quinta-feira, setembro 30, 2010

Matrix suecado


Olhando pra capa do DVD, você pode não dar muita pelota pro filme, mas ele vai superar suas expectativas. Pra começar, ele é dirigido pelo Michel Gondry, responsável por uma penca de videoclipes sensacionais e pelo fantabuloso e irretocável Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.

Nessa comédia "muito louca", acontece um acidente e todas as fitas de VHS de uma loja são desmagnetizadas. O detalhe é que se trata de uma loja de VHS nos dias de hoje. Como não conseguem achar fitas pra substituir, no desespero e pra não perder os clientes, Jerry (Jack Black) e Mike (Mos Def) decidem refilmar os filmes que faltam: de qualquer jeito e em questão de horas. O resultado é um filme que eles chamam de "suecado".


Daí estou lecionando, pela primeira vez na história desse País, a disciplina de audio-visual pro curso de Design na Utfpr (o bom e velho cefetão). Como exercício de primeiro dia de aula, fizemos uma suecagem. A turma escolheu fazer "Matrix".

Ok, para uma suecagem: você não pode reassistir o filme que vai fazer. Tem que filmar tudo na hora, sem roteiro, conforme vai se lembrando. Não pode levar mais que três horas pra concluir o filme. Não pode editar as cenas nem o som depois. (Tudo bem, o pessoal deu uma editadinha, mas eu curti o resultado).

O resultado:


Não sei se assistindo você vai se divertir tanto quanto nós nos divertimos filmando. A ideia do exercício era fazer um primeiro contato com a linguagem de cinema, de uma maneira bem descontraída. E o objetivo foi alcançado. :-)

Você pode encontrar outros filmes suecados no youtube, incluindo os feitos por Jack Black e Mos Def. (O meu favorito é Caça-fantasmas, mas todos são bons!).

O mais bacana do filme de Gondry não são só as refilmagens toscas que nos fazem chorar de rir. Tem toda uma discussão muito bonita sobre o prazer de fazer e assistir cinema. Confesso que na cena final meus lindos olhos castanhos marejaram. É muito lindo.

Agradeço à turminha do bacharelado de Design por toparem essa e outras atividades malucas que fico inventando na aula. Aguardem que vem mais coisa por aí.

;-)

quarta-feira, setembro 29, 2010

Los gatos

Ouvi dizer que hoje é o Catursday, dia dedicado aos gatos e os bípedes que gostam deles. Como sou um deles (bípede, não gato), aqui vai minha contribuição...





Ao lado da Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, está La Plaza del Lector. Lá, além das pessoas lendo, você encontra gatos. Muitos gatos. Todos gordinhos e preguiçosos.

Um veio pra mim ronronando manhoso. Daí que eu percebi que ele tinha um olho vazado. Tirei a máquina, mas Don Bichano virou as costas e foi embora sem me deixar bater foto (lógico, o que você espera de um gato?).

Comecei a olhar com mais cuidado e percebi que quase todos os gatos tinham arranhões ou algum machucado. Mas também eram bem gordinhos. Depois vi o pessoal da biblioteca distribuindo ração na calçada. Eles mantém os bichos alimentados, mas soltos. Daí, como bons gatos que são, às vezes eles se pegam. Por isso os machucados.

Achei bacana tudo isso. Porque tem algo quanto à natureza dos gatos (e também dos cães) que parece desrespeitado quando eles são protegidos demais, tratados como pequenas crianças humanas. Acredito em amar e cuidar de um companheiro felino, mas também acredito em respeitar sua dignidade. E isso significa deixá-lo brigar, correr e fornicar por aí. O que, aqui no Brasil, implica em arriscar ter seu gatinho morto por um vizinho lazarento. Mas, enfim...

