domingo, julho 26, 2009

Got a job


Então, tenho esses amigos, a Rosaninha e o Fabricio.

Um tempo atrás ela aturou um emprego chato durante meses e meses. Esse lance de emprego chato é algo que nos persegue e, se a gente deixar, nos sufoca. A Rô tinha um desses empregos em que a criatividade é massacrada e em que pra ser chefe parece que é necessário ter algum distúrbio de personalidade, ser sádico, autista ou as três coisas juntas. Era um saco, mas ela perseverou, guardou cada centavinho e, um dia, numa bela manhã de sol, pediu a conta e foi pra Inglaterra estudar animação stop-motion. Lá,ela estudou com feras como o Peter Lord, do Estúdio Aardman. Viagens como essas eu queria fazer... Quem sabe um dia?

Mas e quando ela voltasse pro Brasil? Ia viver de animação? Bem... sim. O contato com o pessoal da Animaking se deu ainda quando ela estava lá na Europa. Ela voltou pra cá e uns meses depois já fazia parte da equipe. Atualmente está trabalhando naquele que é, ao que me consta, o primeiro longa-metragem em stop-motion produzido aqui no Brasil. (Atualização: na verdade, Minhocas é o primeiro longa metragem stop-motion da América Latina. Uau!)

Eis uma amostra do trabalho:


Se quiser, você pode visitar o blog da produção aqui.

O estúdio da Animaking fica em Florianópolis. Florianópolis, velho. Praia, sol. Às vezes converso com a Rosaninha e ela me conta as coisas. Claro que nem tudo é perfeito, há os momentos difíceis e durante o verão argentinos lotam a cidade. Mas, cara, olhe aquele vídeo. Veja no que a menina está trabalhando, do que ela está tomando parte. Ela acorda a cada manhã pra trabalhar em algo que acredita, em algo que realmente curte, algo com significado. Você faz ideia do que é isso?

A Rô e o Fabricio foram meus calouros na faculdade, onde a gente se conheceu. A faculdade é um período muito estranho nas nossas vidas. Escolhemos uma profissão e ficamos 4 ou 5 anos tendo contato com um universo bem diferente daquele que estávamos acostumados. É o começo da tal vida adulta. Faculdade é uma luta pra entrar, é uma luta pra sair, é uma porrada de trabalhos, noites em claro, é amizade, é panelinha na turma. É formatura, gelo-seco e baile. E, principalmente, faculdade é (ou deveria ser) um preparo pra suposta carreira que você vai seguir. De preferência uma carreira promissora que te conquiste um bom lugar no maldito mercado de trabalho. Daí esse outro vídeo que vi no blog do Hiro:





Ok, o Ken Robinson está falando de ensino fundamental. Vamos focar na faculdade. Ou melhor, na pessoa e na faculdade.

Antes de entrar na faculdade, você tem uns 16, 18 anos não é? E daí tem que escolher o que você vai fazer. Como você vai se encaixar no mercado de trabalho. Uma profissão séria, lucrativa. Médico, engenheiro, advogado. Ou algo assim. Supostamente é uma escolha pra vida, mas a gente sabe que não funciona assim. Depois da formatura podem acontecer (e provavelmente acontecem) mudanças de planos: uma viagem pelo mundo de mochila nas costas, um emprego formidável e completamente inesperado, um filho e uma nova família, uma morte súbita por gripe... ou uma vida chata e a incômoda sensação de que devíamos ter tentado alguma outra opção.

A Rô podia ser uma diagramadora numa editora de livros didáticos se ela não tivesse batido o pé na ideia do stop-motion. Olhe o que ela está fazendo hoje.

Não sei até que ponto a gente realmente tem controle sobre a vida. Mas sei que o mundo está cheio de gente que simplesmente vegeta no emprego e ignora tenazmente suas intuições e quaisquer oportunidades que apareçam. Fazem seu trabalho de má vontade e se tornam o que se costuma chamar de "mal-amadas", "mal-comidas" ou simplesmente "miseráveis".

Não seja assim. Planeje, arrisque, mude.

Enquanto você ainda pode.

quinta-feira, julho 23, 2009

U2, pulp fiction e outras guloseimas

Vendo o blog Drawn! achei esse vídeo bacana, muito bacana do U2. O que eu curti um monte, além das camadas, transparências e do estilo simples, é como isso tudo se amarra pra contar a história. Tá tudo na medida certa: música, imagem e mensagem. Show de bola.

Gosto muito dessas histórias, desses enredos despretensiosos sobre pessoinhas e suas vidas em quadrinhos/janelas paralelas... Acho muito comoventes esses anúncios de animais perdidos. A moça sozinha distribuindo os cartazes. É pungente. Eu acho. Sei lá...





Ando emotivo.

Emotivo e ocioso.

