domingo, agosto 30, 2009

Um relato longo e tedioso sobre uma experiência mística e emancipadora em minha cozinha

Uma vez me disseram que a verdadeira independência é a independência financeira. Concordo. Mas não é a única. Quando vi aquelas panelas chiando em cima do meu fogão é que me dei conta de que era livre.

Livre mesmo.

E essa é a jornada do herói:

Eu era um analfabeto culinário. Sabia fazer o miojo e olha lá. Já tinha tentado seguir receita de livro e internet mas o resultado nunca ficava bom... Daí me deu na telha de fazer um curso de culinária. Curso com chef de cozinha e tudo. O curso chamava-se de culinária trivial, que implicava em fazer feijão, arroz, bife e outras coisinhas mais. Dessas "coisinhas mais", fiquei vidrado no tal Escondidinho.

Você precisa de meio quilo de charque, um quilo e meio de batata salsa, uma cebola grande picadinha, dois ou três dentes de alho picadinhos, um pouco de manteiga, um pouco de leite, queijo parmesão. Usei um tomate também. Daí você faz um purê usando a batata salsa, o leite e manteiga. Salga a gosto. Depois você prepara o charque com a cebola, o alho e o tomate picadinho. Reserve. Unte uma forma com manteiga e distribua metade do purê em uma camada que cobre o fundo. Depois coloque uma camada com todo o charque. Pulverize o queijo parmesão em cima e cubra tudo com outra camada de purê. Mais um parmesão por cima, leve pro forno a 180 graus por meia hora.

Falando assim parece bem simples.

Mas depois do curso, no primeiro dia que fui fazer o tal Escondidinho, entrei na cozinha às onze da manhã e fui almoçar às três da tarde.

O problema é ser solteiro, esse bicho livre, leve e solto. Chegar na cozinha não significa começar a cozinhar. Significa começar a limpar a bagunça de uma refeição anterior (ou de várias, no meu caso). Uma montanha de louça pra lavar, o cestinho de lixo transbordando, o caos, mas, milagrosamente, nenhuma barata. Ainda.

Quarenta minutos foi o tempo que levei pra deixar a cozinha em condições de ser pilotada. Depois disso, a primeira surpresa do dia foi o charque. O charque, ou carne seca, eu comprei no mercado em pacotinho fechado, do tipo industrializado. No curso aprendi que era necessário escaldar o charque pra tirar o excesso de sal. Mas quando abri o pacote, as instruções ali diziam pra deixar de molho em água por doze horas antes de preparar qualquer prato. Que fazer? Escaldei duas vezes, com medo de que no fim a carne ficasse salgada demais.

Descascar um quilo e meio de batata salsa teria sido um saco, se eu não tivesse comprado um prodígio do design moderno: o descascador! Uma peça de plástico com uma pequena lâmina que revolucionou a vida na cozinha. Pelo menos pra mim. Com esse fantástico trubisquinho, descasquei as batatas em dois palito.

O charque, depois de dessalgado, foi pra panela de pressão por uma hora, seguindo a receita. As batatas salsa ficaram cozinhando uns quarenta minutos. No meio tempo, preparei as cebolas, alho e tomate. Esse tipo de coisa devia se mais rápido, mas picar direitinho a cebola com a faca de chef, apesar de ser muito legal toma bem mais tempo do que se imagina.

Pronto o charque, espera a panela perder a pressão pra começar a desfiar a carne com as próprias mãos. Processo gostoso de fazer. Óleo numa panela, começamos a refogar o alho e a cebola (atenção, cuidado. Na bagunça da cozinha, procure deixar o frasco do óleo longe do frasco do detergente. No calor dos acontecimentos, trocas inesperadas e indesejáveis podem acontecer).

