segunda-feira, outubro 31, 2011

Um pouquinho mais de indignação

Coisa besta, né?

Tiraram os shared itens do Google Reader. Agora, pra eu ter acesso aos meus amigos que partilhavam itens comigo, eu tenho que entrar no Google +. Bom, vamos por partes.

Se você não sabe o que é o Google Reader, é uma ferramenta oferecida pelo Google que permite que recebamos atualizações dos nossos sites e blogs favoritos. Shared itens eram itens, posts, imagens que partilhávamos com amigos. Isso foi abolido. Agora marcamos com "1+" que é visualizado no Google+.

O Google+, ou gugou plâs, como dizem as pessoas bacanas, é mais uma rede social, tipo Facebook.

Não sei como estava indo o Google+, se muita gente já tinha aderido, se muita gente estava usando. No começo teve aquela propaganda bacana, "venha, vai ser legal". Agora o "convite" é mais sacana: "junte-se a nós ou não veja mais os itens partilhados de seus amigos".

O negócio é que eu já tenho uma rede social no Facebook. Tinha Orkut e migrei pro FB e gosto mais dele. Usei um pouco o Google+ mas prefiro o Facebook.

E eu tinha os shared itens no Google Reader e adorava ler os compartilhamentos do Andreo, do Hiroshi, da Van, do Lielson e de mais uma patota. Vou sentir falta desse pessoal.

Agora, pra vê-los, eu teria que entrar no Google+.

"A gente se acostuma, amigo", me falaram.

O que me deixa puto da cara mesmo é que de repente percebo de maneira bem crua que todas essas redes, todas essas facilidades de compartilhamento não são nada democráticas. Inclusive o blog no qual escrevo agora.

Tudo tem um dono, um dono da bola que deixa a gente brincar, mas tem que ser onde ele quer e como ele quer. E a gente vai.

Sinto-me como um ingênuo que acabou de descobrir que estava sendo feito de idiota.

Negócio seria deixar pra lá e ir ler as coisas no Google+.

Mas tou de birra. Não quero entrar no G+ e pronto. Vou ficar de bubu e fazer beicinho.

Mas... vai que a coisa continua? E se, pra poder acessar os e-mails do G-Mail, eu também for obrigado a entrar no alegre círculo do Google+?

Isso é a vida das redes sociais.

E eu faço parte do gado, querendo ou não.

Dá pra sair, mas tem que abrir mão de muita coisa.

Essa é a liberdade que temos.

Vida besta...

Indignação

Nós, brasileiros, somos bons em muitas coisas. Mas uma coisa fazemos em especial: ficamos indignados.

Aliás, quando digo "nós" é preciso ser mais específico: falo dos brasileiros cultos, que testemunham as vergonhas que assolam nosso país, com sua revista Veja debaixo do braço e as palavras do Alexandre Garcia ditas no Bom Dia Brasil ainda fresquinhas na cabeça.

Ficamos indignados com a corrupção, com a safadeza, com a falta de caráter dos políticos. Se fossemos nós ou pessoas de moral tão correta quanto a nossa lá no lugar daqueles políticos safados, o Brasil seria um lugar muito melhor.

Acabaríamos com essas esmolas absurdas disfarçadas de assistencialismo e que sustentam vagabundos. Esmolas dadas aliás com o dinheiro que nós, aqueles que sustentam esse país, pagamos em nossos impostos. O que precisamos é educar esse povo, ensinar essa gente a trabalhar nas empresas das pessoas corretas desse país.

Precisamos é equilibrar melhor as coisas, selecionar melhor as pessoas que vão poder entrar na universidade, que vão poder ter um carro, que vão poder viajar de avião. Universidade sem essa palhaçada de cotas! Somos um país onde todos tem as mesmas chances, sem discriminação alguma. É uma afronta essa ideia de que há racistas no Brasil. Não somos racistas.

Precisamos é construir um país melhor, baseados nos valores da família brasileira e de Deus.

