quarta-feira, dezembro 28, 2011

As últimas horas de 2011

Pra mim, foi um ano inesquecível.
Vivi muita coisa.

Enfim...

Amanhã tou pegando estrada com amigos. Vamos rodar aí pelo Brasil.

Ficarei fora do ar pelas próximas 2 semanas, mas em 2012 estaremos de volta.

Queria agradecer a todos e a todas vocês que acompanham aqui o blog e desejar um excelente fim de ano e um extraordinário 2012.

Parafraseando o doutor Emmett Brown: "see you in the future".

;-)

quinta-feira, dezembro 22, 2011

2011 em uma lista de HQs favoritas

Todo mundo tá fazendo lista de melhores quadrinhos do ano, então eu vou fazer também. :-)

As regras aqui são as seguintes: são os quadrinhos que li e que mais gostei.

Alguns quadrinhos não foram lançados necessariamente em 2011, mas como eu os li pela primeira vez nesse ano, estão incluídos na lista.

Não há uma hierarquia, tipo, não há uma escolha de primeiro e segundo lugar. Todos os álbuns listados me conquistaram de alguma forma, então eu os listei por mês.

Vamos lá?

Janeiro: 676 Aparições de Killoffer 


Lançado em novembro de 2010, durante a Rio Comicon, esse livrão (25 x 36,5 cm) só chegou às minhas mãos em janeiro de 2011. E me impressionou muito. O francês Killoffer faz uma história autobiográfica alucinada, com páginas impactantes e situações totalmente surrealistas. Com cenas de escatologia e sodomia entre Killoffer e ele mesmo (?), não é uma leitura indicada pra toda a família. Ainda assim, é espetacular, pelos experimentalismos que faz com a linguagem dos quadrinhos. Detalhe: as letras da versão em português foram feitas de próprio punho pelo autor para se integrarem aos desenhos assim como na versão francesa.


Fevereiro: Noturno


Produzida pelo argentino Salvador Sanz, Noturno é uma extraordinária história que envolve dimensões paralelas, pássaros fabulosos e criaturas estranhas. A arte é belíssima, as cenas de metamorfose são hipnotizantes e o suspense mantém a gente ligado na trama até o fim. Coisa fínissima! Na Gibicon, que rolou em junho aqui em Curitiba, eu tive a oportunidade de conhecer Salvador Sanz. Sujeito muito legal.


Março: Surpreendentes X-Men volume 2 


Fazia muito tempo que eu não lia um gibi de super-herói que me fizesse empolgar. Com esses X-Men, eu senti como se tivesse voltado no tempo. Senti a alegria e o prazer de leitura que sentia quando era um moleque. Gibi de super-herói de primeira linha. Curti demais.


Abril: Almas Públicas 


Esse é um álbum que tem uma pegada completamente diferente. Sem super-heróis, pássaros fantásticos ou surrealismos autoreferentes, Marcello Quintanilha produz histórias, ou melhor, crônicas sobre pessoas tão comuns, tão brasileiras, que você pode até jurar que elas existem de verdade. E talvez existam. Almas Públicas mostra gente de tudo que é parte desse Brasil, cada uma com seu sotaque, com sua voz, com suas cores. Arte belíssima e ótimo texto, eu recomendo pra quem quer um ritmo diferente do que costuma se ver nas páginas de quadrinhos.


Maio: Três Sombras 


Cyril Pedrosa escreveu esse livro pensando em um casal amigo que tinha perdido o filho pequeno. É uma fábula intensa sobre amor e perda. Chegou pra mim numa época bem delicada na vida de minha família. Li e pensei muita coisa. Aprendi muita coisa naqueles dias.


Junho: Celluloid


Esse trabalho é um conto erótico contado apenas com imagens, na qual uma garota encontra um projetor Super-8 em seu apartamento e o liga. O espetacular são as ilustrações e o passeio pelas técnicas que Dave McKean proporciona. Coisa linda de ver.


Julho: Morro da Favela 


É muito bacana quando você termina de ler uma história e ela te deixa com um sorriso no rosto. No caso, a história do fotógrafo Maurício Hora contada em quadrinhos por André Diniz. Um material muito bacana, que podia ter seguido por um caminho de explorar a violência ou vitimizar os personagens, mas que apresenta o protagonista e sua comunidade de uma forma extremamente humana e cativante.


