domingo, maio 31, 2009

Novas ocorrências

Já fui assaltado umas duas vezes e passei por algumas situações difíceis, mas até hoje ninguém tinha apontado uma arma de fogo pra mim. Foi a minha primeira vez. Ainda bem que dono da arma era um policial, que provavelmente não tinha intenção de atirar, embora talvez tivesse a predisposição para isso.

Falando francamente, não foi uma experiência traumática. Foi um pouco assustadora, mas não foi traumática. Eu estava voltando pra casa por aquela rua escura e de repente ouvi "Mãos na cabeça!". Do meu lado a viatura encostando, o policial me apontando a arma.

"Mãos na cabeça!"

Numa situação dessas você não faz o sujeito repetir uma terceira vez. O colega dele desceu. "Afasta as pernas". Começou a me revistar. "Você tá vindo da Rui Barbosa?". Sim. "Ele tá limpo". Ok, valeu. Boa noite, policiais. E ele foram embora. Rápido assim.

Não me trataram mal, pensei que fossem me bater ou coisa assim, mas, fora a arma apontada pra mim, não me trataram mal. A verdade é que os arredores da minha casa não são lá muito convidativos. A viela onde os policiais me pararam é de arrepiar. E eu estava de moletom, capuz cobrindo a cabeça. Devia parecer suspeito...

Enfim, da história toda não ficou uma revolta ou o susto ou algum trauma, mas ficou essa coisa de me dar conta de que foi a primeira vez que apontaram uma arma pra mim. E daí me liguei de como eu estava me vestindo, como um moletom pode ser associado com roupa de marginal, como as ruas ao redor da minha casa são perigosas e coisas assim. Apontaram hoje uma arma pra mim e me surpreendo descobrindo o quão isso é banal. As ruas sombrias, o pessoal que te assalta, as ameaças dos desconhecidos, tudo isso parece tão corriqueiro...

Foi a primeira vez que me apontaram uma arma e o que me assombra é pensar o quanto isso pode ser normal hoje em dia.

quinta-feira, maio 28, 2009

E agora, um minuto para nossos comerciais...

Tá, é um vídeo de gosto bem duvidoso, mas eu chorei de rir. Já faz um tempo que eu vi, então talvez pareça novidade... Tá em inglês, mas tenho certeza de que isso não vai atrapalhar a compreensão... hehehe


segunda-feira, maio 25, 2009

Nerd

Dia do Orgulho Nerd.

Dia do Orgulho...

Quem teria orgulho de ser nerd? Quero dizer, quem teria orgulho em ser solitário, discriminado, feioso e não ter absolutamente nenhum traquejo social? Um derrotado. É essa a idéia clássica do nerd, não é?

Claro que não é assim que a mídia pinta as coisas hoje e tudo tem mudado muito. Mas eu sou de uma época em que ler gibi não era uma atividade vista com bons olhos. Julgavam que você tinha uma mentalidade de criança, na melhor das hipóteses. E saber reconhecer filmes e trilhas sonoras com apenas alguns trechos curtos não era exatamente uma qualidade das mais admiradas pelas meninas.

Fui um garotinho nerd e minha infância teve gosto de poeira e solidão.

Com pitadas de um néctar extasiante e indescritível.

Esse sabor maravilhoso me assalta ainda hoje. Na minha prateleira tem muitas revistas e livros originais, que hoje chamam a atenção do pessoal por causa das adaptações pra cinema e exposição na mídia.

Antes de Harry Potter havia Timothy Hunter e eu estava lá. Eu tenho os gibis formatinhos com as primeiras histórias do Monstro do Pântano. Antes do Neil Gaiman chamar a atenção como escritor em Paraty, eu já tinha um autógrafo do cara em um álbum maravilhoso. Em 1989 já tinha lido Watchmen.

Estou me gabando, sim. Seja indulgente comigo.