Vadiando pelo ciberespaço descobri um monte de coisas bacanudas. Uma delas é esse blog sensacional com toneladas e toneladas de material antigo de quadrinhos e ilustração pulp fiction. Material escaneado dos originais de mil novecentos e pearl harbor. Mega boga fodástico. Simplesmente imprescindível. Chama-se Golden Age Comic Book Stories e nele você encontra muita coisa espetacular, desde as capas do The Shadow ("Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe.") até esboços e trechos de HQs de monstros como Frazetta e Will Eisner. E mais coisinhas legais como essa aí embaixo:

No embalo, ainda curti o Comic Book Tattoo, uma coletânea de histórias em quadrinhos feitas a partir das músicas de Tori Amos. É um livrão de 500 páginas que comprei faz um tempão e só agora consegui curtir. Um tijolão pesado que veio numa caixa de papelão e tem a tal hardcover. Droga, o livro é tão grande e pesado que não dá pra ler no banheiro, você tem que ter uma mesa ou uma cama pra apoiá-lo. Mas é lindo de ver. Impressiona. Lógico que como toda a coletânea, tem coisas muito boas e outras ruins de lascar. Achei e curti o trabalho de velhos conhecidos, como Ryan Kelly, David Mack e Mike Dringenberg e descobri coisa nova, como o desenho da Trudy Cooper.

Quando bati o olho no desenho da Trudy, vi que tinha algo de animação no trabalho dela. Algo no movimento, no traço e no desenho das expressões e feições dos personagens. Quando fui verificar na biografia da moça, não deu outra: ela é animadora. Trudy é australiana e mantém um web comic (site com histórias em quadrinhos) em parceria com David Murphy. Não tive ainda tempo de ler, mas o material de Platinum Grit parece ser coisa boa. O legal é que o site está no ar há anos (desde 1994!!!) e dá pra ver a evolução do desenho da Trudy. (ATUALIZAÇÃO: Li algumas histórias e os roteiros são divertidos, mas muito bobinhos... enfim...)

E o lance de reconhecer o toque da animação no trabalho da moça veio de um outro livro que estou estudando. Ou folheando. Ou sei lá. É The Animator's Survival Kit, de Richard Williams. Um cláááássico que eu me lembro da época do estúdio.

Mas o lance de estar relendo o Kit não é por interesse em fazer desenho animado. Quero é voltar a desenhar, reencontrar o traço, o movimento. E não está fácil. Mas difícil é o começo, não?

Vamos nos falando...


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Ainda no embalo, se tiverem tempo confiram o blog do Hiro, da Samanta e do Eduardo. Galerinha que manda bem no traço e nos blogs. Adoro acompanhar o trabalho desses caras.

domingo, julho 19, 2009

Pixo


Essa é outra notícia velha. Mas tudo que não se repete permanece inédito, não?

Em 11 de junho de 2007 um grupo invadiu o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e pichou todo o lugar. Era dia de abertura de exposição dos trabalhos dos alunos formandos em arte.

Da Folha de São Paulo:

Pichadores vandalizam escola para discutir conceito de arte

Colegas classificaram ação como terrorismo; coordenadora do curso de Artes Visuais chamou de "ato de vandalismo"

Aluno da Belas Artes convocou grupo para realizar prova de conclusão de curso


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Cada um dos 37 alunos do último ano do curso de Artes Visuais do Centro Universitário de Belas Artes tinha de apresentar uma obra para garantir sua formatura. Três espaços foram reservados para a exposição dos trabalhos. Trinta e seis alunos preencheram esses espaços com sua produção. Um -Rafael Augustaitiz, 24-, não.

Pichador desde os 13 anos, Rafael resolveu apresentar um trabalho diferente. "Uma intervenção para discutir os limites da arte e o próprio conceito de arte", explicou.
Nos últimos dias, os locais de reunião de pichadores no centro da cidade tornaram-se focos de recrutamento de jovens para "a ação", como se chamou. Às 21h de anteontem, horário de intervalo das aulas, 40 deles, idades entre 15 e 25 anos, compareceram ao "ponto", na estação Vila Mariana do metrô (zona sul).

"Estamos todos muito ansiosos", disse um morador do Ipiranga, que assina suas pichações com o desenho de um monociclo. A maioria dos rapazes nunca pôs os pés em uma faculdade; sua estréia no ensino superior seria justamente em um trabalho de conclusão de curso.

Em cinco minutos andando a pé, o grupo alcançou a escola. Muitos vestiram máscaras improvisadas com camisetas ou daquelas usadas para pintura com compressor. Logo, as latas de spray foram sacadas de dentro dos moletons folgados.

Os jovens pichavam suas "assinaturas" nas paredes, nas salas de aulas, nas escadas, sobre os painéis de avisos, nos corrimãos. Uma funcionária da secretaria, Débora Del Gaudio, 30, quis impedir. Levou um jato de spray no rosto.