Então, óleo numa frigideira ou panela grande. Mais ou menos uma colher de óleo. Daí coloca o alho. Deixa refogar (fritar) um pouquinho. Não deixa o alho começar a torrar, tem que prestar atenção, porque isso acontece muito rápido. Antes do alho começar a torrar, joga a cebola picadinha. A umidade da cebola vai impedir que o alho torre. Refogue tudo isso uns minutinhos. Alho e cebola são a base da culinária brasileira. Alho, cebola, sal e cerveja, não deixe isso faltar em casa. Nunca.

Alho e cebola refogando, joga o charque, dá uma mexidinha e deixa refogar. Joga o tomate picadinho e sem a semente e casca ali no meio. Quando vc achar que já refogou o bastante (não precisa deixar a carne torrar, é só um tempinho), coloca ali um pouquinho de manteiga e deixa dissolver. Mais ou menos meia colher de manteiga ou uma colher inteira, você que sabe. A manteiga dá um gostinho a mais. Refogou o que chega, desliga a parada e reserva. Agora você já tem o que esconder no Escondidinho.

O purê de batata salsa se mostrou um pouco mais complicado do que eu esperava. Depois de cozinhar uma eternidade, cutuquei com um garfo e achei que já estava no ponto. Tipo, o garfo entrou com facilidade na batata, saca? Mas na hora de fazer o tal purê, foi que percebi um erro: tinha batatas de tamanhos diferentes. Logicamente, as batatas menores cozinharam mais rápido e as maiores ainda estavam meio duras na hora de começar a fazer o purê. Pessoas chiques tem um processador pra ajudar a esmagar as batatas e fazer o purê. Eu tenho um garfo.

Fui amassando tudo com meu garfo, vendo batatas mais duras que as outras e imaginando no que tudo isso ia dar. Pra fazer purê, à medida que você amassa, acrescente um pouco de leite e continue amassando. O ideal é atingir um tipo de pasta viscosa, coesa, que mantenha uma consistência mais espessa sem ser muito líquida.

Depois de tudo isso, você tem o purê e o charque. Agora vamos esconder o charque no purê.

A essa altura, eram mais ou menos 2 da tarde. Eu fiz uma lista de músicas no meu Windows Media Player (Bem, se eu não tenho processador de alimentos, era de se esperar que eu não tivesse um Mac não é?). As músicas tocavam e tocavam. Faziam parte da lista a trilha sonora de Cidade de Deus, um disco do Cartola, o álbum Raro do Cuarteto de Nos, a trilha sonora de Little Miss Sunshine e um punhado de músicas do Queen. Dia lindo de sol, a música tocava e eu camelava na cozinha pra fazer um único prato.

Você cansou de ler tudo isso aqui? Sentiu-se entediado? Então o texto passa mais ou menos o que foi essa experiência pra mim. O sol lá fora e a comida passando pelas minhas mãos, sendo cortada, temperada, cozida, trabalhada. Eu já estava de saco cheio, jurando pra mim mesmo que nunca mais ia fazer isso de novo. Mas era que nem subir montanha: uma vez que comecei, tinha que ir até o fim.

Pegue uma forma ou vasilha pra levar tudo por forno. Antes unte a vasilha com manteiga. Pra isso, derreta uma colher cheia de manteiga numa panelinha. Daí espalhe a manteiga por toda a forma. Coloque uma camada de purê de batatas (cerca de metade de todo purê que você fez) cobrindo todo o fundo da vasinha. Coloque o charque como camada intermediária, acrescente queijo parmesão. Cubra tudo com uma camada final de purê. No meu caso, sobrou purê. Sugiro que se for fazer, use um quilo e 250 gramas, ao invés de um quilo e meio de batata salsa.

Pois é, coloquei a camada final de purê e daí pulverizei um queijo por cima. Levei pro forno a 180 graus por meia hora, quarenta minutos ou até ficar douradinho ao gosto do freguês.

