segunda-feira, janeiro 31, 2011

Quadrinhos Russos

"Ei, como são os quadrinhos na Rússia?"

"Bem... eles não eram... mas estão começando a ser."

Eu sempre gostei de histórias em quadrinhos, sabe? Meu pai me deu as primeiras revistinhas antes mesmo de eu aprender a ler e elas estão entre minhas memórias mais antigas. Tipo, os quadrinhos são pra mim o que a música é na vida de muita gente.

E daí conheci essa mocinha russa, a Anna Voronkova, lá no congresso Viñetas Serias em Buenos Aires, ano passado. Fiquei impressionado com a ideia de um lugar em que as HQs simplesmente não existiam. Não havia cultura de leitura, as páginas de quadrinhos simplesmente não faziam sentido pro povo. E ela contou sobre esse lugar: a Rússia.

(Sei que falando assim parece que eu acredito que em todos os lugares do mundo existem histórias em quadrinhos e sei que isso está bem longe da verdade. Ouvir as histórias de Anna fez eu me dar conta de que algo que é tão bacana e tão cheio de significado pra mim simplesmente não faz parte da vida da maioria das pessoas. E é muito estranho se dar conta de algo assim).

A Rússia tem uma fortíssima tradição gráfica: tem excelentes cartazistas, designers e ilustradores. Muita coisa boa que serve de referência visual vem de lá. As histórias em quadrinhos até poderiam ter se tornado um gênero gráfico a ser trabalhado pelos russos, se não estivessem vinculadas com a cultura de consumo norte-americana. Os russos viam nos quadrinhos uma representação do capitalismo, pelo seu aspecto de produto da indústria cultural e pelas ideias do "american way" divulgadas pelos personagens das tiras e revistas da primeira metade do século XX.

Existiram manifestações prévias de arte sequencial no material gráfico russo, algumas surpreendentemente antigas. Lubok é o nome dado a um tipo de gravura produzida que se caracterizava pela utilização de imagens, textos e pequenas narrativas. Abaixo você pode ver um lubok chamado Os ratos enterrando o gato (The Mice are Burying the Cat), feita no século XVIII. Essa gravura era uma sátira do funeral do czar Pedro, o Grande, feita por seus oponentes políticos. Olhe e pense em uma página de quadrinhos...



Houve ao longo do século XX algumas poucas publicações na Rússia que empregavam a linguagem dos quadrinhos, no sentido de utilizar imagens em sequencias narrativas acompanhadas ou não de texto. Essas publicações tinham cunho educativo ou de propaganda política. Mas, essencialmente, não existiam os quadrinhos do modo como nós os conhecemos aqui no ocidente, com todas as suas variações de gênero (infantil, super-herói, terror, underground, etc).

Portanto, as histórias em quadrinhos simplesmente não faziam sentido pro povo Russo.

Veio a queda do comunismo e a world wide web e, de repente, o pessoal começou a ter acesso ao material de quadrinhos produzido pelo mundo.

Num primeiro momento, alguém com espírito empreendedor imaginou que lançar álbuns em quadrinhos na Rússia ia ser um excelente negócio, visto o sucesso que tinham as publicações nos países europeus como França e Inglaterra. Nosso inspirado empreendedor optou pela adaptação de clássicos da literatura para os quadrinhos e lançou uma versão de Anna Karenina de Tolstoi.

O resultado foi um fracasso absoluto.

Os russos não compreendiam a linguagem dos quadrinhos, não sabiam o sentido de leitura, não tinham a bagagem para poder fruir a publicação. Mais ainda, acharam ofensivo que um tesouro da literatura russa tivesse seu texto recortado, deturpado (a história é atualizada para os dias de hoje) e acompanhado por ilustrações completamente dispensáveis.




Entretanto, a tradição de ilustração na Russia é muito forte. Basta dar uma olhada no Deviantart pra encontrar uma série de excelentes (e jovens) ilustradores russos. Além de oferecer um canal pra mostrar sua cara para o mundo, a internet também mostrou pra esses artistas o que estava sendo feito fora de seu país. E eles inevitavelmente toparam com os quadrinhos.

