sábado, janeiro 31, 2009

Minhas Férias

E lá se foi janeiro...

Oras. Algumas pessoas viajaram. Pegaram a estrada de moto com os amigos ou passaram dias numa praia com alguém especial ou conheceram um novo país. É isso que a gente faz nas férias: se renova e descobre porque trabalhou tanto. E quando voltamos pro normal do dia-a-dia, levamos conosco aquelas lembranças maravilhosas e estamos prontos pra outra.

É isso aí! Sim, senhor.

A lembrança dos meus primeiros 15 dias de férias está um pouco nublada. Dormi no sofá, acordei algumas vezes pra comer e beber e voltei a dormir.

Enfim, acordei uma manhã e já era janeiro de 2009. As festas de Natal e Ano Novo já tinham acabado. O meu estoque de cerveja também. Olhei pela janela. O dia estava lindo lá fora. O tipo de dia que não se desperdiçar. Eu não ia voltar a dormir num dia tão bonito como aquele.

Liguei a tv.

Total nostalgia. Há anos eu não passava uma manhã assistindo desenhos. E o legal é que os desenhos tinham continuidade. Eram tipo uma novelinha e o que tinha acontecido ontem tinha conseqüências no episódio de hoje.

Misturando o melhor de tudo que já foi feito com o Homem-Aranha nas diversas mídias (quadrinhos, cinema e outras séries animadas), o Espetacular Homem-Aranha é definitivamente a melhor versão em desenho animado do herói que já vi. Pelo menos, na minha humilde opinião.


Olhando pro estilo do desenho, achei que esse Homem-Aranha fosse ser mais infantil, mas ele me surpreendeu com ótimos diálogos, bom-humor, personagens bem desenvolvidos e respeito à essência do mito: a criança que aprende que "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades". Eu sempre achei que o Homem-Aranha tinha tudo pra ser um novelão bem bacana e esse desenho comprova isso.

Outra antiga série que ganhou uma roupagem nova foi Transformers. A nova série animada também me pareceu, à primeira vista, ser bem retardada. Ainda assim, me surpreendeu apresentando as mesmas qualidades do Homem-Aranha. (Mas o desenho novo do Aranha ainda é melhor que o dos robôs).

Em Transformers, mesmo com o traço caricato, os personagens tem personalidades bem definidas e alguns até são mais bacanas que suas versões originais, como é o caso do Bumblebee. Aliás, um dia desses consegui por a mão em DVDs com episódios da série original da década de 1980. Revendo esses desenhos, percebi como a memória prega peças na gente... Sinceramente, acho que prefiro a nova série que a antiga.

Ah, sempre gostei de Transformers e me considerava um fã, até que esses dias topei com o Blog do Amer. Esse cara sim é fã de Transformers! E ainda por cima escreve bons textos. Aliás, ele escreveu um bem bacana sobre essa série animada. Além de Transformers, o Amer também escreve sobre cultura pop e desencava detalhes sinistros sobre coisas do arco da velha. Vale a pena conferir.

Avatar: a lenda de Aang encerra minha seleção de melhores desenhos (eu acordava muito tarde pra assistir o Bob Esponja, senão ele também estava aqui). Ao contrário dos outros dois desenhos citados acima, Avatar não é uma releitura de antigos personagens.

Avatar é simplesmente sensacional. A série se divide em três "livros" (Água, Terra e Fogo), e cada episódio é um capítulo. Aang é... ah, cara, ando meio imprestável mesmo. Devia escrever aqui sobre a série que mais me empolgou, mas meu ânimo pra escrever esse post acabou... Mas não se aflija. Vou colocar aqui o trecho da Wikipedia:

A série passa-se em um mundo fictício influenciado pelas artes marciais asiáticas, mescladas à magias elementais. Conta as aventuras de Aang, o último sucessor de uma longa linhagem de Avatares. Ele e seus amigos tem a missão de salvar o mundo dos ataques da Nação do Fogo, que quer dominar todo o mundo.

A série é estruturada na forma de "livros": cada episódio da animação se torna um "capítulo" e cada temporada um "livro" diferente. Sua primeira exibição foi planejada para Novembro de 2004, mas foi ao ar pela primeira vez somente no dia 21 de Fevereiro de 2005 no Estados Unidos pela Nickelodeon. O último episódio apresentado foi lançado em 19 de Julho de 2008.