Agosto: Beasts of Burden 


Esse é outro livro de 2010. Ouvi falar muito bem dele pelo Twitter e um dia o danado apareceu lá na Itiban. Uma divertidíssima e enlouquecida mistura de filmes fofos de animais falantes com filmes de terror trash de zumbis, Beasts of Burden conta ainda com uma arte em aquarela belíssima feita pela Jill Thompson. Coisa pra  ler e ser feliz.


Setembro: Castelo de Areia 


Essa história me deu pesadelos. Ela é cruel e sem sentido,  exatamente como uma boa história de terror deve ser. Na trama, algumas pessoas, famílias, chegam a uma praia. Ali encontram o cadáver de uma moça que o mar trouxe. De repente, percebem que simplesmente não conseguem sair da praia. Mais ainda: alguma força estranha está fazendo com que envelheçam rapidamente e dentro de 24 horas ninguém ali estará vivo. Tenso.


Outubro: Achados e Perdidos / Valente para sempre



O quê? Duas? Pode isso? Pode sim. A lista é minha. Peguei esses quadrinhos lá no FiQ. Achados e Perdidos é uma história muito bacana sobre relações das pessoas umas com as outras e consigo mesmas, embalada pelo toque fantástico de um buraco negro. Valente para sempre é a história de um cãozinho que sofre por amor. Parece piegas, mas a história é muito bem contada, cheia de humor e boas sacadas e é impossível não se identificar com as desventuras do Valente.


Novembro: Sandman - Os Caçadores de Sonhos


Foi como ler uma história de Sandman que tivesse sido esquecida de publicar. Os desenhos de P. Craig Russell são um show e a trama está na média das histórias de Sandman, o que significa que é excelente.



Dezembro: A Chegada


A exemplo de Três Sombras,  A Chegada é uma história fantástica com elementos fabulosos que trata de assuntos extremamente comuns e preciosos: viagens, esperanças de vida nova em uma terra nova, saudades das pessoas queridas que deixamos para trás. E tem um visual todo baseado em um álbum de fotos antigas.


Teve muita coisa boa que ficou de fora dessa lista, como o livro Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, do Lourenço Mutarelli, que é um material bacana, que gostei muito.

Teve ainda Saino a percurá, Daytripper, Birds, Black KissLucille, Koko be Good, Fantasmópolis, O Beijo Adolescente, Quando eu cresci, Pequeno Pirata...e isso porque eu não conto séries contínuas como 100 Balas, Os Mortos Vivos, Ex Machina, Vertigo. E teve a conclusão de Preacher!

Ah, sim, tem mais uma coisa:

O MELHOR DE 2011: ASTERIOS POLYP



Eu disse que não ia utilizar hierarquias  nem coisas como primeiro lugar, nem segundo lugar. Mas Asterios Polyp é muito foda. Não só foi o melhor lançamento do ano (fácil), como provavelmente é também um dos melhores lançamentos da História dos quadrinhos. É o tipo de material que ainda vai ser objeto de estudo de qualquer um que pesquise e leve a sério a linguagem sequencial. Em todos os aspectos, o melhor do ano.

Enfim, nenhuma escolha ou classificação é justa e sempre tem algo legal que não ganha a atenção devida. Listas de "melhores" refletem mais o gosto e o estilo de quem as escreve do que uma verdadeira escala de "qualidade".

2011 foi um ano com ótimos lançamentos e acredito que o mercado de quadrinhos está se firmando cada vez mais, tornando-se mais estável, com uma ótima e saudável variedade de gêneros e estilos. Autores nacionais estão ganhando cada vez mais espaço, seja com editoras ou com auto-publicação. As perspectivas para 2012 são ótimas.

E é isso aí.

:-)

The Mindscape of Alan Moore

Ontem assisti ao documentário The Mindscape of Alan Moore.

Moore é um dos roteiristas de quadrinhos mais brilhantes de todos os tempos, se não for O mais brilhante. Ele é o responsável pelas tramas e palavras de obras como Watchmen, V de Vingança e A Liga Extraordinária.