Daí, alguns começaram a fazer suas próprias histórias, simplesmente pelo prazer de criar HQs. Como não existe um mercado na Rússia pra esse trabalho, o pessoal organizou festivais de quadrinhos que acontecem em Moscou e em São Petersburgo. E os aficcionados fazem suas histórias em quadrinhos e imprimem pequenas tiragens e vão para esses festivais trocar ideias e gibis com outros aficcionados. E se isso não for uma produção de quadrinho alternativo, não sei o que é...

Para saber mais, visite os sites dos festivais:

Lá você pode conferir vídeos, fotografias e amostras de páginas. E tem muita coisa boa lá. Ah, se você souber ler russo, ajuda. Eu não sei nadinha de russo, e fico imaginando a vontade desse pessoal em entender a linguagem e o funcionamento de uma coisa que eles nunca tinham visto e que simplesmente não fazia parte da vida deles antes. E ainda começar a produzir seu próprio material. Isso me faz pensar que quadrinhos realmente podem ser apaixonantes, independente da formação cultural.

Anna Voronkova conta sua experiência com os quadrinhos. Estudante de idiomas, ela queria aprender a falar finlandês e percebeu que muita gente andava com aquelas revistinhas cheias de desenhinhos embaixo do braço. Curiosa, ela quis saber mais. A moça não fazia ideia de como se lia uma página de HQ. Não sabia se ia para direita ou para baixo, não sabia a ordem de leitura dos balões dentro de um quadrinho. Mas aprendeu a ler quadrinhos e com eles aprendeu a ler finlandês. Aliás, ela diz que aprendeu finlandês lendo Maus. (Uau!)

Esse post foi escrito com base nas anotações que fiz durante a apresentação da Anna no festival Viñetas Sérias. Quero agradecer a ela pela troca de ideias e suporte.

Fecho com algumas capas e páginas do material apresentado nos festivais de Moscou e Leningrado que ela me enviou.

Spasibo, Anna.

;-)







domingo, janeiro 30, 2011

Favoritos

Hoje, 30 de janeiro, comemora-se o dia do Quadrinho Nacional.

A razão da data é a publicação de Nhô-Quim, primeira "tira em quadrinhos" brasileira (ou algo bem próximo disso) no jornal Vida Fluminense em 1869. Nhô-Quim foi criação do artista Angelo Agostini.

Daí decidi fazer aqui uma lista dos meus top-five webcomics nacionais:


O Diário de Virgínia

Feita pela designer Cátia Ana, O Diário de Virgínia já ganhou elogios de Scott McCloud, autor dos mais badalados livros sobre liguagem dos quadrinhos: Desvendando os Quadrinhos e Desenhando os Quadrinhos. As histórias criadas por Cátia Ana exploram as possibilidades da web e usam e abusam de barras de rolagem e links. O resultado é muito bonito e embala os delicados textos e desenhos da autora.


Punny Parker

A ideia de Vitor Cafaggi era criar uma tirinha sobre a infância de Peter Parker, que, se você não sabe, é o sujeito que vira o Homem-Aranha. São tirinhas publicadas semanalmente, que vão muito além das referências nerds, sempre explicadas por Cafaggi em um texto complementar. Tem muito de Calvin & Haroldo e da turma do Snoopy nessas histórias, que tem um humor leve e um bocado de poesia sobre infância e amor. Ah, e o desenho de Cafaggi é muito bonito. Super-recomendo.


Quadrinnhofilia

É um blog que apresenta a produção do quadrinista José Aguiar. Encontramos suas tiras em quadrinhos, como Folheteen e projetos de álbuns, como Ernie Adams, (já publicado na Europa) e o futuro Vigor Mortis Comics. Em Folheteen (que já foi um álbum e agora virou série) a protagonista é a adolescente Malu e suas aventuras e comentários por um quotidiano ordinário, porém muito divertido.


Hellatoons

Eduardo Medeiros coloca um pouco de tudo em seu blog. Tem vídeos de entrevistas e documentários muito bacanas com quadrinistas e artistas, tem cobertura em quadrinhos sobre shows de rock. Meu material favorito são as histórias auto-biográficas do Sopa de Salsicha. O desenho de Medeiros é muito bacana e acho que você não pode deixar de ver essa história do Aquaman.