Enquanto a obra-prima estava no forno, comecei a limpar a praça de guerra dos restos do combate. Lava louça, cata sujeira do fogão. Cansado, cansado, mas ao mesmo tempo pensando em todos esses detalhes que falei aqui: o modo de empunhar a faca pra picar a cebola e o alho, a textura das sementes do tomate em minhas mãos, a sensação do charque em meus dedos enquanto desfiava a carne.

E ficou pronto. Depois de uma eternidade, ficou pronto. Morrendo de fome, coloquei num prato e provei. Definitivamente, aquela não era a última vez que fazia escondidinho. Podia levar uma eternidade, podia dar um trabalho do cão, mas valia a pena. Jesus, não pensei que eu pudesse fazer algo tão bom.

Bem verdade que a fome é um ótimo tempero, mas aquilo realmente ficou bom.

Desliguei a música e fiquei ali, comendo com calma, numa tarde ensolarada de sábado.

Esses dias, descobri o trabalho do Paulo de Oliveira e companhia na produção do programa Larica Total que passa no Canal Brasil. O camarada ensina "culinária de guerra", culinária para solteiros, solteiras, bêbados e vagabundos. Logo no primeiro episódio, ele leva quase um dia inteiro pra fazer o almoço. Quando termina, ele come tranquilo. Fica quieto, saboreia a comida. Quase um ritual. O sol se põe.

Cozinhar pra mim é isso. Ritual. É ser livre, é ter tempo. Transcender o tempo. Fazer alquimia. Viajar.

O máximo.





O Paulo é meu herói. Acho que todos os programas do Larica Total estão disponíveis no YouTube.

Divirta-se.

domingo, agosto 23, 2009

Oba! Fotos!


Não sou de publicar fotos de minha pessoa aqui... mas nesse caso vou abrir uma exceção. A seguir você vê fotos do evento e algumas do nosso churrasquinho no dia seguinte. Gente, foi muito bacana.

Um obrigado muito especial pro Luciano, Marli e todo o pessoal da Openthedoor que me receberam aí em Sampa. Esses caras são meus amigos!

Com o Baraldi. Yeah!

Um pouquinho antes do evento começar.

Seu Mauricio!

Gostaria de agradecer a todos os membros da academia...

Ei, isso aqui tá soltando tinta...

Tamos aí, bro!

Com o brother Zé Carlos. Gente finíssima!

Com a Mitie, da Itiban. Muito obrigado ao Xico e a Mitie.
Eles me deram o maior apoio pra fazer o trabalho...

Este é o Sidney Gusman, do Universo HQ.

Com o Luciano e o Jairo, velhos de guerra.

Com Sonia Bibe Luyten.

Com Paulo Ramos do Blog dos Quadrinhos e o rapaz (que eu não lembro o nome)
vencedor com a publicação Café Espacial.

Com Fabio Moon e Gabriel Bá.

ComRafael Grampá.

Fala garoto!

Galera da Openthedoor em peso. Rose, Sandro, Zé Carlos, Jairo.

O meu nome tá escrito aqui...

Esse é o Laerte, gente!

Esse é o Nino, mascote da Openthedoor.

No dia seguinte, churrasco e garoa. Ê, coisa boa!

Turma reunida. Barriguinha cheia, coração contente.

Com o Luciano, Marli e Jonathan na despedida na rodoviária.
Valeu, galera. Muito obrigado mesmo. Até a próxima!


Tá, esse foi um post superpessoal. Parando pra pensar bem, todos eles são, mas esse foi super pessoal mesmo.

Até a próxima.

Considerações

Gente, o HQ Mix foi muito alucinante.

O prêmio tem um significado muito especial pra mim, num nível pessoal e profissional. Foi muito surreal encontrar ao vivo as pessoas que a gente lê. Tipo o Mauricio de Sousa, que sentou na mesma fileira que eu. Ou o Laerte, que foi super-simpático na nossa rápida conversa no fim do evento. E Fabio Moon, Gabriel Bá, Rafael Grampá, Eduardo Nasi, Sidney Gusman, Cassius Medauar e...

