terça-feira, junho 29, 2010

Olha o que eu ganhei!

Eu tinha falado que queria esse livro. Daí a Sil comentou que era pra eu guardar espaço na estante. Não botei fé, mas hoje de manhã, no meio da aula, a menina apareceu com um pacote e dentro dele...


Você não consegue fazer idéia do show visual que é esse livro. Os pop-ups são de uma tridimensionalidade espetacular! O bosque realmente se ergue das páginas e nas folhagens estão escondidos os personagens clássicos, o Chapeleiro, o Gato, a Rainha de Copas.



Você pode abrir as janelas da casinha e olhar a Alice lá dentro. O Coelho Branco e todos os animaizinhos que aparecem são cobertos com uma penugem. Nas laterais, há pequenos livrinhos cheios de surpresas.



A mesa pode ser vista por qualquer ângulo, as xícaras realmente parecem cheias de chá.


O mais bacana é o sorriso na cara das pessoas. Você mostra o livro e todo mundo sorri ao abri-lo. Quer coisa mais mágica que isso? É por isso que a gente projeta, desenha, escreve, inventa. Você pode imaginar uma recompensa maior que ver um sorriso e um brilho nos olhos da pessoa que curte seu trabalho?

Daí eu ia mostrando o livro pra todo mundo, alunos, professores. Todo mundo ficando com aquele sorriso.

A Sil foi uma aluna minha. Ela desenha pra caralho e você poderia conferir os trabalhos da moça, se ela não tivesse acabado de esvaziar o Deviantart (poxa, Sil!). Mas ainda dá pra visitar o blog dela. Corre lá, antes que ela feche...


Quero dizer muito obrigado pra você, Sil. Você não faz ideia do quanto estou agradecido.

Valeu mesmo.

"Se você construir, eles virão".

;-)

quinta-feira, junho 24, 2010

Até o dia em que o cão morreu


É tudo a mesma coisa. Isolado ou mergulhado numa multidão, no trânsito, no trabalho, a solidão é sempre a mesma, com exceção daquelas poucas, raras pessoas em cuja a presença a solidão some, mesmo que não seja o tempo todo.

Essas raras pessoas.

Falta alguma coisa, sabe? Está tudo no lugar, está tudo certo, mas às vezes me bate uma impressão de que algo não saiu do jeito que deveria. Alguma coisa deixou de acontecer. Ou talvez seja só um desejo de plenitude, talvez de coerência, que me assalta nessa jornada plena de incoerências, incertezas e coincidências assombrosas.

E daí me cai esse livro na mão. Feito luva.

Em uma cidade, um homem está imerso em apatia. Apatia total. Esperando um dia passar após o outro. Por essas coisas de roteiro e da vida, surgem um cão e uma mulher. Parece sinopse de filme romanticuzinho, mas não se engane.

Até o dia em que o cão morreu é seco, árido.

Crianças fitando bem nos olhos de ovelhas de garganta cortada e sangue escorrendo, observando atentamente para perceber o momento exato em que a vida deixa de existir. É disso que estou falando. De cidade, prédios cinzentos, sexo e desencontro. Um cão dando voltas diante do prédio do rapaz, olhar perdido, sem saber se pode se aproximar, sem saber se vai ser bem recebido, sem entender, sem coragem, sem escolha. E a mulher, repetindo, consciente ou não, exatamente as mesmas voltas do cão.

Demora muitos anos pra gente descobrir o que é estar sozinho de verdade.

O livro de Daniel Galera é extraordinariamente bem escrito. Na minha opinião, uma pequena obra-prima. Daqueles raros livros que a gente encontra no momento certo e saboreia cada palavra e consegue chegar ao final um pouco melhor do que quando começou.

Um pouco mais confiante de que talvez a tal plenitude seja alcançável.

Ou não.

sábado, junho 19, 2010

Sábado

Hoje eu desenhei.

Geralmente eu escrevo, mas ando tão negligente com o desenho... daí resolvi desenhar.

Um desenho cheio de problemas. Por exemplo, o contorno não tem muita definição, é instável, inseguro. Tem que melhorar muito esse acabamento com nanquim.

Eu trabalho o desenho à mão e depois ponho no computador pra colorir.

A cor me parece boa, mas só vou saber quando ver em um monitor decente. A tela do notebook é uma droga.

Alguns pequenos detalhes não foram tratados com o devido cuidado. Culpa da preguiça. A mesma preguiça que tive pra colorizar e finalizar os contornos.

A preguiça.

Sabe, existem dois problemas pra quem desenha. Um é a preguiça. De desenhar, de pensar, de fazer escolhas, pesquisar e tomar uma atitude.

O outro é o medo. Medo de que o trabalho fique uma droga, falta de fé em si mesmo, insegurança. Expectativa que mata o trabalho antes mesmo dele tomar forma.