O curioso é que o documentário não é sobre histórias em quadrinhos. O foco é a divulgação de ideias sobre shamanismo e magia. Porque, além de roteirista de histórias em quadrinhos, Alan Moore também é um mago.

Magia.

Você pode estar achando que esse documentário fala sobre um monte de bobagens, mas não se engane.
Trata-se de um trabalho onde Moore comenta sobre suas origens, sobre como começou a escrever para quadrinhos e sobre seu processo criativo.

Acontece que suas criações, suas ideias e bases estão profundamente relacionadas com sua visão sobre magia.  E é justamente a visão de Moore sobre magia que impressiona.  Seu discurso e argumentos são fascinantes e muito distantes de um exoterismo barato. Ele parece ser um maluco, mas seu raciocínio e ideias são muito organizados e coerentes.
"A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens, para operar mudanças de consciência." Alan Moore
Como é fim de ano e já vem aqueles dias mais tranquilos entre natal e ano novo, eu disponibilizo aqui o filme pra você conhecer um pouco mais das ideias desse senhor genial.

Espero que você se fascine tanto quanto eu.

Feliz Natal.
:-)









sexta-feira, dezembro 09, 2011

Plano de férias

Nessas férias vou me entregar às longas e deliciosas conversas sem propósito pelas tardes, noites e madrugadas.
Nessas férias vou me dar o prazer da leitura. Das caminhadas sem pressa ou destino. Da cerveja a qualquer hora do dia.
Do ócio sem culpa.

sábado, dezembro 03, 2011

O emprego

Sempre me incomodaram aquelas propagandas de universidades e cursos que tem como principal objetivo atender as demandas do "mercado de trabalho".

Isso porque eu acho o tal "mercado de trabalho" uma coisa que é na grande maioria do tempo uma força esmagadora, burra, estúpida, cruel e desumana.

Também acho os discursos motivacionais do tipo "vista a camisa da empresa" uma afronta à inteligência. No fundo, o que interessa é amaciar o "trabalhador" pra que ele possa oferecer o melhor rendimento possível pra empresa.

Você pode argumentar que não é bem assim, e eu concordo com você. Essas minhas opiniões só se aplicam à grande maioria do tal "mercado de trabalho". Experimente acompanhar a rotina dos vendedores de shopping e do pessoal das grandes redes de supermercado pra ver se eu estou errado.

Enfim, taí essa animação argentina, linda de doer e que mesmo com situações absurdas não está muito longe do nosso mundo real.

Olha aí o making of dela:


sábado, novembro 26, 2011

Nascimento de um Pinguim

Esses dias eu reassisti Batman Returns, aquele filme que o Tim Burton fez com a Michelle Pfeiffer de Mulher-Gato e o Danny DeVito de Pinguim. E curti. Bastante. Falo mais disso outro dia.

O que aconteceu foi que a Dedé precisava de ajuda num trabalho pra faculdade. Ela tinha que fazer uma sequencia de fotografias que mostrasse uma narrativa compreensível de algo acontecendo. Alguma coisa no meio do caminho entre uma história em quadrinhos e um stop motion.

Daí tive essa ideia: "me fotografa desenhando".

E desenhei o Pinguim. Algo assim bem solto, bem sem compromisso, mas achei que ficou maneiro. Daí coloco aqui algumas das fotos que a Dedé fez pra você ver o nascimento de um pinguim.























sexta-feira, novembro 25, 2011

"Sienquévitch"!

Eu sempre curti histórias em quadrinhos. Desde que eu me entendo por gente, tenho um gibi nas mãos.

Quando eu tinha uns 14 anos caiu uma bomba no meu colo: o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Era uma história intensa e poderosa em que meu ídolo de infância era mostrado como um velho amargurado, mergulhado num mundo violento e complexo.

O Cavaleiro foi a porta que me levou da salinha dos super-heróis para um vasto campo de possibilidades, ideias, cores, imagens e palavras. Eu comecei a reparar que não eram os personagens que levavam a uma boa história, mas os autores, aqueles caras que escreviam e desenhavam.