O programa recebeu grande aceitação do público entre 6 a 11 anos, tendo o auge de 4,4 milhões de telespectadores em um de seus episódios. Em 2006, foi considerado o segundo programa mais popular da Nickelodeon no Brasil, perdendo apenas para Bob Esponja.

O grande barato é que as histórias são muito bem boladas e as cenas de ação muito bem pensadas. A série realmente passa a impressão de que estamos "lendo" uma grande saga, acompanhando as aventuras de Aang e seus amigos. Definitivamente imperdível.

E essas foram minhas férias, dona Professora. Sim, precisamos providenciar uns posts mais bacanas, senão nossa já parca audiência vai se dissolver de vez, mas não se preocupe, estamos trabalhando nisso.

Aguarde nossas próximas atrações...

;-)

domingo, janeiro 25, 2009

Gato

Guadalupe. Creio que estou carmicamente vinculado a esse terminal. Agora vou me mudar e não precisarei mais esperar o ônibus lá, mas ainda assim os vínculos permanecem.

Semana passada perdi o ônibus das 23:35 e tive que esperar o da meia-noite e dez. O terminal do Guadalupe é um lugar trash a qualquer hora do dia, mas à meia-noite ele ganha um ar ainda mais... como direi... terminal. São poucas pessoas, muitas encerrando a jornada de trabalho e esperando o último ônibus da noite. As lojas fecham, os mendigos perambulam, os vendedores passam tentando o último trocado pelos docinhos que sobraram no fundo da caixa. E os animais.

Sei lá por que os animais me sensibilizam mais. Tipo aquela cadela preta enrodilhada sobre si mesma, sozinha numa das plataformas. O terminal cada vez mais vazio e ela ali, sozinha. 40 minutos de espera pelo próximo ônibus e você se distrai com cenas como essa.

Daí comecei a ouvir os miados. Aqueles miados que parecem pios. O gatinho corria pela plataforma. Miava, miava, corria pras pessoas na fila. Junto dele um mendigo, com barba longa, preta. De pé, ele olhava pro gatinho e cofiava a barba. As pessoas olhavam pro gatinho e só pro gatinho. O ônibus chegou, elas subiram, o ônibus saiu, o gato continuou lá, miando.

Em dez minutos meu ônibus chegaria. O gatinho devia ter o tamanho da minha palma da mão. Não tinha sinal de outros gatos, sei lá como ele foi parar lá. Em dez minutos meu ônibus chegaria e eu deixaria o bichano pra trás. O mendigo diante dele tinha aquele olhar de bêbado, de drogado. Em dez minutos eu deixaria tudo isso para trás.Mas enquanto isso ele miava. Ô, desgraça.

Caminhei, cheguei junto do mendigo: "Opa! Tudo bem? O gatinho é teu?" Ele olhou pra mim. Seus olhos não estavam daquele jeito por causa de bebida ou droga. Eram olhos atordoados, como se ele tivesse acordado agora a pouco. Ele balbuciava coisas incompreensíveis num fio de voz. Do que pude entender, ele disse que o gatinho era um tigre e que ia crescer e "ficar desse tamanho" e ele mostrava a altura com a mão.

"Quer vender o gato tio?". "Não, não. Não vendo, não vendo." Eu ofereci dez reais. Os olhos dele brilharam, o rosto se iluminou. Fechamos negócio. Dei ainda um sanduíche que eu tinha na mala. Peguei o bichano. Ele cabia na palma da minha mão.

Voltei pro ponto. O ônibus ainda não tinha chegado. Passou um tempinho, o mendigo chegou pra mim. "Cuida bem dele. Dá carinho. Dá carinho."

Pode deixar tio.

O gatinho veio quietinho no ônibus. Eu o afagava e tranquilizava. Ele passou a primeira noite no banheiro e as outras na lavanderia. Está crescendo rápido. Meu pai o chama de Visconde. Os nossos outros gatos estranharam no começo (eles sempre estranham, gatos são ciumentos), mas vão se acostumando aos poucos.

E como ele cresce rápido.

Essa semana eu me mudo e pensava em levá-lo comigo para o apartamento, mas acho maldade colocar um bicho vivendo sozinho dentro de um apartamento. Ele vai ficar melhor com meus pais, junto dos outros bichanos. E também me livro da responsabilidade sobre ele.