Nerd sempre foi um termo pejorativo. Acho que o nerd deu a grande volta por cima no primeiro filme do Homem-Aranha. Quer dizer, olhem pro Peter Parker do Tobey Maguire. Aquilo sim é um nerd! Bendita aranha radioativa!

Nerds jovens sofrem feito o diabo. Mas se chegarem à maturidade, eles se tornam o diabo. Se é que você me entende. Voltando pros filmes do Homem-Aranha, a gente encontra de cara um nerd velhão: o doutor Octopus interpretado pelo Alfred Molina. O cara esbanja tanto estilo que você praticamente esquece que ele é um nerd velhão e barrigudo. Nerds velhos sabem o que é estilo e não tem tempo pra perder.

Falo um monte de quadrinhos aqui, porque quadrinhos são a literatura nerd por excelência. E agora, sei lá por que, as coisas começam a mudar... As pessoas veem os quadrinhos com outros olhos. E veem nerds com outros olhos.

Ou há um novo tipo de nerd na cidade. Uma nova espécie.

Saem os livros e gibis e entra o computador.

O novo nerd está ligado no orkut, conhece css, escreve sobre mil assuntos em seu blog, segue os twitters mais interessantes. O novo nerd sabe fazer dinheiro e é descolado. O novo nerd se livrou do velho nome e se chama geek. Até faz sexo.

Até um tempo atrás eu achava que o computador era um refúgio do nerd, onde ele podia se esconder do mundo real. E de certa forma, é isso mesmo. Mas também é um mundo onde o tal nerd ou geek ou seja lá quem for pode entrar em contato com outras pessoas. Por mais que haja perfis fakes, ainda há pessoas por trás desse perfil. Você encontra pessoas na web de maneiras talvez muito mais fáceis e diretas do que poderia encontrar na vida real. E isso é verdade, por mais absurdo e paradoxal que pareça: o espaço virtual te aproxima dos outros.

10 anos depois de Matrix, 10 anos depois de Neo (o primeiro grande geek?), comemoramos hoje o dia do Orgulho Nerd. Orgulho em se debruçar diante do computador e navegar por twitters, orkuts, blogs e tudo mais, teclando e adicionando a favoritos e fazendo scraps e deixando marcas e gritando no escuro.

Mas não gritamos sozinhos.

Somos um Neo às avessas e o computador é a saída da Matrix do cotidiano... ou não?

E agora, um vídeo com a palavra definitiva a respeito do assunto:




(Na verdade a data de hoje celebra os 32 anos do lançamento do filme Guerra nas Estrelas Episódio 4 Uma Nova Esperança. E eu chamo de Guerra nas Estrelas sim. Chupe, Star Wars.)


domingo, maio 24, 2009

Twittando


Estou com azia. Como se fossem labaredas lambendo meu esôfago.

Esse é o Twitter. 140 caracteres pra dizer alguma coisa sabe lá Deus pra quem.

Hoje o Silver passou a tarde comigo ensinando coisas da web. Html, Komodo, portais de conteúdo, redes de relacionamento e o tal do Twitter. Que, aliás, eu nunca tinha entendido direito pra que servia. Valeu, Silver! Obrigado pelas aulas de web e obrigado por me explicar essas coisas... estranhas.

Não sei se a resistência às novas tecnologias é um sintoma de envelhecimento. I-pods, Tweeter, todas essas coisas são meio complicadas demais pra mim. Por um lado, tenho preguiça de aprender, tenho medo de estar ficando pra trás, tenho a impressão de que cada vez mais estamos trocando o dia de sol pela frente do computador. Sou meio como o descrente do videozinho acima (que também foi indicação do Silver).

Mas, por outro lado...

É fascinante. Durante a tarde de hoje não aprendi só como o Twitter funciona, mas percebi que a rede da web é realmente uma rede. Uma rede social de verdade. Tudo aqui está para ser visto por alguém. Um tanto óbvio, eu sei, mas demorou pra minha ficha cair.