Usando a técnica do "pé nas costas", os pichadores formaram escadas humanas (com até três jovens "empilhados"), uma forma de atingir andares superiores da fachada. Assustaram funcionários da escola enquanto escreviam aquelas letras pontudas e de difícil decifração.

Os 30 seguranças da faculdade mobilizaram-se para acabar com a farra. "Deixa eu terminar a minha frase, pô", pediu um jovem. Tomou um soco. Revidou. Virou uma pancadaria.

"Abra os olhos e verá a inevitável marca na história" e muitos símbolos do anarquismo, além das letras pontudas já cobriam o prédio, quando cinco carros da polícia militar chegaram ao local, apenas dez minutos depois de iniciado o ataque.
Enquadrado pela PM, Rafael gritava ao entrar no camburão: "Olha aí, registra, isso é um artista sendo preso."

A maioria dos alunos não achou nada legal "a ação", "a intervenção", "a obra" de Rafael. "Terrorismo. O que aconteceu aqui é terrorismo. Se isso é arte, então o maior artista do mundo é o Osama Bin Laden e o buraco das torres gêmeas é uma obra-prima", disse Alan George de Sousa, 33, do curso de arquitetura e desenho industrial.
"Eu pago R$ 1.500 de mensalidade no curso de arquitetura porque trabalho e minha mãe também dá um duro danado para me manter aqui. Aí vem um filho da mãe dizer que fez essa porcaria toda porque a gente é tudo burguesinho. Ora, vai estudar, se preparar", gritava uma aluna.

Rafael amanheceu o dia de ontem em companhia de mais seis acusados de pichação no 36º Distrito Policial, no Paraíso. Duas estudantes de publicidade da Escola de Propaganda e Marketing, que fica em frente à Belas Artes, estavam lá também, exigindo: "Essa gente tem de se ferrar." As duas acusavam o grupo de pichadores de riscar o Honda Fit cor de champagne que saiu da concessionária "há menos de uma semana".

Ontem à noite, na parte interna da escola, já nem parecia que o aluno com 40 manos tinha estado lá. Tudo estava limpinho. Às 20h30, a turma dos formandos (menos Rafael) ia se reunir para "processar esse trauma", nas palavras da coordenadora do curso de Artes Visuais, a artista plástica Helena Freddi, para quem o que aconteceu na faculdade foi "um ato de vandalismo que extrapolou os limites da ação civilizada."

No texto que escreveu para justificar "a ação", 28 páginas encimadas pelo título "Marchando ao compasso da realidade", Rafael desafia: "Somos abusados? Que se foda! É um orgulho para vocês eu estar dentro dessa podre faculdade. Não sou seu filhote, não preciso do seu aval. A arte hoje em dia é para quem está na pegada. Para os bunda-moles ela morreu faz é tempo." O curso de Artes Visuais tem mensalidade de R$ 900. Rafael é bolsista integral.



Não soube desse acontecimento na época em que ocorreu. Tomei conhecimento desse artigo hoje, depois que vi esse vídeo:



Durante o começo do vídeo fiquei assombrado. Aquele pessoal escalando o prédio... que loucura! Que perigo! O que faz um sujeito arriscar a vida desse jeito? Depois, ao ver a invasão da exposição e da faculdade, fiquei chocado. Chocado mesmo. Um mal-estar. A menina que tenta deter o pichador que pinta o painel em branco. Os gritos dela, a frustração. A agressão do ato. Ela expôs seu trabalho e o pichador expôs o dele, mas, como disseram no vídeo, a base do trabalho do pichador é a agressão, é a brutalidade. O trabalho dele é destruir o trabalho dela. E de repente, a moça está xingando, chorando. "É ódio, tá ligado?".

Se arte, como disse o funcionário do Centro Universitário, é o que "nos alegra no dia a dia", o que esses caras fazem não tem nada a ver com arte. É um grito, é um soco, é a agressão. Tem que ser ilegal, senão a gente não fazia. Isso é o verdadeiro tapa na cara. Arte, pixação, vandalismo. Falta de respeito pelo outro. Só que falta de respeito pelo outro pode ser feita de diversas maneiras e é sempre uma via de mão dupla.

Esse vídeo me virou do avesso, sabe?

Eu sou um cara acomodado. Assisto uns filmes tipo Clube da Luta, gosto de idéias anarquistas, mas essencialmente sou um cara acomodado. Gosto do meu colchão macio, gosto dos meus dvds.

Tyler Durden sentiria vergonha de mim.

