais devagar.

Não quero terminar tão cedo.

domingo, agosto 30, 2009

Um relato longo e tedioso sobre uma experiência mística e emancipadora em minha cozinha

Uma vez me disseram que a verdadeira independência é a independência financeira. Concordo. Mas não é a única. Quando vi aquelas panelas chiando em cima do meu fogão é que me dei conta de que era livre.

Livre mesmo.

E essa é a jornada do herói:

Eu era um analfabeto culinário. Sabia fazer o miojo e olha lá. Já tinha tentado seguir receita de livro e internet mas o resultado nunca ficava bom... Daí me deu na telha de fazer um curso de culinária. Curso com chef de cozinha e tudo. O curso chamava-se de culinária trivial, que implicava em fazer feijão, arroz, bife e outras coisinhas mais. Dessas "coisinhas mais", fiquei vidrado no tal Escondidinho.

Você precisa de meio quilo de charque, um quilo e meio de batata salsa, uma cebola grande picadinha, dois ou três dentes de alho picadinhos, um pouco de manteiga, um pouco de leite, queijo parmesão. Usei um tomate também. Daí você faz um purê usando a batata salsa, o leite e manteiga. Salga a gosto. Depois você prepara o charque com a cebola, o alho e o tomate picadinho. Reserve. Unte uma forma com manteiga e distribua metade do purê em uma camada que cobre o fundo. Depois coloque uma camada com todo o charque. Pulverize o queijo parmesão em cima e cubra tudo com outra camada de purê. Mais um parmesão por cima, leve pro forno a 180 graus por meia hora.

Falando assim parece bem simples.

Mas depois do curso, no primeiro dia que fui fazer o tal Escondidinho, entrei na cozinha às onze da manhã e fui almoçar às três da tarde.

O problema é ser solteiro, esse bicho livre, leve e solto. Chegar na cozinha não significa começar a cozinhar. Significa começar a limpar a bagunça de uma refeição anterior (ou de várias, no meu caso). Uma montanha de louça pra lavar, o cestinho de lixo transbordando, o caos, mas, milagrosamente, nenhuma barata. Ainda.

Quarenta minutos foi o tempo que levei pra deixar a cozinha em condições de ser pilotada. Depois disso, a primeira surpresa do dia foi o charque. O charque, ou carne seca, eu comprei no mercado em pacotinho fechado, do tipo industrializado. No curso aprendi que era necessário escaldar o charque pra tirar o excesso de sal. Mas quando abri o pacote, as instruções ali diziam pra deixar de molho em água por doze horas antes de preparar qualquer prato. Que fazer? Escaldei duas vezes, com medo de que no fim a carne ficasse salgada demais.

Descascar um quilo e meio de batata salsa teria sido um saco, se eu não tivesse comprado um prodígio do design moderno: o descascador! Uma peça de plástico com uma pequena lâmina que revolucionou a vida na cozinha. Pelo menos pra mim. Com esse fantástico trubisquinho, descasquei as batatas em dois palito.

O charque, depois de dessalgado, foi pra panela de pressão por uma hora, seguindo a receita. As batatas salsa ficaram cozinhando uns quarenta minutos. No meio tempo, preparei as cebolas, alho e tomate. Esse tipo de coisa devia se mais rápido, mas picar direitinho a cebola com a faca de chef, apesar de ser muito legal toma bem mais tempo do que se imagina.

Pronto o charque, espera a panela perder a pressão pra começar a desfiar a carne com as próprias mãos. Processo gostoso de fazer. Óleo numa panela, começamos a refogar o alho e a cebola (atenção, cuidado. Na bagunça da cozinha, procure deixar o frasco do óleo longe do frasco do detergente. No calor dos acontecimentos, trocas inesperadas e indesejáveis podem acontecer).

Então, óleo numa frigideira ou panela grande. Mais ou menos uma colher de óleo. Daí coloca o alho. Deixa refogar (fritar) um pouquinho. Não deixa o alho começar a torrar, tem que prestar atenção, porque isso acontece muito rápido. Antes do alho começar a torrar, joga a cebola picadinha. A umidade da cebola vai impedir que o alho torre. Refogue tudo isso uns minutinhos. Alho e cebola são a base da culinária brasileira. Alho, cebola, sal e cerveja, não deixe isso faltar em casa. Nunca.