Por exemplo, tinha esse cara, o Bill Sienkiewicz. Eu comecei a reparar nele nas histórias dos Novos Mutantes, que vinham nos gibis do Hulk. Ele desenhava as histórias, mas fazia as coisas de um jeito um tanto diferente dos outros artistas.


Sienkiewicz juntou-se a Frank Miller e produziu uma graphic novel do Demolidor e a fantástica série Elektra Assassina. Todas as páginas internas pintadas com aquarela, acrílica, spray e sei lá mais o que. E um estilo de desenho caricato, extremamente expressivo, forte.


Era começo dos anos 90 e eu comecei a trocar ideias sobre quadrinhos com meus amigos no curso técnico, comecei a produzir algumas histórias minhas, entrei no curso de quadrinhos da Gibiteca.

Daí, em novembro de 1990, saiu Moby Dick, uma adaptação alucinante em quadrinhos feita pelo Bill Sienkiewicz. Ele conseguiu colocar todas as trocentas páginas do livro de Mellville em 48 painéis estupidamente bem ilustrados. Uma obra que me marcou pra caramba, que virou tema de conversas com meus amigos e que guardo com carinho até hoje.

E foi ela que eu escolhi pra levar por Bill Sienkiewicz autografar lá no FiQ.

O FiQ foi estupidamente maneiro. Teve muitas coisas boas e sensacionais, mas pra mim conhecer o Bill Siekiewicz foi o ponto alto. Foi a primeira coisa que fiz assim que cheguei no Festival.

E cheguei atrasado, porque meu voo de ida tinha sido cancelado. Pensei que ia perder a tarde de autógrafos, mas cheguei a tempo de pegar o último lugar na fila. E o homem estava lá, sorridente, supersimpático.

Lógico que não dá pra conhecer de verdade seu autor favorito numa fila de autógrafos, mas é bacana poder trocar algumas palavras, ver que a pessoa é simpática. Perguntei pra ele (velha curiosidade minha) como é que se pronunciava seu nome. E ele respondeu: "Ah, várias pessoas me perguntam isso. Mesmo a minha irmã pronuncia o nome da família errado. Pronuncia-se..."

Teve muita coisa maneira no FiQ, mas pra mim esse breve momento, essa contato simples foi muito legal. Coisa de tiete.

Mais tarde conheci um pessoal bem bacana na fila pra sessão de bate-papo com o Bill, que foi intermediada pelos grandes Sidney Gusman e Érico Assis. Bati foto na fila com os amigos segurando a senha como se fosse ingresso. Demos risadas. Bati foto de uma menininha que folheava Elektra assassina ao lado do pai.

No bate papo, Sienkiewicz foi sensacional. Ele respondeu perguntas, falou sobre processos de criação, contou histórias. Dava pra ver o quanto ele curtia estar ali. Seus olhos brilhando, o sorriso constante e tudo mais. Uma energia muito legal.

Essa energia esteve presente em todos os momentos do FiQ. E aconteceram muitas outras coisas legais, contato com outros artistas bacanas, descoberta de novos trabalhos e novos amigos.

Mas isso eu vou contando depois.


Rápido demais

O FiQ (Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte) rola de dois em dois anos. O último aconteceu agora em novembro, entre os dias 9 e 13.

Eu estive lá e faz tempo que quero sentar pra escrever alguma coisa a respeito, mas nunca dava tempo e o assunto meio que foi escapando, passando.

Isso sem contar a quantidade de posts, podcasts e matérias em sites especializados que já comentaram o evento.

O tempo vai passando e parece que as notícias, os acontecimentos já nascem velhos, desgastados, ultrapassados nessa internet. Parece que sempre temos que estar atualizados, mas no exato momento em que publicamos alguma coisa ou mandamos um twit o assunto já é coisa velha, já é passado e temos que imediatamente buscar um novo assunto, um novo tema.

E daí o lance de ter um blog vira algo "elástico e interminável". Meio parecido com trabalho.

Essa é uma sensação desagradável que tenho e não se estende só ao que vou escrever sobre o FiQ, mas a tudo que compartilho na internet. Como se eu ou qualquer um tivesse a obrigação de estar sempre atualizado, sempre na frente. Não ser "semana passada".