Essas são as últimas vezes que passo pelo terminal antes da mudança. Tenho visto o mendigo. Com aquele olhar atordoado, dolorido, cofiando a barba, fitando o vazio. Pegar um gato da rua é fácil. A gente dá comida, põe o bicho na lavanderia e faz carinho nele. Mas cuidar de uma pessoa é mais difícil. Pessoas precisam de mais coisas. Precisam de educação, precisam de um trabalho, precisam de respeito e dignidade. E precisam de carinho e de outras pessoas que se importem com elas de verdade.

Eu vejo o tio da barba preta e fico pensando que fim ele vai levar. Onde ele vai passar essa noite? O que eu poderia fazer a respeito? Eu deveria fazer algo a respeito?

Subo no ônibus.

O gatinho Visconde vai bem.

Ele cresce rápido.

Tarantino's mind

Esse vídeo é ótimo! Um aluno que me mostrou ano passado. O diálogo é simplesmente sensacional e Selton Mello e Seu Jorge estão impagáveis. O diálogo! Curtam o diálogo!

Ae, galera do bar, dedico esse vídeo pra vcs!


Tarantino's Mind
(Tarantino's Mind, Brasil, 2007)
Gênero: Comédia, Drama, Policial
Duração: 15 min.
Tipo: Curta-metragem / Colorido
Produtora(s): 300 ml, Hungry Man Rio
Diretor(es): Selton Mello
Elenco: Selton Mello, Seu Jorge

terça-feira, janeiro 20, 2009

O gume de um machado





Fiz as pazes com Ernest Hemingway.

Quer dizer, a vida toda eu tinha ouvido que o velho era foda e tal. Daí, ainda piá, peguei um livro dele pra ler. Nem lembro o título, lembro que achei insuportavelmente chato. Um cara que ficava se ensebando com uma enfermeira num romance água com açúcar que não deslanchava nunca. Ou algo assim. Abandonei o livro antes da metade.

Uns anos depois, fui com uns amigos ver o Animamundi em São Paulo e a grande atração era O Velho e o Mar, que tinha ganhado um Oscar de melhor curta de animação. Baseado num livro do Hemingway, esse desenho animado foi produzido por um russo, o Alexander Petrov, que usou uma técnica bem particular. Com a ajuda do filho, Petrov pintou a óleo sobre placas de vidro cada um dos mais de 29 mil frames da animação. Ele criava imagens belíssimas, fazia o fotograma e depois alterava sutilmente detalhes da pintura, batia outro fotograma e assim ia fazendo a animação. Trabalho do cão, mas com resultados impressionantes. De fato, a animação era espetacular, mas algo nela não me cativou. Não bateu, sabe? Daí, mais uma vez, achei que fosse culpa do velho Ernest.

E mais uns anos passaram.


Uma cena de O Velho e o Mar de Alexander Petrov

Aqui entra minha teoria sobre “O Momento Certo”, que na verdade não é exatamente minha, mas, vamos lá, me dêem um desconto. A “Teoria do Momento Certo”: tem idades e momentos na vida pra gente fazer certas coisas. Não quer dizer que não se possa fazer antes ou depois, mas se você fizer no momento certo, vai aproveitar mais, vai curtir mais. Por exemplo, meu momento de ler Ernest Hemingway.

Às vezes saio com os caras e começamos a discutir sobre livros e tal e o assunto dessa vez era que, segundo o camarada, ultimamente não tem aparecido nenhum grande trabalho de ficção nas livrarias. Pra tirar a teima, saímos do bar e passamos na livraria do aeroporto, que fica aberta 24 horas. O aeroporto às duas e meia da manhã é um local silencioso, deserto, mágico como uma igreja ou algo assim. Ótimo pra terminar a noite. (Tenho a impressão de que já escrevi sobre isso por aqui...). Enfim, estávamos na livraria 24 horas, um par de atendentes arrumando os livros e revistas e então encontramos A Boa Vida Segundo Hemingway, uma coletânea feita por um cara chamado Hotchner com fotos, citações e pequenas notas autobiográficas do escritor. Era um livro tentador e não sei como não o comprei.



Acontece que Hemingway teve uma vida espetacular, coisa de lenda. Foi motorista de ambulância no meio da I Guerra Mundial, esteve na Guerra Civil Espanhola, conviveu com monstros da literatura como James Joyce e Scott Fitzgerald, fez parte da “geração perdida”, ganhou um Nobel de Literatura, teve quatro esposas e várias amantes, viveu anos em Cuba, foi espião e, aos 61 anos, suicidou-se usando um fuzil de caça.