Alho e cebola refogando, joga o charque, dá uma mexidinha e deixa refogar. Joga o tomate picadinho e sem a semente e casca ali no meio. Quando vc achar que já refogou o bastante (não precisa deixar a carne torrar, é só um tempinho), coloca ali um pouquinho de manteiga e deixa dissolver. Mais ou menos meia colher de manteiga ou uma colher inteira, você que sabe. A manteiga dá um gostinho a mais. Refogou o que chega, desliga a parada e reserva. Agora você já tem o que esconder no Escondidinho.

O purê de batata salsa se mostrou um pouco mais complicado do que eu esperava. Depois de cozinhar uma eternidade, cutuquei com um garfo e achei que já estava no ponto. Tipo, o garfo entrou com facilidade na batata, saca? Mas na hora de fazer o tal purê, foi que percebi um erro: tinha batatas de tamanhos diferentes. Logicamente, as batatas menores cozinharam mais rápido e as maiores ainda estavam meio duras na hora de começar a fazer o purê. Pessoas chiques tem um processador pra ajudar a esmagar as batatas e fazer o purê. Eu tenho um garfo.

Fui amassando tudo com meu garfo, vendo batatas mais duras que as outras e imaginando no que tudo isso ia dar. Pra fazer purê, à medida que você amassa, acrescente um pouco de leite e continue amassando. O ideal é atingir um tipo de pasta viscosa, coesa, que mantenha uma consistência mais espessa sem ser muito líquida.

Depois de tudo isso, você tem o purê e o charque. Agora vamos esconder o charque no purê.

A essa altura, eram mais ou menos 2 da tarde. Eu fiz uma lista de músicas no meu Windows Media Player (Bem, se eu não tenho processador de alimentos, era de se esperar que eu não tivesse um Mac não é?). As músicas tocavam e tocavam. Faziam parte da lista a trilha sonora de Cidade de Deus, um disco do Cartola, o álbum Raro do Cuarteto de Nos, a trilha sonora de Little Miss Sunshine e um punhado de músicas do Queen. Dia lindo de sol, a música tocava e eu camelava na cozinha pra fazer um único prato.

Você cansou de ler tudo isso aqui? Sentiu-se entediado? Então o texto passa mais ou menos o que foi essa experiência pra mim. O sol lá fora e a comida passando pelas minhas mãos, sendo cortada, temperada, cozida, trabalhada. Eu já estava de saco cheio, jurando pra mim mesmo que nunca mais ia fazer isso de novo. Mas era que nem subir montanha: uma vez que comecei, tinha que ir até o fim.

Pegue uma forma ou vasilha pra levar tudo por forno. Antes unte a vasilha com manteiga. Pra isso, derreta uma colher cheia de manteiga numa panelinha. Daí espalhe a manteiga por toda a forma. Coloque uma camada de purê de batatas (cerca de metade de todo purê que você fez) cobrindo todo o fundo da vasinha. Coloque o charque como camada intermediária, acrescente queijo parmesão. Cubra tudo com uma camada final de purê. No meu caso, sobrou purê. Sugiro que se for fazer, use um quilo e 250 gramas, ao invés de um quilo e meio de batata salsa.

Pois é, coloquei a camada final de purê e daí pulverizei um queijo por cima. Levei pro forno a 180 graus por meia hora, quarenta minutos ou até ficar douradinho ao gosto do freguês.

Enquanto a obra-prima estava no forno, comecei a limpar a praça de guerra dos restos do combate. Lava louça, cata sujeira do fogão. Cansado, cansado, mas ao mesmo tempo pensando em todos esses detalhes que falei aqui: o modo de empunhar a faca pra picar a cebola e o alho, a textura das sementes do tomate em minhas mãos, a sensação do charque em meus dedos enquanto desfiava a carne.

E ficou pronto. Depois de uma eternidade, ficou pronto. Morrendo de fome, coloquei num prato e provei. Definitivamente, aquela não era a última vez que fazia escondidinho. Podia levar uma eternidade, podia dar um trabalho do cão, mas valia a pena. Jesus, não pensei que eu pudesse fazer algo tão bom.

Bem verdade que a fome é um ótimo tempero, mas aquilo realmente ficou bom.

Desliguei a música e fiquei ali, comendo com calma, numa tarde ensolarada de sábado.

