sábado, janeiro 30, 2010

Minhas férias no Fim do Mundo


Fui pra Patagônia.

Que sol, praia, o cacete. Gosto de frio. Fui pra Patagônia. Terra desolada, um monte de nada no meio de nada. E cheia de surpresas.

Fiquei pela cidade de Ushuaia, Terra do Fogo, lá no finzinho da América do Sul, onde termina a rodovia panamericana e o vento faz a curva. Depois dei um pulinho em Calafate. Abaixo, algumas impressões e fotografias.

Mas se um dia você for pra lá também, deixa eu te dar umas dicas:

  1. Escolha sua trilha sonora. Música combina com tudo. Caminhar pelos bosques da Terra do Fogo ouvindo Mad World do filme Donnie Darko é uma experiência sensacional.
  2. Livros também são bons companheiros. Nessa viagem, curti O Teatro do Bem e do Mal de Eduardo Galeano. Bem apropriado...
  3. Durma no camping. Leve uma barraca e durma no chão. Passe frio. Caminhe bastante. Dane-se um bocado. No Parque Nacional Terra do Fogo é permitido o camping gratuito. Fique lá uns seis dias, faça trilhas, se canse bastante.
  4. Alugue o quarto em um hotel tipo o Altos de Ushuaia. Depois de uma semana se fodendo no camping, o hotel vai parecer o paraíso. Cama gigante e limpinha, quarto aquecido e banho de banheira. Se acrescentar sexo, você corre o risco de ter uma das noites mais sensacionais da sua vida.
  5. Conheça e fale com as pessoas. Sempre. Você vai encontrar gente chata e gente maravilhosa. Sempre.
  6. Não se preocupe com o clima. É inútil. Ele muda a cada cinco minutos.
  7. Fotografe e filme, mas não deixe isso virar um trabalho e atrapalhar a curtição do momento. Lembre-se de Oogway: yesterday is history, tomorrow is mistery, but today is a gift. That is why it is called the "present". O momento é tudo. Viva-o.
  8. E, mais importante que tudo, DEIXE OS MALDITOS PINGUINS EM PAZ!

A Última Cidade


Mais ao sul de Ushuaia, só existe algumas ilhas e o continente antártico. Ela é a cidade mais meridional do mundo e por isso chamada Cidade do Fim do Mundo e coisas assim.

Lá, no verão, o sol nasce às 4 da manhã pra se por às 10 e meia da noite. No inverno, o dia dura das 9 da manhã às 3 da tarde. Localizada em uma ilha onde a única coisa comestível que floresce da terra é um cogumelo insosso, Ushuaia não tinha muitos atrativos para convencer as pessoas a ficarem por lá.

Por isso a primeira tentativa de povoação no século XIX se deu pela implementação do presídio de segurança máxima de Ushuaia. Montanhas, oceano e frio severo tornavam as fugas impossíveis. Em 1947 o presídio fechou. Mais tarde, o governo transformou a cidade em uma zona franca, livre de impostos e muito atraente para se estabelecer indústrias. Hoje o forte do lugar mesmo é o turismo. O presídio ainda está lá, transformado em museu. Mal-assombrado, é lógico.

A maioria das casas tem cercas baixinhas ou cerca nenhuma e são pouquíssimas as casas com grades na janela. Furtos são raros e nunca se viu latrocínio na cidade. Há bares para se curtir a noite, uma universidade (foco em turismo) e passeando pelas ruas a gente pode encontrar umas pinturas bacanas pelas paredes. E talvez ouvir músicas bem peculiares, como uma versão argentina de O Tempo não Para do Cazuza...




Casas Rolantes

Ao redor da cidade encontramos algumas casas construídas em cima de troncos. Como essa aí embaixo. Então, tinha dias que o cara acordava e decidia se "mudar". E lá ia ele guinchando sua casa pelas ruas da cidade, procurando um lugar mais bacana pra morar.

Nos fins de semana, era comum ver várias pessoas fazendo isso. Mas isso já faz uns bons anos. A prefeitura baixou uma lei e proibiu as "rolantes". Devia ser bem engraçado ver as pessoas arrastando suas casas pra lá e pra cá...

O Farol do Fim do Mundo

Não é o mesmo do livro do Júlio Verne, mas também mexe com a imaginação... Pense nas histórias de farol do Ray Bradbury...

Dirigindo


Se for pra Ushuaia, tem um daqueles pacotes pra turista que é simplesmente obrigatório: o passeio de 4x4 à beira do lago.

video

Viu? É à beira do lago mesmo. E ainda tem churrasco no bosque, a legítima parrilla argentina.


Simplesmente imperdível.