Mas não foi só tietagem.

A cerimônia foi marcada por dois temas recorrentes em todos os discursos: a educação e a censura dos quadrinhos.

Tudo por causa daqueles episódios infelizes dos quadrinhos "impróprios" distribuídos para as escolas. O fato é que até o ministro da educação Fernando Haddad esteve presente na premiação.

É curioso notar como em muitos discursos se falou da importância dos quadrinhos na educação e formação das crianças e tal. Mas é como dizer que a única literatura possível é a literatura didática. Não rola. Quadrinhos são muito mais que isso, gente.

Um colega comentou comigo que quem faz quadrinhos jamais é bem pago. Ele já fez quadrinhos e trabalha com ilustração e comentou que fazer uma história em quadrinhos requer muito empenho. Não é só desenhar. Fazer quadrinhos também é escrever, é elaborar sequências, painéis, layouts. Segundo esse colega, elaborar uma página de quadrinhos requer muito mais empenho que fazer uma ilustração. E no fim, a página é menos valorizada comercialmente do que a ilustração. Claro que essa é uma afirmação discutível, mas concordo com ele.

Quem faz quadrinhos não o faz só por dinheiro. Quadrinistas são mais ou menos como o Coringa do Heath Ledger no filme Cavaleiro das Trevas. Não é pelo dinheiro. E se você precisa que te expliquem o porquê, então você não vai entender de qualquer forma.

Muitos dos grandes sites que comentam quadrinhos são movidos por profissionais motivados antes de tudo pela paixão que tem pelo tema. Paulo Ramos (responsável pelo Blog dos Quadrinhos, também vencedor do prêmio) fez uma senhora cobertura do caso do governador Serra e dos quadrinhos "impróprios". Tudo isso sem receber nenhum incentivo financeiro.

Lógico que a parte financeira é fundamental e seria bacana se os quadrinhos fossem mais valorizados. Os próprios envolvidos no HQ Mix não recebem grandes verbas. Eu banquei minha própria viagem e se não fosse pela galera da Openthedoor, eu não teria onde ficar em Sampa. Alguns premiados não compareceram por impossibilidade de viajar.

Não é reclamar por falta de grana, é só deixar claro que o que nos move é algo mais do que a recompensa financeira. E também é algo mais do que criar peças para serem usadas na educação das crianças.

É diversão, é obsessão, é satisfação pessoal. É algo mais.

Não sei bem pra onde os quadrinhos caminham, mas acho que as coisas vão mudando pra melhor, cada vez melhor.

Para outras considerações sobre o HQ Mix, visite o Blog dos Quadrinhos e leia a análise do Paulo.

E vamos nos falando.



Vampira


Eugenio Colonnese nasceu na Itália e foi desenhista. Desenhista dos bons, desenhista no sangue e no osso.

Deixou a Itália e foi para a Argentina nos anos 50. Em 1964, chegou ao Brasil pra ficar de vez e trabalhou com quase tudo que usasse desenho. Especialmente quadrinhos: ele fez histórias de guerra, histórias de romance, histórias de super-heróis. Antenado, ele criava de acordo com a demanda da época.

Nos anos 60, o terror era um tipo de história em quadrinhos perseguido porque se achava que ele fazia mal para a formação mental e moral das crianças. Mas era justamente o terror que fazia mais sucesso de público. As editoras Warren, EC Comics e outras apavoravam lá nos Estados Unidos com gibis como Creepy, Tales from the Crypt e outros.

Aqui no Brasil o Colonnese foi um dos grandes autores desse tipo de história. Em 1967 ele criou a personagem Mirza, a Mulher Vampiro. Assustadoramente gostosenta, Mirza protagonizava histórias de terror com fortíssimos toques se sensualidade (ou histórias sensuais com toques de terror?). A personagem antecedeu a famosa Vampirella, criada somente em 1969 pela editora norte-americana Warren.