Isso é muito chato e não é assim que as coisas deveriam funcionar, eu acho. Mas isso é uma impressão pessoal minha.

Acredito que estou muito preso à impressões e está faltando reflexão. Muita velocidade e muito movimento, muita coleta e nenhuma preocupação em pensar, selecionar, manter, aproveitar. Ou mesmo produzir.

Ou mesmo ficar na varanda, anotando as ideias e desenhando num caderno de papel mesmo, palpável, real, que vai ser visto só por mim ou por um punhado de pessoas que posso olhar nos olhos diretamente.


segunda-feira, novembro 14, 2011

Partículas Elementares

Preparei uma coletânea de histórias e desenhos e montei um fanzine pra esse FiQ. Tem muita coisa que quem frequenta o blog já viu, mas tem uma história inédita ali no meio.

Eis o trabalho na íntegra pra você conferir:


Se quiser deixar sua opinião nos comentários sobre o material, ela é muito bem-vinda.

terça-feira, novembro 08, 2011

Garota suicida


No dia 1º de maio de 1947, Evelyn McHale, 23 anos, saltou do deck de observação do prédio Empire State, em Nova York.

Deixou uma nota onde estava escrito: "ele está muito melhor sem mim... eu não seria uma boa esposa para ninguém..."

A fotografia foi feita por Robert Wiles.

Essa foi a imagem que mais me assombrou/maravilhou/impressionou hoje.

domingo, novembro 06, 2011

FiQ: Preview

Estou um bagaço porque passei o fim de semana desenhando e montando um fanzine pro FiQ (Festival Internacional de Quadrinhos) que acontece essa semana em Belo Horizonte.

Estou superempolgado! Vai ter uma galera muito bacana lá e também Bill Sienkiewicz, um ídolo meu dos quadrinhos de longa data.

Além de tietar, vou divulgar meu trabalho com esse fanzine.

Deixo aqui umas fotos pra partilhar um pouco do que foi essa maratona de fim de semana.



Foi bacana porque me sentei e compilei material que estava arquivado faz um tempo (coisas que nem lembrava que tinha feito) e terminei uma hq que estava no rascunho há uma era.

Daqui a uma semana volto com histórias pra contar.

Até lá!

segunda-feira, outubro 31, 2011

Um pouquinho mais de indignação

Coisa besta, né?

Tiraram os shared itens do Google Reader. Agora, pra eu ter acesso aos meus amigos que partilhavam itens comigo, eu tenho que entrar no Google +. Bom, vamos por partes.

Se você não sabe o que é o Google Reader, é uma ferramenta oferecida pelo Google que permite que recebamos atualizações dos nossos sites e blogs favoritos. Shared itens eram itens, posts, imagens que partilhávamos com amigos. Isso foi abolido. Agora marcamos com "1+" que é visualizado no Google+.

O Google+, ou gugou plâs, como dizem as pessoas bacanas, é mais uma rede social, tipo Facebook.

Não sei como estava indo o Google+, se muita gente já tinha aderido, se muita gente estava usando. No começo teve aquela propaganda bacana, "venha, vai ser legal". Agora o "convite" é mais sacana: "junte-se a nós ou não veja mais os itens partilhados de seus amigos".

O negócio é que eu já tenho uma rede social no Facebook. Tinha Orkut e migrei pro FB e gosto mais dele. Usei um pouco o Google+ mas prefiro o Facebook.

E eu tinha os shared itens no Google Reader e adorava ler os compartilhamentos do Andreo, do Hiroshi, da Van, do Lielson e de mais uma patota. Vou sentir falta desse pessoal.

Agora, pra vê-los, eu teria que entrar no Google+.

"A gente se acostuma, amigo", me falaram.

O que me deixa puto da cara mesmo é que de repente percebo de maneira bem crua que todas essas redes, todas essas facilidades de compartilhamento não são nada democráticas. Inclusive o blog no qual escrevo agora.

Tudo tem um dono, um dono da bola que deixa a gente brincar, mas tem que ser onde ele quer e como ele quer. E a gente vai.

Sinto-me como um ingênuo que acabou de descobrir que estava sendo feito de idiota.