Ah, claro. Preguiça e medo são problemas de desenhistas de fim de semana. Os profissionais tem outros tipos de problema. Como prazos e clientes. (Mas eles não usam isso pra se desculpar).

Voltando pro desenho, há pontos positivos. Pra começar, é um trabalho finalizado. Isso já é motivo pra comemorar. Hurray! A mão esquerda até que ficou bacaninha, mas acho que a melhor parte é a história.

Geralmente eu escrevo, mas hoje desenhei. Bem ou mal, aí está minha histórinha.



Ah, não se preocupe, senhor Bourdenoski. Estou trabalhando na sua encomenda. Esse foi o esquenta.

;-)

terça-feira, junho 15, 2010

Coisas que já fiz

1) Me vi projetado numa tela de cinema. Falando. Gesticulando.
(As pessoas disseram que eu estava bem espontâneo. Disseram que eu era na tela exatamente como sou ao vivo. Algo bem estranho isso. Se ver na tela é se ver pelos olhos dos outros? É assim mesmo que sou? Essa é minha voz? É assim que vocês me veem? Eu?)

2) Tuitei: "Acho que o Twitter acaba sendo meio que a bola Wilson de muitos náufragos por aí".
(E é óbvio, não? Essa internet substitui a tv ligada sozinha na sala pra encher de barulho a solidão do apartamento. Igualzinho Tom e Wilson, sujeito fala qualquer coisa pro Twitter. "Tô com fome", "Meu computador tá lento", "Vou pra academia cedinho". A diferença assustadora é que essa bola às vezes responde. Mas, essencialmente, a ilha ainda é só minha.)

3) Cheguei até aqui tendo mais sorte do que juízo.
(Mas isso é com todo mundo. Gostei muito do que a Vanessa escreveu sobre acaso e o Andar do Bêbado. A gente lê toneladas de mensagens dizendo que somos donos de nossos destinos e tudo que sonhamos estará ao alcance de nossa mãos, se lutarmos pra isso. E você planeja e economiza e quando tudo parecia que ia dar certo eis que chega a RodaViva e carrega o destino pra lá... ou um ligeirinho descontrolado esmaga tuas pernas no petit pavê. Ou uma demissão inesperada. Ou a moça simplesmente decidiu que não te ama mais. Ou choveu. Você planeja pra passar a vida inteira improvisando. Você desenha seu destino, mas o lápis não é seu.)

4) Curei uma ressaca caminhando sobre um iceberg.
(Mas isso já é história velha).

sexta-feira, junho 11, 2010

Itiban



Eu cresci antes do google existir.

Hoje é uma maravilha. Você fica sabendo das coisas instantaneamente e não há praticamente nenhuma imagem, texto ou filme fora do alcance da Grande Rede.

Mas eu cresci antes dessas coisas existirem. Minha primeira janela pro mundo "lá de fora" foi a Itiban. É uma loja de quadrinhos aqui de Curitiba e foi a primeira a receber regularmente lançamentos de quadrinhos diretamente lá dos EUA. Eles não recebiam só os super-heróis marvel e dc, mas também livros ilustrados, álbuns europeus, aquele tal de RPG e um monte de coisas que eu nem imaginava existir.

Mas a Itiban acabou sendo mais que uma loja, sabe. Ela era (e é) o boteco nerd. O lugar pra onde todos os caras que curtem quadrinhos acabam indo. Nosso bar, nosso ponto de convergência. Tipo um armazém antigo, só que cheio de milhares de páginas impressas de todas as maneiras.

A gente acabava lá não só procurando gibi, mas pra bater papo e escutar as histórias do Xicão, Mitie, Akira, Eric, Daniel... e toda a galera que passa por lá. Ouvi diálogos memoráveis dentro daquela loja.

E comprei lá a maioria dos meus quadrinhos favoritos. Como diria o Zé Aguiar, "coisas de que sou feito".

Acontece que o pessoal do projeto Olho Vivo fez um documentário sobre a loja, que completou duas décadas ano passado. E alguns dos seus frequentadores estarão lá falando sobre as tais histórias, sobre o que a tal comic shop representa em suas vidinhas. Entre eles, este que vos escreve.

O documentário Entre Quadrinhos será exibido essa terça-feira, dia 15 de junho, às 20 horas na Cinemateca de Curitiba. Se puder, apareça lá. Vai ser divertido. E vai ser minha van premier no cinema. :-P

Foi engraçado dar a entrevista. O pessoal quis fazer lá no departamento da universidade. Daí montaram a câmera, som e tal e eu tinha que "falar naturalmente". Filmaram na sala dos professores e vez ou outra passava um colega que estranhava e escondia o riso.

Particularmente, adorei. É muito, muito legal ser filmado.E confesso que fiz o papel de bonachão sem esforço nenhum. ;-)

Sério, aparece lá.

Mais sobre a Itiban aqui.