Outra coisa fascinante são os modos de tratar a informação, de organizar assuntos e idéias. A web, em todo seu potencial, é fabulosa, extraordinária, desafiadora e provavelmente inesgotável.

Uns anos atrás, quando comecei esse blog, eu escrevia pelo prazer de escrever. Escrevia pra mim, como dizia um amigo meu. Mas as possibilidades levantadas hoje me fazem pensar em algo mais. Temos formas, possibilidades de organização de informação e imagem e contato possível com diversas pessoas. E temos sede por conteúdo.

Demorou pra ficha cair.

Mais uma vez obrigado ao Silver.

Continuo com azia, queimando por dentro.

E cheio de ideias...

quinta-feira, maio 21, 2009

Persona


Definitivamente, eu sou uma pessoa melhor quando estou bêbado.

Isso é triste.

Triste o caralho.

É fantástico.

É como se minha mente fosse uma tela e diversas janelas abertas com diversas informações, pensamentos, idéias, abertas ao mesmo tempo, todas visíveis, todas claras. Todos os momentos são um só, todos os problemas são insignificantes, tudo faz sentido...

A primeira vez que assisti Dr. House foi na festa de uma amiga nerd. Ali comecei a associar o doutor com pessoas solitárias.

Ali comecei a pensar que só pessoas solitárias assistiriam House e se identificariam com o pobre manco e sua língua mordaz. Como se pudessem se identificar com o desgraçado e sua solidão e a muralha de ironia e mordacidade que o cerca.

Em um episódio de House ele diagnostica um paciente por estar feliz demais. O cidadão estava em sua maca, simplesmente feliz, sorridente, e House percebeu que toda essa felicidade deveria ser um sintoma de alguma doença. Simplesmente porque ninguém deveria ser tão feliz assim.

Curiosamente, no extremo oposto, seus colegas começam a achar que o próprio House deveria ter algum problema, pois se ninguém pode ser tão feliz, então ninguém pode ser tão irrascível e tratante quanto ele. Examinam o sangue do doutor House e acabam descobrindo que ele tem sífilis. E isso seria a causa do temperamento único do doutor. Ele poderia ser curado e então ele deixaria de ser quem é. Eles se perguntam se seria certo curá-lo...

Mais tarde todos ficam sabendo que era tudo uma grande pegadinha do próprio House, que havia substituído a amostra de sangue por uma contaminada.

Mas a felicidade do paciente realmente era sintoma de uma doença...

E daí?

Daí que agora, enquanto escrevo, estou bêbado. As palavras fluem, tudo faz sentido. Estou feliz por estar vivo. Posso ouvir a água fervendo da cozinha, posso compreender tudo ao meu redor com uma clareza que não tinha antes.

E se House tivesse sífilis e toda sua personalidade e tudo aquilo que faz dele o que ele é fossem fruto de uma doença? E se eu só fizer sentido como ser humano enquanto estiver bêbado?

A lucidez.

A esperança.

A alegria de viver.

São só estímulos químicos?

Tudo que sou e o que poderia ser cabe em uma garrafa ou em um frasco de comprimidos?

Ou um livro. Ou um texto.

Um personagem inventado.

Interpretado.

E real.

terça-feira, maio 12, 2009

... aonde ninguém jamais esteve.


A verdade é que estão se acabando os lugares pra ir.

Antes o mundo terminava no horizonte, em uma queda para o infinito. Ele era chato e o céu era um teto cheio de furos que só podíamos ver no escuro da noite. Vieram as caravelas, a Razão, o mundo deixou de ser chato, as coisas aconteceram.

Antes tinha duendes, bruxas, fantasmas e demônios. Nem faz tanto tempo assim que as montanhas do oriente ou aquelas selvas dos filmes preto e branco nos provocavam e a gente imaginva "o que será que tem lá longe?"

E hoje a gente usa o Google Earth.

Veja, uns séculos atrás e achávamos que o mundo era chato e terminava ali no horizone, ao alcance da vista. Hoje sabemos que ele se estende bem além, mas ele me parece bem menor do que era. Com menos segredos, menos desafios. Não há mais terra incognita.

