sábado, abril 24, 2010

Ah, só mais uma coisinha...



White Rabbit
Jefferson Airplane
Composição: Grace Slick

One pill makes you larger
And one pill makes you small,
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all.
Go ask Alice
When she's ten feet tall.
And if you go chasing rabbits,
And you know you're going to fall,
Tell 'em a hookah-smoking caterpillar
Has given you the call.
Call Alice
When she was just small.
When the men on the chessboard
Get up and tell you where to go,
And you've just had some kind of mushroom
And your mind is moving low,
Go ask Alice;
I think she'll know.
When logic and proportion
Have fallen sloppy dead,
And the White Knight is talking backwards
And the Red Queen's "off with her head!"
Remember what the dormouse said:
"Feed your head. Feed your head. Feed your head"

Agora sim, chega de Alice.

Até a próxima, garotinha.

Alice, o Filme


Óbvio!

Foi o que pensei quando falaram que Tim Burton ia dirigir um filme da Alice. Poxa, óbvio! Que ideia sensacional! Como isso não foi feito antes? Tim Burton e Alice. Óbvio!

Daí foram aparecendo imagens e notícias. Eu fiquei sabendo que não ia ser bem a história do livro, mas sim uma espécie de continuação. A Rainha Vermelha (ou de Copas) ia ser a vilã e Alice era a salvadora do País das Maravilhas.

Porra, Tim.

O País das Maravilhas não é Nárnia, cacete.

Fui ver o filme ontem, na estreia. Escolhi uma salinha mocada lá no Novo Batel. Era eu e mais três pessoas na sala. Vi o filme. E vi o óbvio. Os únicos que acho que vão gostar do filme são os fãs de Tim Burton. Porque está tudo lá: a musiquinha do Danny Elfmann, as árvores retorcidas, os cenários sombrios, os personagens caricatos, etc, etc. Tudo muito bonito. Exatamente do jeito que a gente espera. Exatamente do jeito que ele sempre faz.

E só.




Tem um monte de críticas malhando o filme. Vi uma falando bem. O cara dizia que o problema eram os executivos da Disney, que impuseram algo bem quadradinho. Algo bem óbvio. Ah, tá. O pobre Tim não tem culpa. Ele foi obrigado a fazer isso pelo executivos malvados. Desgraçados.

O fato é que a Alice do Tim Burton é filminho comercial do tipo mais ralo que existe. Cheio de milhões de dólares em visuais e nenhuma coragem de arriscar no roteiro nada mais complexo do que "o bem vence o mal, espanta o temporal, azul, amarelo, tudo é muito belo".

Pra não dizer que não gostei nada do filme, curti bastante o gato e o Jaguadarte (Jabberwocky). Acho que o Johnny Depp já encheu o saco (desculpem-me as putinhas do Johnny Depp). Acho que o Hugh Laurie ia fazer um Chapeleiro muito mais bacana e não ia precisar se vestir como uma dragqueen de periferia pra isso.

Agora vamos especular.

Que tal se Terry Gilliam tivesse dirigido Alice? Obcecado, insano e totalmente sem limites, Gilliam era parte do Monthy Python e fazia as animações dos filmes do grupo. Tomou gosto pela coisa e foi fazer cinema. Fez O Barão de Munchausen, Os 12 Macacos, O Pescador de Ilusões. Três filmes completamente diferentes, todos bons. Pesados. Recentemente fez Os Irmãos Grimm , Contraponto e O Mundo Imaginario do Doutor Parnassus. Se eu acho que esse cara ia fazer um filme melhor que o do Burton? Lógico que sim.



Mas melhor que Terry Gilliam seria Spike Jonze, não acha? O homem já flertou com ideias loucas em Quero Ser John Malkovich e Adaptação, dois filmes fora do comum. E em Onde Vivem os Monstros, provou que sabe levar uma história além de seus extremos. Imagine esse cara fazendo Alice. Imagine ele inserir elementos da história real de Lewis Carroll e Alice Liddell no filme. Imagine.



Agora pare de imaginar.