Não consegui bater a foto, daí fiz um desenho do bichano caolho. Taí, direto do meu caderno listrado...


terça-feira, setembro 28, 2010

Heroínas


A primeira vez que ouvi falar de Laura Vazquez foi quando a Marilda me mostrou o livro da moça: El oficio de las viñetas. Um livro de trezentas e poucas páginas apresentando o resultado da pesquisa de doutorado sobre o panorama das histórias em quadrinhos na Argentina, no período de 1968 a 1984. "Isso aqui é outro nível" a Marilda me disse mostrando o livro.

A segunda vez que ouvi falar de Laura Vazquez foi cinco minutos depois da primeira vez, quando entramos no site do evento Viñetas Serias. Ela encabeçava a direção do Primer Congreso Internacional de Historietas. E organizar eventos não é tarefa fácil...

Eu a encontrei pessoalmente lá no congresso. Muito jovem a moça, sorridente, simpática, atenciosa. Gente boa mesmo.

Em seu livro, Vazquez escreve umas quatro páginas de agradecimentos, para todas as pessoas que colaboraram em seu trabalho. Ao fim da lista, cita o companheiro e a filha. Ao moço ela agradece por ser um crítico implacável e companheiro ideal: durante a pesquisa, ele a acompanhou aos lugares mais insólitos e não se incomodou por ter a casa inundada de pilhas e pilhas de revistas antigas. Da filhinha, Laura conta essa história:

"Cuando comecé con la investigación, era tan chiquita que una tarde, al oírme hablar de Yellow Kid, corrió a su cuarto, me trajo una plancha de stickers de Hello Kitty y con tremendo entusiasmo me dijo: 'Mamá, acá te consegui uno! Ahora vayamos a la plaza!' Y fuimos, claro. Ella es mi mejor y más bella aventura."

Adorável, não?

Seria já o bastante pra admirar a moça, mas ainda descobri que ela escreve roteiros para quadrinhos. Roteirista de quadrinhos!

Laura virou minha heroína. O autógrafo dela tem um valor especial pra mim.


E gosto de pensar nas minhas heroínas daqui também. Como a Marilda, minha orientadora e amiga. Mais uma dessas mulheres notáveis, que é mãe, professora e pesquisadora. E escreve, sabe, pensa, questiona e faz todas essas coisas com uma leveza maravilhosa. (Puxa vida, o celular dela toca a musiquinha do Arquivo X!)

Acho que é isso que me fascina nessas moças. Como elas se realizam com todas as dificuldades que possam encontrar no caminho e ainda assim passam tanta leveza, tanta felicidade em seus trabalhos, em seu jeito de levar o dia a dia.

Sin duda, una gran aventura...

segunda-feira, setembro 27, 2010

Buenos Aires e suas Viñetas Serias

De noite, vistas das janelas do avião, as luzes das cidades lá embaixo parecem constelações ao contrário, ordenadamente fixadas no chão ao invés de displicentemente soltas pelo céu.

Viajar tem dessas coisas, sabe? Tipo você se fascinar com pequenas coisas, com pequenos detalhes bobos.

*****



Fui para Buenos Aires participar do Primer Congreso Internacional de Historietas Viñetas-Serias. Não tive muito tempo pra fazer turismo e, ainda assim, a cidade me fascinou. Fiquei em uma hospedaria em Palermo Viejo. Gosto dessa palavra: hospedaria. Era a Bed and Baires, uma casa e eu tinha um quarto e as chaves. Entrava e saía quando queria, usava a cozinha, me virava.

Pelas manhãs, caminhava uns trinta minutos pra chegar à Biblioteca Nacional. As ruas de Buenos Aires são algo de fantástico. A luz é diferente. Parece que todos os prédios tem uma varandinha. Tem muita gente levando seus cachorros pra passear, tem cocô de cachorro pela rua, por isso cuidado onde pisa.

Falando assim, parece que fiquei um bom tempo por lá, mas foram só dois dias e meio. Coisa estranha, minha sensação é de muito mais tempo. Tanta coisa aconteceu, tanta gente conheci, tanta coisa vi. Vou contar aos pouquinhos aqui. Quero que isso dure bastante. Essa sensação de me lembrar de lá.