Quando a série Jornada nas Estrelas (ou Star Trek, se preferir) começou na década de 1960, tinha na abertura uma voz em off que repetia sempre o mesmo discurso: "Espaço. A fronteira final..." E daí encerrava com "Audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve." Caraca, era um texto bacana e me arrepiei de ouvi-lo no novo filme. Mas esse discurso encerra um fato: aqui embaixo já não há mais pra onde ir.

Não há pra onde escapar dos satélites, no National Geographic, Discovery Channel e Globo Repórter.

Ou há?

O discurso de Jornada nas Estrelas estabelece uma nova rota pra aventura, mas a viagem ainda é a velha busca pelo desconhecido, pelas novas civilizações e coisas assim. Onde está a aventura do desconhecido hoje?

Ao viajar pra Nova York, um conhecido disse que era como passear pelo cenário de um filme. Nova York não parecia real, não parecia uma cidade. Parecia um cenário, uma mentira. Um sonho. Uma idéia plenamente vista e revista ao vivo e a cores um sem número de vezes.

Pulando pelo Google Earth, tv a cabo, Wikipedia, onde está o mundo real? Planejo minha viagem pra Paraty, visito o site, reservo a pousada e vou pra lá. Não há surpresa alguma. É tudo muito seguro. Está tudo lá. Controlado. Previsível. Estancado.

Em 1999 o filme ,Matrix propos outra trajetória para a aventura. Não o Espaço lá em cima, mas as profundezas de nosso íntimo. O que é real? É possível escapar da prisão do cotidiano?

Existe uma prisão do cotidiano?

E se antes um punhado de pessoas se enfiava em barcos de madeira pra atravessar um oceano sem saber exatamente o que encontraria do outro lado, o que nos resta hoje é palavrório e ego-trip.

Onde estão as grandes conquistas?

Que lugar restou pra gente ir?

Qual é o desafio?

segunda-feira, maio 11, 2009

Audaciosamente indo...


Antes de mais nada, se você é uma pessoa de fino trato e sensível a linguagem de baixo calão, pare de ler isso agora.

Ok?

Então vamos lá... fazia tempo que eu não via um filme tão puta que pariu no cinema. Daqueles que você vibra, comenta com o colega, escuta os outros sussarrem comentários e daí, quando tudo acaba, sai satisfeito e fica falando empolgado horas sobre as soluções, sobre as idéias, sobre as cenas que ficaram ali na cabeça.

Puta que pariu, que filme mais tesão, que filme do caralho!

Não sou grande fã de Jornada nas Estrelas

(tenho um amigo que é e até casou usando o uniforme da Federação. Eu sinceramente o invejo, porque qualquer um que ache uma mulher maluca e maravilhosa o bastante pra concordar com uma coisa dessas é um homem de sorte extraordinária!)

mas o seriado me acompanhou um bocado pela infância. Era assistir Jornada e ir brincar pelas casas em construção na vizinhança. Naqueles dias metade do bairro era mato e rua de anti-pó e a maior parte da outra metade eram paredes de tijolos sem teto, casas inacabadas... Anyway, eu via o seriado e já na época ele parecia tosco. Entretanto, tinha algo bacana ali também. E devia ser muito bacana, já que... o que, 40 anos? 40 anos depois ainda se fala em Jornada. Ainda mais agora com esse filme.

Que é ducaralho, mega boga foda, puta que o pariu!

Lógico que minha relação nostálgico-emotiva com a série deve ter influenciado muito essa minha visão nada imparcial. Mas o filme é realmente emocionante. E cheio de sacadas senscacionais. O seu Abrams acertou na mosca. Na mosca. Você olha pro trabalho do cara, olha e olha e pensa e pensa e daí fala: é isso. É ISSO. Fale com firmeza, rapaz!

O cara acertou, fez gol de placa. Não tem o que mudar, não tem como fazer melhor. Muito bom, muito bom!

