quinta-feira, julho 29, 2010

Uma citação

I am alone.

I look at the heavens and think them empty.

And if not empty, I find the idea of worshipping whatever dwells there obscene.

But why do you continue?

It doesn’t change what is right.

If there is nothing but what we make in this world, brothers…let us make good.


Numa tradução livre teríamos algo como:

Eu estou sozinho.

Olho para os céus e os imagino vazios.

Mas se não estiverem, acho obscena a ideia de adorar o que quer que esteja por lá.

Mas então por que continuar?

Porque isso não muda o que é certo.

Se não há nada além do que fazemos nesse mundo, irmãos... então que façamos o bem.

Em que isso te faz pensar?

Fé? Ética?

Por que fazer o bem, se não há ninguém nos vigiando? Fazer o bem por nós mesmos?

O que é o certo?

É um texto budista?

Filosofia?

Ateísmo?

Discurso político?

Auto-ajuda barata?

Agora veja de onde tirei esse pequeno texto.



O personagem é Bill Raio Beta. Um alienígena que apareceu nas histórias do Thor e acabou conquistando o direito de usar o martelo e o título de Deus do Trovão. É uma história longa e complicada, mas basicamente, Bill Raio Beta é uma versão do Thor com cara de cavalo.

Um Thor com cara de cavalo.

Sim, uma grande bobagem.

E no entanto...

*****

Achei essa tirinha num desses tumblrs aí pelo ciberespaço.

É um mundo estranho.

Felizmente.

segunda-feira, julho 26, 2010

No hope, no fear

Escrevo essa aqui pra moça que não lê super-heróis. Ela é esperta demais pra isso e fica me perguntando porque deveria ler uma história sobre um cara que se veste de vermelho e sai batendo nos bandidos em histórias maniqueístas e rasas.

Vamos lá...

Matt Murdock é um advogado que fica cego quando criança em um acidente envolvendo isótopos radioativos. No mundo dos super-heróis a radiação não te mata, mas te dá super-poderes. No caso do menino Murdock, ele desenvolve um tipo de radar que o ajuda a se orientar, além de audição, tato, paladar e olfato super-humanos. Ele não enxerga e nem precisa. Por alguma razão que eu não consigo entender, ele cria uma fantasia e sai à noite fazendo justiça e enfrentando bandidos. Talvez algo que ele não conseguia fazer direito como advogado. Isso é engraçado, né?

A moça suspira. Ela me dá aquele olhar que significa "estou sendo paciente, não abuse. Por que eu deveria ler essa coisa?"

Veja, nos EUA os super-heróis são lançados ininterruptamente todos os meses. O Demolidor é publicado desde 1964. Isso é tempo pra caramba e também é uma enorme quantidade de páginas desenhadas. Óbvio que nem toda a história dele é bacana. Mas no meio de toda essa quantidade, um dia surge algo que realmente vale a pena ser lido.

A Queda de Murdock é essa história que vale a pena.

Ela foi publicada nos EUA pela primeira vez em 1986. Aqui saiu na finada Superaventuras Marvel #62 a #67 entre agosto de 1987 e janeiro de 1988. São seis partes. E ela é boa demais.

"Por que ela é tão boa assim?"

Ela começa com a ex-namorada do Demolidor/Matt Murdock. A moça tinha sumido das histórias fazia já uns anos. Todo mundo pensava que ela tinha virado atriz de cinema, mas achamos a moça numa decadence total. Viciada em heroína, prostituída, atriz de filminho pornô de quinta categoria. E apenas 25 anos. Tão na fossa, tão na fossa, que ela vende o segredo da identidade secreta do herói por um pico. Isso acontece na primeira página da história.

Acontece que o segredo vai passando de boca em boca até que chega a Wilson Fisk, o gangster fodão maioral do crime da costa leste americana. O Demolidor era uma pedra no sapato de Fisk. Tipo aquela história de arqui-inimigos, sabe? Mas quando descobre o nome verdadeiro do herói, Fisk não manda ninguém matá-lo ou sequestrar parentes ou coisa parecida. O que ele faz é "testar a informação".

E usando influências, fazendo subornos e chantagens, silenciosamente, ao longo de meses, ele vai fodendo com a vida de Matt Murdock. E quando digo fodendo, quero dizer fodendo meeeeeeesmo. Em meses ele tira todos os clientes do advogado e leva sua firma à falência. Forja uma acusação diante do pessoal do Imposto de Renda e consegue que bloqueiem todos os bens do cego. É um processo lento, mas Murdock, que era um advogado rico e bem de vida, caminha inexoravelmente para a miséria. E sem ter a menor ideia de por que isso está acontecendo.