Manual do Minotauro

Laerte. Precisa dizer mais alguma coisa? Esse é o blog do mestre. Segundo sua última postagem, de 19 de janeiro, o blog passará por uma reforma. Mas por enquaanto está lá e vale a pena dar uma olhada nos trabalhos do homem. Sempre.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Quadrinhos que levaram prêmios de literatura

Dia desses reprisaram um programa sobre a Rio Comicon na Globo News. Apesar de bacaninha, o programa já começou com uma afirmação no mínimo polêmica: "As histórias em quadrinhos são um gênero literário".

O fato é que literatura e quadrinhos são linguagens diferentes. Usam signos e técnicas narrativas diferentes. Sua leitura é diferente. Isso não implica que quadrinhos tenham menos ou mais valor do que literatura, ou que não tenham sua própria poética. Apenas são coisas diferentes. Por isso dizer que "quadrinhos são um gênero literário" é um equívoco.

Ainda assim, essa é uma discussão que dá muito pano pra manga. Querer que uma história em quadrinhos concorra em uma premiação literária é como inscrever um filme em um festival de teatro. Linguagens diferentes. Entretanto, há diversos casos de premiações literárias que foram para histórias em quadrinhos. Aqui eu fiz um apanhado de algumas que achei mais interessantes.

Vamos lá...



Em 1991, Neil Gaiman (roteiro) e Charles Vess (desenhos) ganharam um World Fantasy Award pela história em quadrinhos Sonho de uma noite de verão (A Midsummer Night's Dream). Essa história foi publicada na edição número 19 da famosa série Sandman e narrava a primeira apresentação da peça homônima de Shakespeare. O destaque ficava com a plateia, composta pelas criaturas fantásticas citadas na peça.

A premiação dada a Gaiman e Vess causou polêmica porque argumentava-se que uma história em quadrinhos não poderia ganhar na categoria de Short Fiction (história curta). De fato, desde sua primeira edição em 1975, o World Fantasy Award prestigia autores de ficção científica e histórias fantásticas em diversas categorias, a maioria voltada para o formato "literário". E por formato literário, entenda histórias narradas através de sentenças escritas, dispensando o uso de imagens.

Os críticos do caso "Gaiman-Vess" argumentavam que existia (e existe) uma categoria do World Fantasy Award chamada Special Award - Professional (Premiação Especial para Profissionais) que contempla as histórias em quadrinhos, assim como animação, filmes e outros formatos relacionados à narrativa de temas fantásticos.

No fim das contas, Gaiman e Vess receberam o prêmio de melhor história curta e nos anos seguintes os quadrinhos passaram a ser enquadrados na categoria Special Award.

Anos mais tarde, em 2006, houve outra polêmica, agora envolvendo a indicação de American Born Chinese para o National Book Award, uma das premiações literárias de maior prestígio dos EUA.



Publicado no Brasil com o título O Chinês Americano pela Cia das Letras, a história em quadrinhos feita por Gene Luen Yang mistura mitologia chinesa e autobiografia, brincando com a narrativa e passeando por referências que vão do mangá aos sitcoms. O tema do trabalho são as diferenças culturais e sociais e a dificuldade de ser aceito e de se aceitar, mas o modo como Yang passa essa mensagem é muito criativo e estimulante. Uma obra que vale a pena ser conhecida.

Entretanto, Tony Long, da revista Wired, achou que a indicação de O Chinês Americano à categoria Young People's Literature do National Book Award foi inadequada. Em outubro de 2006 ele escreveu:

"Eu não li Chinês Americano, mas tenho certeza de que é bom. Provavelmente desgraçado de bom. Mas ainda assim é uma história em quadrinhos. E histórias em quadrinhos não deveriam ser indicadas ao National Book Awards em qualquer categoria que fosse. O prêmio deveria ser exclusividade de livros que fossem... feitos só com palavras".

Você pode ler na íntegra o texto (em inglês) de Long aqui. Embora escreva que não quer menosprezar as histórias em quadrinhos e que elas tem seu valor também, fica claro que, para Long, não se trata apenas de uma questão de linguagem, mas também de status: "livros de verdade" tem mais valor que "quadrinhos". Afinal, fazer um romance e, mais ainda, fazer um romance que seja digno que ganhar um NBA, é uma coisa "muito difícil".

