sábado, outubro 24, 2009

Um estado de espírito, uma ideologia, uma religião...

Ou simplesmente uma condição genética.

Haha!

Descobri o blog Classe Média Way of Life. Sempre me achei classe média, mas depois que conheci esse blog reparei que não preencho todos os quesitos. (Mas, infelizmente, preencho alguns.) Até me veio uma ideia de fazer um questionário-teste do tipo "descubra se você é gay" a partir dos posts do blog. Podia ser algo assim:
  1. Você mora ou sonha morar em apartamento?
  2. Você acha que o Lula é culpado da maioria (senão de todas) das situações, constatações e eventos negativos relacionados ao Brasil?
  3. Você admira os Estados Unidos e acredita que são o modelo de país que o Brasil deveria almejar de ser?
  4. Você se acha sempre com a razão no trânsito?
  5. Você acredita que não existe racismo no Brasil?
  6. Pela falta de tempo do dia a dia, você lê somente os livros "best-sellers"?
  7. Você se acha uma pessoa privelegiada ("graças a Deus, mesmo com todas as dificuldades")?
  8. Mesmo tendo tv a cabo, você assiste o domingão do Faustão?
  9. Você lê as colunas sociais?
  10. Você sonega impostos?
Se você respondeu sim a mais de duas perguntas, cuidado...

Mas, ei, leve na brincadeira. Eu estou levando, porque lendo os posts me identifiquei com alguns e não curti muito.

Eu gosto de morar em apartamento, corro e adoro amostra grátis... Ainda assim, os textos do blog, bem humorados e provocantes, apontam mais para os "sintomas" de casos "crônicos" de classe média.

O blog usa "classe média" não como um termo relacionado a uma classificação econômica da população mas sim como um rótulo que envolve ideias e comportamento egoísta, tacanho e limitado. Um sujeito "classe média" acha que todos os problemas do mundo estão ao redor e ele não tem culpa de nada, pelo contrário, é vítima. Antes de se sentir ofendido, vale a pena ler e pensar um pouco (mas pensar um pouco não é uma atitude "classe média"...)

O que acontece é que deveria existir uma palavra que represente certas pessoas que se acham melhores que as outras, donas da razão e prejudicadas ou ameaçadas pela incompetência ou inveja dos outros. Uma palavra que defina uma atitude de egoísmo, de unilateralidada nos diálogos, de truculência e animosidade contra opiniões contrárias.

Existe essa palavra?

quarta-feira, outubro 21, 2009

Låt den Rätte Komma

Pedi pro Papai do Céu uma vida perfeita e ele me atendeu. Passado os primeiros meses de euforia e gratidão, comecei a achar pequenas rachaduras na vida perfeita. Infiltrações, sinais de mofo, mal cheiro, moscas. Ainda é uma vida perfeita muito bonita e bacana e não penso em abrir mão dela, mas...

Mas às vezes você precisa escapar um pouco. Às vezes é preciso fugir do paraíso. E talvez o paraíso nem seja assim tão legal pra ser escrito com letra maiúscula. No fim você descobre que nada é perfeito.

Hoje eu fugi. Dei um tempo, sumi, desliguei celular, saí pra caminhar feito indigente.

Fui parar num cinema e lá estava passando "Deixe Ela Entrar".

Filme sueco sobre vampiros. Na verdade, uma mistura de "Meu Primeiro Amor" com... sei lá. Pelo trailer você acha que é mais um filme de terror, mas não é bem assim. Só o fato de assistir uma produção não americana já vale a pena.

Nada contra os gringos, mas eles tem quase sempre o mesmo jeito de contar uma história. Aliás, na maioria das vezes nem se preocupam em contar uma história. Se algo vende, vamos fazer mais. É o caso dos vampiros. "Crepúsculo" é uma história de vampiros super descerebrada. O tal livro "Noturno" de Guillermo Del Toro se mostrou uma grande decepção (livro de terror que descamba pra episódio piloto de série televisiva tipo "os caça-vampiros" ou alguma merda do gênero...) É a tal filosofia do "maaaaassa, véio".

Me escondi da vida perfeita naquele cinema e fui ver um filme sueco.

De vampiros.

Acho que foi a despretensão, o fato de serem autores desconhecidos, um lugar do mundo que parece ser outro planeta eternamente coberto de gelo... enfim, foi uma dessas coisas que me fez esquecer da vida e mergulhar em outra esfera. "Deixe Ela Entrar" não é genial. Mas, pensando bem, talvez seja. Uma história que retoma o mais que desgastado tema do vampiro e consegue ser interessante, envolvente e até mesmo assustadora talvez mereça ser chamada de genial.

Ou talvez eu esteja tão mergulhado na mediocridade da vida perfeita que estou me fascinando com qualquer coisa.

Mas vou te dizer que esse filme me fez voltar à luz do dia mais animado, mais satisfeito. Pronto pra outra.

Confira.

Antes que saia de cartaz.

terça-feira, outubro 06, 2009

Esta é uma história verdadeira


Aconteceu lá pelos idos de oitenta, comecinho de noventa.

Adriane Lebowski era uma garota como qualquer outra: única, apaixonante e inexplicável. Ela buscava aproveitar ao máximo cada pequeno prazer da vida. No seu caso específico isso significava bebida, sexo, artes e música.

Especialmente música.

Já tinha ouvido de tudo, mas tinha predileção acentuada pelo rock progressivo. Naqueles dias, Yes, Gênesis, Pink Floyd e congêneres representavam para ela o supra-sumo musical do século 20.

Então, numa madrugada dessas, Adriane estava em um fim de festa. Muita fumaça, garrafas, álcool e suor. Boa parte do pessoal já tinha ido embora, e os que ficaram estavam desmaiados pelo apartamento. Ela ronronava quentinha sobre um rapaz qualquer, quando ouviu a música.

Algo estranho e indefinível, totalmente inédito. Meio progressivo. Melódico, porém simples. Aparentemente muito antigo e, paradoxalmente, contemporâneo. E, de certo modo, familiar. O vocal era etéreo e profundo, o instrumental era característico dos anos 70, mas com algo diferente.

Curiosa, ela perguntou ao amigo dono da fita qual era a banda. Ele não soube responder. A banda não tinha nome e não tinha origem. A fita, sem identificação alguma, tinha sido encontrada no bagageiro de um trem, na Patagônia, um ano atrás.

Adriane emprestou a fita de seu amigo e esqueceu de devolver. Ela ouviu a gravação durante dias, inúmeras vezes, cada vez mais fascinada. Mostrou a amigos que eram verdadeiros experts em músicas alternativas e obscuras (o tipo de gente estranha que você não acreditaria que existe). Nenhum deles jamais ouvira algo parecido e não faziam a menor idéia de quem poderia ter gravado as nove canções. Alguns afirmaram que o idioma cantado era familiar, mas não era inglês ou alemão ou qualquer outra língua que conhecessem.

Ela se tornou obcecada. Nomes, produtores, datas. Adriane precisava dessas informações e a única coisa que tinha era a fita. Foi até uma rádio especializada em rock e mostrou a gravação. Ninguém soube identificar, mas convidaram a moça para participar de um programa muito popular. Ela foi ao ar naquela noite e tocou algumas faixas da fita ao vivo. Depois perguntou se algum dos ouvintes saberia identificar a banda. Os poucos telefonemas deram respostas erradas e diversas. Tudo totalmente inútil.

Dias depois, após as aulas, ela esperava o ônibus de sempre no ponto de sempre. Em frente ao ponto, um sobrado de paredes cinzentas encobertas por hera. Vinda de uma janela, a música a surpreendeu e a fez estremecer. Uma das músicas da fita. Ela tocou a campainha uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Então ela arrombou e entrou.

Ignorou a mobília, os livros, a desordem, enquanto subia os degraus ruidosos de madeira. Uma atmosfera antiga, de sonho. Logo encontrou o quarto. Posters, livros, revistas e um cadáver ainda quente sobre a cama. O corpo quase tirou a atenção de Adriane do toca-discos e a capa de papelão ao seu lado. Uma capa sem nenhuma impressão sequer, além dos desgastes de anos de manuseio.

Mas ali, girando e girando, estava o disco com as músicas da fita. No centro do disco havia um rótulo amarelado e muito puído. E no rótulo, algo escrito. Nervosa, ela ergueu a agulha e a música silenciou de repente. Um silêncio sólido que pulsava em suas têmporas. Tomou o disco, trêmula, e leu:

“Não nos procure. Quando estiver pronta, nós encontraremos você.”


(Para minha querida e inesquecível amiga Adriane. Aos bons tempos de faculdade).

domingo, outubro 04, 2009

Espaços não preenchidos

Me ligaram dizendo que o Capitão tinha morrido.

Capitão era mestre. Meu mestre e de qualquer um ou uma que tivesse tido aula com ele.

O Capitão.

Eu estava a trabalho, lá no norte, fazendo foto e montando o livro. Naqueles dias chovia, eu não estava saindo pra fotografar. Ao invés ficava no quarto do hotel, brincando com notebook novo e tentando organizar o layout das páginas e fazer o livro funcionar. E aconteceu que Capitão ia ser enterrado em sua cidade natal, ali pertinho, cem quilometros de estrada da onde eu estava.

Arrumei uma moto e fui.

Dá-lhe chuva, águas de março e melancolia.

Junto com o asfalto e a chuva rolava lembrança de época de universidade, amigos que nunca mais vi, namoradinhas e, é lógico, a Dona Moça. Aquela malvada. De repente fiquei com medo de encontrá-la lá no funeral. Pior ainda. De repente eu tive certeza que, de todas as pessoas, se alguém poderia estar naquela cidadezinha do cu do mundo pra se despedir do homem, essa pessoa era a Dona Moça.

Verdade era que Capitão tinha viajado muito, muito mesmo, e amigo ele tinha em tudo que era lugar, mas minha terra é lá no sul e foi lá que o Capitão virou professor. Das gentes que tiveram aula com ele, das gentes que eu conhecia, eu achava difícil que alguém viesse. Porque entre o sul e o norte tem estrada demais nesse país.

Mas a Dona Moça... essa era capaz de vir. Ou nem vir. Simplesmente estar ali. A Dona Moça era assim.

Uma estrada interminável, chuva e frio.

A cidadezinha do Capitão era dessas com cadeia, igreja, puteiro, vendinha, punhado de casas e acabou. Montaram do lado da igrejinha uma tenda e o lugar estava cheio de gente. Muito mais gente do que poderia caber nas casas em torno. Parecia festa de Santo, o pessoal se empurrava pra caber na tenda, chegar perto do defunto, fugir da chuva. Pessoal velho, de marcas no rosto, calos nas mãos. Tudo de preto, chorando, rezando, cantando, rindo dos causos, lembrando das histórias do finado. Cheiro de vela.

Muita gente, muita gente e fui abrindo caminho até chegar no caixão. O filho da puta parecia estar sorrindo. Vai com Deus, Capitão e obrigado por tudo. Viro e vou me espremendo entre as gentes, tentando sair, olhando em volta, olhando em volta, procurando por ela.

Procurando por ela.

Eu imaginava.

Eu imaginava que a encontraria, que ela estaria lá com o namorado/noivo/amante da vez. Ela fica feliz, como sempre e puxa conversa. Como se nada tivesse acontecido. Como ela sempre faz. E ela pergunta da minha vida, das coisas que importam pra mim. E me ouve. E pergunto o que ela faz ali, como tem passado. E daí acaba a conversa, terminam os assuntos, ficamos eu e ela, espremidos entre homens e mulheres de preto, tão próximos, tão próximos e eu a beijo. Um selinho, uma bitoca, um beijinho de despedida. No tempo do estalo que durou o beijo, pensei isso é cagada, todo esse tempo e eu faço uma coisa dessas , todos esses anos e ela ainda me provoca me agita me move me consome. É loucura, ela vai ficar furiosa, constrangida, vai fugir, vai me bater. Mas ela não recua, toca minha mão, abre aquele sorriso lindo, aquele sorriso que só ela tem e

Eu imaginava.

Mas não a encontrei.

Sai da aglomeração e esperei, vaguei ao redor. A tarde foi se acabando, a chuva parou aos pouquinhos, a gentes foram caminhando para o cemitério. Ficou só o lugar, o grande pedaço de terra encharcada, nuvens se abrindo pra um por-do-sol. Um mundo de cores intensas, lama e poças d'água.

A tarde acabou, as pessoas se foram. O Capitão se foi.

E ela não estava lá. Nunca esteve, acho.

Vontade de pegar a estrada.

Dirigir de noite.