domingo, setembro 25, 2011

Conhecendo John Constantine

John Constantine é um dos meus personagens favoritos nas histórias em quadrinhos.

Se você só conhece ele daquele filme com o Keanu Reaves e quer saber mais sobre o sujeito, apareceu agora uma boa oportunidade com o lançamento de John Constantine - Hellblazer: Origens Volume 1: Pecados Originais. (Nossa que título comprido!)

Curto demais o personagem e essa revista traz as primeiras histórias lançadas aqui no Brasil lá em 1990. Pra mim, esses gibis tem um significado especial, como já falei aqui.

À parte a nostalgia, vale muito a pena comprar essa revista pela ótima qualidade do material apresentado.

John Constantine surgiu como um personagem coadjuvante nas histórias do Monstro do Pantâno escritas por Alan Moore nos anos 80. Essa informação, como diz o prefácio do volume, o leitor já está “careca de saber”.

E esse ótimo texto de introdução já é uma grata surpresa: traz informações sobre a trajetória editorial do personagem e contextualiza historicamente a evolução da série e suas tramas. Também promete um mapa da publicação de Hellblazer no Brasil para o próximo volume da série Origens.

Fico muito empolgado possibilidade de uma republicação organizada e completa das histórias do velho John. Seguindo o exemplo de outro título da Vertigo, Preacher, acompanhar as aventuras do Constantine por aqui sempre foi uma tarefa confusa.

Enfim, nessas primeiras histórias solo de Constantine, o roteirista Jamie Delano constrói boas situações de terror e suspense com um ritmo alucinante. Além disso, tem muitos pontos de vista políticos e comentários sociais em seu texto. Citações às eleições e à situação econômica criam um forte vínculo das tramas com o contexto histórico da década de 1980.

Curiosidade: a ideia era chamar a série de Hellraiser, mas teve problemas com a criação do Clive Barker. Daí o título ficou Hellblazer, algo como "explorador do Inferno".

Olha as histórias que vem nessa edição:

Fome e Um banquete de amigos são as duas partes de uma das melhores histórias de Hellblazer em todos os tempos.

Carregada de suspense e terror, foi a estreia solo de Constantine. Aqui são apresentadas as linhas gerais do seu estilo: cinismo, humor ácido e total ausência de escrúpulos entremeada com uma culpa pesadíssima. Também é visto pela primeira vez Chas, o amigo, escudeiro e motorista de táxi.

Na trama, um demônio africano chamado Mnemoth acaba sendo solto em Nova York. Para detê-lo, Constantine precisa realizar um sacrifício. Um sacrifício foda, véio.

Correndo atrás tem um estilo diferente. Os demônios representados não parecem evocar o horror, mas servir como apoio para a crítica sobre as eleições que seriam realizadas naquele ano de 1987. Embora interessante, esse enredo destoa dos demais e parece ser o mais fraco do volume.

Conhecemos a família de Constantine em À espera do homem. A garotinha Gemma, sua sobrinha, é sequestrada. A tensão criada durante a busca pela menina é eletrizante.

Quando Johnny volta marchando para casa parece escrita por Stephen King. Uma pequena cidade, à beira do abandono total, reúne-se em um fervoroso círculo de orações pedindo pela volta de seus filhos mortos na guerra do Vietnã. As consequências são funestas. Aqui, Constantine aparece como “o cara que escapou” para contar a história.

Finalmente, em Preconceito extremo, surge Nergal, o demônio. Ele massacra quatro hooligans e reconstrói seus corpos criando um monstro de quatro cabeças. A criatura é enviada para matar Zed, uma namoradinha de Constantine. O jeito como John resolve a parada é muito engraçado.

Esse capítulo reúne as pistas que foram espalhadas pelas outras tramas, como o Exército da Danação e os Cruzados da Ressurreição, e parece dar início a um enredo que se estenderá por mais episódios.

É interessante notar como Jamie Delano dá valor a detalhes em seu roteiro. Descrição de sons, devaneios sobre aspectos da vizinhança, comentários sobre as pessoas que simplesmente passam pela rua.

O texto ajuda a construir toda uma atmosfera pesada e sufocante. Serve como uma trilha sonora para a arte poluída e sombria de John Ridgway, simplesmente perfeita para dar forma às histórias. O acabamento “rabiscado” do desenhista parece evocar a fuligem das chaminés vitorianas, a sujeira de séculos que se acumula nas paredes de Londres.

Entretanto, a diagramação ousada às vezes fica muito confusa e quebra o ritmo de leitura. Há linhas de quadrinhos que devem ser lidas de uma página para outra e nem sempre isso fica claro.

Trata-se realmente das “origens” do personagem, da definição de seu estilo narrativo, sua personalidade e das linhas gerais que guiarão suas tramas. Também é um bom exemplo do tipo de história que se fazia nos anos 80 e que deu origem ao selo Vertigo.