Sobre literatura, Hemingway dizia que, por serem usadas levianamente, as palavras haviam “perdido o gume”. Por isso considerava a escrita uma arte difícil. Seu estilo literário dispensava adjetivos, era seco e calcado em verbos e substantivos, como um relato jornalístico. Nas mãos dele, as palavras não só recuperavam o gume, como também pareciam se tornar o tal “machado para o mar congelado dentro de nós” de que falava Kafka.

Depois da livraria do aeroporto, Hemingway acabou voltando à minha mente. Dois dias mais tarde, acaso ou não, topei com um livro dele num sebo. Baratinho, baratinho, comprei O Velho e o Mar. Coloquei ele na mala e fui pra praia com a galera. Ler esse livro olhando pro mar teve um sabor especial.

Santiago é o velho pescador que está passando por uma fase ruim. Não conseguiu pegar nenhum peixe nos últimos 80 dias. O pessoal acha que ele está amaldiçoado e o evitam. Todos menos o menino Manolin, que aprendeu a pescar com o velho Santiago e o estima muito. Naquele dia, Santiago decide se arriscar nas águas mais distantes para ver se consegue pescar alguma coisa. Lá ele se confronta com um grande espadarte e por três dias luta para conseguir capturar o peixe. E essa é a história de O Velho e o Mar. Uma longa pescaria.

O que torna o livro uma obra-prima é a maestria de Hemingway no uso das palavras. É tudo que ele escreve e, talvez principalmente, tudo que ele não escreve. Nas entrelinhas emoções e pensamentos grandes demais para serem expressos com palavras. Comparando com a animação de Petrov, o livro sai ganhando de 10 a zero. Apesar de ser plasticamente impecável, o trabalho de Petrov não consegue captar muitos aspectos que me parecem fundamentais nessa obra. O livro de Hemingway fala sobre vitória e derrota, sobre a ousadia e os perigos de tentar algo extraordinário. O Velho e o Mar é a velha história do homem contra forças muito maiores que ele. E também é algo maior que isso. O livro transborda sofrimento, resignação, dignidade, força, caráter, orgulho, solidão, amizade. Santiago é um velho que já teve ótimos dias e esses dias passaram. Mora em uma casa paupérrima, de um só cômodo:

Dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um canto no chão sujo onde se podia cozinhar a carvão. Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e uma outra da Virgem de Cobre. Ambas eram relíquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias; agora estava escondida numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.

É a ausência de seqüências sutis como essas que me fazem achar que a animação de Petrov ameniza a questão do sofrimento que permeia o livro. A vida é dor, é um longo esforço angustiante, uma conquista de mãos ensangüentadas que pode nos ser tirada a qualquer momento. Petrov não consegue transmitir isso com um décimo da intensidade que o texto de Hemingway faz.

O Velho e o Mar é o mito do herói levado às últimas conseqüências. Santiago já foi chamado El Campeón, viajou pelo mundo e teve diversas aventuras e vitórias. Mas tudo isso pertence ao passado e não conta. O que importa é o agora, é pescar o peixe, é quebrar a corrente de azar, é provar algo. É vencer. “O homem não foi feito para a derrota”, diz Santiago. “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”. Ainda assim, ao final Santiago é derrotado. Será? Derrotado por quem? Pelo peixe? Pelo mar? O mar, o outro grande e silencioso personagem do livro. Algo enorme como a vida, que às vezes concede grandes favores e outras vezes é extremamente cruel e brutal. Hemingway não fecha as idéias, ele só abre as portas, as possibilidades. Ele amola o tal machado e deixa que nós o empunhemos para abrir o caminho.

Para mim, esse foi o momento certo de ler O Velho e o Mar. Um paradoxo me fascina: ao mesmo tempo em que Santiago parece ser derrotado, ele também parece ter uma vitória íntima, algo secreto e intangível cuidadosamente construído pelo que não é dito no texto. Vou remoer esse livro ainda por dias, pensando no que significa lutar, vencer e perder. Pensando na vida.

Pensando na imensidão do mar.



O Velho e o Mar de Alexander Petrov



sexta-feira, janeiro 16, 2009

Bang Bang

Nesse final de ano fiquei morgando na casa dos meus pais. E com meu pai, que é muito parceiro, vi uma penca de filmes. Um deles foi O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford. E se pudesse dizer só uma coisa a respeito desse filme, eu diria: assista.E se eu pudesse dizer mais coisas eu diria...