******

Como em uma história de ficção, a gente fica esperando um evento que vai mudar tudo: nossa direção, nossa forma de ver a vida, nossa própria pessoa. Mas acontece que não estamos em uma história, estamos na vida de verdade. Não acontece um evento assim. Acontecem vários. O tempo todo.

Então, aproveite.

;-)

segunda-feira, setembro 20, 2010

Mucha


Alfons Mucha (1860-1939) foi um artista checo, que trabalhou com muitas coisas: design de jóias, esculturas e, principalmente, cartazes. Eram propagandas de cigarros, peças de teatro, calendários. O animal tinha um desenho maravilhoso. Essas exuberantes mulheres, de cabelos esvoaçantes e vestidos fluidos, dentro dessas belíssimas molduras, servem como motivos de referência e reverência pra muitos ilustradores e quadrinistas até hoje. Acima e abaixo apresento alguns dos cartazes das peças de teatro da Sarah Bernhardt feitos por Mucha.


Aconteceu que o Marcos e a Fernanda curtem um bocado a arte desse checo e me pediram que fizesse o convite de aniversário deles seguindo o estilo do cara.

An unspeakable pleasure.

Nem te conto que também sou fãzão do Mucha, né. Daí passei um dia desse feriadão selecionando referências de obras do Mucha, de fotografias, de tipografia... e foi muito divertido. Trabalhei gostoso, sem me preocupar com hora nem nada. Levei umas duas horas desenhando e finalizando as moças a nanquim:


E umas seis horas montando tudo no computador, com moldurinhas muchianas, cores e tipografia. A colocação da tipografia deu algum trabalho, mas foi relativamente simples, sem grandes pretensões. Mas a aplicação de cor... cara, que surra que levei. A cor é o que realmente me pega, daí eu me agarro numa paleta harmônica e nem tento ousar muito. Sério, preciso aprender a colorir.


Eram quatro aniversariantes: três moças e meu camarada, que no fim virou um sofá ou um violão, depende da interpretação (ha!). Foi um trabalho muito bacana de fazer e o pessoal curtiu muito. Aliás, ver a satisfação do povo foi muito legal.

E a festa... ah, a festa.

Foi do caralho.

Parabéns pra toda essa galerinha insana e bacana de Virgem.

Valeu!

:-)

terça-feira, setembro 14, 2010

A história da Tartaruga

"Nas costas da Grande Tartaruga, os parasitas construíram sua cidade. Sempre em movimento lento. Incessante."




Foi assim: eu tava largado no sofá ou na cama, ouvindo Face to Face da Siouxsie e seus Banshees quando a imagem da tartaruga surgiu no meio de um daqueles sonhos acordados. Músicas me fazem sonhar acordado, sabe. Não sei se é assim com você.

Peguei o caderninho e rabisquei. Imaginei o que seria morar na cidade nas costas da Grande Tartaruga. Como seriam esses cidadãos?

Uns cinco dias depois, teve uma pizzada na casa da Alice. A moça me emprestou uns rotuladores sensacionais da marca Copic. Um sonho. Fiquei brincando com eles e fiz o segundo estudo da Tartaruga. (Valeu, Alice!)


Foi nesse domingo que eu sentei pra desenhar pra valer a Big Turtle. Fiz pesquisas de imagens pra ter referências. Usei como modelo a tartaruga gigante de Galápagos. Gosto de desenhar esse tipo de bicho. Gosto das texturas, do peso.

Pra me acompanhar, umas latinhas de cerveja e música. Bebi demais, fiquei muito louco e desenhei, desenhei, desenhei. Com música. Nossa! Loucura! Sempre achei meio suspeito esse lance de alterar a consciência pra produzir, mas confesso que a bebida, se não melhorou meu desempenho, ajudou a tornar bem mais prazeroso o preencher de detalhes de arvorezinhas, prédios e escamas.

Aqui está a arte a tinta nanquim. O original ocupa toda uma folha A3.