Se você quer saber, o filme definitivo de Alice foi feito em 1988, na República Tcheca. Alice (Neco z Alenky) é um filme onde uma atriz mirim (Kristýna Kohoutová) contracena com animações stopmotion. O responsável pelo filme é o animador Jan Svankmajer e, assim como Burton, ele toma uma série de liberdades quanto à obra original. No entanto, é totalmente fiel à sensação de sonho e nonsense do livro. Um pouco do resultado você pode ver no clipe abaixo.







Se você quiser, dá pra assistir o filme todo no youtube com legendas em português.

E é isso.

Chega de Alice.

sexta-feira, abril 23, 2010

Livro de cabeceira


As Aventuras de Alice no País das Maravilhas foi publicada pela primeira vez em 1865 e tinha ilustrações de John Tenniel. Quando os direitos da obra se tornaram públicos, em 1901, surgiram diversas novas versões com ilustradores como Arthur Rackham (1907), Mabel Lucie Atwell (1910) e Gwynedd M. Hudson (1922).





Ao longo do século XX, muita gente passeou pelo País das Maravilhas. Salvador Dalí produziu uma série de imagens sobre Alice. No cinema, além da famosa adaptação da Disney, vários filmes homenageiam ou se referenciam à obra de Lewis Carroll: Matrix e Quero Ser John Malcovich só pra citar dois filmes.



Lá pelo começo da década de 90 eu fazia o curso técnico de eletrônica. Uma das coisas que me fez pular pro mundo do desenho foi o trabalho do fodástico Dave McKean e na época, ao lado do Grant Morrison, ele fez a graphic novel Asilo Arkham, uma história do Batman claramente calcada no livro da Alice.




Alice virou filme, jogo de computador, desenho animado, música, gibi. Tem até uma estátua de Alice no meio do Central Park, em Nova York.

E por que tudo isso?

Bem, Alice, antes de mais nada, é literatura. Ainda por cima é literatura revolucionária. Até o lançamento do livro, todo livro infantil tinha que trazer uma moral. Eram histórias educativas. E só. Alice instituiu o nonsense na literatura infantil, a despretensão, a liberdade de obrigações para com moral ou sentido.

Alice era loucura pura. Não tinha uma história, não tinha um roteiro. Era uma menina passeando sem rumo, encontrando-se com toda a sorte de criaturas.

As histórias e situações vinham de piadas e joguinhos que faziam sentido entre o pessoal de Christ Church. Um exemplo é o Gato de Cheshire, aquele gato que some no ar. Ele começava a desaparecer pela cauda até que só sobrava o sorriso. Acontece que na época, tinha um biscoito feito em Cheshire que era em formato de gato risonho. As crianças começavam comendo pela cauda e faziam o gato "desaparecer". Sacou? Se quiser saber mais dessas, leia o livro Alice: Edição Comentada, que traz uma análise bem bacana feita por Martin Gardener.

Lewis Carroll, ou melhor, Charles Dodgson, era matemático e escritor. Gostava de jogos de linguagem, paradoxos, quebra-cabeças. Satirizava poemas moralizantes e os costumes da época. Tudo isso espalhado e distorcido pelo sonho de uma menininha. Por causa dos jogos de linguagem e trocadilhos, traduzir Alice é uma tarefa muito complicada. Na minha opinião, a melhor tradução é a de Sebastião Uchoa Leite. Se você achar por aí, compre.



Alice era literatura porque não tinha intenção de passar nenhuma moral. Alice era literatura porque tinha um sentido que era construído por cada leitor a cada leitura. Alice era literatura porque não era óbvia e não tratava as crianças, seus leitores, como se fossem idiotas.

Eram dois livros. Um falava sobre um sonho numa tarde de verão, campos abertos, sol radiante, jogos de cartas. O outro era um sonho de inverno, numa sala fechada diante de um espelho, um tabuleiro de xadrez, vida e morte. Principalmente morte.

Os livros sonho.

E pense nisso: quando você sonha e alguém fala com você, se você está sonhando, quem está falando com você no sonho? É você mesmo?