Negócio seria deixar pra lá e ir ler as coisas no Google+.

Mas tou de birra. Não quero entrar no G+ e pronto. Vou ficar de bubu e fazer beicinho.

Mas... vai que a coisa continua? E se, pra poder acessar os e-mails do G-Mail, eu também for obrigado a entrar no alegre círculo do Google+?

Isso é a vida das redes sociais.

E eu faço parte do gado, querendo ou não.

Dá pra sair, mas tem que abrir mão de muita coisa.

Essa é a liberdade que temos.

Vida besta...

Indignação

Nós, brasileiros, somos bons em muitas coisas. Mas uma coisa fazemos em especial: ficamos indignados.

Aliás, quando digo "nós" é preciso ser mais específico: falo dos brasileiros cultos, que testemunham as vergonhas que assolam nosso país, com sua revista Veja debaixo do braço e as palavras do Alexandre Garcia ditas no Bom Dia Brasil ainda fresquinhas na cabeça.

Ficamos indignados com a corrupção, com a safadeza, com a falta de caráter dos políticos. Se fossemos nós ou pessoas de moral tão correta quanto a nossa lá no lugar daqueles políticos safados, o Brasil seria um lugar muito melhor.

Acabaríamos com essas esmolas absurdas disfarçadas de assistencialismo e que sustentam vagabundos. Esmolas dadas aliás com o dinheiro que nós, aqueles que sustentam esse país, pagamos em nossos impostos. O que precisamos é educar esse povo, ensinar essa gente a trabalhar nas empresas das pessoas corretas desse país.

Precisamos é equilibrar melhor as coisas, selecionar melhor as pessoas que vão poder entrar na universidade, que vão poder ter um carro, que vão poder viajar de avião. Universidade sem essa palhaçada de cotas! Somos um país onde todos tem as mesmas chances, sem discriminação alguma. É uma afronta essa ideia de que há racistas no Brasil. Não somos racistas.

Precisamos é construir um país melhor, baseados nos valores da família brasileira e de Deus.

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Eu virei um cidadão classe média.

Antes eu pegava ônibus, morava longe, ralava pra conseguir uns trocados pra gastar em besteiras como cinema e livros.

Agora tou de boa. Acomodado. Barrigudo. E indignado.

Vou no show do Chico Buarque. Comprei meu ingresso.

Cheguei na fila às sete da manhã. Tinha 11 pessoas na minha frente. A venda de ingressos ia começar ao meio-dia.

Fila funciona assim: você chega. As pessoas que chegaram antes de você vão ser atendidas primeiro. As que chegaram depois, vão ser atendidas depois. A não ser nos casos de idosos e gestantes, conforme previsto na lei.

Lei é algo que, entre outras coisas, garante nossa civilidade. Estabelece algumas diretrizes para legitimar questões de bom senso.

Num mundo ideal, ao ver um senhor de 70 anos ou uma mulher que mal se aguenta em pé com sua barriga de nove meses, cederíamos nossa vez.

Num mundo ideal, nos importaríamos de verdade com nosso próximo, teríamos respeito por ele e não tentaríamos tirar vantagem.

Como não vivemos num mundo ideal, existem leis. E advogados que garantem meios de tirarmos vantagem amparados por essas leis.

Voltando pra fila pro ingresso do show do Chico Buarque... você pode ler aqui um relato do que aconteceu .

Uma série de pessoas maduras e equilibradas (é o que se esperaria de fãs do Chico Buarque), ansiosas para pegar o melhor lugar no teatro.

Pessoas que chegavam mais tarde e viam a fila e iam lá na frente pra ver se não tinha um conhecido que pudesse "quebrar um galho".

Pessoas que ficavam indignadas de ter tantas outras pessoas na sua frente.

Pessoas que ficavam indignadas de ver idosos e mulheres gestantes e com crianças de colo terem preferência no atendimento.

E no meio de todas essas pessoas, eu pensando "onde é que eu fui amarrar meu bode"...

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Agora tem um ex-presidente com câncer e indignado pondo a mãozinha na cintura e falando "ah, ele tem que ser atendido no SUS". Tem indignado desejando a morte do cara. O mesmo tipo que ficava indignado com o fato de um metalúrgico iletrado ter assumido a presidência do país.