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Eu virei um cidadão classe média.

Antes eu pegava ônibus, morava longe, ralava pra conseguir uns trocados pra gastar em besteiras como cinema e livros.

Agora tou de boa. Acomodado. Barrigudo. E indignado.

Vou no show do Chico Buarque. Comprei meu ingresso.

Cheguei na fila às sete da manhã. Tinha 11 pessoas na minha frente. A venda de ingressos ia começar ao meio-dia.

Fila funciona assim: você chega. As pessoas que chegaram antes de você vão ser atendidas primeiro. As que chegaram depois, vão ser atendidas depois. A não ser nos casos de idosos e gestantes, conforme previsto na lei.

Lei é algo que, entre outras coisas, garante nossa civilidade. Estabelece algumas diretrizes para legitimar questões de bom senso.

Num mundo ideal, ao ver um senhor de 70 anos ou uma mulher que mal se aguenta em pé com sua barriga de nove meses, cederíamos nossa vez.

Num mundo ideal, nos importaríamos de verdade com nosso próximo, teríamos respeito por ele e não tentaríamos tirar vantagem.

Como não vivemos num mundo ideal, existem leis. E advogados que garantem meios de tirarmos vantagem amparados por essas leis.

Voltando pra fila pro ingresso do show do Chico Buarque... você pode ler aqui um relato do que aconteceu .

Uma série de pessoas maduras e equilibradas (é o que se esperaria de fãs do Chico Buarque), ansiosas para pegar o melhor lugar no teatro.

Pessoas que chegavam mais tarde e viam a fila e iam lá na frente pra ver se não tinha um conhecido que pudesse "quebrar um galho".

Pessoas que ficavam indignadas de ter tantas outras pessoas na sua frente.

Pessoas que ficavam indignadas de ver idosos e mulheres gestantes e com crianças de colo terem preferência no atendimento.

E no meio de todas essas pessoas, eu pensando "onde é que eu fui amarrar meu bode"...

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Agora tem um ex-presidente com câncer e indignado pondo a mãozinha na cintura e falando "ah, ele tem que ser atendido no SUS". Tem indignado desejando a morte do cara. O mesmo tipo que ficava indignado com o fato de um metalúrgico iletrado ter assumido a presidência do país.

O mesmo tipo de indignado que acha uma absurdo dizerem que há intolerância, preconceito e racismo no Brasil.

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Nós furamos fila, nós passamos por cima do direito dos outros, nós nos preocupamos só com nossos interesses. Nós não temos respeito pelos outros, não temos noção de nossos erros e preconceitos, nós não deixamos nosso ego ver nossos defeitos.

Por outro lado, nós temos intenção sim de fazer do país (e talvez do mundo) um lugar melhor. Se conhecemos realmente uma pessoa, não vamos querer que ela passe necessidade, que ela passe fome, que ela se prive de confortos que pra nós são tão corriqueiros.

Tudo é uma questão de se importar com seu semelhante.

Mas o mundo não é simples. Ele é uma grande faixa de cinzas entre o sim e o não, o certo e o errado.

Muito difícil justificar ou condenar determinadas ações.

Acho que deveríamos nos orientar pela solidariedade e pelo respeito ao próximo. Tratar o outro como gostaríamos de ser tratados e tal...

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Nunca vou saber dizer se o essencial das atitudes é algo simples assim.

Ou se tudo é realmente um emaranhado complexo de valores e perspectivas.

Ou se é tudo isso ao mesmo tempo.


Morro da Favela


Morro da Favela é a história do fotógrafo Maurício Hora, de sua família e sua comunidade do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, contada em quadrinhos por André Diniz. Não é um trabalho de ficção.

Quando comecei a ler Morro da Favela, eu tinha a impressão de que ia ver um enredo muito parecido com o filme Cidade de Deus.

Afinal, tanto o filme quanto a história em quadrinhos apresentam um fotógrafo que conta a história de sua infância e de sua família que se acabam se mesclando com a história da própria favela onde vivem.