Bem, o senso crítico pode argumentar que há falhas no roteiro entre as quais destaca-se justamente o uso e abuso do "acaso". Muitas coincidências, muitas saídas fáceis. Mas diante desse senso crítico, meu contra-argumento é: FODA-SE. O filme é do caraaaaaaaalho!

Curta os momentos, divirta-se, aproveite a vida.

Audaciosamente indo onde nunca esteve antes...

Dobra Espacial, Senhor Sulo.

Puta que pariu...

sábado, maio 02, 2009

Hellboy, o cramunhão camarada


Hellboy é uma daquelas criações indissociáveis de seu criador. Ou, nesse caso, de seus criadores. Porque, parando pra pensar bem, existem dois Hellboys. Um é o do cinema, que talvez você já conheça. O outro é o dos quadrinhos. A princípio era pra ser o mesmo personagem, mas existem detalhes sutis que acabam afastando as duas obras. E ambas são interessantes.

O texto que se segue não é sobre Hellboy, o personagem, mas sim sobre a criação desses Hellboys, um pouco sobre seus criadores e suas matérias-primas. São especulações, considerações e curtições sobre o barato que é criar algo insano e ver essa coisa tomar vida própria e começar a ditar seu próprio destino.

Aquelas coisas redondas que ele tem na testa não são óculos, mas chifres que ele serra e lima. E ele também tem um rabo e cascos. E cavanhaque.


Essencialmente, Hellboy é filho de um demônio com uma bruxa parido no Inferno e arrastado para a Terra por um experimento mal-sucedido de místicos nazistas. Encontrado por um pesquisador do sobrenatural, ele foi levado para uma base militar secreta onde passou sua breve infância. Adulto, tornou-se agente do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal (BPDP) especializado em... pesquisa e defesa contra elementos paranormais. Tipo um Arquivo X misturado com os integrantes mais bizarros dos X-Men. No Bureau, Hellboy é o sujeito que cuida do trabalho pesado, o que freqüentemente envolve dar porrada em monstros, demônios e afins. Vivendo entre humanos, o vermelhão adquiriu uma série de hábitos mundanos: linguagem chula, senso de humor, moralidade, gosto por charutos e predileção por panquecas.

A vida de Hellboy ia muito bem até o dia em que descobriu que era, na verdade, Anung Un Rama, a criatura mítica de uma profecia, o protagonista do fim do mundo, libertador dos seres abissais que consumiriam toda a vida no Universo. Ou algo assim, tipo, a Besta do Apocalipse.

Essa idéia toda saiu da cabeça do desenhista Mike Mignola e tomou forma pela primeira vez em 1994, na primeira série de histórias do Hellboy: Sementes da Destruição. Mais interessante pra mim do que o universo desse personagem, é o rumo que suas histórias foram tomando nos bastidores.


Pra começar, Hellboy foi surgindo, digamos assim, na cagada. A primeiríssima vez em que ele apareceu foi como uma ilustração de um folheto de um evento de quadrinhos. Mignola desenhou um diabrete e, no último momento, escreveu “Hellboy” em seu cinturão. “Só que o nome ficou gravado em minha mente e então o personagem começou a tomar forma”.


Mike Mignola é um desenhista de quadrinhos com um traço bem singular. Está na minha lista de artistas preferidos. Mas o que faz de Mike um bom quadrinista não é seu desenho belíssimo, simplificado e eficaz, mas também seu layout de páginas. O modo como ele utiliza os quadrinhos, como ele os dispõe na página, como decupa e escolhe os elementos e momentos de uma ação para construir a página... bem, tudo isso é único e muito bacana.