O mesmo tipo de indignado que acha uma absurdo dizerem que há intolerância, preconceito e racismo no Brasil.

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Nós furamos fila, nós passamos por cima do direito dos outros, nós nos preocupamos só com nossos interesses. Nós não temos respeito pelos outros, não temos noção de nossos erros e preconceitos, nós não deixamos nosso ego ver nossos defeitos.

Por outro lado, nós temos intenção sim de fazer do país (e talvez do mundo) um lugar melhor. Se conhecemos realmente uma pessoa, não vamos querer que ela passe necessidade, que ela passe fome, que ela se prive de confortos que pra nós são tão corriqueiros.

Tudo é uma questão de se importar com seu semelhante.

Mas o mundo não é simples. Ele é uma grande faixa de cinzas entre o sim e o não, o certo e o errado.

Muito difícil justificar ou condenar determinadas ações.

Acho que deveríamos nos orientar pela solidariedade e pelo respeito ao próximo. Tratar o outro como gostaríamos de ser tratados e tal...

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Nunca vou saber dizer se o essencial das atitudes é algo simples assim.

Ou se tudo é realmente um emaranhado complexo de valores e perspectivas.

Ou se é tudo isso ao mesmo tempo.


Morro da Favela


Morro da Favela é a história do fotógrafo Maurício Hora, de sua família e sua comunidade do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, contada em quadrinhos por André Diniz. Não é um trabalho de ficção.

Quando comecei a ler Morro da Favela, eu tinha a impressão de que ia ver um enredo muito parecido com o filme Cidade de Deus.

Afinal, tanto o filme quanto a história em quadrinhos apresentam um fotógrafo que conta a história de sua infância e de sua família que se acabam se mesclando com a história da própria favela onde vivem.

Apesar desses pontos em comum, Morro da Favela e Cidade de Deus tem abordagens completamente diferentes do mesmo assunto. Enquanto o filme é brutal e dá bastante espaço para a violência, nos quadrinhos o destaque é dado à comunidade, às pessoas que vivem na favela. É um retrato muito humano e cativante.

O tráfico e a criminalidade estão presentes, mas sem a "estética da violência". Não há intenção de chocar o leitor com cenas brutais. Essas cenas acontecem sim, mas mais importante do que elas são suas consequências na vida das pessoas.

A arte de Diniz, que lembra muito as gravuras da literatura de cordel, ajuda também a diminuir o impacto das cenas violentas. É muito interessante o contraste que dá entre os desenhos e as fotografias do próprio Maurício Hora, que aparecem no final da edição.

Aliás, a fotografia é apresentada como mais do que uma "arte" ou uma "saída" para a vida de Maurício Hora: ela é um instrumento de transformação social, que auxilia na construção e valorização da identidade da comunidade.



Quando terminei de ler esse livro eu me senti muito bem. Uma sensação de alto-astral indescritível. Tem muita coisa barra pesada e triste, mas o que se destaca é a humanidade dos moradores do morro da Providência, sua vontade. Fica a impressão de que, apesar de tudo de ruim que tem no nosso país, a gente pode agir como uma comunidade e melhorar as coisas.

Enquanto eu lia, lembrava da oficina de roteiro que fiz com o próprio André Diniz, na Gibicon. Muito legal ver a aplicação prática das ideias e conceitos que ele tinha passado. A questão dos diálogos, as soluções gráficas... Essa oficina me fez aproveitar melhor a leitura do álbum.

Se estiver procurando algum quadrinho bacana pra ler, confira Morro da Favela. Ótima leitura e dá muito o que pensar.


André Diniz e Maurício Hora.


domingo, outubro 23, 2011

Asterios Polyp

Saiu pela Companhia das Letras e esse você precisa ler.

Quando a gente pega um livro, fica pensando sempre na história. O que acontece, tem personagens carismáticos, tem ação? É uma boa história? E a gente costuma medir isso pelos acontecimentos e pelos personagens envolvidos.

Asterios Polyp é um arquiteto que jamais edificou nenhum de seus projetos, mas ainda assim é considerado brilhante pelos seus pares e tornou-se professor universitário. É um sujeito racional e um tanto arrogante e bonachão.