Apesar desses pontos em comum, Morro da Favela e Cidade de Deus tem abordagens completamente diferentes do mesmo assunto. Enquanto o filme é brutal e dá bastante espaço para a violência, nos quadrinhos o destaque é dado à comunidade, às pessoas que vivem na favela. É um retrato muito humano e cativante.

O tráfico e a criminalidade estão presentes, mas sem a "estética da violência". Não há intenção de chocar o leitor com cenas brutais. Essas cenas acontecem sim, mas mais importante do que elas são suas consequências na vida das pessoas.

A arte de Diniz, que lembra muito as gravuras da literatura de cordel, ajuda também a diminuir o impacto das cenas violentas. É muito interessante o contraste que dá entre os desenhos e as fotografias do próprio Maurício Hora, que aparecem no final da edição.

Aliás, a fotografia é apresentada como mais do que uma "arte" ou uma "saída" para a vida de Maurício Hora: ela é um instrumento de transformação social, que auxilia na construção e valorização da identidade da comunidade.



Quando terminei de ler esse livro eu me senti muito bem. Uma sensação de alto-astral indescritível. Tem muita coisa barra pesada e triste, mas o que se destaca é a humanidade dos moradores do morro da Providência, sua vontade. Fica a impressão de que, apesar de tudo de ruim que tem no nosso país, a gente pode agir como uma comunidade e melhorar as coisas.

Enquanto eu lia, lembrava da oficina de roteiro que fiz com o próprio André Diniz, na Gibicon. Muito legal ver a aplicação prática das ideias e conceitos que ele tinha passado. A questão dos diálogos, as soluções gráficas... Essa oficina me fez aproveitar melhor a leitura do álbum.

Se estiver procurando algum quadrinho bacana pra ler, confira Morro da Favela. Ótima leitura e dá muito o que pensar.


André Diniz e Maurício Hora.


domingo, outubro 23, 2011

Asterios Polyp

Saiu pela Companhia das Letras e esse você precisa ler.

Quando a gente pega um livro, fica pensando sempre na história. O que acontece, tem personagens carismáticos, tem ação? É uma boa história? E a gente costuma medir isso pelos acontecimentos e pelos personagens envolvidos.

Asterios Polyp é um arquiteto que jamais edificou nenhum de seus projetos, mas ainda assim é considerado brilhante pelos seus pares e tornou-se professor universitário. É um sujeito racional e um tanto arrogante e bonachão.

Tudo começa com ele em seu apartamento. A sala está um caos, a pia da cozinha está entulhada, e no quarto, Asterios assiste um vídeo sozinho. Ele parece triste, parece mal, mas você só vai se dar conta do quão mal ele estava nesse momento quando tiver terminado de ler todo o livro.

Um relâmpago causa um incêndio no prédio e Asterios tem que abandonar seu apartamento com urgência. Só tem tempo de salvar três coisas: um canivete suíço, um relógio de pulso e um isqueiro.

Na rua, na chuva, vendo o apartamento queimar, começa a história.

O que Asterios fará agora? Por que ele estava triste? O que tem de especial em sua história? Em sua vida?

Daí você tem que ler o livro.

Mas deixa eu te dizer uma coisa: Asterios Polyp é daqueles livros, daquelas histórias e filmes, que vai muito além de "o que acontece" e "personagens carismáticos".

David Mazzucchelli, o autor, concebeu as mais de 300 páginas de uma obra que é ponto de partida pra discutir mil coisas. Talvez a principal seja a relação que uma pessoa tem com as outras e a relação que essa pessoa tem consigo mesma.

Ou talvez a ênfase esteja na questão dos pontos de vista, dos modos como cada um de nós constrói e dá significado ao seu próprio mundo. E o choque das diversas visões de mundo.

Enfim, é uma obra tão batuta, tão poderosa, tão cheia de ideias que dá pra passar horas e horas conversando sobre ela. Quando você termina de ler, dá vontade de ler de novo, dá vontade de chamar alguém pra contar o que você leu.