Foram essas considerações infelizes de Long que despertaram toda a polêmica. Ao invés de focar na questão da forma e linguagem, a discussão descambou pro "valor" dos quadrinhos. O que passa a se discutir é a ideia de que "literatura é mais difícil, mais séria, portanto melhor que os quadrinhos que são naturalmente uma coisa mais descompromissada e pueril".

Diversas pessoas escreveram defendendo a participação do livro de Yang na premiação e criticando o texto de Long, entre elas o editor americano do quadrinho, Mark Siegel e o próprio Neil Gaiman.

Mark Siegel argumenta que a preocupação com o "formato" da obra acaba encobrindo o fato de que ela é um "VEÍCULO" e, portanto, o que importa é a "HISTÓRIA", o trabalho dos "AUTORES". Isto é, o que realmente conta é a qualidade do conteúdo veiculado. Para Siegel, embora existam diferenças entre as linguagens dos quadrinhos e do texto escrito, não são os aspectos formais que devem ser considerados, mas sim características como roteiro, personagens, narrativa...

Já Neil Gaiman diz que se Long está tão incomodado com a indicação de quadrinhos para prêmios de literatura, ele deveria arranjar uma máquina do tempo para poder mudar a História e impedir que Maus ganhasse um Pulitzer ou que Watchmen fosse incluído pela revista Time em sua lista com os 100 melhores romances do século XX. Mas se a gente olhar esses casos mais de perto...


Maus é escrita e desenhada por Art Spiegelman, apresentando a quadrinização de entrevistas que o autor realizou com seu pai, um sobrevivente de Auschwitz. Um dos aspectos mais marcantes de Maus é a antropomorfização dos personagens: judeus são representados como ratos, alemães como gatos, americanos como cães. Com certeza, é um dos trabalhos de quadrinhos mais impactantes de todos os tempos. Foi republicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005 (a primeira vez foi pela editora Brasiliense em 1987).

E Maus ganhou um Pulitzer.

Realizada pela Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, o Pulitzer é uma premiação destinada aos trabalhos de destaque nas áreas de jornalismo, literatura e música. Há uma categoria especial chamada Special Awards and Citations, voltada para trabalhos de excelência, mas que não se enquadram nas categorias tradicionais. E foi nessa categoria que Art Spiegelman e sua obra foram homenageados em 1992. Pra ter uma ideia, já receberam essa homenagem Bob Dylan (2008) e Ray Bradbury (2007).



Watchmen é possivelmente a mais complexa e melhor história de super-herois já feita. Esqueça o filme, leia o quadrinho. E, em 2005, quando a Time lançou sua lista de 100 grandes livros da língua inglesa, Watchmen estava lá. E se você visitar a página ALL TIME 100 Novels, vai perceber que na lista geral há lá no fim um tópico chamado "graphic novels", onde estão listadas outras obras, como Blankets, Bone e Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth. Entretanto, de toda a lista de graphic novels, só Watchmen figura junto aos "livros de palavras". A razão disso é algo que só quem montou a lista poderia explicar.

E, no fim, é assim que funciona. Apesar de determinarmos parâmetros para um concurso ou uma premiação, o que determina o resultado final é a palavra de seus "juízes". A arbitrariedade ainda pesa bastante.

Ainda assim, quadrinhos não são um gênero literário... muito embora possam se apropriar de elementos literários e da linguagem cinematográfica. Mas isso é outro assunto...

terça-feira, janeiro 18, 2011

Singles



Ontem o Hellatoons tuitou um link pra uma música do filme Singles - Vida de Solteiro. Isso me trouxe lembranças e fui atrás pra reassistir o filme.

Singles foi filmado em 1992 e contava as histórias de diversos jovens, da faixa de 20 a 23 anos que estavam saindo da tal adolescência e entrando no mundo adulto. Ele é ambientado na cidade de Seattle e tem como fundo o movimento grunge. Diversas bandas bacanas participaram da trilha sonora, como Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden.

Apesar de estar pra completar 20 anos, Singles é ainda um filme bem atual e divertido. Ele fala sobre aqueles famosos temas que vão nos interessar sempre: a busca por amor, o dia a dia dos relacionamentos, brigas, separações e putarias em geral.