O desenho de base é feito com lápis azul, daí fica mais fácil de apagar no fotoshop: selecione a cor azul e aperte del. Ou, como eu, selecione o preto, inverta a seleção e delete o resto. Daí ficamos só com o traço preto.


E daí joga uma cor.


Essa não é a colorização final. Quero aplicar algo mais elaborado, mas essa semana o tempo tá bem escasso... Também, preciso aprender a colorir. Colorir não é tarefa fácil, mas o pior é não saber que cores usar. Conheço algumas pessoas que podem me ensinar o esquema de paletas de cores, aplicações e tal. E vou persegui-las assim que voltar de viagem.

Ah, vou apresentar um artigo no Primer Congreso Internacional de Historietas lá em Buenos Aires. Considerando que tenho que preparar as aulas para minhas substituições, estudar e preparar a apresentação, talvez eu me ausente aqui por uma semana... mas depois volto com histórias bacanas. :-D

Obrigado por me acompanhar aqui.

Até breve!

domingo, setembro 12, 2010

Sketch


Já tinha publicado isso antes, mas com uma arte-final mequetrefe em nanquim. Daí, mexendo nas minhas coisas e separando o que ia pro lixo e o que ia pra pasta de arquivo, achei o desenho original. Achei ele bacana. bem melhor do que aparece na tela do computador.

Tô começando a achar que é melhor fazer as coisas à mão do que no pc... o papel enche muito mais os olhos do que a telinha. Mas são só considerações...

Bebi bem mais do que devia. Parar de escrever por aqui antes que eu publique alguma coisa que me arrependa...

quarta-feira, setembro 08, 2010

Y

Tem histórias com ideias bem bacanas que já na primeira página nos fisgam. Por exemplo:



E a ideia é bem simples mesmo. Todos os machos do planeta morrem. Simples assim. De uma hora pra outra, instantaneamente, todo mamífero com cromossomo y tem um colapso e cai duro, sangrando por todos os poros.

Opa! Quero dizer, todos menos dois: o jovem nerd Yorick, mágico de rua especialista em fugas, e seu companheiro Ampersand, um mico. E é em torno desses dois mistérios (a morte dos homens e a sobrevivência de Yorick) que gira a série Y - O Último Homem. Mas o mote principal é como o mundo se estrutura após a morte dos homens. O que vai acontecer agora?


Tinha tudo pra ser enredo de filme pornô, mas o escritor Brian K. Vaughan cria uma série de quadrinhos com todo um jeito de Lost. Yorick é o pivô de toda a ação, mas ao seu redor tem toda uma série de tramas paralelas, reviravoltas e personagens interessantes.

Eu comecei a ler Y uns anos atrás através de downloads, mas depois de ler umas 5 histórias parei. Achei a história muito boa, o suficiente pra valer a pena esperar e ler impressa. Agora, a editora Panini já lançou 3 volumes da série Y, que você pode encontrar em livrarias ou na sua comic shop favorita.

O desenho de Pia Guerra é bem competente. O tal Brian Vaughan escreve legal, mas acho que ele não vai tão longe quanto poderia. Uma história como essa podia muito bem ser contada nos moldes de Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. Indo aos extremos, sabe. Mas ainda assim, Y é um gibi bacana, que vale a pena ser lido.

Eu gosto bastante desse texto que apresenta a série:

No verão de 2002, uma praga de origem desconhecida destruiu até o último esperma, feto e mamífero completamente desenvolvido com um cromossomo Y (com exceção de um rapaz e seu bichinho de estimação).

Esse "generocídio" exterminou instantaneamente 48% da população global, ou aproximadamente 2,9 bilhões de homens. 495 dos 500 CEOs listados pela revista Fortune estão mortos agora, bem como 99% dos proprietários de terras do mundo.

Só nos Estados Unidos, mais de 95% de todos os pilotos comerciais, motoristas de caminhão e capitães de navio morreram... assim como 92% dos presidiários condenados por crimes hediondos.

Internacionalmente, 99% de todos os trabalhadores nas indústrias mecânica, elétrica e de construção estão mortos agora... embora 51% da força de trabalho agrícola do planeta ainda esteja viva.

14 nações, incluindo Espanha e Alemanha, têm soldados do sexo feminino que serviram em unidades de combate terrestre. Nenhuma das quase 200 mil militares dos Estados Unidos participou de combate terrestre. Austrália, Noruega e Suécia são os únicos países que têm mulheres servindo a bordo de submarinos.

Em Israel, todas as mulheres entre as idades de 18 e 26 anos cumpriram serviço militar obrigatório nas Forças de Defesa de Israel pelo tempo mínimo de um ano e nove meses. Antes da praga, houve pelo menos três "mulheres-bombas" suicidas palestinas.

No mundo inteiro, 85% de todos os representantes governamentais estão mortos... assim como 100% dos padres católicos, imãs muçulmanos e rabinos judeus ortodoxos.

O mais bacana desse texto não são só as possibilidades ficcionais que ele apresenta, mas os dados (se forem corretos) sobre a estrutura de nossa própria realidade. Faz a gente pensar na tal igualdade, não é, moças?

Pequenas dúvidas sobre lentes de contato

Comecei a usar lentes de contato.

Tudo novo pra mim. Perder o medo de cutucar o olho com o dedo, a sensação de ter areia sob as pálpebras, enxergar com nitidez extraordinária num momento e em outro ver o mundo por trás de águas turvas.

Eu cresci e passei a maior parte da minha vida usando óculos. Então, de todas as sensações, a mais estranha é essa ausência da borda das lentes na minha visão periférica. Como se algo realmente estivesse faltando.

E as pequenas surpresas do uso das lentes de contato. Aqueles detalhezinhos que ninguém fala.

Tipo perder a lente dentro do próprio olho.

Porque cheguei em casa ontem à noite e fui tirar as benditas. Mas a do olho esquerdo não estava mais lá. Olhei, olhei, e não achava. Perdi, pensei. E fui dormir.

Mas tinha uma coceirinha no olho.

Levantei e fui checar no espelho.

Olha, olha. Arregaça as pálpebras. Olha bem. Nada. Taca colírio. Volta pra cama.

Dia seguinte levanta, põe óculos, vai desenhar, ler, trabalhar. E de repente dá uma coçadinha de nada no olho e sente algo na mão. Sim, isso mesmo. A tal lente.

Isso já aconteceu com você? Isso é normal? Perder a lente dentro do olho? Ela deslizou lá pra trás? Por onde ela esteve?

Por onde ela esteve...?

Hmm...

quarta-feira, setembro 01, 2010

Mulher de Papel

(Esse post é repetido. Ele foi postado aqui pela primeira vez em 29 de junho de 2008 e é apresentado aqui sem retoques. Lá no final do post, coloco umas atualizações e faço novas considerações...)

Katchoo e Francine, de Estranhos no Paraíso

Durante minha infância e adolescência, li várias e várias histórias em quadrinhos. Praticamente todas eram protagonizadas por super-heróis ou animais falantes. Se eu não me engano, a primeira história em quadrinhos com “gente normal” que eu li foi Estranhos no Paraíso (Strangers in Paradise), do Terry Moore. Era uma publicação da Editora Abril, datada de abril de 1998. Havia um texto de apresentação da história que dizia:

Nada de homens de roupas colantes, nem de mulheres siliconadas. Estranhos no Paraíso é a história de duas jovens bem reais, tangíveis, ao alcance dos nossos olhos. Você estuda com elas ou mesmo encontra com elas andando por aí. Você pode até não enxergá-las porque às vezes se escondem no meio da multidão. Mas elas estão lá. Choram e riem, amam e odeiam, e sonham com um amanhã que talvez nunca aconteça.

Capa de Estranhos no Paraíso, Editora Abril, 1998

Gostei muito da história. Ainda estou esperando pelo fim da longa série de aventuras e desventuras de Francine e Katchoo, que são publicadas esporadicamente aqui no Brasil.

Pensando bem, antes mesmo de Estranhos no Paraíso eu já tinha começado a tomar gosto pelos quadrinhos com “gente normal” em Sandman. Na série de histórias Um Jogo de Você, o que movia a trama era uma crescente tensão entre o mundo do sonho e a realidade das ruas. Neil Gaiman fez de Barbie, Wanda, Foxglove e Hazel personagens muito convincentes, naturais. Pouco depois, nas mini-séries da Morte (Death: The High Cost of Living e Death:The Time of Your Life), Gaiman traria de volta essa abordagem do cotidiano. Lógico que existiam os tais elementos mágicos e seres fantásticos, mas a construção dos personagens “normais”, “mundanos”, era muito bem feita.

Página de Deaht: The Time of your life

Nessas histórias, o que mais me fascinava eram a noite, os bares, os encontros inesperados, os romances, as decepções. Tudo o que já acontecia na vida real, mas ainda assim era fascinante. Parecia material riquíssimo para se trabalhar em cima.

Sempre cultivei um desejo de criar ficções, de trabalhar com quadrinhos e fazer histórias como aquelas: que mostrassem as pessoas e suas relações umas com as outras dentro das entranhas da cidade. As festas estranhas com gente esquisita.

Mais tarde fui conhecendo outros artistas com outras abordagens do cotidiano.

O pessoal dos quadrinhos Underground norte-americano (Harvey Pekar, Daniel Clowes, Robert Crumb) e brasileiros como Laerte, Angeli, o DW, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, o José Aguiar... Aliás, eu acho muito curioso que alguns trabalhos desses caras, (Mesa para Dois, dos gêmeos e Folheteen, do José) tenham como tema as aventuras cotidianas de moças. A mesma proposta do Gaiman e do Terry Moore. Estranho fascínio de autores homens por protagonistas femininas...

Ainda na lista de histórias de cotidiano, podemos contar os trabalhos online de Meredith Gran e Samanta Flôor. Ah, se considerarmos que Samanta faz um tipo de quadrinho autobiográfico, poderíamos incluir ainda nessa lista os trabalhos de Marjane Satrapi, Alison Bechdel e Guy Delisle.

Falo de toda essa gente porque o tipo de história que eles produzem é o meu tipo favorito. Histórias sobre o cotidiano, o ordinário cotidiano que parece ocultar um algo mais que intriga e fascina. E o modo de desnudar esse algo mais é coisa de cada autor, que tem seu olhar bem característico.

A mais recente história dessa linha que li é LOCAL. Trata-se de uma série de histórias que fogem da vertente “autobiográfica” e é provavelmente um dos melhores trabalhos que já li nesse estilo.

Ou talvez o melhor.

LOCAL foi feita por Brian Wood (roteiro) e Ryan Kelly (desenhos) e basicamente, conta a história de Megan McKeenan. (Olha aí a moça protagonista de novo!)

Nas palavras de Brian Wood:

LOCAL, pura e simplesmente falando, é uma série de histórias curtas sobre pessoas e os lugares onde elas vivem. Eu fiquei um pouco obcecado com a idéia de localidades e cidades natais por algum tempo, e até criei uma pequena empresa de camisetas dedicada a isso. A vida funciona de um jeito muito diferente quando você sai dos grandes centros populacionais, e alguns dos melhores que já assisti e livros que já li ocorrem em lugares que nunca teriam passado pela minha cabeça. No entanto, o lugar não pode ser a história. Entrar nos mínimos detalhes de qualquer lugar específico incorre no risco de alienar qualquer um que não more lá. As histórias de LOCAL são universais, quer você more em Portland, na região noroeste do Pacífico, nos EUA ou em outra parte do mundo. Mas, pros lugares, as histórias contêm marcos e referências que são instantaneamente reconhecíveis.

Cada edição apresenta uma história independente em que Megan ora é a protagonista, ora figurante. A cada episódio se passa cerca de um ano depois do episódio anterior e encontramos Megan em uma cidade diferente. Ao término das 12 edições, Megan, a moça que começou as andanças com 17 anos, será uma mulher com seus trinta anos bem vividos.