Outra coisa impressionante é a construção da história em si. Asterios Polyp é um show de design. Tanto no desenho dos personagens quanto no uso da linguagem sequencial, no layout das páginas, na integração de texto e imagem.

Aliás, cada personagem tem um desenho de balão e uma caligrafia específica para traduzir sua voz. Muitas vezes o autor utiliza também o estilo de desenho, a técnica e a cor, para materializar sensações, opiniões e emoções dos personagens. É fantástico.

Em seus diálogos e textos narrativos, Asterios Polyp está cheio de trocadilhos e jogos de palavras que deram muito trabalho na tradução, como o editor André Conti, da Companhia das Letras, contou aqui.

Asterios Polyp é uma história de amor, uma história de relações, uma história sobre arte e impulso criativo, sobre transformação, sobre tristeza e vazios impossíveis de preencher. Sobre ficar em paz consigo mesmo.


Asterios Polyp é a história em quadrinhos mais apaixonante em que coloquei minhas mãos esse ano. Recomendo mil vezes.

Tem muita gente falando sobre essa obra, então separei uns reviews e umas entrevistas. O primeiro link é uma análise fodástica que o Delfin escreveu lá pro Universo HQ. Os outros são entrevistas e reviews em inglês.

Minha dica? Esqueça os reviews por enquanto e vá ler Asterios Polyp. Depois você volta aqui e procura mais informações, porque, acredite em mim, você vai querer.

Tem muitos spoilers nos links abaixo. Embora Asterios Polyp tenha mais a oferecer do que "surpresas" no enredo, acredito que é melhor você descobrir a história por si.

Eis os links:

  • As análises alucinantes de Delfin sobre Asterios Polyp no Universo HQ.
  • Scott McCloud faz comentários sobre a linguagem sequencial em Asterios Polyp.
  • Uma resenha feita no Comic Book Resources: CBR.
  • David Mazzucchelli, o autor, em uma entrevista onde fala sobre seu trabalho e a exposição no MoCCA (Museum of Comic and Cartoon Art)
  • Uma conversa bem bacana entre Mazzucchelli e Dash Shaw (autor de Umbigo sem fundo) no The Comics Journal.
  • Uma análise de Asterios Polyp no Frontier Psychiatrist.

Asterios Polyp está nas livrarias, pela Companhia das Letras, com tradução do excelente Daniel Pellizzari e letreiramento da legendária Lilian Mitsunaga.

Vai lá. Tu vai gostar.

Eu garanto.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Fantasy


Essa animação foi feita como clipe pra música Fantasy do DyE. Foi dirigida por Jérémie Périn e mistura de maneira muito bacana adolescentes, uma piscina, a descoberta do sexo e um bocadinho de animês (tipo a sequência final de Akira) com os elementos de The Call of Cthulhu, do Lovecraft.

Muito alucinante.

domingo, outubro 16, 2011

Droit de Regards

Em 1995 a editora Makron Books publicou no Brasil o mágico livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. Um livro teórico sobre quadrinhos escrito em quadrinhos. Coisa fina.

McCloud realiza uma série de considerações sobre as propriedades da linguagem como a construção do tempo, os tipos de transição, a relação de imagens e palavras, entre outros temas. Embora não empregue a terminologia acadêmica, Desvendando os quadrinhos tem um dos capítulos mais felizes que já li para explicar o conceito de semiótica. O exemplo com o quadro de Magritte é genial.

Logo no princípio, McCloud procura definir os quadrinhos de maneira precisa, "estilo dicionário":



Repare que essa definição não exclui histórias em quadrinhos sem texto algum (histórias "mudas") e não há restrição alguma quanto ao tipo de imagem que pode ser empregada.

O principal é a questão das imagens justapostas que permitam ao observador criar entre elas uma relação de significado.