Esses dias, descobri o trabalho do Paulo de Oliveira e companhia na produção do programa Larica Total que passa no Canal Brasil. O camarada ensina "culinária de guerra", culinária para solteiros, solteiras, bêbados e vagabundos. Logo no primeiro episódio, ele leva quase um dia inteiro pra fazer o almoço. Quando termina, ele come tranquilo. Fica quieto, saboreia a comida. Quase um ritual. O sol se põe.

Cozinhar pra mim é isso. Ritual. É ser livre, é ter tempo. Transcender o tempo. Fazer alquimia. Viajar.

O máximo.





O Paulo é meu herói. Acho que todos os programas do Larica Total estão disponíveis no YouTube.

Divirta-se.

domingo, agosto 23, 2009

Oba! Fotos!


Não sou de publicar fotos de minha pessoa aqui... mas nesse caso vou abrir uma exceção. A seguir você vê fotos do evento e algumas do nosso churrasquinho no dia seguinte. Gente, foi muito bacana.

Um obrigado muito especial pro Luciano, Marli e todo o pessoal da Openthedoor que me receberam aí em Sampa. Esses caras são meus amigos!

Com o Baraldi. Yeah!

Um pouquinho antes do evento começar.

Seu Mauricio!

Gostaria de agradecer a todos os membros da academia...

Ei, isso aqui tá soltando tinta...

Tamos aí, bro!

Com o brother Zé Carlos. Gente finíssima!

Com a Mitie, da Itiban. Muito obrigado ao Xico e a Mitie.
Eles me deram o maior apoio pra fazer o trabalho...

Este é o Sidney Gusman, do Universo HQ.

Com o Luciano e o Jairo, velhos de guerra.

Com Sonia Bibe Luyten.

Com Paulo Ramos do Blog dos Quadrinhos e o rapaz (que eu não lembro o nome)
vencedor com a publicação Café Espacial.

Com Fabio Moon e Gabriel Bá.

ComRafael Grampá.

Fala garoto!

Galera da Openthedoor em peso. Rose, Sandro, Zé Carlos, Jairo.

O meu nome tá escrito aqui...

Esse é o Laerte, gente!

Esse é o Nino, mascote da Openthedoor.

No dia seguinte, churrasco e garoa. Ê, coisa boa!

Turma reunida. Barriguinha cheia, coração contente.

Com o Luciano, Marli e Jonathan na despedida na rodoviária.
Valeu, galera. Muito obrigado mesmo. Até a próxima!


Tá, esse foi um post superpessoal. Parando pra pensar bem, todos eles são, mas esse foi super pessoal mesmo.

Até a próxima.

Considerações

Gente, o HQ Mix foi muito alucinante.

O prêmio tem um significado muito especial pra mim, num nível pessoal e profissional. Foi muito surreal encontrar ao vivo as pessoas que a gente lê. Tipo o Mauricio de Sousa, que sentou na mesma fileira que eu. Ou o Laerte, que foi super-simpático na nossa rápida conversa no fim do evento. E Fabio Moon, Gabriel Bá, Rafael Grampá, Eduardo Nasi, Sidney Gusman, Cassius Medauar e...

Mas não foi só tietagem.

A cerimônia foi marcada por dois temas recorrentes em todos os discursos: a educação e a censura dos quadrinhos.

Tudo por causa daqueles episódios infelizes dos quadrinhos "impróprios" distribuídos para as escolas. O fato é que até o ministro da educação Fernando Haddad esteve presente na premiação.

É curioso notar como em muitos discursos se falou da importância dos quadrinhos na educação e formação das crianças e tal. Mas é como dizer que a única literatura possível é a literatura didática. Não rola. Quadrinhos são muito mais que isso, gente.

Um colega comentou comigo que quem faz quadrinhos jamais é bem pago. Ele já fez quadrinhos e trabalha com ilustração e comentou que fazer uma história em quadrinhos requer muito empenho. Não é só desenhar. Fazer quadrinhos também é escrever, é elaborar sequências, painéis, layouts. Segundo esse colega, elaborar uma página de quadrinhos requer muito mais empenho que fazer uma ilustração. E no fim, a página é menos valorizada comercialmente do que a ilustração. Claro que essa é uma afirmação discutível, mas concordo com ele.

Quem faz quadrinhos não o faz só por dinheiro. Quadrinistas são mais ou menos como o Coringa do Heath Ledger no filme Cavaleiro das Trevas. Não é pelo dinheiro. E se você precisa que te expliquem o porquê, então você não vai entender de qualquer forma.