Primeiro, o que mais me fascinou no filme: as imagens. A cor, a iluminação, a composição das cenas. Tudo bonito demais, bonito de doer. Com base em elementos visuais da época foram utilizados diversos efeitos com resultados belíssimos. Por exemplo, a visualização das cenas através dos vidros irregulares das janelas da época ou um desfocamento e escurecimento nas bordas da imagem, típico das fotografias do período. Mas essas imagens espetaculares não são apenas frutos de elementos visuais. Curiosamente, o ritmo narrativo do filme influencia muito na percepção da imagem. E daí vamos para a forma de contar a história, aqueles aspectos e conceitos sutis que acabam influenciando totalmente no filme final.

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (adorei o título longo) não é um filme do tipo blockbuster, daqueles com explosões e seqüências de ação frenéticas. Bem longe disso. O título entrega exatamente o que vai acontecer, então também não é um filme de grandes reviravoltas e final surpreendente. O ritmo é leeeeento. Quase parado. Não se trata apenas de uma sucessão de acontecimentos, mas da construção cuidadosa de uma experiência. Um longo passeio pelas ravinas diante de um pôr-do-sol interminável que pinta o céu com a cor do fim do mundo.

Dei uma olhada na internet procurando por críticas e comentários e acabei achando várias análises que abordavam uma perspectiva que tinha me passado totalmente despercebida. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford fala, principalmente, sobre a construção dos mitos através da mídia. Jesse James é um precursor dos "artistas" de hoje, das figuras que estampam as páginas dos jornais e revistas de cinema, tv, música e fofocas. O tipo de gente que é alvo do assédio constante de paparazzi e fãs ardorosos. Ainda vivo, Jesse James foi protagonista de diversos livros nada realistas que construíram uma imagem mítica do criminoso e fascinaram diversas pessoas. Uma delas o Robert Ford do título. É essa relação entre o fã e o ídolo, entre a pessoa real e o mito construído pela mídia que permeia todo o filme.

Filmaço.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Estacionado


Tarde da noite, caminho pelo estacionamento a céu aberto. Meus passos têm o som das britas sendo pisadas. Som cadenciado. Como algo que é mastigado e remastigado. Sem pressa.

Eu olho praquele canto e ele sempre está lá. Parado, abandonado, largado. Estacionado. Pneus murchos, janelas opacas, cor irreconhecível sob o pó. O pó acumulado de anos. Imaculado. Intocado.

Era um casal feliz, mas não muito. Daí tiveram o primeiro bebê e as coisas mudaram. O menino (ou menina, não sei) encheu a casa de alegria, visitas e expectativas. E responsabilidades. Educação, brinquedos, roupas, saúde. Vai dinheiro nessas coisas, você sabe. Tem que trabalhar mais para receber mais. Os dois. O casal feliz, mas não muito.

Ele arranjou um segundo emprego. O dinheiro era bom. Dois empregos, cinco horas de sono por noite e o dinheiro era bom. Ritmo alucinado, correria, mil coisas por minuto pra pensar e resolver. Cabeça cheia, ele vivia anestesiado pela rotina.

Quem dirigia era ela. Todo o dia deixava o marido no escritório, o bebê na creche e a si mesma no trabalho. Todo dia, todo dia, todo dia e um dia ela precisou viajar. Ou ficou doente. Ou algo assim. E não foi trabalhar.

Naquele dia, ele dirigiu. Atrasado, cabeça cheia, anestesiado pela rotina, ele deixou o carro no estacionamento. E esqueceu. Ele sempre voltava pra casa sozinho, de ônibus, tarde da noite. Só foi lembrar quando chegou em casa. Madrugada, ele estava de volta ao estacionamento. Tirou a criança do carro. Tinha sido daqueles dias muito quentes e abafados. Sufocante. Longo demais. Se a criança chorou, ninguém ouviu.

Tarde da noite.

Tarde demais.

O casal se desfez. A mulher jamais perdoou nem aceitou o que aconteceu. O marido tampouco.

Ninguém jamais veio buscar o carro.

O carro...

Às vezes, se chegar bem perto da janela, a cara quase encostada no vidro, dá pra ver, debaixo da crosta de poeira, as mãozinhas abertas batendo no vidro, querendo sair.

Tarde da noite...

