terça-feira, agosto 30, 2011

A catequese do padre Brown


Hoje choveu um bocado em Curitiba.

No ateliê de ilustração, comecei esse desenho sem muita vontade, mas acabei gostando do resultado final. Feita em cima de referência fotográfica, uma base à lápis e nanquim com pincel.

Acho que existe um personagem chamado padre Brown, da Agatha Crhistie, mas não tenho certeza.

O título me veio à cabeça enquanto eu pincelava.

domingo, agosto 28, 2011

Sobre Chico Buarque

Não sou muito ligado em música. Nunca fui. Não é a minha área.

Quero dizer, escuto música, mas não sou aquele cara que conhece a obra completa de alguma banda, sabe das histórias por trás dos bastidores e coisas assim. Escuto música e só.

Daí, recentemente, tive um surto de Chico Buarque.

Comprei, uns meses atrás, aquela coleção da Abril que trazia vinte CDs do carioca. Escutei uns e deixei a maioria encostado.

Dia desses comecei a ouvir, mais e mais, de novo e de novo, prestando atenção nas letras e lendo os livros que contavam um pouco sobre a produção de cada álbum.

Negócio com Chico Buarque é que o homem é extremamente bom no que faz. Algumas das músicas são simplesmente irretocáveis, coisa muito fina, obra consistente.

Meus favoritos são os dos anos 70. Construção e Meus Caros Amigos são excelentes. Gosto muito de Calabar. Não curto tanto Sinal Fechado porque sinto que não é um álbum verdadeiro do Chico. Ele faz os arranjos e dá interpretações, mas só tem uma composição de sua autoria, Acorda Amor, que ele ainda assinou com pseudônimo pra driblar a censura.

Depois ouvi Vida, que foi lançado em 1980. Tenho certeza de que já tinha ouvido as canções Morena de Angola e Fantasia quando eu ainda era criança. O álbum me bateu forte, me fez lembrar de coisas que há muito estavam perdidas na memória. E eu gostei muito.

Dos anos 80 ainda tem Almanaque e Vai Passar, que eu realmente curto. Acho que os outros álbuns lançados depois desses são legais, mas não tanto. Penso que isso se deve ao mergulho de Chico na literatura. A atenção criativa se focou nas letras, sei lá.

Ah, e teve a minha descoberta dos três primeiros álbuns, que eu relutava em escutar porque achava que o som não tinha nada a ver comigo. Mas fui ouvindo, ouvindo e acabei me encantando. Lançados entre 1966 e 68, os Chico Buarque de Hollanda volumes 1, 2 e 3 tem uma sonoridade que não existe mais. Uma pegada bacana, nostálgica e ao mesmo tempo atemporal. Melancolia e beleza.

Enfim...

Comecei a procurar coisas sobre o Chico. Queria saber mais principalmente sobre o processo criativo desse cara. O que ele pensava, como ele escrevia e tal.

Comprei um dvd com uma entrevista dele gravada em 1973 pra tv Cultura. Foi interessante mas eu queria mais.



Daí li o livro Histórias de Canções - Chico Buarque, de Wagner Homem, que conta historinhas de bastidores sobre muitas das composições. Livro muito bacana e leve de ler, muito divertido, que começou a jogar uma luz interessante sobre como esse homem cria.

Uma história legal é sobre Chico se "defendendo" das sugestões de Vinicius de Morais para Valsinha. Uma série de argumentos e polidez para aceitar certas ideias do mestre e elegantemente recusar outras.

Muito das informações dos livrinhos da coleção da Abril foram tirados desse livro do Wagner Homem.

Finalmente, topei com a coleção de DVDs que saiu em 2006. Esses foram muito bacanas.



Cada um tem um tema: cinema, romance, política, etc e mostra canções e a produção dessas canções dentro de um contexto temático específico.

No formato documentário, o próprio Chico vai tecendo comentários sobre sua obra. Um dos episódios que mais gostei é o número 10, Cinema.

Filmado em Paraty, é engraçado ver Chico andando pela cidade, de um lado pro outro, tentando parecer natural. Como ele mesmo diz, é um péssimo ator, e fico imaginando o diretor falando pra ele "vai caminhando, Chico!" e ele andando tenso, apressado, sem jeito, com uma mão no bolso e a outra se agitando, com a naturalidade de um andróide. "De novo, Chico". O legal é ver essas coisas nos extras do DVD.