Tem certeza?


Lewis & Alice


A vida de Charles Lutwidge Dodgson não foi lá muito emocionante. Aliás, segundo Virginia Woolf, "Dodgson não teve vida".

Ele era gago, tímido, surdo de um ouvido, tinha dificuldade com as mulheres. Filho de pastor protestante, adorava as artes e o teatro. Mas ser filho de pastor protestante e adorar artes e teatro não era uma combinação saudável na Inglaterra do século XIX. Repressão de todos os lados e rígidos códigos de comportamento, morais e religiosos. Pessoas como Dodgson, e não eram poucas, foram prato cheio para Freud.

Mas Dodgson não se tratou com Freud.

Dodgson sobreviveu a uma juventude complicada e tornou-se professor de lógica e matemática na Universidade de Christ Church, em Oxford. E a semente daquela coisinha chamada arte e criação não morria. Continuava martelando dentro da cabeça do homem.

Dodgson era um cara complicado, mas tinha seus talentos. Um deles era a fotografia. O outro, o trato com as crianças. "Adoro crianças, exceto meninos" ele dizia. De fato, dava-se tão bem com as pequenas que tornou-se um dos maiores fotógrafos infantis da Inglaterra no século XIX. Entenda que bater fotografias naquela época era algo bem complicado. Era preciso ficar imóvel longos minutos na frente da câmera para sensibilizar uma emulsão sobre uma placa de vidro. Para as crianças era uma grande tortura. Mas Dodgson transformava todo o processo em diversão. As crianças adoravam ser fotografadas por ele. Quando estava com elas ele não gaguejava.






A maior parte das fotografias de nu infantil que Dodgson fez foram destruídas pelo próprio. Oficialmente, ele jamais foi acusado de pedofilia.

Alice Liddell tinha cerca de quatro anos quando o pai assumiu a reitoria de Christ Church e se mudou para lá com toda a família. Ela era a filha do reitor. Era filha do chefe.



Foi a fotografia que acabou aproximando Dodgson dos Liddell. Logo, conseguiu permissão para fotografar as filhas do reitor e inevitavelmente acabou conquistando a amizade delas. Com o passar dos meses, essa amizade foi se estreitando, especialmente com Alice. De fato, a partir do diário pessoal de Dodgson, podemos ver que meninas enchiam sua vida de alegria. Ele adorava estar com elas.

Foi num passeio de barco que o livro nasceu. Dodgson sempre fazia brincadeiras e contava histórias para entreter as meninas. Eram histórias inventadas na hora, um monte de improvisos na maioria sem sentido, uma sequencia de piadas que fazia sentido só dentro da rodinha de amigos. Mas, nesse dia, ele contou a história da menina que seguia o coelho branco para os mundo subterrâneos. Alice tinha dez anos e fez Dodgson (que tinha trinta) prometer que ia escrever um livro com essa história para ela.

Dodgson era apaixonado por Alice. Coisa bizarra, você vai dizer, mas a Inglaterra do século XIX era um amontoado de bizarrices. A idade de casar das moças era em torno de 12 anos. Pense nisso.

Dodgson era apaixonado por Alice e deduzimos isso pelas passagens de seu diário. Ele nunca fez nenhuma anotação comprometedora, mas podemos perceber que os trechos narrados na companhia das meninas tinham uma animação sem par. Ele realmente estava feliz. Acontece que, de repente, no diário, topamos com três folhas que foram cuidadosamente removidas. E depois disso, Alice nunca mais é mencionada. Os dias tornam-se um relato insípido de rotinas.

Mistério.

Não se sabe o que aconteceu. Mas Dodgson cumpriu sua palavra e transformou a história em um livro. Um livrinho que ele escreveu e ilustrou de próprio punho e deu de presente à menina Alice. (Não diretamente, mas o mordomo veio receber na porta). Esse livro original está disponível online e você pode conferir em Alice's Adventures Under Ground.



E o livro fez sucesso. A menina Alice adorou e emprestou pras amiguinhas e todo mundo adorou e falavam "por que você não publica? por que você não publica?" e no fim Dodgson decidiu publicar.