Para você ter uma questão do que significa essa história do layout, teve uma edição especial onde Hellboy encontrava-se com outra personagem, a Ghost, a fantasma de uma policial que seguia tentando fazer justiça. Ao folhear a revista, eu tinha a fortíssima impressão de ser um trabalho do Mignola, apesar do desenho ser algo completamente diferente. No fim da edição, entre os “extras” descobri que, além do roteiro, Mignola havia produzido esboços com os layouts das páginas, que o desenhista Scott Benefiel seguiu à risca. Esse layout característico de Mignola, com closes, sombras e ritmo de ação únicos é tão importante para o Hellboy dos quadrinhos quanto a arte e as histórias que o autor compõe.

As influências de Mignola vêm principalmente dos romances de aventura e ficção pulp dos anos 20 e 30. Os monstros abissais que devorarão o Universo no Fim dos Tempos são claramente retirados dos contos de H.P. Lovecraft. Aliás, Hellboy deve muito a Lovecraft e também a Edgar Allan Poe no que se refere à construção de seu universo ficcional. O sobrenatural no mundo de Hellboy é sombrio e ameaçador exatamente como nas obras dos dois autores. Não se trata do explícito, mas sim do sugerido, das sombras que nos ameaçam e que fogem à compreensão. O “inenarrável”, como diria Lovecraft.


Além do terror, outra influência marcante em Hellboy são as ficções de aventura. Os investigadores e aventureiros dos pulps como o Doc Savage. Hellboy tem muito a ver com Savage, no sentido de resolver confrontos com as próprias mãos, dando surpreendentes demonstrações de força e resistência. Assim como Doc Savage, Tarzan, o Sombra e outros “heróis” das pulps, Hellboy é o tipo machão pra caralho, que arrebenta com os caras maus. (Se bem que o vermelhão apanha tanto quanto bate...) Os próprios títulos das histórias (Sementes da Destruição, O Despertar do Demônio, A Mão Direita da Perdição...) são inspirados nessas pulp fictions.

Todo esse background de cultura pop-nerd descartável fascinou o diretor Guillermo Del Toro.


Guillermo Del Toro é um cara divertido. O primeiro filme que assisti dele foi El Espinazo Del Diablo (A Espinha do Diabo), que tem um estilo muito parecido com O Labirinto do Fauno, a obra que o consagrou e que você já deve ter visto (eu espero...). O que se vê é que Guillermo curte o terror, esse lance de vampiros e monstros, mas também tem um olhar sutil, mais poético, sobre o fantástico. Nessas obras, temos como protagonistas crianças que lidam com as diferenças entre um mundo real e outro imaginário (ou nem tanto...) e é difícil dizer qual deles é o mais assustador.

Foi durante as filmagens de Mimic (filme de terror com baratas humanóides e Mira Sorvino) que Del Toro teve contato com os gibis de Hellboy. Tornou-se um fã entusiasmado e decidiu adaptá-lo para o cinema. E a partir daqui as histórias do Hellboy quadrinhos e Hellboy cinema correm paralelas.

Antes de Hellboy, Mike Mignola desenhou muitas histórias de super-herois. E na época que Hellboy fez seu debut nos quadrinhos, Mignola pensava em criar algo como um super-grupo especializado em combate ao sobrenatural. Peneirando melhor a idéia, ele optou por um protagonista que fizesse parte de uma força investigativa. Mas a atmosfera do gênero super-heroi ainda pesava bastante sobre as primeiras histórias.

Essencialmente um desenhista, Mignola tinha medo de escrever, de por palavras nos balões de seus personagens. Daí chamou seu amigo John Byrne pra escrever os textos de Sementes da Destruição. John Byrne está para os super-herois assim como John Woo está para os filmes de ação. Não se trata de qualidade, mas você sabe exatamente o que esperar desses dois e quais são os seus limites. Assim, Sementes da Destruição, a estréia de Hellboy, era uma estranha história de super-heroi permeada de referências a O Chamado de Chtulhu (de Lovecraft) e A Queda da Casa de Usher (de Poe).