Tomara que a série Origens obtenha sucesso e continue em frente, cobrindo os títulos de Hellblazer não lançados no Brasil. Mais ainda, que supere as “origens” e disponibilize com organização uma das séries mais bacanas dos quadrinhos.

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(Esse post apresenta uma variação da resenha que eu escrevi originalmente pro Universo HQ. Você pode ler o original aqui.)

sábado, setembro 10, 2011

Melancolia


Dor. A dor do vazio.

Quando a melancolia nos devorou tanto, tanto, que nossa comida favorita, quentinha em nossa boca, tem gosto de cinzas. Quando só queremos dormir, não nos mover, não pensar, não existir.

A depressão pode ser uma doença real, um desequilíbrio químico que precisa ser tratado clinicamente. Ela também pode ser uma tristeza inexplicável que nos acompanha dia a dia. Tudo está bem, tudo está no lugar, e ainda assim... ainda assim.

No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, Andrew Solomon tece uma série de considerações sobre esse mal que o afligiu. Buscou em abordagens psicológicas, médicas, filosóficas e mesmo místicas alguma explicação para esse fenômeno. Porque só quem sentiu o peso da verdadeira melancolia sabe o quanto ela pode ser incapacitante e devastadora.

Aliás, a própria expressão "demônio do meio-dia" alude à natureza da depressão. Enquanto os outros males cedem diante da "luz da razão", a melancolia parece se fortalecer, solidificando os argumentos para a falta de significado da vida.

E é isso a melancolia: a perda de significado, a certeza absoluta de que não há nada que justifique o vazio angustiante da existência.

Daí o filme de Lars von Trier.

O planeta Melancolia vai colidir com a Terra. Nosso mundo e toda a vida nele serão completamente destruídos. Mas a catástrofe global é só pano de fundo. O que importa é a tristeza de Justine.

Uma tristeza tão grande que nem a belíssima festa de casamento consegue espantar. Uma tristeza que cresce e a imobiliza e a sufoca e Justine transforma-se praticamente numa inválida, dependente dos cuidados da irmã Claire.

Claire por sua vez teme o planeta Melancolia. Aliás, teme o Fim do Mundo. O fim de TODA A VIDA. Coisa que seu marido John afirma que não vai acontecer. "Os cálculos dos cientistas garantem nossa segurança".

A medida que o filme avança e a destruição da Terra torna-se cada vez mais inevitável, Justine se fortalece, parece mais segura de si, enquanto Claire implode em desespero.

O filme foi definido pelo próprio Von Trier como uma obra "pessoal" (e qual filme dele não foi?). O homem passou por depressão, é pessimista, é talentoso e trouxe à luz o filme Melancolia.

Eu odiei o filme.

E não tem nada a ver com qualidade técnica, direção ou as belíssimas cenas ao som de Richard Wagner.

Tem a ver com a perspectiva da depressão que Von Trier tem. Irritante.

A depressão de Justine a torna especial. É por causa dessa depressão que ela ganha uma festa de casamento: uma tentativa das pessoas que se importam com ela de fazê-la feliz. Obviamente, não dá certo.

Daí, na pior crise depressiva, Justine é amparada pela irmã Claire, que suporta pacientemente toda sua fragilidade. Quando começa a ter certeza de que o Mundo inteiro será destruído, Justine começa a ganhar forças. A aniquilação de tudo parece fazê-la feliz. A certeza do fim da existência, não só a sua como a de todos os outros, devolve a Justine seu auto-equilíbrio.

Ela ridiculariza a ideia de Claire, que quer passar o fim do mundo com a irmã e uma taça de vinho. Ridícula demais a ideia de qualquer consolo que possa atrapalhar a desolação total. Justine dá apoio apenas ao sobrinho pequeno, ainda assim em um ato condescendente.

Enfim, ao meu ver Justine é um poço de egoísmo e mesquinharia que acredita que sua tristeza a faz melhor do que as outras pessoas. O pessimismo é sua sabedoria, o fatalismo sua força.

Por tabela, Justine representa também o garotão Von Trier. Que pode ser um puta diretor, mas também é um puta babaca. Babaca.

Gostei muito dos filmes do Lars Von Trier que assisti, mas a autocomplacência de Melancolia me enoja.

Se podemos medir a qualidade de um filme por critérios estéticos e pelo impacto que ele causa nas pessoas, talvez esse filme realmente seja muito bom.

Para mim, ele representa só um manifesto de um babaca, que talvez fale por uma geração de carentes de atenção e incapazes de lidar com sua própria tristeza e o Mundo (melhor explodi-lo, né?).

Ou talvez seja uma parábola da doença depressão que consumiu duas irmãs. Mas pra ver desse jeito eu preciso ter muita boa vontade.

Mas enfim, essa é só a minha opinião.

Vai lá conferir.

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PS: a estética das cenas grandiosas e belíssimas de Lars Von Trier me fez lembrar da propaganda do Sr. Escavadeira, nos Simpsons: