segunda-feira, maio 31, 2010

E a felicidade?

uma criança um abraço uma tarde uma conversa um amigo um livro um beijo um poema uma música um triunfo um cochilo uma viagem um lanchinho

um momento

ao longo de um dia

ao longo de uma vida

incontáveis

doces

breves

inevitáveis

mesmo para o mais empedernido infeliz

por isso

fique atenta

e aproveite

;-)

sábado, maio 29, 2010

O blues de Valéria

Eu sou um trouxa sentimental.

Sempre fui assim.

Às vezes, caminhando pela cidade, vejo um anúncio de “VENDE-SE” na porta fechada de uma loja em que entrei uma única vez e fico triste, como se tivesse falecido um conhecido. É como se uma parte do mundo que eu conheço deixasse de existir. E, pensando bem, é exatamente isso que acontece.

Eu me apego às pessoas, aos lugares, aos momentos. Fiquei deprimido quando terminei o segundo grau. Fiquei mais deprimido ainda quando terminei a faculdade. Olha, eu fiquei deprimido até quando terminei o cursinho de inglês.

E esse lance todo de apego transforma o fim de namoro em pesadelo. Só tive duas namoradas de verdade na vida. Uma delas ainda me faz acordar chorando. Mas o tempo cura tudo. A fila anda, como se diz.

E o tempo não só cura, como transforma. As minhas calças parecem mais apertadas , o cabelo parece mais ralo. Sei lá, me olho no espelho e parece que a vida passou e eu perdi alguma coisa e não sei o que é.

Enfim, sempre me disseram que solidão não é um problema e não é nada difícil achar alguém pra partilhar as cobertas. Na verdade, meu colega tanto insistiu nesse tópico que afinal entrei lá no tal GP: um fórum de debate sobre Garotas de Programa. Com classificação do desempenho das moças, comentários dos clientes, fotos e tudo. Parece o Guia Pokémon das Putas.

Fiquei meio noiado de chamar uma puta. Tipo, uma estranha na minha casa. Coisa mais esquisita. Sei lá. E tinha o medo de que acontecesse uma coisa tipo você telefona pra moça e quando ela te visita tu descobre que ela não tinha nascido com boceta. Crendiospadre.

Mas acontece que solidão é coisa braba. E um dia, meio que de saco cheio de mim e dessa merda de auto-comiseração, entrei no GP. Valéria era o nome da moça. Rabão e peitão. Gostosa do caralho. E uma ótima classificação por parte do pessoal.

Liguei pra moça. Era minha primeira vez com uma profissional e eu tava nervoso, abobado, como um guri que compra a primeira revista pornô. Mas no fim é tudo muito simples. Muito comercial. Sabe quando você telefona pela primeira vez pra uma garota que você tá a fim? O nervosismo, a ansiedade? Pois é, com puta é completamente diferente.

Fiquei desconcertado com a moça, com a maneira como ela falava, sensual, oferecida, objetiva. Ela guiou toda a negociação, marcou o horário, definiu as regras. Terminou a conversa, desliguei o telefone, nervoso, trêmulo, boca seca. Me olhei no espelho do banheiro. Tu é um idiota, um idiota. Uma vergonha de mim mesmo por um monte de coisas, mas ao mesmo tempo uma expectativa, uma euforia. Aquela noite seria A Noite. Alguém para partilhar as cobertas. Alguém profissional.

Era sábado.

Ela chegou e era linda linda linda demais. Como eu disse, era minha primeira vez com uma puta e eu não sabia direito o que fazer. Por isso fiz um jantar. E conversamos e tomamos vinho e fomos assistir TV. E acabamos trepando no sofá e ela foi maravilhosa e fomos pra cama e ela foi sensacional.

Foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Ou melhor, TERIA sido o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Na manhã seguinte acordei e ela ainda estava ali, deitada do meu lado, dormindo. Tinha o quê? Uns 20, 22 anos? Fiquei ali olhando pro rosto da moça. Ela tinha transado comigo por dinheiro. O nome dela era falso e provavelmente tudo que ela tinha me contado sobre si era uma mentira. Tudo era falso, menos aquele momento. Ela dormindo ali. Sei lá porque senti um carinho enorme por ela.

E ela acordou.

Falou em ir embora, mas era domingo de manhã e, profissional ou não, eu não ia deixar ela sair da minha casa assim. Fiz um café da manhã caprichado e rolou um papo bacana, contei sobre mim e os desenhos.