***

Um adendo: esse documentário tem duração de 25 minutos. Só pra você não ter a expectativa de assistir um longa-metragem. Valeu, Stultzer, pelo toque. ;-)

sábado, junho 05, 2010

Interlúdio musical

Simplesmente adoro essa canção.

Deve ser legal ter alguém pra quem voltar.

(Ando bregamente romântico. É o inverno...)



quinta-feira, junho 03, 2010

Xampu


Ontem foi dia de festa e Guinness no Slainte.

Hoje foi um dia frio, cinzento e preguiçoso. Lindo pra passar a tarde gateando no sofá, curtindo a ressaca. Melhor ainda se tiver um gibi bacana pra dar uma lidinha entre um cochilo e outro.

Fiz o sacrifício de sair de casa pra andar 2 quadras e chegar na Itiban. Daí comprei esse álbum aqui, o Xampu: Lovely Losers.

O livro é todo feito pelo Roger Cruz, desenhista de HQs que anda por aí há tempos, dando aulas na Quanta e desenhando supers lá pros EUA. Uns anos atrás, lá por 1999, o Roger publicou, na extinta revista Metal Pesado, a primeira versão de Xampu.

Era uma historinha de três páginas, com um estilo de desenho que me lembrava um pouco o Laerte e às vezes o Bruce Timm. Não era nada mirabolante, era mais uma daquelas histórias de relacionamentos e boemia. O que me conquistou era a sinceridade e simplicidade do texto, o modo como as coisas eram apresentadas.



Minto.

O que me conquistou é que parecia uma história minha e dos meus amigos, parecia algo que poderia ter acontecido com um de nós. Uma memória das coisas que vivemos, da nossa turma e nossos dias. Era uma história autêntica, viva. O tipo de história que eu gostaria de ter escrito.

E agora, mais de 10 anos depois, Roger Cruz lança esse Xampu, retomando e desenvolvendo as ideias originais.




Simplesmente adorei o álbum.

Ele é impresso com uma cor de sépia, muito bonita, que me lembra os livros do Will Eisner. Cruz redesenhou a historinha de 1999. Pra isso, fez uma série de estudos pra desenvolver uma linguagem de desenho que atendesse suas próprias expectativas. Esses estudos estão numa "faixa" de extras do álbum.

Aliás, a capa desse álbum de quadrinhos é ilustrada com a imagem de um vinil. E nesse "vinil" há sete "faixas": Xampu Generation, O Sombra, Tiras, Max & Nicole, Raquel, Max, Alô Nicole? e a "faixa bônus" de extras, que traz os estudos.

É um trabalho bem bacana e é muito interessante ver os rascunhos, as experiências com materiais, tintas e estilos na busca pelos personagens. Você pode ver bastante desse material no blog de produção de Xampu.

A produção gráfica e os desenhos são ótimos, afinal Cruz é um profissional. Mas o que mais mexe comigo é a história.




Sabe, há muitas maneiras de você contar as coisas vividas. E tudo sempre dependerá da sua formação, de que tribo você é. De que buraco você saiu.

Os 10 Pãezinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá e a Menina Infinito de Fábio Lyra contam umas histórias muito bacanas e líricas, que eu curto, mas acho "limpinhas" demais. Eu sempre fui mais de terminais sujos. Não é uma questão de visual, mas de espírito, entende?

Xampu de Roger Cruz é assim: privado de glamour, feioso, sujão, mas ainda assim fascinante. Ao nos mostrar o apartamento do edifício número 78, onde se desenrolam as "faixas" do álbum, o narrador comenta:

"Era o canto onde todos os malucos e malucas que conhecíamos vinham se mocosar nos finais de semana. Chegavam trazendo bebidas e muita erva pra queimar no ar viciadíssimo do apertamento já recheado de bitucas, latas vazias e cinzeiros lotados. Por incrível que pareça, aquele ambiente altamente desaconselhável atraía garotinhas de quinze aninhos, puras e inocentes, cheias de curiosidade, buscando fortes emoções".

Tem muito nesse álbum do que eu vivi com meus amigos há anos atrás. Quando a gente ainda era um bando de piás. Os shows, as bebidas baratas e vagabundas, a grana curta. As nossas baladas regadas a marginalidade. As mocinhas lindas. As figuras extraordinárias que conheci e os finais nem sempre felizes de suas histórias.

Xampu tem um ar danado de nostalgia. Ele mostra um pessoal que vivia antes da web, antes do celular, antes do facebook. Finalzinho dos anos 80. Pelos desenhos a gente acha uma série de detalhezinhos: cartazes nas banquinhas, posters na parede dos quartos, capas de LP. Mas não é só isso que dá um ar de lembrança pro álbum. A história não conta apenas um momento, ela segue em frente. Vemos as mocinhas se tornarem mulheres, vemos os garotos tornarem-se gente grande. O tempo não pára. Para o bem ou mal.

Como dizem, "a chama que brilha com mais intensidade é a que se apaga primeiro", não?