Essa ideia de tirar pouco a pouco tudo que o homem tem é que torna essa história sensacional. Desesperado, Murdock acaba se isolando, separando-se de seus amigos, sem saber em quem pode confiar. Acaba indo dormir nas ruas, junto dos mendigos. Chega à beira da loucura. Da morte.

E daí...

Daí vem o título da história em inglês, Born Again. Não se trata da queda do homem, mas sim de como ele faz para se reerguer. E não pense que ele consegue tudo de volta, porque não é assim que termina. O que temos é um sujeito privado de tudo e que tem que achar outras razões, outros motivos pra continuar vivendo. É obrigado a se reinventar, a superar as dificuldades de sua nova condição e ainda assim continuar íntegro e honesto consigo mesmo. É sensacional. Irresistível. Impossível não ser cativado.

O texto é do Frank Miller e é bem escrito, bem trabalhado, sem os excessos e diálogos toscos que ele cometeria anos depois em Sin City e 300. Aparecem diversos personagens coadjuvantes e eles são muito bem construídos. O desenho é de Dave Mazzuchelli, na época um novato. Depois ele se tornaria uma referência com seus trabalhos em City of Glass e Asterios Polyp (falo mais sobre isso outro dia).

Além do texto, da narrativa, da arte, a história é cheia de pequenos detalhes interessantes. Por exemplo, as páginas de título de cada capítulo mostram sempre Matt Murdock deitado, primeiro em sua cama confortável, depois em um quarto de hotel vagabundo, depois na rua junto dos mendigos e por aí vai... Repare como ele vai sendo espremido contra o canto do quadrinho à medida em que a história avança e sua situação piora.





O super-herói fantasiado fica em segundo plano durante toda a história. Só no último capítulo que... bom, você vai ler né?

A história foi republicada recentemente pela Panini, num volume luxuoso, de capa dura, páginas couché e o caralho a quatro. Caro, obviamente. Mas se você tiver paciência e sorte, pode garimpar nos sebos e achar as publicações anteriores. Talvez ache a especial em "formatinho", que eu também tenho.



"Formatinho" era o tamanho reduzido em que eles publicavam as histórias durante os anos 80 e 90. Tinha todo um trabalho de edição em cima do formato original. Eu tenho as duas edições e pude comparar. A antiga, em formatinho, tem todo um charme. Como o desenho foi reduzido, em algumas páginas os detalhes de texturas borraram e a arte ficou mais escura, mais sombria. Mais expressiva.



O tamanho era menor, mas as letras dos balões eram maiores (!). Então os textos da versão em formatinho eram mais curtos, muitas vezes sem trechos do texto que aparecem no "formatão" (chamado "formato americano"). Entretanto, o pessoal das antigas tomava umas liberdades de exagero nas falas, como na imagem abaixo. Esse exagero pra mim tem o charme das antigas dublagens da sessão da tarde (você sabe que eu só assisto meu dvd de Curtindo a vida adoidado com a dublagem da sessão da tarde, né?)




Enfim, quem se interessou, pode comprar a nova edição da Panini ou fazer uma busca nos sebos. Vale a pena.

Sorte sua, Xuxu, que você conhece alguém com uma vasta coleção de sonhos em papel, além de um mestrado em quadrinhos. Aproveite.

;-)


quinta-feira, julho 15, 2010

Poison ivy

Dia chuvoso e frio, como só Curitiba pode oferecer.

Passei todo ele na cama, comendo guloseimas, lendo gibis, cochilando, curtindo a ressaca de ontem. Estou de férias, porra. Não encha meu saco.

Agora a pouco pesquei essa pérola da animação.

Sabe, eu adoro as animações da Pixar, mas fico feliz que tenha gente com coragem pra fazer algo fora da "cartilha" e sem preocupação de proporcionar "diversão pra toda a família".

Não só assista, deguste. Saboreie devagar. Mesmo que você não entenda inglês, repare nas expressões, as maravilhosas expressões dessas flores. Os olhares, as emoções, as texturas. A iluminação. A música.

The most beautiful things, often times, are the most dangerous.