Ganho a vida desenhando histórias em quadrinhos. Pra editoras dos EUA. Já fiz o Hulk, o Capitão América e um punhado de heróis. E tomamos o café e comecei a falar, falar, mostrei pra ela o quartinho que servia de estúdio, a coleção de gibis, os cartazes, as fotos da primeira viagem pra Nova York, ano passado. E ela me ouviu, fez perguntas, falou que gostava do Homem-Aranha e que achava uma palhaçada o lance do Mefisto e o fim do casamento com a Mary Jane.

E, quando vi, bateu a fome e era duas da tarde. Ela quis ir, convidei ela pro almoço. Insisti e como ela não tinha mais nada pra fazer aquele dia, ficou. Eu fiz um almoço caprichado. Ela adorou. Depois do almoço fomos pro sofá, assistimos mais uns filmes. Rolou uns beijinhos e mais uma transa.

Às oito da noite ela foi embora. Fui pegar o dinheiro, mas ela não aceitou. “Não. Eu gostei de você. Você não precisa pagar. E quando quiser, me liga”. Bejinho e tchau.

Uau. Fiquei me sentindo dopado uma semana. Ainda assim, eu sabia que romance com puta não era coisa de dar certo. Roxanne é uma das canções que eu sei a letra de cor. Ainda assim...

Chamei ela no outro fim de semana e ela veio. E a coisa foi andando. Tinha vez que ela não podia e não rolava nada, tinha vez que ela me chamava. Fui com ela em restaurante bacana, cinema, passeio no parque de mãozinha dada.

Ela me contou seu nome de verdade.

Minha namoradinha puta.

Durou mais ou menos uns dois meses. Foi num domingo de tarde, sentado com ela no sofá, dando um beijo, que veio o estalo. No meio do beijo, num segundo, de repente me perguntei quantos paus ela tinha chupado aquela semana e vi uma imagem de filme pornô, a moça e um monte de caralhos porrando na cara dela.

Náusea total.

“Que foi?”. Nada não. Acho que o almoço não me caiu bem.

Não conseguia tirar a imagem da cabeça. Não conseguia. Ela saiu lá de casa e toda vez que eu pensava nela pensava em porra branca transbordando pela boca escancarada, escorrendo pelo rosto, cabelo e pescoço. Crendiospadre.

Parei de ligar. Ela telefonou umas três vezes. Eu sempre estava ocupado.

Daí, ela também parou.

E a vida continuou.

sexta-feira, maio 21, 2010

O Bem e o Mal


Eu assisti um desenho animado chamado Liga da Justiça: Crise em Duas Terras.

Você conhece a Liga da Justiça? Bom, tinha os Superamigos na tv. É praticamente a mesma coisa. Você lembra dos super-amigos? Eram o Aquaman (um bucha, só funcionava se tivesse água por perto), o Super-Homem, a Mulher-Maravilha, o Lanterna Verde, Batman, Robin, etc. Então, nessa seleção não entram o Homem-Aranha, nem o Hulk ou o Capitão América porque eles pertencem à outra editora, a Marvel. A galerinha citada dos Superamigos era da editora DC. Porque antes de ir pro desenho animado, essas figuras eram personagens de gibi, entende?

A primeira vez que uma super-equipe apareceu nos quadrinhos foi lá pelos anos 40. A ideia era enlouquecer a molecada colocando os personagens favoritos contracenando na mesma história. Algo como colocar o House, a Amélie Poulin, o Dexter e o Monk juntos no mesmo episódio. Mas nós estamos falando de histórias em quadrinhos e eu estou divagando demais.

O que interessa saber: grupos de super-herois coloridos existem desde os anos 40 e o público-alvo é a molecada (pelo menos de acordo com o senso comum). E daí a Liga da Justiça passou por uma série de modificações ao longo desses 70 anos. Modificações que iam dos temas (comédia, ficção científica, mistério) até os integrantes (nem sempre o Super-Homem, a Mulher-Maravilha e o Batman fizeram parte da equipe).

Lá pelo final da década de 1990, o maluco do Grant Morrison começou a escrever uma série de histórias com o grupo. Numa dessas histórias, chamada Justice League Earth 2, nossos herois descobriam que existia um mundo paralelo, um universo similar ao nosso, porém invertido. Lá existiam contra-partes dos nossos herois. Só que do mal. O desenho animado de que falei no começo do post é uma adaptação livre dessa história.



A ideia do universo paralelo e invertido não é original. Com a própria Liga da Justiça houve variações dessa história lá pelos anos 1960. Na série clássica de Star Trek, em De Volta para o futuro e em diversos outros filmes e seriados também encontramos essa coisa do tal universo paralelo.