E tem tudo a ver com Clube da Luta. Porque tudo nessa sociedade está encaixado dentro de um sistema. Falamos que é feio agredir o outro, mas só é feio agredir o outro se não jo fizermos dentro das regras do jogo. Não vale bater no outro, mas explorá-lo no dia-a-dia do trabalho pode. Não vale asfixiar o outro, mas expremê-lo numa lotação pode. Não pode xingar, mas tirar um sarro com a ironia sutil do doutor House pode (é até chique).

Clube da Luta é um filme que joga justamente com essas agressões "legais" que todos sofremos, mas que nem discutimos porque... bem, é normal você trabalhar a vida inteira e morrer com dívidas. Algumas pessoas dão certo, outras não. Isso é normal. E é esse discurso que o velho Tyler usa. "Não vamos ser como o cara bonito da propaganda de cuecas". Tudo o que nos prometeram nos filmes, seriados e escola não vai acontecer: não seremos os heróis vitoriosos. Não somos especiais. Somos massa. E isso é normal.

Brincando com essas frustrações, Clube da Luta acaba cativando seus espectadores. A proposta de Tyler Durden é a anarquia, o caos. Abaixo as convenções, o conforto e o consumismo. Mas essa é uma anarquia de mentirinha, pra ser comercializada e o próprio filme brinca com isso. Em essência, Clube da Luta é um filme inofensivo. Tem idéias anárquicas mas tudo dentro de uma linha aceitável.

No filme, Tyler Durden cria um verdadeiro exército dedicado a realizar o Projeto Caos, que visa instaurar uma anarquia generalizada. No filme é tudo bonitinho, divertido, excitante.

Mas quando vi a galera invadindo a escola no vídeo ali em cima...

Esses caras são o verdadeiro Projeto Caos. E são perigosos porque não querem jogar dentro das regras. Esses caras não vão entrar quietos nos ônibus...

Pra mim, do vídeo fica, acima de tudo, a pergunta do fotógrafo Choque: "Que sociedade é essa, que forma uma geração inteira de jovens que precisa se expressar através da destruição?"

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Se quiser, tem um artigo bem bacana sobre pichação aqui. Tá em inglês, mas isso não vai te atrapalhar, né?


domingo, julho 12, 2009

Aconteceu em Ouro Preto...

Tudo o que não se repete permanece inédito.

A história já não é novidade, mas parece que não recebeu muito destaque por aí. Pelo menos, não que eu tenha visto. Daí um camarada me sugeriu de colocar ela aqui também. Mais uma voz no coro.

Enfim...

Em Ouro Preto, em uma tradicional festa, uma moça foi assassinada. Era outubro de 2001. O corpo foi encontrado nu, sobre um túmulo. 17 facadas. Acionada, a polícia logo descobriu os possíveis responsáveis pelo crime: um grupo de jovens, entre eles a prima da vítima. A razão do crime: os responsáveis jogavam RPG.

Hein?

Sim, os responsáveis jogavam RPG e a morte da moça teria feito parte de um ritual que extrapolou o jogo. Mais tarde, ficou claro que a acusação contra os jovens era completamente infundada, mas enquanto isso não aconteceu eles amargaram quase uma década com o peso das acusações.

Eu podia escrever mais a respeito, mas sou muito preguiçoso e alguém já fez isso de uma maneira muito melhor do que eu faria... Então, eis a narrativa detalhada, feita por Felipe Amorim, em seu blog Retrato do Artista Quando Tolo:

Em outubro de 2001, a jovem Aline Silveira Soares saiu de Guarapari, no interior do Espírito Santo para a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Com apenas a roupa do corpo e alguns trocados no bolso, seu objetivo não era visitar as esculturas de Aleijadinho ou passear pela arquitetura colonial considerada pela UNESCO como um dos patrimônios da humanidade. Além de ser o mais belo monumento ao ciclo do ouro colonial, Ouro Preto também é uma cidade universitária, sede da Universidade Federal de Ouro Preto e coalhada de repúblicas estudantis, muitas delas com décadas de existência e tradições. Uma dessas tradições é a Festa Do Doze, que em todo 12 de outubro reúne alunos e ex-alunos da UFOP para beber e curtir nas repúblicas e ruas da cidade. Era para essa festa que Aline seguia, acompanhada apenas de uma amiga, Liliane, e sua prima Camila Dolabella.

8 anos depois, em 3 de julho de 2009, Camila Dolabella entrou na sala do júri do Fórum de Ouro Preto para ser interrogada. Após ter amargado quase um ano na prisão, em 2005, e ter visto dois habeas corpus serem negados, Camila finalmente estava sendo julgada pela acusação de homicídio qualificado. A vítima seria sua prima Aline, que segundo a promotoria, teria sido assassinada por Camila, Edson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, todos os moradores da república Sonata, onde as jovens se hospedaram para a Festa. A causa do crime seria um jogo de RPG, que Aline teria perdido, sendo punida com a morte… mais especificamente uma morte ritual, de acordo com preceitos satânicos.