E quando digo “estranha história” expresso exatamente a impressão que ela me dá. Acho que Mignola ainda não tinha definido algumas coisas e essa primeira história parece bem deslocada em relação às posteriores. Pra começar, a narrativa em primeira pessoa feita por John Byrne é irritante. Hellboy conta a história exatamente como um típico super-heroi contaria: com frases desnecessárias e comentários imbecis. Ele jamais cala a boca. Nas histórias posteriores, talvez pelo seu medo de escrever, Mignola produz um texto bem mais enxuto. O que é, na minha opinião, uma excelente melhoria.


O primeiro filme de Hellboy feito por Del Toro segue essa onda super-heroi também. O próprio Del Toro o define como um filme de super-heroi. Mas o ponto é que o Hellboy não é um super-heroi. Apesar de ser uma adaptação muito fiel, o filme toma rumos diferentes da HQ, o que é bem saudável.

Como o filme foi feito alguns anos mais tarde e muita coisa já tinha sido definida na HQ, ele conserta uma falha que me incomoda muito em Sementes da Destruição, que é a morte do professor Brum. Veja, esse velhinho era como um pai para Hellboy. No filme, vemos essa relação muito bem colocada e o vermelhão realmente sente a morte no pai.

Já nos quadrinhos, a reação de Hellboy ao ver o corpo do professor não é a que se poderia esperar. Após um ímpeto de fúria, ele age com total indiferença ao comunicar ao Bureau a morte de seu mentor. Nas histórias subseqüentes vê-se o papel importante de Brum na vida de Hellboy. Imagino que se tivesse pensado nisso desde o começo, Mignola não teria “simplesmente” matado o velho Brum.


As grandes diferenças entre o Hellboy do filme e o Hellboy dos quadrinhos estão em dois pontos principais: amor e livre arbítrio.

No filme Hellboy tem um romance com a personagem Elizabeth Sherman. Ele a ama e o sentimento é retribuído. No gibi, Hellboy e Liz são no máximo bons amigos. O vermelhão nunca mostrou até agora interesse romântico algum. Aliás, considerando que nem humano o cara é, isso não é tão estranho assim.

No filme, é o amor por Liz Sherman e a ajuda de um amigo do Bureau que ajudam Hellboy a negar seu destino como Desencadeador do Apocalipse. Nos quadrinhos, Hellboy renega seu destino de livre e espontânea vontade.

Existencialmente, o personagem dos quadrinhos é bem mais complexo que o do cinema. A ausência de um amor e de um vínculo com a humanidade faz de sua moralidade e livre arbítrio as únicas motivações para recusar seu destino. Acho isso um barato.

E são essas diferenças que fazem as histórias em quadrinhos subsequentes e o próximo filme seguirem por caminhos paralelos. Ainda assim, tanto o quadrinho quanto o filme jogam pra longe a sombra do super-heroi em suas continuações.


Nos quadrinhos, ao longo dos anos, Mignola vai amadurecendo seu personagem. O texto é usado na medida certa, a composição das páginas vai ficando cada vez mais refinada. Hellboy torna-se um andarilho, um sujeito vagando de lá pra cá sem saber exatamente qual seu propósito e sem se preocupar muito com isso. Em suas andanças, Hellboy topa com outros seres mitológicos e folclóricos. Alguns insistem em lembrá-lo de seu papel no Fim do Mundo e ele os responde com um singelo “vá se foder!”. Os lampejos de humor são constantes em um mundo fictício inacreditavelmente sombrio.

Em termos de personalidade, os Hellboys do cinema e HQ são muito próximos. Ambos são toscos. Um demônio renegado que torna-se um investigador paranormal com o temperamento e sutileza de um caminhoneiro. Simplesmente tosco. Não tem como não criar empatia com ele. É simplesmente ótimo.

No cinema, a continuação de Hellboy, Hellboy e o Exército Dourado, segue a tendência de se afastar do estilo super-heroi. Embora Hellboy combata um príncipe renegado que quer incitar a guerra entre o mundo dos homens e dos elfos, não há personagem que possa ser caracterizado como um vilão. As razões do príncipe são claras e lógicas: ele só quer reconquistar o espaço de seu povo.