O profissionalismo e desenho belíssimo destacavam o trabalho de Colonnese. Faleceu em agosto de 2008, poucos dias antes de completar 79 anos. O troféu do HQ MIX desse ano apresenta a vampira Mirza, em homenagem ao mestre.

Para saber mais sobre Colonnese, clique aqui, aqui e aqui.






Desculpem se parece um excesso de imagens do troféu, mas acho que é preciso valorizar o excelente trabalho do artista Olintho Tahara. Mandou bem.

sábado, agosto 22, 2009

Momento mágico do dia

Simone é uma loirinha gente fina de conexões neurais hiperativas e ótimo gosto pra música e poesia. Moramos na mesma cidade, essa tal de Curitiba, e durante mais de um ano não nos vimos.

O reencontro improvável aconteceu num vagão do metrô de São Paulo às seis e meia da manhã. Entrei no carro e quando olhei para trás ela simplesmente estava ali, a meio braço de distância.

Oi oi.

Era a Simone. Sem dúvida.

Ela estava ótima, me contou da vida, do namorado, da viagem para a Europa. Transbordava felicidade. Desceu na estação seguinte.

Qual a probabilidade de estarmos juntos no mesmo vagão de metrô em uma cidade do tamanho de São Paulo àquela hora? Um milagre termodinamico, doutor Manhattan. Sem dúvida.

O acaso do breve encontro me fascinou e encheu de expectativas. Simone definitivamente era um sinal de bons presságios.

As perspectivas para o dia eram as melhores possíveis.


segunda-feira, agosto 17, 2009

CARAAAAAAAIO, VÉIO! GANHEI UM HQ MIX!

Que tesão!

Caramba, estou me sentindo ótimo!

Tipo, eu sabia que tinha categoria pra trabalhos acadêmicos e enviei minha dissertação, mas sem prentensão nenhuma, sabe? Daí o José Aguiar me ligou agora há pouco pra dar a notícia.Uau...

Atualmente tem muita gente boa produzindo pesquisa sobre quadrinhos no Brasil e ganhar um prêmio como esse tem um gosto bem especial. Eu ganhei com minha dissertação sobre a obra do Lourenço Mutarelli. Sou fãzaço do trabalho do Lourenço e passei toda essa curtição pro trabalho.

Foram dois anos de mestrado e pra mim foram muito muito bem vividos. Tive contato com um ídolo, tive uma orientadora maravilhosa (valeu, Mary!) e pude estudar a fundo minha paixão favorita, as HQs.

Estou me sentindo ótimo mesmo. Agora vamos ver se conseguimos transformá-la em livro.

Muito, muito, muito obrigado a todos que participaram de tudo isso direta ou indiretamente.

Obrigado mesmo!

Veja a lista de ganhadores do HQ Mix no Universo HQ.
Eu to lá embaixo, no finzinho...

;-)

sábado, agosto 15, 2009

Mais arqueologia dos sonhos



Qual é a sua lembrança mais antiga?

A minha é de uma casa que foi demolida há quase trinta anos. Lembro de uma janela e de uma mesa e tudo parecia tão grande. A perspectiva que se tem ao enxergar o mundo a 50 centímetros do chão.

A casa não tinha um jardim ou quintal, mas uma área cimentada nos fundos. O único verde era do musgo e mato que cresciam pelas rachaduras do chão. Lembro disso e da tevê. A boa e velha amiga tevê.

Era tudo preto e branco. Ou melhor, tudo cinza. E tinha o Globinho.

O formato do programa era bem diferente do atual. A apresentação era da jornalista Paula Saldanha e o programa tinha uma pegada bem cultural, com matérias jornalísticas e comentários sobre literatura infantil, cinema e tals. Disso aí, eu não me lembro nada. Lembro da Paula Saldanha e dos desenhos animados.

E um dos desenhos era A Linha.