Na época, devido ao seu tema, ao roteiro, ao carisma dos personagens e ao grande sucesso da trilha sonora, a Warner Brothers tentou convencer o diretor Cameron Crowe a transformar o filme em série de tv. O camarada recusou e passados uns bons meses a Warner lançou Friends. Se você assistir Singles, vai perceber que tem muito a ver com o universo de Rachel, Chandler e cia...

Na época eu assisti e curti muito esse filme. E curti muito reassistindo ontem também. E tive surpresas.

Numa cena, tem um casal de beijadores "calientes" que constrange nossos protagonistas. Quando percebi, era o Paul Giamatti (de Sideways, Anti-Herói Americano e Almas à venda) fazendo uma ponta danada de sem-vergonha como beijoqueiro. Tava praticamente um guri, ainda tinha cabelo...


Mais tarde, uma das personagens vai ser filmada para participar de uma espécie de agência de encontros que funciona à base de vídeos. E quem é o diretor que vai produzir o vídeo de nossa amiga? Quem? Quem?


Tim Burton. E você tem que ver como ficou "jóia" o vídeo que ele produziu. Hahaha!

Singles - Vida de Solteiro. Vale o aluguel.

Ou o download.

;-)

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Amor, Ratos e um pacote de Cheetos


Charlex é um estúdio novaiorquino que produz animações, filmes e efeitos especiais. São eles os responsáveis por esse desenhinho tão bacana. Sério, achei esses roedores muito fofos.

A técnica é importante, afinal, você precisa saber não só desenhar (ou modelar) personagens, mas saber animá-los, saber torná-los convincentes, carismáticos, "vivos". E daí precisa de mais uns ingredientes. Tipo destino, acaso, uma sensação de insegurança constante, uma força ameaçadora, amor. E um grande final.

Que mais você precisa pra contar uma história bacana?

Um "Ratatouille" feellings não?

domingo, janeiro 16, 2011

Litania das horas

O ano precisa começar, mas ele está indo tãããão devagar pra mim.

Os dias passam e as intenções não se concretizam. Horas caminhando pelas ruas, horas sentado na frente da tv, horas reabrindo o google reader e o tweed deck, como se fosse ali aparecer algo que iluminasse o dia. Mas não aparece, é claro.

Lendo livros que já saíram de moda.

Vendo filmes que já não são novidade.

Sonhando com histórias que tenho preguiça de por no papel.

Vendo sol e nuvens e noite e o sol de novo.

Ideias na cabeça, desenhos inacabados na prancheta. Devia ter viajado. Devia ter ido pra outra cidade, fazer nada em ares diferentes.

Shame on me. Shame on me.

Uma moça escreveu: "Quando se tem todo o tempo do mundo pra alguma coisa, o resultado é que não há resultado".

Mas a verdade é que eu não tenho todo o tempo do mundo. Ninguém tem.

A maior parte do meu tempo eu vendo para resolver problemas dos outros.

Mentira. A maior parte do meu tempo eu vendo pra ter dinheiro pra livros, roupas, casa.

Penso que preciso dessas coisas, desses confortos e mimos e comidas gostosas e vendo meu tempo para poder comprá-las. Eu me escoro nessas coisas. E deixo minhas ideias no fundo da cabeça, como fantasias que imagino que ainda não é hora de realizar. Eu me perco em mil pensamentos, mil razões e no fim das contas nada se faz e tudo permanece uma eterna possibilidade.

E logo não será nem isso, porque eu não tenho todo o tempo do mundo.

Ninguém tem.


sábado, janeiro 01, 2011

Uma manhã fictícia de 2011

Essa é a primeira manhã de 2011.

Estará chovendo? Fazendo sol? Estaremos juntos? Estaremos vivos?

Não sei, por que escrevo isso com antecedência. Aprendi a programar os posts e escrevo isso ainda em 2010, uma manhã de terça-feira. A última terça-feira de 2010. Nuvens e sol lá fora, um ventinho frio agora.

Então, esse é um exercício de ficção.

Imagino a primeira manhã de 2011 acordando ao lado dessa moça maravilhosa. Imagino a cor da barraca, imagino se teremos dormido. Imagino o gosto de ressaca, imagino textura de areia em meus dedos. Árvores lá fora? Dá pra ouvir o som do mar? Os outros bêbados vão nos chatear?

Quem sabe?

Ei, você que me lê. Um feliz ano novo pra você.