Muitos dos grandes sites que comentam quadrinhos são movidos por profissionais motivados antes de tudo pela paixão que tem pelo tema. Paulo Ramos (responsável pelo Blog dos Quadrinhos, também vencedor do prêmio) fez uma senhora cobertura do caso do governador Serra e dos quadrinhos "impróprios". Tudo isso sem receber nenhum incentivo financeiro.

Lógico que a parte financeira é fundamental e seria bacana se os quadrinhos fossem mais valorizados. Os próprios envolvidos no HQ Mix não recebem grandes verbas. Eu banquei minha própria viagem e se não fosse pela galera da Openthedoor, eu não teria onde ficar em Sampa. Alguns premiados não compareceram por impossibilidade de viajar.

Não é reclamar por falta de grana, é só deixar claro que o que nos move é algo mais do que a recompensa financeira. E também é algo mais do que criar peças para serem usadas na educação das crianças.

É diversão, é obsessão, é satisfação pessoal. É algo mais.

Não sei bem pra onde os quadrinhos caminham, mas acho que as coisas vão mudando pra melhor, cada vez melhor.

Para outras considerações sobre o HQ Mix, visite o Blog dos Quadrinhos e leia a análise do Paulo.

E vamos nos falando.



Vampira


Eugenio Colonnese nasceu na Itália e foi desenhista. Desenhista dos bons, desenhista no sangue e no osso.

Deixou a Itália e foi para a Argentina nos anos 50. Em 1964, chegou ao Brasil pra ficar de vez e trabalhou com quase tudo que usasse desenho. Especialmente quadrinhos: ele fez histórias de guerra, histórias de romance, histórias de super-heróis. Antenado, ele criava de acordo com a demanda da época.

Nos anos 60, o terror era um tipo de história em quadrinhos perseguido porque se achava que ele fazia mal para a formação mental e moral das crianças. Mas era justamente o terror que fazia mais sucesso de público. As editoras Warren, EC Comics e outras apavoravam lá nos Estados Unidos com gibis como Creepy, Tales from the Crypt e outros.

Aqui no Brasil o Colonnese foi um dos grandes autores desse tipo de história. Em 1967 ele criou a personagem Mirza, a Mulher Vampiro. Assustadoramente gostosenta, Mirza protagonizava histórias de terror com fortíssimos toques se sensualidade (ou histórias sensuais com toques de terror?). A personagem antecedeu a famosa Vampirella, criada somente em 1969 pela editora norte-americana Warren.


O profissionalismo e desenho belíssimo destacavam o trabalho de Colonnese. Faleceu em agosto de 2008, poucos dias antes de completar 79 anos. O troféu do HQ MIX desse ano apresenta a vampira Mirza, em homenagem ao mestre.

Para saber mais sobre Colonnese, clique aqui, aqui e aqui.






Desculpem se parece um excesso de imagens do troféu, mas acho que é preciso valorizar o excelente trabalho do artista Olintho Tahara. Mandou bem.

sábado, agosto 22, 2009

Momento mágico do dia

Simone é uma loirinha gente fina de conexões neurais hiperativas e ótimo gosto pra música e poesia. Moramos na mesma cidade, essa tal de Curitiba, e durante mais de um ano não nos vimos.

O reencontro improvável aconteceu num vagão do metrô de São Paulo às seis e meia da manhã. Entrei no carro e quando olhei para trás ela simplesmente estava ali, a meio braço de distância.

Oi oi.

Era a Simone. Sem dúvida.

Ela estava ótima, me contou da vida, do namorado, da viagem para a Europa. Transbordava felicidade. Desceu na estação seguinte.

Qual a probabilidade de estarmos juntos no mesmo vagão de metrô em uma cidade do tamanho de São Paulo àquela hora? Um milagre termodinamico, doutor Manhattan. Sem dúvida.

O acaso do breve encontro me fascinou e encheu de expectativas. Simone definitivamente era um sinal de bons presságios.

As perspectivas para o dia eram as melhores possíveis.


segunda-feira, agosto 17, 2009

CARAAAAAAAIO, VÉIO! GANHEI UM HQ MIX!

Que tesão!

Caramba, estou me sentindo ótimo!