Animar ou ilustrar não é só criar imagenzinhas bacanas. É importante que elas tenham uma fagulha de vida. Precisamos acreditar nelas. E esse tal de Heiko van der Scherm sabe fazer isso.

Talvez uma história de amor, talvez de inocência perdida, vingança, traição ou tudo isso junto: uma história de florzinhas pra vocês.


Essa animação foi um dos melhores momentos desse dia adorável.

Pra quem se interessar, aqui está o making-of dessa belezinha.

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(Sobre o título do post, Poison ivy significa Hera Venenosa. Também é o nome de uma inimiga do Batman, que usa plantas e seus venenos pra cometer crimes . No caso do curta Descendants, uma de nossas protagonistas é claramente uma poison ivy...)

quarta-feira, julho 14, 2010

Nota 10

Esse semestre eu lecionei pela primeira vez a disciplina de animação, pro pessoal do curso de design. Disciplina nova, comecei do zero.

Entre as propostas de exercícios, pensei em um grande projeto final. O aluno ou aluna faria uma releitura de abertura de um programa de tv ou um filme usando alguma das técnicas de animação apresentadas em aula. Poderiam trabalhar sozinhos ou em equipe. Foi uma proposta arriscada, porque trabalhar com animação é uma coisa complicada, dá muito trabalho e às vezes o pessoal pode se perder no caminho. Por outro lado, havia espaço pro pessoal trabalhar e criar o que quisesse. Oras, os alunos sempre recebem orientações bem específicas de projetos. E se deixássemos espaço para que criassem? O que sairia?

Cabe ressaltar que trabalhamos em condições beeeem precárias. Não tínhamos praticamente nada, a não ser pranchetas de desenho e um ou outro equipamento de fotografia (câmeras não incluídas). O pessoal teve que trazer e providenciar tudo. Uma vez que minha ideia era estudar animação e não software, a escolha das ferramentas digitais ficou por parte do pessoal. Com tudo isso, os resultados foram muito bons. Dentre esses, me surpreendeu o trabalho do Carlos Bauer e do Alexandre Kuchani. Quero dizer, acompanhei o desenvolvimento do trabalho e tal, mas o resultado final realmente superou minhas expectativas.

A duração do filme final deveria ficar entre 30 segundos e um minuto. Eles fizeram uma vinheta de dois minutos e meio. Era uma proposta de abertura para o filme "O Auto da Compadecida". Veja:





Eles usaram uma série de técnicas: animação de recortes, pixelation, animação de célula, animação de objetos, kinestasis, etc.

Gostei muito de como eles documentaram todo o processo e de como exploraram as possibilidades de ilustração dentro dessa animação. Pesquisaram um monte sobre a cultura, a literatura de cordel, as referências visuais. Montaram cenários, produziram imagens, colagens... coisa fina. Melhor do que certos trabalhos de diplomação que vejo por aí...






Isso é trabalho nota 10. Aquele trabalho em que o aluno extrapola qualquer expectativa, vai muito além do que foi pedido, trabalha com gosto, sem pensar em nota, professor ou disciplina. Pensando apenas em fazer um trabalho bem feito.

Show.

sábado, julho 10, 2010

Kiki



Uma vida.

É sobre isso que uma biografia supostamente deveria ser. Uma vida. Mas na maioria das biografias que li, a pessoa parece que se perde por trás dos fatos, datas, documentos. A gente vê só um pouquinho aqui e ali em trechos de cartas, diários, fotografias. Não dá pra conhecer a pessoa de verdade. Ela se foi. A gente só pode imaginar como ela era.

O grande mérito dessa longa história em quadrinhos é me fazer acreditar que conheci essa moça Kiki.

Eu a vi nascer num vilarejo, vi a menina crescer criada com carinho pela avó e sentir a ausência do pai, que teve outra família e não a reconhecia como filha. Esses amores recebidos e negados se espalham por todas as páginas. É assustador e maravilhoso.

Ela foi para Paris, passou miséria, trabalhou, curtiu a noite, tornou-se modelo de jovens pintores. Ela cantou, dançou, pintou, virou pintura, virou fotografia. Dormiu com quem quis. Ela inspirou pessoas. Modigliani, Man Ray, Hemingway, Jean Cocteau... Às vezes, não teve dinheiro pra comer, às vezes, ganhou uma soma astronômica nas artes e gastou tudo, da noite para o dia, em roupas e festas.