Tudo começa com ele em seu apartamento. A sala está um caos, a pia da cozinha está entulhada, e no quarto, Asterios assiste um vídeo sozinho. Ele parece triste, parece mal, mas você só vai se dar conta do quão mal ele estava nesse momento quando tiver terminado de ler todo o livro.

Um relâmpago causa um incêndio no prédio e Asterios tem que abandonar seu apartamento com urgência. Só tem tempo de salvar três coisas: um canivete suíço, um relógio de pulso e um isqueiro.

Na rua, na chuva, vendo o apartamento queimar, começa a história.

O que Asterios fará agora? Por que ele estava triste? O que tem de especial em sua história? Em sua vida?

Daí você tem que ler o livro.

Mas deixa eu te dizer uma coisa: Asterios Polyp é daqueles livros, daquelas histórias e filmes, que vai muito além de "o que acontece" e "personagens carismáticos".

David Mazzucchelli, o autor, concebeu as mais de 300 páginas de uma obra que é ponto de partida pra discutir mil coisas. Talvez a principal seja a relação que uma pessoa tem com as outras e a relação que essa pessoa tem consigo mesma.

Ou talvez a ênfase esteja na questão dos pontos de vista, dos modos como cada um de nós constrói e dá significado ao seu próprio mundo. E o choque das diversas visões de mundo.

Enfim, é uma obra tão batuta, tão poderosa, tão cheia de ideias que dá pra passar horas e horas conversando sobre ela. Quando você termina de ler, dá vontade de ler de novo, dá vontade de chamar alguém pra contar o que você leu.

Outra coisa impressionante é a construção da história em si. Asterios Polyp é um show de design. Tanto no desenho dos personagens quanto no uso da linguagem sequencial, no layout das páginas, na integração de texto e imagem.

Aliás, cada personagem tem um desenho de balão e uma caligrafia específica para traduzir sua voz. Muitas vezes o autor utiliza também o estilo de desenho, a técnica e a cor, para materializar sensações, opiniões e emoções dos personagens. É fantástico.

Em seus diálogos e textos narrativos, Asterios Polyp está cheio de trocadilhos e jogos de palavras que deram muito trabalho na tradução, como o editor André Conti, da Companhia das Letras, contou aqui.

Asterios Polyp é uma história de amor, uma história de relações, uma história sobre arte e impulso criativo, sobre transformação, sobre tristeza e vazios impossíveis de preencher. Sobre ficar em paz consigo mesmo.


Asterios Polyp é a história em quadrinhos mais apaixonante em que coloquei minhas mãos esse ano. Recomendo mil vezes.

Tem muita gente falando sobre essa obra, então separei uns reviews e umas entrevistas. O primeiro link é uma análise fodástica que o Delfin escreveu lá pro Universo HQ. Os outros são entrevistas e reviews em inglês.

Minha dica? Esqueça os reviews por enquanto e vá ler Asterios Polyp. Depois você volta aqui e procura mais informações, porque, acredite em mim, você vai querer.

Tem muitos spoilers nos links abaixo. Embora Asterios Polyp tenha mais a oferecer do que "surpresas" no enredo, acredito que é melhor você descobrir a história por si.

Eis os links:

  • As análises alucinantes de Delfin sobre Asterios Polyp no Universo HQ.
  • Scott McCloud faz comentários sobre a linguagem sequencial em Asterios Polyp.
  • Uma resenha feita no Comic Book Resources: CBR.
  • David Mazzucchelli, o autor, em uma entrevista onde fala sobre seu trabalho e a exposição no MoCCA (Museum of Comic and Cartoon Art)
  • Uma conversa bem bacana entre Mazzucchelli e Dash Shaw (autor de Umbigo sem fundo) no The Comics Journal.
  • Uma análise de Asterios Polyp no Frontier Psychiatrist.

Asterios Polyp está nas livrarias, pela Companhia das Letras, com tradução do excelente Daniel Pellizzari e letreiramento da legendária Lilian Mitsunaga.

Vai lá. Tu vai gostar.

Eu garanto.