Outra coisa bacana é ver como o Chico parece ser um sujeito gente boa. Em determinado momento, ele comenta sobre uma trilha sonora que compôs para um filme ainda em 1965. Era um de seus primeiros trabalhos como compositor profissional. "Olhando pra trás, eu vejo que não foi um bom trabalho. Mas eu fiz". Ele fala isso com uma despretensão sincera que me impressionou um bocado.

Já no episódio Uma Palavra, o debate gira em torno da produção literária. Além de comentar sobre as diferenças de escrever canções e romances, em uma cena muito bacana, Chico fala sobre o acaso no processo criativo. Sobre como uma palavra que aparece de repente ou um "acidente" sonoro ao tocar violão podem dar origem a uma canção. Deus lhe pague se originou de um acorde aparentemente sem sentido que o compositor ficou repetindo por dias sem saber bem por quê.

No meio desse conteúdo todo, entre performances musicais, material raro e entrevistas antigas, podemos pescar uma série de momentos onde Chico comenta seu método de trabalho, faz considerações sobre o processo criativo, a motivação de um artista, a negociação em torno do produto final de seu trabalho, as parcerias.

Um material riquíssimo e muito inspirador.

Chico Buarque é um sujeito que tem uma produção vastíssima. Talvez mitificado demais por alguns (veja essa aqui), mas ainda assim com uma obra de qualidade muito, mas muito acima da média.

Um cara que realmente é muito bom naquilo que faz.

terça-feira, agosto 23, 2011

Ainda sobre a necessidade de deixar vestígios...

Acompanhando o twitter da Samanta Floor, topei com esse vídeo muito interessante.


Deixar vestígios

Dia desses, nesse mesmo agosto, estava eu no bar e amigo meu me disse:

"Você não tem que fazer nada."

Falou por cima do copo, por cima das garrafas, falou pra mim cortando minha fala. E eu não estava só falando, eu metralhava sobre coisas que tinha visto, coisas que tinha lido, sobre ideias que me assustavam.

Sobre perda de tempo, sentir a vida se escoar e não estar produzindo nada. Sobre não ter nem chegado perto de tentar realizar aquelas fantasias de juventude que nos acompanham e sempre deixamos pra amanhã, pra semana que vem.

Fantasias do tipo escrever e publicar um livro, compor canções e gravar um disco, desenhar e ver impressa uma história em quadrinhos. Esse tipo de coisa que todo mundo pensa em fazer, em deixar uma marca, um vestígio para ser encontrado em prateleiras de livrarias, sebos, bibliotecas ou em blogs largados por aí.

Muitos textos, videologs e coisas assim sobre pessoas que falam sobre não perder tempo, sobre manter disciplina e produzir e fazer as coisas acontecerem. Algo como fazer um desafio a si mesmo e cumpri-lo, como aquele carinha que desenha todo dia um monstro diferente ou aqueles outros caras que se propuseram a criar e ilustrar 300 personagens no espaço de um ano ou ainda aqueles malucos que inventaram de desenhar um ornitorrinco diferente por dia até completar 100.

Tudo isso acontecendo e eu deixando a vida me levar, só sonhando e protelando. Procrastinando (ah, palavrinha da moda). Eu precisava fazer alguma coisa, me impor uma rotina, um desafio, qualquer coisa pra produzir, pra tentar começar a fazer algo que me levasse a deixar algum vestígio que prestasse. Não havia tempo a perder e

Era tudo isso que eu estava falando sem parar, sem respirar, ali no bar, quando meu camarada entornou num gole a batida de maracujá e me interrompeu com:

"Você não tem que fazer nada."

E foi meio estranho. Fiquei sem palavras. Pasmado. Era pra desistir? Pra me omitir? Ficar de braços cruzados? Abraçar a passividade?

"Não. Você só não tem que fazer nada. Não faça as coisas por obrigação. Obrigação de publicar, de se mostrar. Essa não é uma motivação digna. Faça as coisas por gosto. Faça porque você quer."

Sabedoria de bêbado.

Calei a boca aquela noite e tenho ficado quieto desde então.

Ruminando.

domingo, agosto 14, 2011

Quando eu cresci



Quando a gente cresce de verdade?

É quando os amigos imaginários param de conversar com a gente e vão embora? Ou é quando os amigos reais param de conversar com a gente e vão embora?

Eu acho que a gente se torna adulto mesmo quando percebe e aceita que o mundo não é exatamente do jeito que a gente imagina. Ou quando a gente se descobre e aceita que não somos exatamente do jeito que imaginávamos.

Mas sei lá. Isso é coisa de cada um.

Apareceu esse álbum em quadrinhos bacanudo chamado Quando eu cresci, escrito por Pierre Paquet e com arte de Tony Sandoval.