Criada pelo cartunista italiano Osvaldo Cavandoli, La Linea mostrava esse fantástico personagem unidimensional. Na época, pra mim, era tudo extraordinário. As formas eram definidas com o mínimo de traços. Num universo completamente plano, definido por uma longa e versátil linha, esse narigudo passava por inúmeras situações. Tudo girava em torno do que ele ia encontrando em seu caminho. Ou às vezes não encontrava. Porque o mundo desse personagem era todo definido por uma linha e às vezes ela simplesmente acabava e ele quase despencava no... no... no vazio? No esquecimento? Pra mim aquilo era mágico, misterioso, fabuloso.

Você sabe as suas lembranças mais antigas? Quando você ainda estava aprendendo como funcionava o mundo? O fascínio e o mistério? Eu via esses desenhos, essas brincadeiras e me assombrava. Uma linha que cria mil coisas, mil histórias, mil ideias. E quando ela acaba, o que sobra? Pra onde vão as coisas? De onde elas vinham?

Assim eu via a Linha quando tinha uns três, quatro anos. Daí aconteceu de, numa conversa de bar com o Alquimista Digital, a gente relembrar da Linha. E hoje, meus jovens, nós temos internet. O santo Google e o maravilhoso YouTube. Hoje é tudo fácil.

E revendo a tal Linha achei sensacional. Relembrei daquele fascínio todo infantil, mas não teve aquele desencanto que muitas vezes acompanha a revisita dos velhos programas. A Linha é bacana e diz muito sobre esse lance do desenho e da grande brincadeira que é imaginar. O que faz toda a mágica não é só o ato de desenhar, mas também enxergar em uma linha pessoas, escadas, animais ou qualquer coisa. É fascinante.




Ah, ainda tem o inintelígivel sotaque italiano da Linha e sua voz grasnada, que, curiosidade nerd, é a mesma voz do nosso amigo Pingu, feita pelo Carlo Bonomi.

Pra encerrar, Mio e Mao. Animação stopmotion bem bacaninha que também aparecia no Globinho. Infantil, bem infantil, mas muito singela. Coloco aqui porque, confesso, em mais de trinta anos a musiquinha de Mio e Mao nunca saiu da minha cabeça... Adoro esses gatos.


sexta-feira, agosto 07, 2009

Layouts

Tô com muita saudade.

Ontem de manhãzinha comecei a trabalhar naquele site. Chegou onze e meia e pensei em parar pra fazer o almoço, mas tava no embalo e segui em frente. Lá por uma da tarde a fome começou a incomodar, mas eu tava no embalo e segui em frente. Às duas parei e saí porque sabia que depois daquela hora eu não ia achar um lugar com almoço decente.

Almocei sozinho numa praça de alimentação. Na cabeça os detalhes do layout e a implementação do código. De repente, de canto de olho vi você. Por um segundo achei que você ia se sentar do meu lado, voltei a cabeça, mas não era você, era outra moça. E, de repente percebi que estava sozinho.

Um homem. Um site. Uma missão.

E veio você na minha cabeça imitando a voz dos trailers de filme. Sorri.

À noite, mais uma vez, só me dei conta do horário porque me lembrei de você e do doutor House. Me obriguei a fechar tudo e marchei pra cozinha. “SPARTAAAAANS! TONIGHT-WE-DINNE-IN-HEEEEEEELL!!!” Faltavam 15 minutos pro doutor começar e achei que dava tempo de preparar alguma coisa pra jantar. Como sempre, não dava. Fiquei escutando da cozinha o seriado rolar.

Enquanto picava a comida, imaginava se você estivesse aqui. A gente teria discutido pra ver quem fazia a janta e quem ficava no sofá. Eu perco sempre essa discussão, você diz. Mas esse é o meu segredo: detesto lavar a louça. Deixo isso sempre pra você. E adoro te espezinhar com perguntas: o que aconteceu? O que o menino tem? Quem tá enganando o House? E você me explica tudo sem desgrudar o olho da tela e fala com os personagens, diz “não!” quando algo ruim acontece e xinga. Assistir você assistindo o House é muito legal.