A partir dessa definição, McCloud ainda sugeriu que a linha histórica dos quadrinhos incluísse como exemplos arte pré-colombiana, tapeçarias medievais, monumentos do império romano e pintura egípcia...

Quanto ao tipo das imagens, a arte de uma história em quadrinhos pode ser desenhos preto e branco ou coloridos, realistas ou estilizados, à lápis ou tinta, pintados à aquarela... ou fotografias.

Fotonovelas foram um tipo de histórias em quadrinhos muito populares, no Brasil principalmente entre 1950 e 1970, geralmente relacionadas a enredos românticos e açucarados.

Na França, a fotógrafa Marie-Françoise Plissart realizou uma série de interessantes experiências com fotonovela, explorando as possibilidades narrativas que a combinação das linguagens da fotografia e dos quadrinhos oferecem.

Em 1985, ela publicou o álbum Droit de Regards, uma fotonovela complexa, sem texto algum, que é um verdadeiro deleite visual. Para que vocês possam ter uma ideia, apresento algumas páginas da obra:







Cada figura acima mostra um conjunto de duas páginas do livro aberto.

Repare que a disposição das fotos (ou quadrinhos) na página, corresponde ao layout de uma página de hq tradicional.

O trabalho da autora, sua direção de arte, enquadramento, iluminação, composição dos elementos, é tão fundamental para a construção de significado da obra quanto a relação que se estabelece entre as fotografias devido à sua justaposição, sequência e colocação dentro do grid da página.

São cerca de 100 páginas de narrativa visual, onde nosso olhar se perde em fotografias dentro de fotografias, portas que emolduram portas, espelhos que se refletem infinitamente. Mulheres se amam, casais discutem, pessoas se perseguem. Hipnotizante.

As possibilidades de leitura são diversas e no final há um texto de Jacques Derrida que enriquece ainda mais a experiência do livro. Em 2010, Droit de Regards foi republicado e pode ser adquirido na Amazon francesa.


Trata-se de um material belíssimo e instigante, que merece ser conhecido. Torcer pra que isso seja publicado aqui no Brasil algum dia. Ou apelar pras importações.

sábado, outubro 15, 2011

Repercussões, consequências e feliz dia do professor!

Eu li um artigo da revista Veja, não concordei com ele, escrevi um post.

Por alguma razão, o artigo atingiu um nível de audiência e repercussão como nunca vi na história do meu bloguinho. Entenda, isso aqui é um blog pessoal, eu posto aqui opiniões, desenhos, histórias. Tenho um acesso de, em média, 30 pessoas por dia.

No dia do tal post, tive 1023 visitas. Uau. Fiquei atordoado.

E tive atenção de pessoas que imagino que sejam importantes: um pesquisador e o jornalista da revista que preencheram comentários que excedem (e muito) o meu post original. Os comentários procuravam debater e responder os pontos que apontei no meu post. Respondi alguns comentários. Teve um debate ou algo assim que se estendeu para o blog do Paulo Ramos.

Qual a conclusão desse debate?

A minha conclusão é que as coisas continuam como antes no quartel de Abrantes. Eu continuo pensando que o artigo é equivocado e os visitantes continuam achando que... bom, leia os comentários e tenha suas própria interpretações.

Mas o que eu achei interessante foram amigos que me disseram que eu não devia ter escrito o post. Que eu deveria ter ignorado a "idiotice da Veja" ao invés de atrair atenção pra ela. Disseram que eu fiz propaganda e "enfatizei a relevância da revista Veja".

Daí eu fico pensando: como assim?

Eu tinha que ficar quieto? Não escrever minha opinião? (E aquele post é isso: uma opinião).

E por que os dois convidados se incomodaram tanto com o texto do post? Eles atingiram muito mais pessoas do que eu com meu post, divulgaram suas ideias pra muito mais gente. Qual o ponto de vir promover um "debate" aqui, de se desgastar tanto escrevendo comentários de 40 mil caracteres? Novamente, leiam os comentários dos visitantes e tirem suas conclusões.