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O Caso de Ouro Preto está fadado a fazer parte dos anais do direito no Brasil. Não só pela violência do assassinato: Aline Silveira foi descoberta na manhã de 14 de outubro morta, nua, sobre um túmulo no cemitério Nossa Senhora das Mercês, com 17 facadas no corpo. A causa da morte seria engorjamento, uma facada fatal no pescoço. Mas o que se destaca é a completa incompetência, ignorância, má fé e os abusos perpetrados por aqueles que deveriam ser os fiadores da justiça no caso: o Ministério Público e a polícia de Ouro Preto.

Desde o começo a marca da investigação em Ouro Preto foi a combinação de inépcia e sensacionalismo. O caso caiu nas mãos do delegado Adauto Corrêa, na época sendo investigado por atentado violento ao pudor e coerção no curso de processo. Corrêa, este exemplar da probidade administrativa, não demorou para arranjar suspeitos para o crime. Logo arrolou como acusados em seu inquérito a prima de Aline e três jovens estudantes da república onde ela tinha ficado temporariamente hospedada. Em uma inovação do procedimento policial normal, o principal elemento incriminatório apontado pelo delegado não era a arma do crime, mas sim livros e postêres encontrados na república Sonata. Incluindo aí livros de RPG.

O RPG, ou role-playing game, foi inventado em 1974, nos Estados Unidos. Uma evolução dos então populares jogos de estratégia de tabuleiro, o RPG basicamente consiste de um grupo de jogadores que, trabalhando em conjunto e usando regras de jogo pré-definidas, tenta superar desafios propostos por um Mestre, responsável por narrar a história e organizar cada sessão de jogo. Com sua popularização, o jogo passou dar cada vez maior ênfase a interpretação, diminuindo o foco na estratégia e privilegiando o desenvolvimento de personagens. Uma das características principais do RPG é seu caráter cooperativo: os jogadores e o Mestre devem trabalhar em conjunto para criar uma boa história e garantir a diversão de todos. RPG não é competitivo, o que o tornou um jogo ideal para ser aplicado em processos educacionais em todo mundo. RPG também não é um jogo possível de se “perder” (uma vez que não há competição) e tampouco possui laços com satanismo.

Nenhum desses fatos importou para o delegado Adauto Corrêa. Desconhecendo os fundamentos do jogo de RPG, movido por intolerância cega e, talvez pressionado para apresentar resultados o mais rápido e espalhafotosamente possível (afinal de contas, até outro dia o principal réu nas páginas policiais era ele próprio) Corrêa decidiu que Camila, Edson, Cassiano e Maicon eram os responsáveis pelo crime. Corrêa estava suficientemente seguro de sua conclusão para poder se dar ao luxo de passar por cima e deixar de lado toda uma série de evidências, investigações e exames que seriam necessários para propriamente determinar o responsável pelo assassinato de Aline.

Corrêa, por exemplo, não levou em consideração o fato de que Aline mal tinha tido contato com Edson, Maicon e Cassiano. Apesar de estar hospedada na república deles, todos testemunhos concordavam que ela só dormia por ali, passando a maior parte do tempo pela cidade ou em festas em outra república, a Necrotério. Lá, testemunhas afirmaram que Aline passou tempo, isso sim, aos beijos com Fabrício Gomes, na época mal-afamado na cidade por um suposto envolvimento com o tráfico de drogas. Mais ainda, Fabrício Gomes e Aline Silveira teriam sido vistos em frente ao cemitério onde a jovem seria encontrada assassinada na manhã seguinte. Quando Camila Dolabella alertou o delegado Adauto Corrêa sobre o ocorrido, adicionando que Fabrício teria sido visto no dia seguinte à morte de Aline vestindo uma camiseta manchada de sangue, a resposta não foi promissora. Corrêa simplesmente anunciou que não queria saber de mais detalhes, pois ele já sabia quem eram os culpados.