Ela viajou, envolveu-se com drogas, foi presa, foi solta. Viveu a II Guerra Mundial.

Ocupou-se mais em viver do que em ter. Nunca teve casa própria, nunca ficou rica. Não teve só um grande amor da vida, mas vários e não segurou nenhum. Quis, mas não teve filhos.

A simplicidade do desenho de Catel mostra a menina crescer, tornar-se mulher, amadurecer. Do começo ao fim. E o fim vem em 1953. Inchada pela hidropisia e abusos do álcool e entorpecentes, Kiki vive da generosidade de amigos. Ainda alegre, cantarolando, ela é uma menina vivendo no corpo de uma mulher de 52 anos. Linda.

Bobagem minha, mas tive uma vontade danada de estar lá pra poder abraçar essa dona gorducha, que conheci só por uma história em quadrinhos.







domingo, julho 04, 2010

Uma semana em três livros trilegais

Sábado

Bob Dylan Revisited


13 canções em quadrinhos. Nunca fui muito fã do Dylan, mas o álbum era lindo demais e tinha trabalhos de gente como McKean, Mattotti e Zep. Antes de ler o álbum, me deu a pira de compilar as 13 canções do Dylan em uma lista e ouvi-las lendo o álbum. Isso acabou sendo uma ótima ideia, porque, ao contrário de outros projetos semelhantes, as histórias desse álbum seguem fielmente os textos das músicas originais e a impressão é que estamos lendo um video-clipe. Sem as músicas o álbum é bacana, mas se ouvimos enquanto lemos temos uma experiência simplesmente espetacular. Destaque para a história de Mattotti, A Hard Rain's a-Gonna Fall, cuja música e imagens mais me cativaram.

Acima arte de François Avril

Acima arte de Lorenzo Mattotti

Acima arte de Zep

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Terça-feira

Alice's Adventures in Wonderland: a Pop-up Adaptation by Robert Sabuda.


Eu já falei sobre isso, né?

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Quinta-feira

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, pela Quadrinhos na Cia.


Um hype é quando todo mundo fala mil maravilhas sobre alguma coisa que nem foi terminada ainda. Foi assim com Avatar do James Cameron e com Mesmo Delivery do Grampá. Antes mesmo de ser finalizada ou lida completamente por alguém, Cachalote já era considerada o melhor lançamento em quadrinhos do ano aqui nessas terras brasileiras. Li o álbum e não posso afirmar que é o melhor lançamento do ano, mas é muito muito bom. Curto muito os textos do Galera e toda sua poética funcionou muito bem no álbum. Não é apenas uma questão de escrever os textos bonitinhos nos balões, mas o modo como o desenho do Rafael Coutinho (filho do Laerte) ajuda a construir toda a narrativa, dando profundidade aos personagens, tornando-os verossímeis através do traço, de expressões e de sequências muito bem planejadas. Pode não corresponder a toda a expectativa criada, mas é uma obra sensacional, que faz a gente olhar pras possibilidades dos quadrinhos com um prazer renovado. Buy it.

sábado, julho 03, 2010

Like a Rolling Stone

Vim pra ver a Raquel cantar.

Rachel

Rei-tchéu, eu grito. Tipo tchau, só que tchéu. E um rei na frente.Que nem os gringos falam. Que nem a gostosinha do Friends.

Reitchéu.

Vai lá, Reitchéu.

Ela canta lá na frente e eu bebo, bebo, bebo. A bebida é tipo medicinal. Mas não importa quanto eu beba, não importa o quanto eu encharque meu cérebro de álcool, eu continuo sendo eu mesmo. Essa dosagem não funciona mais, doutor.

E a canção de Reitchéu fica pra trás e de repente eu tô caminhando de volta pra casa e na minha cabeça Bob Dylan canta e eu canto/grasno/rosno junto HOW DOES IT FEEL? to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone

Mas eu tenho uma home e chego até ela, muitos tombos depois, as mãos esfoladas, a roupinha bonita suja e rasgada. Eu tenho uma home.

A bebida é tipo medicinal. Eu penso melhor. Mas sempre continuo sendo eu mesmo. Tudo está no seu lugar, tudo é exatamente do jeito que deveria ser.

Não é?

E pelas ruas vazias, pela madrugada, sob a luz amarelada dos postes, a voz de Dylan paira sozinha, perdida, inaudível, me procurando.

How does it feel?

How does it feel...

Os cães ladram e a caravana não pára.