Não concordo com o artigo. Achei ele bem equivocado e eu acho, e essa é minha opinião, que ele é sim um bocadinho elitista e pedante. Desculpe, por favor, é só a minha opinião.

Também é minha opinião que o Enem não "contribui para construir um país iletrado". Não sei dizer se o Enem é uma coisa boa e não estou a fim de defendê-lo. Mas acredito que talvez não seja a prova de admissão pra Universidade o problema, e sim a educação que precede a Universidade.

Se a educação que precede a Universidade é vista como um "treino" pra essa prova de admissão (Enem, Vestibular, ou seja o que for) e as disciplinas e conteúdos desse ensino fundamental precisam se justificar pelas proporções que ocupam nessa prova... poxa, então tem muito mais coisa errada aí. O problema não é só o Enem.

Educação é um problema muito sério e complexo. Não tenho a fundamentação, o tempo disponível e a intenção de debater assunto dessa importância aqui. Mas aproveito a chance pra desejar um feliz dia do professor a todos os envolvidos com essas delicadas e penosas questões da educação.

Minha consideração maior aqui é que se um meio de comunicação qualquer pode expressar sua "opinião", nós podemos nos manifestar a respeito disso legitimamente. Podemos e devemos questionar as informações que nos são passadas. E acho que podemos partilhar dessas opiniões com nossos pares e debatê-las.

Opiniões são movidas por valores, posicionamentos ideológicos, interesses políticos e econômicos, formação cultural. Não é a razão ou a argumentação que vai mudar esses valores e posições. Daí entra aceitar e respeitar as diferenças e apelar pra política e democracia para decidir as questões mais cruciais.

O debate, muitas vezes, resulta só em desgaste.

Minha opinião você já conhece.

Leia a dos outros, colete informações e forme a sua.

segunda-feira, outubro 10, 2011

Literatura e Quadrinhos. De novo.


Eu usei essa tirinha do Bill Waterson como epígrafe na minha dissertação.

Meu mestrado foi um estudo sobre a tecnologia vista através das histórias em quadrinhos de Lourenço Mutarelli. Se quiser, você pode ler a dissertação na íntegra aqui.

Esse fim de semana saiu na revista Veja uma reportagem chamada A pedagogia do Garfield. A intenção principal dessa reportagem é depreciar o Enem.

Para tanto, aponta o fato de que a "literatura está virtualmente ausente do Enem. Para os técnicos do MEC, o gato dos quadrinhos é mais relevante culturalmente do que Graciliano Ramos ou Castro Alves". Essa citação é a chamada da reportagem.

E daí o jornalista e crítico de livros Jerônimo Teixeira, autor da reportagem, prossegue com seu raciocínio. Vou colocar aqui os trechos que eu mais gostei. Olha só:

  1. "Nem precisa ler. O jovem que se submete ao Enem não precisa se preocupar com os livros. Um levantamento das questões de literatura de todas as provas do Enem (...) revela que o importante, mesmo, é saber interpretar uma história em quadrinhos".
  2. (Sobre o levantamento das provas do Enem realizado pelos pesquisadores da UFRGS) "As conclusões são desalentadoras. A começar pela valorização absurda das histórias em quadrinhos - o segundo gênero mais cobrado na prova".
  3. "Aparentemente, os iluminados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) - órgão do Ministério da Educação responsável pela elaboração da prova - consideram que um estudante pode entrar na universidade sem jamais ter lido Dom Casmurro, de Machado de Assis, ou Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

E Teixeira prossegue, deixando claro que acha um absurdo o "desprezo pelo passado", uma vez que o "Enem põe um peso desproporcional sobre a literatura produzida a partir do modernismo, desvalorizando a história e a tradição (...) Autores fundamentais (...) como Antônio Vieira, José de Alencar e Euclides da Cunha não tiveram nenhum texto citado na prova desde o seu início, em 1998".

Então... vamos lá.