(Agradecimentos à Milena que embarcou na viagem dessa historinha. Beijos, Mi.)

segunda-feira, janeiro 12, 2009

O que há de melhor em nós

O Orkut é o palco da maioria das cyberações criminais que correm nos tribunais brasileiros. Tráfico, pedofilia, injúria, calúnia, difamação, apologia ao crime e muito mais, tudo isso movido por pessoas que consideram-se anônimas dentro de uma rede social que tem por principal objetivo a aproximação de pessoas, o reencontro de amigos, a identificação de afinidades, tudo de bom que a web 2.0 jurou dar pra nós. Colaboração e comunidade.
(Edson Romão em Anônimos Famosos da Web, artigo publicado na Revista W nº102, janeiro de 2009)

Nos Estados Unidos, onde, em 2000, estimou-se que 3% da população mundial consumia 25% dos recursos disponíveis, tem crescido a ênfase não apenas no design de produtos e comunicações, mas também no design de “experiências”. Isso pode ser interpretado, em parte, como um indicativo de que a utilidade básica dos produtos é tida como certa, mas também sugere que a vida é tão sem sentido para pessoas incapazes de experimentar algo por si mesmas que elas têm de ser supridas com um fluxo constante de experiências artificiais, comercializadas e capitalizadas que acabam se impondo como realidade. O design nesse contexto tem o papel de bloquear tudo o que possa representar desgaste ou incômodo.
(Jonh Heskett, Design, Editora Ática, página 139)


Uma canção



A Minha Menina, de Jorge Ben, interpretada pelos Mutantes, no álbum Os Mutantes, de 1968.

domingo, janeiro 11, 2009

Morro e não vejo tudo


E como tem coisa nesse mundo. Pra se ver, pra se fazer, pra curtir, pra amar. Tanta coisa que às vezes eu me desanimo. Não dá pra ver tudo, não dá pra fazer tudo.

É a velha história das mil abas abertas no Firefox: tenho acesso a mil informações, mas parece que tudo se dilui na quantidade. Troco de uma janela para outra, paro de ler um texto para ver um vídeo, conferir uma galeria de imagens, ler um artigo sobre tipografia, responder um e-mail e voltar a ler o texto original. O tempo de “folga” diante do computador parece mais trabalho de pesquisa. Sempre procurando novidade. Muita informação, muita velocidade.

E é essa a minha nóia.

Obviamente, só um maluco perfeccionista obcecado por controle (como eu) se incomoda com o fato de que não dá realmente pra curtir tudo. Curtir de verdade, saborear, dedicar tempo. Tipo, uma tarde inteira pra ler um livro com calma, saboreando. Lógico que você pode fazer isso, mas tem outras coisas legais surgindo exatamente naquele momento, coisas que podem ser até mais bacanas que aquele livro que estamos lendo. O tempo passa a ser algo pra ser usado com sabedoria, passa a ser uma moeda, uma riqueza, um objeto de consumo.

Consumo.

Veja bem, essa é a minha nóia. Eu consumo o tempo, eu invisto o tempo e espero ter os melhores rendimentos possíveis. Loucura, velho. Esse raciocínio insano pode se estender pra diversas esferas da vida: trabalho, esporte, lazer, cultura, relacionamentos. Será que eu não estou perdendo tempo? Se estou lendo esse livro, não poderia estar lendo um livro melhor? Se estou insatisfeito com o trabalho, não poderia estar trabalhando em um lugar melhor? Será que não existe uma mulher mais bacana do que essa ao meu lado?

O aspecto positivo dessa sandice é que nunca fico acomodado. Sempre busco por mais, desejo mais. O aspecto negativo óbvio é que não valorizo o que tenho, não vivo o momento. O que importa é o próximo passo, a próxima viagem. E na tal ilusão de controle e planejamento, alieno-me do presente. Fico completamente anestesiado pelas expectativas e ansiedades. A Grande Ansiedade.

Esses dias de virada de ano são bons pra parar um pouco e refletir. Olhar pra trás e pra frente e pensar um pouco, sem pressa, sem loucura. Geralmente fazemos um balanço do que passou e uma lista de resoluções para o novo ano. No meu caso, a lista ficou meio grande demais. Ler mais, desenhar mais, escrever mais, viajar mais, amar mais, curtir mais. Mais livros, mais projetos, mais filmes, mais romances. Não dá pra fazer tudo.

Então dobrei a Grande Lista e fiz outra. Escrevi em uma folhinha amarela, daquelas de postit. Uma lista de um item só. Minha lista secreta.

Tem coisa demais nesse mundo. Pra ver, fazer, curtir e amar. E isso é ótimo. O único problema é que não dá pra viver tudo. Um problema sem solução. Mas, se não existe solução, não existe problema, não é?

Bora lá pra 2009.