Tipo, eu sabia que tinha categoria pra trabalhos acadêmicos e enviei minha dissertação, mas sem prentensão nenhuma, sabe? Daí o José Aguiar me ligou agora há pouco pra dar a notícia.Uau...

Atualmente tem muita gente boa produzindo pesquisa sobre quadrinhos no Brasil e ganhar um prêmio como esse tem um gosto bem especial. Eu ganhei com minha dissertação sobre a obra do Lourenço Mutarelli. Sou fãzaço do trabalho do Lourenço e passei toda essa curtição pro trabalho.

Foram dois anos de mestrado e pra mim foram muito muito bem vividos. Tive contato com um ídolo, tive uma orientadora maravilhosa (valeu, Mary!) e pude estudar a fundo minha paixão favorita, as HQs.

Estou me sentindo ótimo mesmo. Agora vamos ver se conseguimos transformá-la em livro.

Muito, muito, muito obrigado a todos que participaram de tudo isso direta ou indiretamente.

Obrigado mesmo!

Veja a lista de ganhadores do HQ Mix no Universo HQ.
Eu to lá embaixo, no finzinho...

;-)

sábado, agosto 15, 2009

Mais arqueologia dos sonhos



Qual é a sua lembrança mais antiga?

A minha é de uma casa que foi demolida há quase trinta anos. Lembro de uma janela e de uma mesa e tudo parecia tão grande. A perspectiva que se tem ao enxergar o mundo a 50 centímetros do chão.

A casa não tinha um jardim ou quintal, mas uma área cimentada nos fundos. O único verde era do musgo e mato que cresciam pelas rachaduras do chão. Lembro disso e da tevê. A boa e velha amiga tevê.

Era tudo preto e branco. Ou melhor, tudo cinza. E tinha o Globinho.

O formato do programa era bem diferente do atual. A apresentação era da jornalista Paula Saldanha e o programa tinha uma pegada bem cultural, com matérias jornalísticas e comentários sobre literatura infantil, cinema e tals. Disso aí, eu não me lembro nada. Lembro da Paula Saldanha e dos desenhos animados.

E um dos desenhos era A Linha.

Criada pelo cartunista italiano Osvaldo Cavandoli, La Linea mostrava esse fantástico personagem unidimensional. Na época, pra mim, era tudo extraordinário. As formas eram definidas com o mínimo de traços. Num universo completamente plano, definido por uma longa e versátil linha, esse narigudo passava por inúmeras situações. Tudo girava em torno do que ele ia encontrando em seu caminho. Ou às vezes não encontrava. Porque o mundo desse personagem era todo definido por uma linha e às vezes ela simplesmente acabava e ele quase despencava no... no... no vazio? No esquecimento? Pra mim aquilo era mágico, misterioso, fabuloso.

Você sabe as suas lembranças mais antigas? Quando você ainda estava aprendendo como funcionava o mundo? O fascínio e o mistério? Eu via esses desenhos, essas brincadeiras e me assombrava. Uma linha que cria mil coisas, mil histórias, mil ideias. E quando ela acaba, o que sobra? Pra onde vão as coisas? De onde elas vinham?

Assim eu via a Linha quando tinha uns três, quatro anos. Daí aconteceu de, numa conversa de bar com o Alquimista Digital, a gente relembrar da Linha. E hoje, meus jovens, nós temos internet. O santo Google e o maravilhoso YouTube. Hoje é tudo fácil.

E revendo a tal Linha achei sensacional. Relembrei daquele fascínio todo infantil, mas não teve aquele desencanto que muitas vezes acompanha a revisita dos velhos programas. A Linha é bacana e diz muito sobre esse lance do desenho e da grande brincadeira que é imaginar. O que faz toda a mágica não é só o ato de desenhar, mas também enxergar em uma linha pessoas, escadas, animais ou qualquer coisa. É fascinante.




Ah, ainda tem o inintelígivel sotaque italiano da Linha e sua voz grasnada, que, curiosidade nerd, é a mesma voz do nosso amigo Pingu, feita pelo Carlo Bonomi.

Pra encerrar, Mio e Mao. Animação stopmotion bem bacaninha que também aparecia no Globinho. Infantil, bem infantil, mas muito singela. Coloco aqui porque, confesso, em mais de trinta anos a musiquinha de Mio e Mao nunca saiu da minha cabeça... Adoro esses gatos.