Mas você não estava aqui. Fiz um sopão megaboga, aquele que você gosta. Sentei no sofá e deduzi toda a história sozinho. Na verdade, não tem muito segredo, é só um pouquinho de lógica. Sem você o sofá fica muito maior. Pude me esticar à vontade. Coisa boa. ;-)

E depois de House e depois da janta desliguei a TV. Silêncio na casa. Olhei pro computador, pensei em voltar pro trampo... e daí pensei no design da minha vida. Com e sem você.

Sem você o layout é mais limpo, espartano, seco. Tudo cumpre a função e nada mais. É uma vida bauhausiana. Sem excessos. Objetiva, precisa, eficaz. Impessoal.

Com você é como se a gente jogasse um monte de tipos psicodélicos, gradientes, layout grunge e manchas de aquarela na página. As coisas ficam mais bagunçadas, difíceis de ler, ficam cheias de excessos, com “gosto duvidoso”, mas definitivamente indiscutivelmente infinitamente mais legais. Muito mais legais mesmo.

Tô com saudades mesmo. Volte logo.

(Você viu o Omelete TV sobre a ComiCon? Um dia eu vou lá... Você quer ir comigo?)

quarta-feira, agosto 05, 2009

Look at sky...


Uma vez, anos atrás, morei num apartamentozinho que tinha vista pro parque.

Morava sozinho, a casa era sempre silêncio. Numa manhã de domingo, acordei preguiço e levantei as persianas. Pela janela, vi os balões sobre o parque. Vários deles, coloridos contra o cinza do céu. Mais ou menos como a foto acima, que achei na web. Em questão de minutos, eles se dispersaram. Mas o momento valeu. Simples, inesperado e mágico.

Inesquecível.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Pequenos momentos mágicos


Em muitas das suas histórias, a Samanta Floor fala dos "pequenos momentos mágicos". Eu tive um sexta-feira passada, quando cheguei e o porteiro me entregou um envelope. Não estou acostumado a receber nada além de contas e propaganda e daí o tal envelope tinha meu nome e endereço escritos à mão. Provavelmente com uma bic.

Não lembro quando foi a última vez que algo assim aconteceu: um envelope chegou pra mim com meu nome escrito à mão. Era um envelope branco, dois selos. A letra da moça também estava atrás, no campo do destinatário. Dentro do envelope vinham dois fanzines: MiniToscomics e Adeus, tia Chica!

Eu realmente adoro o trabalho da Samanta. Ela é genial. E não se trata de algo sofisticado, prosa intrincada ou design de vanguarda. As histórinhas dela nem são exatamente histórias. Muitas vezes são mais como um comentário breve sobre qualquer coisa. Mas o bacana é que a Sam tem aquela capacidade de se encantar com as coisas mais simples e transmitir isso por seus desenhos e palavras. É simples, inocente e mágico. Tem sabor de infância, de casa da vó, de coisa boa. Não tem como não gostar.

É como receber um envelope com nosso nome escrito à mão. No mundo dos "impressos personalizados", mecânicos e completamente impessoais, é algo mágico ver o próprio nome escrito à mão em um envelope por alguém que não se conhece.


Mais quadrinhos da moça, clique aqui.

domingo, agosto 02, 2009

Voltage


O mais bacana dessa animação é a força que ela tem enquanto ilustração. Cada frame congelado dela já vale por uma ilustra muito legal. Além disso, a história, amparada no visual e em um episódio aparentemente sem sentido, faz lembrar muito as histórias em quadrinhos publicadas em revistas como a Heavy Metal, bem lá atrás, nas décadas 1970-80... material muito bom.

A animação é do Bam Estúdio. São os mesmos que produziram o Jumento Santo. Vale a pena conferir os outros trabalhos dos caras.