O Exército Dourado afasta-se ainda mais dos rumos dos quadrinhos, mas é muito melhor que o primeiro filme. A sensibilidade de Del Toro é tocante. Como na seqüência que Hellboy enfrenta o gigante elemental no meio da cidade. “Se você o destruir”, diz o príncipe, “nunca mais esse mundo verá outro ser como ele”.

O segundo filme ainda apresenta a deliciosa cena da bebedeira, em que Hellboy e Abe Sapien cantam bêbados. É o mundano e o extraordinário se tocando. Sensacional.

Ao assistir os filmes, é bacana escutar a faixa de comentários de Del Toro e assistir aos extras e documentários. Guillermo Del Toro é um sujeito que ama o que faz e isso se vê no modo como ele apresenta os extras de seu filme. É simplesmente empolgante!

Nos quadrinhos de Hellboy lançados aqui no Brasil pela Editora Mythos, podemos ver esboços e comentários de Mike Mignola sobre o desenvolvimento das histórias. Mignola participou das produções dos dois filmes e, curiosamente, parece ter sofrido de uma espécie de bloqueio criativo. No volume Paragens Exóticas (Mythos, 2007) Mignola publica esboços de histórias que não conseguiu terminar por causa do tal bloqueio. O último volume lançado no Brasil, O Clamor das Trevas (2008), não foi desenhado por Mignola, mas pelo competente Duncan Fegredo. Mas Mignola permanece responsável pelo roteiro.

Curiosamente, a respeito de desenhar Hellboy, Fegredo comentou: “A gente não pode simplesmente desenhar um par de chifres serrados e um grande queixo quadrado num crânio humano e achar que isso vai resultar instantaneamente no Hellboy. Simplesmente não dá certo!” É o tal do desenho, do traço, que está bem mais ligado ao personagem do que a gente poderia pensar.

Enfim, o grande barato é esse jogo da criação. Esse lance de se inventar algo que não se sabe direito o que é e ver essa coisa, esse personagem se desdobrar, se erguer aparentemente alheio à nossa vontade.

Não faça planos. Comece e deixe rolar.

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Se você quiser conhecer o Hellboy dos quadrinhos, pode tentar adquirir alguns exemplares pelo site da Editora Mythos, por livrarias, comic shops ou em sebos. A ordem de leitura seria mais ou menos essa:

Edições do Hellboy Publicadas no Brasil:
  • Hellboy - Sementes da Destruição (Mythos Editora, 1998)
  • Hellboy - O Despertar do Demônio (Mythos Editora, 1998)
  • Hellboy & Ghost (Mythos Editora, 1999)
  • Savage Dragon & Hellboy 1 e 2 (Pandora, 2001)
  • Hellboy - O Gigante Infernal e Os Lobos de Santo Augusto (Mythos Editora, 2001)
  • Hellboy, Batman e Starman (Mythos Editora, 2001)
  • Hellboy: A mão direita da perdição (Mythos Editora, 2004)
  • Hellboy - O Verme Vencedor (Mythos Editora, 2005)
  • Hellboy - Contos Bizarros Vol. 1 (Mythos Editora, 2006)
  • Hellboy - Contos Bizarros Vol. 2 (Mythos Editora, 2006)
  • Hellboy - Paragens Exóticas (Mythos Editora, 2007)
  • Hellboy - A feiticeira de Troll e Outras Histórias (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 1 - Sementes da Destruição (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy - O Clamor das Trevas (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 2 – O Despertar do Demônio (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 3 – O Caixão Acorrentado (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 4 – A Mão Direita da Perdição (Mythos Editora, 2009)
Os últimos 4 volumes ("Hellboy Edição Histórica"), são republicações de luxo da série desde seu início. Além do ótimo acabamento, estão cheios de extras deliciosos como galerias de ilustrações, esboços, comentários do autor e glossários com informações pertinentes às histórias.