Publicado pela editora Ática, ele tem uma arte muito bonita e um formatão que dá ares de livro infantil. Até o texto é pueril, representando os pensamentos e perspectivas do protagonista Pepe, que tem 11 anos.

Tanto é que, quando fui comprá-lo, o álbum estava bem escondidinho na seção das crianças da livraria.

O que pode ser um problema.

Porque, veja, Quando eu cresci é uma história tão infantil quanto Alice no País das Maravilhas e O Pequeno Príncipe. Semelhante a essas duas obras, acompanhamos os passeios de uma criança, por um mundo fantástico e seus encontros e conversas com diversos personagens. Há um tom de inocência, mas ao mesmo tempo há algo sombrio, muito sombrio, espreitando Pepe.

De fato, Quando eu cresci é como Alice e o Pequeno Príncipe, mas com banhos de sangue. Literalmente.

E, afinal, o que é ser um adulto?

É abrir mão de fantasias e imaginação? Ou é aprender a lidar com o inexorável?

Você se torna adulto quando você se torna pai ou mãe?

Ou quando você percebe que está sozinho?

Se quiser saber mais sobre Quando eu cresci, tem bons textos aqui e aqui.

Mas a minha dica é: encontre o álbum e olhe as primeiras páginas, SÓ as primeiras. Se curtir, compre. E cuidado com os spoilers.

O final da história é impactante e vale a pena descobri-lo somente na leitura do álbum.

sábado, agosto 06, 2011

A oficina de Fanzines no N Design

Final de julho rolou a 21ª edição do N Design lá no Rio de Janeiro, na PUC. Foi uma experiência espetacular: conheci pessoas bacanas, fiz turismo, fui em festas, curti o Rio de Janeiro.

Agora estamos de volta pra mais um semestre, planejando aulas e fazendo uns projetinhos extras.

Enquanto eu montava o plano de aulas da nova disciplina optativa de Histórias em Quadrinhos (uhu!) para o curso de design, resolvi brincar com o Issuu, um site que simula a leitura de livros e revistas.

Provavelmente vamos usá-lo pra divulgar os trabalhos da disciplina. Por enquanto, fiz um teste publicando o material didático que montei pra oficina de quadrinhos e fanzines que lecionei no N.

Taí pra vocês conferirem. Se tudo der certo, em breve publico uns quadrinhos aqui...

quarta-feira, agosto 03, 2011

Capitão América

Dia desses conversando um amigo meu comentou que, quando vão fazer intercâmbio em certos países, os estudantes norte-americanos são orientados a dizer que são canadenses.

Essa... "animosidade" para com os sobrinhos do Tio Sam mostra um dos problemas enfrentados pelo pessoal que produziu Capitão América - O Primeiro Vingador. O filme podia não ser bem recebido, uma vez que seu protagonista literalmente veste a bandeira dos EUA. E o mercado mundial é muito importante para o faturamento de um filme desses.

É muito difícil dissociar toda a carga ideológica por trás do personagem. Entretanto, além da bandeira, o Capitão também é um super-herói. E é aí o acerto do filme.

Não se trata de uma obra sensacional, com sequencias de ação espetaculares em câmera lenta. O filme é bem comportado, modesto até. E carregadíssimo com uma inocência que há muito eu não via na tela.

O franzino Steve Rogers é um perdedor, mas tem um coração de ouro. Está disposto a dar a vida pelos outros não pela grandeza de seu país, mas por puro altruísmo. É sobre essa profunda convicção em fazer o bem ao próximo que é construído o herói. Um herói sim, daqueles de antigamente, com bom caráter e coração.

Num mundo cheio de wolverines, confesso que o bom-mocismo do Capitão me surpreendeu e conquistou a simpatia.

A patriotada americana está lá sim, mas é satirizada.

Único super-soldado, fruto de um experimento que jamais poderá ser repetido, Rogers é transformado em garoto-propaganda. Viaja os EUA fazendo números, cantando em palcos, usando o uniforme-bandeira. E quando vai se apresentar diante dos soldados, recebe zombarias e tomates.

Fiquei muito surpreso com essa abordagem. E os nazistas são apenas citados no filme. Não há uma suástica, uma bandeira. O símbolo do mal é a marca da Hidra, a fictícia agência de espiões do mundo dos quadrinhos.

É tudo um grande gibi, na acepção mais escapista da palavra. Há aventura, há fantasia, há total despretensão. E ainda assim é empolgante.

Como voltar a ser criança e ler uma das histórias do Capitão, quando a gente podia curtir as aventuras de um super-herói sem se sentir culpado por ideologias e colonialismos...