E essa ideia do universo paralelo me fascina. Pense comigo. Se a vida é feita de escolhas, cada vez que dizemos um sim, num universo paralelo dissemos um não. Cada vez que ouvimos um não, num universo paralelo nos disseram um sim. Existe portanto, não só um lugar, mas infinitos lugares originados das escolhas não feitas. A terra do "mas e se...". Ou melhor, as infinitas terras.

(Adoro pirar em cima dessa ideia. Aliás, todo mundo adora. Quem nunca se pegou pensando no que aconteceria se... ?)

Enfim, nesse gibi, descobrimos que existe um mundo paralelo, invertido, onde o que é bom é mal e vice-versa. Dessa terra, o Lex Luthor, um heroi, cara do bem, foge pro nosso mundo e pede ajuda pros nossos herois. E lá vai a galerinha do bem combater seus reflexos do mal.

A grande sacada de Grant Morrison é brincar com o estereótipo do conflito do bem e do mal. No nosso mundo, a ficção dos herois, o "bem sempre vence no final". Mas no universo paralelo, não. Então, a galerinha do bem descobre atônita que não tem como vencer. Eles tentam e tentam mas não conseguem. Porque no mundo invertido, "o mal sempre vence no final". De uma forma ou outra, as coisas revertiam e o status quo permanecia o mesmo. A terra paralela não pode ser "salva".

Um gibi. Coisa de criança. Agora, pare pra pensar. Não é questão se existe um "bem" ou um "mal" ou se existem universos paralelos, mas, afinal, temos tantas escolhas quanto achamos que temos? E por escolha, entenda a possibilidade de realizar grandes e reais mudanças e não só "qual profissão devo seguir".

Já o tal desenho animado não segue bem essa linha. No fim, o pessoal do bem vence e a terra paralela segue pelo "caminho da justiça". Mas o que eu fiquei de cara mesmo são as ideias dessa animação. Tipo, os herois bonzinhos decidem invadir um universo paralelo para consertá-lo, deixá-lo do "jeito certo". E "o jeito certo" é o "jeito deles".

Mais coisas interessantes: na terra paralela, os super-herois do mal só não dominam o governo legítimo porque este tem a posse de "armas nucleares". Sim, isso é citado no desenho animado como a única coisa que impede os malvados de dominarem o mundo. Armas. Aliás, o que move toda a trama é a disputa pelo "gatilho detonador", necessário para os vilões montarem sua própria bomba nuclear. Isso está claro e evidenciado em um desenho cujo público-alvo primário (segundo o bom senso) são as crianças. Armas nos protegem dos caras maus.

Daí...

Daí que não é sobre o que as crianças vão aprender desses desenhos, mas sobre o que os caras que produzem essas coisas realmente tem na cabeça. No que esses caras acreditam?

Não pude deixar de pensar naquela história com o Irã. O Irã não pode ter armas nucleares. Por isso, os protetores do mundo vão mover sanções contra o país. Mas Israel pode ter armas nucleares. Porque Israel é do bem e o Irã é do mal. E as tentativas do Brasil e da Turquia de negociarem uma alternativa ficaram nisso: tentativas. É isso. Deu na Globo.

Nosso mundo não é um gibi. Supostamente não existem soluções simples para nossos problemas. Não há "bem" ou "mal", mas uma vasta gama de opiniões, posicionamentos políticos, ideológicos e culturais. Em nossa democracia, muitos alguéns terão de engolir uma Dilma ou um Serra depois das eleições (alguém conhece bem os outros candidatos? Vai votar neles?). Mais de um terço da população vai ficar insatisfeita, qualquer que seja o resultado.

O que me fascina nessa bobagenzinha toda da Liga da Justiça e suas terras paralelas não é a questão do "bem" e do "mal" ou as elocubrações sobre "o que aconteceria se..."

O que realmente me fascina é aquela sutil ideia lançada pelo Grant Morrison. Sobre se nossas escolhas realmente fazem diferença. Além da nossa satisfação pessoal, além do nosso conforto, além do nosso umbigo, nossas escolhas realmente fazem alguma diferença? Uma coisa que você poderia me responder é: "Além da nossa satisfação pessoal, além do nosso conforto, além do nosso umbigo, o que mais importa?" Um ponto de vista válido. Você vai dormir tranquila à noite. Mas não deveria.

E o mundo? Estamos satisfeitos com ele? Mesmo?

E se não estivéssemos, poderíamos mudá-lo?