Aline Silveira Soares foi localizada nua, com os braços abertos e pernas cruzadas, ao lado de roupas cuidadosamente arrumadas no chão, entre elas uma blusa coberta de esperma. O corpo tinha sido propositadamente arranjado dessa forma, fato evidenciado por uma trilha de sangue no local. Analíses toxicológicas revelavam traços de maconha no sangue da vítima. A investigação sob o comando de Adauto Corrêa não encontrou digitais dos suspeitos no local ou na arma do crime, econtrada próxima ao corpo. Também não comparou o esperma encontrado em Aline com o dos acusados. Na verdade isso seria impossível, uma vez que os policiais negligenciaram a coleta de material genético antes que ele fosse contaminado ou se deteriorasse. Tampouco foram localizadas drogas na posse dos acusados ou na república Sonata. Mas nada disso importava ao delegado Adauto Corrêa. Ele podia se dar ao luxo de desprezar evidências materiais e os testemunhos que contradiziam sua teoria. Afinal de contas, seu faro investigativo encontrava provas contra os quatro acusados em vários elementos considerados corriqueiros por um olhar não treinado. O fato de que Maicon Cassiano chegara a república Sonata naquela noite sem camisa, era evidência clara de que ele estaria fantasiado como um personagem de RPG. E, logo, era assassino. Embora não houvesse nada que indicasse que os acusados tinham passado pelo cemitério das mercês naquela noite, objetos tinham sido encontrados no local que poderiam ter servido num ritual. E se tinha havido ritual, os acusados tinham participado, afinal, para o delegado, eram todos obviamente satanistas. Outro elemento contundente contra os réus foi o fato de que eles terem limpado a república durante o curso investigação. Ignore-se que isso ocorreu quase uma semana após o crime, e que a polícia não tinha dado nenhuma instrução para que nada fosse alterado no local, apesar dos réus terem perguntado já nas primeiras horas do desaparecimento de Aline se deveriam preservar tudo intocado na república. Mas esse era justamente um exemplo do elemento mais incriminador de todos: o interesse dos jovens em desvendar o assassinato e ajudar a polícia só podia ser outra prova gritante de sua culpa. Como o delegado Adauto Corrêa sabia, criminosos sempre tentam agir como inocentes para despistar a polícia. Como o comportamento de Camila, Edson, Maicon e Cassiano denunciava a mais completa inocência, eles só poderiam ser culpados. Todos os quatro, apesar de que o laudo técnico deixava claro que as facadas em Aline tinham sido feitas por uma única pessoa.

A lógica tortuosa, irresponsável e perversa de Adauto Corrêa não avançou sem problemas. Após concluída a investigação, que indiciava os quatro jovens pelo assassinato, o caso chegou às mãos do promotor Edvaldo Pereira Júnior, que reconheceu prontamente a impossibilidade de dar seguimento aquele processo. Baseado em suposições, preconceitos e tentativas descabidas de fazer os fatos se conformarem à teoria (das mais mirabolantes), Pereira Júnior condicionou o seguimento do caso à realização de 17 diligências, que providenciassem alguma prova cabal, ou ao menos aceitável, sobre a culpa dos réus ou a identidade do assassino de Aline. Adauto Corrêa não realizou nenhuma dessas diligências, dando o caso por encerrado. Pereira Júnior tentou recorrer à Secretaria de Segurança Pública para afastar o delegado de seu cargo. Enquanto isso políticos oportunistas aproveitavam o caso para se promover, agitando a opinião pública e alimentando a indignação com boas doses de desinformação e mentiras. Um vereador chamado Bentinho Duarte passou uma lei proibindo o RPG em Ouro Preto. O promotor Fernando Martins iniciou processo contra as editoras Devir Livraria e Daemon tentando proibir a publicação de livros citados na investigação do caso. A mídia convencional se absteve de realizar qualquer trabalho jornalístico digno do nome e, seguindo a linha Fordiana de que se o factoide é melhor que o fato publica-se o factoide, deu ampla publicidade à teoria barroca de Corrêa, ao mesmo tempo que desprezava as hipóteses contraditórias. Apesar de se referirem aos réus como “suspeitos” ao invés de “assassinos”, o esforço de “imparcialidade” dos jornalões nunca atacou diretamente as óbvias irregularidades da investigação do caso nem contestou o caráter delirante da acusação. Enquanto isso, os quatro réus tentavam levar suas vidas, marcados pelo estigma de serem suspeitos de homicídio. Edson foi ameaçado de morte e trancou a faculdade. Maicon e Cassiano permanecerem em Ouro Preto, apesar da constante antagonização e assédio por parte de moradores da cidade. Camila retornou para Guarapari, onde passou a ser hostilizada pela família. Órfã de mãe, ela contou apenas com o apoio do pai durante todo o processo.

Em 2004, após três anos em que o caso esteve parado, ele saiu das mãos de Edvaldo Pereira Júnior e passou para a promotora Luíza Helena Trócilo Fonseca. Diferente de Pereira Júnior, que tinha se recusado a denunciar um processo tão eivado de inconsistências e sandices, Trócilo da Fonseca decidiu dar continuidade ao caso. Em 2005, Camila Dolabella e Edson Poloni foram presos. Quatro anos tinham se passado desde a morte de Aline, e nenhum dos acusados tinha apresentado qualquer atitude desabonadora até então. Edson saiu da cadeia após seis dias, sob efeito de uma liminar, mas Camila passou a maior parte daquele ano na detenção. Foi só quando o caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça que a pena de prisão dos réus foi considerada descabida e lhes foi dado o direito de aguardarem o julgamento me liberdade, apesar das alegações do Ministério Público mineiro de que se tratavam de “contumazes jogadores de RPG, em todas suas modalidades“. Note que, até então, continuavam inexistentes qualquer evidência concreta de responsabilidade dos réus no assassinato de Aline Silveira. Eles estavam sendo presos e acusados por que tinham lido livros.