A presença constante da personagem Megan e a proposta de ambientar cada história em uma localidade diferente constituem a unidade temática que torna a série coesa. Entretanto, não se trata da “história de Megan”. As histórias de Brian Wood acabam desconstruindo a idéia de “protagonista” enquanto herói indispensável à trama. Em LOCAL, Megan não é o centro do universo. Há dois aspectos principais que acabam dando o tom das histórias: o tempo presente e o acaso.

Os capítulos são independentes entre si. Não há flashbacks ou outros recursos que forneçam qualquer informação sobre Megan, então vamos conhecendo a personalidade da moça a partir dos momentos apresentados no decorrer da série. O amadurecimento da personagem é mostrado a cada edição de modo fragmentado, porém coerente. O que interessa é o momento, o episódio vivido. Jamais fica muito claro o que aconteceu no tempo de um ano que separa uma história da outra. Ao leitor só cabe imaginar. Portanto, o único tempo que realmente importa é o presente. E esse tempo presente, o tempo vivido em cada episódio, pode variar de 15 minutos a dois meses.

O acaso é, provavelmente, um dos aspectos mais importantes de LOCAL. É o acaso do dia a dia, o surpreendente acaso que irrompe do nada e pode nos deixar marcas profundas para toda uma vida. Megan não é o centro do universo. A história de Megan não é mais importante que a de outros personagens. Os roteiros de Brian Wood enfatizam isso constantemente. Cada capítulo é uma surpresa e detalhar a trama de cada um deles pode estragar o prazer do jogo.

Mas são surpresas despretenciosas e coerentes. Portanto, não espere nada no estilo O Sexto Sentido ou Os Outros. LOCAL mantém seus dois pés bem firmes no chão. Não são “reviravoltas surpreendentes” que acontecem, mas é a passagem de tempo suprimida entre uma história e outra que nos faz pensar sobre como momentos de uma mesma vida podem ser tão diferentes.

LOCAL será publicado no Brasil pela Editora Devir em dois volumes. O primeiro, LOCAL: Ponto de Partida, contendo os seis primeiros capítulos da série, acabou de ser lançado e pode ser encontrado nas livrarias e lojas especializadas. Esse volume apresenta ainda uma seção de esboços e estudos do desenhista Ryan Kelly. Foi incluída também uma seção de comentários dos autores, que acompanhava cada edição original. Nesses comentários, eles falam sobre o tema da história apresentada, dificuldades e curiosidades na sua produção e ainda sugerem uma “trilha sonora”: uma seção de músicas que inspiraram o trabalho.

LOCAL é um conjunto de histórias sobre o cotidiano, o acaso, o amadurecimento, a solidão e mais um monte de temas que vão pulando aqui e ali. É também um trabalho extraordinário de roteiro e narrativa visual. Vê-se, nas histórias e nos comentários de fim de capítulo, que Ryan Kelly e Brian Wood envolveram-se com honestidade e paixão à elaboração dessa obra.

LOCAL é indispensável pra quem gosta de quadrinhos e, principalmente, pra quem pensa que não gosta.

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Considerações atuais: Gente, eu fico muito empolgado com quadrinhos. Daí eu tenho que escrever alguma coisa na hora. Quando fiz esse post tava na vibe de Local. Na época só tinha saído o primeiro volume. Agora, já faz mais de um ano que saiu o segundo. E a qualidade se mantém. São bacanas os comentários dos autores, porque dá pra acompanhar como a história se desenvolve e como certos planos de início são substituídos por outros. Megan, que no começo não era uma protagonista, mas um elemento que ligava episódios, cresce como personagem. É muito bacana acompanhar essa transição. É interessante notar também que a série não era regular e aconteciam atrasos na produção. Por isso a história flui de maneira mais natural. Ela vai "acontecendo" no ritmo dos autores, sem se preocupar com imposições de prazos e tal. Coisas do mercado independente. Vale a pena.