Será?




domingo, maio 16, 2010

Sarjeta.



Olhe pra essa página.

Pra ela funcionar, você tem que participar. Tome o tempo que quiser. É você quem dará vida aos desenhos, é você que fará a água correr pela sarjeta. É você que pode viajar pelos escritos de todo o lixo que é tragado pelo bueiro. É você a única testemunha da pequena história que só se revela no último quadrinho. Mas pra tudo isso funcionar, depende de você.

Agora imagine esse mesmo episódio em um filme. Funcionaria? Talvez uma câmera lenta que nos desse tempo de ler a carta no final. Mas ainda assim, teríamos tempo pra ler a mensagem? E a câmera lenta não quebraria o ritmo?

E se fossemos narrar esse episódio na forma do conto escrito? Funcionaria? Poderíamos descrever como bem entendêssemos a água deslizando pela sarjeta, o lixo sendo arrastado por ela. Usar um texto mais objetivo ou perfumar a descrição com alguma poética. Ainda assim, os desenhos, a imagem, deixam muito mais espaço para o leitor aplicar toda sua própria poética.

Cada linguagem tem sua própria engrenagem, suas regras e limites. Às vezes, esses limites podem ser uma vantagem. Pra mim, a ideia acima funciona bem porque é uma história em quadrinhos. Estou certo de que ela não poderia ser melhor representada se fosse um filme ou um conto. Talvez uma música...

Fragmentos são arrastados pela sarjeta. A grande maioria é puro lixo, besteira, garatujas incompreensíveis. Mas, se nos déssemos ao trabalho de olhar com cuidado, com sorte, perceberíamos uma pequena tragédia, ou comédia, escorrendo por ali. Pedacinhos de vida legítima. Um fragmento na sarjeta e a partir dele você pode preencher o resto do quadro como quiser.

Nas histórias em quadrinhos, o espaço entre um quadrinho e outro é chamado de sarjeta.
É na sarjeta que o leitor constrói a história, amarrando o significado de um painel a outro. E aqui, o que se desenha e escreve é menos importante do que aquilo que não se desenha, nem escreve.

Matar um homem entre os quadros significa condená-lo a milhares de mortes (Scott McCloud, Desvendando os Quadrinhos)

Na vida real, a sarjeta extrapola os limites da rua para os papéis nos cestos de lixo, as pixações na porta dos banheiros, os quartos vazios e desarrumados, as janelas dos prédios que se parecem tanto com quadrinhos em uma página. Os gestos e olhares de uma pessoa.

A página que abre o post é do livro Nova York: a vida na grande cidade, de Will Eisner, lançado por aqui pela Companhia das Letras.

A vida é rica, a cidade é pulsante, as pessoas são apaixonantes e Eisner mostra isso tão bem que estou sorrindo até agora. Velhinho observador, ele coleta histórias de mendigos, velhos solitários, vizinhos dos bairros pobres, amigos de rua, perdidos da cidade. Aquela gente feia pra quem você não dá a mínima.

As Pessoas Invisíveis e suas pequenas tragédias.

O que a obra de Eisner escancara é a solidão. E é estranho notar como, mesmo no meio de tanta gente, tanta gente esteja sozinha.

Engraçado, não acha?

domingo, maio 02, 2010

Discurso

Ah, aniversários.

A vida deveria ser uma comemoração constante, deveria ser uma sucessão de abraços, risos, festa. Deveria ter música o tempo todo. A gente deveria conhecer alguém e se apaixonar o tempo todo.

Deveria...

Mas... mas mas mas.

Mas o Mal prevalece. Ter tudo aquilo que você sonhou pra sua vidinha, todo o conforto, estabilidade e todo o colinho do mundo não vão te salvar de eventuais dias de chuva na alma. Ou tormentas. E os eventuais dias podem se estender para meses.

Alma.

Lama.

Lama alma alma lama.

É uma longa, longa jornada e até aqui eu poderia arriscar uns palpites para evitar ou atravessar os dias de lama:
  • Não se culpar tanto
  • Não pedir tantas desculpas
  • Não achar que as coisas são tão importantes assim
  • Não achar que as pessoas são tão importantes assim
  • Não achar que as coisas ou as pessoas são para sempre, porque elas realmente não são.
A vida deveria ser uma comemoração constante, mas tem gente que realmente não sabe brincar.

Às vezes, a gente mesmo não sabe.

Cheers.



Mas, se tudo mais falhar, tenha sempre uma piada guardada.

Uma das minhas favoritas.