Primeiro:

Como apontou o Paulo Ramos, se você somar todos os nomes citados na arte (presente na revista) que ilustra a citação 1 ali em cima, vai perceber que o argumento é falso. Não há um predomínio de questões sobre HQ. Acontece que há mais questões sobre especificamente a tira da Mafalda do que sobre Monteiro Lobato. Mas somando tudo e confiando na arte apresentada na reportagem, ao longo da história o Enem teve 17 questões sobre tiras de quadrinhos (Mafalda, Garfield, Hagar e Frank e Ernest) contra 78 questões sobre escritores (Drummond, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Chico Buarque e cia).

Mais uma coisa: interpretar textos e imagens não é tão elementar assim. Por incrível que pareça, algumas pessoas não conseguem entender uma tira de quadrinhos. Como a tira acima, do Calvin e Haroldo que ilustra esse post. Veja só, não é apenas entender o que o tigrinho está falando pro menininho, mas compreender o que isso quer dizer no contexto geral, nas interpretações extra-textuais que um leitor pode fazer. Já volto pra tirinha do Calvin.

Segundo:

Comentando o item 2 citado acima: histórias em quadrinhos NÃO são um gênero literário. Elas são uma mídia diferente, com linguagem própria e que exigem capacidades de significação diferentes das de um texto literário. Isso não quer dizer que uma hq seja melhor ou pior que um texto literário, só quer dizer que é diferente.

Terceiro:

"Um estudante pode entrar na universidade sem jamais ter lidoDom Casmurro, de Machado de Assis"? Pode? Fala sério.

A verdadeira literatura não pode ser obrigatória. Tem um monte de gente que leu Dom Casmurro e não entrou na faculdade, tem um monte de gente que leu Iracema e tem desvios sérios de caráter. Literatura não é coisa pra colocar em currículo, não é sinal de caráter.

Ler pode te fazer uma pessoa melhor sim, mas obrigar a literatura, transformá-la em pré-requisito pra você poder fazer qualquer coisa na vida é burocratizar algo que jamais deveria ser burocratizado. É matar todas as verdadeiras razões que poderiam te levar a ler um livro.

A gente lê porque a gente gosta, porque nos acrescenta e melhora como pessoas. Não podemos obrigar alguém a ler algo. Podemos valorizar a obra, mostrar um pouco do que nos maravilhou nela, partilhar nossas impressões e talvez a outra pessoa queira lê-la também.

"Você TEM que ler Machado porque é um CLÁSSICO" não me parece um bom argumento.

O mesmo vale para quadrinhos. Porque quadrinhos são uma mídia tão legítima quanto literatura ou cinema.

Daí vem a tirinha do Calvin lá em cima. No fim das contas, veja só, essas coisas, quadrinhos, literatura, cinema, teatro, não são imprescindíveis. Ninguém vai morrer se nunca mais ler um livro, ou nunca mais ver um filme.

Mas por outro lado, são coisas muito importantes. São coisas que nos alimentam, que nos inspiram e nos movem. Dão graça e alívio, levantam reflexões, fazem parte de nossa humanidade.

Podemos levar literatura e quadrinhos tão a sério quanto futebol. E pessoas já morreram por causa de futebol. Mas, com toda a paixão que possui, ainda é só um jogo.


sábado, outubro 08, 2011

Sobre Steve Jobs

Nunca tinha ouvido falar de Steve Jobs antes de assistir o "discurso de Stanford".

Na época, as palavras do homem mexeram muito comigo. Pode ser auto-ajuda, auto-condescendência ou o que você preferir, mas ainda hoje acredito muito nos valores que ele mencionou nesse discurso: fé, acreditar que as coisas podem fazer sentido, aceitar as porradas que a vida dá, seguir os instintos, esforçar-se pra mudar tudo aquilo que pudermos.

São coisas que importam pra mim.