Ele mesmo queria fazer os desenhos mas o editor o convenceu a contratar um profissional, o ilustrador John Tenniel, famoso na época. O livro foi feito e o próprio Dodgson custeou tudo, mas aconteceu que John Tenniel não ficou satisfeito com a impressão e mandou recolher e destruir toda a tiragem. Daí Dodgson teve que bancar outra impressão. Entenda, o cara era professor. Professores sempre ganharam mal e imprimir livros sempre foi caro. No diário, Dodgson escreveu:

"Reimprimir o livro custou-me 6 xelins para cada exemplar dos dois mil. Se eu arrecadar 500 libras com as vendas, terei um prejuízo de 100 libras; contando com o prejuízo dos primeiros dois mil, que provavelmente será de 100 libras, terei perdido no total 200 libras. Se conseguíssemos vender uma segunda tiragem de dois mil, ela me custaria 300 libras e renderia 500, saldando assim minhas contas: qualquer venda posterior representaria lucro. Mas isso seria querer demais".

E, SURPRESA!

O livro foi um sucesso. Com a história original expandida e agora chamada As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, publicado e distribuído em novembro de 1865, o livro vendeu que nem água. Virou mania. Dodgson ficou rico! Com o dinheiro, Dodgson comprou uma casa para suas irmãs. Foi o máximo de extravagância que se permitiu. Continuou como professor em Christ Church até o fim da vida.

Alice não voltou a falar com ele. Casou-se com outro homem, filho de um rico magnata.

Em 1871, Dodgson publicou uma continuação: Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá. Também foi um sucesso de vendas e não fica nada a dever para o primeiro livro. Na verdade, há muita gente que considera esse segundo volume mais sombrio e melancólico.

Na capa dos dois livros, o pseudônimo com o qual ficaria conhecido pelo mundo: Lewis Carroll.

Charles Lutwidge Dodgson faleceu aos 65 anos, no dia 14 de janeiro de 1898. Jamais se casou. Até o ano de sua morte, o livro Alice no País das Maravilhas já tinha vendido mais de 180.000 exemplares só na Inglaterra.




Alice Liddel, agora Alice Heargreaves, teve três filhos ao lado de seu marido. Sua vida foi confortável e estável, até que perdeu dois filhos na Primeira Guerra Mundial. Seu marido faleceu em 1926. A herança deixada não durou muito tempo. Alice se viu obrigada a vender as relíquias que Charles havia lhe dado de presente, entre elas o famoso manuscrito de Alice no Subterrâneo. Em 1932 houve a comemoração do centenário de Charles Dodgson, celebrada no mundo todo e Alice, sendo a musa inspiradora do livro-sonho, foi convidada para uma série de eventos. Participou de todos a princípio e talvez tenha até se divertido, mas depois...

Certa vez, confessou a seu filho: “Estou cansada de ser Alice no País das Maravilhas. Isso soa ingrato? Que seja – pois o fato é que estou cansada!”

Morreu em 16 de novembro de 1934, aos 84 anos.

quinta-feira, abril 22, 2010

Minha Alice


Bem.

Há muitas e muitas luas atrás, eu fiz ilustrações para o livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Foi parte de um ritual de passagem, o tal trabalho de conclusão de curso da universidade. Deixei um emprego, briguei com um melhor amigo, li tudo que pude encontrar sobre Alice e Lewis Carroll, esfreguei minha cara em todas as minhas limitações até começar a sangrar. Pirei.

O título de minha monografia foi Apocalice Now!

Um dia conto essa história melhor. A ideia é fazer um site especial pra isso, tipo um portfólio apresentando a pesquisa e todo o projeto gráfico da coisa. Até contratei um profissional pra me ajudar. Mas enquanto navegamos pelas intermitências do imprevisto que nos atrasam a cumprir nossas metas...

...apresento aqui, para vossa apreciação, as ilustrações que fiz.





























Não foi uma estrada muito fácil, mas valeu a pena.

Mesmo.