Navegando

Às vezes, sozinho, com a trilha sonora adequada, a dose certa de álcool e um dos lugares desolados mais bacanas do mundo, você pode ser acometido por uma crise de bom-senso crônica e enxergar claramente a solução para todos os problemas de sua vida. Tem-se até a coragem de fazer o que é preciso. Mas daí o momento passa, a coragem some e aquela ideia que parecia tão boa... bem melhor deixar pra lá. Daí ela acaba virando uma lembrança de sonho, um desejo secreto, uma prece silenciosa... ou algo assim.

E no fim, você percebe que todos os problemas da vida simplesmente não existem.

Loucura.






Não parece um terrier de gelo?





Perito Moreno

A gente bate foto das coisas, das pessoas, de tudo, pra poder contar a história, pra segurar o momento, mas não consegue, o momento já foi, é só lembrança.

As imagens não são justas com o que aconteceu lá. Não consigo olhar pra elas sem me frustrar. A geleira de Perito Moreno extende-se por mais de 270 quilometros e só estando lá e olhando pra ela, diretamente pra ela, é que você vai entender o que isso significa.

Extraordinário.





Mapa


Tirado de um livro que estava na recepção de uma hospedaria...

As árvores

Não é fácil a vida das árvores na Terra do Fogo.

Em 1947, um experimento mal sucedido introduziu 25 casais de castores na ilha. Sem nenhum inimigo natural, o castor proliferou e virou praga. 60 anos depois, o castor fueguino desenvolveu-se muito bem. Enquanto um castor canadense pesa em média 15 quilos, o castor fueguino pesa 30 e já foi capturado um exemplar de 60 quilos. Um castor de 60 quilos! Meu, eu teria medo de um castor de 60 quilos! Você faz ideia do que é isso?

Os castores derrubam as árvores e fazem diques. A água represada acaba matando por apodrecimento as outras árvores e passeando pelos bosques você encontra frequentemente os "cemitérios".

Além dos castores, há fungos e parasitas que também matam as árvores. Lá no Fim do Mundo, as árvores tem tumores. Grandes e redondos tumores de madeira. Coisa estranha de ver.

E por fim há o vento, violento. Todo dia alguma árvore é derrubada por ele. Com tudo isso, admira que ainda existam árvores por lá.

Os bosques da Terra do Fogo são bem diferentes dos daqui. O frio faz toda a diferença, mas não é só pela sensação térmica.

Graças ao frio, as coisas mortas na Terra do Fogo apodrecem muito lentamente, quando apodrecem. No silêncio dos bosques, os verdes vivos são entremeados pelos cinzas das árvores mortas que permanecem em pé, ou as que caem e não se decompõem. A impressão da morte e da vida está em tudo ao redor.

Parado no meio de uma floresta na Terra do Fogo, ao som do vento e nada mais, olhando as raízes, as árvores mortas e retorcidas, o verde, o cinza do céu... eu lembrei do filme Anticristo, de Lars von Trier.

Belíssima e assustadora natureza.







Bandurria


Sinceramente, os pinguins foram uma decepção. Um passeio de barco longo e olhamos pros bichinhos na praia e nem pudemos desembarcar. Então, minha vontade de fazer um pinguin voar à base da bicuda foi frustrada... shit.

Em compensação, conheci a Bandurria.

Eu estava sentado num parque, curtindo o jardim bem cuidado, quando três dessas coisas apareceram ciscando. Pássaro comum na região de Calafate, tem de duas a três vezes o tamanho de uma galinha. Não é elegante como o pinguim, mas é bem mais gonzo.

E voa. Também não deu pra dar bicuda. Ah, bem, you can't always get what you want...


Cena de Aeroporto

O Aeroporto de Ushuaia é pequeno, mas muito bacaninha. Se você olhar com cuidado e calma, você sempre acaba achando algo curioso nos lugares por onde passar. Como o microfone esquecido no teto do aeroporto...




Bandeira




Exposta sob uma escada em um aeroporto em Ushuaia. Discreta. Despercebida pelas pessoas que passam.

domingo, janeiro 17, 2010

A SEGUIR...

O Bem vence o Mal...

Espanta o temporal
Azul, Amarelo
Tudo é muito belo

He-Man e She-ra são uma ode à psicodelia. Óbvio. E se por acaso você estiver passando por Los Angeles, pode conferir a insanidade (uma exposição com releituras bem divertidas da galerinha de Etérnia) na Gallery 1988. Ou, como eu, pode ter uma amostra do que está rolando clicando aqui. Um brinde à web. Hurray!

As minhas favoritas:










Ah, saudades da Feiticeira...

sábado, janeiro 16, 2010

Oh, Zoey...

Basicamente, a moça ficou com inveja que o rapaz tinha seu número de dança no filme e ela não. Daí, o senhor Webb gentilmente topou dirigir essa seqüência...



Adorável, não?

Ha. Ha. Ha.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

You can't always get what you want...