O caso permaneceu fora da mídia por alguns anos. Enquanto os réus tocavam a vida, a promotoria construía o caso e se preparava para o julgamento. Em 2006 a promotora Luíza Helena Trócilo Fonseca encontrou tempo para mandar apreender todas as edições de número 09 da revista Observatório Social, que denunciava na capa o uso de trabalho infantil nas mineradoras de Ouro Preto. A promotora se preocupava que as fotos expunham as pobres crianças, e afetavam negativamente a boa imagem da região… Mas, enfim. Em 2008 foi decidido que o caso de Aline Silveira seria levado à júri popular. Em 3 de julho de 2009, Camila Dolabella, Edson Poloni Lobo de Aguiar, Cassiano Inácio Gracia e Maicon Fernandes foram finalmente julgados pela acusação de homicídio qualificado. Na falta de prova contundente contra eles, a acusação optou por lançar novo ineditismo jurídico no direito brasileiro, ao sustentar que “o álibi dos réus era fraco”. Ou seja, não cabia à promotoria provar que eles tinham matado Aline Silveira. Eram os quatro estudantes que deveriam mostrar que não tinham cometido assassinato, ou serem presos. Contra eles pesavam diversas evidências “incriminadoras”: seus gostos musicais, cinematográficos, o jeito como se vestiam e seus hobbies. Em 5 de julho de 2009, o júri os declarou inocentes.

Não se tratou aqui apenas da óbvia falta de qualquer prova contra eles. O decisão final dos sete jurados foi de que, efetivamente, os quatro réus “não concorreram, de qualquer forma, para prática do crime”. Os jovens que tinham passado quase uma década sendo coagidos, assediados, ameaçados, difamados e perseguidos não eram os assassinos de Aline Silveira Soares.

Teorias sobre o que realmente aconteceu não faltam, e já circulavam desde os primeiros dias do caso. A mais verossímel é de que Aline teria se envolvido com uma negociação de drogas, durante a Festa dos Doze, e, sem dinheiro, teria concordado em manter relações sexuais como pagamento. Não há indícios de violência sexual em seu corpo, o que demonstra a consensualidade do ato, comprovado pela perícia necrológica. Como a primeira facada em Aline foi em suas costas, tudo indica de que ela foi atraiçoada pelo seu parceiro de negócios. Este permanece solto e impune.

Os interesses escusos, a ignorância e o preconceito é que são os verdadeiros criminosos no caso de Ouro Preto. Foram eles que permitiram que por uma década quatro jovens inocentes fossem perseguidos injustamente, sendo até mesmo privados de liberdade e forçados a fazer inúmeros e pesados sacrifícios pessoais. Foram eles que deram ao verdadeiro assassino de Aline Silveira, um homem brutal e cruel, um passe livre para permanecer à solta. Em uma sanha cega e irresponsável de achar um culpado a justiça de Ouro Preto falhou miseravelmente, e duas vezes: não puniu o culpado e vitimou mais inocentes. Esse tipo de atitude, ignorando procedimentos básicos do processo legal, atropelando direitos civis e apelando para o ódio e a intolerância como elementos de incriminação, não é compatível com o Estado de Direito. Eu não contei essa história aqui hoje para inocentar Camila, Edson, Cassiano e Máicon. Coube ao tribunal do júri fazer isso. Mas para tomar a atitude digna e necessária de todo cidadão: exigir a imediata investigação e punição dos responsáveis pelo caso do assassinato de Aline Silveira Soares. Sua irresponsabilidade e malícia, sua truculência e abuso de poder não podem, nem devem ser perdoadas, nem as sérias acusações de acobertamento dos verdadeiros responsáveis devem ser relevadas. Isso não pode ser permitido.

Os inocentes estão, enfim, livres. É mais que hora de punir os culpados.

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Incluo link para entrevista com Edson Lobo e Cassiano Araújo:

http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=111829

Mais detalhes do caso:

http://www.ouropreto.com.br/noticias/detalhe.php?idnoticia=2015
http://www.ouropreto.com.br/noticias/detalhe.php?idnoticia=2018
http://www.ouropreto.com.br/noticias/detalhe.php?idnoticia=2019

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Pelo Melhores do Mundo eu soube dessa notícia e ainda peguei esse vídeo:


Achei muito tocante. Imagino o que essas pessoas passaram durante essa década. A Justiça é uma máquina estranha e pode ser bem cruel. Pensando bem, é bem parecida com a Mídia.