Daí comecei a procurar saber um pouco mais sobre o Jobs, li um livro, vi artigos. Soube do terrorismo que ele praticava com os funcionários, a dureza com que dirigia a Apple. Ainda hoje li esse texto da Brainstorm 9.

Steve Jobs não era um cara sensacional.

Mas o que eu gosto nele é que parece que entre tantos defeitos e problemas tão sérios, ele deixou uma coisa ou outra que talvez tenham tornado o mundo um pouco melhor pra pelo menos algumas pessoas. E não estou falando das traquitanas da Apple.

Falo de palavras e atitudes que podem levar as pessoas a refletir. Seja como exemplo positivo ou como modelo a ser evitado, Jobs foi significativo.

E a grande pira é que todos nós somos assim. Alguns com defeitos mais gritantes, alguns muito mais discretos em sua existência, mas todos deixamos um legado, alguma coisa que faz diferença pra alguém. Todos fazemos isso, mesmo sem jamais perceber.

Enfim, valeu pelas conversas, Jobs.

E, se alguém ainda não viu, eis o tal discurso de Stanford:

Primeira parte:



Segunda parte:

terça-feira, outubro 04, 2011

Mamute


Quando fui assistir Mamute, não li nada, não vi trailer, não sabia do que se tratava. Minto: li uma sinopose que falava que pra conseguir sua aposentadoria, um senhor teria que viajar para os lugares onde tinha trabalhado e seu único meio de transporte era a velha moto modelo mamute.

O senhor em questão era interpretado pelo fodão Gérard Depardieu. E parece que o filme foi feito sob medida pra ele. De fato, além da moto, ele também pode ser o Mamute do título, gigantesco, velho, e perto da extinção.




Achei que ia ser um drama francês ou algo assim, mas a primeira surpresa foi descobrir que tratava-se de uma comédia. E descobri isso na sala de projeção mesmo, começando a dar risada de umas cenas completamente absurdas, como a festa de despedida da empresa. Depardieu, aliás, Serge, está se aposentando e os colegas fazem uma festinha animada que nem sala de espera de dentista.

Depois Serge começa a se adaptar à vida de aposentado, fazendo coisas simples como ir ao mercado e tentar consertar o trinco da porta. Os resultados me fizeram lembrar dos filmes do Jacques Tati. Muito bom!

Daí ele descobre que pra pegar o dinheiro da aposentadoria, precisa de comprovantes de todos os lugares que trabalhou. Como o carrro está com o para-brisas quebrado, o único veículo disponível é a velha moto Mamute, esquecida na garagem há anos.

Quando Serge descobre a lona da moto, começam as primeiras surrealidades do filme.

E a viagem é uma sucessão de reencontros com lembranças, familiares distantes e, ao mesmo tempo, uma descoberta de tudo que a vida pode oferecer.

Aliás, é interessante como o filme começa e segue silencioso, sem música incidental alguma. É quando Serge pega a estrada com a Mamute que a música-tema é ouvida pela primeira vez

Um barato é o encontro de Serge com sua sobrinha, uma moça pra lá de maluca que faz umas esculturas bizarríssimas com bonecas e bichinhos de pelúcia. Ela parece que está chapada o tempo todo.


Convidado pela sobrinha pra sair curtir o dia, Serge embarca no lance, fuma, bebe, deita na grama pra curtir o sol e o não fazer nada. E nessa hora comenta: "Já não sou mais jovem pra fazer isso. Não tenho mais 40 anos..."

Se fosse um filme americano, Mamute seria mais uma daquelas comédias que terminam com o personagem aprendendo, superando suas dificuldades, encarando o passado e tendo sua redenção. E é isso aí mesmo.

Mas a história toda é contada de um jeito diferente, surreal, com cenas capazes de deixar qualquer um atordoado. Especialmente a cena do reencontro com o velho primo. (Essa cena é praticamente uma visão do Inferno, mas ao mesmo tempo é muito engraçada).

Mamute é a comédia mais bacana, surreal, poética e estranha que vi esse ano.