(Para Simone, Tex e Piuí. Para nós. Cheers!)

...

Eduardo Saldanha era o Eduardão Montanha.

Gigante, o cara enchia todo o palco e todo aquele tamanho era como se fosse uma enorme caixa de ressonância e sua voz era a voz do trovão, do próprio Metatron. E ainda tinha carisma, presença, espírito. Claro que tinha o Márcio Japonês na batera e o Cláudio no baixo, mas, em essência, o Eduardão Montanha era a razão das pessoas se acotovelarem no Empório pra ouvir os Teóricos.

Os três tinham se conhecido no segundo grau técnico de eletrônica, daquela prestigiada instituição de ensino federal a quem os alunos mais íntimos chamavam de "Masmorra". Das aulas incompreensíveis e angustiantes de cálculo e circuitos foi que o nome da banda surgiu. Nenhum dos três conseguiu o diploma de técnico mas permaneceram juntos como os Teóricos por anos e anos.

As apresentações eram simplesmente espetaculares, o público era fiel. Os Teóricos tinham seu próprio repertório de música mas flertavam muito bem com os covers, especialmente com Mutantes e Rolling Stones. Você tinha que estar lá pra ver, pra ouvir! Naquelas noites o Eduardão roubava as músicas dos Stones com uma maestria tão arrebatadora que se consagrava como o crime perfeito, a heresia perfeita: muita gente achava que o Montanha era melhor que o próprio Jagger. Sério. Juro por Deus.

Um dia deu de fazerem um contato com a MTV e fizeram um clipe e fizeram um DVD e tal. Era chance de ganhar o Brasil. Mas não rolou. Não dá pra explicar por quê. Os Teóricos simplesmente não funcionavam na tv. Montanha parecia todo contido, amarrado. Era triste de ver. Constrangedor. No entanto, talvez o grande problema tenha sido a platéia. Como as músicas foram gravadas em um estúdio em São Paulo, não tinha a galerinha pra fazer coro, embalo, gritar. Talvez a platéia fosse o quarto membro da banda. Ou talvez tenham coisas que simplesmente não possam ser registradas em vídeo.

De qualquer forma, o Eduardão ficou boladão. De repente ele já tinha 30 anos e esse negócio de tocar em bar podia não ser um bom plano de carreira. Mais ou menos nessa época o Eduardão conheceu a Mônica. Foi assim de repente. A moça era jornalista fazendo uma matéria sobre bandas fora do circuito Rio-São Paulo. Numa entrevista pintou o clima e depois pintou aquela tal certeza que os dois nunca tinham tido com mais ninguém antes.

Quando leu "Eduardo & Mônica" no convite de casamento, Cláudio riu. Não dava pra deixar de rir. O melhor amigo ia se casar e tal. "Ela é minha menina..." Felicidade, felicidade, felicidade.

Felicidade o caralho.

Eduardão estava saindo da banda. Não dá mais, cara! Tocar pra receber 200 reais por noite? Carinha ganha 3 mil pra tocar uma noite em bar country lá no Rio! Eduardão tinha feito novos contatos e se mudava pro Rio de Janeiro pra morar com a Mônica. A menina tinha feito um bem danado pro Montanha. Ele tinha se livrado de velhos preconceitos e tinha descoberto novos talentos. Pra sempre ia curtir o rock'n'roll, mas Mônica tinha lhe mostrado que pagode também era legal. Eduardão, agora Grande Dudu, já tinha composto até umas musiquinhas e tocado nas rodas de fim de semana e o pessoal do Rio tinha gostado. Hora de Eduardão virar uma página.

O último show dos Teóricos não foi diferente de qualquer outro. Casa um pouco mais cheia talvez. No meio dos gritos do público, deu pra ouvir umas duas vezes cagada, Eduardo! Os camaradas chegavam junto falando que pena, não vai não, Eduardo, e agora, o que vai ser?

E agora o que vai ser?

Cláudio tocou You can't always get what you want com Eduardo pela última vez pensando nisso. O que vai ser? O Márcio Japonês ainda trabalhava com o pai na oficina. Não era muito, mas era alguma coisa. Cláudio tinha a música. E só.

Ah, Cláudio também tinha a Lúcia.

Cláudio e Lúcia moravam juntos já tinha uns natais. Ela era quem tinha o emprego "sério". Trabalhava na ótica, era gerente. Lúcia era fã número um dos Teóricos, de tiete da banda passou pra namorada do Cláudio. Cláudio e Lúcia se curtiam muito, mas naqueles dias, quando lá foi o Eduardão pro Rio, Cláudio passou por aquele período de Inverno na Alma. Lúcia viu seu homem perder o brio, a luz. Cláudio ficou cinzento. O mundo não tinha mais cor.

Eduardão começava vida nova no Rio ao lado da Mulher, deixava Curitiba pra trás, uma lembrança menor, engraçadinha e feiosa. Eduardão foi um dos maiores amigos que Cláudio já teve. E foi embora.

Inverno na alma.

Os Teóricos acabaram e Cláudio se apresentava com outras bandas. Não era a mesma coisa. A grana era minguada. Mas ele nunca tinha estado nessa por causa da grana. Nunca foi pelo dinheiro.

Um dia, sentado no meio fio, tomando uma cerva na frente do Torto, Cláudio ficou sabendo da Psychodália. Coisa insana. Um bando de gente que vinha de todos os lugares pra ouvir bandas de música, mas não era um festival ou coisa assim. Era uma nação. Uma nação imaginária construída ao redor da música, com governo, sistema de saúde, educação e moeda própria. Uma nação não registrada na internet, que existia apenas 7 dias por ano, nunca no mesmo lugar. Ainda assim, corriam histórias de gente que tinham se mudado pra lá, conseguido cidadania e nunca mais voltado. Nunca mais voltado.

A Psychodália daquele ano ia ser no interior de Santa Catarina.

Vamos Lúcia?

E ela disse sim.

...

Sinto saudades dos shows dos Teóricos.

video

And you can't always get what you want, honey,
You can't always get what you want,
You cant always get what you want,
But if you try sometimes, yeah,
You just might find you get what you need

terça-feira, janeiro 05, 2010

STRIGOI!

Um homem ama uma única mulher em toda sua vida. Só que ela tem muitas encarnações.

Em 1990 Francis Ford Coppola estava passando por uma crise financeira foda. Pra sair dela, ele fez dois filmes. Um foi o Poderoso Chefão − parte 3. O outro foi uma nova versão de Drácula. Bram Stoker’s Dracula.


Com um visual impressionante, o filme foi produzido utilizando técnicas de ilusão e efeitos especiais dos primórdios do cinema. Isto quer dizer que tudo que você vê na tela foi filmado realmente, foi criado “ao vivo”. Como a cena do diário e do trenzinho. Os efeitos eram de responsabilidade do filho, Roman Coppola. O figurino, da designer japonesa Eiko Ishioka. A ideia era homenagear toda a cinematografia de Drácula, mas ao mesmo tempo criar algo novo e único.

De todos os filmes produzidos, o roteiro dirigido por Coppola era o mais fiel à obra de Stoker. Daí o título Bram Stoker’s Dracula. É o único filme que apresenta todos os personagens do livro, como o vaqueiro Quincey, um dos três pretendentes de Lucy. Mas o roteiro acrescentava algo mais à trama. A motivação de Vlad Tepes, a razão que o fez renegar a seu Deus: a perda de sua amada Elisabeta. Hohoho. Sim, o suicídio de sua amada. Oh, a traição, a perfídia... Hohoho.

Era 1992 e vi o filme três vezes no antigo cinema Plaza, que hoje é Igreja Universal. Coisa de adolescente, coisa de moleque acreditar nessa paixão, nessa loucura que deforma, corrompe, corrói a alma. Coisa de moleque.

Um homem ama uma única mulher em toda sua vida. Só que ela tem muitas encarnações.

E a vida de Vlad foi longa. Longa a espera, de 1492 até 1889, quando seu caminho cruzou o de Mina Harker. É então que o conde abandona seu castelo e parte para Londres, em busca da possível reencarnação de sua adorada.

Esse fio de paixão e exagero permeia toda o filme de Coppola e acaba dando à história de Stoker uma nova dimensão. Some a isso o talento do diretor, suas influências teatrais, a direção de arte, a trilha sonora nada convencional do polonês Wojciech Kilar.

Drácula é uma maravilha desgraçada, um milagre negro que atravessa eras e alimenta-se de sangue. Corruptor, herege, miserável e patético. Magnífico. Imagine acreditar que se pode amar alguém desse jeito. Imagine...

Um eterno delírio rubro. Bestial.

Quero acordar de meu sono e dizer que está tudo bem. Quero dizer a ela que está tudo bem, que acabou. Mas ela nem se lembra mais de mim. Nem se lembra...

Bram Stoker’s Dracula foi um filme dirigido por Francis Ford Coppola e lançado aqui no Brasil em 1992. Junto com ele, foi lançada uma magistral adaptação em quadrinhos desenhada por Michael Mignola, que muita gente acha ainda melhor que o filme. Você pode conferir os quatro capítulos dessa adaptação aqui. Ao assistir o filme, experimente a versão com comentários do diretor. É extremamente enriquecedora.

Na época adorei o filme. Curti ao lado de garotos que hoje são pais de família. Alguns anos parecem séculos, mas quando nos reencontramos é como se tivéssemos nos visto ontem.

E eu?

Ainda estou esperando.

Várias encarnações e ainda estou à espera.