Eu não vi essa notícia ser apresentada com destaque em nenhum grande noticiário . Deve ter sido mais uma nota de rodapé... Mais uma história pra gente pensar...

sábado, julho 11, 2009

Hoje eu aprendi...

...que as coisas mudam muito rápido, rápido demais e conheci o rótulo "isso é da semana passada". E descubro as coisas meio tarde, não acompanho a velocidade desse ciberespaço, mas ainda assim me fascino com tudo isso.

Então, o lance ali embaixo é coisa da semana passada, aliás, do mês passado, mas só vi hoje e achei do caralho.

Gostei não só por causa da música dos Beatles, mas por todo o conjunto gráfico. É lindo de doer, é inteligente, muito bem pensado. A linguagem gráfica, o desenho dos personagens, é tudo muito bacana. É como uma ilustração, uma história em quadrinhos em movimento, rica em cores e traços vibrantes.

Era pra ser só a abertura de um jogo de videogame, mas os caras foram muito além disso. É a história da banda, é o convite pro jogo, é o espetáculo visual.

É show.




Valeu, Silverclash!

sexta-feira, julho 10, 2009

Revirando gavetas

Teve uma época que meu programa de tv favorito era o Provocações.
Daí um governador assumiu e bagunçou toda a programação da TV Cultura aqui no Paraná e nunca mais vi o Provocações. Quem apresentava era o Havengard, mas ele usava o nome de Antonio Abujamra. Domingo de noite eu assistia o velho bruxo entrevistar pessoas e declamar poesias. E o que eu mais gostava eram as poesias.
E teve um texto que colou na minha cabeça, me chacoalhou mesmo. Parecia que tinha sido escrito pra mim, parecia que era a MINHA canção. Me fez pensar "Porraaaaa, é isso aí! A minha vida nunca mais vai ser a mesma!"
E daí os anos passaram e eu esqueci dela. Simplesmente esqueci.
Ontem acabei achando ela dobrada, no fundo de uma gaveta. Reli, relembrei, senti novamente o mesmo lampejo de antes. A mesma emoção. E agora? A minha vida nunca mais vai ser a mesma? Sei lá.
Acho que descobrir ou inventar um sentido pra vida não é muito difícil. O problema é mantê-lo vivo na cabeça, na alma, no sangue. O sentido não é uma fórmula, uma poesia ou uma prece. Acho que é mais como um perfume indescritível que nos preenche. Ou algo assim. E, às vezes, esse perfume simplesmente devanece e nem nos damos conta. Ficamos vazios, ocos, mortos e nem nos damos conta.
Loucura.
O texto?
O texto era esse aqui:

Quando eu era jovem, eu pensava que com a arte seria possível mudar o mundo.

Eu buscava constantemente um espetáculo que pudesse despertar no coração do público uma esperança.

Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigação de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusão fútil que eu nunca consegui alcançar. Não só a revolução não chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas.

Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando, pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.

Mas um dia eu tive uma revelação: se não se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coração, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso não é para a sociedade ou para os outros, não, é para você mesmo.

E eu fazendo esse palhaço que eu sou, eu encontrei essa coisa. Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida. Por certo eu não mudava o mundo, mas os palhaços nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso são palhaços.

Os palhaços gostam do fracasso e das ações ineficazes, são perdedores alegres e isto é a verdadeira força que têm, nunca se cansam de perder. Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.

Então, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coração, esse sangue que está todo em mim é tão patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um palhaço. Um sangue que não vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica. É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.

O Autor é desconhecido.

quinta-feira, julho 09, 2009

O Horro Puro....




Escute só!!!!

Atenção! Dê um play e escute!

Escute!





Escutou? Gostou? É a Karen. Amigona minha.

Tesão de voz, hein?

Veja que legal!

Colocamos uma menina de onze anos pra chorar a morte do pai ao vivo em cadeia mundial pro mundo todo!

Não é bacana? Não é por essas e outras que a raça humana é legal?

É legal ou não é gente?

E o auditório aplaude e responde:"Éééééééé!"


O vídeo mostrando a menina Paris chorando a morte de seu pai Michael também é o mais visto no youtube, assistido por mais de cinco milhões de internautas segundo o Yahoo Notícias. O que me intriga é se a dor dessa menina exerce sobre as pessoas prazer ou fascínio. Qual é a graça em olhar uma criança chorando a morte do pai? Por que isso virou um circo? Que tipo de demente pode achar que olhar a menina chorando é uma homenagem ao falecido?

Não vi o vídeo e não vou postar aqui.

Até onde me consta, essa menina é uma das poucas pessoas que demonstrou afeição real ao homem e não uma paixão insana construída por exposição na mídia. Ela não devia ser explorada desse jeito.